segunda-feira, maio 23, 2016

Não empoderemos Rihanna!: sobre os riscos de entender o significante arbitrariamente

 Não é tão polêmico assim, como parece. Começo trazendo Lacan  para me justificar e, mais que, isso, me embasar:

O que, com efeito, constitui o fundo da vida, é que, para tudo que diz respeito à relação entre os homens e as mulheres, o que chamamos de coletividade, a coisa não vai, e todo mundo fala disto, e uma grande parte de nossa atividade se passa a dizer isto.

Lacan , Encore, p.46

Em tempos em que palavras como "empoderamento" e "coletividade" são proferidas por todos os cantos, cabe ressaltar que dentro de um discurso específico, esse discurso analítico que alerta sobre a equivocidade da linguagem, para o deslizamento que caracteriza o campo dos significantes, não faz sentido algum falar em coletividade quando se trata de homens e de mulheres, especificamente sobre relações entre ambos os sexos, entendidos aqui como efeitos de um discurso, como posições discursivas.

Isso me faz lembrar de uma entrevista que vi com a ótima autora que estuda o feminismo, Camile Paglia, quando ela desconfia de que existe um algo além no discurso de uma vítima de violência. Ela cita o caso de Rihanna, cantora famosa, bem sucedida, representação contemporânea do que "deveria ser uma mulher de sucesso” que se justificou em rede de televisão por ter perdoado seu agressor, seu controverso par, Chris Brown, dizendo apenas que ele precisava de alguém, que ele precisava ser cuidado.

Como explicar Rihanna? Acredito que não devemos tentar explicá-la, não devemos nem tentar absolvê-la por tê-lo perdoado, nem vitimizá-la apenas, vamos tentar ficar longe de qualquer resposta apressada, mesmo que hoje em dia isso seja quase impossível.

Como empoderar Rihanna? Como fazê-la a diva de si mesma? Como torná-la alguém liberta dessa relação opressora como alguns poderiam definir sua relação com o antigo namorado? Como enxergar Rihanna nesse caso de completa subserviência ao agressor? 

Penso que devemos ir além da simples e muitas vezes despreocupada menção de termos da moda para que possamos entender "coletividade" e "empoderamento" como aquilo que de fato são: nada mais, nada menos do que significantes, estes que são causadores de  efeitos de significado. 

Sendo assim, coletividade e empoderamento ou seja qual for a palavra, ela não significa nada sozinha. Coletivizar noções e fazê-las caber num lugar que não é capaz de comportar nenhum “ideal” é fazer nada, é ficar batendo a cabeça na parede, ininterruptamente. Coletivizar as mulheres não diz nada sobre A mulher. A correspondência entre o individual e o coletivo é bizarra sob o ponto de vista que trazemos aqui.

Partindo do que diz Lacan, é estranho dizer que se pode empoderar a mulher por muitos motivos, um deles seria que dar poder a alguém significa lhes dizer o que fazer, torná-la protagonista de sua própria história, torná-la “multiplicadora de si mesma” – outro dia ouvi isso de uma pessoa, o que me assustou. 
Dar poder a alguém não diz nada sobre entendimento de um discurso que é liame social, dar poder a uma, a duas mulheres,  não significa nada porque isso significa desconsiderar as tramas específicas de um discurso que marca lugares próprios para cada homem, para cada mulher. 

Não se pode dar poder a alguém tentando fixar modelos ou imperativos que são alheios ao que o sujeito é, ou seja, alheio ao que funciona em seu discurso.
 E isso quer dizer que ninguém jamais pode receber uma fórmula pronta, um “como ser” ou um poder que venha de um outro lugar, isso é quase perverso, arrisco. 

Curioso é que há uma necessidade de “fazer ver” “fazer o outro enxergar”. Não sei se isso é possível, não parece ser, não do ponto de vista psicanalítico, mas esse é somente mais um discurso, como tantos outros que vigoram por aí....logo, nada o torna aparentado ao que possa ser uma “verdade”, pois esta é democrática: a verdade não se mostra toda para ninguém, por isso que a gente tenta tanto explicar, dizer, empoderar...
Voltando à Rihanna, cabe também pensar o que significa esse “cuidado” do qual Chris Brown não pode prescindir, o que é isso que torna essa mulher tão emocionalmente  vulnerável a um espancador?

A quem cabe significar o que existe entre Rihanna e Brown? Ao coletivo? A mim, a você? Aos psicanalistas? Aos feministas? Não,  não cabe a ninguém. Os jargões midiáticos da vez podem ser fortes e cheios de impacto social, mas não podem alcançar nenhum lugar além do qual ele realmente pertence: o campo da linguagem.

Nada apaga a ideia de que o único lugar em que o significante se presta a ser alistado é o dicionário. No discurso dos sujeitos o significante é convocante, causa efeitos, causa significados polissêmicos. O significante não é pedra, ele é lodo e é feito pra escorregar. Para nos fazer escorregar e com isso revelar a banalidade que nos constitui. 

“Coletividade”, “Empoderamento” “Protagonismo”, you name it, são apenas significantes que, sozinhos, não querem dizer absolutamente nada, pois só fazem sentido dentro de um discurso representante de um liame social, essa ligação, esse liame com o outro não é outra coisa que a relação que cada mulher mantém com um homem dentro de uma realidade que também não pode ser outra que não discursiva.

O problema está justamente encrustado na fácil solução da receita do bolo, em tomar o significante como algo totalmente desencadeado de um discurso, é tornar o significante pedra, quando na verdade ele é líquido, escorradio e por isso, perigoso, pois é na sua queda que podemos pensar em talvez entender certas relações que se fundam em violência, em abusos. Tomar o significante como significado é erro, e desse erro podem nascer as mais terríveis soluções. Ser mulher é ser qualquer coisa dentro de um discurso que só faz sentido para aquela mulher, por isso o significante não é arbitrário, mas, ao contrário disso, é perfeitamente encadeado dentro de uma rede de sentidos que só fazem sentido para uma mulher, eis outro império que cai: o do significado unívoco. O singular jamais será definido pela invasão coletiva, por mais boa vontade que haja entre aqueles que desejam empoderar. Não é tão simples assim.

Portanto, penso que não vamos conseguir empoderar Rihanna, também não devemos julgar “a mulher sem açúcar” que apanha dia útil e que é alisada em dia santo, tal como Chico a descreveu.  E nada disso que estou dizendo significa ser conivente com qualquer violência – se você entendeu isso, leia de novo, sugiro recomeçar a leitura agora. Não seremos nós as testemunhas silentes diante do apedrejamento de Geni. O que estou dizendo tem a marca de um discurso que não ignora o inconsciente.

A mulher não existe e qualquer tentativa de empoderá-la que ignore o discurso que tece seu lugar em uma relação com o masculino se transforma num redundante fracasso.

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