domingo, junho 18, 2006

Flectere si nequeo superos, Acheronta Movebo!



Em 1900 essa frase inaugurou, oficialmente, a Psicanálise. Freud deu a luz ao famoso Traumdeutung, a Interpretação dos sonhos e deixou ali um pouco de sua vida, de sua experiência profissional, há até quem diga que deixou seus devaneios.
Pronto, o filho veio ao mundo. Segundo Freud, algo como aquilo não nasceria novamente de suas entranhas. O rebento veio ao mundo e não foi sem espanto que a frase título desse texto foi lida. O conteúdo do livro continua um tanto indigesto para os céticos após mais de um século de sua publicação. Imaginem vocês o que o tal livro não causou no meio científico europeu no começo do século XX.
Cabe dizer que a frase que consta no prólogo de “A interpretação dos sonhos”, “Flectere si nequeo superos, Acheronta Movebo” é da autoria de Vigílio e consta na “Eneida”. Em bom português significa: “Se não posso mover os deuses de cima, moverei o Acheronte”.
O Acheronte do qual fala o médico austríaco é o mesmo rio localizado no inferno descrito por Dante em “A divina Cómedia”. Fico eu aqui pensando... O que Freud quis, realmente, dizer com essa frase no prólogo de uma obra de tamanha significância?
Como qualquer nova idéia, a Psicanálise recebeu pedradas e aplausos. Vamos ser sinceros: mais pedradas do que aplausos. Na época o meio científico alemão, no qual estava inserido Freud não aprovou as idéias do jovem médico. Seu livro foi execrado, criticado. Como assim, o sonho é o guardião do sono? O sonho é a loucura do homem são?
As palavras de Freud ecoavam e causavam cada vez mais espanto e cada vez mais críticas. O fato de que o homem não é o guia de sua própria vida foi um golpe duro demais para a arrogância positivista vigente. Eu entendo porque Freud faz tantas explicações, justificativas ao longo de sua produção teórica. Pode-se pensar que é reflexo das pedradas que recebeu ao lançar suas idéias: O homem praticamente estava no banco dos réus. Isso é refletido em toda sua forma de escrever.
Em “A Interpretação dos sonhos” Freud pretende convencer a medicina, os cientistas de que a Psicanálise é uma nova ciência: O que está proposto é uma quebra de paradigma. Mas...o que pensar do fato de que o homem não governa o que passa dentro de si, o que pensar que podemos, sim, sonhar com as coisas mais bizarras e jamais imaginadas por nós (na vida de vigília e consciente) nem nos mais febris delírios?
Entendo essa frase, utilizada como uma pontinha de sarcarmo do velho Freud. Ora, já que não posso convencer os grandes nomes do Positivismo, as autoridades, como Meynert, que pelo menos exerça alguma influência sobre o inferno. E qual inferno seria este que não o nosso próprio inferno de dentro?
Trancado em nós mesmos, relegado ao porão da nossa existência, coberto de poeira. Lá está o nosso Acheronte. E temos que lidar com ele todos os dias, o que é profundamente desesperador. Mesmo ali, coberto de camadas espessas de poeira, ele grita, esperneia. Lá está e de lá não arreda o pé. Matreiro às vezes, arquiteta novas estratégias sem que possamos sequer imaginar...estamos no andar de cima, e a música está alta.
Nosso inconsciente é barulhento mesmo no silencioso porão em que o trancafiamos. Nosso desejo é jamais ali botar os pés. E foi justamente lá que Freud pôs os dois.
O Acheronte certamente não foi o mesmo depois de Freud. A humanidade, de fato, não é a mesma depois da Psicanálise. Suas idéias sobre a sexualidade humana, sobre os atos falhos, chistes e sobre os sonhos, se na época não foram capazes de mover os “deuses de cima“, no mínimo causaram barulho. O eco ouvimos até hoje.
Por mais que artigos contemporâneos não cessem de sepultar a Psicanálise, ela está aí, está nos consultórios, está nas anorexias, nas bulimias, nos adultérios, nas obsessões, nas esquizofrenias, nas paranóias, nas depressões...está no Acheronte nosso de cada dia.
Talvez a interpretação que fiz da frase não faça sentido para muita gente. Eu considero que, para agüentar aquele bando de gente metido a superior – vamos falar bem rasteiramente agora! – Freud não podia ser um cara tão recluso, tão coitadinho. Se não podia realmente mover os senhores da razão, os detendores do Falo (isso aí já é lacanês, esqueçamos por agora ) , os detentores do logus, um pouquinho de sarcasmo ele devia utilizar...caso não o fizesse, difícil seria fazer-se notar. E parece que ele se tornou até um cara de visibilidade.

6 comentários:

Anônimo disse...

Sua elaboração é interessante, mas Freud se referia ao (sub) mundo que existe sob a mente consciente. Ele não ligava para o establishment. Ele apenas ordenou de forma mais intelegivel o que a mitologia já sabia, e isto Virgilio indica e o que a literatura também, e é o que Dante elaborou.

Camposre disse...

nao era para ser anonimo...

´Mário Cleber disse...

Gostei, achei interessante. Quanto à ironia é bom lembrar u episódio que Peter Gay narra. Para sair da Áustria, invadida pelos nazistas, eles pedem uma declaração de Freud sobre o nazismo. Ele fala: "Uma doutrina que recomendo". Sorte que os brutamontes não percebem ironia.

Anônimo disse...

Parabéns ao autor pela coragem em ser.

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hudson Vieira disse...

Olá, Mírian, ótimo texto! Acredito que mover o Acheronte, mudar o paradigma, não é feito através de um gesto intencional do autor, mas como se Freud fosse impelido contra sua vontade em estabelecer uma nova discursividade fora do campo da medicina. Ele faz isso não para demonstrar a radicalidade de sua descoberta, aliás, ele sempre buscou estabeler a psicanálise como uma ciência da natureza, mas o tipo de discursividade criada não se sustentava mais no campo anterior. Acredito que Freud preferia ter se estabelecido no próprio campo discursivo de sua formação, isso é o que ele deixa escapar em seu sonho da monografia botânica. Fico pensando... Lacan pretendia descer pela segunda vez ao Acheronte quando na década de 60 inicia seu "retorno à Freud"? Ou seja, a disciplina foi deturpada a tão ponto pelos gestores de alma da "psicologia do ego" que foi necessário um gesto de refundação?