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segunda-feira, junho 29, 2015

12 provas inquestionáveis de que Los Hermanos foram influenciados pela Psicanálise

Quem é fã de Los Hermanos certamente se identifica muito com as letras da banda. Segundo Maria Ribeiro, diretora do documentário “Esse é só o começo do fim das nossas vidas” (2014), a banda foi responsável por espalhar um discurso amoroso entre as pessoas, há toda uma vibe “all you need is love” nas músicas dos quatro rapazes de...enfim, dos quatro rapazes barbudos e isso não poderia passar despercebido.

Há um fato desconhecido por muitos e aqui o revelo para quem não saiba: há uma grande inspiração por trás das letras de grande repercussão da banda -  e não estamos falando de Beatles.

Nesse momento alguém poderá se remeter à figura mítica de Anna Júlia, figura que se tornou conhecida em todo território nacional por volta dos já longínquos anos 2000. Engana-se, caro leitor e amante de Los Hermanos. Não é Anna Júlia, nem Aline, nem Bárbara, nem Melissa, não é nenhuma dessas.

A grande inspiração de Camelo e Amarante em suas composições é o discurso psicanalítico. Pasme você.

Se você ignorava o fato da dupla mais famosa da indie music brasileira ter compartilhado suas mazelas com analistas, jorrado lágrimas sofridas em tantos divãs por aí, acompanhe atento algumas provas cabais que não vão deixar dúvidas de que as letras da banda têm sim muito de Psicanálise, sobretudo no que tange aos desenvolvimentos freudianos e lacanianos.

As pistas estão em muitas das letras e talvez o querido leitor, tomado pelo arrebatamento típico de quem é fã, não tenha percebido o recado nas linhas e nas entrelinhas, pois muito tomado estava de um afeto indomável: A peste freudiana estava à solta e Camelo e Amarante foram responsáveis por traduzi-la em música, nos seus acordes chorosos, e até mesmo nas melodias mais bonitas, há um pouco de castração, sim, inevitalmente. Mas há um alento: somos todos falasser, somos seres de linguagem, e que bom que existe a música!

Se você não está convencido disso, duas palavras talvez te tragam alguma iluminação: Cara estranho. Não há retrato mais digno da castração do que nessa composição que narra uma pessoa desalojada em seu ser, desassossegada em seu corpo-carne à mercê do gozo alheio. Cara estranho é sujeito castrado, e Miller concordaria com isso (Vale dizer que também o tal “Cara valente” é tão castrado quanto, mas talvez, por encenar tão bem possuir o falo, possa parecer um homem mais viril, na verdade, o cara valente é o mesmo cara estranho).

Nesse momento talvez você esteja cantarolando as canções em sua mente, e quem sabe até concorde comigo. Não se tratando do caso, trago mais algumas evidências que esclarecem o argumento que venho sustentando até então: rolou muito divã e a indie music deve muito à Psicanálise.

Iniciemos pelo começo de tudo, com a famosa Traumdeutung lançada ao mundo em 1900. Poucos devem lembrar de algo anterior ao famigerado sétimo capítulo desta bíblia psicanalítica, mas cabe aqui uma alusão ao prólogo tirada de “A divina Comédia”: “Flectere si nequeo Superos, Acheronta movebo”, que nada mais significa do que “Se não posso comover os deuses de cima, moverei o Acheronte”.

À frente de tudo e de todos, Freud entendia que havia um sentido no sonho que precisava ser descoberto, e isso era polêmico, era necessária uma dose de coragem para falar de tal assunto devido ao zeitgest da época, Freud mexeu e remexeu o Acheronte e lá achou muita coisa que falava à alma e que hoje vemos musicada.

Tal como uma escrita hieroglífica, o sonho se mostra confuso e desconexo, cabendo ao analisante amarrar os fios que podem fazer da experiência onírica um relato inteligível. Como Freud já dizia que os poetas e artistas o precederam na descoberta do inconsciente, deixá-los-ei apenas com as sábias palavras “loshermânicas”. Seguem minhas provas, são apenas doze, e a leitura do que vem abaixo requer coragem e uma dose de empenho:

(1)

“[...]O que é um sonho ruim,
E o que é um sonho bom.
Que diferença? a vida é igual,
assim e eu não sei
Eu não sei...Quem bate aí?
Se é pra eu te ver então deixa eu dormir.”

Como se nota facilmente, “Os Pássaros” parece relatar a confusão do sonhado diante do sonhador, a pérola virgem na ostra do mar psicanalítico. A confusão, o pesadelo, a realização do desejo parecem tomar conta de Amarante – será que não podemos notar em sua voz esse mesmo tom perdido, angustiado?

Conte, amigo, conte as vezes em que se nota nas composições do autor o mesmo tom desconsolado - e frequentemente blasé – restos de imaginário não analisado?

Dificuldade em remexer o próprio Acheronte, Amarante? “Não sei mais e é um sonho bom ou ruim, sei apenas que isso fala de mim” – poderia complementar Amarante (inclusive, há rumores que essa parte da letra foi censurada, como uma espécie de censura onírica, jamais saberemos, mas já podemos antecipar aí um trabalhinho que sem dúvida foi executado com a ajuda dos nossos velhos conhecidos mecanismos “deslocamento” e “condensação”, não sejamos tolos, todos vocês já devem saber disso...)

Não sabemos de fato se a letra passou pela censura onírica, podemos imaginar, pelo tom de desencanto e dúvida que há uma elaboração nesse material, estamos diante do discurso manifesto que não lembra mais o sonho sonhado; eu poderia apostar que é fruto dos percalços que um analisante encontra em seu percurso...

O desencanto pela vida, o não saber, e, por fim, a certeza/clichê freudiana: que em sonhos poder-se-á realizar o desejo por tanto tempo acalentado: a musa de Amarante aparece em seus sonhos, então, o melhor momento será mesmo a hora de dormir.

Se isso não for uma licença poética da célebre frase freudiana “O sono é o guardião do sonho” eu não sei mais o que é.

Se você tem alguma dúvida, peço que prossiga nessa leitura:

(2)

“Como pode alguém sonhar
O que é impossível saber”

Diante de tão impactante lição que a canção psicanalítica “O vento” nos traz, precisei reparti-la em dois segmentos, para melhor fundamentar meus argumentos. Sinta o choque, e a presença viva de Freud no trecho acima referido:

 “Como alguém pode sonhar o que é impossível saber”.

Fico estupefata e creio que também o indie leitor ficará ao analisar essa frase com lentes de aumento. Veja se não há um quê de Traumdeutung novamente? Vejo, inclusive, menções à Lacan, nesse pequeno, porém tão profundo trecho poético.

Se estamos já tão acostumados com a virada cartesiana que Lacan faz ao promover o clichezão “sou aonde não me penso”, podemos também nos lembrar do tão famoso “o sujeito não é senhor em sua própria casa” – e Tania Rivera ainda diria não saber nem se o sujeito tem casa. 

Ora, se o sujeito tem casa ou não, não nos é importante nesse momento, pense apenas nessa pérola que  promove o antagonismo entre o que se sonha versus  o que se sabe.


Los Hermanos já parece deixar clara a influência psicanalítica ao fazer isso, ao nos colocar diante desse antagonismo que ilustra o que é a Psicanálise em geral.

Sonho aonde não me penso, portanto, sonho o impossível de ser sabido, estamos falando de lógicas diferentes, portanto, isso já nos levaria, de graça, à Lacan e toda a noção que está implicada na Psicanálise: há um saber inconsciente, um saber não sabido, disso Amarante já sabe há tempos.

Perceba a genialidade da banda ao trazer esses conceitos tão profundos para a simplicidade da canção. Lembre-se sempre que o sonho é a loucura do homem são.

* Bônus: “Eu sei que ainda vou voltar, mas eu quem será” (O velho e o moço)

(3)

“Não te dizer o que eu penso
Já é pensar em dizer”
[...]
Sinto que é como sonhar
Que o esforço pra lembrar
É a vontade de esquecer”

 Está ficando chato, não é verdade? Toda essa preocupação de Amarante com o conteúdo onírico, me parece claro como um dia de sol que essa canção foi pensada – e quem sabe até composta – em um divã. Amarante aqui faz novamente alusão à divergência entre desejo e o querer consciente, porém, se ainda não se tornou claro o suficiente, à guisa de compreensão, didaticamente explicarei:

 Esforça-se para lembrar (consciente), porém há algo que se opõe a isso: há uma vontade de esquecer (mecanismo inconsciente).

 Vejamos aí outra coisa ou vemos mesmo o Verdrängung freudiano? A vontade de esquecer, Amarante, diga logo, nada mais é do que o mecanismo de recalcamento, que sabemos que não é necessariamente o mesmo que esquecer.

Todo vivente que assistiu ao menos uma aula de Psicanálise na faculdade saberá que existe uma grande diferença entre recalcamento e esquecido. Amarante apenas nos revela que existe um jogo de opostos: ora se esforça para lembrar, ora se entrega ao recalcamento. Cena primária, lembranças infantis , o caso Emma e a loja de roupas (presente na carta 52 e no Projeto de 1895).

Todos nós já estamos cientes de que as lembranças encobridoras tomam o lugar de algo maior, infantil e de origem sexual que fora convenientemente recalcado. As lembranças foram postas aí porque há algo recalcado.

Em palavras mais rasteiras: a lembrança encobridora é o esforço para lembrar; a vontade de esquecer é o mecanismo do recalcamento operando sobre o material mais antigo e, portanto, mais revelador do inconsciente. Gostaria de saber o sexual traumático de Amarante, e por que tanto apelo ao mundo onírico...


 (4)

“De onde vem a calma daquele cara?
Ele não sabe ser melhor, viu?
Como não entende de ser valente?
Ele não sabe ser mais viril
Ele não sabe não, viu?”

Se não me engano esta letra é de Camelo, uma criatura que, por suas letras, podemos pensar que vive às voltas com a castração. Aceitá-la, negá-la, ignorá-la? Tudo isso parece ecoar na cabeça do exímio compositor que, perdido diante da barra originária, entrega-se às suas canções.

Vejamos em “De onde vem a calma” o sujeito castrado e barrado diante de seu gozo quimérico, detido em seu desejo. O que resta a esse cara cuja angústia de castração tomou conta, a calma?

Recomendo um retorno à Freud, tal como o fez Lacan, para que possamos analisar melhor essa canção. Um sujeito castrado diante de um mundo hostil; não lhe sobrou dignidade, não lhe sobrou muita coisa, porém, para aquele que irá agora ter acesso à música completa, lhe digo que há esperança no que Camelo escreve, pois apesar do mundo ser hostil, o sujeito parece não desistir, nem ceder.

Vemos aí uma esperança de reaver a Coisa freudiana, Das ding reencontrada? Gozo não mais interditado? Mamãe? Sim! O sujeito, que não é viril (Quer algo mais claro que isso para chamar de desfalicizado?) irá, um dia, ser coroado rei de si mesmo – Cai o pano, lembra uma tragédia, hein?

Recuperar o trono, se apossar de mamãe, é isso que você quer nos dizer, Camelo? Recuperar mamãe depois de ter matado papai?

Ser coroado rei de si não seria uma óbvia e ululante alusão à Oedipux rex? Deixo essa com você...

(5)

“Hoje estou tão sozinho
Não sei mas o que fazer
A minha vida se acabou
Você se foi e agora não sei mais”

(6)

Faz tanta falta o teu amor...
Te esperar...
Não sei viver
Sem te ter não dá mais pra ser...
Assim”

(7)

Deus por onde você foi?
Cansei de procurar
Não posso mais te dar o pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
e a vida se perdeu
Se existe Deus em agonia
manda essa cavalaria
que hoje a fé me abandonou”


Estamos agora diante de três canções que querem nos dizer algo especial: o que “Tão Sozinho”, “O pouco que sobrou” e “Quem sabe” têm em comum? O leitor desavisado diria “Sofrência”. Porém quero que você vá além de modismos musicais.

Para acompanhar a genialidade de Amarante/Camelo eu só sugiro ao indie leitor que recorra à letra freudiana mais uma vez, pegue lá em seu armário o volume XIV da edição Standard e busque o texto de 1915 chamado “Luto e Melancolia”.

Seu esforço será recompensado, pois nas primeiras laudas encontrarás o que foi dito, de formas diversas, nas três músicas. Diz Freud: “Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima” (Freud, 1996/1917[1915], p.250).

Sobre o luto, Freud nos ensina: “O luto profundo, a reação à perda de alguém – a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significa substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não seja ligada a pensamentos sobre ele” (Freud, 1996/1917[1915], p.250).

Se você ficou confuso e não sabe diferenciar se Amarante e Camelo estão falando de Luto ou Melancolia, dou-lhe novamente a palavra de Freud: “No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego” (Freud, 1996/1917[1915], p.251).

Quando alguém diz que não sabe viver, que a fé o abandonou, estamos tratando aqui de um desinteresse total pelo mundo, não porque o mundo é vazio, mas o ego que foi apequenado, esvaziado.

O trecho “eu era bem melhor” nada mais é do que a prova cabal de que há um sentimento forte de baixa autoestima e isso tudo está no ego, o mundo está lá, eu apenas não tenho força porque já fui bem melhor, num outro tempo, quando tinha um amor – diria o restante da letra, mas nós já sabemos do que se trata.

Canções melancólicas que envolvem egos fragilizados, isso é mais do que dizer “Sofrência”, não é verdade?

Nas canções de “sofrência” existe algo relacionado ao corpo como palco do sintoma; há um apelo ao álcool para fazer frente a um sofrimento ou a uma situação penosa - é puro Lacan do Real.

 Vemos aí a toxicomania e a pulsão de morte enlaçadas, basicamente o sujeito goza em seu corpo e busca aplacar o sofrimento se entregando a subterfúgios.


Em Los Hermanos é a frustração sóbria que está presente, é o aguentar a frustração e a ferida narcísica, sem álcool, sem nada. Haja divã, haja lencinho de papel.

(8)

“Pois eu, eu só penso em você
Já não sei mais por que
Em ti eu consigo encontrar
Um caminho, um motivo, um lugar
Pra eu poder repousar meu amor”

Aqui vemos uma bela oportunidade de anunciar como Los Hermanos fugiram do lugar comum, pois ao conceber “Fingi na hora rir”, os compositores foram muito além da letra “água-com açúcar”, a melodia aprazível, que agrada aos ouvidos e que deve ter sido tema de muitos romances, revela algo muito mais profundo e de inspiração psicanalítica. Vamos subir um degrau no nível de dificuldade agora.

Em Lacan, sabemos que há todo um jogo encenado entre as posições masculina e feminina, um jogo intermediado pelo falo, que não é o pênis, mas sim, esse objeto imponente e majestoso, revestido de grande poder social mas que é totalmente quimérico.

Camelo encontra "um caminho, um motivo, um lugar”, e poderíamos dizer...”Um falo”? Se você duvida, basta abrir em qualquer página de “O Seminário livro 20” e verá que tudo não passa de uma falácia, um engodo: a posição masculina acha estar na posição feminina o falo que lhe falta e que supõe completá-lo: O feminino É o falo.

(9)

“Ouvi dizer
Que o teu olhar ao ver a flor
Não sei por que
Achou ser de um outro rapaz
Foi capaz de se entregar
Eu fiz de tudo pra ganhar você pra mim
Mas mesmo assim”

Se está me acompanhando e já está quase convencido de que as letras de Los Hermanos foram escritas atrás das páginas dos seminários de Lacan, eu só tenho que tornar isso cada vez mais evidente, com esse belíssimo argumento em favor do que foi dito em relação ao falo e à posição masculina diante do feminino: “A flor”.

Digo mais: desafio o leitor a substituir a palavra “flor” por “falo”. Há fortes rumores que as palavras foram trocadas propositalmente, e como as duas palavras servem como significantes relacionados ao sexual, deixaram “flor” para parecer poético e menos polêmico. A flor é, descaradamente, uma ode ao falo sempre buscado e nunca encontrado por ambas as posições.

Também em "A flor" ingressamos no enigma feminino e sua busca pelo falo  que lhe fora negado pela mãe tão má que é a mãe da menininha castrada (e que achou ser de um outro rapaz!).

Em suma: masculino e feminino se relacionam como se num palco estivessem, uma comédia, diria Lacan em “Televisão”: uma busca incessante no Outro masculino detentor do falo (a flor) perdido; a mulher busca no masculino o falo que lhe falta. Sendo, que...SPOILER!



  • Ninguém tem ou é o falo que falta a ninguém...tudo é engodo. Desilusão!

Apesar dessa descoberta, lembremos que Camelo pensa um dia recuperar das Ding; é, portanto, mais do que um romântico incorrigível, é alguém que tem esperança em se tornar rei de si próprio (toda a onipotência da majestade o bebê aí presente, pense no alerta de Freud!).

Sendo assim, fica fácil entender que esse endereçamento ao Outro que seja “seu caminho, seu motivo e seu lugar” poderia ser, na verdade, seu falo. Será Malu? Fica aí a questão, se quiser saber, recorra  ao cego Tirésias, recorra à esfinge se não quiser ser devorado. 

QUEM ÉDIPO É NUNCA PERDE A MAJESTADE.

(10)

“De perto eu não quis ver
Que toda a anunciação era vã
Fui saber tão longe
Mesmo você viu antes de mim
Que eu te olhando via uma outra mulher”

 Talvez esta seja a prova que faltava para o cético entender que há Psicanálise em todo repertório de Los Hermanos. Veja com seus próprios olhos e pense, sem algum esforço, se você já não sabe quem é essa outra mulher - ideal - que Amarante diz ver na mulher atual.

Uma dica? Mulher atual imagem da mulher atemporal, das ding, não há ainda um terceiro ursupador...


Ficou fácil, né?

Vou dar mais uma dica, essa mais específica ainda: “Identificação anaclítica”. Mais fácil que isso só se eu dissesse que a primeira letra do nome dessa mulher é M – Evitarei dizer mais.

(11)

“Dei pra ti as estrelas os peixinhos e as aves
Todas as montanhas nas escalas dei as claves
Todas as cancões que eu fiz, eu fiz pra ti princesa
Tudo de mais belo que encontrei na natureza”

Essa canção profundíssima do primeiro álbum, você deve dela lembrar, chama-se “Lágrimas sofridas” é por muitos cantada com uma gota de ódio e decepção, um certo azedume (para voltarmos ainda mais no tempo...) e deve ser considerada como uma canção raivosa, muito diferente das canções do último álbum, considerado “maduro” pelos fãs.

Veja você que essa divisão entre o que é maduro e o que é pop não parece corresponder ao conhecimento intelectual que a banda já demonstrava ali, no começo de sua estrada, ao menos não é o que parece.

“Lágrimas sofridas” nos apresenta talvez o mais belo clichê lacaniano “Amar é dar o que não se tem”. É verdadeiramente isto que está em jogo nessa música que fala direto ao coração: um sujeito que deu a sua bem amada coisas materiais, tais como seu sapato, seu vestido, mas não esqueceu de lhe presentear com o intangível: "as estrelas, os peixinhos e as aves”.

“O dar o que não se tem” fica ainda mais claro na estrofe seguinte:

"TODAS as montanhas, nas escalas dei as claves; TODAS as canções que eu fiz [...] TUDO de mais belo que encontrei na natureza".

Vejamos que muito embora se trate de coisas conhecidas e apreciáveis, é evidente que o narrador/cantor não possui todas as montanhas, os peixinhos, as aves; é patético, inclusive, pensar que alguém seria dono das estrelas. No máximo, todas as canções que ele fez, porque na verdade, ele quis dizer TODAS as canções do mundo e toda a beleza da natureza – porque o amor é hiperbólico mesmo.

Ou seja, dar o que não se tem a alguém que não o pediu. O resultado disso é melancolia, já vimos aqui e parece coincidir com a ordem cronológica dos álbuns: primeiro o amor desmesurado, louco e infantil, e depois a melancolia (praticamente todo último álbum).

(12)

“Quem te vê passar assim por mim
Não sabe o que é sofrer
Ter que ver você, assim, sempre tão linda
Contemplar o sol do teu olhar, perder você no ar
Na certeza de um amor
Me achar um nada
Pois sem ter teu carinho
Eu me sinto sozinho
Eu me afogo em solidão”

Por último, mas não menos importante, eu não poderia deixar de citar a linda “Anna Julia” para trazer à baila aquela que foi considerada a única contribuição original de Lacan à teoria psicanalítica: ele mesmo, o brilhoso e comovente petit a. O objeto pequeno a ou simplesmente (a).

Lacan, em seu seminário da Angústia trata do objeto a como o que resta da relação entre sujeito e Outro (lê-se grande Outro), porém o conceito ganha vida e outras significações ao longo dos outros textos de Lacan e só podemos dizer que o objeto a é tudo aquilo que cai do Outro, sempre inacessível.

Como é muito provável que Camelo e Amarante andem por aí com os seminários de Lacan debaixo do braço, na fila do pão, eu sei que também devem ter lido Miller, Nasio, etc (nunca subestime a intelectualidade de uma banda indie).

Irei recorrer à Nasio, porque tenho certeza que as folhas de “Um psicanalista no divã” serviram de rascunho para as primeiras estrofes de Anna Julia, esse clássico contemporâneo.
Vamos à Nasio:
O amante apaixonado se sente subitamente arrancado de si mesmo, despojado de sua liberdade e submetido ao sortilégio do amado. Ora, como explicar o mistério do charme? Pois bem, somos incapazes disso. [...]O objeto a é portanto o nome dado à presença indizível e inebriante do amado, aquele que, em meu coração, o torna insubstituível (Nasio, 2003, p.138-139)

É, eu não tenho muito a dizer, mas quem quiser se certificar de que em Anna Júlia se trata do objeto a, volte à letra, parece pueril, infantilóide, cansativa, alguns dirão que não representa toda a sonoridade a  maturidade da banda, mas, aí onde pensas haver apenas um hit pop, encontrarás uma grande ode  à invenção lacaniana.

Anna Julia é o objeto a, é a mulher fetichizada na fantasia masculina, cantada e retalhada, eu seu olhar e em seu charme magnético. Isso é pura poesia e todo aquele que maldiz essa canção não sabe o que está fazendo.

Essas são apenas 12 provas que elenquei para que fique claro ao público que Los Hermanos não é apenas uma banda cujo compromisso foi espalhar sua melancolia e seus acordes nostálgicos aos nossos ouvidos. 

Há muito mais do que melodrama e corações partidos por Alines e Bárbaras em suas canções, há muito mais do que os significantes “mar”, “barco” e “morena” (os três valem uma análise); há muito édipo, muito Outro, muito objeto a, muita das Ding e quem disso ainda duvidar, aconselho ouvir a discografia completa com mais atenção, quem sabe em companhia de Freud e Lacan. 

Só lhe digo mais uma coisa: as barbas, estas não são por acaso (vide os judeus vitorianos...).





quarta-feira, abril 04, 2012

É o fim? De novo?


Lançado em 2005, pela editora Arènes, na França, o Livro negro da Psicanálise tomou impulso e em 2011 foi lançado em terras tupiniquins pela editora Civilização Brasileira. O que trago aqui é fruto de uma lembrança, trazida a mim por meio de um link em uma rede social: em algum lugar do passado, houve uma pessoa que escreveu uma resenha sobre o tal livro, isto chegou a mim e me fez pensar muito sobre o assunto no qual me enfiei desde 1999: a Psicanálise - a metapsicologia freudiana, a invenção do inconsciente, ou seja lá o nome que queiram dar ao que Freud inaugurou.
Conheci o Livro de "ouvir falar", portanto não esperem de mim uma outra resenha sobre o livro, pois para se fazer uma resenha de um livro é preciso preencher um pré-requisito básico: lê-lo. Eu não o li. No máximo alguém pode considerar isso aqui uma "resenha da resenha".
Soube de sua existência através de uma publicação de Elisabeth Roudinesco (psicanalista e historiadora da Psicanálise), em 2010, quando comprei "Em defesa da Psicanálise". Percebi em Roudinesco um ímpeto jamais visto na defesa do seu objeto de estudo, não era pra menos - pensei - a mulher é historiadora da Psicanálise, reúne em seu nome os textos mais influentes da área dos últimos anos, então é capaz que ela esteja falando também do lugar da indignação - sejamos francos, é duro ver algo em que acreditamos ser enxovalhado em praça pública: dei um desconto à Roudinesco, pelo seu envolvimento passional num debate não menos acalourado que surgiu na França, no ano de lançamento d'O livro negro.
Hoje o tema volta à tona: Através do link que me foi enviado, li uma resenha sobre a publicação que acaba com a reputação de Freud e de quem mais defender a ideia de inconsciente escrita por alguém , talvez, menos apaixonado, ao menos no referido texto: Ricardo Cabral consegue - mais ou menos - encontrar um meio de falar d'O livro sem se deixar cegar pela Psicanálise e seus fundamentos que são duramente criticados na publicação de origem francesa e tampouco se deixar convencer do que a TCC é a bola da vez. Interessante texto que acreditava num debate igualmente acalourado que surgiria no Brasil, com o evento da publicação do livro pela Civilização Brasileira. Outra resenha, publicada em março do ano passado na Folha de São Paulo, pelo jornalista Fabio Andrighetto, nos mostra o mesmo: a esperança de um debate frutífero entre profissionais de várias áreas. O único problema de Andrighetto é a ignorância: em sua resenha percebemos para além do interesse no debate, percebemos uma crença no fato de que a Psicanálise está morrendo, está em "franca decadência", segundo suas palavras. Veremos.
O livro que causou estas resenhas foi lançado no Brasil, como disse anteriormente, em 2011. A resenha de Cabral é de 2011, a de Birman e a de Andrighetto também. A pergunta que não quer calar é : Alguém viu debate?Alguém viu psicanalistas brasileiros se revoltando contra a publicação organizada por Catherine Meyer?Alguém viu entusiastas das neurociências subindo em palanques, gritando, enxovalhando com a cara de Freud, pisando em Lacan, Klein, Winnicott e companhia, citando passagens do referido livro?
Ora, se alguém viu, por favor me diga, me mandem links , pois não vi nada que seja considerável a não ser algumas meia-dúzias de resenhas - mais ou menos - imparciais, defendendo uma das nações em conflito: TCC é a esperança dos dias atuais? A Psicanálise continua a salvação por sua abordagem do sujeito psíquico? Não vi opositores, não vi batalha, não vi guerra, não vi sangue.
Não vi nada, e como não sou francesa e nem sequer pisei na terra de DeGaule, insisto que o debate foi xôxo, borocoxô , quase nada perto da guerra de farpas que aconteceu em Paris. Me perdoem os mais informados do que eu, mas não considero essas resenhas dignas do termo "debate acalourado". Não credito esta falta de investimento libidinal no tema como alguma característica especificamente brasileira - coisa da qual francês sentiria falta- ou nada que o valha. Credito ao fato de que, talvez - e digo talvez porque não tenho certeza - talvez sejamos menos passionais que os franceses . E eu nunca pensei em dizer isso.
Talvez tivéssemos percebido o óbvio, talvez tivéssemos percebido o que Roudinesco, J.A Miller e tantos outros não viram: não há como destituir a Psicanálise do lugar que ela ocupa utilizando os argumentos de "O livro negro da Psicanálise". O fato é facilmente compreendido a partir do momento que consideramos que o tal livro não mostra muita coisa além do que Freud mesmo já tinha revelado: de que não acertou todas as vezes, que sua teoria estava em franco processo -eterno- de construção e que sua teoria era uma mitologia. Nada novo no front.
Em "Estudos sobre Histeria", Freud mesmo diz que deixou de entender algumas das patologias que cercavam de mistério os fenômenos histéricos. Freud, sim, ele mesmo, entendeu sua impossibilidade de compreensão e creditou isso a ninguém mais do que ele mesmo. Ele foi incapaz, ele por certas vezes também acreditou que poderia ter feito melhor, se soubesse de outras coisas que não sabia no momento. Daí referir-se a Freud como o rei dos embustes, francamente não é postura científica que se adote. Toda e qualquer ciência deve se valer de argumentos plausíveis, passíveis de observação e verificação.
Sobre isso, encontrei uma outra resenha não menos interessante sobre a tal publicação , da autoria de Joel Birman, esta que talvez tenha sido mais aguerrida, algo próximo ao tão desejado debate acalourado, segundo Birman, há em, "O livro Negro", toda uma agenda política que se descobre facilmente numa simples tarefa de metodologia: a ordem dos capítulos, nos adverte o autor, é totalmente manipulada para que o grand finalle coincida com a ascensão da mais nova esperança em termos de tratamento psicoterápico: a TCC.
Talvez essa resenha de Birman tenha feito parte do que muitos queriam ver no Brasil: o famoso debate. Eu insisto, não vi nada, nada de novo. Ao que parece é tradição, de tempos em tempos, aparecer um ou outro livro, um ou outro teórico disposto a acabar com as bases de uma teoria, de um conhecimento já consolidado. Mas, e qual o mal nisso? Nenhum. A ciência nasceu assim e - ainda bem - continua evoluindo graças à opiniões que contrastam, isso também aprendemos em Metodologia da Ciência - isto é quebra de paradigma, isto é importante, é vital.
Desta forma, é tradição, de tempos em tempos, vermos estampados em revistas semanais a pergunta recorrente: "Há espaço para Psicanálise?" "Freud é necessário, ainda?". Outras publicações, dependendo do grau de sensacionalismo com o qual esteja comprometida, substituirá a interrogação e estampará em suas capas simples assertivas. "Freud está morto.", "Fim da Psicanálise". Estratégias de marketing à parte. Pensemos sobre essas questões.
Nunca vi um psicanalista organizar coletânea ou livro que seja para falar mal de outras psicoterapias. Talvez isso soe infantil. Talvez seja, mesmo, infantil. Mas o ponto que quero
ressaltar é o seguinte: ataques à invenção freudiana acontecem desde que Freud ainda estava vivo para se defender. A teoria evoluiu, faz uso de interfaces, promove debates sobre questões de interesse social, dialoga com outras áreas do saber, mas não abandona o que mantém em sua essência, desde Freud: o sujeito.
Segundo as poucas resenhas de psicanalistas que vi por aqui sobre o livro, há uma necessária objetificação do sujeito, alguns acreditam mesmo no mundo sem o sujeito e um ou outro ataque às neurociências. Freud acreditava nas neurociências, mas sempre deixou espaço para que pudéssemos pensar no primordial: nosso objeto de trabalho é a escuta, é a disponibilidade do próprio inconsciente em contato com outro inconsciente (Antonino Ferro, psicanalista italiano nos lembra muito bem disso) e, portanto, o novo da Psicanálise - é, portanto, o velho: o sujeito e seu inconsciente - esta frase não é minha, é de outro psicanalista cujo nome não me recordo agora.
Para defender Freud poderia continuar este texto lançando mão do fato de que o mundo contemporâneo esquece do sujeito, que hoje somos seres medicados e alienados, que vivemos a cultura do DSM-IV, da banalização de substâncias químicas, do reinado dos hormônios e afins, mas não, não farei isso, porque acredito que seria muita superficialidade dizer que todas as teorias que são contrárias à Psicanálise estão erradas e que todas estão aí esquecendo em toda esquina o pobre do sujeito, mais sujeito do que nunca.
Não é por aí, ao menos não quero "ir por aí". O que quero dizer é simples. Se O livro negro da Psicanálise equipara à Psicanálise à regimes políticos sangrentos ao devotar um capítulo sobre "as vítimas da Psicanálise", seus defensores deveriam também perceber que esse argumento de destituir Freud do lugar em que ele se encontra atualmente é, no mínimo, falta de assunto. Todo mundo já disse tudo sobre isso: as pessoas se posicionam, contra ou a favor, escrever uns textos, umas resenhas, o que gera um ou outra polêmica, que gera mais repercussão e pronto, acabou o assunto porque surge outro mais interessante.
Quero dizer que O livro negro que defende a ideia de que a Psicanálise mais mal do que bem fez à sociedade moderna, acusando-a de pseudociência, esquece-se do fato de que, qualquer um que falasse de mente e não fizesse parte das ciências naturais era visto com desconfiança. Precisamos lembrar que Kant, o próprio, acreditava que a Psicologia - como um todo - nunca seria ciência, posto que não lida com argumentos matemáticos. Ou seja, era a Filosofia nos empurrando de um lado, e a Psiquiatria e as ciências naturais nos enxotando de outro: isso nos iguala, psicólogos das mais variadas tendências e correntes teóricas.
Criticar Freud não é novidade, falar que Psicanálise não é ciência e alçar a TCC como única forma possível de tratamento não é nem um pouco lúcido, haja visto que Kant nos coloca todos no mesmo saco, eu, o gestaltista, o psicodramatista, o cognitivista: lidamos com o invisível, e, para Kant, isto não merece ser considerado científico.
Essas reflexões não vão me fazer comprar o tal livro, já sei que se trata de um ataque desconjuntado à Psicanálise, sobre o fato de não ser ciência, muitos outros autores, como Fèdida e Figueiredo falaram melhor que eu: não se necessita de qualquer que seja o "tribunal epistemológico" para comprovar a validade da Psicanálise.
Figueiredo diz isso, e eu nunca esqueci a imagem mental que formei do tal "Tribunal": aqueles juízes envelhecidos, de perucas, pregando a velha e boa metodologia, do alto de suas tribunas, perguntando a um Freud, réu, diminuto, o que seria a base metodológica da Psicanálise, como confiar em seus achados que, em muito, não passavam de meras observações clínicas?
Nunca esqueci o tribunal. Mas d'O livro negro da Psicanálise eu esqueci, não porque recalquei, mas porque me foi indiferente. Li o livro da Roudinesco e entendi - até mesmo valorizei - sua enésima tentativa de defender o indefensável, li estas resenhas as quais me referi e pronto.
Não me afeta, não me diz nada, porque nada novo tiro de tudo isto. Para não dizer que não foi útil voltar ao tal livro, agora um sentimento novo me toma: de súbito um calafrio de medo, medo não do livro, mas do que podem fazer com o livro os menos perspicazes que passarão a postar frases do livro, trechos sensacionalistas e começarem um levante "Fora Freud!Fora Lacan e suas lacanagens", medo da repercussão disso nos círculos mais inocentes, porque os escaldados já entenderam que não se pode defender a Psicanálise pelo simples motivo de que ela não precisa de advogado.

quinta-feira, maio 05, 2011

Transferência: O difícil lugar por trás do véu rendado





Em 1912, em um texto chamado "A dinâmica da transferência", Freud já evidenciava o caráter perigoso da transferência, talvez o conceito psicanalítico que mais suscita polêmicas nos mais variados âmbitos em que a invenção freudiana penetrou.








No referido texto Freud indica, de saída, que a transferência é a arma mais forte de resistência, justamente por sua intensidade e por sua persistência. Em outras palavras, o autor chega a afirmar que a transferência consiste numa luta entre o racional e o instintual, entre a compreensão e a procura da ação entre médico ( na época não existia a função do psicanalista) e paciente.



De tudo isto, podemos dizer que, em palavras menos rebuscadas, transferir é próprio do neurótico e, se aceitamos a assunção de Freud de que todos somos neuróticos - uns em alto nível, outros ainda engatinhando rumo à neurose - e a transferência, essa arma quase letal está presente em tantas outras situações que não necessariamente clínicas, entre médico- paciente.



Existe transferência porque existe o bom neurótico que, devido a sua ambivalência típica, dirige sentimentos afetuosos positivos e negativos a uma figura que assume um lugar em seu desejo. Além de Freud, é interessante lembrar também de Racker , que vem nos ensinar que a transferência não se justifica pela pessoa do médico, nem por sua conduta. Ou seja, mais uma vez, simplificando:






O lugar da transferência é um lugar de suplência: o sujeito alvo de transferência , seja ele médico, analista, psicólogo, professor e até amigo, nunca é ele mesmo quando revestido pelo belo véu da transferência aos olhos do outro, que fantasia, que o pinta com as cores mais bonitas, que tece o véu com as rendas mais esmeradas. O grande problema é que o véu é - e deve ser - rasgado, para que o sujeito volte a ser ele mesmo.


Existe a ambivalência típica do neurótico embasando e dando forma ao véu da transferência, véu este do qual o sujeito nada sabe, posto que se situa por trás desta fina camada revestida de fantasias, tecida pela via do imaginário do Outro.



Assim, entramos, não mais na discussão teórica acerca do conceito "Transferência", mas começamos a abordar os efeitos desta, efeitos do olhar do Outro, que me torna um Outro para ele também. Assim, somos alçados a um lugar de suplência, um lugar que o o Outro nos dá. Aos olhos do Outro não somos nós, somos Outro: mais belos, mais fortes, mais seguros e, também, menos belos, menos fortes, menos seguros.






Da tranferência, desta que acontece em todas as situações em que existam mais de um sujeito, só se sabe seus reflexos. Ninguém supõe o que representa para um Outro, mesmo que esse Outro nos coloque naquele lugar privilegiado para, depois , nos retirar a fantasia, nos desvelar.






Pelo que se nota, ocupar esse lugar requer sensibilidade e, diria eu, até humildade - claro que não estou falando aqui de um lugar teórico - estou falando, em geral, da humildade que se deve ter em se saber que se é tudo diante do Outro, menos si mesmo. Ao passo que um sujeito pode ser alçado às alturas por alguém, pode ser também destituído deste lugar, posto no lugar de dejeto ( não resisti e me remeti à Lacan) .






O dejeto, este sim é um lugar que não desejamos ocupar. Mas ocupamos. Na situação clínica, já nos ensina Lacan, que este lugar é previsível, deve acontecer. Mas , e o narcisismo? Como fica diante de tudo isto, desta queda súbida das nuvens rumo ao chão? Resposta: Analise-se.



Estou aqui pensando em transferência e escrevendo intento elaborar esse lugar de dejeto, coisa pouco confortável com a qual teremos que lidar. Professor, por natureza, é um sujeito que se coloca - e é colocado - em lugar de transferência. Não se pode saber o que um aluno pensa do professor, por sua didática, por sua técnica e por seu conhecimento, você poderá ser reconhecido, mas, repito o que já disse noutro momento, nem tudo é cognição neste mundo de meu Deus.






A palavra aluno tem uma significação tão pejorativa mas deve ser trazido aqui à guisa de justificativa da temática escolhida. Aluno - A-luno, aquele que é desprovido de luz. Não concordo, mas , vejamos. Se é desprovido de luz, consegue, misteriosamente iluminar, por seus olhos, os olhos do Outro, este Outro que vem em suplência.





Aluno não é sem luz, mas , talvez pelo fato da transferência estar relacionada à saber - e este saber não quer dizer um saber intelectual, apenas - é importante que veja a luz no Outro, o professor. É aí que reside a luz do aluno: quando ele é capaz de dirigi-la ao professor, que, coitado dele, nada ou pouco sabe diante do desejo do outro, tal como o analista. Assim chegamos aos céus. Mas o tombo, o tombo é feio e previsível.






O tombo vem no momento em que o sujeito assume suas cores reais, ele é aquilo e não mais é recoberto pelo véu imaginário repleto das rendas mais belas e feito no tecido mais delicado. Somos xingados, expurgados, criticados, imitados ( e se algum professor acha que nunca foi imitado, sinto dizer, não existe professor que não tenha sido, uma vez na vida, imitado por seus alunos, seus trejeitos são meticulosamente estudados, talvez mais até do que a teoria que você tente trabalhar) ejetados da cadeira do suposto saber. Eis o tombo.





Alguém poderia perguntar se é possível escapar desse lugar tão instável, escapar desse movimento que, ora lhe condecora, ora lhe condena. Não. A resposta é não. Porque um sujeito será um Outro para outro sujeito ( mesmo que eu tente, é difícil deixar Lacan) e este Outro é repleto de todos os materiais possiveis à sua construção, menos os reais). Não se escapa à transferência, e a ela se deve, no mínimo, a aprendizagem da humildade, na aceitação da função-dejeto.






Nesse momento, lembro de Machado de Assis, que, se não nega a inevitabilidade do tombo, o minimiza em seu célebre aforismo: "Antes cair das nuvens, do que de um terceiro andar".









sábado, abril 10, 2010

Vinícius, a garota de Ipanema, e Freud: Um triângulo amoroso?



Não é novidade que um dos temas recorrentes nas canções do chamado movimento da Bossa Nova na música brasileira, sem dúvida, é a mulher. Este corpo moreno, cheiroso e gostoso que você tem sempre é cantado em verso e prosa também. Muita prosa , diga-se de passagem, se deve a Vinícius de Moraes, amante incorrigível, para quem o amor era sempre possível, mesmo que fugidio, mesmo que se tenha que buscá-lo repetidamente.


Poderíamos aqui tentar entender de que maneira a Bossa Nova cantou as mulheres, mas para isso é necessário que viajemos um pouco no tempo e no espaço. Rio de Janeiro, 1958, é lançado "Chega de Saudade", álbum de João Gilberto um tanto quanto inicial, como se fosse um esboço do que viria a ser este movimento que ultrapassou os limites da música, tornando-se estilo de vida, de comportamento.


Viajemos mais no tempo e na história de um dos grandes nomes da Bossa, o velho poetinha , já citado. Em 1933, O Caminho para a distância é lançado, sendo este o primeiro livro de Vinícius, então com 20 anos, composto de cerca de 40 poemas em que Religião e o conceito de Sagrado aparecem exaustivamente como temas corriqueiros, em relação á mulher, havia uma névoa cobrindo a imagem da mulher idealizada, posteriormente cantada em todos os seus atributos que não necessariamente incluem o sagrado, pois está mais para o profano.

Por ora vejamos esses poeminhas tão ingênuos, em que Vinícius retrata a figura feminina:


Aquela que dormirá comigo todas as luas

É a desejada de minha alma

Ela me dará o amor de seu coração

E me dará o amor da sua carne.


[...]


Ela é a minha poesia e a minha mocidade

É a mulher que se guardou para o amado de sua alma

Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.



Trecho de " A que há de vir"


Ainda podemos relembrar outro trecho interessante, agora do poema "A esposa":


Às vezes, nessas noites frias e enevoadas

Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos

Essa estranha visão de mulher calma

Surgindo do vazio dos meus olhos parados

Vem espiar minha imobilidade


[...]


E ela fica horas longas, horas silenciosas

Somente movendo os olhos serenos no meu rosto

Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.

Nada diz, nada pensa, apenas olha - e o seu olhar é como a luz.



Caminho para a distância já foi discutido aqui, em outro post, no qual trato especificamente deste livro, então, vamos atalhar. Em Para uma menina com uma flor, uma coletânea de vários trabalhos de Vinícius que abrange um quarto de século de atividade do poetinha, percebemos uma mulher mais libidinosa, luxuriosa, que em pouco ou nada lembra a devotada esposa, dos olhos caridosos com aspecto de cuidadora, de mãe-mulher.


Vejamos porque, em "Conto Rápido"


Todas as manhãs de sol ia para a praia , apertada num maiô azul.

Por onde passasse, deixava atrás de si olhares de homens colados a suas pernas douradas,

a seus braços frescos.

Os fornecedores vinham para a porta, os velhos para a janela,

as ruas transversais movimentam-se extraordinariamente à sua passagem cotidiana


[...]


O corpo era de vinte anos,

no entanto, os cabelos pareciam velhos,

mortificados de permanentes

e, faltava-lhe aos olhos verdes a luz da mocidade.


Em outro, Vinícius alude À mulher que veio das sombras, o trecho é de " A mulher a sombra":


A aurora é uma mulher que surge da noite,

de qualquer noite - essa treva que adormece os homens e os faz tristes.

Só a sua claridade é amiga e reveladora.

Ao poeta mais nobre não seria dado desvendá-la em sua humildade extrema.


[...]


A aurora dos que sofrem, a única aurora.

Aquela mesma que eu vira um dia, mas cujo segredo não soubera revelar.

Uma mulher que surge da sombra...



É , para o poetinha, o mesmo que conseguia ser doce e dedicar uma flor à uma menina que gosta de brigadeiro e que tem um andar de pajem medieval, a mulher é encantadora em seus dotes, em suas curvas, alucinante aos olhos do mais nobre homem, o poeta, confuso entre o entendê-la e o amá-la. Vinícius é o poeta do amor, mas, sobretudo, é o poeta das mulheres.


Se aos vinte anos, o poetinha carioca sonhava com a amada de sua vida, ela, única mulher que iria dormir todos os sonos de sua vida ao seu lado, cerca de 25 anos depois, torna-se mestre em odes ao feminino que não necessariamente rima com a "amada eterna e única". Ele mesmo, não contente com uma, teve nove esposas, para ele o amor era sempre mais, sempre poderia dar mais e, caso não estivesse dando, é porque não era mais amor, era preciso resgatá-lo, seja em que braços for.



Claro que em Caminho para a distância também constam alusões ao corpo feminino como fonte de prazer, os seios, os braços, as pernas, mas, ainda assim, isso é feito de maneira tímida, quase ingênua, ingenuidade essa que desaparece aos poucos na prosa madura de Vinícius.


O que vemos na Bossa Nova é uma reprodução de muitos textos e da prosa, agora cantada, de Vinícius , a mulher cheia de curvas é aquela garota que desfila em uma famosa praia carioca, a arrebatar os olhares de todas as gentes, seria ela a mesma moça do "Conto Rápido", aquela cujo corpo atraía para si os olhares de todos nos arredores?


Não podemos esquecer também do fato de que muitas canções de Vinícius tiveram co-autoria de Tom Jobim, outro grande apreciador da espécie feminina. Até hoje a tal Garota de Ipanema é alvo de curiosidade, e não há quem não a tenha feito o protótipo perfeito da mulher carioca, presente no imaginário social, continuamente referenciada em tantas outras canções, mesmo que não sejam mais Bossa Nova, o mito foi criado, a mulher carioca, a garota de ipanema, a mulher enfim, duas ou uma pessoa?


Acredito que a resposta não seja tão simples, mas podemos questionar uma coisa: nem uma, nem duas pessoas, mas um mito, algo que está para além do conceito de objeto de consumo, acredito que a mulher na Bossa Nova, estereotipou , em geral, a mulher brasileira, dotada de curvas e de um "nãoseioquê", também conhecido como "balacobaco" ou "ziriguidum" de que nenhuma outra no mundo parece ser provida. Devemos isso a Bossa Nova.


Ao fim de tudo isto e de tantas reflexões a gente pode dizer que a mulher, seja a mulher cantada aos vinte anos, ou anos 45, 50, é uma mistura, uma profusão de mistério , suavidade e candura, que, do mesmo modo que confundia a cabeça do velho Freud (não esqueçamos jamais do célebre continente negro!), mexia com a cabeça e com o coração ( porque poesia não é ciência!) de nomes como Vinícius.
Em Psicanálise, precisou Freud revelar que não entendia, não havia solução de se compreender a sexualidade feminina para que tantos outros também repetissem a mesma ladainha, o que gerou um certo estigma sobre o feminino dentro da teoria psicanalítica: E há de surgir aquele que a entenderá, aquele que desbancará Freud e finalmente retirará o véu que esconde a garota de Ipanema, ironicamente, tão descoberta em seu biquini ou em seu maiô azul?
Seriam duas pessoas diferentes, a garota da Bossa e a da Psicanálise? Se pensarmos em Freud, lembraremos do feminino quase sempre relacionando-o com as histéricas, Paris, Charcot e o hospital Salpetrière, mulheres neuróticas e recalcadas, mudas diante do poder fálico, a elas só cabia encenar.
Já a mulher da Bossa, a mesma garotinha encantadora de Ipanema, não parece nada recalcada, nada muda, ao contrário, "sua beleza é um avião, demais para o meu coração", poderia algum poeta comentar. Voltando ao poema da "Mulher e a sombra", verificamos que, engraçado, a mulher também não era tão entendida pelos poetas.
Será que Freud errou? Não era ele que alegava a superioridade dos poetas sobre os cientistas em relação a todo assunto que fosse ligado aos estratagemas inconscientes? Engodo.
Estes senhores tão devotados à figura feminina não saberiam tantas coisas mais do que os homens da ciência, a questão é que, o que velho Freud e seus seguidores tentaram fazer e teorizar acerca da mulher, não deu muito certo, o que nos deixa a alternativa descoberta por Vinícius : "Se não entendemos, que ao menos se cante sobre seus mistérios, mas não esqueçamos de seu andar, de seu requebrado".


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