sexta-feira, janeiro 30, 2009

À espreita de Graciliano


" Escreve-me aí qualquer coisa, meu amor. Se te faltar assunto, se não houver em tua alma uma pequenina parcela de afeição para mim, manda-me dizer o romance que estás lendo, a cor da roupa que vestes, o enredo da última fita a que assististe"


Graciliano Ramos, 31 de janeiro de 1928



Este homem apaixonado e que mendiga atenção pouco lembra o crítico mordaz e o prosista que se revelou em "Caetés". Verdade seja dita, o missivista tem muito do prosista, mas é impossível conhecer Graciliano Ramos apenas através do mito que se criou em torno de sua figura taciturna, por vezes irônica e sarcástica. Em " Cartas de amor a Heloísa" ( editora Record, 1994), conhecemos um outro Graciliano, diverso do autor de "Vidas Secas".


Aqui cabe uma reflexão: ao ler as cartas de amor de Graciliano , estamos tendo contato com brilhante romancista? De acordo com Tania Rivera, o artista designa-se por sua obra e não antes dela, ele não preexiste como artista a seu trabalho, logo, partindo desse pressuposto, ler " Cartas de amor a Heloísa" constitui quase uma indiscrição; é como se , sorrateiramente, invadíssemos a privacidade de um homem de trinta e cinco anos, viúvo e apaixonado por uma jovem dezessete anos mais nova.


Simples assim: estamos diante de um apaixonado trocando cartas de amor com sua noiva, e não diante do mestre Graça, exímio contador das estórias sofridas do homem sertanejo e de alma árida.


Esqueçamos, pois, o escritor e foquemos no homem Graciliano: as cartas são datadas do fim dos anos 20, mais precisamente escritas no ano de 1928, inspiradas por uma paixão avassaladora, pois, segundo a mesma pena romântica:


" A vinte e quatro de dezembro eu julgava que te chamavas Ana Leite, a sete de janeiro era teu noivo. Julgas que perguntei a alguém se tinhas habilidades, se tocavas piano, se fazias flores de parafina? Não perguntei nada. Minha loucura revelou-me tudo de pronto, e acredito que ela não me haja enganado"


24 de janeiro de 1928



Como se pode notar, foi uma paixão fulminante que uniu Graciliano e Heloísa, dessas paixões que chegam sem avisar, como uma febre que se apossa do corpo débil de algum moribundo sem previsão de partida. Graciliano é assim; o tempo todo, em suas cartas percebe-se alguma ironia, quando ele mesmo desdenha da sua condição de homem apaixonado, comparando seu sentimento a uma espécie de loucura, loucura esta que ora percebe recíproca,


" E tu, meu amor, que fizeste? Sabes lá quem sou, donde venho, para onde vou, que tenho feito neste mundo em trinta e cinco anos duramente arrastados? Nada conheces de mim".


24 de janeiro, 1928


ora solitária:


" [...] Falas nas lutas que tiveste, nas incertezas que te faziam avançar e recuar, nas esperanças e nas tristezas que sentias. Afinal, gostavas de mim. Pouco, muito pouco, dona Lili me disse. Mas és tão boa, tens um coração tão grande, minha filha, que o pouco que me davas era demasiado para mim".


4 de fevereiro, 1928


De fato, o homem era romântico, não resta dúvidas ao leitor mais distraído; de um amor que tudo exige e que tudo demanda, inclusive cartas longas tais quais às recebidas:


" Onze palavras!Imaginas o que um indivíduo experimenta ao receber onze palavras frias da criatura que lhe tira o sono? Não imaginas."


16 de janeiro, 1928


Ao que se nota, o amor era tamanho que tornava o constante missivista um homem frágil, à mercê do sentimento que nutre por sua amada, um sentimento digno de um romance de José de Alencar, constituído de todos os arroubos passionais os quais caracterizam um lord Byron, um Álvares de Azevedo:


" Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez. É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor".


16 de janeiro, 1928


Ler as "Cartas de amor de Graciliano a Heloísa" nos faz perceber que todos nós, não importando se somos Graciliano ou José da Silva, quando nos encontramos em tal estado de embriaguez e torpor da consciência, tendemos a exaltar a coisa amada como se esta fosse artigo único, polido por mãos das fadas e embrulhado por obra divina. É, não precisa ser Graciliano para perceber que a paixão embota os sentidos, inspira coisas muito belas e nos torna imortais, posto que vivemos no e para o amor. Amar a coisa amada é existir um pouco mais, é dar um fôlego a mais à existência que já vinha morna.


As cartas de Graciliano nos revela um coração nada árido, posto que inundado de amor e de paixão, um homem vulnerável às intempéries causadas pela ação da coisa amada. Em suma, conhecemos mais de um homem apaixonado, menos do romancista. Ler as cartas de Graciliano é como adentrar em seus aposentos em Palmeira dos Índios e deixar-se ali ficar por alguns minutos a espreitar a mão e a pena que leve e torridamente vão se unir para preencher a folha branca que tanto teima em exagerar o bem querer.


A quem espreita, desejo que se faça discreto e que se deixe inundar pelo turbilhão de emoções.



terça-feira, janeiro 27, 2009

Montanha e Árvore



Uma casa na montanha era o que ela queria. Desde muito nova, se alguém lhe perguntasse de supetão: “ Vá, diga lá um desejo!”, certamente ela não hesitaria em dizer que gostaria muito de uma casa numa montanha.

Verdade seja dita, não via muitas paisagens dentro da prisão de concreto em que habitava; montanha ou coisa assim só poderia ser , quando muito, imaginada, assim como cachoeiras e pardais, pois era comum retirar dos livros as ilustrações e fazê-las morar num canto de sua imaginação.
Como bem se pode notar, ao contrário da geografia, imaginação não conhece limites ou barreiras territoriais, mesmo morando ela em cidade pequena, teimou que queria uma casa no alto de uma montanha e que fosse sempre inundada por uns raios solares os quais sempre pensou muito vívidos e longos.
Interessante é que no mesmo mapa se acharam: ela que queria a casa no alto da montanha, já ele se via habitando uma bela residência de madeira no topo de uma árvore de tronco fino, porém não menos forte e robusto. Sendo montanha e árvore coisa própria da natureza e comum a toda paisagem que se preze, deu-se o encontro:
- O que você faz no meio da mata? Perguntou ele, com seus olhos grandes.
- Ora, o mesmo que você. Procurando algo. Disse a menina, como se o conhecesse há muito.
- Mas eu não lhe disse que estava procurando algo, como adivinhou?
- Tenho poderes, sinto lhe informar, sou espécie de bruxa, melhor ficar longe!
- Bruxa? Nesse tamanhinho de gente? Bruxa é gente adulta, alta e vestida de preto, você é pequena como eu, criança e está de vestido azul.
- Acho que você não sabe muito sobre estudos de bruxas, também fica impossível de conversar com gente assim, passar bem!
A menina disse isso no alto de seus 1.40, achando-se adulta demais para ter um minuto ou dois de prosa gastos com aquele menino que parecia tanto duvidar. Resolveu ir buscar a sua montanha, pensou que iria conquistar algo novo e já previa bandeira a fincar ali, num território desconhecido.
- Eu queria achar uma árvore. Disse o menino como se buscasse alcançar os passos da menina
que já queria ir longe dali, em busca de sua montanha; de fato colina também serviria, pensou em não ser tão exigente e achou mesmo que se encontrasse morro qualquer faria dele sua morada.
- Ah eh? Árvore tem é muita, não está vendo? Jacarandá, pé de jaca, de jambo e de manga. Tem até cerejeira, é só escolher e pronto, já eu... procuro é uma montanha, você já viu uma?
Disse a menina, já não tão valente, atendendo ao chamado do menino do calção vermelho.
- Não por essas bandas. Retrucou ele, em tom ameno como de costume.
- É...Vou andar muito e não vai ter hora de almoço nenhuma que me impeça hoje, hoje vou achar minha montanha.
- Ah, boa sorte, eu vou achar minha árvore, trouxe madeira para meu projeto.
A palavra “projeto” soou diferente aos ouvidos da menina; pensou que projeto estaria ligado a
alguma coisa do tipo “teoria” ou “invenção”, sendo ela muito dada a ambas as palavras, resolveu se interessar também pelo tal projeto, voltando os olhos curiosos para o tal menino, pensou-o arquiteto, engenheiro, algo desse tipo, pois trabalhava com madeira e devia ser alguém até mesmo ocupado.
- Você quer ser engenheiro?
- Não, eu acho muito chato, eu queria mesmo era ser arquiteto, mas trouxe madeira sim, adoro mexer com essas coisas, vou fazer uma casa na árvore.
- Uma casa na árvore? Sério mesmo? E você sabe? Você consegue? Você vai conseguir?
- Claro, eu tenho duas mãos fortes e muita, muita vontade, sempre quis uma casa na árvore e nunca tive, agora vou fazer, trouxe até serrote.
A menina definitivamente, ao ouvir a palavra “serrote” juntou-a logo com “projeto” e o menino passou a ser muito interessante àqueles olhos. Achou que ele sabia de muita coisa, que lhe podia ser útil e até mesmo amigo.
Pensou em chamá-lo de arquiteto, engenheiro. A verdade é que não sabia muito bem de onde ele surgira e porque ali estava, mas algo lhe fez querer bem àquele menino, talvez fosse essa coisa de ele usar palavras tão estranhas a seu vocabulário, deixando espaço a sua imaginação para completar o esboço que ali se apresentava na figura do menino que parecia tão sério.
- Rapaz, já que você é tão sabido, me empreste esse serrote , também acho que vou precisar de madeira. É que eu estou procurando uma montanha muito bonita, quero fazer uma casa lá. Você me ajuda?
- Uma casa? Também? Mal terminou a frase e já se notava o menino um tanto quanto interessado na tal busca à montanha perdida.
- Sim. Uma casa a qual nunca tive, a qual eu agora vou construir. Me empresta o serrote?
- Empresto, e se você quiser eu te ajudo também a construir.
- Certo, então venha, ali deve ter uma, me ajude e eu também te ajudo a achar a tal árvore. Serve mangueira?
- Serve sim!
E passaram os dois a caminhar em busca conjunta, um a sonhar com uma árvore frondosa, alta e vistosa, a outra a imaginar o encontro com a tal montanha. Se alguém os visse ali diriam que se criou amizade perpétua daquele encontro tal como uma flor que nasce e cresce mesmo que não se note.
Se alguém os visse crescidos, diria que da busca brotou um amor mui bonito o qual todos os dias se parece com uma busca infinita em torno de árvores e montanhas perdidas, através das quais se perceba uma infância perdida que jamais voltará.
Se alguém mesmo pudesse prever, preveria aquelas mãos unidas em um só desejo de criar raízes, sejam elas de pés de manga ou jambo, mas sempre raízes profundas. Se alguém mesmo pudesse arriscar, diriam que ele encontrou a árvore, esta não tão distante da montanha.

* Ilustração: Cristiano Leão

sábado, janeiro 24, 2009

Esse tal sujeito do inconsciente




Vamos parar com isso de estudar o sujeito do inconsciente. Partamos do pressuposto de que se esse tal sujeito existe, ele é inconsciente justamente porque não deseja mostrar a cara. Ele vive lá, no canto dele, no porãozinho ao qual o destinamos ao preferirmos todos os dias sair com o sujeito do consciente, este que nos faz companhia durante o dia, que vai às compras conosco, que escolhe as laranjas boas e os tomates maduros na feira.
O sujeito do inconsciente parece ser um cara muito reservado mesmo, ensimesmado, trancado numa coisa como um porão repleto de poeira e habitado por aracnídeos. Ora, o que se esperaria de um sujeito que vive em tão nefasto ambiente?
Quando se estuda Psicanálise, invariavelmente vamos, um dia, nos deparar com o sujeito do inconsciente. Particularmente eu confesso que tive medo quando da primeira vez ouvi falar em tal indíviduo. Ah, indivíduo não, indivíduo é coisa de ciências sociais ou alguma outra disciplina politicamente engajada. Como eu sou da psicanálise, o negócio é que o sujeito se aproximou de mim, cheio de dúvidas, confuso que só ele, e, como se não bastasse o pequeno espaço que costuma alugar em nossa mente, ainda é feito de falta, gosta mesmo é de um dilema e não existe situação em que consiga ter o mínimo de bom senso.
Então agora eu lhes pergunto, por que diabos adentrar na residência de um sujeito como esse,que se gostasse mesmo de holofotes seria consciente, que se gostasse de ar puro não viveria num porão e que se quisesse ser decifrado não precisaria de análise? Eu hein, sujeitinho mais complicado, como se nao bastasse a morada, ainda é apaixonado pela mãe e banhado por culpa, passa a vida a se lamentar pelo que não é , desejando o que não pode ser e nem ter.
Portanto esqueçam isso se ainda há tempo, vão estudar as emoções, os fenômenos sócio-culturais, a exclusão social, a resiliência, as políticas públicas ou qualquer outro objeto. Esqueçam que existe Freud, não passem pela mão de Lacan e nunca, mas nunca mesmo, ousem adentrar em terrenos os quais não se conhece, isso implicaria , sem sombra de dúvidas, em se deparar com o famoso e temido sujeito do inconsciente. Que medo!
Se você dedica seus estudos a essa coisa de conhecer os caminhos tortuosos da mente, ainda há tempo de você fazer algo de mais proveitoso com seu diploma. Pegue-se a algo de aplicação mais prática e que não lhe faça parecer alienado diante de pessoas comprometidas com a competência que todo psicólogo deve ter dentro de si que é tornar seu conhecimento útil para a comunidade e a população.
Eu estou mesmo com a opinião, depois de longos anos estudando a finco esse tal de sujeito, de que devemos é nos preocupar com o que está na nossa frente, com o social , com o politicamente engajado, com os movimentos estudantis, com a promoção da saúde do “indivíduo” e o conseqüente bem-estar. Então parem, de uma vez por todas de procurar chifre em cabeça de cavalo porque esse tal sujeito do inconsciente nem por Freud se deixou visitar, seria pretensão demais acreditar que um dia chegaríamos a entendê-lo.
Partamos para o social, caiamos nos braços do povo e , conscientemente, ajamos como agentes de transformação, vamos mudar o mundo e esquecer que em algum lugar habita um ser casmurro chamado sujeito do inconsciente.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Da esperança



Oh amor grande que tenho!
Que a vida jamais apague
Que a distância jamais separe
Que a paixão nunca se acabe
Que na dor nunca se esbarre
Que a rotina nunca repare
A felicidade que sinto
A alegria que Deus me prometeu
Somente em saber-me sua
Somente ao saber-te meu

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Sobre um bosque, uma casa e uma janela


Pegou a mão do rapaz. Não hesitou. Certamente queria mostrar-lhe as paisagens,
Uns verdes, uns azuis, que era para facilitar o exercício da memória. Sabia que necessitava de abrigo e viu naquela mão interesse em ser guiada, por isso, não se fez de rogada, foi mostrar ao rapaz umas cores outras que ele não conhecia, mas que ela já trazia em muitas aquarelas.

Inicialmente pegou aquela mão pequena e foram juntos a caminhar por um belo bosque aonde se descortinava um certo lilás que nunca ousara ser tão vívido, tão real. O verde do qual sempre gostou agora parece mais verde ou mesmo tem um jeito de questionador. Isso, achava as árvores mais frondosas e de um verde mais questionador, como se cada folha reivindicasse um lugar de prestígio no alto daquela copa tão interessante.

O bosque era imensidão, ele seguia sem parecer cansado, com os olhos abertos e a mão ainda desejosa de ser guiada. O tempo era bom, mas aqui e ali podiam ser avistadas umas nuvens, temporárias. Ela trazia no peito um desejo imenso de mostrar aquelas cores todas que pareciam habitar apenas naquele bosque esquecido.

E seguiam, firmes e fortes, uma à frente do outro, a lhe trilhar os caminhos, a lhe livrar de certas pedras, a oferecer-lhe um ou dois fôlegos a mais, que era para a aventura seguir desempedida. Oxigênio não era matéria escassa e determinação sempre foi o forte daquela mão que guiava a outra mão que seguia apaixonadamente, afoita e curiosa de mais descobrir.

- Aqui está a mais bela árvore já vista no bosque. Disse a moça, em tom de maravilhamento , como se esperasse o mesmo encanto de quem a seguia.

- Mas é uma bela árvore, mesmo, consigo distinguir nesta tantas cores. Amarelo, rosa, violeta e azul, e olha que não procurei mais!

- Ah, mas há que contemplar, há que ver quão bela é essa árvore. Há tantas cores quantas possíveis na imaginação divina; há cores sequer conhecidas, há cores inéditas e m meio a tantas cores sortidas. Há cores as quais você nem eu sequer vimos antes.

A moça seguiu e a mesma mão fez questão de guiar. Ao longe das montanhas que se faziam douradas graças ao ofício do sol, puderam avistar uma casa, não velha, mas envelhecida. As portas eram de madeira branca que já vinha carcomida por bichos habitantes das montanhas ou mesmo por causa da inevitável passagem dos anos.

Dobradiças douradas auxiliavam as portas no penoso trabalho de abrir e fechar, assim como os velhos móveis embutidos davam alimento ao exército de cupins famintos que ali buscavam sustentação. Ao entorno da casa podia-se ver um belo lago, uma piscina coberta de folhas secas e saudosa de contato humano.

- Venha, esta é a casa da qual tanto lhe falei. Disse a moça, pondo umas asas nos pés como se
voar pudesse, esquecendo da lentidão da mão que lhe seguia.

- Mas, ali em cima?

- Sim, lá em cima é aonde vamos, ou estás com medo?

- Ora, medo? Mas claro que não, é que algo pode acontecer e somos dois contra essa imensidão de bosque.

- A casa vale a aventura, verás. Faz tempo que lá não subo, e , aproveitando o ensejo da sua visita, vou lá subir e rever tudo aquilo que guardei tão bem que até esqueci.

E foram. Seguiram em disparada com algumas gotas de suor nas faces e um desejo louco de a casa alcançar. Se munidos estivessem de câmeras fotográficas, fariam muitos registros e muitas poses. Não as tinham, coube a memória o registro fidedigno do que encontrasse ali.

As dobradiças das antigas portas foram responsáveis pelos primeiros ruídos que escutaram ao adentrar na envelhecida casa. Os cômodos eram espaçosos, como se guardassem muito lugar para todos os tipos de mobília que a imaginação do mais criativo arquiteto disponibilizasse.

Havia um jardim interno com a presença de algumas plantas que desistiram de ser verdes por falta de água. No entanto, podia-se ainda enxergar uma velha orquídea branca, como se resistisse à falta de alimento, insistindo em ser azul.

Os quartos eram muito grandes, tão grandes que a moça não conseguia achar-se; era pequena demais quando da última incursão a tal casa, não se lembrava dos tons, nem dos ruídos, muito menos da metragem de cada acomodação, isto seria esforço demasiado para uma memória já ocupada por outros serviços.

Deixaram-se estar num dos cômodos. Talvez este fosse o quarto principal daquela casa, não se sabe ao certo, mas , de acordo com a comparação que faziam entre os outros, supunham que aquele deveria ser habitado por gente muito especial, reis ou rainhas, certamente seria um aposento real, pensaram.

Neste belo quarto puderam enxergar uma pequena janela, um tanto empoeirada, mas que nem por isso furtava-se ao velho ofício de emoldurar as paisagens externas. Era o bosque, o mesmo bosque de tantas cores que podia ser visto, em sua imensidão, através daquele pequenino pedaço de vidro transparente.

- Isto tudo é tão grande e imenso que eu jamais poderia me lembrar, e agora que aqui estamos, não custa nada darmos uma olhada.

- Com certeza. É mágico conceber que, num lugar tão imenso esconda-se algo tão delicado e cheio de alma.

A moça não entendeu o que o rapaz quis dizer. Considerou que este fosse um exagero de seu parceiro de aventuras, imaginou ainda ser a frase uma espécie de efeito do grande maravilhamento diante da grandiosidade da casa, do bosque colorido.
Sem entender muito bem o que ouvia daquele rapaz que guiava, resolveu abrir mais os pequeninos olhos e dar um pouco de descanso ao cérebro e às memórias. Deixou-se então ficar ali, sem se preocupar com a dança dos ponteiros no seu relógio, sem se importar com o disse-me-disse alheio.


E o que posso lhes contar disso é que ficaram os dois a olhar através daquela pequena janela o mundo ao seu redor, o bosque e as cores que iam vendo se somarem a toda espécie de elemento presente na natureza.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Conto do Imaculado




- Mas veja só se não é o meu compadre tão querido!


- Mas veja se este não é o meu velho companheiro de aventuras!


- Rapaz, eu sou o mesmo e tu também pareces que nada mudou, o tempo, se não te fez bem, também não te foi impiedoso. Continuas com a mesma cara de menino! Conte-me, o que andas fazendo, ainda moras nesta galáxia ou estás apenas de visita?


- Ora, ora camarada, eu estou aqui, no lugar de sempre. É que o ofício me ocupa o tempo e deu-se que casei...sabe como é...os deveres do matrimônio não deixam folga praquela vida que vivíamos no passado...


- Espera, não continues...casaste? Quem te quis? Eu não consigo imaginar-te casado...se tu me falares agora que as nuvens são de algodão e que o oceano é amarelo, eu não mais duvidaria.

- Não duvidarias? E se eu te contar algo mais assombroso que meu matrimônio, será que teu coração resiste?

- Mais assombroso? Não te entendo, agora a coisa toda ficou muito enigmática. Acaso teu ofício é de santo casamenteiro? Algo assim? Sim, porque se não te imaginava casado tampouco te concebo ligado a qualquer coisa divina, apesar da aparência de beato.

- Ah, meu amigo, sempre tão fanfarrão e esperto! Não tem a ver comigo, mas tem algo a ver com coisas divinas, se queres bem saber. Soubeste do Imaculado?

- Imaculado? Nosso apático amigo de futebol? O goleiro?

- O próprio. Imaculado, o mesmo. Pois agora acho que devemos até nos alongar nesta prosa. Acompanha-me ao café? Lá conto sobre o nosso goleiro.

- Tua sorte é que tempo é algo que a mim não falta. Anda, escolhe o café que minha curiosidade pegou na mão da ociosidade e agora teremos que pedir quatro cadeiras. Serei todo ouvidos, sabes bem que não é questão de gostar de falar da vida alheia, mas sim de manter-me informado.

- Sei que tu, como jornalista formado, tens mesmo é muito amor pela noticia. Mexericos? Isso é coisa de amador. Vamos ao velho café de sempre aonde nos reuníamos antes do futebol. Suponho que lá seja o melhor lugar para contar-te sobre Imaculado.

- Essa atmosfera de suspense está me matando. Caminharia o quanto fosse necessário para saber o que se deu de tão extraordinário com aquela criatura pacata. É coisa de morte ? ele matou alguém? Se for isso, podes me pagar todas as apostas que fizemos, sempre te alertei que Imaculado tinha um quê de anormal, uma coisa de psicopata no olhar que não me deixava enganar nem pela fala mansa e nem pelo jeito de bom moço. Matou alguém , eu sempre soube que cometeria um crime passional...que bom que me afastei, poderia ter sido eu a pobre vítima que conheceu a força do punhal do Imaculado...

- Acalma-te! Mal chegamos ao café e já colocas tua imaginação barata à serviço da prisão do pobre homem...sente-se aqui. Vou dizer tudo para que tu saibas exatamente o que se passou.

- Não foi caso de morte? Ora, realmente, o Imaculado era incapaz de fazer mal a uma mosca, e caso o fizesse morreria ele de sentimento de culpa. Era muito tolo mesmo o Imaculado...mas conta!

- Eis que Imaculado estava num ponto de ônibus. Como este aqui em frente. Se tu bem lembras da alma do Imaculado, sabes que não houve criatura no mundo que honrasse mais o nome que aquele pobre infeliz. Ingênuo e bom , tu sabes quantos gols ele deixou passar por entre as pernas somente para nos ver felizes? Exato, muitos.

- Sim, eu lembro. O pobre diabo não tinha opinião e nem gostava de ver ninguém triste. Preferia que fosse ele o infeliz, pois acreditava que a felicidade que por ventura qualquer lhe chegasse seria demais para ele, logo a passaria a diante, a quem melhor a merecesse.

- O próprio! Ainda bem que lembras do Imaculado. Fato é que Imaculado vinha atravessando a rua com aquele andar próprio dele, esquecido da vida, talvez pensasse nos seus números. Lembras que ele gostava de números? Ímpares, pares ou primos, adorava contá-los nas letras, nas palavras dos out-doors?

- Como esquecer? A criatura era uma sumidade em matéria de contar. Não me espantaria se descobrisse que contava quantos passos dava por dia. Mas me conta, eu sei bem de quem se trata, nosso goleiro era uma peça, mas , conta-me tudo, eu não saio daqui sem a estória do Imaculado.

- Acalma-te que estou tentando. Veja bem, Acontece que Imaculado vinha andando alegremente por uma rua parecida com esta, talvez com menos postes, mas o fato é que vinha andando quando avistou uma senhora. Como era de seu costume, cumprimentou-lhe.

- Para!Ah! Eu já sei! Imaculado apaixonou-se violentamente pela tal senhora que viu pela rua, casou-se e hoje é um respeitável pai de família, deve ter uns seis filhos!

- Aguarda. O melhor estar por vir, na verdade o pior. Nada tem a ver com casamento a estória do Imaculado. Mas se te apressares assim, invento qualquer coisa e saio daqui sem lhe dizer a verdadeira saga do goleiro.

- Hum, não é coisa de assassinato e nem de casamento...Bem, não sei. Rendemo-nos, eu, minha curiosidade e a ociosidade à tua língua. Não sei o que pode ter acontecido com Imaculado, desisto.

- Pois então escuta: Imaculado acenou para a senhora que já devia ter seus oitenta anos. Acenou, deu-lhe bom dia e os que lá estavam dizem que a velhinha também lhe acenou. Passaram um pelo outro até que Imaculado sentou-se para contemplar um pombo ou sei lá que outro animal que estava ali. Era uma praça.

- Sim, conta-me, foi Imaculado engolido por um pombo gigante e faminto? O que tem a ver a velhinha?

- Imaculado sentou-se. Ficou ali a olhar o pombo ou beija-flor, não sei bem o que era. Mas estava ali, olhando algum animal, quando avistou a mesma velhinha ser assaltada por um sujeito muito alto e com cara de marginal da pior espécie. Logicamente, e se tu conheces o Imaculado, sabes o
que ele tentou fazer.

- Imaculado matou o marginal e desposou a velha!

- Teu humor é ótimo, mas não é apropriado para o que te conto. Vai escutando. Imaculado, como era de se esperar, foi a passos rápidos ao encalço do bandido. Dizem, quem lá estava , que saiu dominado por uma fúria interior, como se lhe fosse tirado algo de muito valor, esqueceu-se do passado pacato e meteu um brio nos olhos, um brio que não costumava ter.

- Meu Deus, conta o resto!

- Correu, e correu muito. Dizem que era até atlético o porte dele, e olha que tu e eu sabemos que era um pouco pançudo o Imaculado. Entretanto, como todo herói guarda dentro de si uma fúria e um sentimento de justiça muito latentes por trás da aparência plácida, Imaculado deixou-se dominar pelo ódio recém desperto e seguiu atrás do mal feitor.

- Não, esperas! Já sei o que contarás. Dirás que Imaculado caiu, não alcançando o bandido, foi dar com a boca no cimento, deixando-se humilhar frente a todos na praça. Vais contar que foi humilhado o nosso goleiro, mas, sinceramente, meu amigo, esperarias tu outra coisa? Eu não e digo-lhe que do chão não merecia passar mesmo, nunca foi herói aquele lá.

- Não vou te falar isso, mas e se eu te falar que Imaculado, possuído por uma espécie de fúria heróica, e tal como um centurião romano alcançou o bandido e ainda disse-lhe em voz alta e em tom ameaçador: “Dê-me a bolsa, condenado”?

- O quê? Olha, na verdade, eu já li em algum lugar que esses tipos acanhados e pacatos escondem dentro de si um ódio tão animalesco que eu não duvidaria de teu relato, não. O que eu dizia antes? Que Imaculado tinha um negócio psicopático dentro dele, se prestares bem atenção nas antigas fotos, verás que os olhos dele não são tão puros assim...sempre soube que ali naquela alma tão mansa morava um mouro, um Otelo.

- Pois o nosso mouro, surpreendo-te, tão logo estreou no ofício de herói se aposentou. É que Imaculado, apesar da fúria súbita e do espírito justo trazia dentro de si um coração de manteiga. Nem ele acreditara nas palavras que proferira ao bandido, sentiu-se mal por dizê-las, afinal seu oponente era um pobre de Cristo, ali, roubando talvez para sustentar uma família imensa, uma criança passando fome, uma mãe doente...

- Ah, o quê agora?

- Pois Imaculado arrependeu-se de ter gritado com o bandido. Após ter dito a frase em tom ameaçador, pensou com seus botões que havia sido rude e que, se Deus colocou o larápio naquela difícil situação de roubar, é que ele já era condenado por vontade divina, não lhe precisava também humilhar desta forma ao utilizar o pejorativo vocativo.

- Ah, mas então? Não entendo, prossiga...

- Imaculado arrependeu-se do tom rude que usou com o bandido, mas, com o canto do olho avistava a senhora que trazia nos olhos um agradecimento e um ar de contentamento por enfim ver que o transeunte de alguns minutos atrás, o mesmo que lhe oferecera o aceno e o bom dia, de fato zelou para que seu dia fosse bom, indo ele mesmo atrás de reaver-lhe a bolsa.

- Imaculado com certeza pensou nisto, tenho a mais absoluta certeza, ficou olhando a senhora agradecida e esqueceu-se do bandido...mas então, o que aconteceu?

- Imaculado sentiu-se dividido entre seus sentimentos de piedade pelo ladrão e de contentamento por ter a oportunidade de fazer justiça a uma pobre anciã. Entre um e outro deixou-se ficar com o de piedade pelo bandido e pediu-lhe desculpas.

- O quê? Imaculado pediu desculpas ao bandido que antes chamou de condenado? Correu léguas para acabar pedindo desculpas ao ladrão? Ah, mas esse Imaculado para nada servia mesmo, eu sempre te disse que era incapaz de matar uma mosca, nunca o quis em nosso time.

- Eu bem me lembro, mas, meu amigo, se Imaculado era incapaz de matar uma mosca, eu o mesmo não digo do bandido. Vai ouvindo.

- Sou só ouvidos, acredite.

- Ao ouvir o “me desculpe” em voz já trêmula do nosso querido guarda-metas, o bandido encheu-se de auto-confiança, se antes percebeu-se encurralado, viu a sorte sorrir-lhe novamente um sorriso largo através da boca de Imaculado. Foi então que firmememente retrucou: “Desculpe? Vai me pedir desculpas? Que covarde você é!”

- Tenho pena do pobre Imaculado, seria a melhor ação entre todas as boas ações que deviam encher-lhe o currículo e impressionar o homem lá de cima. Porém, pelo que posso perceber, Imaculado deixou escapar uma grande chance. A velha deve odiá-lo e o bandido até hoje ri do pobre diabo.

- Ah, se tivesse apenas rido, outra sorte teria o nosso herói...

- A estória não terminou? Nossa, agora eu realmente fiquei curioso. Só saio daqui quando me contares.

- Não sabes tu que toda estória de heroísmo e bravura acaba com tragédia e dor? Vide as revoluções, lembra-te de Joana D’Arc? Não precisas ir tão longe, lembras da Inconfidência Mineira e o fim de Tiradentes? Pois se lembras, hás de entender aonde quero chegar e aonde jamais chegou o nosso querido Imaculado.

- Meu Deus, agora até eu que sou ateu dei pra fazer uso de teu santo nome! O que se passou?

- Passou que Imaculado partiu desta para uma melhor, para um mundo mais justo, sem bandidos e sem artilheiros, supostamente. Imaculado, ao ouvir as palavras do bandido baixou os olhos, atiçando o orgulho ferido do bandido que, inconscientemente , desejava que fizessem justiça à pobre senhora. Pensando inicialmente estar encurralado, o bandido quase arrependeu-se de ter tomado a bolsa da velha ao dar de cara com aquele homem suado e bravamente obstinado a recuperar a pequena fortuna da idosa, foi quando ouviu o pedido de desculpas que lhe despertou novamente a ira.

- Sim, e então? Aonde está a tragédia?

- Mais próxima do que imaginas, vai escutando. O bandido decepcionou-se com a covardia de Imaculado, pensou que aquele homem que tão valentemente lhe abordou não merecia viver, ele sim era um condenado, porque não conseguia fazer justiça e, entre dois covardes bastava um na terra. Pensou em Lampião, em Napoleão e tantos homens bravos que conhecia do pouco estudo que tinha, e viu que aquele Imaculado de nada era, era fraco de espírito e de valente nada tinha, Entre dois covardes, obviamente optou pelo que não era ele mesmo.
Entendeu o bandido então que Imaculado era a espécie de gente que Deus não gostaria de ver habitando o planeta, pois imaginava que nosso Senhor desejava colocar em cada esquina da Terra um ou dois homens valentes que era para proteger as senhoras e as crianças de uma cambada de marmanjos que, não tendo a oportunidade e nem a coragem de trabalhar decentemente, teriam o feio costume de usufruir das benesses alheias como se suas fossem.

- Que bandido instruído! Meu amigo, esse sim é um homem, nosso amigo que não é!

- Temo que agora podes usar o pretérito perfeito. Era, era o nosso Imaculado. Em meio a tantas divagações, o bandido se viu revoltado com aquele homem que lhe pedia desculpas como se o covarde fosse ele mesmo e resolveu vingar nosso Senhor que andara louco ao dar vida àquele ser tão pálido e frouxo. Sem pensar nem mais uma vez, com convicção meteu um bala na cabeça de Imaculado, que, recebendo-a de bom grado, em seus últimos instantes deve ter pensado que a merecia, que aquele seu fim era justo, posto que o bandido deveria saber o que fazia.

- Sim, eu acho também, se eu ali estivesse poderia apostar contigo um ou dois olhos como Imaculado, que antes pedira desculpas ao bandido, agora agradecer-lhe-ia a bala que levara na cabeça.

- Reza a lenda que esta foi a última palavra de Imaculado: “Obrigada”. Eu, pessoalmente, não duvidaria que Imaculado tenha agradecido ao bandido a bala que ele jamais seria capaz de cravar na fronte alheia. Morreu ali, a despeito das preces da senhora que assistia a tudo, a despeito da ambulância que chegara cerca de vinte minutos após o acontecido. Morreu na calçada , com a cabeça entre as mãos enrugadas da velha aposentada. Segundo consta, deu-lhe um último sorriso com os olhos, porque a boca ensanguentada já não respondia aos comandos de seu cérebro. Tenho certeza que se falar pudesse, saudaria a senhora com um novo bom dia e pedir-lhe-ia licença para se retirar da vida, que era para não ser acrescentada em seu currículo a fama de mal educado na hora do juízo final.

- Confesso que tudo imaginei, mas um fim como o de Imaculado ninguém merece. Confesso até que aquela criatura merecia um fim melhor que eu e tu. Pobre Imaculado, será agora goleiro nas várzeas divinas, a levar gol de São Pedro e São Matheus. Espero que lá em cima consiga ele melhor carreira no futebol do que aqui.

- Eu também espero. Tive pena de Imaculado quando soube de sua morte, fiquei impressionado coisa de dois ou três dias, mas me recuperei, imaginei que ele estaria melhor entre os seus, afinal sempre foi uma pessoa pacata, não estaria jamais entediado no ambiente celeste, provavelmente estaria contando as nuvens, as capelas, as chaves de São Pedro...já deve está fazendo aula de harpa, o nosso Imaculado.

- É verdade, ele deve estar entre os seus. Eu digo a você que, se fosse pra acreditar em céu e inferno, eu preferia pagar IPTU lá embaixo, apesar do clima quente, não seria obrigado a andar de branco, tampouco teria que escutar as malditas harpas divinas. Meu lugar com certeza seria no inferno, saudando os meus, bebendo alguma vodca, visitando as gentes importantes que lá estivessem.

- Eu não sei, eu era temente a Deus, bem tu sabes, mas , confesso-te que agora já não sei mais se existe justiça divina ou algo que o valha. Nosso querido Imaculado, tudo bem, sabemos que era um tanto quanto desbotado, mas...morrer fazendo o bem?

- E querias tu morte melhor para ele? Claro, eu também concordo que foi um triste fim, mas a intenção foi grandiosa, se Imaculado pôde munir-se de fúria e meter nos pés umas asas tal como Hermes, era porque em sua alma trazia adormecido um grande sentimento de justiça e piedade, estas que certamente lhe enriquecem o currículo e lhe garantem moradia eterna em ambiente ventilado.

- Tens razão, és um sábio.

- Digo-te mais, amigo, quando te vi ali na esquina, jurei que fosses tu o Imaculado, somente atentei para o fato que eras verdadeiramente tu, quando mais próximos ficamos. No entanto, a primeira vontade que tive, ainda achando-te com jeito do Imaculado, foi dizer-te que não morrerias mais!

- Tu achavas que eu era o Imaculado? Ora! Sou bem mais alto.

- Sei que és...mas é que eu estava aqui andando com meus pensamentos e pensava justamente em Imaculado, nos gols que cansei de fazer em suas metas, na voz mansa...foi quando chegaste e me contaste sobre o fim do pobre homem.

- É, se isto tudo fosse justo, poderia eu ser o Imaculado mesmo, contando-lhe sobre o meu próprio fim. Isso seria algo justo.

- E quem disse que há justiça? Olha, eu já disse antes e repito, nunca fui devoto, há mesmo alguns que me chamam de herege, mas eu agora, pensando bem, começo até a duvidar do destino do nosso finado Imaculado.

- Como assim, não o compreendo. O fim dele foi isto, o que te contei esta manhã.

- Sim, eu sei, o fim terreno. Eu passo a pensar agora no destino espiritual. E se eu te falasse que Deus foi tão injusto com Imaculado lá em cima como o fora aqui na terra, te convenceria?

- Não te entendo novamente. Explica-te.

- E se eu te dissesse que acredito que, no céu chegando Imaculado teria tido seu currículo negado por Deus? Sei lá, pensei agora que haveria alguma mácula no repertório de bondades do nosso querido goleiro, algo que lhe desabonasse e que tão grave fosse que lhe tirasse a oportunidade de habitar em alguma nuvem aprazível lá em ambiente divino.

- Como assim? Agora fico eu curioso!

- Veja bem, sabemos que Imaculado era aquele doce de criatura e bom por convicção, mas, e se ele não fosse assim tão bom, se houvesse nele algo de ruim, como eu mesmo sempre suspeitei daqueles olhos tão negros? Ora, assim estaria tudo explicado: o triste fim terreno e a inadmissão ao lado do Senhor. Veja, chegando lá Deus notaria pela cara, que era apático e sem vida, o nosso Imaculado, passaria os olhos divinos no currículo que o defunto trazia nas mãos e tão logo o rasgaria, diria que aquilo tudo era falácia, engodo, era tudo mentira e que por trás das pretensas boas ações do Imaculado havia um caráter calculista, alguém que tudo fazia de caso pensado, pois, nao esqueças jamais, Deus tudo vê e tudo sabe, e certamente sabia qual era a verdadeira natureza do pacato homem. Acaso pensas que o gosto pela matemática era à toa?

- Nunca pensei assim sobre o Imaculado, acho mesmo que ele nada escondia.

- Eu não duvidaria se achassem uma maculazinha que fosse em seu currículo, na verdade acho que há máculas grandes, algo como crimes, roubos... O homem gostava de contas, números, tudo com ele devia ser assim, calculado, inclusive seus gestos, suas atitudes...tudo aparência.

- Ah, eu vou-me embora que minha hora chegou, bom herege este que tu és, não podendo apiedar-se da pobre alma do finado amigo, mete-se a difamar um defunto. Quão vil és tu? Torço para que Imaculado puxe-lhe os pés à noite. Não, para falar a verdade ele não seria capaz...Bem, querido amigo, foi um prazer incomensurável rever-te, mas, melhora teu espírito que é para teres fim melhor que o do nosso falecido companheiro.

- Eu vou também, mas, não esqueças: nunca terás surpresas com um ateu, já de um religioso, desconfia, olha bem a cara, olha bem os olhos. Ah, aqueles olhos tão escuros... Deus, se existisse, devolveria a bolsa à velhinha, arrependeria o bandido e desviaria a bala da cabeça do Imaculado...mas, tudo isto é ficção e a moral da estória, a única, é que de boas intenções o inferno está abarrotado. Passar bem, amigo querido, bom saber de ti, dê lembranças à esposa!

- Passar bem, bom saber que continuas o mesmo ateu incorrigível!

terça-feira, dezembro 23, 2008

Como nasce uma teoria



No alto da colina se escondia o Tempo, maior de todos os vilões das estórias de amor , de poder e de vitórias. No entanto, aqui conto que é deveras frágil e solitário.


Vivia recluso, em suas chinelas velhas, como se esperasse por algo que viesse a dar vida aos seus dias e sabor a seus jantares. Ninguém sabia por quanto tempo o Tempo viveria na mais completa solidão, assim como não sabiam desde que época enfiou-se naquela taverna de madeira escura, envelhecida, tal como o próprio habitante.


Os poucos que ousam contar sobre o ilustre ermitão, consideram-no em alta conta; se pouco contribuía para a baderna, também não poderia ser responsabilizado por qualquer comemoração, seja uma boda de aniversário ou reunião de alguma espécie. Se alguém lhe visita, com freqüência, é a sua única e fiel amiga, vestida de preto, mas não tão feia como se lhe pintam.


A Morte era a única a quem o Tempo falava. Geralmente ela vinha dizer-lhe algo, visto que sabia ser o amigo muito solitário. Vejam quão irônicas são as coisas da vida: se para os olhos gerais a Morte é vizinha do mau presságio e de terríveis agouros, para o Tempo faz-se companheira, pacata, ouvinte de melhor estirpe.


A Morte, todas as quintas-feiras ia ter com o Tempo. Diziam que nestes dias se ouviam gargalhadas tímidas por trás da pesado portão que costumava separar o morador do restante dos vizinhos que viviam naquela colina. Riam muito, sorviam algum tipo de vinho e – há quem diga – bailavam ao som de alguma música alegre, não sei agora se samba ou chorinho, fato é que se divertiam muito, mais ainda quando um estava na companhia do outro, a pisar um no pé do outro, a rir um sorriso sem dentes, mas nem por isso menos verdadeiro do que o sorriso nascido de bocas harmoniosamente preenchidas.


– Temo que separados não somos nada. Disse a Morte ao Tempo, oferecendo-lhe os olhos fundos de quem muito já viveu e presenciou nesta existência.


– Ora, deixe de tolices. Sabes bem que podemos ser bastante independentes. Não somos como os girassóis, extremamente carentes a espera de um mísero raio ensolarado para se fazer vigoroso. Podemos muitíssimo bem um viver sem o outro, sem apego ou algo que o valha, não estou entendendo o sentimentalismo desta tarde.


– Não é questão de sentimentalismo, tampouco de dependência. Veja, estou aqui, como estou todas as quintas-feiras, a beber este vinho, a sentar nesta cadeira e a fazer-te companhia, uma companhia que julgo-te necessária. Outro dia li de algum filósofo uma coisa que dizia sermos parentes próximos.

Ao escutar esta última frase, arregalou os pequenos e enrugados olhos o Tempo, como se escutasse um disparate ou algo que o valha.

- Parentes próximos? Se antes não entendia o sentimentalismo agora me surpreendo com o parentesco súbito. Acaso agora reclamas a mim paternidade? Fraternidade? Veja, não tenho vintém nem ouro. O que tenho é esta humilde taverna que nos serve de abrigo no momento. Tire-me isto e nada mais restará ao velho Tempo.

– Há dias em que pareces menino, sequer lembras a sabedoria a qual sempre achei ser parte de tua personalidade. O que quero dizer é que não somos tão diferentes assim. Claro, tens tua casa, eu tenho a minha, nem grande, nem pequena, apenas um lugar para eu pousar e descansar após tantas milhas que sempre percorro. Não reivindico herança alguma, tampouco paternidade, pois prefiro continuar a fazer parte do reino dos bastardos, estes, não tendo pai nem mãe, parecem viver a vida de uma maneira mais tranqüila, menos tediosa.
Digo-te que concordo com o que li, não sabendo a escola filosófica de que tirei, faço minha a teoria de que nós somos frutos da mesma espécie, tal como frutas parecidas, algo como pitanga e acerola. É isto! Somos feitos da mesma matéria e a mesma matéria nos reduziremos. “ Tempo e Morte não hão de andar separados jamais” , seria uma belo princípio de uma nova teoria. O que achas?


– Considero o raciocínio brilhante, o princípio factível e o filósofo um charlatão. Deve ter sido tua mesmo a idéia, e se não é, apressa-te e faz dela tua doutrina, tua causa maior, tua ideologia. Todos nós necessitamos de uma, a minha são os meus chinelos, sem eles nada sou. A tua? A tua poderia ser essa tal premissa de que andamos um junto ao outro. Eu continuo achando que se trata de sentimentalismo ou questão de dependência. Estás muito sozinha?


– Sozinha? Nunca! Sempre alguém vem me fazer companhia, por cansaço, apatia, irresponsabilidade ou mesmo por mando teu. Definitivamente não estou só, muitos me visitam e não vá pensando que só tenho a ti. O que digo e que de bom grado fundo como teoria é a solidariedade, vamos dizer assim, presente em nossa amizade , isto é algo indiscutível. Nós andamos juntos: se eu tenho o penoso ofício de intimar velhos, jovens e crianças para comparecer ao tribunal do juízo final, tu és o ser que está por trás do último mandado.


– Agora me culpas? Não entendo mais nada e acho bom suspender o vinho. Agora me culpas de contribuir para o exercício de sua terrível profissão? Ora, eu aqui nada faço, acompanho as estações se sucederem, os anos passarem. No máximo coordeno a dança dos ponteiros dos relógios. Se tu matas, eu nada tenho a ver com isso, apenas cumpro minha função de refletir, de contemplar todas as coisas belas da natureza, sejam elas estrelas, plantas ou lua, o que faço é apenas dar prosseguimento a ordem natural da minha superior, a Vida.


– Mas veja se o meu companheiro não está tirando o pesado corpo fora! És meu cúmplice, como o serás ainda daqui a muitas primaveras. Se eu completo a obra, tu me emprestas os pincéis; se eu posso assinar como artista da obra acabada, tu é quem me dás tinta e papel para que tudo seja feito.


Ao ouvir estas palavras serem proferidas em tom de acusação , o Tempo não se deixou desequilibrar, ajeitou-se na poltrona marrom e continuou a argumentar com a mesma voz plácida que lhe caracteriza.


– As coisas, por mais belas que sejam, findam e findam por que tudo nesta existência insiste em passar, a mudar, esteja eu falando de estações, de luas ou marés. Não sou eu o culpado. É assim e porque é assim não sei dizer. Da mesma forma que não sei explicar a mudança das marés, o cantar dos pássaros e as fases da lua, também não sei dizer sobre a existência, o que sei é que ela tende a findar, porque não há flor que viva para sempre, porque não há ainda elixir da juventude.


A conversa parecia interminável, estando a Morte certa da infalibilidade de sua teoria, não aceitava os argumentos do Tempo especialmente por entender que este teimava por mania e gosto.


– Tu agora achas conveniente afastar-te de mim e deixar-me toda a cruz para eu carregar sozinha. Interessante se faz culpar-me das mazelas do mundo, culpar-me da miséria, da tristeza e da dor humana, mas assumir tua cota de comprometimento com a finitude da vida, disto tu te retiras. Não é nada sábio da tua parte não conseguir enxergar a parceria que fazemos, a tua parcela de empenho em me legitimar o ofício que, mesmo penoso, me dá o sustento e do qual muito me sinto honrada.


O Tempo, em sua tranqüilidade quase católica, fez que não ouviu as últimas palavras proferidas pela companheira, levantou-se, foi até a cozinha a fim de procurar um paninho de prato; o móvel de madeira de lei estava sujo de uma substância violácea, a mesma que era sorvida pela Morte em goles pequenos mas constantes.


– Teu mal se chama alcoolismo e minha virtude altruísmo. Deixo-te ficar esta noite porque nem bem caminhar tu podes mais, agora encerra essa conversa de cumplicidade e parceria já que eu não consigo ver outra causa para o surgimento desta teoria do que a causa etílica. Bebeste muito, estás a dizer asneiras e eu não sou obrigado a ouvir nada disso em minha casa. No entanto, sou conhecido – como bem sabes – pela nobreza do coração e pela tranqüilidade – já que o fígado não mais me permite esses excessos, cuido de ti por não outra coisa do que amizade. Qual lençol tu preferes?

A isto a Morte respondeu com indignação, uma indignação somente vista em gênios incompreendidos que vivem a espera do reconhecimento por parte do restante da população que julgam sempre como ignorante ou acéfala.

– Se és conhecido pela tranqüilidade e nobreza, digo agora que passas a ser conhecido pela ignorância. És tolo, ingênuo, no mínimo. Aqui surge uma nova teoria, um raio, um lampejo de sabedoria, algo certamente grande que será estudado através dos tempos, metrificado, quantificado. Prevejo teses, monografias, dissertações...toda uma sorte de documentos escritos com a pena do cientificismo e com a garantia do Positivismo. Serei grande, maior do que já sou, e os louros da vitória...ah! Estes serão colhidos apenas por mim!


– Retiro o que disse. Teu mal não é apenas o alcoolismo, é a impáfia, a soberba, embebidas no álcool, claro. Agora queres dominar o mundo, e, não estando satisfeita, queres a Ciência, os mestrados e os doutorados? Ego é o que não te falta, mas louvo-te a auto-estima, quisera eu ser tão seguro de mim...sinto-me gasto, velho, amarelado e mofado como uma carta de amor que viaja entre os séculos a procura de um coração disponível.


– Se deitares teus olhos nos compêndios científicos, se ao menos simpatizasse com a Filosofia, saberias do que se trata: Tempo e Morte sempre haverão de trabalhar em parceria. Se tu te esforças no esboço eu determino o acabamento do conjunto, jogo-lhe umas tintas, faço a assinatura final, porém, não esqueço que a obra é elaborada por quatro mãos.


– Morte, estás ébria e aos ébrios não se deve dar ouvidos, no máximo, uma xícara de café e um banho frio. Recobra-te os valores e também a consciência. Eu posso viver sem ti, não sou nenhuma espécie de coadjuvante nas tuas desventuras; vivo minha vida sem precisar de ti, em dias que tu não estás comigo ocupo-me das hortaliças e dos remendos na cerca que sempre parecem se multiplicar.
Tenho mãos fortes e talento para jardineiro. Também sei cozinhar e bordar. Para que te necessito? Somente para lembrar a boca e a língua o antigo ofício de falar, pois, não tendo companhia que se apresente, vai tu mesmo, que me és fiel mesmo sendo esnobe.


– Não precisas de mim? É isto que estás a dizer? Ah!Mas quão novo é este discurso!Não eras tu mesmo que, há alguns anos, dizia-te grato pela “constante companhia e fidelidade absoluta”? Agora preferes abobrinhas e tomates a mim? Sinceramente, se meu mal é a impáfia, padeces de moléstia grave chamada ingratidão.


Considerando a última palavra muito forte, o Tempo sentou-se como se a espera de recobrar a consciência e a tranqüilidade quase sempre inabalável. Ingrato é o que não era, era justo e bom , ao menos se considerava. Fez-se magoado com a companheira que tomava seu vinho, deitava em seu sofá e lhe tomava preciosos minutos.


– Decididamente coisa que não tens é coração. Eu te dou abrigo, vinho e boa comida. Dou-te conversa que, mesmo que não tão animada – porque é de meu caráter essa mania de ser metido em mim mesmo – ainda assim é uma conversa...Não tens coração. Ingrato é o que não sou, podes perguntar a essa gente toda se me viram não pagar com um sorriso qualquer benefício que já me tenham feito.


– Ingrato. Ingrato. Mil vezes ingrato. E covarde. Assuma a participação no destino humano. Assuma a co-autoria dos crimes que cometo dia após dia com perfeição invejável. Jamais me vistes falhar, posso tardar, mas chego, fecho os olhos cansados de quem irá apenas abri-lo em ambiente eterno. Nós chegamos sem pedir licença porém, com elegância habitual, roubamos a vida de um ao passo que também abreviamos a dor alheia.


– Co-autor? Nada tenho a ver com teu ofício horrendo! Tira-me esta culpa dos ombros que estes já vão cansados.


– Ora, veja, não há somente ossos em meu ofício, ou devo dizer nosso ofício? Há sempre os dias de alegria e estes são aqueles em que venho em socorro de corpos tão cansados de padecer. Venho dar a extrema-unção àqueles que nem mais forças teriam para dar um suspiro derradeiro. Meu querido, como em todo santo ofício, há os dias de regozijo, de glória.


– Se não me responsabilizo pela abreviatura que fazes a vidas serenas, tampouco me orgulho do prazer último que dás às existências cansadas de padecer. Não quero participação, também não desejo colher os louros do teu ofício. Deixa eu com minhas ervas e meus temperos que isto é coisa muito bonita da qual pouco entendes.


– Deixo-te. De uma vez por todas. Acredito que minha teoria é complexa demais para mentes ignóbeis como a tua. Fica tu com teus tomates e alfaces que de ciência nada entendes. Um dia serei grande, dominarei as gentes de todos os planetas – posto que uma galáxia é pouco para minha capacidade – e aí ouvirás falar de mim. Só não me peças participação nos lucros dos livros que irei lançar. Não sairás na capa, tampouco te chamarei para assinar um prólogo. Não és digno, és ingênuo, de uma ingenuidade burra e de burrice eu nada entendo.


Dizendo estas palavras em voz alta, mais alta do que a de costume, a Morte aceitou o caminho da rua que lhe era oferecido a dedo rijo pelo outro, ajeitou o traje negro e pôs-se a caminhar alegre com a possibilidade de fama e fortuna iminentes. Seria grande, teria o destino de um Napoleão sem ter que passar por Waterloo. Idéias grandes são idéias incompreendidas por pessoas de natureza rasa, pensou consigo mesma.


Quanto ao Tempo, deixou-se deitar no antigo sofá que decorava a sua velha morada, ficou a pensar na vida e na sua antagonista, chamou-lhe em silêncio de vários nomes além de ingrata, jurou não querê-la ver mais e acabar com os bailes das quintas-feiras. Pensou que não precisava de muito a não ser de memória, esta que trazia intacta, poderia se lembrar de qualquer evento que tenha acontecido antes ou depois de Cristo.
Dali em diante ficou só a meditar, a refletir sobre as ciências astrológicas, sobre o fenômeno das marés mas nada queria saber de doutrinas filosóficas. Quando a solidão o deprimia tratava de ouvir suas músicas alegres, não sentia falta da fortuna e da fama, porém, toda manhã tomava café lendo jornais, que era para ter notícias da antiga amiga.