quinta-feira, fevereiro 19, 2015

As Solteironas (por Carmen da Silva, fevereiro de 1974)

Solteirona é uma palavra pesada, com uma conotação precisa, às vezes amarga, às vezes maliciosa, que ecoa socialmente como uma punição à mulher que vive sozinha. Carmem traça três perfis distintos, três maneiras de uma mulher enfrentar esta situação: aceitando, e se tornando uma solteirona irrecuperável; ou mulher realizada, ligada à vida e às coisas; ou o tipo solteirona por atitude



Matéria original
Todas vocês seguramente conhecem alguma solteirona. Talvez ela não tenha mais de 30 anos (às vezes nem isso) e seu aspecto seja excelente; mas, mesmo assim, ela já mostra as características da solteirona. Aliás, se vocês forem boas observadoras, já terão descoberto esses traços desde que ela tinha 18 anos. Ela é uma pessoa cheia de pudores e medos; tem tendência a achar que tudo está mal, abstém-se de mil coisas por causa da possível opinião dos outros ( que nem estão reparando no que ela faz) e critica com mal disfarçada acritude os modos das que são sexy, espontâneas, flertadoras, admiradas, populares. Às vezes posa de indulgente: ‘Não é que eu reprove, mas eu não tenho temperamento para agir assim’ – e seu tom está insinuando quem está certa é ela, ou melhor, que as outras estão muito erradas e são ‘salientes’ demais. Nossa solteirona é um pouco beata, bastante piegas e muitíssimo apegada aos pais, sobretudo à mãe; basta um gesto meio displicente desta para afundá-la na fossa; ela fica deprimida como uma criancinha cujo universo ainda girasse exclusivamente em torno das atitudes maternas; se os pais são mortos, ela cultua a memória deles; não é apenas o carinho e a gratidão normais, senão a dedicação fundamental que os transforma em eixo da vida dela. Exigente demais com as amigas, nunca dá tanto quanto recebe, nunca se considera obrigada a tomar uma iniciativa, a dar o primeiro passo: fecha-se em copas e espera que a outra se aproxime, chame, convide, insista. 


Ciumenta e absorvente, sente-se traída quando a amiga tem outros interesses, outras relações afetivas, de amizade ou de amor, que absolutamente não a excluem, mas que ela, em sua hipersensibilidade, considera como uma escolha que a desfavorece, uma exclusão: quer ser a única importante na vida dos outros – e nada faz para conquistar esse lugar. Amargurada, só sorri com meio lado da boca; parece estar sempre insinuando: ‘Claro, para você é muito fácil: com um marido ao lado...’ – como o pobre faminto que olhasse de fora o banquete alheio. Nunca pensa em marido em termos de compartilhar a vida, as responsabilidades, os prazeres e as vicissitudes: pensa só em termos de proteção e apoio, de jogar-se como um fardo nas mãos de alguém.


Convidada para uma festa ou reunião, logo esquece que se divertiu, conversou, brincou: a única coisa que lembra é que na hora de ir embora cada um pegou seu par e ela não tinha par; foi levada em casa ( com toda a gentileza, com toda a consideração) por um casal amigo que lhe deu carona e isso envenena retrospectivamente a noitada. Ela tem inveja da felicidade – real ou suposta – dos outros e essa inveja lhe estraga todos os bons momentos; não desfruta do que tem e passa o tempo lamentando o que não tem.


A solteirona triunfante, a casada

Se nossa solteirona é mulher de sucesso em seu trabalho, em seus negócios, o mais provável é que ela e torne masculinizada, da forma mais crua: voz áspera, gestos abruptos, atitudes de quem não admite brincadeiras, conversas puramente intelectuais ou comerciais, impaciência com os interesses, que ela acha frívolos, das outras mulheres; será a amiga dos maridos, que só tolera as esposas com  um grau visível de desdém. Mas talvez vocês conheçam uma solteirona casada: ela existe, responde ao tipo descrito e o erro não é da natureza, e sim, do Registro Civil. Por assim dizer, ocorreu uma mancada, e a solteirona foi parar onde não tinha nenhuma vocação de estar. Tem infinitas queixas contra o marido: nenhum homem está em condições de dar – ou suportar – o que ela espera dele. Sua atitude é de dependência viscosa ou de dominação castradora. Para o olho sagaz, a coisa é clara: ela continua sendo a ‘filhinha de mamãe’ com relação ao marido, ou é para ele a mamãe de um ‘filhinho’ irresponsável e imaturo – nos dois casos se sente frustrada, pois nenhum homem, por mais neurótico que seja, consegue cumprir totalmente suas exigências regressivas. Ela não se casou para ser feliz ao lado de um homem, senão para repetir com ele, na forma passiva ou ativa, uma relação materno-filial em moldes infantis: a única relação de que ela é capaz.


Quando uma mulher, com vocação de solteirona, se casa, é comum que acabe se desquitando; e aí todos os amigos sagazes têm a impressão de que ela encontrou seu verdadeiro caminho; apesar de todos seus ressentimentos, está mais tranquila, mais ‘normal’, sem um homem.


A celibatária

Vocês conhecem uma celibatária? Uma mulher que é solteira além da idade, sem ser solteirona. Talvez não, pois o tipo é bem mais raro entre nós: os preconceitos de nossa sociedade não são propícios ao seu desenvolvimento. Mas ela existe e é uma personalidade bem definida. Vive de seu trabalho e tem a sorte de adorar seu trabalho – ou então, se esse for o caso, consegue suficiente tempo livre para fazer algo que adora e, com isso, se sente realizada. Mora num apartamentinho cheio de bossa e repleto de  amigos que se sentem bem aí. As outras mulheres, casadas ou solteiras, correm para ela para contar-lhes seus problemas e serem confortadas, tendo ouvido a palavra cordial e compreensiva de que necessitavam. As crianças são vidradas nela: a tia que todas desejariam ter.

Os homens procuram sua companhia, acham-na estimulante, divertida, generosa, sempre pronta a ouvir com simpatia uma confidência difícil, a dar o conselho sincero e desinteressado ou, se for o caso, a debater opiniões com altura e objetividade. Dela dizem os maridos das amigas: ‘Puxa, não compreendo como  é que Fulana continua solteirona: será que os homens não têm olhos?’ – e as respectivas esposas aprovam, sem o menor ciúme. Ela pode ter ou não ter um amor: isso depende de sua escolha. E não é raro que, já bem avançada nos 40, ela ainda tenha um bom número de candidatos na fila de espera. 


Se chega a decidir-se por algum deles, não é por medo de terminar sua vida sozinha: ela sempre ‘se virou’ e nunca sofreu de solidão; é porque achou que dá pé. Isto é, que sua vidinha feliz será ainda mais feliz com ele. E o escolhido vai esfregar as mãos de contente, sentindo-se um privilegiado. Nunca pensará: ‘Peguei alguém que ninguém mais quis’, mas sim: ‘Ela passou anor recusando uns e outros para finalmente se decidir por mim: sou o maior’


A vidinha pedida a Deus

 Confesso que fico profundamente penalizada ao ler cartas de mulheres solteiras que já estão acima da considerada ‘idade casadoura’, morando sós ou com os pais e me escrevem queixando-se de solidão, vazio, necessidade de amor, frustração por não ter ao lado marido e filhos, falta de objetivos, vontade de morrer. 


Elas me fazem pensar no mendigo que tem milhões escondidos no colchão e vive uma existência miserável, alimentando-se de sobras e abrigando-se com farrapos. Pessoalmente, casei tarde e antes morava sozinha; sei por experiência própria o que é a vida de celibatária, curtindo seu apartamentinho, seus amigos incondicionais, seus bons papos, sua turma sempre disponível, seu telefone sempre chamando – enfim, uma vida plena de afetividade, comunicação, diálogo.

Posso garantir que desfrutei cada minuto dessa existência. E se bem não a lamento, agora que entrei em outra, não é sem saudades que relembro minha vidinha de celibatária. Eu trabalhava fora e a empregada vinha fazer a limpeza durante as horas em que eu não estava em casa; assim, eu encontrava tudo em ordem sem ter preocupações domésticas e sem ver minha intimidade invadida por uma estranha.


Fazia minhas refeições em restaurante e não tinha de pensar em compras, cardápios, etc.

Às vezes o dinheiro ficava curto e eu rondava pelas redações, oferecendo matérias freelance para desapertar o orçamento. Amigos dos dois sexos vinham todas as noites, e juntos discutíamos a arte, o futuro do mundo. Quem quiser um panorama mais completo desse estímulo de vida, leia A força da Idade, de Simone de Beauvoir; aí poderá ver o que  é uma existência baseada em objetivos próprios, mas sem carências afetivas; livre de amarras convencionais e aberta aos acontecimentos, aos contatos, às surpresas.


É certo que nem todas podem ter ao lado um Sartre: mas quantas o desejam? Nem sempre é preciso tanto para satisfazer – e satisfazer plenamente – o nível das próprias aspirações.

Enfim, ao ler uma dessas inúmeras cartas que dizem: ‘Tenho xis anos, sou solteira, vivo do meu trabalho e não me conformo por não ter ao lado marido e filhos, sofro uma solidão horrorosa, sinto-me diminuída, inferiorizada, vazia, infeliz’, é com muito de reação pessoal que penso: Puxa, essa moça tem a vidinha que qualquer uma pediria a Deus – e ainda se queixa?


A diferença

As circunstâncias externas são praticamente as mesmas nos dois casos. O que as distingue é a atitude emocional de cada uma. A celibatária não tem pressa de casar e nem sequer decidiu a priori se um dia chegará ao casamento: optará por ele ou não, de acordo com suas inclinações, quando chegar o momento oportuno. Não está pensando que suas amigas casaram e ela não; imagina que, se as outras já casaram, é porque tinham para isso boas razões que ela ainda não tem. Não olha o par com inveja ou ciúme; ao contrário: se a amiga ou o amigo casou, seu parceiro (ou parceira) é mais uma amizade que lhe vem ‘ de quebra’.


Frustração dos instintos maternais? Isso é relativo, muito fomentado: a sociedade espera que a mulher que não tenha tido filhos na idade convencional seja infeliz e frustrada. Os homens saltam muito rápida e arbitrariamente à conclusão de que assim é – a tal ponto que, às vezes, fico pensando se eles não projetam nela sua própria frustração pela incapacidade biológica de procriar. A verdade é que a vida oferece muitíssimas outras satisfações além da maternidade: o amor, a tarefa, a realização, a criatividade, a amizade: e essas tradições se substituem entre, si, umas compensam a ausência de outras. O único que não é possível é viver sem nenhum tipo de gratificação: mas quando vários são possíveis, a pessoa bem integrada não tem nada a lamentar. A celibatária não se sente incomodada pela falta de filhos ou de um homem a seu lado, assumindo a vida por ela, responsabilizando-se por ela: é mais do que capaz de assumir-se e responsabilizar-se sozinha.


Enfim, a celibatária é uma mulher que resolveu construir sua própria existência, ser uma pessoa por si mesma. Isso de nenhum modo exclui o amor de um companheiro, mesmo que ele não seja o definitivo; e também não exclui a escolha de um companheiro definitivo, em qualquer etapa: o casamento não está eliminado de suas cogitações, sem ser, entretanto, a finalidade primordial de sua vida. A celibatária se organiza a partir de  dados reais: o que ela é, o que ela tem em si, o conjunto de  sua situação, as potencialidades que ela pode desenvolver – sem idealizar o que poderia ter sido. Em resumo, ela possui suficiente maturidade emocional para enfrentar o desafio.


As limitações do casamento

O casamento não é nenhuma prisão. Mas a verdade é que, nas condições vigentes na sociedade patriarcal, mesmo um casamento feliz e harmonioso cerceia em muito a liberdade o desenvolvimento da mulher. Por mais que numa união desse tipo não haja ciuminhos tolos nem restrições absurdas à liberdade de ação da esposa, os próprios preconceitos sociais pautam sua conduta em moldes rígidos, privando-a de seguir certos impulsos, tomar atitudes espontâneas, permitir-se gestos e modos menos circunspectos, que só seriam tolerados numa solteira. Ela se submete a essas imposições em atenção ao bom nome do marido, pois, se a mulher não se conduz conforme as convenções, todo mundo passa a chamá-lo de ‘coitado’ ou ‘boboca’.


Por outro lado, recai sobre ela a carga da rotina doméstica, com o peso das preocupações materiais, miúdas, rotineiras embrutecedoras, embotando-lhe o cérebro e absorvendo-lhe o tempo e as energias que assim são desviados de finalidades mais criativas.

E não me digam que a solteira que mora só, numa pensão ou apartamentinho, tem os mesmos problemas: todo mundo sabe que seu estilo de vida, no que tange às tarefas domésticas, é infinitamente mais simplificado. E nem poderia ser de outro modo, pois ela tem de trabalhar para sustentar-se.


Tudo isso sem falar nos filhos. Aqui nem vale a pena pormenorizar: qualquer mãe de família sabe das milhares de obrigações de seu dia-a-dia, da impossibilidade de dispor de suas noites, da atenção constante e dos inúmeros cuidados materiais – não falo dos outros – que ela tem de dispensar às crianças.


Nessas condições, eu me pergunto: se uma mulher não está apaixonada por ninguém em particular – uma pessoa cuja companhia lhe pareça compensação mais do que suficiente por tudo de que ela deverá abdicar – , se ela se mantém sozinha com seus próprios recursos: se ela tem um vasto campo de possibilidades de realização, afetiva e social, por que é que ela não desfruta dessa maravilhosa liberdade e vive amargurada pela falta de marido, pela falta de amor?


O cárcere interior

Em realidade, quando falo de liberdade, refiro-me somente à celibatária. A solteirona, embora com as circunstâncias a seu favor, não a tem, porque vive encarcerada dentro de si mesma. Dentro de sua neurose, de sua própria incapacidade de dar amor.


Sei que as atingidas vão protestar. Pois se elas não fazem mais do que pensar em amor, o amor é sua ideia fixa, seu desejo obsessivo; sentem-se asfixiadas de amor sem objeto.

Quem tem amor de verdade para dar, sempre recebe amor em troca. Pode haver um intervalo, uma pausa, um período em que essa pessoa não esteja apaixonada por ninguém em especial; mesmo assim, mesmo assim, ela continua dando amor aos parentes, aos amigos, à tarefa que realiza, às atividades que lhe agradam, às ideias ou causas em que crê. E por fazer tudo isso com amor, ela se sente fundamentalmente feliz, mesmo que o lugarzinho privilegiado em seu coração esteja temporariamente desocupado. Essa momentânea ausência de um objeto específico de amor não a angustia: segura de suas disponibilidades, de suas reservas afetivas, não precisa estar sempre provando a si e aos outros que as possui.


No caso da solteirona, esse amor encruado, sem extravasão, só lhe traz frustração, rancor contra os homens que não a procuram, inveja das mulheres que tiveram mais ‘sorte’, ressentimento pela felicidade alheia, senso de exclusão injusta, de barreira que as separa do resto do mundo. Vê-se, pois, que esse chamado ‘amor’ só se traduz em sentimentos negativos: em realidade, ele não é senão o disfarce de um profundo ódio recalcado, isso se torna particularmente evidente quando um homem se aproxima da solteirona com intenções eróticas. Em geral, ela começa por afastá-lo: com sua frieza camuflada de recato, sua agressividade dissimulada em ‘nervosismo’, suas atitudes pouco cordiais, seus intensos receios de que possa ‘não dar certo’, seu medo de comprometer-se numa ligação que talvez venha a fazê-la sofrer, ela encontrará meios e modos de estragar tudo. E só quando ele tiver ido embora definitivamente, ela começará a alimentar a fantasia de amá-lo: adora-o, sofre por ele, está desesperada, tem vontade de morrer – mas tudo isso quando ele já se tornou inalcançável. É óbvio que ela não se atreve a amar um homem real. O que ela fez, no caso, é tomar um homem real como modelo físico para sua própria fantasia: ama um objeto criado e idealizado em sua imaginação; esse objeto pode ter as feições de Fulano ou Sicrano, mas isso é tudo: como pessoa concreta, Fulano ou Sicrano não consegue ter acesso ao mundo interior narcisista.


Muitas vezes esse amado ideal nem tem rosto; em outras ocasiões, a solteirona cultua a memória de um ex-namorado da adolescência, de um noivo morto há vinte ou mais anos atrás.


Em busca de uma saída

As solteironas se revoltam quando me escrevem pedindo ajuda, e eu respondo ‘Psicoterapia, psicoterapia!” Não se consideram doentes, e sim, infelizes. Acham-me dura, insensível, incapaz de compreender as infinitas riquezas de amor que elas têm no íntimo, de simpatizar com seu sofrimento. Neste último ponto estão redondamente enganadas: posso avaliar, talvez melhor do que elas próprias ( pois há muita coisa que elas reprimem, negam, escondem de si mesmas), a extensão de sua dor, o caráter absorvente e esmagador de sua depressão. O que não posso é dar cumplicidade ao seu sistema de autoengano: elas não sofrem de amor – aliás, ninguém sofre de amor; sofrem é de ódio que não ousa assumir seu nome; e por essa distorção, isto é, por não estar conscientizado, ele neutraliza todo o amor real que elas possam ter em si.


A solteirona é uma pessoa que, não tendo sido suficientemente amada, ou tendo tido exigências excessivas de amor, na sua infância, ficou fixada a essa fase da vida, om um senso de reivindicações. Ela cresceu em anos, mas não em estrutura psicológica: já adulta, continua querendo vingar-se daquela mãe que não a amou o bastante, daquele pai indiferente ou severo demais. Ou recuperá-los, se, ao contrário, eles abafaram sua personalidade com excesso de mimos e proteção. É a eles, os pais, que está referido seu desejo de dar e receber amor; mas esse intercâmbio é concebido em termos infantis: mamar, ser levada ao colo, paparicada, dirigida, dependente; portanto, ele é impossível, mesmo que haja pais vivos e dedicados. Ela está situada fora do tempo real: não quer um amor aqui e agora, que, como todo o amor normal, se projete no futuro: ela quer amor ontem. E isso, sendo irrealizável, deixa-a permanentemente frustrada e, em consequência, permanentemente raivosa – e culpada por essa raiva, punindo-se por ela através da solidão e da depressão. Ela também não quer o amor do outro: para o bebê, os pais não são “outros”, são partes de  si mesmo; o que a solteirona deseja é o vínculo narcisista com sua imagem no espelho, a simbiose com os pais, que lhe permitirá amar-se.


Enfim, ser celibatária é ser madura de idade e de estrutura psíquica, e não estar casada, agora, no momento; ser solteirona é ser madura de idade, imatura de estrutura psíquica, sofrer com sua condição e não ter dentro de si os recursos para modificá-la. Não ridicularizemos, como fazem alguns, os tormentos da solteirona: ela sofre a carência instintiva e afetiva mais radical, que é a de quem vive voltada para uma satisfação impossível, porque baseada em fantasias regressivas, reivindicações arcaicas.


A tomada de consciência do verdadeiro núcleo do problema (através da psicoterapia como método ideal; ou, quando esta for impossível, mediante uma honesta e corajosa auto-análise, até chegar às raízes) daria à solteirona sua oportunidade de transformar-se numa celibatária e viver uma vidinha invejável, com todas as perspectivas – inclusive matrimoniais – da celibatária. Uma mulher – feia ou bonita, não vem ao caso – tão cordial, tão generosa, tão gente que todo mundo que a conhece diz: “Puxa, será que os homens não têm olhos?” E vai ver  que eles têm – e estão lá: quem fala é porque não sabe.

terça-feira, agosto 19, 2014

Je suis lacanianne-fajute, mon amour!

Em seu texto "Lacan elucidado" Jacques-Alain Miller nos relembra do fato de que o desejo neurótico equivale à felicidade, uma felicidade nunca atingida, e por isso mesmo, tão almejada. 

A questão central do neurótico, nos relembra Miller, será sempre o "Che vouir?" Ou "O que quer?". Portanto, ao neurótico cabem as perguntas, cabe a interrogação do desejo. E para o perverso? Ora, a questão não é uma questão. Em última análise, a interrogação não consta na máquina de escrever do perverso, pois, nada do seu desejo corresponde a uma dúvida, o perverso é aquele que, de repente, sabe.

Segundo Miller, seria esta a base da arrogância perversa. Meu complemento: o gozo do perverso é ser aquele que goza enquanto o outro pergunta. O perverso não questiona, ele sabe, ele sabe que é. E, no caso que ilustro aqui ele sabe que é francês. Desdobremos melhor esse argumento, pois será útil no que pretendo desenvolver.



Se o perverso detém a chave do mistério, se ele possui o código capaz de abrir qualquer cofre, ele não é dado à elocubrações ou reflexões, pois a Verdade está posta e ela não pode duvidar daquilo que simplesmente é. O perverso  tudo sabe e nada desconhece. E se nada questiona, cabe dizer que ele  se coloca como aquele que é o caminho, a Verdade e a vida, assim sendo, não haveria de duvidar de sua própria identidade, pois a Verdade é uma: ele é, e completo: Ele não apenas é, mas também é francês.

Além de ser aquele que é, le subject psicanalitique frequentemente é francês, não se sabe ao certo se oriundo da parte leste, um verdadeiro francês da região da Alsácia, ou da região da Normandia. A origem aqui não é tão importante como a nacionalidade, que é certa: ele é inevitavelmente francês, como o são as baguetes, os croissants e o molho bechamel.


Estamos agora falando de um perverso típico, estereotipado e clichê: estamos falando do psicanalista français-version, candidato ou membro da afamada " Eccole Fajute-version de Psychanalyse". Vejamos o motivo que o torna tão especial, tão-todo.

(1) Je parlais français, et vous?

Sabemos que estamos diante de um psicanalista da "Eccole Fajute-version de Psychanalyse" quando a primeira pergunta que ele nos dirige está relacionada à idiomas, mesmo que seu vocabulário se restrinja a algumas expressões idiomáticas decoradas à força e pronunciadas com um acento ou sotaque que quase sempre não é compreensível para o próprio francês, o verdadeiro. 

O membro da Eccole se regozija ao dizer a quantidade de verbos que aprende semestralmente em seu curso do SENAC e costuma fazer jus ao que aprende tentando aplicar em frases aleatórias algumas das expressões que a duras penas conseguiu memorizar. Há ainda os que logram mais êxito ao conseguir pronunciar frases-clichês que muito servem ao ofício de qualquer psicanalista da Eccole. São elas:

a) La vérité a structure de fiction.

Essa é fundamental para todo aquele que deseja tornar-se referência no campo psicanalítico, especialmente aqueles que se nomeiam seguidores de Lacan. Para o iniciante, convém memorizar - et aplicar - sempre que possível.

b) "La femme n'existe pas"

Essa talvez seja uma opção viável apenas àqueles psicanalistas que se considerem iniciados, pois seu uso requer um domínio maior acerca das concepções lacanianas  das relações entre as posições masculina e feminina.

 Para seu uso é recomendável a leitura dos Seminários 19 e 20, além, lógico, do dicionário de Psicanálise de autoria de Madame Roudinesco ( não preciso dizer que para os membros da Eccole fajute-version, essa leitura pode ser feita en passant, comece e termine pelas "oreilles " dos livros).

Seu uso é recomendado em uma roda de amigos igualmente integrantes e praticantes da Eccole.

c) "Le désir de l'homme est le désir de l' Autre"

 Essa expressão é indiscutivelmente a chave para a sua entrada na Eccole e requer ser bem pronunciada, para tanto, convém aulas semanais e mesmo reforço escolar para que nenhum traço ou vestígio de um idioma incoveniente sobrevenha e atrapalhe seu ingresso na Eccole. Já diriam os mais antigos fundadores dessa instituição, quem não conhece "l'Autre" n'existe ( vejam que algumas das expressões podem ser usadas em combinação, e isto é o que torna tão mágico o idioma francês". Insisto: convém mais aulas no SENAC para uma pronúncia impecável, não arrisque seu passaporte para uma instituição tão renomada).

É mister ressaltar  que para se candidatar a uma vaga na Eccole Fajute-version de Psychanalyse é necessário preencher uma série de outros requisitos aqui apontados à guisa de esclarecimento. Por isso, prosseguiremos.

(2) Les cigarettes dans l'obscuritè:

Para todo aquele imberbe psicanalista que acreditou que seu ingresso na Eccole dependeria única e exclusivamente de seu traquejo no idioma de Napoleão, trago más notícias: não pense que algumas expressões idiomáticas fazem de você um membro de uma instituição como esta. 

Reza a lenda que outras características próprias da personalidade do candidato serão avaliadas, isto é, sua capacidade de encarnar o sujeito do gozo e de manejar de maneira irrepreensível o discurso do mestre. 

Para tanto, convém entender de Topologia ( en passant) e, mas, acima de tudo: convém assegurar-se de que, de fato, não se é um estranho no ninho: a banda de Moebius deve ser um conceito não apenas a ser aprendido, mas divulgado e massivamente repassado aos outros membros da Eccole, sempre se observando o obscurantismo da linguagem - não esqueçam de que estamos falando da "Eccole de Fajute-version de Psychanalyse" e quanto mais as pessoas franzirem o cenho para cada frase sua, tanto melhor, é isso que lhe oferecerá a certeza de que você está perante acéfalos, será o seu conhecimento avec seu mis-en-scene o responsável por retirar o ignóbil das garras de sua vacuidade.  

Serás o Napoleão, serás o general, e marcharás rumo às terras da ignorância alheia, serás o mestre profanador e o senhor de todas as coisas. Além disso, preze pela imagem intocável que é conveniente à imagem que você deseja transmitir para toda a plateia, cigarettes são bem vindos, pois contribuem para a cena noir , o que muito eleva o poder de suas palavras. Caso domine a arte elegante do tabagismo, considera-se oportuno variar os produtos para charutos e cachimbos, mas lembre-se:
 Narguilé não é bem visto pelos membros da Eccole.

Para melhor fixação, reitero: abuse dos obscurantismos na linguagem ( aí entra a necessidade de dominar o que foi exposto no tópico 1). O resto faz parte da mis en scene que você construirá. Seu nome está em jogo.

3) Croissant et Chandon:

 Diante do que foi exposto até então, você já deve ter percebido o grau de exigências que são impostas aos candidatos a uma vaga na Eccole. Portanto, se você conseguiu dominar os dois tópicos anteriores, já é capaz de preencher facilmente os requisitos relacionados a este ponto, pois já deve ter adqurido um paladar refinado condizente ao de uma pessoa francesa e adepta à Psicanálise lacaniana-lacanóide. No entanto, caso este não seja seu caso, algumas advertências são cabíveis:

 Todo bom membro da Eccole consegue adequar seu paladar ao que estuda e o que parece bobo e sem sentido, torna-se um dos requisitos mais importantes para sua aceitação. Portanto, papel e caneta na mão, attención!

a) Não é apropriado o gosto por cerveja, objetivamente falando, troque a cevada por um bom vinho Merlot (no caso dos vinhos, quanto mais envelhecido melhor). E, como estamos falando dos interesses enológicos, cabe mesclar, entre um gole e outro, comentários relacionados à safra do vinho que deve ser sorvido delicadamente. Anote algumas expressões que podem interessar:

1. "Sinto o gosto de carvalho envelhecido tocar minhas papilas gustativas num frenesi de sabor! É quase o gozo Outro!" ( risadas baixas são permitidas).

2. "Nada como uma boa taça de ________". (complete com o nome do vinho, e não esqueça da safra)
 para esquentar uma boa discussão.

Observação: Há ainda uma melhor opção: quando você consegue unir seus conhecimentos enológicos ao linguajar lacanês típico da Eccole, como na frase abaixo:

Exemple: "Nada como um bom Merlot da Alsácia, com esse gosto acarvalhado indefectível e uma discussão sobre Le desirè!"

Exemple 2: l'infer est la mère. Le Merlot est le femme du desire!" (Risadas)

Para um ou outro intervalo no vinho, para quem é mais jocoso, utilize os coringas:

"Le vin n'existe pas!"
"Le vin suis lacanianne!"
"Bacco est italien mais le merlot est le Français!" (Sempre cai bem para os fanfarrões)

Outras opções de bebida: Não existem, seu paladar deve ser pedagogicamente levado a ignorar as demais bebidas, pois estas não são clichês o suficiente, salvo os espumantes, prefira os Chandon e Veuve Clicquot. Ah, também não é preciso dizer que todos os vinhos devem ser rigorosamente secos, pois tudo que seja suave serve apenas para cozinhar carnes e aves.

Opções gastronômicas: queijo brie, queijo gouda, queijo holandês (única exceção  à comida de outro país), coq au vin, crepe suzete (clássico), aves: codorna, pato e ganso. Frutos do mar: ostras, lagostas e camarões ( tentar harmonizar com um bom Merlot acarvalhado, se possível com notas de baunilha ou frutas vermelhas, também conhecidas como "Fruits de la forêt").

Sessão Pâtisserie: Macarrons, Madalaines, Croque Monsieur, Croissant, Brioches, Petit Gateau (em baixa ultimamente devido à crescente vulgarização) , Profteroles (mesmo caso do Petit gateau, mas ainda assim uma ótima opção nos dias de inverno, evite Foundue - igualmente vulgarizado e abrasileirado!). 

4) Godard est mieux que Pelé!

É desnecessário dizer que conversações sobre esportes ou qualquer outra manifestação corporal é terminantemente mal vista pelos membros da escola (as únicas exceções são Lacrosse, Badminton, Golfe e Tênis). 

Todo o resto, inútil dizer, não deve existir para você. Trabalha-se com a linguagem, o inconsciente é estruturado como "language, non come le corps!"
Futebol? Nem pensar! Somente são permitidos comentários sobre as finais de Roland Garros ou algo do gênero, lembre-se que se trata aqui de responder positivamente a tudo que for clichê no tocante à cultura e hábitos franceses.

 Às vezes flagramos um membro da Eccole gritando aos quatro cantos algo como "Alle, le bleu!". Isso constitui grave crime, e como todo crime, está passível de punição. Futebol não é um esporte lacaniano, muito menos francês. 

Sempre prefira discussões sobre filmes, daí seu gosto de cinéfilo dever contemplar os idealizadores de tudo que representar a Nouvelle Vague, caso não conheça o movimento, estude no Wikipedia para não decepcionar os seus ouvintes. 

Aqui vão dicas de cinema:

1- Audrey Hepburn pode ser a bonequinha de luxo, mas B.B (Brigitte Bardot) será sempre a "femme fatale" do cinema. Filmes interessantes a se citar: " E Deus criou a mulher ", "Acossado", "Uma mulher é uma mulher", "A bela da tarde".

2- Não acho necessário, mas irei ressaltar: pesquise os títulos originais dos filmes e dos diretores. Não precisa conhecer todos os representantes da "nova onda" ( Nouvelle Vague!) basta uma pitada de Godard, que é o principal mesmo.


3- Não esqueça de citar os mais recentes: "Azul é a cor mais quente" (hit-hot do momento!) "A trilogia das cores", "Os sonhadores", para os modernosos: "O fabuloso destino de Amelie Poulain" (fortemente vulgarizado, mas ainda surte efeito nas rodinhas de amigos da Eccole. Não esqueça que a frase "Les temps sont durs pour les rêveurs" sempre abre portas!)

5) Les femmes, echarpe, les hommes, brettelles!

Aqui umas dicas de vestimenta para você que já se sente tão francês. Se a candidata for mulher: echarpes, chales e meias-calça. Boinas são opções deveras arriscadas e só combinam com candidatas jovens, se você aceitar o risco, arque com as consequencias. 
Para os homens: Suspensórios ( item de primeira necessidade) e gravata borboleta (para os mais ousados, combina muito com charuto, e orna se seu look for Lacan-inspired, vide item 2) Pret-a-porter é a bola da vez. Um ou outro acessório Channel é essencial (lembre-se da pontinha de mascarada!).

Não pretendo me alongar nesse ponto, mas é interessante notar que a vestimenta, a maquiagem , o empunhar de um cigarro, a mexida suave nos cabelos bem tratados é essencial para le spetacle majestic e sem o pacote completo dificilmente você deixará a sua marca na Eccole, em uma frase: o homem é o estilo, invista no seu!, seja original!, seu grand finale deve ser explêndido, inesquecível.

6) Elegance avec Arrogance


Esse tópico quase foi excluído da lista, achei que estaria dizendo o óbvio. Todo e qualquer membro da Eccole deve se assegurar de que está cultivando apropriadamente sua arrogância , e para que não se tenha dúvidas de que se está sendo arrogante o suficiente , todo o check list abaixo deve ser feito. 

Portanto, para efeitos de checagem, resumamos tudo que foi dito até então em algumas perguntas objetivas:

1) Estou dominando o suficiente as expressões idiomáticas francesas?
2) Meu sotaque é de que região da França? Há traços de regionalismo?se sim, quais?
3) Minha postura é adequada a de um membro da Eccole Fajute-version de Psychanalyse?Utilizo as roupas adequadas?
4) Rebato críticas com veemência e prepotência suficientes para esconder minha vacuidade?
5) Utilizo o lacanês nível avançado para esconder minha ignorância?
6) Decorei suficientemente os matemas lacanianos e os traduzi de forma correta para o lacanês mais obscuro?
7) Ignorei o suficiente as atividades de supervisão diante das necessidades da "fajute clinique"?
8) Mantenho vivo em mim o necessário narcisismo primário que me ajudará a nunca esquecer os preceitos norteadores da Eccole?
9) Continuo desconsiderando qualquer possibilidade de deitar num divã?
10) Confio plenamente em tudo que produzo em termos de teoriazação?


Ao responder esse check list positivamente você estará a um passo de se tornar um membro efetivo da Eccole Fajute-Version de Psychanalyse" , comemore, suas chances de ser aceito crescem assustadoramente! Lembre-se que as questões são meramente  ilustrativas e aqui elencadas com fins exclusivamente  didáticos, pois o membro da Eccole nunca se questiona.

Adendo:

Questions fréquemment posées ( Questões frequentemente feitas)

-- Ser acadêmico faz de mim um membro da Eccole?

Pergunta repetitiva, mas, volto a dizer que o fato do candidato exercer a atividade docente não o torna automaticamente membro da Eccole, é preciso manter a chama dos princípios-base acesa. Apesar disso, alguns membros da academia constituem presença marcante na Eccole, isso não é segredo para ninguém.

-- Ser histérica é condição básica para fazer parte da Eccole?

Pergunta capciosa e frequente. Costumo respondê-la de maneira didática:  Não era porque Anna O. era a histérica preferida de Freud e de Breuer que ela seria, automaticamente, membro da Eccole Fajute-version de Psychanalyse. Na verdade, a moça virou assistente social. 

Vejamos: é lógico que uma certa encenação, maneirismos e trejeitos da histérica são facilmente compreendidos como condições para sua entrada na Eccole. Mas, é preciso cautela nestes casos: não basta ser histérica, é preciso ter um pezinho na perversão, pois máscara sozinha não faz semblante, se você é histérica se espelhe em outras histéricas que conseguiram, ao fim de muito esforço, transparecer conhecimento e eloquencia em sua fala. Ajuda muito dominar os tópicos 1 e 5 (lembre-se, aqui se trata de aparência, e a aparência é tudo!)

-- Quando um psicótico se torna apto a se candidatar à Eccole?

Fácil. Quando ele consegue manter um nível básico de integração egóica que o torne quase perverso ( na Eccole achamos isso possível, sim!), então o que é na verdade delírio pode se transformar em eloquência. A verborragia do psicótico pode nos ser muito úteis em seminários e palestras. Já vi belíssimos casos em colóquios sobre Topologia lacaniana.

Bem, eu espero ter chegado ao fim dessa explicação. Sei que me estendi, mas tornou-se fundamental esclarecer aqui os requisitos básicos. para ingresso na Eccole Fajute-version de Psychanalyse. Acredito que falei tudo e que não há mais nada a dizer. Nem por mim, nem por ninguém.

Agradecimentos especiais: wikipedia, dicionário babylon 10 português-francês








terça-feira, julho 15, 2014

E nos começos era o amor , de antes?

" Passadista, indiferente ao novo, alguém que perdeu toda a capacidade de se admirar, eu protesto: não, nem tudo era agradável antes, nem tudo é abominável hoje. Isso não me impede de comparar, e toda comparação implica sempre o risco de contrapor o bom ao mau, o melhor ao nem tão bom"

J-B. Pontalis

Essa é uma das muitas passagens marcantes de Quando ( Primavera Editoral, 2013) da autoria de  J-B. Pontalis. Esse livro faz parte de uma série de outros escritos em que o autor se aventura em uma nova empreitada: não se trata de um livro técnico, também não se pode dizer que seja uma autobiografia.

Na verdade se trata de uma espécie de reunião de textos esparsos que o autor produziu durante sua vida e que em algum momento traz um ou outro relato sobre sua forma particular de ver o mundo, mostra um pouco de suas experiências pessoais. 

Pontalis fala de alguns amigos, de Psicanálise e de seu país, revela suas impressões acerca do mundo e, claro, seu interesse em revisitar o passado, mas não com um intuito saudosista, escrito com a pena da melancolia, longe disso, ao julgar pela frase que lhes trouxe no início desse texto, Antes não pode ser considerado uma ode ao passado motivado por um tolo sentimento nostálgico qualquer.

Para o leitor ocasional, Antes parece um passeio pelas reminiscências de uma cidade que não existe mais, por encontros com pessoas que foram parte da vida do autor, em especial. É quase, como disse, um relato autobiográfico, mas não se trata somente disso, veremos que o que une os textos escritos em uma linha cronológica tão irregular é justamente o interesse do autor em não fazer do passado um tempo findo, do mesmo modo, o futuro não daria todas as respostas que se procura. A solução seria justamente o que propõe em uma dos textos desse livro: não retalhar o tempo, vivê-lo assim, todo.

Pensando desse modo, o cronômetro, a linha cronológica, o caléndario e o relógio nada mais fazem do que nos mostrar isso: que o tempo possui esta inexorável função de ser passado, esses objetos que a humanidade criou servem apenas ao corte, ao retalhamento da experiência. A areia da  ampulheta lentamente se esvai para o compartimento inferior e isto é, desde os tempos mais antigos, sinal de que o tempo não espera por ninguém, o tempo tem em si mesmo o trabalho de correr.

Pontalis nos apresenta em "Quando", a crônica que abre Antes, um tempo em que tudo parecia mais fácil, menos politicamente correto, um tempo em que ia " a Rolland Garros assistir às partidas de tênis e os jogadores se vestiam de branco, não exibiam os punhos como se fossem atingir o adversário, e os espectadores, atentos e silenciosos, não vociferavam do alto das arquibancadas" (p.9), ou mesmo um tempo em que " meu pai estava ao meu lado, quando todos os meus amigos, todos aqueles que eu amava, estavam vivos" (p.11). Esse texto talvez seja um dos mais nostálgicos de todos presentes nesse livro, na minha opinião o mais bonito, desses que a gente leva com a vida, como um belo presente que somente a gente pode abrir, não importa quantas vezes eu o leia, para mim parecerá sempre muito bonito. No entanto, não se trata apenas de nostalgia.

Muito embora o autor conceba a memória como uma "bolsa de mulher", onde cabe de tudo, desde itens indispensáveis à itens fúteis,os relatos não marcam essa posição de que o tempo de antes era melhor, não se trata disso. Trata-se de conter todas as idades, em esquecer o que marca o tempo, portanto, quebrem ampulhetas, destruam o calendário, porque quando se trata de uma existência, a linha cronológica não é suficiente.

Não seria por acaso essa recusa de Pontalis em retalhar o tempo. Vejamos o que é típico da experiência analítica: passado, presente e futuro se confudem e não obedecem a nenhuma lógica temporal.

Freud nos ensinou que somos todos neuróticos, psicóticos e perversos, todos, sem exceção, marcados pela ferida desse tempo que insiste em cristalizar nossas esperanças. Sofremos de excesso de passado e de ânsias de futuro. Sofremos, porque o tempo não passa no inconsciente, o tempo é essa ferida sempre aberta que nos revela o quanto podemos ser ilógicos. Tomemos a experiência do sonho como um protótipo do funcionamento do inconsciente.

Desde Traumdeutung  sabemos que o funcionamento do inconsciente não se submete às leis que criamos para contar o tempo. Dito de outro modo, o inconsciente não responde ao retalhamento do tempo, ao movimento da areia dentro da ampulheta. No sonho o passado volta como esse fantasma que nos espreita e nos atinge a cada vez que dormimos. Somos guardados pelo sonho, mas, ao mesmo tempo, somos assombrados pelo tempo que não parece varrer o que é mais importante.

"E  o agora é agora. E agora é hoje, ontem e amanhã. Nós, os humanos, sentimos e acreditamos que o tempo passa, alegamos que ele corre e, quanto mais envelhecemos, mais depressa ele se vai. Mas o Tempo (assim, com maiúscula) ignora que passa, é imóvel, não tem idade"(p.18)

Esse pequeno trecho de "Quando" nos mostra a premissa básica que temos diante dos olhos e com a qual devemos ler todo o restante dos textos reunidos no livro. Em outra crônica, "Travessia", o autor nos relembra a saga de Ulisses e de sua eterna Penélope, a espera, a fiar e desfiar um tecido para enganar o tempo, para matá-lo. Isso me lembra Machado de Assis, e o seu "Matamos o tempo, e o tempo nos enterra". 

A vida como travessia, parece não existir metáfora mais bela do que esta, estamos a atravessar mares, a vencer monstros, a resistir às sereias de belas vozes para, enfim, nos reencontrarmos, de volta à Ítaca particular de cada um.

No texto "Origens", Pontalis nos guia pela mão e tenta explicar o antes onde não há antes, onde havia uma certa origem. Voltando à história da teoria psicanalítica, o autor nos lembra que Freud era um entusiasta da arqueologia e faz da própria invenção uma empreitada arqueológica, "sem regressão, nenhum avanço é possível" (p.71). Também faz uma breve alusão à Etiologia como o ramo da ciência que se debruça sobre as causas. Seria causa o mesmo que origem? Talvez esse seja um dos questionamentos mais interessantes desse texto.

Segundo o autor, causa e origem diferem entre si, uma vez que a primeira pode estar afastada do evento que ocorre, por exemplo, causas de uma guerra, de uma revolução não precisam estar alinhadas no mesmo tempo, podem configurar épocas diferentes. Já a segunda, esta seria a causa das causas, ou a origem que escapa ao retalhamento do tempo. Para Pontalis, assim, a origem seria um antes que não tem antes. Mas, e antes? A angústia?

Não sabemos o que o tempo quer de nós, mas sabemos que é próprio da vida passar. E é isso que temos, tudo o mais está na origem e está na angústia. Não foi isso que aprendemos com os fenomenólogos? Com Russerl e Heidegger, quando estes concebem que o verdadeiro propósito da vida é a morte em si e isto seria a maior das angústias?

Sabendo disso
, portanto, parece que a angústia prenuncia uma vida que fatalmente irá passar, mas podemos nos recusar a retalhá-la, podemos rechaçar as idades e vivê-las todas em uma só, essa é a proposta de Pontalis. Apesar disso, fica a dúvida, sem o retalho do tempo, das idades, dos relógios, estaríamos imunes à angústia?

"Nossas vidas, uma agonia adiada" (p.72). Parece que o prognóstico não é bom, não há como escapar à angústia ou ao tempo que se retalha, mas há, há sim como buscá-lo nos começos. O que há, então, nos começos?

Nos começos há olhares, há mãos que se entrelaçam, há pôr-do-sol, há belas canções. Para Pontalis, nos começos, há o amor. O amor é isto que adia a agonia, é isto que ao invés de paralisar o tempo, brinca com ele, diverte o tempo.  O amor dos começos é o que nos permite sonhar e viver o tempo todo ele em várias idades. 

E nos começos é o amor de todas as idades em uma só. Eis aí o que Pontalis nos ensina, portanto, vivamos todo o tempo, sonhemos que podemos contê-lo.



segunda-feira, junho 02, 2014

Luc Ferry e o amor aonde não se pensa

Ultimamente não são raras as abordagens sobre como a contemporaneidade tem destruído e solapado os ideais e tradições pelos quais o homem tanto lutou e dos quais a História vem a ser o discurso testemunhal mais verossímil.

Podemos dizer que os tempos de hoje são tempos sombrios, tempos em que a humanidade deu as costas, ou minimamente deu de ombros para o sofrimento do outro homem. 

Sim, sem dúvidas, não existe menos egoísmo e maldade hoje do que existiu em outros tempo. Devemos ser justos, e também cuidadosos para não cair na armadilha frequente em que muitos  caem: a de entender a contemporaneidade como tempos terríveis, tempos apocalípticos nos quais não é possível vislumbrar nenhuma fagulha de empatia, de interesse pelo próximo, de esperança. 


O amor aonde não se supõe

É a isto que se presta Luc Ferry em seu "Do amor: uma filosofia para o século XXI", o autor, que já foi  ministro da Educação na França, é filósofo e extremamente cuidadoso em apontar o que considera um segundo humanismo, uma época em que há, mais do que em qualquer momento histórico, um interesse genuíno, um amor verdadeiro pelo outro  que chega a transcender ao alcançar as esferas políticas em que os homens estão engajados e nas quais se entrosam publicamente.

Seria a tese de Ferry absurda? Incoerente? ingênua? Precaução e cuidado é o que o leitor mais atento e curioso encontrará nesse livro, pois o humanismo de que fala Ferry não é ingênuo, inclusive bate de frente com a hipocrisia que caracterizou a Idade Média, por exemplo.

A questão a que se detém Ferry é que o amor é a verdadeira revolução - Inclusive, "A revolução do amor", é o título de outro livro do mesmo autor - que permite as pessoas se colocarem no lugar do outro, a lutarem pelos ideais do outro, esse outro assume o lugar de amado, em todos os níveis, amado como amante, amigo, como aquele com quem eu evidentemente simpatizo.

Ou seja, o outro, esse meu íntimo me inspira a um amor que é tudo isso junto: amor-carnal, amizade, caridade - philia, ágape e eros - e este modelo irá nortear as relações que teremos e que vivenciaremos em sociedade.

Para alguns essa tese parece absurda, dirão os mais catastróficos que essa visão de Ferry é completamente incompatível com o que vemos, com o que acompanhamos nas notícias de jornal. Afinal, somos diariamente levados a crer justamente no oposto do que Ferry defende: os novos tempos são tempos difįceis, sombrios em que a violência e a maldade estão institucionalizadas. 

Outro dia ouvi  justamente isso de uma pessoa na rua:) "hoje em dia é assim, a violência comendo solta, antigamente ninguém via filho matar pai e mãe!"

Luc Ferry antecipa as críticas que certamente foram e serão endereçadas a ele ao inclusive não negar que vivemos tempos violentos. No entanto, se o autor corrobora a ideia de que estamos vendo cair diante de nossos olhos os ideais tradicionais, também nos relembra a maldade e a violência que marcaram os tempos antigos, imemoriáveis? Alguém esqueceu dos massacres ocorridos na Idade Média?

Por isso, cabe a lembrança:

" É fácil denunciar as mazelas do tempo atual, as desigualdades, a crise econômica, mas é infinitamentr mais difícil arriscar-se a evocar alguma época de ouro. [...] digam o que quiserem, nossas democracias oferecem espaços de liberdade até então inauditos, além de um permanente cuidado com o outro [...]" 

O trecho é claro e as ideias que evoca são mais ainda. O que devemos fazer é desconfiar de todo um discurso pré-fabricado que muitos assumem meio com pressa, tomando-o como verdade e como justificativa para repetir o que se expressa com o mais ingênuo senso-comum: "É, hoje em dia tá demais!".

O que esse "tá demais" imediatamente provoca é justamente isso: será que as outras eras experimentaram menos violência, menos crueldade? Ao contrário, e na verdade, na contramão do que muitos dizem, Ferry sugere que o humanismo concretamente situado em ações humanitárias nunca foi tão grande.

Mas, o que leva a essas ações humanitárias, senão o amor, arduamente construido entre duas pessoas? É esse o próximo tema que interessa ao autor.

Como nos ensina Ferry, foi na família que o amor passou a ser central, acabando com o casamento escolhido para manter as linhagens da nobreza. 

O casamento na modernidade vai ser profanado, vai esquecer do sagrado no sentido cristão ao assumir sua face erótica e vai, surpreendentemente, marcar as relações políticas ao escapar da esfera privada. O amor reinventado não é cristão e subverte a noção de sagrado como puro, medroso do corpo. O amor erótico assume esse corpo e se legitima a partir dele.


O amor erotizado

O amor, assim repaginado, não prescinde do eros e legitima o corpo como lugar em que será sacralizado. O sagrado recupera a significação de ser " aquilo pelo qual se pode morrer". Ora, se não se morre mais pelos ideais antigos - Pátria, Revolução e Deus - morre-se por amor, por amor aos que nos são caros, por amor aos que nos são íntimos.

Morre-se e se sacrifica pelos filhos, inclusive, esse amor filial é um amor que é recente, pois não é novidade que na Idade Média, não havia muita diferença entre a morte de uma criança e a morte de um cavalo. Falaremos mais disso adiante.

Sendo assim, esse amor, sai dos limites do privado e adquire uma substância pública a qual podemos ver representada nas ações comunitárias ou no sentimento mesmo que faz nosso coração apertar diante do sofrimento alheio, diante da dor do outro.

Essa é mais ou menos o cerne das ideias que nos são apresentadas em "Do Amor" , explícita alusão à Stendhal. Esse amor que nos faz perceber aquela característica específica do objeto amado, aquilo que nos faz percebê-lo como único: " Isso é tão seu!"  se torna o elogio mais sincero que alguém pode receber.

É isso que faz o ser amado ser amado: ser ele. Ferry lembra Montaigne " porque era ela, porque era eu". Obviamente, eu lembro de Chico Buarque: 

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léu
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu


O amor pelo qual se mata e morre

O que me parece interessante na visão de Ferry é justamente como as pessoas fazem essa transposição ou mesmo tradução, não sei se os termos são válidos, como as pessoas trazem esse amor antes destinado ao privado ( e somente depois de muito tempo isso ocorreu como amor erótico)  para as ruas e se tornar argumento pelo qual se sacraliza o humano. Dito de outra forma, o amor é o único motivo pelo qual se vale a pena morrer.  Talvez nisso é que precisamos nos concentrar.

Penso agora nas grandes tragédias, nos linchamentos em via pública tão irremediavelmente relacionados aos tempos das fogueiras da Inquisição. Eu mesma pensei e associei prontamente um episódio  recente de linchamento em via pública no Brasil com a condenação das bruxas medievais.

 Hoje não penso mais assim, há vários indícios de que essas eras mais se afastam do que se relacionam entre si, medievalismo e contemporaneidade estão afastadas por quilômetros de distância. É outra coisa que está em jogo.

Quando se espancou uma mulher, mãe de dois filhos, em praça pública, viu-se claramente o argumento de muitos envolvidos na cena triste, abominável , que se desenrolou se repetir: " eu espanquei porque estavam dizendo que ela sacrificava crianças em rituais de magia negra". 

Não seria a identificação com o pai que teve o filho morto, um dos motores para que houvesse o engajamento nessa cena  bárbara que foi exaustivamente reproduzida pelos noticiários há um mês atrás?

Com isso não quero me esquecer do lado dionisíaco que vive no sujeito desde que o mundo é mundo, não é essa proposta, não estou esquecendo aqui da catarse perversa que ocorre quando alguém se lança a espancar uma pessoa no chão, a chutar cachorro morto.

A questão é: o amor, levado ao extremo, pode, sim, servir de argumento para ações que paradoxalmente nada tem que ver com o amor? Estranho? Não acho, pois não é de hoje que se mata por Deus, mas, será que Deus aprovaria a matança feita em seu nome?

Será que Deus separaria os seres entre os que amam pessoas de sexo oposto ao seu  e faria uma  fila diferenciada destinada àqueles que amam pessoas do seu mesmo sexo? Não. Mas esse é um argumento bastante propagado por aí.

Morre-se e mata-se por amor, lincha-se por amor, por simplesmente pensar que alguém possa ter feito algo tão cruel com uma criança. Eu , linchador, sou , portanto, idêntico àquele que lincho, só que, neste caso, a mulher espancada até a morte era inocente e também tinha filhos, que hoje choram por não terem sua mãe.

A leitura do amor a que nos apresenta Ferry é chamada por ele de segundo humanismo, um humanismo que estaria , por assim dizer, livre das ilusões metafísicas, pois a única transcedência pela qual se interessa é a transcendência sem Deus, uma transcendência levada à baila por conta da imanência humana. É pelo que grita de mais humano em nós que podemos amar o outro - e também odiá-lo.

O amor, afinal

O amor é isso, mais do que o tal do fogo que arde sem se ver. O amor é alçado a argumento e legitimado nas regras do bem viver, no ethos contemporâneo e isto pode nos levar ao mesmo tempo a uma existência mais amorosa, como também a uma guerra sem precedentes. 

Ferry prefere a esperança ao pensamento catastrófico. Eu também, e se nunca chegaremos a uma sociedade que viva plenamente o amor ao próximo, ao menos podemos viver numa sociedade menos hipócrita que convive , tanto com o aumento dos números de casamento, como com o igual aumento de número de divórcios.

Um exemplo de como a contemporaneidade nos promete várias possibilidades simples e notório: Hoje nos permitimos nos divorciar quando o amor acaba, nos outros tempos, dos casamentos arranjados, as pessoas se aturavam eternamente.

 Vamos pensar mais nisso, vamos ao menos considerar as vantagens da contemporaneidade ao invés de tacar-lhe pedras nostálgicas vindas de um "tempo bom" que nunca existiu.

segunda-feira, maio 26, 2014

Merleau-Ponty e ressonâncias na clínica psicanalítica: um barco, a arte e um mundo velho sem porteira

O mundo é mais velho do que a nossa consciência que dele temos. Assim deve ser apresentado a nós um dos mais importantes filósofos do século XX.

O que começou pra mim como uma disciplina do programa de pós-graduação que faço, acaba como uma surpresa que em muito me auxilia a pensar o meu fazer como curiosa sobre as questões que atravessam o humano.

Merleau-Ponty (1908-1961), como se percebe, morreu cedo, morreu ainda com muita coisa a dizer, e por isso mesmo, pelo que não disse, é que vem sendo redescoberto hoje em dia. Seu discurso reverbera na Psicologia, na Psicanálise, na Antropologia, ultrapassando os limites do filosófico por sua capacidade de se relacionar ao que é próprio da contemporaneidade e ao que é inerente ao humano.

Faço um recorte aqui de coisas que muito me interessam na filosofia merleau-pontyniana, a saber, a repercussão de sua concepção de linguagem e a incapacidade da palavra de conter o significado, o fazer da análise e o papel do artista como quem promove o novo.

Sobre a Palavra, para o filósofo, ela é um compartimento limitado que aponta para sua vulnerabilidade. A fala, nesse sentido, seria um tecido imenso dobrado pela linguagem, e o que seriam essa linguagem senão o próprio jogo relaciona pelo qual apreendemos o significado das coisas?

 Para entender melhor o que diz Merleau-Ponty: contrário às ideias típicas do idealismo, ele vai além,  e entende que o mundo não necessita da representação, que dele fazemos, as ideias e os conceitos não seriam a maneira correta de viver o mundo. É aí que pensamos a linguagem, como possibilidades infinitas de dizer e , ainda assim, não dizer tudo, porque nunca existirá uma linguagem completa, uma r
representação nunca valerá mais que a própria coisa, por isso esse jogo é eterno, o jogo dos significantes.

O sentido de uma palavra seria sempre ultrapassado pelo próximo sentido  para aquele que dela faz uso. Sendo assim, não nos cabe saber o mundo e cobri-lo de palavras, o que nos interessa - aí notamos a influência de Husserl - é como vivê-lo e experienciá-lo. Mas ainda assim, estamos presos à linguagem, dela é preciso fazer brotar algo.

A linguagem é ambígua, notívaga, a linguagem é misteriosa e provocadora, ela nos incita a vivermos o mundo e vivermos na originalidade, dispensando o constituído, nos entregando a experiência única do constituinte.

Toda essa noção acerca da linguagem descortina o que é a visão de mundo de Merleau-Ponty, uma visão fenomenológica, husserliana, disposta ao encontro, à busca 
da originalidade, parceira do advento como encontro com a alteridade. 

Merleau-Ponty, em suma, é o desvelamento da verdade como surpresa. E isso é o que a linguagem nos providencia: uma surpresa, por ser polissemia. A clínica parece deixar tudo mais claro.

Sinceramente essas ideias me parecem claras quando nos voltamos novamente para a clínica, não como uma tentativa de fazer uma coisa como "clínica filosófica", visto que o filósofo não pensou um modelo de clínica. O que podemos pensar é a visão de mundo,  uma proposta de filosofia que ressoe no que fazemos na clínica, na escuta mesmo do que diz um analisante, estamos inundados de palavras e linguagem.
Educação para adultos (Jonathas de Andrade)

Para pensar a clínica e sua relação com essa linguagem parcial, não-toda, eu penso em uma metáfora.

A figura do analista e do analisante como os dois ocupantes de um barco, a remo, cercado de um mar de linguagem em busca de uma espécie de ilha paradisíaca (Verdade?). É essa a imagem mental que tenho quando conecto Merleau-Ponty à Clínica Psicanalítica, ou a noção lacaniana de clínica.

Estamos os dois perdidos nesse imenso mar de linguagem, molhando-nos constantemente e sem qualquer garantia que alcançaremos um pedaço de chão, um território seco. O que temos pela frente é só imensidão e ondas, e dobras, e palavras, e corpos que remam.

Se essa imagem é por vezes aterradora, ela não deixa de ser, de alguma forma, potencialidade, possibilidade. Nos lembramos facilmente de Lacan quando se pensa seu clichê mais famoso: o inconsciente é estruturado como linguagem. Há aí Merleau-Ponty, evidentemente.

Ainda fazendo uso da metáfora que propus: o tesouro de significantes, do qual Lacan nos fala, é o trabalho, é o mar que navegamos, é o que temos para chegar - ou não - em algum lugar, e como nosso barco é frágil!

A linguagem, esse mar de palavras que necessita ser navegado -Navegar é preciso! Nos coloca frente a frente ao mistério do qual nos lembra Merleau-Ponty: o significante é metonímico, ele desliza, derrapa, muda e nos muda. A palavra deixa evidente que ela é menos do que parece, a palavra é o que habita essa mar que incessantemente navegamos privados de bússola, nós, analista e analisantes.

Portanto, dizemos muito e ainda deixamos claro que dizemos muito pouco, mas ainda assim, é o que o analista tem como meio de se chegar a algum lugar. Pois, como se chegaria a uma ilha desconhecida sem nos aventurar ao mar do "tudo é possível"?

Como o mar, a linguagem é imprevisível. Muita coisa ocorre em seu universo subaquático: peixes, perigos, movimentos tectônicos. E lá estamos nós, na superfície, imbuídos num trabalho hercúleo de navegar, sempre, mas nunca precisamente!

Deixando um pouco o mar de lado, e voltando à terra...

Descolar palavra de sentido e oferecer ao signo a possibilidade de tudo ser parece ser a riqueza de relacionar a filosofia merleau-pontyniana à clínica psicanalítica, que tanto ouve, que tanto se interessa pela plasticidade do significante.

Ora, não seria esse o papel da análise? Possibilitar outras saídas, um mundo sem porteiras, para que a cristalização e a patologia não encontre espaço? Promover uma abertura ao mundo para que nele possamos criar? Para que dele possamos nos apropriar, povoando-o com linguagem, sempre abertos à experiência?

Uma última consideração gostaria de fazer aqui. O interesse de Merleau-Ponty pela arte também é algo que o une à Psicanálise, parece que a arte sempre tem um estatuto de a priori no tocante à concepção de mundo. E isso é 
revigorante, seja na Filosofia, seja na Psicanálise.

Para Merleau-Ponty, o artista é aquele que promove o novo, que sai do instituído e promove uma torção, uma promiscuidade da linguagem, da palavra, da coisa em si mesma. O artista, esse privilegiado, seja na visão do filósofo, seja na concepção freudiana, promove essa prostituição das "coisas como elas são" ao romper com o que está aí. Ele é a promiscuidade.

Aqui um ponto que quero acrescentar, na esteira do que venho desenvolvendo. Ao ler Merleau-Ponty e sua concepção de linguagem como o ambíguo, me foi possível lembrar de uma obra de arte intitulada "Educação para adultos", em que percebemos claramente o papel do artista como o aquele que age sobre as "máquinas infernais de significação" (termo de Merleau-Ponty para descrever o que seria um livro). 

Nessa obra, o artista propõe trinta cartazes utilizados na alfabetização de adultos ( impressos entre as décadas de 70 e 80 do século passado) e sugere que haja a confeção de novos cartazes em busca da produção de sentidos, de novos sentidos que não os que foram instituídos pela relação, pronta e acabada, impressa nos cartazes, entre imagem e signo, que alguém disse que seria importante para alguém que quer aprender a ler.

Não pretendo aqui discorrer sobre alienação e opressão social, apesar da obra fazer essa discussão e de se utilizar Paulo Freire como referencial. Aqui, por questão de tempo e afinidade, prefiro centrar minha reflexão na questão do artista como o que promove o novo e seu compromisso com a torção da linguagem.

A obra consiste na apresentação de um painel de sessenta imagens, uma tentativa de tabela de correspondência "Imagem-Signo", dispostas não aleatoriamente, o que nos revela a polissemia de sentidos ( por vezes irônico) produzidos pelos novos analfabetos que produziram os trinta cartazes restantes na construção do painel. 

Constituído e Constituinte se entrelaçam e nos mostram duas coisas: a promiscuidade da palavra, como ela pode servir a diversos usos, e a possibilidade de descontruir o mundo, o mundo como representação pela visada de um novo mundo, em eterno processo de redescoberta.

Ao fim de tudo isso, paro pra pensar que somos tudo isso, navegantes e artistas, psicanalistas, dispostos a navegar, a promover o que reverbere no Outro. 

Se chegaremos a algum lugar, isso é o que menos importa. O que importa é abrir esse mundo e deixá-lo escancarado. Obrigada, Merleau-Ponty, por abrir as porteiras desse mundo velho!