quarta-feira, janeiro 30, 2008

Van Gogh vai ao divã (com pincel ou sem pincel?)



"Quando se tem saúde, tem de se poder viver dum pedaço de pão e com isso trabalhar o dia todo e ainda ter força de fumar e beber um copinho; disso precisa uma pessoa nestas circunstâncias. E ao mesmo tempo sentir as estrelas e o infinito lá em cima. Então a vida é apesar de tudo quase fabulosa. Ah, quem aqui não crê no sol é um ímpio".


Van gogh



Poderíamos deduzir a partir da frase acima que Vincent seria, se vivo fosse, um daqueles workaholics, viciados em trabalho, que não tiram férias e que, mesmo assim, consegue reservar um espacinho para tomar um chopp com os amigos, jogar conversa fora, rir... o famigerado "Happy Hour".

Poderíamos inclusive dizer que Van Gogh era um cara feliz, e, quase parafraseando Ivan Lins, achava que a vida poderia ser maravilhosa, ou, quase toda fabulosa, como bem disse com suas palavras.

A verdade, entretanto, é que Van Gogh não era um cara tão bem resolvido assim: sua vida amorosa quase inexistente se resumia a alguns poucos amores platônicos, casos de um dia com prostitutas, amores mal resolvidos. Arrisco dizer que o grande amor de sua vida era seu irmão Théo, com quem trocava constantes correspondências durante muito tempo de sua conturbada vida, entre uma internação psiquiátrica e outra. Théo lhe dava a mão, um pouco de dinheiro e também pão.

Van Gogh era um cara impulsivo, bastante impaciente e notadamente romântico em tudo que fazia; seus quadros exalavam paixão através das cores, dizia amar o amarelo, quem não conhece os girassóis? Apesar de descarregar na sua arte todo a agonia interna, apesar de com o pincel buscar impulsivamente falar de si, Van Gogh era infeliz.

Vejam vocês, enquanto hoje em dia meio mundo de pessoas fazem rabiscos contemporâneos a giz, emolduram algum objeto sem sentido e fazem disso arte, vendem-na como banana em feira, Van Gogh, em seu tempo, pintava seu " semeador", ou seu "o comedor de batatas" , não recebia quase nada por isso e ainda, como bonificação, era infeliz.

Mesmo sendo um cara tão talentoso, tão avesso às regras da tradicional escola impressionista que tanto o influenciou, Van Gogh era, no fundo, um romântico, pintava pra falar da agonia que em si habitava, pintava para dizer algo, seja isto alegria, euforia, impulso, paixão ou tristeza, mas pintava:muitos quadros ao mesmo tempo, dizia perder a consciência enquanto pintava, parecia viver em um universo paralelo e que dele retornava, sempre, com alguma tela recheada.

Interessante é que, por mais que muita gente tente provar o contrário, nada, mas absolutamente nada escapa ao inconsciente, e esse, faceiro que só ele, acaba aparecendo, numa tela ou noutra, num livro ou noutro, numa poesia ou noutra, numa identificação, ou noutra. O inconsciente sempre está procurando escapar, por alguma via, dos domínios da tradicional e anêmica consciencia.

Com isso quero dizer é que, mesmo que Van Gogh se esmerasse para superar os seus precursores, seus professores, sua obra era marcadamente romântica, cheia de paixão, e, por isso, cheia de inconsciente. Abundantemente inconsciente e qualquer um que tenha prestado atenção alguma vez em Psicanálise poderá perceber que as constantes mudanças de hospital, as mudanças de cidade, as desilusões amorosas, as perdas, tudo, enfim, estava ali nas telas as quais os críticos de arte separam, analisam e didaticamente as distingue em "períodos".

Então, existe a fase de Arles, em que Van Gogh parece estar mais feliz, o amarelo é ressaltado, o mesmo pode-se dizer de Gaughin, de Picasso, fase rosa, fase azul.

Eu sou contra essas classificações. De verdade. Eu acho que, como já diria alguém no orkut (hahahaha) definir é limitar. É é. Ao separar Van Gogh em Van Gogh de Arles, Van Gogh dos girassóis, Van Gogh de Saint-Rémy estamos dividindo o próprio Van Gogh, esquizofrenicamente, diga-se de passagem.

Tudo bem, didaticamente é interessante para que as pessoas aprendam que existem "fases" na obra do pintor, marcadamente influenciadas pelo que passa em sua vida, é assim que fomos acostumados a entender, sem falar nada sobre inconsciente.

Basta pegar qualquer livro da Taschen que você verá a separação dos tópicos relacionados às "fases" as quais marcam "vida e obra de fulaninho".

Eu prefiro considerar Van Gogh um gênio de seu tempo, e , como todo gênio, atormentado, dividido em várias partes (vide a psicose que sustentou durante sua vida e que o levou ao suicídio), não em partes que possam ser didaticamente determinadas utilizando as cores como critério, ou o lugar, enfim, mas em partes de pessoas, como eu e você, que tantas vezes nos quebramos, nos colamos , quebramos de novo para nos colarmos em seguida e muitas vezes não fazemos nem um rabisco no papel, quanto mais pintar um quadro

Diante de tanto remendo, é impossível ser o mesmo e não precisamos ser Van Gogh para nos considerarmos seres , em algum determinado momento de nossas vidas, atordoados, cansados, desiludidos e fragmentados.

Obviamente há momentos de esperança, veja você, o próprio Van Gogh dizia, em um dia em que certamente acordou de bom humor, que a vida é quase fabulosa. Nós também podemos dizer isso, pois não nada melhor, ou ainda não inventaram, a sensação de renorvar-se constantemente, de aprender a cada segundo e de respirar novas correntes de ar no momento em que estas nos chegam aos brônquios e aos pulmões.

Assim, viver vale a pena, expressar nossas paixões vale muito a pena, seja isto feito através da pintura, da literatura, da música, da escultura, do teatro, da dança...enfim, podemos expressar nossas "artes" internas até mesmo nos identificando com um vídeo que vemos no youtube. E isso é pura e simplesmente Psicanálise, é inconsciente e , por isso, tão palpável, mesmo que aparentemente transparente.


terça-feira, janeiro 22, 2008

Piriguete: um conceito, acima de tudo, psicanalítico



A cada dia me surpreendo mais com minha própria capacidade de ver teoria nas coisas que talvez nem necessitem de teoria. No entanto, seja por vício ou habilidade, resolvo trazer hoje uma figura contemporânea para dentro da teoria, o que faço sem pudores, almejo mesmo me divertir e - não vou mentir - aprender um pouco, por que não? Quem disse que não se aprende na futilidade?

Pois bem, quero tratar aqui da famigerada "Piriguete". O que seriam os atributos que caracterizam a Piriguete? Como ela se constitui num modelo de mulher contemporâneo, capaz de inspirar algum Mc desocupado a ponto de virar "hit de verão"? Bem, essa coisa de virar "hit" de verão não é lá nenhum mérito da Piriguete, mas já que virou, isso implica dizer que em todos os botecos se escuta algo referente a Piriguete, o que, se faz alguns descerem até chão, faz outros especularem, na falta do remelexo, sobre o que diabos é a Piriguete.

Para uma análise, digamos assim, mais apurada e embasada teoricamente, trarei alguns trechos da letra do "Mc Papo" para tentar desvendar esse enigma que circunda a imagem da mulher-Piriguete. Vamos à análise então:


1. Quando ela me vêela mexe piri pipiri pipiri piriguete


Nota-se, pelo fragmento citado, que a Piriguete é alguém que busca através sedução um meio de conquistar a fascinação e o olhar do outro, nesse caso, o olhar do Mc o que generalizado pode ser considerado o olhar de todos os outros homens que curtem uma Piriguete ou se deixam seduzir por tal mulher.


2. Mini-saia rodada, blusa rosinha, decote enfeitado com monte de purpurina. Ela não paga, ganha cortesia


O trecho acima corrobora o que foi explicitado no tópico 1: A Piriguete é uma mulher definida pela sensualidade e que busca na aparência, bem como nas vestimentas provocantes o olhar masculino sexualizante que vai colocá-la na posição de desejável, ao menos em se tratando de seu corpo. A última frase do trecho aqui trazido demonstra que a Piriguete, por ser essencialmente sedutora, também utiliza essa característica como recurso visando conseguir barganhas como entradas gratuitas em locais em que possa exercer sua essência piriguete.


3. Foto de espelho na exibição.


Confesso que esse trecho não me parece muito claro para ser passível de uma análise mais detalhada, no entanto, arrisco dizer que o que Mc Papo, o compositor da pérola em questão quis dizer é que a Piriguete é alguém que vê no olhar do outro e na exposição de si mesma um modo de construir sua identidade, o que é feito diante do espelho. Nesse ponto podemos notar que Mc Papo utiliza conhecimentos psicanalíticos, sobretudo no que diz respeito a teoria lacaniana da constituição do sujeito a partir do espelho. No entanto, McPapo não utiliza o termo metaforicamente, uma vez que parece falar que a Piriguete se exibe na frente do espelho, objeto concreto mesmo, aqueles que estão em todos os banheiros das baladas e outros lugares frequentados por tal mulher.



4. Ela curte funk quando chega o verão. No inverno essa mina nunca sente frio, desfila pela night de short curtinho.


Percebe-se que a Piriguete prioriza a atividade sedutora em detrimento da saúde física. Mesmo durante o inverno, faz uso de roupas provocantes e incoerentes com as condições meteorológicas visando unicamente a sedução, sua atividade preferida.


5. Um cinco sete de marido, ela gosta é de cara comprometido.


Aqui vemos uma outra faceta da Piriguete: a preferência por relacionar-se com figuras masculinas interditadas, demonstrando uma não ultrapassagem do Complexo de Édipo. Notamos novamente os conhecimentos de McPapo acerca dos conceitos fundamentais da psicanálise freudiana. Neste pequeno trecho o compositor aborda sutilmente, o que deixa margem para interpretações, o que Freud aponta como uma caracteristica intrinsecamente feminina, a saber, a não resolução do Édipo que torna-se sintoma e aparece nas clínicas de psicoterapia como sendo a maior queixa feminina.


6. Ela não é amante, não é prostituta, ela é fiel, ela é substituta


Vemos novamente que a Piriguete, além de uma mulher sedutora, assume essa posição, como se pode notar em toda a letra da música, de forma submissa. A Piriguete anda de short curto mesmo no inverno, de gloss e piercing no umbigo, necessita desesperadamente desse olhar masculino, não se importando com o fato de não ser tomada como figura digna de casamento.

A Piriguete, portanto, assemelha-se a uma imagem da Amélia do samba de Mário Lago (perdoem-me a comparação). No entanto, é uma Amélia contemporânea, bem arrumada, provocante, mas, ainda assim, Amélia, contenta-se em ser a substituta. Mais uma vez uma alusão a Psicanálise, sempre, claro, de forma bastante sutil. McPapo refere-se a teoria freudiana quando sustenta que a Piriguete está situada entre a prostituta e a esposa, comportando-se como aquela que está disposta ao que lhe aparecer, em nome do falo que acha estar situado na figura masculina, representada pelo Mc.


7. Mexe o seu corpo como se fosse uma mola, dedinho na boquinha, ela olha e rebola


Vemos novamente que a Piriguete utiliza-se da sua imagem corporal demandando o olhar fetichizador masculino. Sabe ser sedutora e o faz convocando o outro masculino para a atividade da cópula: a Piriguete está sempre disposta à atividade sexual e para tanto utiliza os recursos que tem à mão (literamente, o dedinho) para seduzir e copular.


8. chama atenção, vem na sedução, essa noite vai ser quente, eu vou dar pressão


O referido trecho é complementar ao item 7 e demonstra que a Piriguete alcançou êxito em sua atividade sedutora que tem por objetivo incitar o outro ao ato sexual, o que pode ser compreendido pela frase "eu vou dar pressão", uma sutil referência a atividade masculina durante a cópula.



Nota-se que a letra instiga diversas interpretações. Mc Papo demonstra sutilmente, uma vez que seu público-alvo é constituido, em sua maioria, por pessoas leigas, seus conhecimentos acerca da psicanalise, sobretudo quando traz referências das teorias de Lacan e de Freud para construir a imagem da mulher contemporânea e sedutora a qual denomina Piriguete.

Poderíamos inclusive especular que o termo "Piriguete" deve originar do substantivo "Perigo", algo que pode ser compreendido tanto como representando o perigo para o masculino como referente à expressão contemporânea "estar a perigo", o que justifica sua submissão diante do masculino, já que a Piriguete é 157 de marido.


O que podemos concluir disso tudo? Bem, podemos concluir o que quisermos, mas certamente que é possível ver teoria em tudo, que o McPapo deve ser alguém muito modesto e que demonstra conhecimentos psicanalíticos de forma quase vulgar para fazer-se compreender pela massa rebolativa constituida por Piriguetes e seus equivalentes masculinos.´

Se Freud dizia que às vezes um charuto é só um charuto, digo que nem sempre um funk é só um funk.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Por que não arruma um emprego de verdade?

Quero fazer desse lugar uma apologia à pesquisa, seja ela qual for, seja você um estudioso em algas marinhas ou em glândulas cebáceas, o que é importante que você, pensador solitário, errante no caminho das metodologias da vida, consegue abstrair seu pensamento para ir além.
Falo com esse entusiasmo porque admiro aqueles que se dedicam pacientemente a estudar uma verminose ou a conhecer todos os efeitos produzidos pela mordida de uma jararaca, sabendo seus mais curiosos hábitos e o porque de tal mordida ter tal sintoma ou outro.
Quando se fala em pesquisa no Brasil muita gente torce o nariz, outras aplaudem, mas, na verdade, o que se sabe é que aquele que pensa é porcamente recompensado pelos préstimos que oferece à nação. Não quero dizer com isso que seja o trabalho mais importante do mundo, imprescindível, mas o único que permite a circulação e a produão do conhecimento.
Caso não o fosse, não se teria chegado ao coquetel de drogas oferecido aos portadores do HIV, não se ouviria falar do projeto Genoma, tampouco se saberia aonde se localiza o hipotálamo e o que acontece quando este sofre uma lesão.
Tudo bem, vá lá, vendo a situação por esse ângulo nota-se que há uma certa valorização pelo conhecimento adquirido através da atividade da pesquisa, mas, e os outros tipos de pesquisa, as não tão palpáveis, aquelas mesmas que são consideradas por muitos como “perda de tempo” ou “falta do que fazer”?
Sim, me sinto uma dessas. Apesar de saber que o que estudo é de suma importância para a compreensão dos relacionamentos entre homens e mulheres, para se entender a lógica feminina e o porquê de tantos embates e tantas polêmicas, sobretudo para se concluir que o mundo, de fato, hoje, é feminino.
Importância. Palavrinha escorregadia. Importância para quem? Como qualquer pesquisadora, eu poderia dizer que é de suma importância para mim, uma vez que já dedico 4 dos meus últimos anos debruçada sobre a temática e que, portanto, é impossível que não seja o mínimo instigadora para mim.
Claro, para mim é, pra você pode não ser, mas o que quero dizer é, esquecendo do meu caso particular, que a pesquisa faz o conhecimento saltar das páginas, tal como o bom livro, lembra? A pesquisa faz o pesquisador, autoriza o aluno e empolga o professor, em suma, a pesquisa mobiliza os pensadores e cria pensadores.
É uma pena que nós, aqueles devotados ao estudo de artigos científicos, freqüentadores assíduos das bases de periódicos Scielo e cia, pessoas que fazem de tudo por um ponto no famigerado Curriculum Lattes não possam contar com uma remuneração mais justa por simplesmente pensar e fazer (futuramente) pensar os nossos alunos.
Passamos boa parte de nossas vidas dedicados à obtenção de títulos, a publicações em revistas científicas, para chegarmos um dia a sermos considerados “professores”, professores mestres, professores doutores.
Para quê? Seria ridículo eu dizer que apenas seria em nome do compromisso que firmei com a nação uma vez que resolvi fazer circular o conhecimento, não, é utópico e presunçoso demais, o conhecimento não vai começar a circular ou mesmo circular melhor porque eu decidi ser pesquisadora. Acho mesmo que vai muito ego nisso tudo.
Muito simples essa questão de ego, enquanto uns o enaltece malhando o corpo, outros enaltecem colecionando namorados, e outros, bem, outros o enaltecem estudando para um dia chegarem a uma sala de aula e serem tratados como carrascos ou desagradarem meio mundo.
O pior de tudo: a recompensa. No Brasil, um professor doutor pode ganhar, no máximo, se tiver muita sorte, uns sete mil reais. Já um promotor, desembargador ou juiz pode ganhar o dobro, triplo, não entendo nada da esfera judicial.
Não quero com isso desmerecer o serviço dos juristas, dos advogados que tanto ego possuem e, além de tudo, são pagos para enaltecê-lo e mais, de brinde: porte de armas pra ameaçar geral e bradar alto mesmo quem manda aqui.
Ok, ressalvas à parte. O fato é que professores doutores não são reconhecidos nem um pouco e isso me deixa um tanto triste, porém, não desmotivada, visto que, alguém deve fazer o trabalho sujo.
Feito aqui o desabafo, reitero, nosso trabalho é útil sim, e mesmo que o conhecimento não ultrapasse todas as barreiras, malmente figura no Lattes de alguém, que nossas palestras estejam sempre vazias e levemos sempre para casa a voz perseguidora dos orientadores em nossa cabeça, o trabalho sujo vale a pena, enaltece e enriquece intelectualmente.
Fale você de serpentes, de coqueiros ou de mulheres, o trabalho intelectual é importante, sobretudo quando se tem amor pelo que se pesquisa e se consegue transmiti-lo da melhor forma possível para outras pessoas. O conhecimento então circula, e abunda, fertiliza.
Dedico esse texto a todos os mestrandos da Unisinos, que, por hora, encontram-se como eu, atordoados entre os prazos e a ansiedade da defesa da dissertação que, se não for a melhor produção de sua vida, é , neste momento, o ápice da sua vida.
Para todos desejo sorte, a mesma que desejo a mim mesma e que nossos caminhos não sejam jamais cruzados por alguns seres acéfalos, animais ruminantes ou qualquer ignorante que nos faça a terrível pergunta: “Vem cá, por que tu estuda isso? Por que não vai arrumar um emprego de verdade?”

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Jabor contra Coelho






Eu que não li Paulo Coelho me espanto com o número de pessoas que habita a comunidade no orkut chamada "Paulo Coelho não é Literatura". São mais de 10 mil pessoas exigentes, talvez não todos críticos de literatura, muitos devem ser agitadores, revoltados, rebeldes sem causa que nem eu, a bradarem seu medo de que um dia o célebre autor vire leitura obrigatória em colégios e faculdades.


Não posso negar, faço parte desse mundo de gente que assertivamente diz que Paulo Coelho não é literatura. Vocês podem dizer, qual é a sua base para dizer que Coelho não é literatura?Não mentirei, não li seus clássicos. Tampouco li Dostoiévsky, não, sequer folhei o Código Da Vinci. Tem muita coisa que não li e mesmo assim critico, mas com Paulo Coelho é diferente, é um prazer maior, não sei por qual motivo, simplesmente gosto de criticá-lo. Assim mesmo.


Eu digo que Paulo Coelho não é literatura, simplesmente por convicção de que, não sendo ignorante quando se trata de letras e já tendo lido Machado de Assis, Luiz Fernando Veríssimo e Goethe, eu posso, por exclusão, dizer que Paulo Coelho , e o pouco que sei dele, não é literatura. Digo mesmo influenciada pelo grupo de rebeldes críticos, não, não é literatura mesmo sem eu ter lido uma linha.


Acho que a boa literatura é aquela que nos leva para outros mundos, para além das quatro paredes nas quais nos encerramos com o livro na mão. A boa literatura, no entanto, entendo não ser apenas isso, posto que o que Coelho faz, segundo quem o lê, é levar tanta gente a tantos lugares exóticos, exotéricos.


A boa literatura exige mais do que um passaporte imaginário, ela exige capacidade crítica de quem lê, para que, tomando as letras que absorve como metáfora, possa fazer da palavra lida, palavra escrita por ele mesmo. O que quero dizer é que, na minha opinião, para ser um bom livro, o livro precisa nos ler e nos pegar pela mão.


Atualmente estou lendo Jabor, "Amor é prosa, sexo é poesia", e acredito que, nada melhor do que um livro de crônicas bem escritas para nos fazer desabrochar a capacidade de pensar. Jabor nesse livro fala sobre tudo um pouco: relacionamento homens e mulheres, contemporaneidade, crônicas sobre o futuro do Brasil...enfim, são temas variados que fazem o bom leitor indagar, questionar, e sobretudo, além de pensar, colocar algo em movimento sob o impacto da palavra lida.


Desde as relações frouxas da era pós-moderna até a bunda de Juliana Paes, o Jabor fala de coisas com que todo mundo se depara até mesmo na banca de jornal da esquina, com isso, não necessariamente a leitura de Jabor nos leva ao caminho de Santiago de Compostela ou a tantos outros lugares.


Não, Jabor não nos leva além da banca de jornais, muitas vezes, e isso é o crédito que pode ser dado a ele: mesmo aqui no nosso país de miseráveis a boa literatura se apresenta como antídoto contra a alienação, mesmo que não nos leve a outros continentes nem seja best-seller.


Tudo bem, então sejamos imparciais agora, logicamente estamos falando de estilos diferentes, Coelho escreve seus estórias em prosa, não sei se todas, acredito que já deve ter se aventurado por outros estilos, mas não posso afirmar, posto que, como já disse, sou uma ignorante quando se trata de Paulo Coelho.


O que quero apontar aqui é que, muitas vezes, um livro de crônicas como o de Jabor é capaz de fazer as palavras saltarem do papel escrito pro papel em branco, e isto, acredito, é a maior vantagem da leitura: tornar o leitor um autor.


Dito isto, agora me vem uma preocupação: Se esta é a maior vantagem da literatura, quem será que fez Paulo Coelho ser Paulo Coelho?

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Contraponto à boa Amélia

" [...] pelo casamento, é que o sexo feminino poderá alcançar o sustento que lhe é necessário"
Schopenhauer - A arte de se fazer respeitar.
" As mulheres representam o triunfo da matéria sobre a mente".
Oscar Wilde - O Retrato de Dorian Gray
" A mulher nao teria arte para se enfeitar se não pressentisse o papel secundário que desempenha".
Nietzsche - Para além do bem e do mal
Quando juntei esses três pensadores nesse texto não pretendi nada além do óbvio: demonstrar como, ao longo dos séculos, a história do pensamento humano tem relegado à mulher o mesmo papel secundário do qual Nietzsche fala. O incrível é que, mesmo que tenhamos, nós mulheres, ultrapassado os limites impostos pela autoridade paterna, ainda há aquelas que existem apenas com o intuito de corroborar o pensamento dos autores citados.
Desse modo, vestem-se e vivem suas vidas baseadas no pretenso brilho que tem o falo. Como bem se sabe, o falo não é propriedade de ninguém; ele atua como moeda de troca entre os sexos. Claro que muito se passou desde Lacan e seu falo, porém, há de se convir que em toda relação se supõe que o outro detenha algo que poderá completar o sujeito.
Desde os primórdios do pensamento humano, a mulher está associada à beleza, juventude, e desejo. O que foge disso ou é associado ao masculino, ou é associado à figura materna. Logo, gordura, velhice, feiura, é, literalmente, a mãe (obviamente estamos excluindo aqui os casos edípicos, em que, como bem diz o termo, a mãe possui as mesmas qualidades que a mulher passível de ser desejada sexualmente, excluamos então o pobre Édipo).
O que falamos aqui é que, ainda assim, tem sido mais confortável conceber as mulheres como belas e preocupadas com características de meiguice e sedução do que entendê-las como seres pensantes.
Exemplo? Posso dar. Na Grécia Antiga, na ilha de Safo, uma poetisa e pensadora que doutrinou muitas mulheres para a atividade do pensamento, do entendimento das coisas e dos objetos. Certamente poucos sabem disso, mas de Sócrates todos ouviram falar em qualquer apostila de cursinho pré-vestibular.
Poderia citar outras mulheres "injustiçadas" mas não quero parecer feminista. Elas tiveram seu valor, hoje em dia qualquer ranço de inflexibilidade é mal visto e/ou mal interpretado. Não quero dar esse tom ao texto.
O que quero dizer, sem meias palavras e sem mais rodeios, é que uma mulher que pense continua incomodando, seja o homem Nietzsche, Schopenhauer ou mesmo o Zé da esquina, ou seu João da padaria. Uma mulher que pensa é vista como exceção à espécie destinada à luxúria e ao desejo (masculino) apenas. Logo, a mulher que pensa é sobretudo, imaginada como feia, desprovida de qualidade sedutoras, desprovida de atrativos visuais, aqueles que saltam aos olhos masculinos.
Uma mulher que pensa e é bonita é mais aberrante ainda, e o que fazer com ela? cerrá-la em uma laboratório e investigar as vicissitudes do seu cérebro ou subjulgá-la ao fictício poder fálico?Eis a dúvida quase shakesperiana. Acredito que poucos sao os corajosos a aguentarem uma mulher que pensa.
Com isto quero dizer que, exceção e aberração, a mulher que pensa assusta e atrai o olhar masculino, mas, a grande maioria dos homens prefere subjulgá-la, inferiorizá-la para que assim se sinta melhor em sua própria pele.
Não raramente a mulher que pensa passa os natais sozinha, comemora sozinha seus aniversários e não tem para quem ligar num sábado a tarde que não os bons amigos de longa data. Em relacionamentos amorosos ela assusta por não se contentar com o pouco que alguns lhe oferecem em troca do pretenso falo que pensam possuir. Ela sabe que é um engodo essa coisa de falo estar no masculino. O falo dela está em sua inteligência, em seu saber, e esse é que atrai o masculino, ao mesmo tempo que lhe esfrega na cara a incompetência viril.
Apesar do tom aqui utilizado, não acho que todos os homens estejam com medo da mulher que pensa, há os pensantes que reconhecem o seu valor e fazem de tudo para não deixá-la escapar, há também aqueles que não se assustam e conseguem manter uma relação equilibrada com alguém que pode ser intelectualmente superior a ele. Enfim, há diversas possibilidades visto que esse mundo que habitamos não é uma ilha fechada, tampouco carece de mudanças, estamos sempre mudando e generalizações não cabem quando estamos falando de seres humanos, feixe de possibilidades por si sós.
Feita aqui a defesa e tendo dito de antemão que não pertenço a classe daquelas que acha que homem e dejeto são sinônimos, pretendo aqui dizer que a mulher que pensa também deseja e deseja muito. Cabe a quem se aventurar, e tiver coragem de, embarcar.
Aos que não conseguem modificar seu discurso e nem seu comportamento assustado diante de uma mulher assim, cabe meu conselho de que leiam Schopenhauer, Nietzsche, Platão...qualquer um desses, e tente buscar em suas entrelinhas uma corroboração inteligentemente embasada para subjulgar, inferiorizar o feminino. Ah, mas nem tudo está perdido, para cada mulher que pensa existem 100 Amélias.
Exatamente. Aquela que era mulher de verdade.

domingo, dezembro 02, 2007

A agonia do macho ou a queda da virilidade


"Os homens estão recusando o poder, não tanto porque as mulheres o ganharam, mas porque eles o perderam. Os homens estão cansados de ter que exercer a paródia da virilidade, de ter que sustentar o delírio da supremacia".

Alfredo Jerusalinsky


Quando me peguei lendo este fragmento do texto intitulado " O declínio do império patriarcal", percebo o quão verdadeiras são as palavras de Jerusalinsky, sobretudo posso mensurar, apenas mensurar a sua dor ao dizer dessa angústia masculina de ter que se afirmar, de ter que dizer-se macho ou viril. Para agradar a quem? As histéricas, não se engane.
Jerusalinsky não fala nada inédito, muitos autores que se debruçaram sobre os fenômenos do mundo contemporâneo já há muito falam de fluidez de laços sociais, era da livre gestão, e, claro, declínio da função paterna. O que se vê atualmente é o que Melman, o que Lipovetsky, Calligaris, Dör, Nasio, entre tantos outros já disseram, mesmo sendo homens: provavelmente a contemporaneidade veio atestar o óbito da macheza e lançar luz sobre o que está por trás da máscara da virilidade, a saber, seu aspecto de cômico, quase bufão, inadequado.
Sim, na contemporaneidade vê-se o declínio das instituições que elevam o pai, não existem mais livros sagrados que possam ser, de fato, levados em consideração. Melman fala que há uma falência geral de referências, é a queda do simbólico.
O tom pode ser nostálgico, afinal, como boas histéricas, queremos mesmo é que apareça esse homem dos tempos modernos, nao contemporaneos, cavalgando seu cavalo potente, usando sua capa, que tenha força suficiente para nos pegar pelos braços e levar-nos para a terra do nunca. Balela. Eu diria pra princesa aterrissar, porque a virilidade do príncipe encantado não passa de ficção.
Príncipes nao existem porque simplesmente nao existe nada na contemporaneidade que sustente o delirio de grandeza em que o macho perfeito, o macho alfa, possa deter em si a força de Sansão e o poder de Aquiles para conquistar o mundo, a cidade, a mulher.
A virilidade não mais existe, e quem as tenta impor, senão pode ser chamado de ator, ´pode ser chamado de charlatão. Tal como o médico de araque. Assim é o homem que prega a virilidade: Inicialmente até se acredita no teatro, mas logo a farsa é revelada quando falo é exposto a luz do dia. Assim se descobre que o diploma é falso, que a identidade masculina calcada na virilidade é falsa, balela, e quem tenta exercê-la só pode adquirir fracassos.
Fico aqui pensando nos pobres homens perdidos em meio aos tempos de incerteza em que já não mais reina: precisam de um carro, de um computador de ultima geração, de um emprego, de uma mulher-trofeu...tudo isso na incessante busca de ostentar aquilo que não tem e que, mesmo que tivesse, seria castrado, sem sombra de dúvidas.
Áqui pode-se perguntar. Castrado por quem? Pela mulher? Não sei ao certo, parece a resposta óbvia, certeira, mas é que não é. Não é a mulher que expõe a farsa da virilidade decaída, é um conjunto de fatores os quais aparecem na contemporaneidade e fazem marca nos sujeitos. A mulher, tal como diz Jerusalinsky não tem o mérito de desapossar alguém de qualquer coisa, simplesmente o falo - desde Lacan se sabe - não é posse de ninguém, e, mesmo que se tente encenar, ninguém tem, jamais terá e hoje em dia, quem tenta incessantemente tê-lo o faz em represália a tantos bombardeios que só veem desestruturar ainda mais o decadente edifício da macheza.
E então? O que fazer com tantos morteiros?com tantos ataques? refugiar-se na feminilidade? Essa é a saída de vários homens, mas ainda há aqueles que não desistem da encenação e, obtusos que são, precisam do carro mais novo, da mulher mais luxuriosa, do sexo sem limites, do corpo malhado. E o desejo? Bem, o desejo, podemos dizer que já são outros 500.
Tenho pena daquele que insiste na virilidade decaída, e tenho certeza que quem leu essa frase deve achar que li Karen Horney e o que existe, na verdade, é uma inveja do pênis. Deixe estar. Não é uma mulher que vai destituir o império patriarcal, ele se desfacelará sozinho, será sombra numa contemporaneidade cada vez mais ligada à relações frouxas, imaginárias, sem apoio.
Dito isto, o que resta aos homens? Quase nada. Talvez a desconstrução da identidade masculina calcada na virilidade em desuso. Os que insistem, podemos dizer que são os homens modernos, das cavernas, vá lá.
A verdade é que não existe mais autoridade paterna, nem de qualquer instituição e nem há mais espaço para o macho-comedor, apesar de haver sempre uma histérica ou outra que, visando um mestre, acabam servindo de macacas de auditório para a pretensa exibição do falo: "Isso meu amor, assim mesmo, você é o melhor, sem você não existo, como você é forte, como joga bem!".
Eu acredito que a contemporaneidade tenha papel primordial para que o castelo ilusório da virilidade decaia, mas sendo eu mulher, não custa denunciar, com o vazio do meu feminino que não se cansa de não se calar, a morte de Deus, do pai, das instituições, do macho, do homem das cavernas.
E o feminino ameaça tanto!Em que conclusão posso chegar? Que o futuro de todo homem é ceder à feminilidade, é abandonar a pretensa posse do falo? Jamais farão isso pelo simples fato de que sempre haverá uma macaca de auditório, uma histérica que, se já não se paralisa diante da própria sexualidade, necessita ardentemente de um médico, de um homem, para dizer-lhe quem é.
Eu, por ora, recuso o papel da macaca de auditório, da histérica emocionada com o poder fálico e com a virilidade. Prefiro um homem re-inventado, que sabe que masculinidade não necessariamente depende da assunção da posição de dominador diante da "fêmea". Esses sim, os homens contemporâneos.
Quanto aos que ainda insistem no delírio da virilidade, nada tenho a dizer justamente porque estão mais preocupados com a própria macheza e definitivamente não perderiam seu tempo lendo isto, a bem da verdade, muitos nem ler sabem.

sábado, novembro 10, 2007

Objeto causa de desejo e poesia




“ O objeto pequeno a é um oco, uma falta, é o outro enquanto falta que convoca eu desejo. Chame-se Cármides ou Albertina, o amado é para o amante o objeto a ser sempre conquistado”.

Juan David Nasio


A frase acima faz uma explicação deveras simplificada sobre um conceito psicanalítico que considero mais bonito, mais poético. Perto dele não há Édipo, não há significante, não há objeto transicional. O objeto a, ou objeto causa do desejo é poético porque sua essência é passível de ser compreendida pelos mais leigos dos leitores, geralmente os que mais sabem de psicanálise.

Digo isto porque muito antes de Lacan falar em objeto causa do desejo, artistas já o fizeram, poetas, escritores, escultores e pintores já fizeram arte com o que se desprende do ser amado, causando esse ofuscamento que produz um desejo, uma luz.

Drummond, sem precisar de Lacan, conhecia o objeto a: “ Quando estou, quando estou apaixonado, tão fora de mim eu vivo que nem sei se vivo ou morto quando estou apaixonado”.
Florbela era outra: “ Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes Borboletas de sol, de asas magoadas, poisam nos meus, suaves e cansadas, como em dois lírios roxos e dolentes”.

O que podemos apreender disso tudo é que Drummond sabia tanto quanto Lacan que estar apaixonado é estar fora de si uma vez que se dá o encontro com o objeto causa de desejo, é ser desalojado, por querer, da própria alma. Florbela parece ter ido além quando torna visível , palpável o objeto a que se deprende do ser amado, os olhos.

Olhos, boca, voz...tudo isso pode ser recortado, retirado do ser amado para que possamos tomar posse. É-nos revelado um “não sei o quê”, como já disse em outros lugares que nos faz seguir em frente, que nos faz desejar. O desejo independe de beleza física, não conhece raça social e nem tabus. O desejo apenas irrompe e vai, segue rumo a um não sei onde guiado por uma mão invisível.
O desejo, justamente por saber-se desatino não nos leva a lugares sempre calmos, é mais provável que nos leve à ruína. E aquela voz supre todas as necessidades e aquele cheiro do cabelo dela deixa o coração do amado despedaçado.
Despedaçado, si, essa é uma das características do objeto causa do desejo; ele não representa o sujeito ali, visto em sua integridade, ele é apenas uma parte deste que o outro sujeito escolhe para amar.
Por isso ama-se de tudo, ama-se sapatos, para os mais fetichistas, ama-se uma verruga (acredite, existe), ama-se olhos zuis gigantescos, ama-se uma voz, ama-se a pele. Ama-se isso tudo justamente porque isso não é a totalidade.
O objeto causa do desejo aponta para a incompletude, e aí é que se perde o rumo: entrega-se sem freio, buscando que aquela voz, aquele olhar, aquele beijo, aquele modo de andar, aquilo tudo que é o ser amado faça morada em mim. E quem vê nem diz que acontece isso tudo.
Não sei porque tento aqui explicar o inexplicável, o objeto causa do desejo não tem explicação, é sedutor por excelência mas não se sabe exatamente o porquê que os escolhemos, ele é retirado do ser amado, recortado e colado em nossa imaginação. É triste mas, nós estamos sempre despedaçando o ser amado em busca do objeto causa do desejo.
Acho mesmo que o objeto causa do desejo não é Albertina, como diz Nasio, mas aquele sotaque tão faceiro da Albertina, aquele modo único com o qual ela mexe os cabelos, o jeitinho de andar de Albertina.
E nós seguimos, sem saber explicar, porque diabos aqueles olhos azuis gigantes nos mobiliza a escrever. E nós seguimos sem saber porquê aquele cabelo tão sedoso nos faz chorar de soluçar.
Não sabemos, nunca saberemos o real motivo daquele quê se desprender e vir a se tornar a razão do desejo, mas, se passarmos a entender um pouco que não se pode entender e sim, sentir, já é meio caminho andado.
Assim, sentindo e não entendendo eu posso criar uns versos sobre aquele cabelo da Albertina. Não me espanto agora ao descobrir que os maiores sonetos foram compostos não para o ser amado, mas para o objeto causa de desejo, objeto causa de poesia.