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sexta-feira, agosto 19, 2011

"Eu queria ser médico, mas fiz Psicologia"








Desde que surgiu no horizonte do pensamento humano, a Psicologia vem superando obstáculos com a mesma rapidez com que cria as mesmas barreiras que dificultam o real entendimento sobre sua função e especifidades. Ao buscar apoio nas teorias pré-psicológicas de origem filosófica estruturalistas e funcionalistas, a nova ciência apareceu como uma aposta daqueles que buscavam conhecer os processos mentais e, de quebra, elucidar os mistérios do comportamento humano. Em suma: era hora do homem conhecer as motivações que agiam no interior de si mesmo.

A partir disto, o que se viu foi uma proliferação de teorias, hipóteses, um mundo colorido de variáveis idealizadas somente para delícia e desespero de qualquer pesquisador. Vimos passar por nós teorias deterministas, teorias que pretendiam entender o cerne do comportamento - para manipulá-lo e prevê-lo, até o surgimento de uma abordagem que se situa para além da psicologia , uma metapsicologia na qual o comportamento não é sinônimo de personalidade.

Entre comportamentalismos e freudismos há mais coisas do que ousa sonhar nossa vã Psicologia - aqui me aposso de Shakespeare. Assim, para entendermos o lugar que a Psicologia ocupa no discurso contemporâneo é preciso de certos pré-requisitos. Dentre eles, cito:

1- Contexto sócio-histórico: Pois toda ideia nasce em um determinado cenário, revestido de contrasensos e peculiaridades. Skinner não pensou em modelar o comportamento humano sem considerar as exigências sociais as quais se impunham ao homem moderno. Tampouco as ideias de Freud foram alheias ao trajeto Viena-Paris-Alemanha fin de siécle em que se constituiram. Cada povo tem uma história e essa história é dinâmica, transformável a medida que é de autoria do próprio povo , quisera eu ser inédita neste ponto.

2 - Status de ciência: Apesar do que supôs Immanuel Kant, a Psicologia poderia se tornar uma ciência, apesar de não se fazer valer de proposições matemáticas. Contrariando o pessimismo do alemão, a Psicologia deu largos passos diferenciando-se da concepção positivista reinante que lh e pariu para buscar outras searas. Essa é a grande virada psicológica: a ruptura com o paradigma positivista que nos faz entender a velha máxima cartesiana do "Penso, logo existo", como uma piadinha ingênua e sem graça perto do que já descobrimos no mundo Psi.

É interessante que o discurso social seja tão importante para a validação de uma ciência tanto quanto o é o grau de fidedignidade alcançado por um experimento que se pretenda científico. Testamos tudo, mensuramos todas as variáveis possíveis e imagináveis e ainda assim, dependemos inescapavelmente do aval social para respaldar nosso direito de existir. Era assim na época de Freud, era assim na época de Skinner, por que agora seria diferente?

Continuamos lutando por um lugar nesse vistoso campo das Ciências e - pasmem - como diria Figueiredo, ainda sentimos a necessidade de prestar contas a qualquer tribunal epistemológico que se revista com a pompa da Verdade absoluta para sermos autorizados a dizer: Sim, existimos, somos ciência e temos um lugar.

Dentro dessas questões acima citadas, talvez uma das mais interessantes esteja relacionada a este afã que muitos psicólogos têm no que tange ao respaldo ao seu saber. Por que precisamos de tal aval social, epistemológico, positivista para, simplesmente, existirmos? Responder a esta questão é, no mínimo, uma empreitada árdua, sem garantias de sucesso.

Buscamos incessantemente fazer-nos respeitar, não que isto seja errado, equivocada é a forma pela qual exigimos este respeito, quase rasteijando.

Existe uma espécie de complexo de inferioridade que perpassa a alma psicológica de tal maneira que nos faz submeter aos horrores positivistas: queremos usar branco , queremos ser objetivos, queremos, finalmente, existir, por a mais b. É este desejo que nos leva, algumas vezes, a falsificarmos nosso discurso em nome de uma adesão ao determinismo, a lógica médica, retirando da Psicologia o que ela tem de mais especial - sua subjetividade.

Desse modo, pisamos, xingamos qualquer coisa que esteja relacionada a uma subjetividade que nem de longe se explica pela química hormonal. Não somos um feixe de glândulas e neurônios a espera de um comportamento. Somos isso também, não só isso. Compreender a personalidade humana é uma tarefa que não se esgota na compreensão das estruturas mentais - caso assim fosse Titchener e seus companheiros estruturalistas não teriam perdido seus postos.

É preciso - e a história nos confrontou com isto - que vamos além da descoberta dos arquivos mentais, que vamos além para acharmos o que diabos existe dentro dessas tais gavetas e de que forma esse conteúdo altera o modo de ser, de pensar, de sentir de alguém.

Todas essas opiniões não precisariam ser defendidas, mas o faço porque ainda me contorço diante de afirmações anacrônicas que sugerem um retorno a essa necessidade positivista, a essa ânsia de reconhecimento a partir da semelhança com tudo que produziu o engessamento paulatino da subjetividade - o principal objeto de estudo do psicólogo, a meu ver.

Tal como uma criança carente de afeto, ainda buscamos o olhar dos superiores, fazemos uma palhaçada ou outra, uma traquinagem aqui outra ali esperando o sorriso nos lábios daqueles aos quais devemos respeito e consideração, simplesmente pelo fato de que somos menores.

Deveríamos lutar contra tudo isso, contra essa necessidade de se apresentar no banco dos reús desse tribunal da Epistemologia, deveríamos ter coragem de esfregar nossa subjetividade por aí, bem indecentemente, e pagar o preço das conseqüências. O único alento diante de tudo isto é que não podemos generalizar esse complexo. Ainda existem revolucionários românticos que acreditam que não precisamos do branco gélido.

Porém, Enquanto pairar sobre nossas cabeças qualquer espécie de complexo de inferioridade , qualquer desejo de estar à altura do discurso médico-positivista, o psicólogo adorará usar um jaleco branco e se regozijará somente por ser chamado de "Doutor".





















domingo, julho 24, 2011

Por uma nostalgia salvadora











Eu sei que há tempos se critica - e sempre irão criticar - esse tipo rançoso que vive como se vivesse atravessado por um tempo outro, um tempo melhor, em que não se matava, em que não se morria - não pelo que se mata e pelo que se morre hoje, ah, estes eram os meus tempos.


Por todos os campos do conhecimento sempre existirá lugar para o teórico nostálgico - e eu não estou falando de Psicanálise apenas, estou incluindo aí, nesta mesma seara, os sociólogos, os linguistas, os filósofos. Sempre há uma legião de defensores dos dias de outrora. Eu também os defendo. Na cara dura. E direi por que.


O passado parece ser o lugar das realizações, o lugar do conforto. O passado é sempre uma casa mobiliada como nos tempos das avós - cristaleiras, móveis de imbuia, e porta-retratos bem antigos estampando outros tempos. Assim é o passado, uma casa de vó, bem mobiliada, cheirando a pitanga e a genipapo. É a este lugar , situado em algum lugar da história dos homens, que muitos dedicam suas vidas, suas trajetórias.


A contrário do que alguns possam pensar, ao contrário de toda a ladainha modernosa, o passado não é feito de naftalina: é lugar de reflexão por excelência - lugar para repensar o presente e de idealizar o futuro, o qual, nunca, mas nunca será tão colorido como o passado em preto e branco. Bem já disse Janis Joplin ao dizer que trocaria vários dias no futuro por apenas um dia no passado, e, o mais irônico de tudo é que a cantora de voz singular era considerada tão avant gard tão prafrentex em sua época. É. Até os moderninhos têm saudade de um não sei o quê que nem viveram.


Recentemente, o último filme de Woody Allen, "Meia-noite em Paris" revelou o que todos já sabiam, seja através de biografias do cineasta americano, seja por perspicaz observação: Allen é frequentador assíduo das confeitarias do passado, e mesmo na pele do ótimo Owen Wilson, Allen consegue nos deixar entender o porquê da nostalgia ser válida , ou melhor dizendo: porque o passado é alento.


A esta altura alguém poderia perguntar: o que tem isso de novo? Realmente, nada há de novo em nostalgia a não ser a exaltação desta como nunca antes em outros tempos: roupas retrô, brechós, móveis vintage, tudo isto surge como uma novidade da sociedade pós-moderna que cansou - ou não resistiu - aos constantes apelos que bradavam: "inovem!inovem!". O passado, a casa e as receitas da vó - além de seus vestidos e coques - voltaram a ser valorizados e ostentados por cabecinhas tão modernas. Só que a onda nostálgica para aí na área do design, da estética.


Como sabemos, ou podemos suspeitar, não parece nada bonito assumir-se um nostálgico convicto. Retrô é apenas moda pós-moderna, de uma contemporaneidade ímpar, mas não vá sair por aí ostentando o que viveu - ou o que não viveu, mas que gostaria. O idealismo nostálgico - cunho o termo agora - não é bem vindo, está roto, é tão anacrônico como a palavra anacrônico.


Desse modo, aquele teórico que , porventura, deixar sua alma saudosa dos tempos da brilhantina falar mais alto e denunciar que bons mesmo eram os velhos tempos será execrado, chamado de antigo, ultrapassado, intransigente, até mesmo de "defensor de uma visão de futuro apocalíptica". Pois é na carona desses que vou.


Não peço desculpas por continuar ostentando o velho discurso de que sou do tempo em que as pessoas temiam os professores, não pelo autoritarismo destes, mas pela simples existência daquele sentimento misto de afeto e medo que um dia Piaget chamou de respeito. Sou do tempo de agora, mas bem que me agradaria esperar por um antigo Peugeot à meia-noite em Paris.


Por isso não peço desculpas por realmente constatar que o passado, sim, nem precisa ser aquele de Dali ou de Picasso, ali sim é que eram os tempos. Afinal, uma hora teremos que tomar partido, apesar desta sociedade politicamente correta que escorrega em tantas cascas de banana por amor à contemporaneidade.


Assistir a juventude aclamar Charlie Sheen como ídolo não por seu talento como artista, mas por sua vida desregrada, presenciar os supostos fãs de uma celebridade que vivia no terrível mundo das drogas deixarem bebidas álcoolicas em sua porta como uma bizarra homenagem não me deixa animada com os dias que virão e, provavelmente, todos estes fatos que assistimos diariamente me deixam mais saudosas do tempo não vivido, mas por mim internalizado, seja por sorte, seja por neurose.


Diante de tudo isto que vemos por aí é que não devemos nos encolher com medo dos olhos da crítica: a nostalgia é benéfica, talvez seja ela a única coisa que nos faz suportar o mundo. Bradem aos tempos da vóvó, estes sim!




quarta-feira, março 30, 2011

Reflexões para docentes, discentes e para os que duvidam


Docente: Palavra de origem latina que significa "aquele que ensina".


Docente é um substantivo adjetivado que vem sendo empregado a torto e a direito, de frente e pelo avesso por aí. Eis que surge algo fruto da minha reflexão sobre a própria profissão. Aqui vão as minhas reflexões, inquietações, desabafos e a minha definição de docência a qual, sem dúvida, sinto-me capaz de explicar, de ensinar, pois sou aquela que ensina e nada mais natural do que isso para mim.


Aquele que ensina recebe o título de docente. Quanto mais o docente estuda, mais o seu substantivo ganha companhias: é mestre, é doutor, é pós-doutor, mas nunca deixa de ser docente, caso ainda insista na difícil arte de ensinar. Arte sim, porque nem tudo é cognição nesta vida de meu Deus.


Segundo nos ensina Freud, existem três profissões impossíveis: governar, psicanalisar e ensinar. Eu, por ora, fico no ensinar. Talvez eu venha, em outro momento, a falar das outras duas, mas, agora falo do ensinar. Não foi à toa que Freud começou a nos advertir sobre a impossibilidade da docência.


Endosso a opinião do pai da psicanálise porque , como não sou nem governante nem psicanalista, cabe-me apenas a terceira, fico então na minha seara, buscando meios de falar do impossível. Vejamos os argumentos para enfatizar tamanha impossibilidade.


1. Acredito que a impossibilidade reside num simples fato: Analogamente àquele que casa, o docente quer casa, e, não se engane ingênuo leitor, (voltei ao meu lado machadiano mais oculto, agora fui descarada) a casa do docente é a Academia. É lá que investe todos os recursos os quais amealhou durante a vida, esse duro processo do amadurecimento, e de lá pretende nunca sair. O docente sabe-se docente desde o primeiro dia em que pisa na Academia; fascina-se pelas aulas, pelo quadro negro, pela eloquência ou pela falta dela nos professores, os primeiros agentes do fascínio, modelos para aquele que , mesmo verde, sabe: Serei docente.

De lá para cá o que se vê é um sujeito que entende que a biblioteca é uma ilha - e disso ele sabe porque já deve ter lido Saramago , um acervo sem fim (mesmo aquelas mais limitadas) de conhecimento e cultura. O docente ainda engatinha com a docência latente em seu espírito. Gosta de ler, passa horas na companhia dos livros e muitas vezes recorre a eles por gosto e não obrigação. De poucas coisas tem certeza, costuma duvidar das falas dos professores, duvida de Foucault, de Freud, de Piaget, duvida de Hegel, duvida de Sócrates e - valha-me Deus - duvida até de Descartes.


O pequenino docente não duvida de apenas uma coisa: ele não duvida da gestação lenta daquele embriãozinho da docência. Quer ensinar, quer saber, saber muito, saber além e depois disso tudo, entender que o que vale mesmo é o que não se sabe. Ele sabe que quer ser docente, quer ser é professor, apesar de todos os comentários que invariavelmente neste processo de gestação irá ouvir.


O docente sai da Academia para nunca sair dela, pois um lugar aspira em meio a tanto conhecimento. Busca incessantemente tudo saber: especializa-se, torna-se mestre, termina um doutorado tudo para nunca deixar a Academia e poder, um dia, ser um daqueles que fizeram tudo isso acontecer. Quer ser professor, e , além do simples querer, desejou e fez por onde: Habilita-se para tal.


O problema está prestes a aparecer no horizonte daquele esperançoso docente. Aquele recém chegado à Academia da qual nunca saiu e que deve ocupar , agora, uma outra posição: É professor. Fato. Tudo poderia ser explicado assim , porém, sabe-se que nem sempre os dias que seguem uns aos outros costumam se imitar; são sempre diferentes, uns mais coloridos, outros nevoentos, uns quentes, outros gélidos. Não se espante se aquilo que pareceu um céu de brigadeiro tornar-se, em seguida, uma noite escura, refletida num céu de mistérios sem nenhuma estrelinha para animá-lo. Surge a maturidade no ingênuo docente, e com ela os problemas da casa. Ou foram os problemas da casa que trouxeram a maturidade de presente para o docente?


É que docente que é docente ama a Academia e, para a infelicidade de muitos, esta Academia da qual falamos facilmente é confundida com outra academia, aquele lugar de exercitar os músculos, músculos que talvez nem soubéssemos que possuíamos, devido ao total desuso destes. Academia vira assim a outra academia e os docentes passam a se portar como se narcisistas fossem, uns ostentando mais do que outros os músculos torneados, a beleza dos cérebros e egos inflados.


Nessa confusão entre academia e Academia, entre músculos e cérebro, entre exibir-se e ensinar perde-se o objetivo da docência em si. Perde-se o porquê, perde-se a razão de ter buscado com afinco usar o tal substantivo adjetivado. É que tem docente que se acostuma tanto em adjetivar-se que esquece do essencial, esquece o substantivo ali, largado na esquina, pedindo um trocado.


Perde-se tempo e inocência com egos e cérebros inflados. Perde-se o sentido da docência, perde-se a decência da docência que deveria ser o norte da profissão. Eis que surgem os docentes indecentes, os que, nesta academia são os mais fortes, os mais esbeltos e torneados. O objetivo do "ser aquele que ensina" se perde em discussões teóricas que têm a profundidade de uma colher de chá, em alusões desrespeitosas ao trabalho do outro, perde-se, enfim, na luta de egos bombados o desejo mobilizador de tudo isso, a alegria de descobrir algo e de continuar s espantando com isto, perde-se o desejo de aprender e ao mesmo tempo ensinar.


Apesar de tanto ter falado do problema em questão, não mencionei o maior deles: Toda essa confusão entre livros e halteres entre egos e sabedoria deixa rastros, e quem perde é o lado mais fraco de tudo isso: os discentes, aqueles outros que personificam esse outro substantivo adjetivado que deveria ser o objetivo daquele que ensina. Na luta de egos e halteres o mais ferido é o discente, aquele que guarda consigo o maior dos tesouros: o desejo de aprender.


Não sei aonde poderíamos chegar falando das feridas que respingam dessa luta de egos , mas sei o que cada um deveria fazer. Ao docente, lutar, sempre, mesmo que pareça clichê, lutar pela disciplina, pela ordem, por todas essas coisas chatas que hoje em dia muita gente despreza.

Lutar pelos alunos, lutar pela função crítica, lutar contra a preguiça e não se preocupe em saber responder todas as perguntas porque você jamais terá todas as respostas. Lutar para ficar na memória daqueles que um dia lembrarão do que aprenderam e certamente não estou falando apenas de teorias e métodos. Lutar todos os dias para se empolgar e se deixar fascinar todos os dias, todas as vezes em que você começar uma aula, porque naquilo você acredita. Duvide dos livros e deles faça nascer a sua crítica, a sua interpretação. Brigue com os livros, mas saiba também afagá-los porque você os tirou daquela mesma ilha perdida e maravilhosa e ele lhe deu tesouros os quais você jamais esperava encontrar.

Lute pelo ensino, pelos livros, pelas boas salas de aula, pelo quadro branco, por melhores salários, por respeito, por Freud, por Skinner, por Marx, por Hegel, por qualquer um em que acredite, mas essa luta só deve ser travada se o docente de fato acreditar em algo. Se a resposta for positiva, que vista a melhor indumentária e faça uso dos melhores escudos, pois há que se preparar para a batalha de egos.


Se a resposta depois disso tudo for negativa, desista, desista da disciplina da ordem, da lista de frequencia, desista do quadro branco porque , uma vez desistindo de tudo isso o docente desiludido estará provando para si mesmo que não acredita nem em Freud, nem em Skinner, nem em Marx, nem em Hegel e com isso, prova-se o pior: não acredita nem em si mesmo.


Ao discente cabe uma tarefa talvez mais fácil: duvide sempre. Da teoria, da prática, da técnica, dos egos. Duvide.


Quanto a mim? A resposta que eu dei a mim mesma foi positiva. Vou continuar lutando, defendendo tudo aquilo em que acredito, e isso provavelmente vai manter acesa uma pequenina chama de ingenuidade que fará de mim sempre, a esperançosa docente.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

A dor é minha só (?)


Recentemente estive me informando sobre um caso que trouxe a questão à tona: O que fazer com a dor?


Obviamente, se isto se faz questão é porque não estamos falando de dores facilmente localizáveis; estamos falando de dores as quais estão longe de terem explicações que passam por medicamentos e/ou tratamentos com pomadas.


Estamos aqui falando da dor proveniente da angústia de viver. Um dia Oscar Wilde já disse que poucos de fato vivem, sendo hábito da grande maioria apenas existir. Na minha trajetória no campo psi - como professora e como profissional, percebo que a dor de existir sem viver é o que mais tem levado as pessoas a consultórios psicológicos, os felizardos.


Se a maioria de nós apenas existe, os dados comprovam que não estamos sabendo lidar com nossa própria existência: a dor e a angústia de existir: quando já não há chama de desejo que nos faça vislumbrar uma vida para além da reles existência, ou mesmo quando há tantas chamas de desejo que já não há outra alternativa que não o incêndio. Aí está a dor.


Em eras de twiter e facebook, a dor , além de ser anunciada , vende revista e dá Ibope. Recentemente prestei atenção a um depoimento de uma dessas celebridades instantâneas sobre o suicídio de alguém próximo: Poucas horas separaram o evento trágico do suicídio e a divulgação deste na rede social Twiter.


O que se seguiu ao anúncio foram demonstrações de todos os tipos que tinham mais ou menos o mesmo objetivo: acalentar a alma da tal celebridade que anunciava em seu microblog o suicídio do noivo. Uma legião de fãs apareceu para prestar condolências e desejar força a tal beldade.


Pergunto-me sobre esta dor, esta dor divulgada, anunciada, até mesmo alardeada - cerca de 5 depois do evento, a celebridade se diz "melhorando a cada dia", superando o luto de alguém que decidira pôr fim a sua existência justamente por causa de tanto desejo, ou falta dele, ou simplesmente, por não conseguir mais suportar o passar dos dias.


Em seu "Livro da dor e do amor" , o psicanalista Juan-David Nasio poderia fazer uma bela análise da dor. Indico fortemente a leitura do mesmo. Porém, é preciso que tantas outras questões surjam desta que se tornou a principal neste post: O que fazer com a dor?


Há quem a divulgue e anuncie, posteriormente a venda - vide o caso da citada celebridade. Há quem procure um amparo, alguém para escutar essa dor. Há quem não faça nada e simplesmente vá desistindo, lenta e gradualmente da própria existência por não suportar viver sem viver.


Há quem escreva, há quem trabalhe, há quem chore. Gostaria que as pessoas realmente soubessem o que fazer com a própria dor. No fim isso sempre ajuda.

terça-feira, janeiro 04, 2011

São demais os perigos desta vida...


São demais os perigos desta vida... foi a lição que Vinícius de Moraes nos ensinou. A vida, esta efêmera, é uma das armadilhas que mais buscamos entender...Para uns ela vem suave, tal como uma brisa e do mesmo modo que vem, vai. Para outros, apegados que são à própria materialidade, acabam por consumi-la, nos últimos goles que ingerem, insensata e paradoxalmente , esperando a morte chegar.


A imprevisível não escolhe hora, nem lugar, não escolhe nem mesmo a quem pegar. Pega o que estiver à mão. Portanto, esqueçamos a teoria de que Deus precisa de nós lá no céu - uma vez que não sabemos muito bem porque Deus precisaria de nós, logo de nós, que importante trabalho seria este para o qual estaríamos invariavelmente convocados...e porque nós?


A maldosa chega, invade os lares e destrói os planos. E assim, quando ela nos toca, seja por qual maneira for, sempre nos relembramos da nossa própria finitude. Rabbit Hole, novo filme em que atuam Nicole Kidman e Aaron Eckhart, nos deixa claro que nunca sabemos lidar com a indesejada das gentes, com a morte, com o que quer que seja isso que nos leva alguém e nos enfia, goela à baixo, uma coisa chamada saudade. O filme é sobre luto, sobre como uma família lida com a morte de alguém, como cada pessoa se levanta depois da queda. Pela relevância da temática, pela atuação dos protagonistas, o filme vale a pena e nos relembra, sempre, que ela virá.


Certamente este não seria o post que eu imaginava inaugurando o ano, mas aconteceu. Aconteceu porque a indesejada já havia chegado , na verdade, desde novembro. E assim tive contato com ela, através de sua magnitude, dela não pude me livrar. Ela me deixou sem dormir, me deixou sem saber o que sentir, e em troca, deu-me várias horas intermináveis de insônia, repletas de "porques", de "comos".


Inadvertidamente ela continua seu trabalho. Levando as gentes, lavando as almas e contribuindo para o controle demográfico da população. A vantagem que temos, e única diante dela é que nunca a esperamos...ela vem de repente, sorrateira, nos leva algo de dentro de nós, mas, para nossa sorte, sempre podemos encontrar novos tesouros para preencher as nossas almas esburacadas.


Por que é assim? Porque sempre o foi e sempre será, mas tão inevitavel como a morte é a vida, ela nunca cessa de aparecer e é nisto que podemos pensar. A vida, esta inevitável, é o único antídoto de que dispomos diante da morte, esta insensível. Portanto, vivamos, porque, graças a Deus ou a qualquer outra coisa que o valha, não somos avisados sobre a visita da outra. Vivamos.

segunda-feira, novembro 22, 2010

O estranho caso das toupeiras: identificação ou ignorância?



Machado de Assis já a definiu como um certo movimento de canto da boca, utilizado por algum cínico. Em geral, nós utilizamos a ironia como uma forma quase bem humorada para demonstrarmos nossas reais opiniões diante de um determinado objeto/pessoa/evento. A ironia, por si só, revela um sujeito que lança mão de linguagem oposta ao que realmente gostaria de dizer. Exemplo: "Mas está tão boa esta peça de teatro!". Ao analisar esta simples frase, podemos observar que a frase, por seu tom, exageradamente positivo quando pronunciada, revela, na verdade, a oposição com a experiência de fato vivenciada, a qual seria : "Não estou suportanto esta peça de teatro".


Muitas vezes não estamos atentos a ela, mas ironia está nas esquinas, nas margens, à espera de alguém que tenha coragem o suficiente para utilizá-la. A ironia, se uma pessoa fosse, seria elegante, porém de uma elegância nada óbvia, seria bela, mas não daquelas belezas plastificadas à moda Hollywoodiana, mas uma beleza reservada, bela, quase feia, mas, que ao de perto, poderíamos constatar todo seu esplendor.


Muitas vezes, neste mesmo blog, procuro me utilizar deste recurso estilístico para enfatizar opiniões que tenho a respeito de um determinado evento/objeto/pessoa. Como a Psicanálise bem nos explica, há desejos que não nos convém realizar, o mesmo podemos dizer de ações. Há ações que, se realizadas, provocariam consequencias desagradáveis.


Foi para criticar, sublimar uma situação difícil que escrevi "A perversão e o reino das toupeiras". Um texto inocente, banhado pela saliva da ironia, esta que, marginal que é, logo viu em mim um palco para se exibir. Poderia eu dizer que a ironia me escolheu e foi assim que pensei em sujeitos rasteiros que têm entre seus passatempos se utilizar do mérito alheio visando objetivos individuais. Em suma, as toupeiras , mesmo não enxergando muito bem, não deixam de se aproveitar das qualidades alheias.


O interessante é que, estava falando de pessoas em especial nas quais noto estas características tão "touperísticas"e que, ao fazer uso da ironia, não me é necessário aqui citar nomes, idades, profissões e ameaças, agressões verbais. O que me interessou foi usar , de fato, a ironia, para falar de algo em que acredito. Em poucas palavras: não preciso agredir ninguém, magoar ninguém, somente usar ironia e ter criatividade para imaginar um animal, por suas características particulares, semelhante a este tipo de pessoa a qual, de fato, eu gostaria de me referir. Simples assim, todos nós podemos fazer isso, e fazemos, vez por outra.

Engraçado foi que , neste mês de novembro, recebi dois comentários inesperados a respeito desse texto. Um deles , vindo provavelmente de uma toupeira, disse identificar-se. Em suas próprias palavras:"interessante , de repente me identifiquei": Toupeiras do mundo todo, uni-vos, foi isso que imaginei. Certamente meu texto atingiu esta pessoa em cheio e fê-la ver que, de fato, age e se comporta como uma toupeira, tal como a descrevi. A esta desejo que o texto sirva como aprendizado, que deixe de ser toupeira, uma vez reconhecendo-se nesta, mas, acho difícil, neste caso.


O outro comentário sobre o texto das toupeiras, recebi hoje. Alguém certamente também tocado pelo nobre caráter da toupeira aqui relacionado, resolveu romper com o silêncio, escrevendo-me palavras de baixo calão, advertendo-me, inclusive sobre o absurdo de minhas palavras diante de um mundo tão devastado, diante de tantos apelos que recebemos diariramente sobre atitudes ecologicamente corretas.


Esta pessoa considero, sem meias palavras ou uso da ironia, um imbecil ecologicamente correto. É isto. A pessoa, além de não entender o uso da ironia presente no texto, ainda me criticou, ferrenhamente, sobre o absurdo em dizer que as toupeiras deveriam estar apenas em livros de fotos, como animais extintos.


Certamente, o(a) imbecil ecologicamente correto acolhe animaizinhos em situação de risco, adota papagaios mancos e toupeiras manetas. Deve ser daqueles que usa ecobags mas não sabem a diferenciação entre ficção e realidade, e melhor, entre ironia e seriedade. Não percebe que tão ecologicamente correto como acolher animaizinhos e cuidar do planeta, é tratar o próximo com hombridade e respeito.
A esta toupeira ecologicamente correta, meus pêsames, não posso receitar e se pudesse, não haveria remédio algum, senão educação, para lhe indicar diante de tanta demonstração de ignorância. Aconselho, se conselho algum couber, que releia o texto e tente, ao menos tente, observar a ironia nas entrelinhas, e nas linhas mesmo, porque nunca a disfarcei.


Mas, caso nada disso seja o suficiente. Digo: Não, não desejo a morte, a extinção, o extermínio, o sacrifício destes animaizinhos tão meigos e doces como as toupeiras, não, o que desejo é a extinção da outra toupeira, da toupeira-sacana, que se alimenta do sangue e do suor dos outros. Identifica-se também?


Chego à conclusão que o blog não é tão inabitado assim, e se, alguém se doeu com o extermínio das toupeiras-sacanas, ou é ignorante ou faz parte deste grupo de seres humanos que insiste em utilizar atitudes-toupeiras diante das pessoas. Ignorância ou identificação? Descubra você, a mim , diante disto, só tive mais oportunidade de zombar e de usar a boa e velha ironia para falar dos comentários recebidos, não farei isso sempre, porque seria perder tempo, tempo o qual nem sempre tenho para isso, mas valeu por ter rendido mais uma oportunidade para ser irônica.


A estes, meus sinceros e devotados agradecimentos.

domingo, junho 20, 2010

A perversão e o reino das toupeiras



A toupeira, é um bichinho tão bonitinho, singelo e gracioso. Ali, naquele cantinho dele, pode ser tão feliz, tão acomodado. Este bicho que pouco enxerga mas muito ouve, que busca incessantemente por comida parece inofensivo...ledo engano, são bastante vivos e podem ameaçar mesmo os bichos maiores. Vejamos algumas informações sobre esse bicho de duas caras:


A toupeira vive debaixo da terra, nos campos e nos jardins.Está sempre com fome e por isso consegue cavar grandes túneis à procura de comida.

Comem qualquer bicho que lhes apareça pela frente: vermes, larvas, minhocas, e às vezes até outras toupeiras. Para cavar a terra, a toupeira usa as patas da frente, que são muito fortes, uma espécie de pá.


À medida que vai avançando, a toupeira escava a terra e empurra-a para trás. A toupeira não vê quase nada, os seus olhos são do tamanho da cabeça de um alfinete! Mas em compensação ouve e cheira tudo muito bem a sua volta!



Como se percebe, a toupeira é um bichinho quase cego, sempre faminto mas que na verdade ouve e cheira tudo a sua volta. A toupeira é sacaninha, como a gente pode perceber, porque no interesse e estando com fome, não importa qual seja o alimento, estraçalha e come até as outras toupeiras com a única intenção de matar quem lhe estava matando.


A toupeira vive debaixo da terra, não deve ter acesso nenhum À luz e tem uma enorme vontade de sugar, de comer do outro aquilo que de interesse for. Não são as toupeiras graciosas réplicas de muitos seres humanos que conhecemos?


Ora, olhos do tamanho de cabeças de alfinete certamente não enxergam longe, e, sinceramente, viver embaixo da terra não parece coisa boa para ninguém. Mas as toupeiras, elas gostam, elas são sujas e vivem enfiadas em buracos, tendo nessas pequenas "pás" que são seus dedos, importantes aliados no ofício de descobrir novos alimentos, novos seres para deles se alimentar.


Quanto mais leio sobre a toupeira, mais me lembro de muitos seres humanos que mal enxergam um palmo diante do nariz - ou focinho - e que acabam por ter no olfato e nos dedos a maior vantagem: sabem farejar e se aproveitar do que vêem pela frente, e olhe que não vêem tanto, mas, uma vez enxergando, por que não?


Que me perdoem os ambientalistas, que me perdoem os telespectadores do Discovery Channel, mas que animalzinho sacana essa toupeira, espero tranquilamente o dia em que se comam até serem apenas fotos em livros sobre animais em extinção.

domingo, fevereiro 07, 2010

A Esquisita Esquisitologia de Wiseman



O que faz uma pessoa reconhecer um sorriso verdadeiro? Pessoas que sorriem mais vivem mais? Qual é a piada mais engraçada do mundo? Nascer em janeiro faz de alguém mais sortudo do que quem nasce em Julho? De que maneira poderemos distinguir quem fala a verdade de quem mente?



Estas são algumas das perguntas esquisitas as quais assombram e fazem parte da vida do cientista inglês Richard Wiseman, autor do best seller O fator Sorte (2003) e , mais recentemente, do interessantíssimo Esquisitologia: A Estranha psicologia da vida cotidiana (Editora Best Seller, 2008). Em Esquisitologia, Wiseman nos mostra tudo aquilo que achamos que não é ciência de maneira científica. Cercando-se de questões que assombram grande parte de pessoas que podem ser chamadas de "curiosas" , o autor inglês nos ensina que a Psicologia também pode tratar de pequeninas temáticas cotidianas.


Sim, a Psicologia não é apenas complexidade. Ao contrário, Wiseman revela ao curioso e atento leitor que a Psicologia nasce mesmo são das questões miúdas, das aparentemente inocentes questões que nos perseguem desde a infância e , com o passar do tempo, acabamos negligenciado, achando que nada disso terá importância em nossas vidas adultas, atribuladas...e complexas.


O livro de Wiseman conta com seis capítulos em que o autor nos fala sobre mentira e verdade, piadas, nomes e horóscopo, fator sorte , mensagens subliminares, altura de candidatos à presidência, longevidade, música e consumo, etc. Diante destas temáticas, um leitor menos atento poderia pensar que o livro pende mais para o humor do que mesmo para o cientificismo, aquele, de Comte, companheiro velho de guerra. Nada de Wiseman combinaria com Positivismo.


Pelo contrário: Richard Wiseman nos prova por A + B, munido da mais pura Psicologia Experimental ( os termos "Wundt", "Cão de Pavlov" e "caixa de Skinner" te fazem lembrar de algo?) que, sim, dá para saber qual cantada atrairá mais mulheres do que homens, que anúncios de jornal atrairão mais pretendentes e que tipo de abordagem fará um garçom de restaurante receber gorjeta maior. Richard cita em seu livro Freud, Sócrates, Aristóteles, Galton , uma série de renomados homens que tiveram seus nomes vinculados à Ciência, e, para além de citá-los , põe em prova os conhecimentos sobre tantas das temáticas estudadas com afinco por estes nobres pensadores.


Como se pode notar, Esquisitologia ( derivada do termo inglês "quirkology") não se apresenta como uma "nova corrente" psicológica, tampouco Wiseman pleiteia sobre a hegemonia dos "esquisitologistas" em matéria de Ciência. O livro, a despeito do que muitos podem pensar , está repleto de referências a outros pesquisadores que costumavam e costumam levar a sério certos temas que a maioria de nós consideraria "menores" ou "sem relevância para o desenvolvimento do conhecimento científico" - academicamente falando.

Um exemplo disto é o experimento de Jastrow, famoso psicólogo americano que nutria grande interesse pelo ilusionismo e por experiências oscuras e assustadoras. Para se ter uma idéia sobre Jastrow, no fim do século XIX, o famoso médico dedicou muitas experiências ao entendimento do que acontecia por trás do tabuleiro Ouija ( nos Estados Unidos , o tabuleiro Ouija é uma espécie de "jogo" utilizado por pessoas que desejam manter contato com entes queridos que se foram; é algo muito utilizado em sessões espíritas até hoje neste país).


Jastrow demonstrou em suas experiências com mágicos que muito do Iluminismo não tem a ver com a velocidade empreendida pelo mágico em manipular os objetos, mas sim de persuasão e percepção da platéia.


Wiseman considera-se um fã de Jastrow, definindo-se, também, como um grande entusiasta do ilusionismo, espectador constante das comédias do grupo inglês Monte Python, e, além de tudo, um cientista muito bem humorado. De acordo com Michel Shermer, da Scientific American, Wiseman pode ser considerado como o mais interessante e inovador psicólogo do mundo atual.


Você agora pode se perguntar: Por que deste alvoroço? Tudo é muito simples. Wiseman não precisa rechaçar e denegrir Freud ( Lembram do Livro negro da Psicanálise? se não , aconselho outro título: "Em defesa da Psicanálise, de Roudinesco, lá quem quiser pode saber mais sobre isto), tampouco negligenciar a influência do pensamento dos mais aclamados nomes da Ciência Moderna, ao contrário: mantem viva o experimentalismo inaugurado por Wudnt, alia-se aos estudiosos das chamadas Neurociências e , além disto, não nega a importância das descobertas freudianas, desconsiderando os ditos "fatores inconscientes".


Em Esquisitologia parece que estamos, de novo, voltando para os temas que sempre nos interessaram e que, aos poucos, fomos deixando de lado, não por declínio do interesse, mas por subestimação mesmo, onde já se viu estudar piada ser Ciência?


Olhemos lá...não esqueçamos de Freud e de sua clássica " um charuto é apenas um charuto". Pensando direitinho, Wiseman não é pioneiro, mas não podemos dizer que ele é menos interessante e inovador por isto.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

As obscuras semelhanças entre as duas academias


Muitos desejam estare lá, pegam pesado lá dentro e, uma vez acostumados, dizem não largá-la mais. Esforçam-se, pagam com o suor do rosto e de todos os músculos do corpo juntos o preço por uma vida mais saudável, mais equilibrada.


É possível conviver com todo o tipo de gente por lá: pessoas que desejam roubar seu lugar - descaradamente - pessoas narcisistas para quem o espelho é mais do que um amigo, é um amigo confidente , pessoas deprimidas em cujas vidas nada ou quase nada há para se comemorar, por isso, é necessário que você saiba muito bem aonde está entrando, que conheça o solo sobre o qual seus pés estão firmados. Estou falando do que tenho aprendido na academia.


Talvez alguém tenha pensado que falava de outro assunto, talvez algo mais filosófico, algo até que prometesse reflexões, elocubrações das mais variadas espécies. No entanto, cabe lembrar que "academia" é o mesmo nome que se dá a duas experiências não tão distintas na vida de um ser humano como eu.


Academia = Corresponde a tudo relacionado ao ambiente acadêmico. Compreende-se que a Academia seja o celeiro de novos pesquisadores, formado por discentes e docentes os quais, envolvidos em verdadeiras e cruéis relações de amor e ódio, desenvolverão o que se convencionou chamar "experiência de aprendizagem"


Academia = Lugar essencialmente voltado para o culto ao corpo. Também pode ser denominado de "academia de ginástica", " ginástica" ou mesmo "lugar de treino". Geralmente sua imagem está associada à pessoas cujas vidas pendem para atitudes de cuidado extremo com saúde e beleza física.



Apesar destas diferenças óbvias que encontraremos nos dicionários mas que eu fiz questão de definir sem ajuda de Aurélio algum, elenquei algumas das características que, ao contrário do que possa parecer inicialmente, nos faz perceber as semelhanças entre estes dois espaços tão distintos - aparentemente.


Desde o primeiro dia do ano de 2010 tenho, com afinco, me agarrado à ideais um tanto quanto novos para mim: vida saudável e equilibrada. Com este intuito, aderi ao grupo daqueles simpáticos e não tão simpáticos frequentadores de academias de ginástica, buscando, lógico, fazer parte do grupo, uma vez que na outra academia já tenho carteirinha há mais de um ano. Vejamos:


1- Na academia de ginástica você chega como um zé ninguém; acima do peso, flácido e achando que tudo que você sabe não é nada perto daquelas pessoas tão poderosas.


2- No ambiente acadêmico - Universidade/Faculdade/Demais Instituições de ensino você chega como um zé ninguém; acima do peso ( vale lembrar que ganhou muitas calorias na base dos fichamentos e das eternas resenhas críticas feitas para obter um grau de mestre e doutor), flácido e achando que tudo que você sabe não é nada perto daquelas pessoas tão poderosas e mais "escoladas" que você.


3- Na academia de ginástica as pessoas parecem felizes e como que animadas por pilhas alcalinas de alta potência. Parecem indestrutíveis com todos aqueles músculos definidos que você, reles novato, nem sabia que existiam no corpo humano.


4- No ambiente aonde "rolam as experiências de aprendizagem e o conhecimento impera" as pessoas parecem felizes - porém nem sempre o são. Parecem indestrutíveis até a primeira fofoca, a primeira reunião de departamento e a primeira eleição docente. Nestas ocasiões de tomada de decisão e de mudança de coordenação de curso vale tudo, tal como numa luta: todos os músculos podem ser utilizados para se mandar alguém tomar em lugares que você nem sabia que existia no corpo humano.



5- Na academia de ginástica é comum se observar pessoas admiradas com o próprio reflexo no espelho. Narcisos acham feio o que não é espelho. Malham a si, aos outros e , no entanto, podem , ao fim do dia, olharem-se no espelho enquanto contraem todos os músculos que você nem sabia que existia: "Não há ninguém mais belo do que eu"



6 - Na academia/Universidade é comum se observar pessoas admiradas com o próprio reflexo no espelho. Malham a si, aos outros, e no, entanto, podem, ao fim do dia, olharem-se no espelho e diante de sua própria imagem dizer: "Não há ninguém mais inteligente do que eu".


Interessante que, apesar de tantas semelhanças em ambientes culturamente tão dissociados, pode-se perceber uma relação quase que de exclusão: O tipo "marombeiro" geralmente é considerado aquele que, na falta de exercício em outras áreas do corpo , como o cérebro, contentam-se em trabalhar os músculos que você nem sabia que existia no corpo humano.


Já o "nerd", é notadamente alguém reconhecido pela inteligência e afinco aos estudos. É aquele sujeito que faz de tudo para prolongar sua estada na Academia: Gradua-se, pós-gradua-se, torna-se mestre, doutor, pós doutor e , com isso, deixa , muitas vezes de conhecer muitos músculos que o sujeito da primeira academia cansa de contrair e descontrair.



A vida é assim, nem tudo que parece oposto o é de fato, assim como nem todo marombeiro é burro, nem todo nerd é inteligente. Assim é o caminho da vida, tantas horas de estudo e de atividades extra-curriculares não valem muito no currículo lattes da vida real, assim como nem todos que estão querendo uma vida mais saudável virarão marombeiros da noite para o dia e passarão a conhecer músculos nunca dantes trabalhados.


A vida é assim, num dia você acorda e pensa: é preciso entrar na academia.

sábado, janeiro 24, 2009

Esse tal sujeito do inconsciente




Vamos parar com isso de estudar o sujeito do inconsciente. Partamos do pressuposto de que se esse tal sujeito existe, ele é inconsciente justamente porque não deseja mostrar a cara. Ele vive lá, no canto dele, no porãozinho ao qual o destinamos ao preferirmos todos os dias sair com o sujeito do consciente, este que nos faz companhia durante o dia, que vai às compras conosco, que escolhe as laranjas boas e os tomates maduros na feira.
O sujeito do inconsciente parece ser um cara muito reservado mesmo, ensimesmado, trancado numa coisa como um porão repleto de poeira e habitado por aracnídeos. Ora, o que se esperaria de um sujeito que vive em tão nefasto ambiente?
Quando se estuda Psicanálise, invariavelmente vamos, um dia, nos deparar com o sujeito do inconsciente. Particularmente eu confesso que tive medo quando da primeira vez ouvi falar em tal indíviduo. Ah, indivíduo não, indivíduo é coisa de ciências sociais ou alguma outra disciplina politicamente engajada. Como eu sou da psicanálise, o negócio é que o sujeito se aproximou de mim, cheio de dúvidas, confuso que só ele, e, como se não bastasse o pequeno espaço que costuma alugar em nossa mente, ainda é feito de falta, gosta mesmo é de um dilema e não existe situação em que consiga ter o mínimo de bom senso.
Então agora eu lhes pergunto, por que diabos adentrar na residência de um sujeito como esse,que se gostasse mesmo de holofotes seria consciente, que se gostasse de ar puro não viveria num porão e que se quisesse ser decifrado não precisaria de análise? Eu hein, sujeitinho mais complicado, como se nao bastasse a morada, ainda é apaixonado pela mãe e banhado por culpa, passa a vida a se lamentar pelo que não é , desejando o que não pode ser e nem ter.
Portanto esqueçam isso se ainda há tempo, vão estudar as emoções, os fenômenos sócio-culturais, a exclusão social, a resiliência, as políticas públicas ou qualquer outro objeto. Esqueçam que existe Freud, não passem pela mão de Lacan e nunca, mas nunca mesmo, ousem adentrar em terrenos os quais não se conhece, isso implicaria , sem sombra de dúvidas, em se deparar com o famoso e temido sujeito do inconsciente. Que medo!
Se você dedica seus estudos a essa coisa de conhecer os caminhos tortuosos da mente, ainda há tempo de você fazer algo de mais proveitoso com seu diploma. Pegue-se a algo de aplicação mais prática e que não lhe faça parecer alienado diante de pessoas comprometidas com a competência que todo psicólogo deve ter dentro de si que é tornar seu conhecimento útil para a comunidade e a população.
Eu estou mesmo com a opinião, depois de longos anos estudando a finco esse tal de sujeito, de que devemos é nos preocupar com o que está na nossa frente, com o social , com o politicamente engajado, com os movimentos estudantis, com a promoção da saúde do “indivíduo” e o conseqüente bem-estar. Então parem, de uma vez por todas de procurar chifre em cabeça de cavalo porque esse tal sujeito do inconsciente nem por Freud se deixou visitar, seria pretensão demais acreditar que um dia chegaríamos a entendê-lo.
Partamos para o social, caiamos nos braços do povo e , conscientemente, ajamos como agentes de transformação, vamos mudar o mundo e esquecer que em algum lugar habita um ser casmurro chamado sujeito do inconsciente.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Por que não arruma um emprego de verdade?

Quero fazer desse lugar uma apologia à pesquisa, seja ela qual for, seja você um estudioso em algas marinhas ou em glândulas cebáceas, o que é importante que você, pensador solitário, errante no caminho das metodologias da vida, consegue abstrair seu pensamento para ir além.
Falo com esse entusiasmo porque admiro aqueles que se dedicam pacientemente a estudar uma verminose ou a conhecer todos os efeitos produzidos pela mordida de uma jararaca, sabendo seus mais curiosos hábitos e o porque de tal mordida ter tal sintoma ou outro.
Quando se fala em pesquisa no Brasil muita gente torce o nariz, outras aplaudem, mas, na verdade, o que se sabe é que aquele que pensa é porcamente recompensado pelos préstimos que oferece à nação. Não quero dizer com isso que seja o trabalho mais importante do mundo, imprescindível, mas o único que permite a circulação e a produão do conhecimento.
Caso não o fosse, não se teria chegado ao coquetel de drogas oferecido aos portadores do HIV, não se ouviria falar do projeto Genoma, tampouco se saberia aonde se localiza o hipotálamo e o que acontece quando este sofre uma lesão.
Tudo bem, vá lá, vendo a situação por esse ângulo nota-se que há uma certa valorização pelo conhecimento adquirido através da atividade da pesquisa, mas, e os outros tipos de pesquisa, as não tão palpáveis, aquelas mesmas que são consideradas por muitos como “perda de tempo” ou “falta do que fazer”?
Sim, me sinto uma dessas. Apesar de saber que o que estudo é de suma importância para a compreensão dos relacionamentos entre homens e mulheres, para se entender a lógica feminina e o porquê de tantos embates e tantas polêmicas, sobretudo para se concluir que o mundo, de fato, hoje, é feminino.
Importância. Palavrinha escorregadia. Importância para quem? Como qualquer pesquisadora, eu poderia dizer que é de suma importância para mim, uma vez que já dedico 4 dos meus últimos anos debruçada sobre a temática e que, portanto, é impossível que não seja o mínimo instigadora para mim.
Claro, para mim é, pra você pode não ser, mas o que quero dizer é, esquecendo do meu caso particular, que a pesquisa faz o conhecimento saltar das páginas, tal como o bom livro, lembra? A pesquisa faz o pesquisador, autoriza o aluno e empolga o professor, em suma, a pesquisa mobiliza os pensadores e cria pensadores.
É uma pena que nós, aqueles devotados ao estudo de artigos científicos, freqüentadores assíduos das bases de periódicos Scielo e cia, pessoas que fazem de tudo por um ponto no famigerado Curriculum Lattes não possam contar com uma remuneração mais justa por simplesmente pensar e fazer (futuramente) pensar os nossos alunos.
Passamos boa parte de nossas vidas dedicados à obtenção de títulos, a publicações em revistas científicas, para chegarmos um dia a sermos considerados “professores”, professores mestres, professores doutores.
Para quê? Seria ridículo eu dizer que apenas seria em nome do compromisso que firmei com a nação uma vez que resolvi fazer circular o conhecimento, não, é utópico e presunçoso demais, o conhecimento não vai começar a circular ou mesmo circular melhor porque eu decidi ser pesquisadora. Acho mesmo que vai muito ego nisso tudo.
Muito simples essa questão de ego, enquanto uns o enaltece malhando o corpo, outros enaltecem colecionando namorados, e outros, bem, outros o enaltecem estudando para um dia chegarem a uma sala de aula e serem tratados como carrascos ou desagradarem meio mundo.
O pior de tudo: a recompensa. No Brasil, um professor doutor pode ganhar, no máximo, se tiver muita sorte, uns sete mil reais. Já um promotor, desembargador ou juiz pode ganhar o dobro, triplo, não entendo nada da esfera judicial.
Não quero com isso desmerecer o serviço dos juristas, dos advogados que tanto ego possuem e, além de tudo, são pagos para enaltecê-lo e mais, de brinde: porte de armas pra ameaçar geral e bradar alto mesmo quem manda aqui.
Ok, ressalvas à parte. O fato é que professores doutores não são reconhecidos nem um pouco e isso me deixa um tanto triste, porém, não desmotivada, visto que, alguém deve fazer o trabalho sujo.
Feito aqui o desabafo, reitero, nosso trabalho é útil sim, e mesmo que o conhecimento não ultrapasse todas as barreiras, malmente figura no Lattes de alguém, que nossas palestras estejam sempre vazias e levemos sempre para casa a voz perseguidora dos orientadores em nossa cabeça, o trabalho sujo vale a pena, enaltece e enriquece intelectualmente.
Fale você de serpentes, de coqueiros ou de mulheres, o trabalho intelectual é importante, sobretudo quando se tem amor pelo que se pesquisa e se consegue transmiti-lo da melhor forma possível para outras pessoas. O conhecimento então circula, e abunda, fertiliza.
Dedico esse texto a todos os mestrandos da Unisinos, que, por hora, encontram-se como eu, atordoados entre os prazos e a ansiedade da defesa da dissertação que, se não for a melhor produção de sua vida, é , neste momento, o ápice da sua vida.
Para todos desejo sorte, a mesma que desejo a mim mesma e que nossos caminhos não sejam jamais cruzados por alguns seres acéfalos, animais ruminantes ou qualquer ignorante que nos faça a terrível pergunta: “Vem cá, por que tu estuda isso? Por que não vai arrumar um emprego de verdade?”

sexta-feira, março 30, 2007

Reflexões de uma psicóloga recém-formada



Quando você sai da faculdade, que alívio! Parece que todos os compêndios, todos os livros, todas as teorias e procedimentos foram, enfim, encasquetados em sua cabeça e agora você é alguém apto para assumir o posto de profissional.

Quando você sai da faculdade, você parece mais maduro, parece mesmo assumir um ar grave, mais pausado, como se houvesse adquirido uma certa rigidez, ou uma certa tranqüilidade, confundida, muitas vezes, com serenidade.

Enfim, após seis longos anos esquentando as cadeiras semi-quebradas da universidade federal de alagoas, você parece ter saído de uma guerra, vai andando , rastejando, esfarrapado e talvez até com marcas de tiro pelas calças. Você venceu, atravessou greves, chuvas e ruas enlameadas. Você finalmente se formou, tome o canudo!

O que se espera de um psicólogo recém-formado? Eu agora pergunto a você, porque eu também não sei responder. Eu só posso conjecturar.

Será que esperam que tenhamos mais maturidade, mais “serenidade” para tratar dos outros? Será que esperam equilíbrio emocional, visto que, quem passa por seis custosos anos na Universidade Federal de Alagoas, agüentando, muitas vezes, professores medíocres metidos a suposto-saber, deve ter, no mínimo, alguma coisa como sanidade mental, o que o difere, logicamente, da raça dos que vão pagar pelos serviços que vamos oferecer?

Será que esperam que nos sujeitemos a salários humilhantes porque carregamos conosco o triste prenome de "Recém formado"? O que esperam de um psicólogo recém formado?

Eu faço essa diferenciação, obviamente pelo motivo que sou psicóloga, e não teria sentido eu falar aqui de um biólogo recém formado, posto que não sei o que as algas têm de especial que possa fazer de um recém formado biólogo uma criatura diferente de um biólogo com 10, 20 anos de estrada.

Não entendo de Biologia, então fico com a Psicologia, não por entender dela, mas, por presumir que meu conhecimento acerca do comportamento humano é infinitamente maior do que qualquer coisa que eu possa saber sobre plânctons ou medusas, ou fungos, ou o que os valha.

Somente o psicólogo recém-formado se depara com uma questão cruel, uma questão que nos é lembrada pela sociedade a todo minuto: Você estudou, presume-se que os longos anos, a entrada no mercado dos estágios, a passagem pelo trabalho de conclusão de curso faça de você uma pessoa mais madura, isso mesmo, de novo, mais serena, e agora, apta a cuidar das mentes alheias.

E por que não antes? Porque antes você nada sabia. Essa transição de estagiário/estudante para profissional da psicologia é desestruturante, muitas vezes alucinante, como em outras profissões também é, mas, no caso da Psicologia, o negócio é pior: Como asssim, você é Psicólogo e não sabe da sua vida? Como não consegue ter maturidade suficiente para lidar com o fato de que, agora, você é um desempregado, mas, com um canudo na mão?

Como vencer essa situação parece um mistério. Alguns resolvem (tentam) isso em suas terapias, que muitas vezes começaram dizendo que era uma “exigência curricular” (anhan, ok) mas que também não é fonte de alívio completo, uma vez que, não se esqueça, você é desempregado, mal tem dinheiro pra pagar o CRP (Conselho Regional de Psicologia) e depende dos pais, então, como pagaria as sessões no terapeuta, no analista, pra falar do sofrimento psíquico que é ser desempregado, da dor existencial da depressão pós-TCC?

Não, certos luxos, por favor, têm que ser cortados. Porém, você é um profissional, levante-se. Ânimo! É o que digo a mim e a muitos que estão na mesmíssima situação. Há de existir alguma alma caridosa que confie em seu potencial (que na verdade você não tem) e que o ajude a ser alguém na vida, talvez daí, de um emprego, de um salário em dia advenha serenidade e tranqüilidade (vamos ser objetivos, essa é a vida real).

Apesar da descrição da vida difícil do psicólogo cheirando a leite, cabe aqui acrescer um fato bom, uma luz no fim do túnel, uma vantagem, enfim, de ser recém formado: o orgulho e a soberba que podem ser encenados diante dos que ainda não se formaram. Veja bem, você pode não ter emprego, nem dinheiro pra pagar a anuidade do CRP e nem pra continuar a terapia, você pode não ter dinheiro também pra participar dos eventos sempre tão estimulantes e dos coffee breaks tão pobres lá servidos, mas aquele olhar de quem já passou por tantos percalços, leituras, seminários, isso você pode ter, ou ensaiar.

Isso mesmo! Ainda há um motivo para sorrir: Passar diante dos que não são formados, dos que ainda esquentam as regiões traseiras nas cadeiras carcomidas da Universidade Federal de Alagoas, ou de qualquer instituição que se denomine de ensino.
Ora, todos nós sabemos que o ambiente acadêmico é um ninho de cobras, cada um querendo passar a perna (cobra tem perna? Ai como queria entender de Biologia!) no outro, é concurso pra lá, fraude pra cá, então, se o ambiente já é assim nefasto, por que não dar a sua contribuiçãozinha de maldade e desfilar um certo ar esnobe diante dos aprendizes, inferiores que são?

Aí você pode, esquecer as misérias da sua vida, e desfilar um sorrisinho no rosto de suposto-saber. Ahá, eu sei mais que você, eu já passei pelas fases turbulentas, eu já li Freud, Lacan, Winnicott e Klein e, obviamente, já apresentei meu TCC, inclusive abracei a teoria das minhas entranhas, que, claramente, é a melhor de todas, isso me faz melhor que você! Puro engodo, pobre de nós... é uma defesa tão triste, mas que dá um consolo, isso dá.

Não somos nós que entendemos de fantasia? Que tal esta? Se não há dinheiro, só nos resta é o imaginário, nele podemos vestir as roupas mais bonitas. E haja tarja preta!

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Mata-psicologia e meta-arte


Hoje eu vim falar de Psicanálise. Não que nunca tenha falado dela, não que ela esteja ausente em outros textos por mim escritos, mas hoje eu vim falar especificamente de Psicanálise.

Já que viso me deter nesse tema, não posso esquecer do vienense audacioso que inventou lá a tal “arte”. Para Freud, a sua Psicanálise é a metapsicologia, uma Psicologia, assim, que vai além, para além dela mesma, para além do consciente e , especialmente, para além do individuo, buscando o sujeito, aquele que mora aonde não pensa.

Eu vejo a Psicanálise como uma arte, ou, se eu quiser seguir o “criador”, é mesmo uma meta-arte essa tal de teoria psicanalítica. Pesadelo da medicina positivista ocidental, revolução paradigmática, a Psicanálise nos interroga a todo momento, nunca fornecendo respostas. Digo que o que ela faz é mais o trabalho de semear a discórdia do que de plantar a harmonia – haja visto ser criação de uma mente judia, sentimentalismo cristão ou noções de piedade e fraternidade parecem não combinar com a tal arte.

Mas, o que seria uma meta-arte? Por que eu falo que isso se parece ou pode ser mesmo identificado com a criação freudiana?

Para além da arte. Não é esse o caso daqueles que se debruçam diante de uma obra literária, de um filme, de uma poesia, de um quadro, até numa música? Essas são criaturas curiosas que buscam psicanálise em todo lugar, em todo lugar que haja sujeito do inconsciente, por isso sujeito do desejo.

Acho que a meta-arte não está apenas quando se analisa uma obra de arte, não, não é como a poesia de Drummond, que falava da metalinguagem da poesia; a minha definição de meta-arte não equivale ao psicanalista que, por ser afeiçoado a literatura ou a pintura, resolve investigá-las sob o viés da teoria psicanalítica.

Na verdade, toda a Psicanálise, toda a tarefa do psicanalista consiste numa meta-arte, presente na escuta e, como toda a arte exige um mínimo de talento, então, cabe analisar o que há de tão especial.

Freud que me perdoe, sei que não sou ninguém para julgá-lo, digo mesmo que é uma personalidade por mim muito estimada, que tem feito a diferença na minha vida. No entanto, não concordo que a criação freudiana seja resumida a uma metapsicologia. Se me permitem o trocadilho, na verdade, um ato falho, considero que seja a Psicanálise uma mata-psicologia.

Parece que essa foi pesada. Mata-psicologia, meta-arte. Do que diabos essa criatura está falando, alguém pode pensar. Mata tudo antes concebido, mata aquela psicologia de auto-ajuda que abarrota as livrarias, mata a psicologia que abomina ouvir falar no tal Acheronte nosso de cada dia. Mata mesmo e nada mais artístico do que matar o que está estabelecido.

É nesse ponto que cabe agora a explicação sobre a tal meta arte. Eu digo arte, porque não é a todo mundo que a Psicanálise é passível de aplicação. E com isso eu não falo de pacientes, não falo aqui de pré-requisitos necessários para uma pessoa poder deitar-se num divã.

Eu falo do analista. Nem todo mundo pode sê-lo, não basta querer. Nada disso é especial, afinal, para ser jogador de futebol também não basta querer, é preciso saber chutar.

Por isso, nem todos podem ser analistas, o que é fantastico. Um sujeito pode saber de cor todas as virgulas escritas por Freud em suas obras, pode ter decifrado todos os matemas lacanianos e suas fórmulas complexas, pode ter até desatado o nó borromeu, mas, escutar, escutar com um ouvido psicanalítico, aí sim, aí é preciso arte: Meta-arte.

O mais triste de tudo isso é que muita gente jura que faz Psicanálise,muita gente – o que é grave – abre consultórios jurando que é disso de que se trata. No entanto, há psicanalistas sem anel (vide a sociedades das quartas-feiras criada por Freud), há
psicanalistas sem formação do IPA (international psychoanalitic association), há mesmo psicanalistas aonde menos se espera. Alguns desses são até melhores do que os pretensos freudianos ou do que os esnobes lacanianos.

Tal como há algo de podre no reino da Dinamarca, no reino de Freud parece que muita coisa não cheira bem também. É preciso arte, e é preciso ouvidos, muito mais do que bocas, para dar a cara a bater , mesmo que esse outro esteja de costas.

Não é a sabedoria de botequim que se vende por aí que faz alguém entender de psicanálise, tampouco é apontar atos falhos a torto e a direito. Não, Psicanálise também não é saber fazer trocadilhos legais em torno de palavras que, realmente, pedem muito uma piada de duplo sentido (apesar de algumas “sumidades” lacanianas utilizarem demasiadamente tal artifício).

É aí na encenação que se faz no setting nosso de cada dia que é preciso arte. Não digo tanto talento dramático, mas saber escutar, despojar-se até de Freud, largar os livros, e apenas escutar. Saber escutar, o que nada tem a ver com o ouvir.

Eu não sou psicanalista, o que eu sou é uma reles recém formada na tal psicologia, quem dera um dia ser formada na mata-psicologia. No entanto, eu acho que tenho algum respaldo pra dizer que fazer Psicanálise vai além de ler Freud, vai além da ignorância que diz-se sábia, e vai além da pretensão.

Fazer Psicanálise, me parece, é uma outra história. Faz-se no contato com o outro, faz-se na entrega à transferência que, certamente, um dia virá. Fazer psicanálise, pra mim, é saber que não vai se escapar à contra-transferência e nada que não se pareça com isso é Psicanálise.

Cabe também dizer, que para ocupar o lugar do “sujeito suposto saber” do qual fala Lacan, é preciso mais, bem mais que teoria; é preciso dimensionar-se enquanto humano, e , humano é errar, humano é falha por excelência. Caso fosse o contrário, não seria chamado de suposto.

Acredite, é apenas suposto, você não é uma criatura melhor do que os outros porque é psicanalista ou pretende sê-lo, você não é mais inteligente, nem mesmo mais astuto.

Você não é melhor que ninguém porque está na poltrona e não no divã.Você nem mesmo é alguém, porque ali você é um pai, uma mãe reeditada.

No máximo o que você pode ter é um ouvido agudo e afeiçoado à arte. Meta arte é o que tentamos ao escutar um discurso com outros olhos e ouvidos.

Portanto, vamos entender que da verdade ninguém sabe. Se Freud não dominou a própria criação, o inconsciente, não vai ser um qualquer que conseguirá; lembre-se que você também tem o seu, não só a criatura dita perturbada, a que pede atendimento. Então, contente-se em ser um artista ao escutar e console-se com isto.