segunda-feira, outubro 18, 2010

As memórias de um gênio óbvio



“ Não há ninguém, vivo ou morto, que não tenha concebido a sua fantasia homicida. O melhor de nós já pensou em matar e já se imaginou matando, etc, etc (Aliás, envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio)”.

Nelson Rodrigues

A um desavisado, certamente esta frase soaria como de mau gosto, típica de um escritor medíocre que não cansava de falar sobre anomalias, aberrações, coisas que acometem os anormais. No entanto, para os avisados e amantes da obra de Nelson Rodrigues, nada mais óbvio, de fato, do que a afirmação do autor: as pessoas trazem, dentro de si, todas as mazelas psicológicas que poderiam contribuir para a venda de qualquer noticiário policial, por mais sensacionalista que fosse.

Assim foi a vida de Nelson Rodrigues, e ele não poderia falar do que não conheceu. Em Memórias e A menina sem estrela (Agir, 2009), viramos testemunhas das inúmeras situações que chamaram atenção desse mestre da literatura e do teatro nacional. Somos catapultados para o contexto sócio-cultural que viu nascer o jornalista Nelson, filho de uma família de jornalistas e que adquiriu, por força do hábito e da vida, um certo gosto pelo que lia e escrevia nos noticiários policiais: pactos de morte entre amantes, suicídios, assassinatos e traições, sobretudo a traição feminina eram os grandes interesses do então jornalista policial que gostava de acrescentar, aqui e ali, um tom dramático, poético até, nas mortes diárias que noticia.

Ao ler Memórias, certamente compramos um bilhete de viagem de volta para o século XX, conhecemos o famoso carnaval de 1919 do qual Nelson fala com riqueza ímpar de detalhes, o que faz qualquer leitor subitamente descobrir uma serpentina nos próprios cabelos. Também viajamos rumo às origens do teatro nacional, conhecemos as polêmicas em torno do Teatro Municipal, do disse-me-disse que marcava a recepção da obra de Nelson em todos os setores da vida social carioca que costumava atrair-se por todo o sangue e adultérios mostrados pela obra do autor pernambucano que adotou o Rio de Janeiro como cidade natal.

Marcado desde o nascimento pela estrela de tarado ( vale a pena conhecer o fato que já anunciava a má reputação de Nelson quando adulto: aos quatro anos, Nelsinho teria sido proibido de visitar a casa de uma vizinha, mãe de uma menininha que deveria ter a mesma idade dele. De acordo com as palavras da atônita vizinha à mãe de Nelson: "Todos os seus filhos podem vir a minha casa, exceto Nelsinho").

O que se seguiu foi mesmo a confirmação da advertência da vizinha: Nelsinho cresceu e continuou sendo considerado persona non grata no teatro brasileiro, na própria literatura para a qual tanto contribuiu, pois foi, em vida, um dos maiores desafetos de muitos grandes nomes da mesma, enfim, alguém a ser banido, extirpado do convívio social, pois sua obra exalava um cheiro de lama e miséria, estas tão expulsas, desde sempre, das sociedades civilizadas - Nelsinho, em toda sua vida, só pôde colecionar advertências, tais como a da vizinha da longínqua Rua Alegre.

Certa vez, questionado por Carlos Drummond de Andrade sobre o motivo de Nelson não falar em sua obra de pessoas normais, o dramaturgo pernambucano engoliu a resposta que nunca dera ao poeta mineiro: "falo de pessoas tão normais quanto você e eu". Talvez o pernambucano fosse mesmo a pedra no caminho de Drummond, que, mesmo com tanta poesia, não conseguia entender a imensa normalidade presente na obra de Nelson Rodrigues: chegaria a ser obscena de tão óbvia a semelhança da obra mais "bizarra" com a vida mais normal, mais apática retratadas em obras como A dama da lotação, Engraçadinha, Toda nudez será castigada, etc.

Para os que não conhecem, vale a pena conhecer a obra do mestre dos acontecimentos corriqueiros, intérprete original de toda a mesmice sem graça com a qual o ser humano mediano dirige sua vida. Há de se falar de pessoas normais, ora, e não seria o adúltero uma das figuras mais famosas e conhecidas de que se têm notícia a nossa vã humanidade? Por acaso somente os anormais traem? Não creio nisso, nem Nelson.

Aos ainda desavisados, recomendo Memórias a fim de tomar ciência do contexto sócio-cultural que fez de Nelson o "grande tarado", fama repercutida pelas mesmas pessoas, de conduta moral imaculada, que, mais tarde se curvariam aos pés de Nelson na sua velhice e ainda mais depois de sua morte, em 1980.

Se tivessem de começar por algum lugar, conheçam a história, conheçam as Memórias, aí então qualquer pessoa, normal ou não, estaria preparada para entender um pouco mais da genialidade daquele que ousou detestar a unanimidade.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Memórias para dias ensolarados



Dias ensolarados premiados com súbitas chuvas que inundam as ruas e deixam os becos de uma pacata cidade colombiana com cheio de enxofre. É este o cenário com o qual nos agracia Gabriel García Marquez em seu Memórias de minhas putas tristes (21 edição, Record, 2009).

Neste livro cheio de sol , suor e sensualidade nos deparamos com uma figura que talvez não combinasse, de início, com este cenário: um velho às vésperas de completar noventa primaveras encomenda a uma conhecida cafetina uma noite de amor com uma ninfeta virgem que deveria restituir-lhe tudo aquilo que a natureza e o tempo teimavam em lhe furtar.

Acontece que a narrativa transcorre assim, cheia de sensualidade, página por página, captando o coração e as entranhas do mais calculado e sistemático leitor.

Repleta de apelos sensoriais, muitas vezes acompanhamos o velho narrador em seus passeios por uma cidade que fora outra que não a que se apresentava, sombra do passado que constantemente é evocado pelo narrador ancião, velho jornalista, amigos das letras e das línguas, em especial o italiano e o latim, escritor de crônicas tão anacrônicas como seu próprio caráter, mas que, de alguma forma o mantinham vivo.

Ao que parece García Marquez em seu Memórias de minhas putas tristes é mestre em nos levar pela mão por entre becos e vielas, nos mostrar os caminhos tortuosos pelos quais sempre o amor se faz presente, nos fazendo quase sentir na pele os arroubos do amor e do sexo, contudo, por incrível que pareça, em nenhum momento o livro se torna pornográfico, mesmo que se pense nisso ao se imaginar um ancião contando as memórias de suas putas tristes.

Bem diferente disso é o universo deste livro. Quase sentimos o cheiro da chuva, o ronronar do velho gato, a pele embrutecida de Delgadina e seu cheiro inconfundível de alcaçuz.

Não bastasse a crueza da descrição de todo o cenário e a veracidade com a qual as personagens são trazidas à vida por Marquez, uma coisa há de se dizer: em meio a tudo isto, ainda assim, falou-se de amor.

E um amor cantado, embalado ao som de boleros e de clássicos de Mozart. Um amor maduro que , ao mesmo tempo, não deixa de se mostrar ridículo porque nos mostra a essência do humano: o patético quando se fala de amor. Latino como tinha que ser o amor é a vitória e a tragédia do ancião que, mesmo não sentindo a idade pesar em seus calcanhares admitia que passara a vida escapando do amor tal como o diabo evita a cruz divina.

Não se poderia esperar menos do prêmio Nobel de literatura. Memórias de minhas putas tristes é uma história ensolarada, sensual, sensorial , passional de amor, tal como todo amor deveria ser para valer à pena, tanto que eu, leitora sistemática, acostumada aos escritos acadêmicos, pude notar uma única lágrima, furtiva, quase clandestina a escorrer face abaixo ao virar a derradeira página de um romance que me ensina que não necessariamente para se falar de amor deve-se ser sério, sisudo, tal como um compêndio de psicopatologia. Na verdade quase nunca se deve sê-lo.

quinta-feira, agosto 12, 2010

O que posso dizer sobre Os Espiões?



O bom leitor, o leitor ocasional, o chamado "traça de livro", o leitor mediano e até o leitor autor , seja quem for, não conseguirá se livrar da obssessão por Os Espiões (Alfaguara, 2009).

Escrito por Luiz Fernando Veríssimo e inspirado em tantas histórias de detetive, em romances policiais, em Os Espiões somos guiados pelo fio que leva um editor entediado com a vida , com o casamento e com o trabalho a uma história privada pintada com tons de realismo macabro e contada como se fosse um crime passional que chega as suas mãos por meio de sucessivos envelopes brancos de autoria de uma tal de Ariadne.


Tal como todo bom romance policial, nós, os leitores mais fiéis, somos levados a conhecer o universo de Agomar Trapiche, do professor de cursinho pré-vestibular Dubin, da bela Bela, sua secretária. Também conhecemos o delicioso e rabugento professor Fortuna, para quem a alfabetização de mulheres era vista como um atentado à boa civilização.

Em
Os Espiões, o leitor menos fiel também tem acesso ao mundo de Veríssimo, um mundo cheio de humor, de ironia e sutis críticas sobre a hipocrisia e a mediocridade humanas. Não tenho aqui a intenção, também não possuo a pretensão de fazer um ensaio sobre Os Espiões. O motivo pelo qual não o farei é que me considero uma leitora fiel de Veríssimo.

Conheci sua obra porque alguém me dissera que era um dos melhores escritores brasileiros quando se pensa em escrita de humor, em um tipo de humor inteligência que é capaz de ultrapassar o próprio gênero para se alinhar ao que se tem de melhor na literatura de um país. Eu, humorista nata, achei que seria interessante conhecer a obra de Veríssimo, nunca li a de seu pai, mas , julgando pela herança genética e pelo que muitos me contavam, Veríssimo, o filho, tinha que ser genial. E é.


Sobre o enredo? Hum, muito pouco posso revelar, mas vou dizer que o livro prende qualquer que seja a categoria do leitor de modo que não existem mais "hora do almoço" "hora de sair", "hora de dormir". Veríssimo nos conduz, entrelaçando com talento os fios que Ariadne vai revelando, capítulo por capítulo, envelope branco por envelope branco, deixando todo aquele que se encontra com o livro em mãos tonto como se estivesse em um labirinto.

A respeito das alusões à De Chirico, à Ariadne de Teseu? Pouco posso dizer, somente me sinto autorizada a falar que o autor tem sucesso ao nos guiar por esse labirinto que a história de Ariadne nos apresenta. E o melhor? Não nos sentimos angustiados, no máximo, eufóricos para chegarmos ao derradeiro capítulo.

E quando lá chegamos? Que vontade de voltar...mas já é tarde, já fomos enfeitiçados e pena que o livro um dia acaba...mas não quer dizer que não poderemos retornar ao labirinto, nem que seja para rir com as opiniões e palestras do Professor Fortuna.


Como isto aqui não é sobre o autor e sim sobre a obra, pensei o que escrever sobre o recente livro do escritor gaucho que não revelasse a quem quer que esteja lendo isso o final da trama.

Acredito mesmo que até se me contentasse em contar como o fio de Ariadne é trançado e retrançado nos quinze capítulos em que o livro se desenrola, mesmo sem revelar o final da narrativa, estaria prestando um desesrviço aos leitores, fiéis e infiéis, novos ou antigos de Veríssimo.


Farei o seguinte: não contarei nada. Espero que isso atice a curiosidade de quem gosta de tudo que Veríssimo escreve, ou mesmo chame atenção daquele que nunca leu nenhuma linha vinda lá das bandas de Porto Alegre.
Não contarei sobre a Ariadne que costumava escrever sem vírgulas, não falarei sobre a origem do apelido da figura soturna conhecida como Rico. Não. Não direi uma palavra sequer sobre o que significava, em Frondosa, dizer que iria "visitar o túmulo de mamãe".


Meu silêncio receberá aquele que me perguntar como o editor conhece Ariadne, o que de fato se poderia entender como a "Operação Teseu", ou mesmo porque diabos o Mandioca gostava de "entregar" os jogos que disputava pelo time de futsal da cidade.

Não adianta insistir, porque também nada direi sobre Dona Loló, Franco e Fabrízio Martelli.
Deixarei tudo à cargo da curiosidade de quem possivelmente me lê agora. Se alguém , ao ler isto aqui, se interessar, descubra por si só o trançado feito pela tal Ariadne, trançado escrito e amarrado com "a pena da ironia e da galhofa", expressão que, se não pode se restringir à Machado de Assis, não poderia deixar de ser associada à Veríssimo.

Exagero? Coisa de leitora apaixonada e fiel?
Sobre isto nada. Nenhuma palavra sequer. Descubram por si sós, eu é que não vou estragar uma história de detetive.Itálico

segunda-feira, julho 12, 2010

E.U.A versus Lennon: um documentário honesto


E.U.A versus John Lennon é o documentário do momento. Na verdade rodado em 2006, o filme assinado por David Leaf e John Scheinfeld, certamente honrou seus objetivos: traçar o caminho tortuoso pelo qual se desenvolveu a carreira do ex-beatle quando passou a interferir ou a se preocupar com assuntos referentes à ordem nacional americana.


O filme consegue ser fiel a seus propósitos; mostra um Lennon fixado na infância, sobretudo em uma mãe que praticamente o abandonara e que não o abandonou nas lembranças da vida adulta, um jovem rebelde por nascença, não por escolha: era ele o próprio Working Class Heroe que chegou a cantar em uma de suas músicas do período pós-beatles.


Vemos no documentário um John politicamente ativo, preocupado com os destinos da humanidade que, naquele momento - início dos anos 70 - estava sendo conduzida ao massacre comandada pelos governantes dos Estados Unidos, a maior nação de todas, até hoje.


Trazendo quase uma dúzia de relatos, uns emocionantes, outros revoltantes, parece-me que Leaf e Scheinfeld não tomaram partido de Lennon, como se poderia pensar, ao contrário, ouviram rebeldes setentistas, ouviram radicais extremistas, mas também deram vez e voz aos representantes do governo da época, à pessoas que podemos facilmente relacionar às cenas de truculentos embates com uma população em sua maioria jovem, em muitos casos sob efeito de drogas, mas, sobretudo, unidos por um só objetivo: Dar uma chance à paz, uma canção entoada primeiramente por John e Yoko e que posteriomente se tornou um hino de toda uma geração revoltada contra um governo no mínimo corrupto, contra uma guerra sem propósito - se é que alguma guerra tem outra motivação que não o sadismo de seus idealizadores.


Do movimento Bed Peace à sua ligação com o partido das "Panteras Negras", observamos o desenvolvimento político e humano de um artista, que, se começou sua carreira de sucesso com o aval de uma massa praticamente hipnotizada diante de sua atitude já rebelde nos palcos, diante de sua voz esganiçada em "Twist and Shout", nos últimos anos de vida teve boa parte desta mesma massa dividida entre os que o apoiavam e os que o rejeitavam veementemente , e para os quais não passava de um subversivo.


Voltando um pouco no tempo, não achamos que Lennon dos anos 70, o que cantava a paz e o fim da guerra no Vietnã, não era muito diferente do jovem que ironizava os governantes: A própria família real inglesa foi motivo de chacota na voz de Lennon, não nos esqueçamos jamais quando o pop star pedia para que a rainha Elisabeth e sua turma ao menos balançassem suas jóias ao ouvir Twist and Shout no lugar de baterem palmas, como a maioria de seus súditos fariam.


O Lennon do documentário é o mesmo jovem rebelde que não se contentou com o título de mais adorado do mundo junto com seus outros amigos, não era mais do FabFour, mas foi igualmente genial quando conclamou toda uma nação - e também boa parte do mundo, diga-se de passagem - a romper com a lógica quase facista do governo de Nixon que mandava e desmandava diante de uma nação.


Lennon não ficou calado, sem dúvida com ajuda da mesma fama que o fez quem era, usou a mídia, usou sua excentricidade, inteligência e genialidade para trazer um pouco de reflexão à pessoas que costumavam engolir sem mastigar. Em suma, seus movimentos como o Bed Peace, a história de deixar o cabelo crescer pela paz, a sua própria relação com a exótica esposa Yoko Ono foram fundamentais para ele fazer o que pretendia: lançar a a reflexão, no intuito ingênuo de mudar o mundo.


Você pode dizer que ele é apenas um sonhador, ele foi, mas deixou sua mensagem, é o que Yoko atesta em sua última aparição num documentário simples que honrou seu propósito: mostrar a relação tensa entre uma nação e um ídolo. A lição que fica é que , em tempos pós-Bush e guerra ao terror, não custava muito que outras celebridades realmente se imbuíssem de um espírito de paz, que não apenas se preocupassem com seus bolsos e imagens e que, sim, voltassem seu público e seus fãs para os problemas que, afinal, não são muito diferentes dos de trinta anos atrás.


O mundo continua o mesmo, a politicagem continua utilizando dos mesmos recursos hediondos, e as pessoas continuam sendo segregadas entre passivos e subversivos, continuam achando "um saco" votar, "um saco" assistir horário político. Num mundo em que imagem é tudo, atitudes de Lennon poderiam muito bem ser enquadradas como jogadas de marketing, mas, se assim fosse, como explicar as vantagens ( nenhuma )que Lennon obteve com toda sua luta pela paz?


Os quatro tiros que levou certamente não estariam contabilizados no fechar de contas. Em um mundo em que tudo é fake e em que uma figura como Lady Gaga lança moda, em que ídolos do esporte são presos por crimes dignos de psicopatas, não me resta muita esperança ao imaginar um mundo de celebridades que faça mais do que doar um quinhão de sua fortuna à Ongs ou adotar jovens órfãos de lugares devastados pelo mesma nação que lota os cinemas e dá fama e fortuna às Angelinas Jolies da vida.


Pacifismo e engajamento é mais do que se faz hoje em dia, e acredito que Eua versus John Lennon ensinaria muito às gerações atuais, calcadas essencialmente no individualismo que confudem felicidade pessoal com ativismo político-social, afinal, resta uma dúvida: Está-se adotando órfãos do Cambodja por uma necessidade pessoal ou por uma necessidade de chamar atenção para conflitos, guerras e submissão de outras nações perante o poderio bélico de uma potência mundial?


Para responder a estas questões, devemos pensar um pouco, mas, como pensar, se twitar um "calabocagalvao" é mais importante? uma briga entre mulheres por um homem é recorde de acessos? Se a notícia do dia é o carinha que ganha rios de dinheiro vivendo um vampirinho adolescente? Bem que estava na hora de um Lennon aparecer...mas fica difícil nesses tempos em que as pessoas se refugiam na fantasia e na ficção e tudo que for real é enfadonho, chato, sem muitos pixels.



Ponto para Leaf e Scheinfeld que conseguiram fazer um filme à altura de Lennon que estará sempre vivo, invariavelmente, quer queiram ou não.

terça-feira, julho 06, 2010

Sublima que melhora!



Quando as pessoas estão envolvidas em festejos, comemorações, festinhas parece fácil dizer que estão acompanhadas, que estão em conjunto, em grupo, etc. Mas, como vamos dizer que estamos sós?Como sabemos que estamos sós?


Esta pergunta pode parecer de fácil resposta, uma vez que, aparentemente, estar só é o contrário de estar em grupo, ao lado de pessoas. Digo que não é bem assim, você pode estar ao lado de pessoas que não são tão significativas e que, por este fato, você continua se sentindo isolado, perdido, ou você pode estar com pessoas significativas e estar se sentindo igualmente sozinho.


Fato é que nas tristezas da vida, nos momentos em que você reza para não desesperar, raras são as pessoas que irão estender a mão, dizer "olha, estou aqui". Pouquíssimas. Nesse mundo em que vivemos, em que imagem é tudo, alegria é imperativo e ter amigos é sinônimo de felicidade, quem ousa se aproximar de uma pessoa que não faça parte dessa lógica, que nao compactue com comentariozinhos desnecessários e falsos? É isso, é disso que o povo gosta.



Quanto a mim, continuo vivendo a solidão, às vezes acompanhada, às vezes solitária, mas quase sempre compartilhada com uma única pessoa - ainda bem que ele existe - e aos outros, a quem interessar possa, continuo aqui, não postando fotos revelando o quanto curti a Copa do Mundo, o quanto curti o São João, o quanto adorei a viagem que não fiz.


Como não há meios de se demonstrar a tristeza, o processo depressivo, a solidão, melhor mesmo é falar, mesmo que ninguém leia, porque isso, de algum modo, pode garantir dias melhores. Da solidão e da morte, ninguém nunca quer saber.


Sigamos com nossas alegorias, fotos em verde e amarelo e comentários falsos sobre as pessoas, a vida e o mundo. Ah, Rogers, como discordo de você, de onde você tirou que o ser humano é essencialmente bom? Se assim fossem , como seria a vida? Metade da humanidade - bem mais da metade, vamos ser sinceros - não aprendeu a ser gente , por isso, não vão se beneficiar com um livro chamado "Tornar-se Pessoa".


Entre Tornar-se Pessoa e ser sujeito, prefiro a última opção e "O mal estar na civilização" permanecerá meu livro de cabeceira, enquanto a dor não passar, enquanto a ferida não cicatrizar e ninguém vier a meu consolo, porque isso certamente não espero.


Sublima que melhora!

domingo, junho 20, 2010

A perversão e o reino das toupeiras



A toupeira, é um bichinho tão bonitinho, singelo e gracioso. Ali, naquele cantinho dele, pode ser tão feliz, tão acomodado. Este bicho que pouco enxerga mas muito ouve, que busca incessantemente por comida parece inofensivo...ledo engano, são bastante vivos e podem ameaçar mesmo os bichos maiores. Vejamos algumas informações sobre esse bicho de duas caras:


A toupeira vive debaixo da terra, nos campos e nos jardins.Está sempre com fome e por isso consegue cavar grandes túneis à procura de comida.

Comem qualquer bicho que lhes apareça pela frente: vermes, larvas, minhocas, e às vezes até outras toupeiras. Para cavar a terra, a toupeira usa as patas da frente, que são muito fortes, uma espécie de pá.


À medida que vai avançando, a toupeira escava a terra e empurra-a para trás. A toupeira não vê quase nada, os seus olhos são do tamanho da cabeça de um alfinete! Mas em compensação ouve e cheira tudo muito bem a sua volta!



Como se percebe, a toupeira é um bichinho quase cego, sempre faminto mas que na verdade ouve e cheira tudo a sua volta. A toupeira é sacaninha, como a gente pode perceber, porque no interesse e estando com fome, não importa qual seja o alimento, estraçalha e come até as outras toupeiras com a única intenção de matar quem lhe estava matando.


A toupeira vive debaixo da terra, não deve ter acesso nenhum À luz e tem uma enorme vontade de sugar, de comer do outro aquilo que de interesse for. Não são as toupeiras graciosas réplicas de muitos seres humanos que conhecemos?


Ora, olhos do tamanho de cabeças de alfinete certamente não enxergam longe, e, sinceramente, viver embaixo da terra não parece coisa boa para ninguém. Mas as toupeiras, elas gostam, elas são sujas e vivem enfiadas em buracos, tendo nessas pequenas "pás" que são seus dedos, importantes aliados no ofício de descobrir novos alimentos, novos seres para deles se alimentar.


Quanto mais leio sobre a toupeira, mais me lembro de muitos seres humanos que mal enxergam um palmo diante do nariz - ou focinho - e que acabam por ter no olfato e nos dedos a maior vantagem: sabem farejar e se aproveitar do que vêem pela frente, e olhe que não vêem tanto, mas, uma vez enxergando, por que não?


Que me perdoem os ambientalistas, que me perdoem os telespectadores do Discovery Channel, mas que animalzinho sacana essa toupeira, espero tranquilamente o dia em que se comam até serem apenas fotos em livros sobre animais em extinção.

terça-feira, maio 04, 2010

A lealdade de Hachiko



Quando me deparei com o filme "Sempre ao seu lado" (Hachiko, 2009), protagonizado por Richard Gere e um cão akita, torci o nariz, não queria ver mais um filme de cachorros falantes e de aventuras extraordinárias à la K-9, um cão da pesada. Decididamente, não iria assistir. Até que tive acesso a uma crítica da revista Bravo! a qual elogiava o tal "filme de cachorro", justamente por tirar-lhe este aposto, Hachiko não era mais uma história de cachorro: Hachiko não fala, não saltita, não persegue bandidos, não trabalha para o FBI e não faz grandes truques a mando de seu dedicado dono.


Hachiko é a história de um cão que existiu, de fato, nos anos 20, no Japão. Um Akita que não costumava obedecer ao simples comando de "vá buscar a bolinha" , uma vez que só fazia o que realmente lhe agradava, e por carinho a alguém. A história, na verdade, mostra com sensibilidade o que é a lealdade, algo tão em desuso atualmente.


Adaptada em uma pequena cidade americana, a história de Hachiko centraliza-se nos "sentimentos" do próprio cão, fazendo de Richard Gere um mero coadjuvante. Trata-se da história de um cão que, por costume, todos os dias acompanhava seu dono à estação de trem, via-o ir ao trabalho e, pontualmente, voltava ao lugar no fim do dia para esperar seu dono retornar. Acontece que em um trágico dia, a personagem de Richard Gere não retorna: morre repentinamente no local de trabalho e assim Hachiko nunca vê seu dono regressar.


O tempo passa, Hachiko, no entanto, não esquece do afeto que seu dono lhe dirigiu por dois anos, e, durante toda a sua vida retorna todos os dias à mesma estação, à espera do dono que teimava em não voltar. Isso aconteceu por nove anos, até a morte do cão, em 1934.


Mais do que um "filme de cachorro", uma espécie de Rintintim ou Lessie, Hachiko é uma história que fala de lealdade e de como não devemos esquecer aqueles que amamos. Nos dias de hoje, somente a fidelidade canina é capaz de atos deste nível. Feito com extrema sensibilidade e sutileza, o filme é sim, triste, horrível, mas, por isso mesmo, percebemos sua beleza, em sua singeleza, numa história sem pretensão que se torna uma bela forma de falar de lealdade, companheirismo, apesar da transitoriedade da vida.


Nos anos que seguem a morte do professor, dono de Hachiko, tudo muda, sua viúva desfaz-se da bela casa em que viviam, Hachiko vai morar com uma nova família, com a filha de seu dono verdadeiro e convive com uma criança. Em uma rápida, mas primorosa cena em que não existem falas nem personagens humanos, acompanhamos o passar das estações, a partir da desfolhagem e folhagem das árvores que abrigam Hachiko: primoroso, porque singelo. Podemos notar que este é um recurso muito utilizado em cinema para demonstrar a passagem do tempo: a mudança da natureza, mas em Hachiko isto ganha um tom poético somente possível graças à sensibilidade de um diretor perspicaz e sutil.


Apesar de Hachiko, o tempo passa, as pessoas mudam, os arredores da estação transitam apressados, porém alguns são os mesmos de sempre, cumprindo a rotina diária: o dono do carrinho de cachorro-quente, a senhora que pega seu trem todos os dias, o homem encarregado da administração da estação, todos continuam seu ritmo de vida , o trem sempre vai e vem, e , à sua espera está Hachiko, esperançoso de receber seu dono, sempre, todos os dias, com o que poderíamos dizer "fé inabalável" no retorno, se não estivéssemos falando de um cachorro.


Cachorro ou não, o que estamos tratando aqui é de transitoriedade, também. Se percebemos que o tempo não pára, os trens não abandonam as estações, o sol não deixa de nascer e morrer todos os dias, acreditamos que tudo, neste mundo que insiste em girar, passa, à exceção de uma coisa: o afeto.


O afeto não morrem como as folhas das laranjeiras, como as flores das cerejeiras tão vistosas em certa época do ano no Japão. O afeto permanece em nós, imemoriável, sujeito à nuvens e trovoadas mas , sobretudo, não sujeito ao recalcamento. Não esquecemos e o tempo não amarela os sentimentos e afeto que temos por algo, alguém.


Assim, uma casa vive em nós, deixa de reduzir-se a seus limites geométricos e geográficos e passa a ser reconstruida com o cimento da nostalgia, mobiliado com os móveis os quais nossa memória projeta e inventa. Hachiko envelhece , o tempo inevitavelmente passa, mas até quando viveu guardou em algo que poderíamos chamar de "lembrança", os momentos de afeto vividos e compartilhados com seu dono, isso, sim, não é passível ao emboloramento, não obedece às leis que transforma tudo que é vivo em pó e em ruínas.


A inevitável verdade não é negada: seremos nós, um dia, reduzidos à pó, seremos história tal como o sol que nasceu ontem e já não se encontra radiante no alto, posto que em seu lugar existe outro. A lua cheia de ontem pode até retornar, mas não será mais a mesma lua, e nós, crescemos e vivemos esse tempo que passa, passamos tal como os ponteiros de um relógio, mas algo, algo fica.


Hachiko nunca cansou de esperar seu dono. A lealdade é o que lhe fez carinho e o sustentou, todos os dias, no mesmo lugar. Atualmente Hachiko está representado por uma estátua de bronze colocada no lugar no qual costumava deitar-se à espera de seu dono. O filme é belo, simples e, como a maioria dos filmes belos e simples, tem um quê de libertador. Vale a pena.