Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

terça-feira, julho 15, 2014

E nos começos era o amor , de antes?

" Passadista, indiferente ao novo, alguém que perdeu toda a capacidade de se admirar, eu protesto: não, nem tudo era agradável antes, nem tudo é abominável hoje. Isso não me impede de comparar, e toda comparação implica sempre o risco de contrapor o bom ao mau, o melhor ao nem tão bom"

J-B. Pontalis

Essa é uma das muitas passagens marcantes de Quando ( Primavera Editoral, 2013) da autoria de  J-B. Pontalis. Esse livro faz parte de uma série de outros escritos em que o autor se aventura em uma nova empreitada: não se trata de um livro técnico, também não se pode dizer que seja uma autobiografia.

Na verdade se trata de uma espécie de reunião de textos esparsos que o autor produziu durante sua vida e que em algum momento traz um ou outro relato sobre sua forma particular de ver o mundo, mostra um pouco de suas experiências pessoais. 

Pontalis fala de alguns amigos, de Psicanálise e de seu país, revela suas impressões acerca do mundo e, claro, seu interesse em revisitar o passado, mas não com um intuito saudosista, escrito com a pena da melancolia, longe disso, ao julgar pela frase que lhes trouxe no início desse texto, Antes não pode ser considerado uma ode ao passado motivado por um tolo sentimento nostálgico qualquer.

Para o leitor ocasional, Antes parece um passeio pelas reminiscências de uma cidade que não existe mais, por encontros com pessoas que foram parte da vida do autor, em especial. É quase, como disse, um relato autobiográfico, mas não se trata somente disso, veremos que o que une os textos escritos em uma linha cronológica tão irregular é justamente o interesse do autor em não fazer do passado um tempo findo, do mesmo modo, o futuro não daria todas as respostas que se procura. A solução seria justamente o que propõe em uma dos textos desse livro: não retalhar o tempo, vivê-lo assim, todo.

Pensando desse modo, o cronômetro, a linha cronológica, o caléndario e o relógio nada mais fazem do que nos mostrar isso: que o tempo possui esta inexorável função de ser passado, esses objetos que a humanidade criou servem apenas ao corte, ao retalhamento da experiência. A areia da  ampulheta lentamente se esvai para o compartimento inferior e isto é, desde os tempos mais antigos, sinal de que o tempo não espera por ninguém, o tempo tem em si mesmo o trabalho de correr.

Pontalis nos apresenta em "Quando", a crônica que abre Antes, um tempo em que tudo parecia mais fácil, menos politicamente correto, um tempo em que ia " a Rolland Garros assistir às partidas de tênis e os jogadores se vestiam de branco, não exibiam os punhos como se fossem atingir o adversário, e os espectadores, atentos e silenciosos, não vociferavam do alto das arquibancadas" (p.9), ou mesmo um tempo em que " meu pai estava ao meu lado, quando todos os meus amigos, todos aqueles que eu amava, estavam vivos" (p.11). Esse texto talvez seja um dos mais nostálgicos de todos presentes nesse livro, na minha opinião o mais bonito, desses que a gente leva com a vida, como um belo presente que somente a gente pode abrir, não importa quantas vezes eu o leia, para mim parecerá sempre muito bonito. No entanto, não se trata apenas de nostalgia.

Muito embora o autor conceba a memória como uma "bolsa de mulher", onde cabe de tudo, desde itens indispensáveis à itens fúteis,os relatos não marcam essa posição de que o tempo de antes era melhor, não se trata disso. Trata-se de conter todas as idades, em esquecer o que marca o tempo, portanto, quebrem ampulhetas, destruam o calendário, porque quando se trata de uma existência, a linha cronológica não é suficiente.

Não seria por acaso essa recusa de Pontalis em retalhar o tempo. Vejamos o que é típico da experiência analítica: passado, presente e futuro se confudem e não obedecem a nenhuma lógica temporal.

Freud nos ensinou que somos todos neuróticos, psicóticos e perversos, todos, sem exceção, marcados pela ferida desse tempo que insiste em cristalizar nossas esperanças. Sofremos de excesso de passado e de ânsias de futuro. Sofremos, porque o tempo não passa no inconsciente, o tempo é essa ferida sempre aberta que nos revela o quanto podemos ser ilógicos. Tomemos a experiência do sonho como um protótipo do funcionamento do inconsciente.

Desde Traumdeutung  sabemos que o funcionamento do inconsciente não se submete às leis que criamos para contar o tempo. Dito de outro modo, o inconsciente não responde ao retalhamento do tempo, ao movimento da areia dentro da ampulheta. No sonho o passado volta como esse fantasma que nos espreita e nos atinge a cada vez que dormimos. Somos guardados pelo sonho, mas, ao mesmo tempo, somos assombrados pelo tempo que não parece varrer o que é mais importante.

"E  o agora é agora. E agora é hoje, ontem e amanhã. Nós, os humanos, sentimos e acreditamos que o tempo passa, alegamos que ele corre e, quanto mais envelhecemos, mais depressa ele se vai. Mas o Tempo (assim, com maiúscula) ignora que passa, é imóvel, não tem idade"(p.18)

Esse pequeno trecho de "Quando" nos mostra a premissa básica que temos diante dos olhos e com a qual devemos ler todo o restante dos textos reunidos no livro. Em outra crônica, "Travessia", o autor nos relembra a saga de Ulisses e de sua eterna Penélope, a espera, a fiar e desfiar um tecido para enganar o tempo, para matá-lo. Isso me lembra Machado de Assis, e o seu "Matamos o tempo, e o tempo nos enterra". 

A vida como travessia, parece não existir metáfora mais bela do que esta, estamos a atravessar mares, a vencer monstros, a resistir às sereias de belas vozes para, enfim, nos reencontrarmos, de volta à Ítaca particular de cada um.

No texto "Origens", Pontalis nos guia pela mão e tenta explicar o antes onde não há antes, onde havia uma certa origem. Voltando à história da teoria psicanalítica, o autor nos lembra que Freud era um entusiasta da arqueologia e faz da própria invenção uma empreitada arqueológica, "sem regressão, nenhum avanço é possível" (p.71). Também faz uma breve alusão à Etiologia como o ramo da ciência que se debruça sobre as causas. Seria causa o mesmo que origem? Talvez esse seja um dos questionamentos mais interessantes desse texto.

Segundo o autor, causa e origem diferem entre si, uma vez que a primeira pode estar afastada do evento que ocorre, por exemplo, causas de uma guerra, de uma revolução não precisam estar alinhadas no mesmo tempo, podem configurar épocas diferentes. Já a segunda, esta seria a causa das causas, ou a origem que escapa ao retalhamento do tempo. Para Pontalis, assim, a origem seria um antes que não tem antes. Mas, e antes? A angústia?

Não sabemos o que o tempo quer de nós, mas sabemos que é próprio da vida passar. E é isso que temos, tudo o mais está na origem e está na angústia. Não foi isso que aprendemos com os fenomenólogos? Com Russerl e Heidegger, quando estes concebem que o verdadeiro propósito da vida é a morte em si e isto seria a maior das angústias?

Sabendo disso
, portanto, parece que a angústia prenuncia uma vida que fatalmente irá passar, mas podemos nos recusar a retalhá-la, podemos rechaçar as idades e vivê-las todas em uma só, essa é a proposta de Pontalis. Apesar disso, fica a dúvida, sem o retalho do tempo, das idades, dos relógios, estaríamos imunes à angústia?

"Nossas vidas, uma agonia adiada" (p.72). Parece que o prognóstico não é bom, não há como escapar à angústia ou ao tempo que se retalha, mas há, há sim como buscá-lo nos começos. O que há, então, nos começos?

Nos começos há olhares, há mãos que se entrelaçam, há pôr-do-sol, há belas canções. Para Pontalis, nos começos, há o amor. O amor é isto que adia a agonia, é isto que ao invés de paralisar o tempo, brinca com ele, diverte o tempo.  O amor dos começos é o que nos permite sonhar e viver o tempo todo ele em várias idades. 

E nos começos é o amor de todas as idades em uma só. Eis aí o que Pontalis nos ensina, portanto, vivamos todo o tempo, sonhemos que podemos contê-lo.



segunda-feira, fevereiro 13, 2012

"The artist", voz , barulho e silêncio


Arrasando em todos os prêmios do ano, o maravilhoso "The artist", idealizado por Michael Hazanavicious, tem sido motivo de muitos comentários no meio cinematográfico atualmente. Polemizado por muitos, o filme resgata o glamour da era de ouro do cinema Hollywoodiano com delicadeza e simplicidade.
Trata-se da história de um ator de cinema mudo que passa por turbulências em sua carreira motivadas pelas mudanças na indústria da sétima arte empregadas com fins mercadológicos e políticos.
A saga de George Valentin que encarna o protagonista vai do estrelato ao esquecimento, do glamour à tragédia. Um ator com ótimo tempo para a comédia que não parece imitar os astros dos outros tempos; ao contrário, torna nostálgico qualquer cinéfilo que acompanhou as desventuras de Fred Aistaire na grande tela. O roteiro já ganhou o prêmio Bafta, acompanhado do figurino e da fotografia. O filme - ninguém duvida - será a sensação do próximo prêmio da academia, o famigerado Oscar, da cabeça aos pés decidido politicamente que parece que vai se render ao clima nostálgico que "The artist" provoca: uma curiosidade para quem ainda não viu: o filme é mudo.
Esse é o ingrediente indefectível do filme, talvez o ingrediente mais arriscado que Hazanavicious não pareceu temer: em plena era do 3D e das reprises de grandes clássicos do cinema moderno se adaptando a esta nova tecnologia, "The artist" é um filme mudo, em preto e branco, que gasta seus minutos para contar uma história que não apresenta tanta novidade: um amor, muitos obstáculos, sucesso, comédia e ação. Até então, nada novo no front e é exatamente isso que seduz tanto.
Se não há novidade, poder-se-ia perguntar: então estamos voltando ao passado? Dispondo de tanta tecnologia , em plenos 2012 um diretor francês resolve testar a inteligência e a paciência do espectador ao submetê-lo a esta história que, como já disse, não revela nenhuma novidade.
A questão não é puramente nostalgia, o filme é bom como seria nos anos 20; uma história verossímil, um roteiro sem defeitos que leva o espectador a experimentar as mais diversas sensações. É nisso que "The artist" consegue ser genial. Mas há outro fato a se comentar: a impaciência contemporânea.
Em se tratando de um filme mudo, algumas pessoas - desconhecendo a sinopse - resolvem, em uma atitude que lembrava o repúdio, abandonar a sala de cinema. Presenciei na noite em que vi o filme mais de cinco pessoas deixando a sala ao entenderem que não haveria voz na produção francesa. Ironicamente, o filme também trata da questão do silêncio em seu roteiro, mas é interessante fazermos aqui um paralelo cabível.
Se na tela, o que presenciamos é o auge e a decadência do cinema mudo através das produções da fictícia "Kinograph", o incômodo que causa a mudança do sucesso garantido do cinema que se satisfazia com a mudez, para a aposta no escuro nos novos filmes falados; o que se passa do outro lado do ecrã é o oposto: a mudança provocada pelo incômodo silêncio que atualmente se encontra cada vez mais fora dos planos da sociedade contemporânea, tão bem representada pelas super produções hollywoodianas repletas de efeitos especiais os mais barulhentos possíveis.
Bem dizer estamos na era do barulho, mesmo que não se esteja falando de barulho físico, do som estridente, estamos na era da "onipresença", em que as pessoas usam redes sociais como diários de uma vida, com um roteiro pré-estabelecido do qual todos devem saber/seguir/acompanhar.
O silêncio, nos dias atuais é quase uma ofensa, é repulsivo. Como podemos tolerar um filme mudo se não toleramos o próprio silêncio? O mais puro silêncio é feito de incômodo que nós, seres contemporâneos, visamos incessantemente tamponar. Por acaso não estamos falando aqui de subjetividade? Perdi o bonde ou estou falando algo coerente?
Na falta de uma resposta e de leitores, arrisco - parcialmente - a dizer que estou chegando em um ponto interessante: o silêncio insuportável para muitos que deixam a sala de cinema em "The artist"é o mesmo silêncio intolerável que se evita quando se inunda o mundo de palavras, de caracteres, como queiram.
Nossa relação com o silêncio sempre será problemática enquanto não buscarmos compreender o que não cessa de tagarelar internamente e que, no entanto, não estamos dispostos a escutar; fazemos barulho para tamponar o barulho que não cessa, parece contracenso, parece loucura, mas não é de um todo incoerente.
Fazemos tanto barulho numa espécie de competição sobre quem fala mais alto: eu ou esse isso que me atormenta tanto aqui do lado de dentro. A metapsicologia de Freud foi uma das primeiras tentativas de se dar voz ao que tagarelava indiferente dentro de nós. A chamada "Cura pela fala" permitiu que soubéssemos vislumbrar o que havia de tão estridente nos porões de uma mente que não se deixa conhecer. A ladainha freudiana sobre o silêncio e a voz é antiga, tem mais de cem anos e continua a impressionar.
Da mesma forma que as pessoas não dão uma chance a um filme mudo, ou não parecem dispostas a dar, elas não se tornam nem um pouco mais afeitas a deitar num divã e vasculhar os lugares mais barulhentos do lado de dentro. Isso é fato. Não precisamos falar do que está calado, mas , será que está mesmo calado? Entre escutar - e para isso é preciso silêncio - e agir (passar ao ato), nos dias de hoje se torna mais interessante agir. A ligação entre filme e o trabalho psicanalítico me parece pertinente agora.
Como este não é um post sobre o filme, mas o usa como pretexto, não poderia encerrar sem lembrar do que ouvi, dos comentários após as luzes se acenderem. Um é digno de nota: ao ser perguntada sobre o filme, se havia gostado do que vira, uma garota respondeu: "Er, é assim né, é todo mudo".
A expressão de desgosto parecia evidente no rosto da menina. O julgamento simples sobre se tinha apreciado o filme ou não foi respondido desta forma. Cabe também mencionar que, nesta mesma sessão, telefones celulares tocavam e as pessoas calmamente respondiam - o que nem sempre acontece, pois no cinema todos costumam olhar com desprezo para aquela pessoa desligada que esquecera o celular ligado. Isso me faz entender que as pessoas imaginavam que não seria tão mal educado assim deixar o celular tocar e pior, falar ao telefone, durante um filme mudo, pois não haveria prejuízo algum no acompanhar das cenas, da trama. Mais um erro.
É. O post não é sobre a trama, os atores, os diretores e todo o pessoal que tornou possível "The artist", é mais sobre as pessoas sentadas numa sala de cinema não suportando estar vendo um filme mudo. E isso dá tanto pano pra manga...

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Um vencedor




Considerado o melhor filme documentário no Brasil no ano de 2011, Senna (2010) não nos mostra nada de inédito, mas tem o mérito de nos relembrar certas lições que aprendemos com um dos maiores ídolos que o Brasil já conheceu.



Acompanhando os passos de Ayrton Senna, piloto nascido em 21 de março de 1960, o documentário revela o submundo do automobilismo, antes mesmo de toda a parafernalha eletrônica tomar conta da F-1, tornando o esporte, no mínimo , chato, asséptico e previsível. Antes de Schumacher existiram algums ídolos dos quais poucos esquecem.


Senna vale ser visto e revisto por todo aquele que deseja entender melhor como alguém pode vencer mesmo diante de diversidades. Diante da politicagem que já corria solta no mundo perfeito imaginado pela FIA, diante de inimizades, inveja e injustiças, Ayrton Senna mostrou perseverança, obstinação e firmeza, qualidades tão em falta nos dias de hoje, nos ídolos atuais.



Inúmeras são as passagens mostradas pelo documentário nos quais percebemos a garra que fez de Ayrton um campeão. Longe do cenário bizarro que envolve os grandes nomes do futebol atualmente, longe das baladas, das mulheres-fruta, dos anabolizantes , drogas e álcool, Ayrton Senna deu uma lição de como insistir em um objetivo.



Quando perguntado sobre o que a vitória significava para ele, Senna costumava dizer que esta era como uma droga, uma vez vencendo, difícil seria deixar de se levar pela busca dessas sensações que envolvem coragem e firmeza. Só não concordo com o campeão sobre sua opinião a respeito da similaridade entre droga e vitória: Ao contrário da vitória, a droga tira a coragem e destrói. Uma vitória prepara para a próxima.



Apesar de ser um ídolo esportivo, Senna teve um importante papel para a auto-estima do brasileiro que, nos anos 90, via em seu campeão o único motivo de orgulho da nação. Um país soterrado por uma inflação gigantesca, um povo miserável que tinha nos domingos a possibilidade de esquecer um pouco a miséria em que vivia para torcer pelo ídolo que, apesar de ter origem abastada, nunca esqueceu de revelar a qualidade mais rara encontrada nos seres humanos: humildade.



A história nos leva aos três campeonatos mundiais para nos guiar, finalmente, para a curva final, no famigerado GP de Ímola, onde Senna perdeu a vida, apesar de seus pressentimentos. Espiritualidade também marcou sua vida e nos faz entender melhor quem foi essa pessoa que deixou o mundo no auge de seu sucesso.



Passaram-se quase 18 anos e Senna continua presente em cada homenagem que se faça a sua garra e determinação, tão em falta hoje em dia. Achei que este seria um bom motivo para escrever: um ano gastando seus primeiros dois dias, as pessoas pensando no que fazer para viverem melhor e uma lição nos ensinada sobre humildade, generosidade e persistência.



Para mim alguns aprendizados para toda vida: não existe o impossível, apesar de ser clichê, poucos de fato acreditam que podem fazer a diferença, não existe o incompreensível e não existe dificuldade nenhuma que a força de vontade não vença. Coragem, coragem.




sexta-feira, dezembro 23, 2011

Poeminha quase casado*





Porque você é um menino com uma flor, e tem uma voz tão doce e bela, eu lhe prometo amor mais que eterno, pois é amor que não se contenta com a eternidade de um mundo só, pois quer outras para ser bem mais eterna.

Porque você é um menino com uma flor, e tem esta voz tão doce que dá certinho com estes olhos teus que são tão profundos, é que eu te prometo o amor mais belo, mais de uma beleza tão vistosa que a própria beleza se esconde de tão feia que é, perto da beleza deste amor que tenho.
Porque você é um menino com uma flor, que tem uns cabelos brilhosos e usa um shampoo que eu escolhi e que cheira tão bem como você.


Porque você é um menino com uma flor, porque constrói carro de lata e faz dela nascer arte, e se admira com a própria criação.

Porque você é um menino com uma flor, que sabe cantar bossa nova até com os olhos, os que já disse serem tão profundos, porque choram bem raramente, mas quando choram é um choro assim muito sincero que eu quero logo enxugar.
Porque você é um menino com uma flor e diz coisas tão sérias, e sabe coisas tão sérias, é que bendigo todo este amor.
Porque você faz o bem mesmo que não goste de ser chamado de bom, porque se importa com os outros, porque me escuta e me diz somente para me acalmar.
Porque você é um menino com uma flor e transborda lucidez e serenidade, porque você preza o equilíbrio e porque é libriano.
Porque você é um menino com uma flor e tudo que faz é perfeito: com arte, música e amor.
Porque você é um menino com uma flor e me ama como ninguém jamais me amou.
Porque você é um menino com uma flor, e me prometeu um livro, uma máquina de fazer poesia, e me escreveu " a face pintada" é que você é um menino com uma flor.
Porque você é um gênio dentro de um menino, mas com uma flor, é que adoro sempre este amor e por mais que muitas vezes não saiba compreender o tamanho deste amor, eu nunca o digo menor, porque isso seria mentira.
Porque você é um menino com uma flor eu me torno, a cada dia, uma menina, com outra flor.
E por estas e outras eu te amo calma, linda e profundamente.


















*Poema descaradamente inspirado em Vinícius de Moraes (Para uma menina com uma flor)

sexta-feira, novembro 18, 2011

O que aprendi com Lévi Strauss sobre o meu país




Foi nos idos de 2009 que entrei em contato com Lévi Strauss. Acidentalmente, devo dizer. Foi quando ministrava uma disciplina chamada "Antropologia empresarial". Parecia que havia um desinteresse geral pela temática o que ocasiou o tal acidente: Lévi Strauss surgiu para mim. Como o nome já diz, seria uma disciplina em que haveria a aplicação da Antropologia, campo de estudos no qual o pensador de origem belga se destacou, à Administração.




Depois de um certo tempo, tive outro encontro intelectual com o autor de origem belga. Foi assim então que, apesar de não ter lido seu famosíssimo Tristes Tópicos, resolvi ler Longe do Brasil (UNESP, 2011). Trata-se de uma entrevista concedida à Véronique Moraigne em 2005 e publicada no jornal francês Le Monde.




Neste pequeno livro que se lê literalmente em duas horas, encontra-se um prefácio tão interessante quanto o seu conteúdo restante. Escrito pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, o prefácio a que me refiro anuncia o que vai se constatar na leitura da entrevista: Um Lévi Strauss lúcido, apesar de seus quase 100 anos, relatando como sua experiência no interior do Brasil foi fundamental para sua carreira de teórico. Digo mais, Lévi Strauss, com a lucidez e a coragem que só a idade e a proximidade da morte permitem, consegue definir sua experiência brasileira como algo fundamental em sua vida, em geral.

Sabe-se que o pensador em questão esteve no Brasil e aqui embrenhou-se pelas bandas do interior do país buscando conhecer as comunidades e os hábitos dos brasileiros situados nos mais longínquos cantos desse país de dimensões continentais. Vale dizer que na década de 30 a condição de precariedade em que se encontrava o país não se compara ao que vemos atualmente.

Lévi Strauss, foi, portanto, um desbravador, alguém que, não sabendo bem o que de fato fazer, foi capturado pelos povos que visava estudar. Por isso fez anotações, publicações, fotografias no intento de conhecer melhor todas as peculiaridades que esses povos apresentavam aos seus olhos europeus.

Lévi Strauss, em sua experiência brasileira, não gostava muito de fotografias, acredita que estas tinham alguma importância, mas, do mesmo modo, poderiam distraí-lo e afastá-lo do seu real objetivo que seria entrar em contato com o que se apresenta diante da lente da objetiva. Ao observarmos o relato desta experiência que marcou a juventude do teórico e o alçou a uma popularidade sem precedentes na França e resultou na inauguração do que hoje chamamos de "etnografia" ou relatos etnográficos, percebemos que o pensador hoje cultuado por uma série bem variada de intelectuais, estudantes de várias áreas do conhecimento, se encantou com o povo brasileiro, foi capturado, por assim dizer, pelo encanto do Outro: eis uma bela lição de contato com a alteridade.

Se para alguns o Outro ameaça, para Lévi Strauss, o Outro ensina, promove desterritorialização, a qual tantas vezes já citei aqui. Como perceber o contato, o diálogo e a convivência entre um teórico europeu e os povos erroneamente chamados de primitivos? Melhor dizendo: existem culturas inferiores?

A estes questionamentos certamente não poderemos responder sem aludir à Lévi Strauss e sua experiência marcante nos anos 30. Interessante é que Longe do Brasil também relembra o fato de que o pensador francês retornou ao Brasil, em 1985, fazendo parte de uma comitiva do governo francês.

Nesta última ocasião, neste último encontro ou (des) encontro com o Brasil, percebeu que muita coisa mudou; que o país que outrora conheceu já não é do jeito que o encontrou, pela primeira vez. E continuou pensando sobre isso, o que, inevitavelmente, nos faz pensar também, não seria este o papel fundamental de todo pensador, a produção do insight?

Longe do Brasil é um livro tocante que nos revela a importância do nosso país para a construção de um campo de conhecimento; o livro também nos mostra quem somos, assim como os outros livros do autor sobre o tema. Livre de qualquer exagero, acredito que somente um olhar distanciado e ao mesmo tempo implicado poderia nos oferecer uma visão tão apurada de nós mesmos, nós, como povo e nação.

Eis uma das variadas lições que lévi-straussianas. O teórico, com a paciência que é uma dádida velhice, responde sobre o futuro:



"Estamos num mundo ao qual já não pertenço. o que conheci, o que amei, tinha 2,5 bilhões de habitantes. O mundo atual conta com 6 bilhões de seres humanos. Ele não é mais o meu. E o do amanhã, povoado por 9 bilhões de homens e mulheres - mesmo se for o pico de população, como nos asseguram para nos consolar - , proibe-me qualquer previsão..."




Se ao menos Lévi Strauss imaginasse que apenas em seis anos aumentaríamos nossa população em mais 1 bilhão... A velhice nos permite certos privilégios, um deles é a sensatez e , sobretudo, a licença de não termos respostas para tudo que nos perguntarem.
















sábado, outubro 29, 2011

Feminino: arte & revolução: um aporte psicanalítico










Se eu for pensar em quantos posts já dediquei a livros e a filmes que me marcaram, que trouxeram algum conhecimento, que, enfim, me mobilizaram e inspiraram, certamente perderia as contas. Por este motivo, pensei em adicionar à coleção o meu próprio livro, aquele que mobilizou, inspirou e inspira minha vida, ao menos minha vida como pesquisadora.

Penso que não há ninguém melhor, e ao mesmo tempo, ninguém pior do que o próprio autor para analisar sua obra, dizer algo sobre. Sendo assim, não pretendo aqui fazer uma defesa apaixonada do meu projeto que durou, ao todo, quase cinco anos para se materializar, tampouco espero estar imune a algum sentimento de orgulho que de fato sinto, por ter conseguido realizar este desejo.

Para Lacan, em seu seminário sobre a Ética, não existe nada mais perigoso do que realizar o seu desejo. Para este autor, parece que realizar um sonho ou um desejo significaria, necessariamente, realizá-lo no fim de tudo, ao apagar das luzes. Por isso, então, "realizar um desejo" seria o mesmo que "realizar , no final". Ainda sobre o desejo, lembro de Zizek - um filósofo que dialoga com a Psicanálise lacaniana - falando sobre o caráter paradoxal que envolve desejo/sonho e felicidade. Para o autor esloveno, realizar um desejo seria, de saída, abrir mão da felicidade.

Sendo assim, das duas uma: ou você é feliz, ou realiza seu desejo. Esse caráter perigoso do desejo está tanto em Zizek como em Lacan, e perpassa, em geral, toda a ideia psicanalítica de subjetividade. Aí entra o mote para o meu livro: Feminino, arte & revolução: um aporte psicanalítico (Edufal, 2011) que fala sobre esses desejos que , via de regra, nos mobilizam e geram inquietações, construindo nossa identidade. Este livro, cabe dizer, foi o resultado de minha dissertação de mestrado realizado em São Leopoldo-RS.

Busquei aliar meu interesse pela subjetividade feminina ao diálogo com as artes, porque sempre acreditei no que Freud dizia a respeito do pioneirismo da arte nas questões do inconsciente. Porém, não necessariamente poderia fazer esta relação livremente, por exigências acadêmicas as quais, não retiraram todas as minhas esperanças deste intento.

Entendendo a subjetividade feminina como uma invenção, tal como Lacan desenvolveu, percebi o conceito de mascarada como uma possibilidade criativa diante da falta de referência na construção da identidade feminina e me coloquei à disposição do tema para que ele demolisse meus próprios paradigmas, me levando ao meu desejo, e não a minha felicidade. Estranho? Sendo um livro acadêmico, nascido de exigências igualmente acadêmicas, a ideia que norteou o projeto foi falar, mesmo que de maneira indireta, da arte feminina em fazer-se mulher e para tanto é necessário revisitar os autores, os teóricos que respaldaram o projeto.

No entanto, em poucas palavras, o que busquei entender - e por isso, me senti mobilizada - foi como esta construção de identidade se dá no contexto cultural atual, como as mulheres se tornam mulheres? Além da ultrapassagem do Édipo, da constituição da feminilidade através de amigas e de outras mulheres, como a mulher, hoje, se torna um sujeito, apesar da ausência do significante da feminilidade?

Leituras sexistas à parte, meu interesse foi me sustentar em quem primeiro falou sobre o tema, Joan Riviére e Lacan, para que, de fato, fosse possível pensar nas reconstruções que a mulher faz diante das exigências dos tempos atuais, a saber, a obediência irrestrita e geradora de ansiedade ao tripé " beleza-juventude-magreza", aos novos ideiais que apregoam a liberdade, a livre disposição dos sujeitos, toda a parafernalha científica-midiática que torna a mulher uma outra mulher, porque se reinventa hoje não mais como se reiventava ontem, seguindo referências outras.

No fim dessa discussão teórica surge o discurso das próprias mulheres que hoje tentam e criam a sua verdadeira "arte e revolução" diante dos ideiais contemporâneos. É preciso dar-lhes fala, tal como o fez Freud, desde as suas histéricas.

Até este ponto, talvez não saibamos o que isto tem a ver com o desejo, com o desejo feminino, mas, acredito que há uma relação quando começo esse texto falando do meu desejo que foi realizado, no fim. Desejo de pesquisadora de entender como se dão todas essas questões que, invariavelmente, também são minhas. No fim , realizei um desejo?Não sei, mas desconfio da face mortífera deste: pois só me vieram mais perguntas ao invés de conclusões sobre tudo isso que tem relação com a mulher e com sua subjetividade.

Realizar um desejo no fim, é saber que não há fim para um desejo, pois este continua nos guiando, por onde bem entender, assim é o papel do pesquisador que deve abandonar as ideias ingênuas que poderia ter sobre neutralidade. Esta não existe. Gosto muito de um trecho que escrevi neste livro, justamente falando da minha incapacidade de ouvir tudo isso incólume:

" [...] escutar é, necessariamente, dar forma aos próprios fantasmas; aquele que escuta não está imune ao que se lhe apresenta como queixa do outro e é neste ponto que se faz a dificuldade e também o motor, a mola propulsora desta empreitada"

Quer saber? No fundo, no fundo, pesquisar é nunca realizar o seu desejo. Porque isso nunca termina.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Um conto chinês ou até onde a alteridade nos conduz



Um argentino ermitão, um chinês perdido e uma mulher apaixonada. Essas são as personagens centrais de Un cuento chino (Argentina, 2011). A trama busca lançar luz sobre um relacionamento insólito mantido por acidente entre Roberto (Ricardo Darín, de O segredo de seus olhos, Abutres e O filho da noiva) e Jun (Ignacio Huang).

Darín, que consegue ser unânime em críticas quanto a sua vibrante e precisa atuação, vive uma personagem solitária, imersa em um mundo obsessivo em que não se come os miolos dos pães. Roberto é dono de uma pequena loja de ferragens a qual, herdada de seu velho pai, serve de palco para muitas atitudes típicas de um verdadeiro rabugento, como, por exemplo, maltratar clientes que buscam parafusos.

Roberto, apesar de suas próprias manias, herdou outras de seus pais: costuma colecionar notícias de jornal que guardam em comum o fato de serem estranhas: a prova da hipótese de Roberto de que a vida não faria o menor sentido. É com esta certeza que Roberto coleciona recortes de jornal que comprovam a veracidade de sua hípótese, mas o estranho hábito vai além: é através do mergulho nas vidas alheias, desconhecidas, que Roberto consegue dar um sentido a sua própria vida: aí está o paradoxo: é tentando obsessivamente provar que a vida não tem o mínimo sentido que Roberto vai reunindo e colecionando sentidos para sua , uma motivação que o faz acordar todos os dias e apagar a luz de seu quarto, indefectivelmente, às 23 horas da noite.

Tão sem sentido como as notícias bizarras colecionadas por Roberto é a vida do chinês Jun, perdido na Argentina desde a tragédia que matou sua noiva: um desastre insólito, um fato considerado por muitos improvável, bizarro: eis que surge, do alto do céu, uma vaca a mugir que acaba atrapalhando o pedido de casamento que Jun faria à noiva, que não resiste à pesada vaca. Assim a história começa e também começa a relação estranha mantida entre Roberto e Jun.

Apesar da incompreensão entre os idiomas, os hábitos e culturas tão diferentes entre Argentina e China, Ún cuento chino vai além do óbvio: o que está claro no filme - e esta deve ter sido a verdadeira intenção de seu realizador Sebastián Borensztein - é que para além dos idiomas é a própria subjetividade que afasta e ao mesmo tempo une as pessoas.

O atrapalhado chinês que não consegue pronunciar sequer o nome de Roberto , estranha não só a sisudez do anfitrião argentino: estranha-lhe os hábitos, o gosto pela comida, a casa, os recortes. O belo e simples filme nos mostra nada de novo e, ao mesmo tempo, nos coloca à frente uma verdade que parece sempre inédita: o Outro nos constitui e nos dá um lugar em seu discurso, e por isso existimos, é através do olhar do Outro, representado pelo chinês que "é limpo, calado e colaborador", que Roberto consegue encontrar um sentido em sua vida tão perpassada pela própria incapacidade típica dos obsessivos de lidar com os sentimentos.

O pobre e inadequado chinês ensina a Roberto coisas sobre sua cultura, sua gente, sua língua , mas ensina, sobretudo, lições sobre os sentimentos e como estes podem ser acessados: solidariedade, compaixão e agradecimento estão presentes neste sensível filme como se fossem lições das quais Roberto deveria entender. Apesar das confusões entre as línguas e da necessidade de tradutores, Jun e Roberto se entendem pelo fio mais tênue que os liga à vida: o insólito e trágico acidente com a vaca e sua consequência, o não menos insólito encontro entre o argentino solitário e rabugento e o chinês sensível e observador.

A pista sobre o que de fato está em jogo neste filme é-nos jogada pela personagem de Muriel de Santa ana, Mari, de quem Roberto não consegue se aproximar da maneira como deveria segundo os próprios sentimentos. Mari insiste, convida e oferece afeto à Roberto que, diante disto, não consegue expressar nada além do que uma cansativa e obsessiva educação. Enquanto isto, Jun consegue comprender bem o vínculo afetivo que existe entre o novo amigo e a moça romântica, mesmo sem falar uma palavra em espanhol.

O filme gasta seus quase noventa e quatro minutos falando, inclusive nas entrelinhas, de como precisamos do olhar do Outro, esse mesmo outro que nos constitui à medida que nos desaloja, nos desterritorializa em nosso próprio espaço, em nossa própria subjetividade.

Era preciso que Roberto encontrasse Jun, e este filme, sincero, convicente e coeso mostra todo esse desencontro diante do Outro, tão bem representado pelo estrangeiro, pela "cultura estranha", o encontro como o novo, como o diferente faz com que ambos ultrapassem os próprios limites e, com isto, encontrem o verdadeiro sentido das suas vidas, mesmo que isso tenha sido determinado no fatídico dia em que uma vaca caiu do céu.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Um entre cem sonetos de amor





Em Outubro de 1959 , Neruda, poeta chileno conhecido por ser amigo do amor e exaltá-lo de tantas formas, escreve um pequeno compêndio de uma centena de sonetos dedicados a sua esposa, Matilde Urrutia. Os sonetos são precedidos por uma pequena dedicatória na qual Pablo esclarece suas "razões de amor" , as únicas razões pelas quais se justificam os cem sonetos de amor de madeira que só se levantaram porque a amada Matilde deu-lhes vida.


Em homenagem a todo ser que ama e é amado, trago aqui o soneto número XVII, que faz parte do singelo livrinho de bolso "Cem sonetos de amor" que a editora L &PM lançou este ano. Um poema que cheira a madeira, a sal e nos faz lembrar que o amor, embora quisesse o poeta fazê-lo, não se justifica.



XVII



NÃO TE AMO como se fosses rosa de sal, topázio


ou flecha de cravos que propagam o fogo:


te amo como se amam certas coisas obscuras,


secretamente, entre a sombra e a alma.


Te amo como a planta que não floresce e leva


dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,


e graças a teu amor vive escuro em meu corpo


o apertado aroma que ascedeu da terra.


Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,


te amo diretamente sem problemas nem orgulho:


assim te amo porque não sei amar de outra maneira,


senão assim deste modo em que não sou nem és


tão perto que tua mão sobre meu peito é minha


tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.


Pablo Neruda

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

A melancolia, o tempo e o cão


(...)

Eu sou feito de estrelas derretidas,

e sangue do infinito.

Com meu toque descubro as várias cores

dos âmagos dormidos.

Vou ferido de místicas miradas,

e carrego os suspiros

efervescendo em sangues invisíveis

até o sereno triunfo

do imorredouro amor pleno de Noite.

Conhecem-me as crianças.

e me coalho em tristezas.

Em contos de castelos e rainhas

sou corola de luz. Sou incensário

de cantos desprendidos

que caíram envoltos em azuis

transparências de ritmo.

Em minh'alma perderam-se solenes

carne a alma de Cristo,

e finjo entardeceres de tristeza,

melancólico e frio.

O bosque inumerável.




Ritmo de Outono - Federico García Lorca




Melancolia. Algo que muitos confundem com os contemporâneos estados depressivos. Pela pena do poeta fica mais fácil entendermos esse estado diverso da depressão que nos põe diante da angústia ante o objeto que já se perdeu. Perdeu-se e cabe a nós, tal como ao poeta, evocá-lo. Conhecendo o ótimo "O tempo e o cão" (Boitempo, 2009), dei-me conta de que o poeta muito tem a ensinar a respeito desse estado tão interessante que se encontra a meio caminho da solidão. A melancolia, sustenta Maria Rita Kehl, é pensada de maneiras distintas ao longo dos tempos.


Aos estudiosos da escolástica o estado melancólico advinha do fato de que era necessário ceder às pulsões da carne para que o acesso ao gozo do Outro nos fosse permitido, sendo este Outro, Deus. É pois, dessa forma, entre a exigência da disciplina perante o ser supremo e a fuga das tentações demoníacas que se estabelece a melancolia na tradição cristã.


Do melancólico disciplinado passamos a investigar o melancólico romântico, ilustrado pela figura de Baudelaire: o estado melancólico se estabelece como o estado flaneur do sujeito que nada encontra senão ilusões nas supostas benesses que deveriam vir de carona com as outras promessas feitas por um capitalismo que se insinua através das primeiras cartadas da sociedade industrial. Baudelaire voava com suas asas melancólicas acima da cidade industrial que tanto lhe prometera; voava sobre as revoluções que nenhuma certeza lhe deu que não a incerteza e o preço a pagar por toda a autonomia do sujeito, um preço diante da certeza do não-saber, de nunca ter de volta o objeto para sempre perdido.


O melancólico freudiano, fruto da sociedade a qual se insinuava aos olhos de Baudelaire continua sendo aquele ameaçado por tantas possibilidades de escolha e por, ao mesmo tempo, nenhuma possibilidade de escolha. A melancolia, assim, para Freud, torna-se a testemunha de que algo na sociedade moderna vitoriana não estava dando certo; o sofrimento e o desejo de partilhar de um tempo em que ja não há certeza acerca do quem é o Outro se faz presente e nos faz, ainda, poetas.


É por esse motivo que trago Garcia Lorca no início deste post. Poderia ser Rilke, o poeta que se entristecia por perceber a transitoriedade das coisas da natureza ( de acordo com o texto Sobre a Transitoriedade, de Freud) e o qual nos advertia sobre a utilidade da solidão para a criação e compreensão do mundo.


Poderia ser Fernando Pessoa, poderia ser Byron, Álvares de Azevedo, nosso representante mal-du-siècle. Todos , em algum ponto de sua obra, nos revelaram a angústia de estarmos perdidos e separados desse Outro de quem tanto demandamos um olhar. Poderia ser Byron, poderia ser eu ou você.


Todos nós somos pequenos seres desamparados à espera de algo que se perdeu, fosse Deus ou outro Outro, algo de nós se desprendeu e aqui estamos, sempre a vagar, tal como o flaneur, à espera do suave retorno daquele que um dia nos constituiu.

Estaremos sempre à espera da certeza, à espera do Outro, à espera de Deus. Mesmo que não saibamos rimar. A melancolia é democrática.


Enquanto isso, ficamos a vagar.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Rilke, o aprendiz de poeta e a solidão




" O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança"




Rainer Maria Rilke




As palavras do poeta mais atual e permanente do nosso tempo, de acordo com Otto Maria Carpeaux permanecem vivas dentro daquele que não tem medo de se aventurar nas cirandas do mundo que insiste em sem mover. Isso é uma das lições que podemos aprender em Cartas a um jovem poeta ( L & PM, 2009).




Trata-se da publicação das cartas trocadas entre Rilke, já bastante aclamado e reconhecido, e um aprendiz de poeta, Franz Kappus, jovem, impaciente e sedente de conhecimento entre os anos de 1903 e 1908. Não foi à toa que a correspondência entre essas duas almas durou cerca de cinco anos, entre idas e vindas, viagens e imprevistos.




Tantos são os conselhos que Rilke dá ao imaturo Kappus que deles podemos extrair as maiores lições que alguém pode levar por toda a vida. Muitos são os assuntos que, apesar de girarem em torno da atividade artística, acabam enfim, por revelar a magnanimidade da alma do velho poeta : nobre, humilde e, sobretudo, simples, belo por sua simplicidade.




Ensina-nos o velho poeta a nos sentirmos em paz, tranquilos, mesmo em períodos em que as adversidades imperam: é preciso viver e saber que a vida, esta está sempre girando, cirandando, tornando-nos outros, transformados que somos pela tristeza, que, se tem algum mérito, este seria dar-nos outra vida, outra essência. Aprende-se na tristeza , e especialmente, aprende-se mais na tristeza solitária.




Não há conselho que Rilke tenha dado nestas Cartas a um jovem poeta que não esbarre na necessidade do ser humano de extrair de dentro de si a pura essência que o faz inevitavelmente humano. Para que isto se dê é mais que recomendado, é mesmo necessário que se seja só, e porque só, podemos viver intensamente.




Mergulhar dentro de si mesmo, experimentar a dádiva que é ver a vida girar, experimentar o gosto amargo da tristeza que não pode ser compartilhada (porque invariavelmente exclusiva) acaba sendo, para Rilke, a fonte de todo amadurecimento diante da vida, da existência, um campo seguro para que se semeie o verdadeiro amor, coisa difícil, demandante ao extremo e que somente por ser difícil já merece ser vivenciada.




Diante das tristezas, um só remédio: Paciência. Diante do amor: disponibilidade para compartilhar. Diante dos pais, tolerância, diante da vida, insistência. Rilke aconselha que sejamos pacientes e tolerantes com nossa tristeza e saibamos viver a solidão como quem espera o nascer do sol dia após dia. Viver só é preciso, e não há coisa mais solitária que uma obra de arte, que nasce não sei da onde e invade isto que chamamos de vida, tal como se fosse um sonho que insiste em nos tomar , mesmo quando já estamos de olhos abertos, e nada, nada poderia ser capaz de explicar uma obra de arte, essa obra da tristeza, filha da solidão.




Por isso criamos, porque dispomos da medida certa de solidão que é requerida pela obra que pede, exige, clama para sair de dentro de nós. Rilke fala também sobre a vida, a morte, mulher, homem e sexo, porém, é sobre a poesia que o experiente poeta parece não saber o que dizer ao nosso Kappus.




Ora, o poeta apenas é; Não se aprende a fazer poesia, nasce-se poeta por possuir o livre acesso à reserva de criatividade, a esse não-sei-onde, esse compartimento secreto que tanto nos assombra e que faz parte da nossa alma. Sobre a poesia, Rilke nada aconselha a não ser que entremos em nós mesmos, e , nesse mergulho profundo recuperemos os tesouros da infância perdida, de uma vida esquecida, que, surpreendentemente descobrimos ainda fazer parte de nós.




Será mesmo necessário voltar à superfície? Certo estava Kappus que, ao introduzir estas Cartas, acerta em cheio ao dizer que quando fala alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar.




Calo-me.


sábado, novembro 13, 2010

Encontros com a Poesia de Osvaldo Chaves



Era para ser apenas mais um poema, algo do qual poderia falar, me debruçando sobre o tema que tanto me interessa , o tema da interface Psicanálise-Literatura. Quando me foi feito o convite, no início deste ano, para participar da coletânea Encontros com a poesia de Osvaldo Chaves (Edições Bagaço, 2010), me senti inicialmente impactada: Como seria escrever sobre um poeta que não conheço? Como seria escrever um capítulo de livro?


De fato, isso assustava, mas confesso que, a despeito do primeiro amedrontamento, veio a curiosidade de conhecer a obra de Osvaldo Chaves, padre e poeta cearense que, infelizmente, não tem sua obra reconhecida no restante do país.


Organizado pelas professoras Jerzuí Mendes Tôrres e Maria Heloísa Melo de Morais, Encontros com a Poesia de Osvaldo Chaves, é uma coletânea que contou com a colaboração de oito críticos literários que disseram sim ao delicioso convite de se debruçarem sobre a obra Exíguas (2008), coletânea em que Chaves reune poemas com as mais variadas temáticas, escritos em diversos períodos da vida do poeta.
É interessante ressaltar que o lançamento de Encontros com a poesia de Osvaldo Chaves cumpre com a função de disseminar o conhecimento sobre a obra de um poeta tão consistente como padre Osvaldo Chaves, mas que, devido à dificuldade de publicação tão típica do nosso país, não pôde ser conhecido por outras pessoas fora do Ceará

Como participante desta iniciativa de Jerzuí e Heloísa, agradeço o convite e agradeço, especialmente, a oportunidade de ter conhecido um sítio tão singelo, tão vivo e tocante, como o Angelim. O poema Angelim Intacto, obra que me escolheu, hoje faz parte dos seletos poemas que guardo com carinho, porque algo me acrescentaram. Sobre esse algo, não sei dizer o quê, mas sei que o sítio me tocou, me escolheu e por isso, agora, também é meu.


O poema, como todo poema, não requer explicação. Mas, se alguma cabe, digo que o poeta, em Angelim Intacto, convida o leitor a conhecer o sítio de sua infância. Em sua essência de poeta, Osvaldo Chaves nos guia pela mão , por entre os cômodos, as escadas, os alpendres e os pés de jabuticaba lá do Angelim que resistiu às secas e a todas as intempéries da natureza, para permanecer vivo, intacto, na memória de poeta que, em cada estrofe, nos convida a sentir a atmosfera, os aromas, tudo que rodeia a sua infância, jamais perdida, porque transformada em arte.

Segue abaixo um trecho deste poema tão comovente, que tanto me mobilizou. O angelim, surpreendentemente, tornou-se meu, porque o senti, porque o escutei, porque o testemunhei, em minha memória, através do dom da poesia:



Nem tudo morre, muita coisa fica

Intacta:

o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contato

são a alma imortal das coisas transitórias.


Depois de morto o olfato,

É vida, na memória, o aroma das coisas

Apagada a visão,

É vida a imagem, o relevo e a cor

Morta a audição, ficam vivos os sons


Gravados

Nos microssulcos do íntimo do espírito

sábado, outubro 30, 2010

A vida como ela é...sem tirar nem pôr



Não é com surpresa que vejo o sucesso que A vida como ela é, ( Agir, 2009) perdurar até hoje, mesmo depois do estardalhaço causado em 1997, quando da produção da série exibida no programa Fantástico, com direção de Daniel Filho e roteiro de Euclides Marinho, buscando um retrato fiel daquele Rio de Janeiro dos anos 50, da já citada Rua alegre, das vizinhas invejosas e das mulheres pecadoras que tão bem foram retratados pelo gênio óbvio Nelson Rodrigues.


Esse pretendia ser um post em que se exaltasse o livro da Agir, mas, ao mesmo tempo, me fui apresentada, agora já adulta, a obra que tanto instigava minha curiosidade, naquelas noites de domingo. A vida como ela é saiu em DVD e assim, para quem não conhece o compêndio de crônicas homônimo, fica mais fácil compreender o universo rodrigueano.


A vida como ela é...estejamos nós falando das crônicas ou da série de televisão continua instigante e , principalmente, fiel ao que se propôs: um retrato honesto da vida carioca, suburbana, tão cotidiana, e tão trágica, ao mesmo tempo. Ao tempo em que quase testemunhamos inocentes casais tomando um sorvete na leiteria do bairro de Laranjeiras, também assistimos à pactos de morte, traições, incestos , mortes risíveis como a morte do homem, que, cansado de jantar duas vezes, dividindo-se entre amante e esposa, resolver pôr fim a sua existência com um tiro no peito, porém não o faz sem deixar claro seus motivos: "morro porque cansei de jantar duas vezes", desabafa.


Assim como "Mártir em casa e na rua", nome da crônica em questão, podemos nos surpreender com outras tantas, como a tão famosa Dama do lotação, Terezinha, Delicado. Entre tantas não saberia aqui dizer qual é a mais fiel à vida cotidiana, não saberia também afirmar qual seria a mais exata em retratar a constituição psíquica do sujeito para sempre alienado em seu desejo, que, muitas vezes, não sabendo lidar com os descaminhos deste, acaba passando ao ato - termo psicanalítico que faz referência ao momento em que não é possível outro escoadouro socialmente aceito para deixar as pulsões fluirem: é necessário passar ao ato, porque não se pode fazer outra coisa.


É por isso que A vida como ela é parece tão trágica, tão shakesperiana: é porque o que observarmos é a impossibilidade do sujeito compactuar com seu desejo, este sempre arredio, rebelde, obsceno. Por isso , o sujeito que não aguenta mais a farsa cotidiana de agradar esposa e amante resolve a questão se matando, por isso a noiva saudosa do ex-amante malandro decide por fim à sua vida ateando fogo em suas vestes, é por isso que Euzebiozinho se enforca vestido de noiva.


Exemplos são muitos e eu não farei aqui o papel de estraga-prazeres dizendo o fim de todas as crônica que, inicialmente, faziam parte de um jornal diário o qual todas as pessoas, nos bondes, nas ruas, nos botecos compravam e se deleitavam ao ansiosamente procurar, por entre as páginas de política e policial, a pequena estorieta do dia, aquela a qual sempre seria surpreendente, porque demasiadamente humana.


A vida como ela é pode ser analisada e entendida como um excelente modo de investigação do psiquismo e de todas as mazelas que nos marcam, desde que entramos de sola neste mundo. Recomendo fortemente tanto a série televisiva como a reunião de crônicas publicada pela editora Agir.

segunda-feira, outubro 18, 2010

As memórias de um gênio óbvio



“ Não há ninguém, vivo ou morto, que não tenha concebido a sua fantasia homicida. O melhor de nós já pensou em matar e já se imaginou matando, etc, etc (Aliás, envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio)”.

Nelson Rodrigues

A um desavisado, certamente esta frase soaria como de mau gosto, típica de um escritor medíocre que não cansava de falar sobre anomalias, aberrações, coisas que acometem os anormais. No entanto, para os avisados e amantes da obra de Nelson Rodrigues, nada mais óbvio, de fato, do que a afirmação do autor: as pessoas trazem, dentro de si, todas as mazelas psicológicas que poderiam contribuir para a venda de qualquer noticiário policial, por mais sensacionalista que fosse.

Assim foi a vida de Nelson Rodrigues, e ele não poderia falar do que não conheceu. Em Memórias e A menina sem estrela (Agir, 2009), viramos testemunhas das inúmeras situações que chamaram atenção desse mestre da literatura e do teatro nacional. Somos catapultados para o contexto sócio-cultural que viu nascer o jornalista Nelson, filho de uma família de jornalistas e que adquiriu, por força do hábito e da vida, um certo gosto pelo que lia e escrevia nos noticiários policiais: pactos de morte entre amantes, suicídios, assassinatos e traições, sobretudo a traição feminina eram os grandes interesses do então jornalista policial que gostava de acrescentar, aqui e ali, um tom dramático, poético até, nas mortes diárias que noticia.

Ao ler Memórias, certamente compramos um bilhete de viagem de volta para o século XX, conhecemos o famoso carnaval de 1919 do qual Nelson fala com riqueza ímpar de detalhes, o que faz qualquer leitor subitamente descobrir uma serpentina nos próprios cabelos. Também viajamos rumo às origens do teatro nacional, conhecemos as polêmicas em torno do Teatro Municipal, do disse-me-disse que marcava a recepção da obra de Nelson em todos os setores da vida social carioca que costumava atrair-se por todo o sangue e adultérios mostrados pela obra do autor pernambucano que adotou o Rio de Janeiro como cidade natal.

Marcado desde o nascimento pela estrela de tarado ( vale a pena conhecer o fato que já anunciava a má reputação de Nelson quando adulto: aos quatro anos, Nelsinho teria sido proibido de visitar a casa de uma vizinha, mãe de uma menininha que deveria ter a mesma idade dele. De acordo com as palavras da atônita vizinha à mãe de Nelson: "Todos os seus filhos podem vir a minha casa, exceto Nelsinho").

O que se seguiu foi mesmo a confirmação da advertência da vizinha: Nelsinho cresceu e continuou sendo considerado persona non grata no teatro brasileiro, na própria literatura para a qual tanto contribuiu, pois foi, em vida, um dos maiores desafetos de muitos grandes nomes da mesma, enfim, alguém a ser banido, extirpado do convívio social, pois sua obra exalava um cheiro de lama e miséria, estas tão expulsas, desde sempre, das sociedades civilizadas - Nelsinho, em toda sua vida, só pôde colecionar advertências, tais como a da vizinha da longínqua Rua Alegre.

Certa vez, questionado por Carlos Drummond de Andrade sobre o motivo de Nelson não falar em sua obra de pessoas normais, o dramaturgo pernambucano engoliu a resposta que nunca dera ao poeta mineiro: "falo de pessoas tão normais quanto você e eu". Talvez o pernambucano fosse mesmo a pedra no caminho de Drummond, que, mesmo com tanta poesia, não conseguia entender a imensa normalidade presente na obra de Nelson Rodrigues: chegaria a ser obscena de tão óbvia a semelhança da obra mais "bizarra" com a vida mais normal, mais apática retratadas em obras como A dama da lotação, Engraçadinha, Toda nudez será castigada, etc.

Para os que não conhecem, vale a pena conhecer a obra do mestre dos acontecimentos corriqueiros, intérprete original de toda a mesmice sem graça com a qual o ser humano mediano dirige sua vida. Há de se falar de pessoas normais, ora, e não seria o adúltero uma das figuras mais famosas e conhecidas de que se têm notícia a nossa vã humanidade? Por acaso somente os anormais traem? Não creio nisso, nem Nelson.

Aos ainda desavisados, recomendo Memórias a fim de tomar ciência do contexto sócio-cultural que fez de Nelson o "grande tarado", fama repercutida pelas mesmas pessoas, de conduta moral imaculada, que, mais tarde se curvariam aos pés de Nelson na sua velhice e ainda mais depois de sua morte, em 1980.

Se tivessem de começar por algum lugar, conheçam a história, conheçam as Memórias, aí então qualquer pessoa, normal ou não, estaria preparada para entender um pouco mais da genialidade daquele que ousou detestar a unanimidade.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Memórias para dias ensolarados



Dias ensolarados premiados com súbitas chuvas que inundam as ruas e deixam os becos de uma pacata cidade colombiana com cheio de enxofre. É este o cenário com o qual nos agracia Gabriel García Marquez em seu Memórias de minhas putas tristes (21 edição, Record, 2009).

Neste livro cheio de sol , suor e sensualidade nos deparamos com uma figura que talvez não combinasse, de início, com este cenário: um velho às vésperas de completar noventa primaveras encomenda a uma conhecida cafetina uma noite de amor com uma ninfeta virgem que deveria restituir-lhe tudo aquilo que a natureza e o tempo teimavam em lhe furtar.

Acontece que a narrativa transcorre assim, cheia de sensualidade, página por página, captando o coração e as entranhas do mais calculado e sistemático leitor.

Repleta de apelos sensoriais, muitas vezes acompanhamos o velho narrador em seus passeios por uma cidade que fora outra que não a que se apresentava, sombra do passado que constantemente é evocado pelo narrador ancião, velho jornalista, amigos das letras e das línguas, em especial o italiano e o latim, escritor de crônicas tão anacrônicas como seu próprio caráter, mas que, de alguma forma o mantinham vivo.

Ao que parece García Marquez em seu Memórias de minhas putas tristes é mestre em nos levar pela mão por entre becos e vielas, nos mostrar os caminhos tortuosos pelos quais sempre o amor se faz presente, nos fazendo quase sentir na pele os arroubos do amor e do sexo, contudo, por incrível que pareça, em nenhum momento o livro se torna pornográfico, mesmo que se pense nisso ao se imaginar um ancião contando as memórias de suas putas tristes.

Bem diferente disso é o universo deste livro. Quase sentimos o cheiro da chuva, o ronronar do velho gato, a pele embrutecida de Delgadina e seu cheiro inconfundível de alcaçuz.

Não bastasse a crueza da descrição de todo o cenário e a veracidade com a qual as personagens são trazidas à vida por Marquez, uma coisa há de se dizer: em meio a tudo isto, ainda assim, falou-se de amor.

E um amor cantado, embalado ao som de boleros e de clássicos de Mozart. Um amor maduro que , ao mesmo tempo, não deixa de se mostrar ridículo porque nos mostra a essência do humano: o patético quando se fala de amor. Latino como tinha que ser o amor é a vitória e a tragédia do ancião que, mesmo não sentindo a idade pesar em seus calcanhares admitia que passara a vida escapando do amor tal como o diabo evita a cruz divina.

Não se poderia esperar menos do prêmio Nobel de literatura. Memórias de minhas putas tristes é uma história ensolarada, sensual, sensorial , passional de amor, tal como todo amor deveria ser para valer à pena, tanto que eu, leitora sistemática, acostumada aos escritos acadêmicos, pude notar uma única lágrima, furtiva, quase clandestina a escorrer face abaixo ao virar a derradeira página de um romance que me ensina que não necessariamente para se falar de amor deve-se ser sério, sisudo, tal como um compêndio de psicopatologia. Na verdade quase nunca se deve sê-lo.

quinta-feira, agosto 12, 2010

O que posso dizer sobre Os Espiões?



O bom leitor, o leitor ocasional, o chamado "traça de livro", o leitor mediano e até o leitor autor , seja quem for, não conseguirá se livrar da obssessão por Os Espiões (Alfaguara, 2009).

Escrito por Luiz Fernando Veríssimo e inspirado em tantas histórias de detetive, em romances policiais, em Os Espiões somos guiados pelo fio que leva um editor entediado com a vida , com o casamento e com o trabalho a uma história privada pintada com tons de realismo macabro e contada como se fosse um crime passional que chega as suas mãos por meio de sucessivos envelopes brancos de autoria de uma tal de Ariadne.


Tal como todo bom romance policial, nós, os leitores mais fiéis, somos levados a conhecer o universo de Agomar Trapiche, do professor de cursinho pré-vestibular Dubin, da bela Bela, sua secretária. Também conhecemos o delicioso e rabugento professor Fortuna, para quem a alfabetização de mulheres era vista como um atentado à boa civilização.

Em
Os Espiões, o leitor menos fiel também tem acesso ao mundo de Veríssimo, um mundo cheio de humor, de ironia e sutis críticas sobre a hipocrisia e a mediocridade humanas. Não tenho aqui a intenção, também não possuo a pretensão de fazer um ensaio sobre Os Espiões. O motivo pelo qual não o farei é que me considero uma leitora fiel de Veríssimo.

Conheci sua obra porque alguém me dissera que era um dos melhores escritores brasileiros quando se pensa em escrita de humor, em um tipo de humor inteligência que é capaz de ultrapassar o próprio gênero para se alinhar ao que se tem de melhor na literatura de um país. Eu, humorista nata, achei que seria interessante conhecer a obra de Veríssimo, nunca li a de seu pai, mas , julgando pela herança genética e pelo que muitos me contavam, Veríssimo, o filho, tinha que ser genial. E é.


Sobre o enredo? Hum, muito pouco posso revelar, mas vou dizer que o livro prende qualquer que seja a categoria do leitor de modo que não existem mais "hora do almoço" "hora de sair", "hora de dormir". Veríssimo nos conduz, entrelaçando com talento os fios que Ariadne vai revelando, capítulo por capítulo, envelope branco por envelope branco, deixando todo aquele que se encontra com o livro em mãos tonto como se estivesse em um labirinto.

A respeito das alusões à De Chirico, à Ariadne de Teseu? Pouco posso dizer, somente me sinto autorizada a falar que o autor tem sucesso ao nos guiar por esse labirinto que a história de Ariadne nos apresenta. E o melhor? Não nos sentimos angustiados, no máximo, eufóricos para chegarmos ao derradeiro capítulo.

E quando lá chegamos? Que vontade de voltar...mas já é tarde, já fomos enfeitiçados e pena que o livro um dia acaba...mas não quer dizer que não poderemos retornar ao labirinto, nem que seja para rir com as opiniões e palestras do Professor Fortuna.


Como isto aqui não é sobre o autor e sim sobre a obra, pensei o que escrever sobre o recente livro do escritor gaucho que não revelasse a quem quer que esteja lendo isso o final da trama.

Acredito mesmo que até se me contentasse em contar como o fio de Ariadne é trançado e retrançado nos quinze capítulos em que o livro se desenrola, mesmo sem revelar o final da narrativa, estaria prestando um desesrviço aos leitores, fiéis e infiéis, novos ou antigos de Veríssimo.


Farei o seguinte: não contarei nada. Espero que isso atice a curiosidade de quem gosta de tudo que Veríssimo escreve, ou mesmo chame atenção daquele que nunca leu nenhuma linha vinda lá das bandas de Porto Alegre.
Não contarei sobre a Ariadne que costumava escrever sem vírgulas, não falarei sobre a origem do apelido da figura soturna conhecida como Rico. Não. Não direi uma palavra sequer sobre o que significava, em Frondosa, dizer que iria "visitar o túmulo de mamãe".


Meu silêncio receberá aquele que me perguntar como o editor conhece Ariadne, o que de fato se poderia entender como a "Operação Teseu", ou mesmo porque diabos o Mandioca gostava de "entregar" os jogos que disputava pelo time de futsal da cidade.

Não adianta insistir, porque também nada direi sobre Dona Loló, Franco e Fabrízio Martelli.
Deixarei tudo à cargo da curiosidade de quem possivelmente me lê agora. Se alguém , ao ler isto aqui, se interessar, descubra por si só o trançado feito pela tal Ariadne, trançado escrito e amarrado com "a pena da ironia e da galhofa", expressão que, se não pode se restringir à Machado de Assis, não poderia deixar de ser associada à Veríssimo.

Exagero? Coisa de leitora apaixonada e fiel?
Sobre isto nada. Nenhuma palavra sequer. Descubram por si sós, eu é que não vou estragar uma história de detetive.Itálico

domingo, fevereiro 07, 2010

A Esquisita Esquisitologia de Wiseman



O que faz uma pessoa reconhecer um sorriso verdadeiro? Pessoas que sorriem mais vivem mais? Qual é a piada mais engraçada do mundo? Nascer em janeiro faz de alguém mais sortudo do que quem nasce em Julho? De que maneira poderemos distinguir quem fala a verdade de quem mente?



Estas são algumas das perguntas esquisitas as quais assombram e fazem parte da vida do cientista inglês Richard Wiseman, autor do best seller O fator Sorte (2003) e , mais recentemente, do interessantíssimo Esquisitologia: A Estranha psicologia da vida cotidiana (Editora Best Seller, 2008). Em Esquisitologia, Wiseman nos mostra tudo aquilo que achamos que não é ciência de maneira científica. Cercando-se de questões que assombram grande parte de pessoas que podem ser chamadas de "curiosas" , o autor inglês nos ensina que a Psicologia também pode tratar de pequeninas temáticas cotidianas.


Sim, a Psicologia não é apenas complexidade. Ao contrário, Wiseman revela ao curioso e atento leitor que a Psicologia nasce mesmo são das questões miúdas, das aparentemente inocentes questões que nos perseguem desde a infância e , com o passar do tempo, acabamos negligenciado, achando que nada disso terá importância em nossas vidas adultas, atribuladas...e complexas.


O livro de Wiseman conta com seis capítulos em que o autor nos fala sobre mentira e verdade, piadas, nomes e horóscopo, fator sorte , mensagens subliminares, altura de candidatos à presidência, longevidade, música e consumo, etc. Diante destas temáticas, um leitor menos atento poderia pensar que o livro pende mais para o humor do que mesmo para o cientificismo, aquele, de Comte, companheiro velho de guerra. Nada de Wiseman combinaria com Positivismo.


Pelo contrário: Richard Wiseman nos prova por A + B, munido da mais pura Psicologia Experimental ( os termos "Wundt", "Cão de Pavlov" e "caixa de Skinner" te fazem lembrar de algo?) que, sim, dá para saber qual cantada atrairá mais mulheres do que homens, que anúncios de jornal atrairão mais pretendentes e que tipo de abordagem fará um garçom de restaurante receber gorjeta maior. Richard cita em seu livro Freud, Sócrates, Aristóteles, Galton , uma série de renomados homens que tiveram seus nomes vinculados à Ciência, e, para além de citá-los , põe em prova os conhecimentos sobre tantas das temáticas estudadas com afinco por estes nobres pensadores.


Como se pode notar, Esquisitologia ( derivada do termo inglês "quirkology") não se apresenta como uma "nova corrente" psicológica, tampouco Wiseman pleiteia sobre a hegemonia dos "esquisitologistas" em matéria de Ciência. O livro, a despeito do que muitos podem pensar , está repleto de referências a outros pesquisadores que costumavam e costumam levar a sério certos temas que a maioria de nós consideraria "menores" ou "sem relevância para o desenvolvimento do conhecimento científico" - academicamente falando.

Um exemplo disto é o experimento de Jastrow, famoso psicólogo americano que nutria grande interesse pelo ilusionismo e por experiências oscuras e assustadoras. Para se ter uma idéia sobre Jastrow, no fim do século XIX, o famoso médico dedicou muitas experiências ao entendimento do que acontecia por trás do tabuleiro Ouija ( nos Estados Unidos , o tabuleiro Ouija é uma espécie de "jogo" utilizado por pessoas que desejam manter contato com entes queridos que se foram; é algo muito utilizado em sessões espíritas até hoje neste país).


Jastrow demonstrou em suas experiências com mágicos que muito do Iluminismo não tem a ver com a velocidade empreendida pelo mágico em manipular os objetos, mas sim de persuasão e percepção da platéia.


Wiseman considera-se um fã de Jastrow, definindo-se, também, como um grande entusiasta do ilusionismo, espectador constante das comédias do grupo inglês Monte Python, e, além de tudo, um cientista muito bem humorado. De acordo com Michel Shermer, da Scientific American, Wiseman pode ser considerado como o mais interessante e inovador psicólogo do mundo atual.


Você agora pode se perguntar: Por que deste alvoroço? Tudo é muito simples. Wiseman não precisa rechaçar e denegrir Freud ( Lembram do Livro negro da Psicanálise? se não , aconselho outro título: "Em defesa da Psicanálise, de Roudinesco, lá quem quiser pode saber mais sobre isto), tampouco negligenciar a influência do pensamento dos mais aclamados nomes da Ciência Moderna, ao contrário: mantem viva o experimentalismo inaugurado por Wudnt, alia-se aos estudiosos das chamadas Neurociências e , além disto, não nega a importância das descobertas freudianas, desconsiderando os ditos "fatores inconscientes".


Em Esquisitologia parece que estamos, de novo, voltando para os temas que sempre nos interessaram e que, aos poucos, fomos deixando de lado, não por declínio do interesse, mas por subestimação mesmo, onde já se viu estudar piada ser Ciência?


Olhemos lá...não esqueçamos de Freud e de sua clássica " um charuto é apenas um charuto". Pensando direitinho, Wiseman não é pioneiro, mas não podemos dizer que ele é menos interessante e inovador por isto.

sábado, janeiro 30, 2010

As Comédias brasileiras de Verão


" O futuro é uma folha pautada esperando a primeira anotação do ano, que tanto pode ser 'Dentista' na sexta quanto 'Deus, levar questionário' no sábado"


Luis Fernando Veríssimo



Essa é uma das frases do ótimo livro que reune alguns novos contos de Veríssimo. Comédias Brasileiras de Verão ( Objetiva, 2009) é um daqueles livros que podemos ler numa sentada, em um par de horas, durante a espera no dentista, no médico, ou mesmo durante uma aula monótona ( não podemos esquecer dos contos que Veríssimo escreveu para serem lidos especialmente na escola).

Pois bem, Comédias não traz nada muito aprofundado a não ser que você goste de adentrar pelos meandros dos tão explorados conflitos entre homens e mulheres. Em sua maioria, os contos de Veríssimo exploram estas relações tão difíceis entre as pessoas com os costumeiros humor e ironia que só mesmo o autor gaucho é capaz de imaginar.


Desde um pé inoportuno roçando outro debaixo da mesa, ao ciúme patético de um homem apaixonado, Veríssimo nos faz entrar nos lares das famílias de classe média, compostos, não raramente por homens e mulheres entediados com a relação e que deixam transparecer seu descontentamento nos mínimos detalhes e pelos mais variados e inusitados motivos:


" Higino era o que se chamava de um rapaz 'bem-apessoado', em contraste com a sua namorada Naralei, que tinha um nariz que só podia ser chamado de hediondo, como certos crimes. Ninguém entendia por que o simpático e talentoso Higino, que podia ser o que quisesse na vida, namorava Naralei, que era tudo que ele não era"


O tirano - Comédias Brasileiras de Verão



Veríssimo sempre pareceu muito apto a falar sobre as pequenas coisas do dia-a-dia que chegariam ao nível do trágico se não fossem cômicas, as personagens masculinas idealizadas pelo autor vão do ciumento possessivo que chega a imitar um cachorro tudo para não ser flagrado vigiando a amada até os inseguros machões que precisam entrevistar cada parceira para ter certeza de sua potência sexual. Das femininas então, muito se pode falar.


Temos uma grande galeria nestas deliciosas Comédias, desde Mariazinha, a mulher média, comum, trabalhadora que não sabe se vestir para encontrar um homem e sentir-se mais feminina até Ana Luiza, a tal moça que, sorrateiramente roça seu pé na perna do amigo de seu marido. Não podemos, como se pode notar, falar de uma ética nestas personagens tão únicas pensadas por Veríssimo: muitas vezes, é mais divertido não ter ética nenhuma.


Por este motivo, espia-se por trás de um poste a mulher amada, pensa-se com alegria numa possibilidade fortuita de traição conjugal, finge-se que um orgasmo é verdadeiro toda vez que assim o fazem crer.


As personagens destas Comédias transitam entre o cômico e o trágico, sem nem por isso fazê-lo de maneira pesada, mesmo quando se trata de uma tentativa de suicídio ( a vizinha leonina do homem capricorniano): É que pelas mãos, pela pena de Veríssimo tudo é risível, até mesmo a impostura,o desprezo e o desespero.


Vale a pena tirar umas horinhas para se deleitar com este imperdível livro. Sua vida não mais será a mesma quando descobrir que as neuroses suas de cada dia não lhe são tão exclusivas assim...