Mostrando postagens com marcador Volta e Recomeço. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Volta e Recomeço. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

"The artist", voz , barulho e silêncio


Arrasando em todos os prêmios do ano, o maravilhoso "The artist", idealizado por Michael Hazanavicious, tem sido motivo de muitos comentários no meio cinematográfico atualmente. Polemizado por muitos, o filme resgata o glamour da era de ouro do cinema Hollywoodiano com delicadeza e simplicidade.
Trata-se da história de um ator de cinema mudo que passa por turbulências em sua carreira motivadas pelas mudanças na indústria da sétima arte empregadas com fins mercadológicos e políticos.
A saga de George Valentin que encarna o protagonista vai do estrelato ao esquecimento, do glamour à tragédia. Um ator com ótimo tempo para a comédia que não parece imitar os astros dos outros tempos; ao contrário, torna nostálgico qualquer cinéfilo que acompanhou as desventuras de Fred Aistaire na grande tela. O roteiro já ganhou o prêmio Bafta, acompanhado do figurino e da fotografia. O filme - ninguém duvida - será a sensação do próximo prêmio da academia, o famigerado Oscar, da cabeça aos pés decidido politicamente que parece que vai se render ao clima nostálgico que "The artist" provoca: uma curiosidade para quem ainda não viu: o filme é mudo.
Esse é o ingrediente indefectível do filme, talvez o ingrediente mais arriscado que Hazanavicious não pareceu temer: em plena era do 3D e das reprises de grandes clássicos do cinema moderno se adaptando a esta nova tecnologia, "The artist" é um filme mudo, em preto e branco, que gasta seus minutos para contar uma história que não apresenta tanta novidade: um amor, muitos obstáculos, sucesso, comédia e ação. Até então, nada novo no front e é exatamente isso que seduz tanto.
Se não há novidade, poder-se-ia perguntar: então estamos voltando ao passado? Dispondo de tanta tecnologia , em plenos 2012 um diretor francês resolve testar a inteligência e a paciência do espectador ao submetê-lo a esta história que, como já disse, não revela nenhuma novidade.
A questão não é puramente nostalgia, o filme é bom como seria nos anos 20; uma história verossímil, um roteiro sem defeitos que leva o espectador a experimentar as mais diversas sensações. É nisso que "The artist" consegue ser genial. Mas há outro fato a se comentar: a impaciência contemporânea.
Em se tratando de um filme mudo, algumas pessoas - desconhecendo a sinopse - resolvem, em uma atitude que lembrava o repúdio, abandonar a sala de cinema. Presenciei na noite em que vi o filme mais de cinco pessoas deixando a sala ao entenderem que não haveria voz na produção francesa. Ironicamente, o filme também trata da questão do silêncio em seu roteiro, mas é interessante fazermos aqui um paralelo cabível.
Se na tela, o que presenciamos é o auge e a decadência do cinema mudo através das produções da fictícia "Kinograph", o incômodo que causa a mudança do sucesso garantido do cinema que se satisfazia com a mudez, para a aposta no escuro nos novos filmes falados; o que se passa do outro lado do ecrã é o oposto: a mudança provocada pelo incômodo silêncio que atualmente se encontra cada vez mais fora dos planos da sociedade contemporânea, tão bem representada pelas super produções hollywoodianas repletas de efeitos especiais os mais barulhentos possíveis.
Bem dizer estamos na era do barulho, mesmo que não se esteja falando de barulho físico, do som estridente, estamos na era da "onipresença", em que as pessoas usam redes sociais como diários de uma vida, com um roteiro pré-estabelecido do qual todos devem saber/seguir/acompanhar.
O silêncio, nos dias atuais é quase uma ofensa, é repulsivo. Como podemos tolerar um filme mudo se não toleramos o próprio silêncio? O mais puro silêncio é feito de incômodo que nós, seres contemporâneos, visamos incessantemente tamponar. Por acaso não estamos falando aqui de subjetividade? Perdi o bonde ou estou falando algo coerente?
Na falta de uma resposta e de leitores, arrisco - parcialmente - a dizer que estou chegando em um ponto interessante: o silêncio insuportável para muitos que deixam a sala de cinema em "The artist"é o mesmo silêncio intolerável que se evita quando se inunda o mundo de palavras, de caracteres, como queiram.
Nossa relação com o silêncio sempre será problemática enquanto não buscarmos compreender o que não cessa de tagarelar internamente e que, no entanto, não estamos dispostos a escutar; fazemos barulho para tamponar o barulho que não cessa, parece contracenso, parece loucura, mas não é de um todo incoerente.
Fazemos tanto barulho numa espécie de competição sobre quem fala mais alto: eu ou esse isso que me atormenta tanto aqui do lado de dentro. A metapsicologia de Freud foi uma das primeiras tentativas de se dar voz ao que tagarelava indiferente dentro de nós. A chamada "Cura pela fala" permitiu que soubéssemos vislumbrar o que havia de tão estridente nos porões de uma mente que não se deixa conhecer. A ladainha freudiana sobre o silêncio e a voz é antiga, tem mais de cem anos e continua a impressionar.
Da mesma forma que as pessoas não dão uma chance a um filme mudo, ou não parecem dispostas a dar, elas não se tornam nem um pouco mais afeitas a deitar num divã e vasculhar os lugares mais barulhentos do lado de dentro. Isso é fato. Não precisamos falar do que está calado, mas , será que está mesmo calado? Entre escutar - e para isso é preciso silêncio - e agir (passar ao ato), nos dias de hoje se torna mais interessante agir. A ligação entre filme e o trabalho psicanalítico me parece pertinente agora.
Como este não é um post sobre o filme, mas o usa como pretexto, não poderia encerrar sem lembrar do que ouvi, dos comentários após as luzes se acenderem. Um é digno de nota: ao ser perguntada sobre o filme, se havia gostado do que vira, uma garota respondeu: "Er, é assim né, é todo mudo".
A expressão de desgosto parecia evidente no rosto da menina. O julgamento simples sobre se tinha apreciado o filme ou não foi respondido desta forma. Cabe também mencionar que, nesta mesma sessão, telefones celulares tocavam e as pessoas calmamente respondiam - o que nem sempre acontece, pois no cinema todos costumam olhar com desprezo para aquela pessoa desligada que esquecera o celular ligado. Isso me faz entender que as pessoas imaginavam que não seria tão mal educado assim deixar o celular tocar e pior, falar ao telefone, durante um filme mudo, pois não haveria prejuízo algum no acompanhar das cenas, da trama. Mais um erro.
É. O post não é sobre a trama, os atores, os diretores e todo o pessoal que tornou possível "The artist", é mais sobre as pessoas sentadas numa sala de cinema não suportando estar vendo um filme mudo. E isso dá tanto pano pra manga...

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Um vencedor




Considerado o melhor filme documentário no Brasil no ano de 2011, Senna (2010) não nos mostra nada de inédito, mas tem o mérito de nos relembrar certas lições que aprendemos com um dos maiores ídolos que o Brasil já conheceu.



Acompanhando os passos de Ayrton Senna, piloto nascido em 21 de março de 1960, o documentário revela o submundo do automobilismo, antes mesmo de toda a parafernalha eletrônica tomar conta da F-1, tornando o esporte, no mínimo , chato, asséptico e previsível. Antes de Schumacher existiram algums ídolos dos quais poucos esquecem.


Senna vale ser visto e revisto por todo aquele que deseja entender melhor como alguém pode vencer mesmo diante de diversidades. Diante da politicagem que já corria solta no mundo perfeito imaginado pela FIA, diante de inimizades, inveja e injustiças, Ayrton Senna mostrou perseverança, obstinação e firmeza, qualidades tão em falta nos dias de hoje, nos ídolos atuais.



Inúmeras são as passagens mostradas pelo documentário nos quais percebemos a garra que fez de Ayrton um campeão. Longe do cenário bizarro que envolve os grandes nomes do futebol atualmente, longe das baladas, das mulheres-fruta, dos anabolizantes , drogas e álcool, Ayrton Senna deu uma lição de como insistir em um objetivo.



Quando perguntado sobre o que a vitória significava para ele, Senna costumava dizer que esta era como uma droga, uma vez vencendo, difícil seria deixar de se levar pela busca dessas sensações que envolvem coragem e firmeza. Só não concordo com o campeão sobre sua opinião a respeito da similaridade entre droga e vitória: Ao contrário da vitória, a droga tira a coragem e destrói. Uma vitória prepara para a próxima.



Apesar de ser um ídolo esportivo, Senna teve um importante papel para a auto-estima do brasileiro que, nos anos 90, via em seu campeão o único motivo de orgulho da nação. Um país soterrado por uma inflação gigantesca, um povo miserável que tinha nos domingos a possibilidade de esquecer um pouco a miséria em que vivia para torcer pelo ídolo que, apesar de ter origem abastada, nunca esqueceu de revelar a qualidade mais rara encontrada nos seres humanos: humildade.



A história nos leva aos três campeonatos mundiais para nos guiar, finalmente, para a curva final, no famigerado GP de Ímola, onde Senna perdeu a vida, apesar de seus pressentimentos. Espiritualidade também marcou sua vida e nos faz entender melhor quem foi essa pessoa que deixou o mundo no auge de seu sucesso.



Passaram-se quase 18 anos e Senna continua presente em cada homenagem que se faça a sua garra e determinação, tão em falta hoje em dia. Achei que este seria um bom motivo para escrever: um ano gastando seus primeiros dois dias, as pessoas pensando no que fazer para viverem melhor e uma lição nos ensinada sobre humildade, generosidade e persistência.



Para mim alguns aprendizados para toda vida: não existe o impossível, apesar de ser clichê, poucos de fato acreditam que podem fazer a diferença, não existe o incompreensível e não existe dificuldade nenhuma que a força de vontade não vença. Coragem, coragem.




sábado, dezembro 06, 2008

Versinhos para a amada levar para a terra da garoa


É...


Por tantas a gente já passou

De conversa em conversa

tanto a gente já analisou

Já chorei já sorri

já vi chorar já vi sorrir

agora vou ver partir

é...

Por muitas a gente passou

de desventura em desventura

sempre uma mão estendida à outra

em meio a tanta solidão

o encontro da amizade verdadeira pelo computador

é....

por muitas mesmo a gente já passou

amiga o caminho eu sei não foi fácil não

foi muito sofrimento muita angústia

e enfim o pranto passou

vai lá viver o seu amor

que o que é seu jamais o tempo e a distância levou

vai lá viver a paz

que daqui eu fico na torcida e na espera de um alô

é...

tantas a gente passou

e quem desacreditou no amor

graças a Deus não vingou

para ver o dia em que a amada partiu

em busca de seus sonhos
com a benção de sua fé

Foram muitas que a gente passou

e aqui desse lado fica alguém

que ri com você

que chora com você

e desse lado fica alguém a sorrir

porque aprendeu que amizade não precisa ser constante

nem de ver a todo instante

para ficar feliz ao ver a amada ir

sábado, fevereiro 09, 2008

Ode a uma amizade disfarçada de crítica literária (pessoal)


“Amigas morrem de rir, mesmo em velório. Amigas debocham, liberam, recordam, comentam, confessam, perdoam, comungam e exorcizam fantasmas com litros de vinho branco. Duas amigas e uma tarde livre é o paraíso.”

Martha Medeiros – Divã

Em pensar que eu li esse livro numa tarde. Já faz um tempo. Lembro-me bem de como foi aquela tarde, chuvosa, cansativa, tinha andado pelas ruas de uma cidade que de tão pacata era entediante, mas que estranhamente, parecia perigosa aos meus olhos.
Era uma tarde chuvosa e eu só queria me deitar e ler umas 20 páginas, tava bom. Só que, aí que está, o livro me puxou pela mão, foi me guiando por mares nunca antes navegados, sequer imaginados, me fez compreender muita coisa.
Ler Divã pra mim foi como exorcizar vários fantasmas, foi abrir o extintor de incêndio e dar a cara a bater, mas não tanto quanto Martha o fez, posto que ao leitor cabe aquele lugar discreto de quem concorda com as palavras que lê, porém o faz de um lugar ali na última fileira do cinema da covardia, pertencente àquele que queria dizer tudo aquilo, mas, na falta de coragem ou de talento, prefere ler o que os outros escrevem de semelhante ao que se passa em sua alma do que se atrever a rabiscar um papel – mesmo nessas definições, ainda é covardia.
Pois então, covardia foi a minha de ler Divã e me reconhecer em cada linha, em cada frase, reconhecer a mim e a muitas mulheres que ouvi, seja por profissão, seja por amizade, porém o fiz calada, assentindo com cada frase de Martha, mas em silêncio, o silêncio familiar aos mais ávidos leitores. Se alguém pudesse descobrir o tanto que o livro me guiou fá-lo-ia ao saber que devorei aquelas paginas em umas duas horas.
Ainda assim, devorado, o livro não cansa de ser digerido. Transformei em fichamento, em material de leitura obrigatória. No entanto, é balela, faça-me o favor, vai virar referência bibliográfica, mas, mais que isso, vai virar referência interna.
Hoje volto ao fichamento. Mesmo sendo uma preciosa ferramenta para aqueles que se envolveram na árdua tarefa de pesquisa, o fichamento de Divã não foi algo puramente racional não, quis reter, de alguma forma, tudo aquilo que o livro precipitava em minhas moléculas, na falta de fazê-lo de outro modo, taquei-lhe um fichamento, que é o que sei fazer mesmo.
O negócio é que o famigerado fichamento veio até mim por causa de uma grande amizade. Sim. Aparentemente desconexa, a relação que fiz entre a amizade em questão e Divã pra mim significa muito. O fato é que perderei o convívio de uma das melhores amigas que consegui manter nesses meus 25 anos de existência.
Triste conexão, mas, não me arrependo de ter aberto o fichamento e me relembrado do cheiro das páginas daquele livro rosa. Quantas horas passamos falando exatamente o que Martha fala como quem fala poesia? Quantas horas passamos rindo, tristes, felizes com a cumplicidade que soubemos construir de uma maneira quase criminosa?
Eu reconheço essa amizade em Divã. Mesmo que não estejamos nós duas juntas, na maioria das vezes, a cumplicidade é digna de um livro, e eu, na falta do talento da Martha, tenho apenas esse lugar pra dizer dessa relação tão natural e tão doce, tão certeira e ao mesmo tempo surpreendente, que, se não reserva encontros tão freqüentes agora, ao menos continua prometendo ocasiões felizes, cheias de alegria e cumplicidade, mesmo que agora sejam mais espaçadas.
Amigas são isso, divertem-se em velórios, riem na hora proibida, são capazes de ficar felizes na ausência uma da outra, sentir empatia nos momentos necessários e também nos desnecessários. Amizades como essa não morrem jamais – e digo isso com uma certeza tranqüila, daquelas que só se tem quando o sentimento é puro e nobre.
Amizade como a nossa me faz um ser melhor, e me faz querer ser melhor sempre, me faz empática, me faz sorrir em um ônibus numa cidade estranha, há quilômetros de distância de você só por te ver feliz. Amizade como a sua me faz tomar as suas dores como minhas, querer a sua felicidade e me empolgar com tudo que lhe ocorre.
Eu te desejo sorte. Farei o meu caminho também e espero estar junto a você para novas estórias escrevermos. Amizade é isso, um carinho infinito, uma lembrança precisa no folhear de um livro que diga sobre mulheres. E eu sou muito feliz por ter você em minha vida, mais mulher e mais cúmplice a cada dia da sua feminilidade, da sua garra e da sua persistência.
Lara: o mundo é seu e parte do meu coração também. De sócias à cúmplices.

terça-feira, junho 19, 2007

Era uma casa




E hoje eu vou embora. Na verdade eu já fui, mas hoje eu vou oficialmente. Vou com uma mala vermelha, uma mochila e varias lembranças. Aqui eu fui a minha melhor , pior e única companhia.
Aqui aprendi sobre a sensação de ser estrangeira numa terra que a nada se assemelha com a minha, aprendi a chorar e a rir sozinha. aprendi sobre a vida, sobre dor, amor, amizade e família. Acho que o que menos aprendi aqui foi Psicologia – aquela dos livros.
Em pensar que nos primeiros dias consegui pés machucados. Hoje, cerca de um ano depois, saio com o coração avariado. Avariado porque não necessariamente triste, nem sangrando, mas posso dizer que mal das pernas. É isso, meu coração vai mal das pernas.
Quanta dor, pra nos neuróticos, existe num simples virar de página? Falo por mim, muita.
Hoje resolvi tentar umas muletas, para o coração. Fui andar. As velhas andanças por um lugar que já chamei de lar. Senti os mesmos cheiros, das plantas, dos amaciantes de roupa de uma casa que já foi tão familiar, e hoje, embora já distante, continua parecendo um lar.
Lar. O que seria aquele lar? Uma casinha de madeira, se eu fosse Vinícius poderia tentar uma rima, ou simplesmente dizer que não tinha teto, não tinha nada. O caso é que tinha teto e assoalho. Era uma casa muito engraçada, isso era. Era uma casa que era minha, mesmo sem ser.
A minha casinha era assim, pequena mas perfeita para mim. Ali sorri,chorei, amei, esperei e estudei. Naquele pequeno espaço, que, ironicamente, costumava ser a sala de costura de uma casa só, me costurei.
Tenho que dizer que nem sempre tinha linha, às vezes só tinha que dar uns alinhavos, às vezes dava um ponto, mas muitas vezes faltava agulha.
Metáforas poéticas à parte, naquela casinha eu fui, na maior parte do tempo, feliz, mesmo sem saber que o era. Na antiga salinha de costura eu aprendi a ser gente. E os caminhos parecem ainda tão familiares...na maioria do tempo parece que nunca sai daquela casinha alemã.
Não consigo descrever muito o que eu senti, porque não inventaram ainda no dicionário o que sirva pra descrever um sentimento de pertencer sem pertencer. Não sei se me faço entender, se não, vai ver que é porque até pra mim soa confuso. No caminho pra minha antiga casinha, vendo de novo as mesmas flores, as mesmas arvores, eu pensei que ali eu fui feliz, mais talvez do que triste, aquela casa, aquela rua , aquelas flores, serão ilustrações mentais... quando eu me lembrar dali. Vou lembrar ate o dia em que eu não mais respirar, eu vou lembrar da minha casinha.
Vou lembrar do lugar em que aprendi que eu existia independente de um espelho, vou lembrar que eu era alguém, diferente dos outros, mas também essencialmente carente e dependente, dos outros.
Sim. A minha casa tinha teto, tinha porta e era engraçada. Tinha vida, apesar de ser só a minha. É verdade que nem sempre o sol aparecia – as persianas sempre fechadas. Mas eu podia dizer que ali tinha vida.
A minha casinha não é mais minha, tem outro dono. Mesmo que as minhas contas não cheguem mais ali, mesmo que não tenha eu para não abrir as persianas, mesmo que não tenha a minha bagunça, a minha casinha, na minha memória, sempre será minha.
Certamente outras casinhas virão. Mas nesta, nesta eu deixei algo, e não foram toalhas.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Uno Four - When it's real it's forever.

Já faz um tempo que eu quero vir aqui escrever sobre o Uno Four. Preciso de palavras bonitas, aquelas que estão no dicionário apenas por vontade própria, mas que, na verdade, gostam de se exibir nas poesias dos Quintanas, dos Drummonds e das Clarices da vida.
Eu queria mesmo era meia dúzia delas. Assim, como se fosse pão, que se vendesse. Por mais que eu tente, as palavras bonitas e poéticas não vem, elas teimam em sobrevoar a minha cabeça e de lá mesmo sumirem no mundo, nas páginas de alguém, mas não nas minhas.
Eu só queria essas palavras pra poder escrever algo sobre o Uno Four. Um grupo de quatro amigos, e, porque não dizer - espiritamente falando- quatro almas? Ok, se preferem uma metáfora católica...o encontro de quatro irmãos em cristo, unidos por um ideal.
Tudo bem, sei que parece muito sério e todo o tipo de seriedade é desconhecido aos quatro, convenhamos...queria mesmo falar de nós quatro e as palavras, essas as quais procuro, não aparecem, teimam, riem de mim e fogem.
Queria ter o talento de um desses nomes a quem as palavras adoram. Parece que elas vinham fáceis e lépidas e pairavam ali, bem no papel dos poetas que teriam apenas a gratificante missão de eternizá-las...Daí, “Como é bom morrer de amor e continuar vivendo” e tantas outros aglomerados de letrinhas famosos até hoje...
Eu, que não sou Vinícius, também estou longe de ser Florbela. Queria falar dos meus amigos, então, na falta de melhores, vão essas mesmo.
Sinto tanta a falta de vocês, sinto falta dos encontros na cozinha, sinto falta dos insights e dos sorrisos. Sinto falta do bebe-recalca, e também dos outros neologismos criados por nós. Até do famigerado caderninho, eu sinto falta.
Eu sinto falta, e me pego pensando no porquê de tamanho buraco. Penso e repenso e vejo mesmo que é uma questão de encontro de almas. Por que é tudo tão interessante quando estamos juntos? Por que parece que estamos sempre aprendendo, sempre nos compreendendo melhor a cada conversa jogada fora. Jogada fora? Jogada é dentro!
Dentro de cada um de nós, a conversa entra, é digerida e nos transforma em pessoas melhores. Sim, porque eu mudei para melhor, e tenho certeza que vocês também.
Sinto falta do cheiro do café, da vodca e das coisas que não tem cheiro. Sinto falta da macarronada, sinto falta até das milhões de fotos que insistiam em tirar.
Eu sinto falta amigos, eu sinto falta do David, eu já sinto falta dele. Sinto falta do sorriso, da unicidade de uma criatura que, certamente, daqui de dentro do meu coração não sairá. Ele voltará falando mandarim, assim espero. Pode voltar falando árabe, pode voltar até mudo. Mas que volte. Hum, David mudo? Muito mais fácil voltar mudado, mudo não deve ter graça alguma!
Eu sinto falta de Marina, e sentirei muito mais, quando ela também for se aperfeiçoar no mandarim. Eu sinto falta por que ela é ela: querendo adjetivar posso correr o risco de limitar a sua pessoa, coisa que, com certeza, a senhora não é e nem deseja sê-lo. Não há definições, tampouco parâmetros pra medir o que você faz a mim, longe ou perto. Não há dimensões humanas possíveis que possam te colocar em palavras. Então, na falta delas – veja bem, nem as palavras normais e nem as poéticas, as que eu estava procurando, são cabíveis a você – Melhor é desistir.
Sinto falta de Cami, com seu jeito alegre e ao mesmo tempo preocupado, sinto falta do seu caderninho e de seu carinho. De suas preocupações e de seus feedbacks, sinto falta do seu discurso às vezes verborrágico, às vezes agressivo (lembro que ainda trabalho pra você). Sinto falta de você.
Eu sinto falta de Marina, de Camila e de David, eu sinto falta de vocês que já são partes de mim, eu sinto falta de mim com vocês e de vocês comigo. Sinto falta das risadas, sinto falta de nós quatro.
Não vejo outro destino a esse texto do que cair no estilo dramalhão. Não me importo. Vejam, eu queria usar de poesia, não conseguindo, saem só as palavras mais sinceras, menos polidas, mais brutas, mas não menos verdadeiras.
Palavras sem maquiagem, que expressem o que sinto com a falta de vocês, aqui, do meu canto, e vocês, seguindo o caminho de vocês.
Não me importo com o grau de esquizofrenia que esse texto possa sugerir. Eu me importo em apenas dizer, que sem vocês eu não sou eu, que admiro cada um de vocês, no jeito especial que cada um tem.
Agora que chego ao fim do texto, me apareceu um verbo poético, o verbo amar. Será que uso? Uso.
Uso sim, porque sinto. Sinto um imenso amor por cada criaturinha que me faz sentir tão bem só por saber que podemos ter um ao outro. É, eu amo vocês. E qualquer detalhe a mais nesse texto, pode transformá-lo em algo mais dramático.
Isso é apenas um texto de alguém que, não sendo poeta, inventou de colocar verdades numas linhas e começou a sublimar acerca do vazio que é a vida sem vocês. Longa vida ao Uno Four.
(Na verdade em nenhuma palavra e nem em um milhão delas cabem o que sinto por vocês).

quarta-feira, outubro 25, 2006

Esquecendo bússolas




Depois da queda restam duas possibilidades: ficar caído lá no chão à espera de uma mão amiga que te erga, ou erguer-se por si mesmo, lenta, dolorosa mas, verdadeiramente. Depois da queda é mesmo levantar, erguer-se em cima dos joelhos, olhar para cima, porém, não esquecer de dar uma olhada para baixo, para aonde se estava caído há pouco.
Pode ser que demore um pouco, o certo é que a gente sempre levanta, sacode a poeira das roupas, dos solados e parte pra vida. Parte pra vida porque somos desejosos de ar (pelo menos a maioria de nós). É por sermos tão sedentos de ar que vamos em frente, saímos do chão frio e vamos em busca de novas direções. Interessante é seguir um novo percurso, desprovido de bússola. Esqueça o GPS e seja feliz, mude as rotas, e procure aproveitar os dias de sol, aproveitar os momentos alegres e ter a maturidade suficiente para sabe-los apenas momentos. Momentos que são, evanescem para se tornarem memória, pó do que foi um dia.
Como diz a sabedoria popular, não há bem que dure pra sempre, tampouco mal que nunca se vá, não sei literalmente, mas, a bem da verdade, o que quero dizer é que, momentos, tanto os bons quanto os péssimos, passam, necessário é ter paciência, pra ver o curso das marés mudar, pra acompanhar a lua mudar, pra enxergar o sol de todo dia nascer, todo dia, impreterivelmente, por que disso temos certeza, ele vai nascer.
Eu tenho andado ao leo, sem bússola, sob o sol, esperando o curso da vida mudar, e me interessando pelas surpresas que a vida ainda me reserva. É tudo o começo de algo que não sabemos no que vai dar, e daí a única certeza: o sol nasce todos os dias, a escolha é apenas sua: se jogar no chão e deixa-lo ir, ou erguer-se, levantar a cabeça e comtemplá-lo.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Dói

Os poetas, os romances, as músicas, os escritores, os cancioneiros, os cantores, os jornais, a televisão, as novelas, as senhoras mais vividas, as meninas não vividas...bem que todos sempre parecem dizer...amigo, quando dói assim, é dor de amor. Parece que nem era pra doer, parece não ter localização fixa, irradia, machuca, fere, dói que ninguém parece perceber, senão a gente. Dói por não ter local,dói por ser angústia...dói invisível mas dói tudo.
Dói nos joelhos, nos pés e nas mãos. Dói até os cabelos!Dói a cabeça cansada de pensar e de lembrar, dói nos cotovelos.
Dói dormir e sonhar que tudo está como antes no lugar, mas dói acordar e ver que era apenas um sonho. Dói no sono, dói na falta de sono. Dói até na fome, que não passa com comida. Dói sem ninguém ver. Mas, que nada, há de haver alguém interessado em nossa dor? A dor tão íntima e tão nossa, aquela que não nos deixa?Não, amigo, a dor, é minha só e não é de mais ninguém, alguém já disse.
Dói o esqueleto, dói a alma e a vontade, dói também o coração, que parece se encolher tal como se encolhe um corpo frio no chão da sala. Dói e encolhe. E dizem que dor assim, só pode ser dor de amor.
Dói infinita e indiscretamente. Dói o juízo, dói. Dói a lembrança de não mais ter o que se teve, dói no peito não poder reverter, dói estar nas mãos de alguém, mas não mais estar no coração.
Dói insuportável e completamente. Dói amor, dói. Dói não te ter nas maõs, dói e deixa um vácuo repleto de lembranças.
Está doendo, está ferido algo cá dentro. Dói demais e sempre mais. Dói e não para de arder. Talvez demore a sarar, talvez o prognóstico não seja agradável diante do lamentável diagnóstico. Dói, está doendo e , enquanto nao passa, só pode é doer mais. Dói, amor.
e há quem diga que só se dói assim se for de amor.

domingo, julho 23, 2006

Do que vai e do que volta



Quando a gente vai tudo é urgência
É valentia, é questão de desbravar
A gente chega,
Pensa que é um só
Pensa que é coragem
Quando a gente vai nada dói
Como se houvesse um quê de pedra
Lá onde mora o coração
Quando a gente vai,
nem existe memória
Fotografia ou recordação
Quando a gente vai
Não existe lamento
Tampouco sentimento
Quando a gente vai
O que importa mesmo é ir
Pena é que quando se foi
Já não se é o mesmo
Lá ficou algo de si
E que, pra surpresa nossa, não volta
Aqui,
Uma versão apenas
Quando a gente volta
A vida é outra
Digo mesmo que o rio é outro
Quando a gente volta
Sabe o que perdeu
Tentando outra coisa encontrar
Quando a gente volta
Não é a casa que se torna
É a outro lugar
Que a gente não sabe situar
Nem sabe mesmo aonde ficou
Quando a gente volta
Tudo é diferente
E a sensação que se tem
É de que nunca se foi
E que dali
Nunca desejamos sair
Quando se volta
Já não se volta o mesmo
É outro
E o lugar soa apenas
Como um estranho familiar




*Ilustração: Quadro "Garotas na ponte", de Edvard Munch *