terça-feira, junho 19, 2007

Era uma casa




E hoje eu vou embora. Na verdade eu já fui, mas hoje eu vou oficialmente. Vou com uma mala vermelha, uma mochila e varias lembranças. Aqui eu fui a minha melhor , pior e única companhia.
Aqui aprendi sobre a sensação de ser estrangeira numa terra que a nada se assemelha com a minha, aprendi a chorar e a rir sozinha. aprendi sobre a vida, sobre dor, amor, amizade e família. Acho que o que menos aprendi aqui foi Psicologia – aquela dos livros.
Em pensar que nos primeiros dias consegui pés machucados. Hoje, cerca de um ano depois, saio com o coração avariado. Avariado porque não necessariamente triste, nem sangrando, mas posso dizer que mal das pernas. É isso, meu coração vai mal das pernas.
Quanta dor, pra nos neuróticos, existe num simples virar de página? Falo por mim, muita.
Hoje resolvi tentar umas muletas, para o coração. Fui andar. As velhas andanças por um lugar que já chamei de lar. Senti os mesmos cheiros, das plantas, dos amaciantes de roupa de uma casa que já foi tão familiar, e hoje, embora já distante, continua parecendo um lar.
Lar. O que seria aquele lar? Uma casinha de madeira, se eu fosse Vinícius poderia tentar uma rima, ou simplesmente dizer que não tinha teto, não tinha nada. O caso é que tinha teto e assoalho. Era uma casa muito engraçada, isso era. Era uma casa que era minha, mesmo sem ser.
A minha casinha era assim, pequena mas perfeita para mim. Ali sorri,chorei, amei, esperei e estudei. Naquele pequeno espaço, que, ironicamente, costumava ser a sala de costura de uma casa só, me costurei.
Tenho que dizer que nem sempre tinha linha, às vezes só tinha que dar uns alinhavos, às vezes dava um ponto, mas muitas vezes faltava agulha.
Metáforas poéticas à parte, naquela casinha eu fui, na maior parte do tempo, feliz, mesmo sem saber que o era. Na antiga salinha de costura eu aprendi a ser gente. E os caminhos parecem ainda tão familiares...na maioria do tempo parece que nunca sai daquela casinha alemã.
Não consigo descrever muito o que eu senti, porque não inventaram ainda no dicionário o que sirva pra descrever um sentimento de pertencer sem pertencer. Não sei se me faço entender, se não, vai ver que é porque até pra mim soa confuso. No caminho pra minha antiga casinha, vendo de novo as mesmas flores, as mesmas arvores, eu pensei que ali eu fui feliz, mais talvez do que triste, aquela casa, aquela rua , aquelas flores, serão ilustrações mentais... quando eu me lembrar dali. Vou lembrar ate o dia em que eu não mais respirar, eu vou lembrar da minha casinha.
Vou lembrar do lugar em que aprendi que eu existia independente de um espelho, vou lembrar que eu era alguém, diferente dos outros, mas também essencialmente carente e dependente, dos outros.
Sim. A minha casa tinha teto, tinha porta e era engraçada. Tinha vida, apesar de ser só a minha. É verdade que nem sempre o sol aparecia – as persianas sempre fechadas. Mas eu podia dizer que ali tinha vida.
A minha casinha não é mais minha, tem outro dono. Mesmo que as minhas contas não cheguem mais ali, mesmo que não tenha eu para não abrir as persianas, mesmo que não tenha a minha bagunça, a minha casinha, na minha memória, sempre será minha.
Certamente outras casinhas virão. Mas nesta, nesta eu deixei algo, e não foram toalhas.

sábado, junho 16, 2007

Vá ao cinema: Uma demonstração de como a culpa pode ser útil à humanidade

Hoje estive pensando porque diabos a culpa aparece em nossas vidas. Certamente quem estuda Psicanálise entende, desde os seus primeiros estudos, desde as primeiras cópias tiradas no primeiro semestre de faculdade que não existe humanidade sem culpa; sequer existe civilização sem culpa.
Na verdade desde que nascemos já nascemos banhados pela culpa e pelo líquido amniótico, claro. Somos culpados por desejar nossa mamãe, depois, nossos pais do sexo oposto. Somos culpados por tentar dar vida a um desejo que nos é , desde o sempre proibido. Em Totem e tabu (1914) Freud traz um mito psicológico das hordas primitivas e do banquete totêmico. Segundo tal história, os homens, cansados de viverem sob o julgo de um pai maior, decidem matá-lo, enfastelando-se com tudo que lhes era proibido outrora. No entanto, depois desse momento inicial de euforia por se verem livres do pai, aparece um momento depressivo; É como se fóssemos bipolares!
Advém então a inaplacável culpa. Matamos o pai, nos enfastelamos, e agora? Agora é nos desculpar. Botar esse pai no pedestal. Sim, afinal, fomos malvados, somos malvados e nada que façamos minorará essa culpa.
Então, por que falo disso? falo disso, obviamente, por causa do sintoma que me aflige. Mas, por favor, deixemos de máscaras, todos nós sentimos culpa em algum momento, fomos criados pela culpa. foi justamente a culpa que nos fez ter filhos, crir famílias, pois, uma vez que não podemos casar com mamãe, o que me restam são as outras mulheres; também não posso ter um filho de papai, então, quero ter uma família.
Não fujamos: somos filhos da culpa e a ela para todo o sempre pertenceremos. Claro que existem aqueles cuja culpa sente como completamente expiada, projetando-a para o mundo externo, assim, não sou eu que devo ao mundo, mas sim, o mundo deve a mim. Essa é bem a lógica perversa, tão conhecida pelos assassinos, delinquentes.
Eu, como boa histérica, ainda faço parte daquelas mulheres novecentistas, da sociedade burguesa vienense, certamente estaria me contorcendo se estivesse no hospital Salpetrière, local onde Freud primeiro encontrou-se com as histéricas. Certamente estaria dizendo que padecia de cegueira, ou manca da perna. Sim, não nasci pra ser perversa, sou neurótica e me sinto eternamente em dívida.
Eu devo à Deus e ao mundo. Sou culpada por desejar, por amar e por não amar, mea culpa, mae máxima culpa. E nessa tentativa de expiar tanta culpa, de tirar tanto peso dos meus ombros, eu continuo assim, dando cada passo a procura da expiação.
No entanto, algo me preocupa: E o que aconteceria se um dia essa culpa simplesmente deixasse os meus ombros. Não sejamos ingênuos, a culpa nunca vai nos deixar, e o bom é isso!Teremos sempre algo a dever. Quão anormal é isso?
Juro que se fosse pra eu escolher uma estrutura psíquica, eu escolheria sem titubear a perversão! Além de estar em moda atualmente, deve dar uma adrenalina a mais em nossas vidas...como seria bom sair enganando o próximo e poder rir depois, como seria bom viver a vida só do presente, em busca de alcançar um prazer sem igual. Sim, eu queria ser perversa e não dever nada a ninguem, "ninguém paga as minhas contas". Mas o negócio é que eu devo.
Outra coisa interessante: Quem disse que o neurótico nao sente prazer? Poxa, nós temos nossas vantagens também; ao contrário do ´psicótico, nós podemos sublimar, sublimar tudo aquilo que desejávamos fazer e não temos a coragem. Sublimando criamos arte, criamos filmes, poesias, peças, músicas, e inclusive, textos sobre culpa.
A sublimaçao e a culpa é que são a mola do mundo. Caso não o fosse, existiria Woody Allen? Seus filmes densos, complexos revelam todo o dilema do neurótico "quero mas não posso". Não, sem a culpa não existiria o cinema de Woody Allen, no entanto, sem a perversão não existiria Almodóvar.
O que nos resta? Seja você neurótico ou perverso, vá ao cinema. Caso for psicótico e não estiver internado vá, ou aproveite se o hospício possui um telão. Vá ao cinema, seja para ver outras pessoas fazendo o que você jamais faria, por culpa, seja para deliciar-se com toda a perversão que você reconhece em você, ou seja simplesmente para ter um delírio de grandeza que você é tão famoso quanto o ator na tela.
Vá ao cinema, mas, caso volte tarde, não se sinta culpado.

sexta-feira, março 30, 2007

Reflexões de uma psicóloga recém-formada



Quando você sai da faculdade, que alívio! Parece que todos os compêndios, todos os livros, todas as teorias e procedimentos foram, enfim, encasquetados em sua cabeça e agora você é alguém apto para assumir o posto de profissional.

Quando você sai da faculdade, você parece mais maduro, parece mesmo assumir um ar grave, mais pausado, como se houvesse adquirido uma certa rigidez, ou uma certa tranqüilidade, confundida, muitas vezes, com serenidade.

Enfim, após seis longos anos esquentando as cadeiras semi-quebradas da universidade federal de alagoas, você parece ter saído de uma guerra, vai andando , rastejando, esfarrapado e talvez até com marcas de tiro pelas calças. Você venceu, atravessou greves, chuvas e ruas enlameadas. Você finalmente se formou, tome o canudo!

O que se espera de um psicólogo recém-formado? Eu agora pergunto a você, porque eu também não sei responder. Eu só posso conjecturar.

Será que esperam que tenhamos mais maturidade, mais “serenidade” para tratar dos outros? Será que esperam equilíbrio emocional, visto que, quem passa por seis custosos anos na Universidade Federal de Alagoas, agüentando, muitas vezes, professores medíocres metidos a suposto-saber, deve ter, no mínimo, alguma coisa como sanidade mental, o que o difere, logicamente, da raça dos que vão pagar pelos serviços que vamos oferecer?

Será que esperam que nos sujeitemos a salários humilhantes porque carregamos conosco o triste prenome de "Recém formado"? O que esperam de um psicólogo recém formado?

Eu faço essa diferenciação, obviamente pelo motivo que sou psicóloga, e não teria sentido eu falar aqui de um biólogo recém formado, posto que não sei o que as algas têm de especial que possa fazer de um recém formado biólogo uma criatura diferente de um biólogo com 10, 20 anos de estrada.

Não entendo de Biologia, então fico com a Psicologia, não por entender dela, mas, por presumir que meu conhecimento acerca do comportamento humano é infinitamente maior do que qualquer coisa que eu possa saber sobre plânctons ou medusas, ou fungos, ou o que os valha.

Somente o psicólogo recém-formado se depara com uma questão cruel, uma questão que nos é lembrada pela sociedade a todo minuto: Você estudou, presume-se que os longos anos, a entrada no mercado dos estágios, a passagem pelo trabalho de conclusão de curso faça de você uma pessoa mais madura, isso mesmo, de novo, mais serena, e agora, apta a cuidar das mentes alheias.

E por que não antes? Porque antes você nada sabia. Essa transição de estagiário/estudante para profissional da psicologia é desestruturante, muitas vezes alucinante, como em outras profissões também é, mas, no caso da Psicologia, o negócio é pior: Como asssim, você é Psicólogo e não sabe da sua vida? Como não consegue ter maturidade suficiente para lidar com o fato de que, agora, você é um desempregado, mas, com um canudo na mão?

Como vencer essa situação parece um mistério. Alguns resolvem (tentam) isso em suas terapias, que muitas vezes começaram dizendo que era uma “exigência curricular” (anhan, ok) mas que também não é fonte de alívio completo, uma vez que, não se esqueça, você é desempregado, mal tem dinheiro pra pagar o CRP (Conselho Regional de Psicologia) e depende dos pais, então, como pagaria as sessões no terapeuta, no analista, pra falar do sofrimento psíquico que é ser desempregado, da dor existencial da depressão pós-TCC?

Não, certos luxos, por favor, têm que ser cortados. Porém, você é um profissional, levante-se. Ânimo! É o que digo a mim e a muitos que estão na mesmíssima situação. Há de existir alguma alma caridosa que confie em seu potencial (que na verdade você não tem) e que o ajude a ser alguém na vida, talvez daí, de um emprego, de um salário em dia advenha serenidade e tranqüilidade (vamos ser objetivos, essa é a vida real).

Apesar da descrição da vida difícil do psicólogo cheirando a leite, cabe aqui acrescer um fato bom, uma luz no fim do túnel, uma vantagem, enfim, de ser recém formado: o orgulho e a soberba que podem ser encenados diante dos que ainda não se formaram. Veja bem, você pode não ter emprego, nem dinheiro pra pagar a anuidade do CRP e nem pra continuar a terapia, você pode não ter dinheiro também pra participar dos eventos sempre tão estimulantes e dos coffee breaks tão pobres lá servidos, mas aquele olhar de quem já passou por tantos percalços, leituras, seminários, isso você pode ter, ou ensaiar.

Isso mesmo! Ainda há um motivo para sorrir: Passar diante dos que não são formados, dos que ainda esquentam as regiões traseiras nas cadeiras carcomidas da Universidade Federal de Alagoas, ou de qualquer instituição que se denomine de ensino.
Ora, todos nós sabemos que o ambiente acadêmico é um ninho de cobras, cada um querendo passar a perna (cobra tem perna? Ai como queria entender de Biologia!) no outro, é concurso pra lá, fraude pra cá, então, se o ambiente já é assim nefasto, por que não dar a sua contribuiçãozinha de maldade e desfilar um certo ar esnobe diante dos aprendizes, inferiores que são?

Aí você pode, esquecer as misérias da sua vida, e desfilar um sorrisinho no rosto de suposto-saber. Ahá, eu sei mais que você, eu já passei pelas fases turbulentas, eu já li Freud, Lacan, Winnicott e Klein e, obviamente, já apresentei meu TCC, inclusive abracei a teoria das minhas entranhas, que, claramente, é a melhor de todas, isso me faz melhor que você! Puro engodo, pobre de nós... é uma defesa tão triste, mas que dá um consolo, isso dá.

Não somos nós que entendemos de fantasia? Que tal esta? Se não há dinheiro, só nos resta é o imaginário, nele podemos vestir as roupas mais bonitas. E haja tarja preta!

quarta-feira, março 14, 2007

Estando “nem aí” na era do “tanto faz”

Muito já se falou a respeito da sociedade contemporânea ou pós-moderna. Inúmeros debates acerca de temas polêmicos como eutanásia, suicídio, violência e novas enfermidades psíquicas recheiam as páginas dos jornais de grande circulação no país, também aparecendo como assuntos centrais em revistas semanais que visam mesclar entretenimento e informação.

No entanto, cabe nos perguntarmos, o que esta implicado na condição de sujeito pós-moderno? Melhor e , objetivamente dizendo, o que nos cabe fazer diante do que nos é apresentado diariamente?

Com isto quero dizer que sim, estamos implicados nessa condição de pós-modernidade à medida em que reproduzimos o que nos é proposto pelo poder midiático, pela avalanche de cientificidade que inunda todos os dias os nossos lares.

Reproduzimos a pós-modernidade, com todas as suas vantagens (existem!) e desvantagens, mas, por outro lado, não estamos apenas assujeitados, podemos dispor da “liberdade” que os tempos atuais proporcionam e fazer algo para que mudanças efetivas sejam tomadas em prol do bem-estar de cada um enquanto grupo.

No entanto, ao mesmo tempo em que criticamos o consumo desenfreado, a transformação de objetos de necessidade em objetos de desejo (Melman, 2005), os interelacionamentos baseados na futilidade geral que toma conta dos sujeitos, fazemos nossa parte para a perpetuação desse pensamento que prioriza o perecível, o descartável. Somos, pois, criaturas paradoxais, criticamos ao mesmo tempo em que consumimos; nos abismamos com as desigualdades sociais mas nos sentimos frustrados se não temos um carro novo, uma casa nova, um emprego que pague mais.

Qualquer pessoa instruída, ou melhor dizendo, qualquer pessoa que dispensa parte de seu tempo livre assistindo à televisão, ou gaste 15 minutos de seu dia ao folhear qualquer revista semanal, um jornal perceberá que o que acomete a sociedade contemporânea é moléstia séria, talvez incurável, se não fizermos nada para deter o que está posto.

O que quero dizer é que, é impossível nos desgarrarmos dessa raiz que nos prende e nos fixa na contemporaneidade, somos filhos sim, não mais da Revolução, mas do conformismo, diria até de uma apatia. Assim, tanto faz votar, tanto faz se estamos vendo alguém ao nosso lado ser assaltado, tanto faz se o filho do vizinho é drogado, se um colega de trabalho entra em depressão. Vivemos na era do “tanto faz”.

Estamos a todo momento expostos a essa cultura narcisista em que o que importa é ter e exibir-se diante de um outro a quem , não visamos seduzir de outro modo, que não pela submissão, pelo livre uso do corpo e das subjetividades de quem olha. (Birman, 2005).

O sujeito pós-moderno é, pois, um exibicionista nato, narcisista de carteirinha, como nunca existiu em outras sociedades. Porém, o que se vê hoje não é apenas o narcisista estereotipado que todos nós conhecemos; o narcisista de hoje nem sempre corresponde àquela criatura que segura o espelho e mira-se com um sorriso no rosto.

O narcisista de hoje está preocupado, cria rugas ao pensar que não está seguro em seu próprio lar, que tudo pode lhe acontecer sem que possa ter domínio de quaisquer situação. Mas, para rugas, já existe o novo decontrator facial, aquele que apaga qualquer marca imposta pelo tempo, pela tristeza e pela dor, pela expressão de qualquer sentimento, enfim...Ah! as benesses da pós-modernidade...

Porém, infelizmente ou felizmente, ainda não inventaram cosmético anti-violência: O narcisista de hoje é atormentado pela violência que explode e que denuncia a desigualdade social, que denuncia a sociedade do ter para ser. (Lipovetsky, 2004).

Pensando dessa forma, parece que tudo está interligado. A violência cada vez mais assusta, mete medo e cada vez mais arrebanha jovens, esses mesmos jovens que fazem parte da cultura do “tanto faz”. A violência está aí, mas, assim como o narcisista, mudou.

Dito de outra maneira, a violência saiu do gueto, deixou as favelas e fez morada nos condomínios de luxo das grandes e pequenas cidades, foi morar ao lado das famílias abastadas e convive quase que harmonicamente com a classe média.

A violência chegou aos chamados ‘filhinhos de papai” e “patricinhas” que, cansados de uma vida medíocre em que desejo significa consumir, em que o pensamento foi suspenso, passaram a agir de alguma forma, buscando, talvez, uma razão para as suas vidas apáticas.

A violência também chegou ao interior. Hoje em dia não é raro saber de grandes assaltos a agencias bancárias de cidadezinhas minúsculas em que o banco é referência, ponto de encontro de populações em que todos se conhecem pelos primeiros nomes.

Tudo está mudando, está a nossa frente. O sujeito pós-moderno, ao mesmo tempo em que gosta de se exibir ao olhar do outro, sente-se acuado, aprisiona-se em suas casas, mas, tomado por tanta angústia advinda do consumir desenfreado que lhe é “imposto”, tem as funções de seu pensamento embotadas, diminuídas.

O que nos resta, então? Acredito que vencer a apatia que toma conta. Já que não existe modo de teletransporte para outros tempos, já que temos que aceitar o que está diante de nós, posto algumas vantagens que existem, temos mesmo que fazer algo e criar para que possamos nos implicar mais nas questões que dizem respeito à sociedade como um todo.

Sei que é difícil compreendermos alguma noção de coletividade metidos que estamos em nos mesmos, no individual e no privado de nossas mentes maravilhosas e narcísicas, porém, é preciso que se aja em nome mesmo da continuidade de nós mesmos, enquanto classe, enquanto grupo, enquanto setor da sociedade.

É bem possível que, do jeito que vamos, não mais existamos, ou, pior dizendo, estejamos entregues, de vez, à barbárie. Os telejornais e a mídia em geral, apesar de tentar despertar algum sentimento nos telespectadores de maneira sensacionalista, é um importante demonstrador do caminho que estamos tomando. A cada dia encontra-se mais evidências de que caminhamos para o total desrespeito à coletividade e a vida humana.

Esses tempos conturbados que vivemos nos coloca frente , sempre , à mesma questão: E aí, para aonde vamos? Cabe a nós buscar respostas e enfrentar as situações ou pegar o controle remoto e continuarmos “nem aí”.

Referências: (estou sem saco de colocar as regras segundo a ABNT ou APA, como sei que quase ninguém lê isso aqui, vai só o nome dos livros)

Joel Birman: Mal-estar na atualidade

Gilles Lipovetsky: Metamorfoses da cultura liberal

Charles Melman: O homem sem gravidade

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Mata-psicologia e meta-arte


Hoje eu vim falar de Psicanálise. Não que nunca tenha falado dela, não que ela esteja ausente em outros textos por mim escritos, mas hoje eu vim falar especificamente de Psicanálise.

Já que viso me deter nesse tema, não posso esquecer do vienense audacioso que inventou lá a tal “arte”. Para Freud, a sua Psicanálise é a metapsicologia, uma Psicologia, assim, que vai além, para além dela mesma, para além do consciente e , especialmente, para além do individuo, buscando o sujeito, aquele que mora aonde não pensa.

Eu vejo a Psicanálise como uma arte, ou, se eu quiser seguir o “criador”, é mesmo uma meta-arte essa tal de teoria psicanalítica. Pesadelo da medicina positivista ocidental, revolução paradigmática, a Psicanálise nos interroga a todo momento, nunca fornecendo respostas. Digo que o que ela faz é mais o trabalho de semear a discórdia do que de plantar a harmonia – haja visto ser criação de uma mente judia, sentimentalismo cristão ou noções de piedade e fraternidade parecem não combinar com a tal arte.

Mas, o que seria uma meta-arte? Por que eu falo que isso se parece ou pode ser mesmo identificado com a criação freudiana?

Para além da arte. Não é esse o caso daqueles que se debruçam diante de uma obra literária, de um filme, de uma poesia, de um quadro, até numa música? Essas são criaturas curiosas que buscam psicanálise em todo lugar, em todo lugar que haja sujeito do inconsciente, por isso sujeito do desejo.

Acho que a meta-arte não está apenas quando se analisa uma obra de arte, não, não é como a poesia de Drummond, que falava da metalinguagem da poesia; a minha definição de meta-arte não equivale ao psicanalista que, por ser afeiçoado a literatura ou a pintura, resolve investigá-las sob o viés da teoria psicanalítica.

Na verdade, toda a Psicanálise, toda a tarefa do psicanalista consiste numa meta-arte, presente na escuta e, como toda a arte exige um mínimo de talento, então, cabe analisar o que há de tão especial.

Freud que me perdoe, sei que não sou ninguém para julgá-lo, digo mesmo que é uma personalidade por mim muito estimada, que tem feito a diferença na minha vida. No entanto, não concordo que a criação freudiana seja resumida a uma metapsicologia. Se me permitem o trocadilho, na verdade, um ato falho, considero que seja a Psicanálise uma mata-psicologia.

Parece que essa foi pesada. Mata-psicologia, meta-arte. Do que diabos essa criatura está falando, alguém pode pensar. Mata tudo antes concebido, mata aquela psicologia de auto-ajuda que abarrota as livrarias, mata a psicologia que abomina ouvir falar no tal Acheronte nosso de cada dia. Mata mesmo e nada mais artístico do que matar o que está estabelecido.

É nesse ponto que cabe agora a explicação sobre a tal meta arte. Eu digo arte, porque não é a todo mundo que a Psicanálise é passível de aplicação. E com isso eu não falo de pacientes, não falo aqui de pré-requisitos necessários para uma pessoa poder deitar-se num divã.

Eu falo do analista. Nem todo mundo pode sê-lo, não basta querer. Nada disso é especial, afinal, para ser jogador de futebol também não basta querer, é preciso saber chutar.

Por isso, nem todos podem ser analistas, o que é fantastico. Um sujeito pode saber de cor todas as virgulas escritas por Freud em suas obras, pode ter decifrado todos os matemas lacanianos e suas fórmulas complexas, pode ter até desatado o nó borromeu, mas, escutar, escutar com um ouvido psicanalítico, aí sim, aí é preciso arte: Meta-arte.

O mais triste de tudo isso é que muita gente jura que faz Psicanálise,muita gente – o que é grave – abre consultórios jurando que é disso de que se trata. No entanto, há psicanalistas sem anel (vide a sociedades das quartas-feiras criada por Freud), há
psicanalistas sem formação do IPA (international psychoanalitic association), há mesmo psicanalistas aonde menos se espera. Alguns desses são até melhores do que os pretensos freudianos ou do que os esnobes lacanianos.

Tal como há algo de podre no reino da Dinamarca, no reino de Freud parece que muita coisa não cheira bem também. É preciso arte, e é preciso ouvidos, muito mais do que bocas, para dar a cara a bater , mesmo que esse outro esteja de costas.

Não é a sabedoria de botequim que se vende por aí que faz alguém entender de psicanálise, tampouco é apontar atos falhos a torto e a direito. Não, Psicanálise também não é saber fazer trocadilhos legais em torno de palavras que, realmente, pedem muito uma piada de duplo sentido (apesar de algumas “sumidades” lacanianas utilizarem demasiadamente tal artifício).

É aí na encenação que se faz no setting nosso de cada dia que é preciso arte. Não digo tanto talento dramático, mas saber escutar, despojar-se até de Freud, largar os livros, e apenas escutar. Saber escutar, o que nada tem a ver com o ouvir.

Eu não sou psicanalista, o que eu sou é uma reles recém formada na tal psicologia, quem dera um dia ser formada na mata-psicologia. No entanto, eu acho que tenho algum respaldo pra dizer que fazer Psicanálise vai além de ler Freud, vai além da ignorância que diz-se sábia, e vai além da pretensão.

Fazer Psicanálise, me parece, é uma outra história. Faz-se no contato com o outro, faz-se na entrega à transferência que, certamente, um dia virá. Fazer psicanálise, pra mim, é saber que não vai se escapar à contra-transferência e nada que não se pareça com isso é Psicanálise.

Cabe também dizer, que para ocupar o lugar do “sujeito suposto saber” do qual fala Lacan, é preciso mais, bem mais que teoria; é preciso dimensionar-se enquanto humano, e , humano é errar, humano é falha por excelência. Caso fosse o contrário, não seria chamado de suposto.

Acredite, é apenas suposto, você não é uma criatura melhor do que os outros porque é psicanalista ou pretende sê-lo, você não é mais inteligente, nem mesmo mais astuto.

Você não é melhor que ninguém porque está na poltrona e não no divã.Você nem mesmo é alguém, porque ali você é um pai, uma mãe reeditada.

No máximo o que você pode ter é um ouvido agudo e afeiçoado à arte. Meta arte é o que tentamos ao escutar um discurso com outros olhos e ouvidos.

Portanto, vamos entender que da verdade ninguém sabe. Se Freud não dominou a própria criação, o inconsciente, não vai ser um qualquer que conseguirá; lembre-se que você também tem o seu, não só a criatura dita perturbada, a que pede atendimento. Então, contente-se em ser um artista ao escutar e console-se com isto.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

A cola do mosaico

“ O que havia em você que eu pudesse influenciar? Seu cérebro? Ele era subdesenvolvido. Sua imaginação? Ela estava morta. Seu coração? Ainda não tinha nascido”

Oscar Wilde



Essa frase parece ilustrar de forma adequada o que acontece depois da idealização, sobretudo, o que ocorre quando alguém despenca do pedestal no qual o mantivemos por algum tempo.
Alfred , ou simplesmente “Bosie” foi a criatura merecedora dessa e tantas outras frases cheirando a ódio de Oscar.
Em “Di Profundis , o até hoje polêmico autor irlandês resolve varrer para além do tapete – certamente persa – toda a tristeza e o ressentimento que lhe foi causado pelo amor desmedido e por isso, fatal.
O livro parece mais uma enciclopédia de ofensas e, por isso, um bom lugar pra se aprender todo o tipo de humilhação que se possa infligir a algum outro.
No entanto, o livro nada mais é do que uma tentativa de sublimar, de dizer sobre esse amor tão cruel capaz de ofuscar o gênio do autor, levando-o à miséria e, finalmente, à morte.
Quando estamos magoados, quando algo nos atinge de tal maneira que não restam palavras, somente estas, paradoxalmente, podem nos salvar.
É um tal de escreve daqui, lê dali que vai ocupando todo um espaço na nossa mente, antes preenchido por uma mistura de vácuo e de sentimentos ruins, dirigidos a uma pessoa, certamente “algoz” da nossa existência, ou simplesmente o vilão da história da qual somos protagonistas (lembre-se que sempre procuramos responsabilizar um outro pela nossa dor, conveniente, não?).
Claro que existem outros modos de sublimação, a arte é o que fazemos com os pedaços de nós, na tentativa de voltarmos a um estado original (imaginário, diga-se de passagem) onde dor nenhuma existia, onde tudo era alegria.
Sublimar é uma arte, mesmo que não tenhamos o talento de Wilde, nem os pincéis de Picasso, nem o conhecimento de Freud. Cada um de nós está imbuído nessa atividade, na construção de um mosaico no qual as peças somos nós mesmos , ou o que restou de nós, depois de todas as avarias que vamos sofrendo durante nossas existências.
Há quem diga que se sublima de tudo, mas, eu acredito que muito da arte que foi sendo constituída ao longo dos séculos, mesmo representativa de movimentos culturais diversos, produto de um contexto sócio cultural específico está cheia de dores de amor, de ressentimento por causa do objeto amado perdido ou nunca alcançado.
A alma, essa, juntamente com o inconsciente, permanece, e está bem ali, na nossa frente. No entanto, os livros de história procuram classificar toda atividade artística de acordo com características específicas. A isso se chama “estilo”. Engraçado é que inconsciente não conhece estilo, nem escola, nem teoria. Inconsciente dói, desatina, antes mesmo de alguém ousar descobri-lo, desde que o mundo é mundo.
Portanto, o que digo nada mais é do que repetir que, para o inconsciente não há tempo, não importa se estamos falando da arte renascentista, de arte moderna, pós moderna. Ali, há sempre um inconsciente, atemporal, e, melhor ainda: igual ao meu e ao seu.
Por sermos tão “irmãos em inconsciente” é que podemos nos identificar com as palavras, produtos de sublimação, de autores tão distantes da nossa realidade, que podemos sentir algo com a arte de um pintor tão longínquo, podemos nos emocionar com uma canção. Por quê?
Porque falam das coisas tão comuns, tão simples, sejam elas dores de amor, dores de existir, angustia, dúvida quanto ao propósito da vida...
Essa cumplicidade inconsciente permite que as palavras de Wilde ecoem e sejam valorizadas até hoje, aqui ou na Inglaterra, não importa, somos os mesmos e sofremos igualmente.
Quando não encontramos elixir melhor pra sanar nossa dor, talvez quando toda uma farmácia não é suficiente, quando parece que não vai cicatrizar, que procuramos a arte que há em nós.
Claro que algumas pessoas fazem com maestria esse trabalho de transformar a dor em alguma coisa bela, como Wilde, outros, nem tanto, o que importa mesmo não é o talento nem o reconhecimento do outro, mas, simplesmente pôr para fora, de alguma maneira, varrer, e não para baixo do nosso tapete, nossos sentimentos.
Eu fico aqui pensando...será que algum dia chegamos a concluir essa tarefa de mosaico? Será que podemos um dia nos considerar finalmente “curados” das marcas que a existência vai nos deixando? Enfim, será que um dia não será necessário sublimar?
Não consigo achar respostas para algumas dessas perguntas, talvez porque nada na vida se pareça com respostas, ou não é a existência um longo caminho em busca destas? Nos constituímos na busca de algo, sempre na busca, mobilizada pelo nosso desejo.
Por isso, vamos atrás das nossas glórias, assim como vamos atrás das nossas desgraças particulares, nessa busca, vamos nos quebrando, nos colando, para quebrarmos de novo, em uma busca constante. De que? De respostas.
E , se um dia, acontece de as encontrarmos? Estaremos certamente mortos, não restará muito o que fazer por essas bandas, a existência simplesmente não nos seria possível. Algo estaria podre dentro de nós, viveríamos num estado de dormência profunda. Aí sim, sublimar não seria possível.
Acho que temos mesmo é que procurar a nossa arte, tão nossa, e fazer desta a cola e o cimento do nosso mosaico. Mesmo que o talento não nos renda reconhecimento público, nem fama, nem dinheiro. Sublimar é preciso, é tão indispensável à vida como oxigênio.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

A verdade por trás de um texto sentimentalóide

Há muito conheci um texto bastante simpático utilizado por muitas meninas em seus blogs, fotologs, orkuts e afins...Fala sobre o desejo de encontrar um homem que tivesse atingido a perfeição, de acordo com os critérios femininos ali expostos. Quis utilizá-lo e trazer algumas explicações, crendo que haja mensagens subliminares que precisem ser desvendadas. Então aí vai. O texto original está grafado em rosa, para combinar com o clima de romantismo das moçoilas.
1) Encontre um homem que te chame de linda em vez de gostosa.


Ok, considerando que o “linda” prepara o terreno para que ele possa dizer, finalmente, o “gostosa” , eu não sei bem a diferença entre um adjetivo e outro, se os dois, de acordo com a cabeça masculina, querem dizer apenas uma coisa, e você, linda, deve saber o que é.


2) Que te ligue de volta quando você desligar na cara dele.


Mas, lindona, eu não consigo entender, me parece que o desejo é ter um homem submisso e completamente embasbacado, no qual se possa pisar, se possa pintar e bordar. Seria uma boa também começar a perceber qual é a da sua necessidade histérica de desligar o telefone na cara do coitado.

3) Que deite embaixo das estrelas e escute as batidas do seu coração.


Cá entre nós, não sei que diabos é “deitar embaixo de estrelas”, talvez fosse melhor dizer mesmo que estão no chão, curtindo olhar o céu, que , por ventura, estava estrelado na tal noite. Quanto ao músculo cardíaco, recomendo um check-up de urgência, pois, caso o dito cujo consiga escutar os batimentos do seu coração, deve ser devido a alguma arritmia, ou algo que o valha. Linda, muitas vezes o romantismo é melhor vivido quando lido, em uma obra de Shakespeare, ou mesmo Lord Byron. Mas, por favor, como se trata de mal-do-século, vá logo ver o problema do seu coração. De repente se alastra para o pulmão, vira uma tuberculose...

4) Que permaneça acordado só para observar você dormindo.

Além de querer um babaca que ligue de volta, mesmo quando a princesa desliga devido a um ataque histérico, o coitado ainda precisa possuir uma audição supersônica, e, não satisfeita, o dito cujo ainda deve dispensar as horas sagradas de seu sono, apenas a olhar e admirar a lindona, que estará, obviamente, dormindo, com rodelas de pepino em torno dos olhos, para não cansar a sua beleza. Sim, ele deve estar acordado observando tudo isso.

5) Espere um homem que te beije na testa.

O que há de especial em um beijo na testa? Por que este deve ser mais valorizado do que um simples beijo, em qualquer outro lugar? Seria mesmo a repetição do primeiro tópico: O beijo pode até ser na testa, mas certamente, se ele o dá, é porque pretende conhecer o resto da anatomia, e a testa é apenas o começo. Tudo caso pensado, não se iluda.

6) Que queira te mostrar para todo mundo mesmo quando você está suada.

Essa eu realmente não entendi. Por acaso vocês são figurantes em algum comercial de desodorante, ou algo do tipo? Por que o orgulho em mostrar a namorada/ficante/esposa/noiva deve advir de algo tão repugnante como o suor? E, ainda: Será que você gostaria de exibir o seu querido para suas amiguinhas, mesmo quando ele está fedendo a gambá morto,a uma mistura agradável de grama e lama, com aquele uniforme surrado? Não, né? Então não deseje aos outros o que você não quer para si.

7) Que te acompanhe para ver um romance mesmo que o preferido dele seja terror.


Mais uma vez, apelo à submissão masculina. O coitado não tem direito nem a ver um filme que ele goste, tudo porque a bonitinha quer ir ver um filme estrelado pela Jennifer Lopez, com o qual ela possa se identificar e , por alguns instantes, supor-se a própria Jennifer, em suas desventuras amorosas. Garanto que, além de agüentar essa xaropada, o pobre diabo ainda tem que ouvir as lamentações da histérica, e , obviamente, não fazer pouco das lágrimas desnecessárias vertidas por ela. Isso não deve ser tão diferente de um filme de terror.

8) Que segure sua mão na frente dos amigos dele.

Eu só posso concluir que essa mulher é muito insegura mesmo. Tudo me parece ser uma questão de platéia. A lindona adora um palco, e o coitado, submisso que é, tem que segurar a mão da donzela incansavelmente e, lembre-se, mesmo suada. Quando os amigos forem embora, aí ele pode soltar. Era mesmo pra os outros verem, que o amor é tão grande, mas tão grande que eles já não se desgrudam. Lembre-se: O que importa é que os amigos vejam.

9) Encontre um homem que te ache a mulher mais bonita do mundo mesmo quando você está sem nenhuma maquiagem.


Pra começar, não deve ser difícil encontrar esse homem. Ele é exatamente o mesmo que está encostado em algum muro, ou parado em qualquer esquina, ou sentado em qualquer botequim, palitando os dentes e olhando para a parte posterior do seu corpo, disposto, obviamente a dizer-lhe que você é o mais lindo ser já visto na face da terra.
Encontrar um homem assim é mais fácil do que achar formiga em açucareiro. O problema está quando você começa a acreditar. E, cá pra nós, é muito narcisismo da sua parte imaginar ser a mulher mais bonita do mundo. Por um acaso você o acha parecido com um Richard Gere, com um Jude Law? Não, então, não seja hipócrita. Você não é a mulher mais bonita do mundo, nem mesmo usando maquiagem, e o coitado não tem a mínima obrigação de achar que você é. Se ele disser que é está mentindo deslavadamente.

10) Que insista em te segurar pela cintura.

Certamente ela leu em algum livro – do Lord Byron – que romântico é mesmo o homem que segura uma mulher pela cintura. Porém, não percebe que ele pode, muito bem, segurar você pela cintura com a única intenção de provar a si e aos “amigos dele”, cuja opinião é tão importante para a lindona, que a mocinha tem dono, é propriedade dele e ele a segura por onde bem quiser. Não se espante se esse homem começar a te segurar pela cintura e, depois de alguns meses, já esteja puxando pelos cabelos. É tudo uma questão de tempo.

11) Que te abrace de surpresa na frente de todos.

Olha, isso ta ficando chato hein? Mais uma vez parece que o importante mesmo são as demonstrações públicas de afeto. “Ora, não importa, meu bem que entre quatro paredes você me espanque, ou grite comigo ou mesmo não queira ver os meus filmes de comédia romântica. O que importa é que você me abrace na frente de todos, e, olha, por favor, de surpresa , ta? Para que eu possa ter no rosto a carinha mais meiga de pessoa surpreendida com o gesto de carinho do homem perfeito”. É sempre bom que haja três ou quatro amigos dispostos a ver tal cena idílica.

12) Que te lembra constantemente o quanto ele se preocupa com você e o quanto ele é sortudo por estar ao seu lado.

Em resumo: O infeliz não poderia ter fortuna maior em sua vida que não seja essa mulher, tão maravilhosamente bela, e única. Sim, nem se ganhasse na megasena o coitado seria tão feliz do que é , simplesmente por respirar o ar que você respira. Não sendo o bastante dizer-se sortudo, tem mesmo é que repetir constantemente que ela é o sol da sua vida. Tem que se preocupar se a princesa está feliz , também, em ouvir 5 vezes por dia que ela é a coisa mais importante da sua existência. Se ele não disser, pode ter certeza que ela vai perguntar. Ai dele se não disser.
Aonde ele acharia alguém como você? Suponho que não existe, e você está fazendo é um favor a esse pobre coitado de estar com ele, a sorte é toda dele, você o faz por caridade. Na verdade, você já nem sabe mais porque diabos foi se juntar com alguém tão miserável assim, não é? Você, na certa já pensa que merece mais, quem sabe um daqueles amigos dele a quem você deseja se exibir...

13) Espere um homem que com certeza está esperando por você.

Mas, então, como saber que a criatura está esperando justo por você? Ele deve estar esperando a primeira histérica que passar por ele, jogando um olharzinho indiscreto, ao qual ela supõe ser “sedutor”, que passe a mão no cabelo e esteja esperando platéia. Ora, não vá pensando que ele espera por você. Ele espera pela primeira que fizer isso. Você foi, apenas, a bola da vez.

14) Que responda as suas atitudes em relação a ele.


Essa eu não entendi. Além da submissão, o homem deve, além de tudo, entender a cabecinha da donzela e responder as atitudes dela, mesmo que essas atitudes sejam pautadas em sentimentos inseguros, impulsivos, neuróticos e sentimentalóides. Sim, ela deseja uma cópia de si mesma. Praticamente efeminou o rapaz.

15) Que olhe para você e com emoção diga EU TE AMO MUITO

Entenderam né? Então o que importa é dizer que ama, mesmo que ele receba mensagens sacanas da próxima bola da vez no celular dele toda madrugada, mesmo que ele já esteja encontrado a outra. O importante é nunca perder a ternura. Se possível, chorar durante a declaração de amor. Soa mais convincente, e ela nem vai desconfiar do encontro com a outra lindona.

16) Que vire para os amigos e diga É ELA! É ELA A GAROTA Q EU SEMPRE SONHEI E ESPEREI...

Conclusão: O que ela deseja é um idiota que seja submisso a seus caprichos mimados e sem sentido, que a sustente e que, acima de tudo, mas acima de todas as coisas, faça sua propaganda para os amigos, sempre dispostos a darem uma olhadela, assim, como quem não quer nada, para a mulher do amigo. Pode ficar certa, que, além de submisso, o coitado ainda será traído, e pelo melhor amigo! Ela acabará desfilando por aí com outro a quem desejará efeminar e arruinar a vida, enquanto ele, aquele que era obrigado a ouvir as batidas do coração, a ficar acordado toda noite, a ver filme romântico, estará na mesa de botequim, enchendo a cara, chorando e relembrando a desgraçada. Até uma próxima passar por ele...