quarta-feira, setembro 10, 2008

Sobre Seinfeld e o Nada


Eis que o tema, de saída, não tem nada a ver com Psicanálise. Fato é que, para nós, ávidos deglutidores das palavras freudianas, há que se ver a tal da Metapsicologia em tudo: desenhos infantis, nuvens, quadros, músicas, e , porque não, seriados americanos.

Sim. Sei que os entusiastas da Psicanálise, indubitavelmente, prefeririam analisar Godard, Bergman, Sjorman, entre outros expoentes artísticos lá das bandas da Europa.

No entanto, cá estou eu para analisar a aclamada "série sobre o nada", porque ninguém vive só de intelecto, há que se dar lugar ao cômico, à piada para tornar a existência um pouco mais digerível, por assim dizer.

Criada pelo comediante Jerry Seinfeld e Larry David, Seinfeld tinha como argumento o despretensioso dia-a-dia de quatro amigos, todos eles na faixa etária dos 30 anos, solteiros. O discurso era vazio, feito de palavras vazias, permeado ora por ironia fina, ora pela zombeteria característica do humor dos idealizadores.

Seinfeld é uma comédia daquelas que os americanos convencionaram chamar de sitcom ou "comédia de situação". Seus episódios mostram a neurose nossa de cada dia, os pequenos chistes, as pequenas manias e rotinas das quais pouca gente gosta de falar, mas que, invariavelmente, nos cercam como se fossem oceanos e nós, pobres ilhas perdidas.

Interessante é que durante o fim da década de 60 e início da década de 70 os europeus, mais precisamente os suecos, inauguram o que denominaram de "novo cinema" cujo argumento principal de suas obras era o decadente relacionamento afetivo/amoroso de pessoas adultas, mais ou menos na faixa dos 30 anos de idade. Alguma semelhança ou mera coincidência?

Claro, como minha instrução é pouca, não vou aqui falar de cinema sueco, porém, interessante é que pelas bandas da América, vemos que o mesmo tema está presente em Seinfeld, digo até que é o motor da série: estamos sempre a par dos revéses de Jerry, Elaine , George e Kramer, sobretudo quando se fala de relacionamentos amorosos.

Desse modo, assistimos Jerry terminar um relacionamento porque a namorada insistia em comer uma ervilha de cada vez; podemos também nos lembrar de episódios em que George acaba um namoro porque não admite que sua mulher o vença em um jogo de xadrez. O mais engraçado de tudo isso: nós rimos.

Mas, por que diabos rimos? Acredito que rimos porque estamos sempre encontrando nas personagens e em suas neuroses e manias uma espécie de cumplicidade. Ao rir com Seinfeld estamos como que aquiescendo com a cabeça. Sim, somos assim, temos tantas neuroses quantas nosso vão psiquismo as admitir, porém, não as confessamos, a não ser por intermédio da risada.

Assim, vamos assistir filmes de artes, vamos comentar sobre política, religião e Ciência. Mas, e o que fazer com aquele pedacinho de alface que teima em se revelar em nossos dentes incisivos? O que fazer com a pedrinha no sapato?

Tudo o que não sabemos fazer com o que nos incomoda aparece em Seinfeld de uma maneira tão caricata, mas, ao mesmo tempo, tão verdadeira, que nos faz sorrir, sorrimos por nos familiarizar.

Não me admira que mesmo que a série tenha acabado ainda seja considerada um clássico das sitcoms.

É bem verdade que não estou aqui para defender o jeito yankee de pensar, sua cultura e afins, mas acredito que devamos tirar o chapéu para algumas das produções televisivas americanas: têm-se de tudo, em uma só noite podemos assistir a reality shows sobre moda, beleza e música, porém, sobre o nada, bem, sobre o nada, até onde eu sei, só existe Seinfeld.

É hora de pensar sobre o que seria esse "nada" o qual a série exalta: O nada seria o que nos constitui, a nossa natureza essencial, nossa estruturação. Sim, somos constituídos do nada e com o nada abraçamos a nossa vã existência. Filosofia? Não.

Durante a vida podemos adquirir bens materiais, famílias, amigos, diplomas. No entanto, o nada, o vazio estará sempre dentro de nós; até buscamos nos tratar - os mais saudáveis, os que admitem que a cota de nadinhas tem os prejudicado deveras ao longo da vida.

Quão contraditória é esta conclusão: "Por mais coisas que acumulemos durante a vida, o nada e o vazio é o que sempre vai nos acompanhar até o dia do último e merecido suspiro"? O nada, as neuroses, os tiques e as manias é o que nos dá sustância, nos dá uma existência única e me faz diferenciar João de Maria.

O nada é , de fato, o que nos faz humanos, demasiado humanos, humanos e risonhos: Assistimos a desgraça dos quatro amigos de Nova York como se estivéssemos dizendo: Faço igual, sou igual.

É, a vida é isso: uma sucessão de sitcoms que vamos assistindo - como platéia e nas quais atuamos como protagonistas, ora de forma trágica, ora pendendo pro cômico, mas, ainda assim, comédia. Ainda bem.

Àqueles que não gostam de rir recomendo Godard, ou cinema sueco.

domingo, agosto 31, 2008

No encalço de si mesmo - "Into the Wild"



Um jovem em busca de si mesmo. Essa poderia ser uma boa definição para o filme "Into the Wild", roteiro e direção de Sean Penn. Bem. Em um determinado momento de sua vida, um jovem insatisfeito com sua existência tediosa resolve pôr um basta em tudo que vivia, inclusive sua vida abastada de pequeno burguês para sair vagando pelo mundo, como um "super vagabundo" (Supertramp, que adota como sobrenome).

Seu objetivo de vida: desvencilhar-se do materialismo, da vida de faz-de-contas, para ir rumo ao Alasca.

A jornada, como se poderia pensar inicialmente, não pode ser considerada uma "viagem", um simples "passeio": trata-se da história de um jovem que busca bravamente conhecer-se, viver a vida no que nela existe de mais bruto, institivo, talvez tudo de que a redoma familiar lhe protegeu.

Não vou falar aqui como termina o filme, tampouco falarei da fotografia, muito menos falarei do brilhantismo e da técnica de interpretação dos atores. Falarei do que presumo saber falar, de Psicologia e de tudo que o filme fez ebulir em mim para que eu pudesse estar aqui falando, neste momento.

Durante o filme, o espectador começa a rever certos valores, tais como "felicidade" "união" "família", "moralidade", "bem", conceitos estes que, se formos analisar aqui, precisaremos de muito tempo e certamente descamparíamos para uma discussão filosófica.

O que é felicidade? Segundo Chris, ou "Supertramp" (personagem principal do filme), a felicidade só pode ser real se compartilhada.

Eu fico cá comigo pensando: Certo, a felicidade pode ser, tanto um par de botas (isto está em um conto de Machado de Assis chamado "O Último capítulo" , vale a pena) , como pode ser um pote repleto de brigadeiro, como pode ser um filho, um casamento.

Fato é que felicidade para mim é um conjunto de muitas coisas que só dizem respeito a mim, o mesmo acontece com o "amor", conceito que nem me atrevo explicar, visto a complexidade da temática. Não quero falar disso.

A felicidade, para mim, pode ser simplesmente estar em paz comigo mesma e ainda assim, não ter com quem compartilhar esse sentimento. Se formos pelos lados da Psicanálise saberemos que não existe nada em nosso aparelho psíquico capaz de abarcar o que a humanidade costumou designar com este nome.

Eu acredito que existem momentos em que é necessário largar os livros, largar a aparência, seja ela qual for, e viver. Em certas ocasiões o que o ser humano quer é carinho e este não está disponível em nenhum volume de nenhum livro, não está nas enciclopédias, não se aprende na escola e também não se ensina na universidade.

Dito isto, cabe sim, fazer uma jornada para dentro de si mesmo, se perguntar o que realmente importa, para você, você, um ser humano único constituído de uma vivência única, com sua cultura, que nasceu na família que é apenas sua, que tem os irmãos que ninguém mais tem e os pais que ninguém mais tem (visto que até nossos irmãos têm pais diferentes dos nossos, simbolicamente falando).

Fato é que poucas pessoas procuram o seu Alasca. Estamos tão imersos na pequenez do dia-dia, tão arraigados a nossa cultura, ao que os nossos pais convencionaram como sendo o principal ponto pelo qual devemos nos nortear que me pergunto: Aonde está o espaço para viver sem bússulas? Será que procuramos? Viver sem bússulas, uma vida e uma existência constituída por cada gene nosso, por cada fio de cabelo de nosso corpo, por todos os livros que lemos, pelas músicas que ouvimos, pelas pessoas que amamos. Isso deve ser o real sentido da vida: buscar-se, permitir-se, perder-se para buscar-se novamente.

O problema é que quando rumamos para o Alasca interno estamos saindo da posição confortável que ocupamos debaixo da asa do Estado, da Moral, da Lei e da família. Para crescer é necessário romper limites, ultrapassar o teto que muitas vezes é baixo demais para nossas cabeças que teimam em apontar para um ponto mais alto.

Inevitável se torna, nesse processo de crescimento, nos depararmos com constantes quedas, desprendimentos, arranhões e rasteiras. A vida, alguém já o disse, é uma questão de sobrevivência, é estar sempre preparado para o próximo golpe. Negativista? Realista.

Com isso, entendam, não quero dizer que viveremos sempre com uma atitude defensiva diante de tudo e todos. Não. Acredito ser necessário dar sorrisos, recebê-los também, dar amor e não esperar muito em troca, hoje algúem me disse que quando se é mais velho nota-se que o mais importante é amar do que ser amado ( ilusão narcisista pela qual vivemos boa parte da vida a procurar).

Não existe uma espécie de "manual de como se viver bem", um tipo de cartilha que podemos ler e que se adequará a nossas existências - é nisso, a meu ver, que derruba a maioria dos argumentos dos chamados 'livros de auto-ajuda' - Ninguém pode ensinar ninguém a viver, no máximo você pode absorver ensinamentos de pessoas mais experientes para formar a sua própria concepção de existência.

Para viver - o que até hoje entendi como vida, você pode entender uma coisa completamente diferente do que eu entendo - é preciso equilíbrio para conseguir manter-se de pé mesmo quando zonzo de um soco que levou, é necessário escapar de rasteiras que, eventualmente, você pode evitar, se for esperto. Para viver é preciso paciência e desprendimento, para entendermos que a morte há de vir e a vida, por si só, é finitude.

Buscar o norte que é apenas o meu norte, constituído dos pedacinhos de cultura, de amor e de esperança que só eu usei no mosaico de mim mesmo que construo e reconstruo a cada passo que dou, a cada dia que vivo. Compartilhar e saber apreender o que de melhor o outro tem, e entender que o mal que fulano me faz pode, muitas vezes, atingi-lo muito mais do que a mim mesmo, seu alvo em potencial.

Viver, no fim das contas, não é nada fácil, é complicado, e cada dia torna-se uma luta constante diante da tentadora opção de simplesmente desistir.

Virar vagabundo, na acepção real do termo, foi para Chris o ponto de chegada e o ponto de partida de sua vida. Outros casam, outros escrevem, outros matam, outros se matam.

Viver não é nada fácil, implica muito equilíbrio e mãos extremamente ágeis, para que o choro - que invariavelmente vem- seja enxuto de maneira rápida, tão rápida a ponto de não nos marcar a face e a alma eternamente.

Anatomicamente diria, viver implica mãos ágeis, pernas fortes para suportar as rasteiras, jogo de cintura para conviver com os outros - posto que homem nenhum é ilha - e olhos, mas olhos muito atentos para poder, um dia, enxergar o Alasca, aquele de dentro de nós.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Os planetas não falam


"Os planetas não falam"


Jacques Lacan (Seminário livro 2)


À primeira vista eu achei a frase acima poética, apenas. À segunda, intrigante, à terceira, desafiadora, à quarta, decididamente parei de ver e me pus a escrever. Por quê? Porque todas essas olhadelas me fizeram entender que há muito mais que se possa dizer nessa frase que é poética, intrigante e desafiadora, por isso, mãos à obra.

Claro que retirada do contexto em que o autor a menciona fica um tanto complicado para nós - meros mortais que não temos nem a classe de Lacan e nem a didática de Freud - entendermos que a frase não tem nada de engraçadinha , ou reducionista, vá lá. Para dar uma situada, a frase é desdobrada ao longo do texto "Introdução ao Grande Outro" e anunciada anteriomente, como de costume, em outro lugar.

Parece que Lacan tinha essa mania de sair com uma frase dessas e encerrar uma palestra. Acredito que deveria ser decepcionante para os ouvintes ver que, ao término de uma conferência, mais dúvida se produz e agora, deparar-se-iam com a falta e com a espera até o próximo encontro.

Eu digo que a frase me intrigou bastante. Ele fala que os planetas não falam e, por isso nos dintingue - nós, em nosso lugar de sujeitos assujeitados pelo desejo do Outro - destes. Em meio a vários entremeamentos, cortes e reviravoltas, Lacan nos diz que o objetivo de uma análise deveria ser tornar um sujeito o mais circular possível, e este circular, segundo o autor, está relacionado com a existência desses seres planetários, às vezes no texto situado como "estrelas". É isso. Os planetas e as estrelas não falam e tem existência circular, estão ali, sao redondos e feitos para brilhar, para estarem acima de nós e sabemos que de lá do alto nao sairão. Parece uma existência plena, pacífica e possível, posto que planetas não falam, seja para reivindicar uma boca, seja para regozijar-se do lugar que ocupam acima das cabeças humanas.

O certo é que não falam, e portanto, não reclamam. Já os sujeitos , quanta diferença! Esses sempre guiados por um desejo que existe aonde eles nem mesmo sabem existir desejo, estão sempre aos pedaços, remendados e eternamente buscando "num-sei-qual-cola", seja no consolo-desconsolo da análise, seja no colo das sublimações ou no destempero da passagem ao ato (melhor dizendo, em palavras mais certeiras, no chilique).

É. Parece que até aqui podemos pensar que talvez fosse melhor que fóssemos não Maria, nem João, mas Urano ou Saturno e nos satisfizesse o fato de sermos circulares, de brilharem e assumirem sei lá qual função que eles têm e que tanto deve intrigar os homens da magnânima Ciência. Eu não sei, tenho cá comigo minhas dúvidas se preferia ser um ser circular ou se prefiro estar nesse eterno desconsolo de poder falar, de ser barrado pelo muro da linguagem e, por isso, mesmo, existir. Existo?

É mais uma questão lacaniana. Aonde existimos? Certamente moramos no lugar que não pensamos em morar, Falamos a partir de um lugar, a saber o desejo do Outro - e respondemos a partir deste. A que conclusão podemos chegar? A muitas, podemos, de saída, responder.

A mim, uma delas veio à mente: Se falamos de um lugar que nos é dado pelo Outro, respondemos deste e, isso deve ser a existência, porém, falamos.

Aí é que está o ponto em que sacaneamos a física de Newton e nos aproximamos da loucura: Nós falamos e aí está a dupla-face da linguagem: morte e vida: A linguagem nos dá o aparato necessário para criarmos laço social, no entanto, ela nos empurra abismo adentro, abismo de quê? De nós mesmos, da nossa falta, do nosso vazio e do nosso inevitável assujeitamento ao desejo do Outro , disto não fugimos.

Estamos como que presos a um discurso de não-suficiência - porque somos mesmo insuficientes - e por isso estamos barrados pela linguagem e denunciamos essa barreira pela nossa boca. Blablablá, falamos, falamos, e o que dizemos, mesmo quando a boca cala, é que precisamos e amamos esse Outro imensamente, com toda a nossa força. Se planeta fôssemos , arrisco a dizer, uma vez que seríamos desprovidos da boca, daríamos um jeito de apenas brilhar em nome do Outro,brilhar para o Outro, este nunca condizente com o outro minúsculo, tão fracos como nós.


No fim, chegamos ao nada: continuamos na mesma galáxia, a procura de outros Outros, à procura do desejo que ninguém sabe aonde de certo se esconde. Chego a conclusão que a natureza é bastante sábia, posto que, se não nos igualou aos planetas fazendo de nós seres falantes, dando-nos a herança maldita e ao mesmo tempo bendita da boca, foi prudente dando-nos apenas uma.

Nossa sorte é que analista tem dois ouvidos.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Uma tarde na biblioteca






Já que já falei de bares, e de sala de aula, parece interessante agora mudar de ambiente e falar de um lugar bastante particular e que sempre me inspirou bastante, seja pelo lado da intelectualidade, seja pela curiosidade , esta que sempre foi amiga de todas as horas. Existe algo mais inspirador do que uma biblioteca?


É o que vamos descobrir, porém, de saída, digo que a mim, não sei a vocês, não os conheço para dizer que este ambiente é-lhes inspirador, mas, o que posso dizer é que a mim inspira e suscita questões e questões as quais não posso responder ao buscar em uma estante qualquer algum livro empoeirado, as questões que me ocorrem não são tão elaboradas, mas acredito fazerem parte da curiosa natureza humana. Vejamos:


Deixo claro que minhas incursões às bibliotecas se restringem ao ambiente acadêmico. Uma curiosidade que, de cara, me chamou atenção: O número de pessoas ditas "alternativas" amontoadas em suas proximidades. Mais particularmente falando, me pergunto: Por que diabos se aglomeram tipos esquisitos, aparentemente avessos à assepsia e/ou a qualquer noção de higiene pessoal e notadamente pertencentes a uma ordem social diversa da qual podemos qualificar como tradicionalista?

Esse me parece ser o maior mistério que circunda o ambiente da biblioteca das universidades federais: Por acaso , para pensar, as pessoas, invariavelmente, devem abandonar hábitos higiênicos e cuidados com a apresentação pessoal? Será que, para pensar, para ler Kant, Nietzsche ou Rogers alguém deve abdicar dos banhos?

Parece que, de acordo com algumas mentalidades estudantis das universidades federais, quanto mais sujo se for, mais leitura a criatura possuirá.

Com isso, cabe questionar: Serei mais inteligente, culto e engajado socialmente se deixar, de uma vez por todas, de cultivar hábitos saudáveis como, por exemplo, tomar banho, barbear-se, cortar e lavar os cabelos?

Sobre isso, não sei o que dizer, posso dizer, pela minha experiência, que não li Schopenhauer, não li Nietzsche, porém, continuo tomando banho e penteando o cabelo. Caso exista no prólogo de alguma obra dos autores citados alguma menção quanto à necessidade de nutrir um visual desleixado, favor me informem os engajados - se houver, não me darei ao trabalho sequer de ler as orelhas dos livros em favor da assepsia das minhas.

Esse fato sempre me intrigou. Sejam os líderes dos movimentos estudantis, sejam alguns frequentadores da biblioteca, sejam nos encontros de poesia ou de cinema alternativo: O que essas pessoas tem contra o fato de se vestir bem, de causar uma boa impressão, de estar asseado?

Não raramente, quando me deparo com neo-hippies, seguidores melancólicos de Raul Seixas e órfãos de Bob Marley nas portas da biblioteca da Univerdade Federal de Alagoas, vêm-me à mente a imagem de Karl Marx com uma escopeta na mão, dizendo: "- Malamanhados do mundo, uni-vos!"É impossível não pensar nisso ao se deparar com a legião de pseudo-revolucionários que teimam em velar um defunto que já virou pó, insistem num socialismo que, senão é digno de ser mencionado como útopico, enquadra-se mais num socialismo alucinatório: Não existe mais justamente por não ter dado certo, e não será agora, no auge do capitalismo e no ápice da globalização que meia dúzia de gatos pingados irão ressuscitá-lo. Entenderam? Desistam, acabou por um motivo e ainda bem, não fosse isso, viveríamos em uma ilha - Cuba?

Engraçado é perceber que todo o ambiente que se forma em torno da biblioteca faz dela um lugar propício para o alastramento dessas figuras de origem e hábitos higiênicos duvidosos: Mesas de Xadrez, por que, em algum lugar, também deve ter sido convencionado que, aquele que joga xadrez é, definitivamente, mais inteligente do que aquele que se dedica ao pingue-pongue e/ou à sinuca ( para estes, existe o famoso "Under the bridge", bar sombrio próximo à Ufal que abriga certos estudantes que não lêem, obviamente, na visão, dos que na biblioteca estão).

Existem mesas de xadrez, e certamente, sentados a ela ver-se-ão estudantes com cara de compenetrados, bastante sisudos e avessos à qualquer tipo de comunicação com seres humanos os quais possam julgar como inferiores. Silêncio deve ser preservado. Também se faz essa relação: quanto mais silencioso se for, mais inteligente se é, portanto, mais credenciado você está a fazer parte do seleto grupo que se encontra na biblioteca.

O que são, também, aqueles estudantes da área de Humanas? Será que eu perdi alguma coisa na minha formação, não sei, me pergunto se faltei muitas aulas, justamente aquelas em que deve ter sido distribuido algum estatuto sobre como comportam-se os estudantes da área de Humanas, algum manual, livreto qualquer que me falasse sobre a importância de ter lido "O Banquete", de saber quem é Nietzsche e Aristóteles?

Não sei, gostaria de saber aonde encontrar tal documento de importância inegável na vida de sociólogos, psicólogos, jornalistas e afins.

Gostaria de saber, também, se o fato de eu utilizar um jaleco faz de mim superior à grande maioria das pessoas dispostas neste ambiente tão amigável que é a biblioteca da universidade federal. Não raramente vejo criaturas da chamada "área da saúde" adentrar ao recinto utilizando, além da impáfia usual, um jaleco impecavelmente branco, porém , não se assustem com a quantidade de bactérias e fungos ali escondidos, como que espreitando e acompanhando o estudante que, avidamente, se locomove por entre os corredores buscando livros sobre Citologia/Patologia/Hemorragias e/ou afins.

Quando me deparo com essas criaturas, fico pensando na competição que deve haver entre as bactérias do jaleco do estudante orgulhoso de seu curso e as traças e outras tantas bactérias presentes em cada livro que por ele é manuseado para ver quem contamina mais.

Por que será que as pessoas não entendem que o jaleco é feito, justamente, para evitar contaminações e não atrai-las. Ah, eu acho mesmo que a questão do ego inflado supera tudo isso, se eu posso aparecer e fazer cena, posto que , tomo banho e não li Nietzsche, vou vestir o meu jaleco e dizer que sou doutor - mesmo que seja apenas aprendiz de nutricionista, enfermeiro e/ou afins!


Enfim, poderia passar horas e horas falando sobre as tantas inspirações que uma tarde na biblioteca da Ufal me trariam. Daria pano pra manga, páginas e páginas, capítulos , de quem sabe, um livro, a ser disposto nas estantes de Psicologia? Assepsia? Sociologia? Não sei, não li o suficiente para ser uma autora de nome, além disso, sou muito limpinha para ser do grupo dos alternativos.

A pergunta que não quer calar: Faço ou não faço dread no cabelo?


quarta-feira, agosto 13, 2008

O cantor de barzinho



Fiquei aqui pensando sobre o que pensa o cantor de barzinho. Vamos ser sinceros, poucos se interessam em escutar quem está tocando em tal bar, o que está tocando e mais, muitos inclusive reclamam por serem persuadidos (pra não dizerem obrigados) a pagar o tal "couvert artístico".

Não foi uma vez. não foram duas que eu ouvi algum comentário maldoso acerca do cantor de barzinho, seja devido ao seu repertório, seja devido a sua voz.

O certo é que, na falta de alguém mais interessante para criticar, na falta do que fazer, preferimos falar do cantor de barzinho.

Há alguns mistérios cercando essa entidade tão comum nos dias atuais, essa pessoa que alegra ou entristece - dependendo do ponto de vista - o dia das pessoas que, despretensiosamente, decidem ir a um barzinho, comer um petisco e conversar com amigos.
Eis alguns dos mistérios:


No que o cantor de barzinho pensa enquanto toca?


Veja você, ponha-se no lugar do pobre coitado: Ele está ali, cercado de gente que não presta atenção nele, observa as pessoas em grupo, comendo, rindo , namorando e discutindo. Já ele...ele está ali, numa espécie de isolamento, sentado em um banquinho, junto a uma mesa vagabunda na qual pode-se ver um copo d'água. Em alguns bares mais decentes oferecem cerveja ou refrigerante.

Mas, no que pensa aquele ser que está ali sozinho, com seu violão? Solitário, na vida boêmia, não lhe resta muito a não ser observar os frequentadores do bar e tocar seu repertório chatíssimo de MPB.

Começa a sessão Djavan, porque não pode faltar " E o meu jardim da vida, ressecou, morreu, no pé que brotou Maria, nem margarida nasceu". Ouve alguns aplausos e é com isto que ele tem que se contentar.

Não sei se o cantor de barzinho pensa nas pessoas que, empolgadamente, cantam junto com ele, ou então esboçam alguma reação ao ouvir os primeiros acordes da música preferida.

Na verdade já ouvi um cantor de barzinho se irritar com um senhor muito folgado que, desesperadamente, tentava convencê-lo a tocar "Oceano". Ao que minha experiência indica, parece que para ser cantor de barzinho, o sujeito deve fazer um curso intensivo de Djavan, Cazuza e Ana Carolina. Ou você aprende uma ou duas músicas de cada ou jamais será um cantor de barzinho decente.


Alguém percebe o erro do cantor de barzinho?


Essa é difícil. Levando-se em consideração que o cantor de barzinho é um ser solitário em seu banquinho (rimou), e que as outras pessoas estão mais preocupadas com suas conversas e refeições do que propriamente com o que está entrando em seus ouvidos, arriscaria dizer que o cantor de barzinho é uma figura criativa no que se refere às melodias e letras de música. Ele mesmo, visto não lembrar de um determinado acorde, põe-se a inventar um lá ou um dó aonde não tem e pronto, eis a nova música.

O mesmo acontece com a letra. Canso-me de ouvir contribuições originais a composições do Cazuza ou mesmo de Chico Buarque toda vez que vou a um barzinho cuja atração é "música ao vivo".

Se você não estiver tão preocupado com o que come ou com sua conversa, saberá apontar a invenção original do cantor de barzinho. Sou a favor que se desmascare tal enrolada, somente para ver a criatura pacata, herdeiro da bossa nova de João Gilberto e amante da boa MPB desconcertar-se, seria interessante apontar algum erro com a única intenção de auxiliar o cantor a concentrar-se mais na tarefa do entretenimento a qual se presta.


Será que tem fome?


Isso daria uma pesquisa. Observe: Ele está ali, num ambiente em que a comida é a atração principal, devendo, portanto, portar-se como "extra" ou um "plus" do tal restaurante/bar. Ora, não é à toa que não se diz "Música ao vivo e comida" e sim "Comida e música ao vivo". Dito isto, é notório que a atração é a comida, o atendimento, o ambiente e , também, o fato de o local oferecer música.

Então está ali a figura solitária, entoando os versos "Vem me fazer feliz porque eu te amo...", seu olhar involuntariamente pousa num prato de batatas fritas da mesa ao lado, percebe então que daria um dedo para poder beliscar aquela batata crocante, amarelinha e suculenta. Porém, ossos do ofício: Não pode, veio ali para tocar e entreter, comer é secundário, no exercício da profissão.

O máximo que pode fazer, no caso de fome extrema, é tentar educar seu olhar para um ponto fixo, uma parede, um coqueiro, uma pilastra, qualquer ponto, enfim, que o livre das tentações gastronômicas.

Outra medida seria a sublimação: Cantar para esquecer. Proponho trocar "Oceano" por "Te devoraria" , ambas sao do Djavan e cantor de barzinho que não toca Djavan não pode ser chamado de cantor de barzinho.


O que inspira um cantor de barzinho?


Outro grande enigma. Como já foi dito anteriormente, é bem provável que as pessoas não prestem atenção no cantor posto que a comida e as companhias, na maioria das vezes, são mais interessantes do que aquela figura solitária renascida dos anos 50 (quando tem o bom gosto de ser amante da Bossa Nova). É sabido que quase ninguém presta atenção se a letra é errada em algum momento, muito menos se algum acorde foi inventado. Fato é que o sujeito que tem um violão e 10 dedos para manuseá-lo jamais estará em perigo em se tratando de MPB: invente qualquer coisa, dedilhe e cante Cazuza. Na dúvida, toque Legião Urbana, "Será" é uma boa pedida.

Bem, que seja. O que importa é tentar entender o que serve de inspiração para o cantor de barzinho. Será uma mesa muito animada que chama a sua atenção? Será que, no fundo, espera reconhecimento por parte das pessoas que estão "escutando" sua música? Não sei qual é a inspiração, mas acredito haver alguma. A vida é muito solitária e triste se não a temos, e todos, até mesmo o cantor de barzinho merece alguma. Sua vida é boêmia, noturna, certamente tem alguma inspiração, não o subestimemos.


Como será que reage a pedidos de música?


Então a criatura está lá, em seu banquinho, com seu violão, desviando seu olhar da batata frita suculenta da mesa ao lado, procurando sua inspiração maior e, ao mesmo tempo, atento para não errar tão feio os acordes e as letras das músicas as quais se propõe cantar quando ouve alguém gritar " - Toca Yolanda!". Geralmente são as músicas mais odiadas pelos cantores aquelas que a "platéia" pede "bis". Isso é cientificamente comprovado (estou brincando).

Por um lado, suponho que o cantor de barzinho fique feliz: finalmente alguém reconheceu seu talento ou, melhor dizendo, finalmente alguém mostrou-se atento a sua música, só por esse motivo, deve prestar homenagem ao atento cliente e tocar a música que lhe foi pedida. Mas, e se não aguentar mais? E se o cliente estiver completamente alcoolizado e não parar de pedir bis? Aí cabe o bom senso do cantor de barzinho: desvencilhar-se do chato de plantão sem ser mal educado.

Outra vez ouvi um caso exemplar: Um sujeito, fora de seu juízo normal, pedia desesperadamente para o cantor do barzinho tocar "Pais e filhos". O cantor inicialmente fingiu não escutar, tocou outra coisa. O sujeito então, com porções consideráveis de álcool até no suco gástrico, insistia e entoava os versos do refrão em voz alta: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã...".
Percebi a irritação no semblante do cantor que, no momento, tocava Bossa Nova. Educamente, então, ao fazer o intervalo breve entre uma música e outra comentou: " - Veja, amigo, essa música já foi cantada, agora, espera o próximo show, hehehe".

Show? Por acaso ele acha que os 2m² que ocupa próximo a cozinha do bar deve ser considerado palco e que pode chamar aquilo que faz todas as quintas-feiras de show? com platéia e tudo? Não sei, aí é uma questão de "ego" e a vida me ensinou que, de acordo com nossos desejos mais secretos, podemos ser quem quisermos.

O que importa e que ressalto aqui é a educação e os bons modos do cantor que, se não fez a vontade do antipático sujeito, ao menos prestou-se a tocar outras músicas do Legião Urbana, mostrando ética e diplomacia.


Como se pode notar, o cantor de barzinho também tem coração, é uma pessoa, como eu e você. Sabe o que agrada e o que desagrada, tem fome, inspiração, aborrece-se. Tem sentimentos, enfim. Depois de duas ou três horas expediente, deve ser duro escutar comentários como " Mas eu ainda vou ter que pagar porque não sou surdo?" "Nossa, 7 reais de couvert artístico? Mas nem ouvi nada?".

É...Não é fácil viver de música nesse país. Melhor deve ser viver de futebol.


domingo, agosto 03, 2008

Homens que odiamos - Top 10


Hoje vim dar um ar de seriedade a esse blog. Finalmente, algo sério aqui, depois de tantas letras de músicas de baixo nível, de tanto falatório sobre orkut. Vamos falar coisas sérias, sobre um assunto de muito interesse para a comunidade científica (ou não). Durante algum tempo colhi informações acerca do comportamento amoroso masculino a partir do discurso de amigas, eis então que surge o resultado, o qual divido em tópicos , para mais didático ficar este singelo, porém, verdadeiro texto.
Deixo claro que o ranking segue a ordem de citações no discurso das mulheres questionadas. Nada aqui foi por mim alterado, mesmo que eu , em alguns momentos, quisesse fazê-lo. No mais, concordo em gênero, número e grau com o que escutei, portanto, dou as justificativas embasadas no que escutei (e também li) e na própria experiência, por que não?

1) Homem frouxo:


Variação do "homem sem iniciativa", "homem mole" e "homem leso". Todos foram citados, porém resolvi enquadrá-los na mesma categoria do "homem frouxo". É o tipinho que quer e não quer, que espera um convite para sair, e que não consegue, por mais que queira, falar quatro palavras tão simples como : Quero - sair- com - você.


Não importa o que aconteça, mulheres gostam de homens com iniciativa, que dêem a cara para bater (não literalmente, se bem que sempre existem os casos de masoquismo) e que saibam , sobretudo, ouvir um não, com calma. O que importa é arriscar: Quer - sair- comigo? ou Quer-namorar-comigo? ou Gosto-muito-de-você.
Se você for homem e estiver lendo isto, tente, treine na frente do espelho, ora, pra que tanto medo é apenas uma mulher, se ela não quiser, outras hão de querer sair com você, não é verdade? Então porque não arrisca?

Certo dia me falaram: "estou esperando seu convite". Por que? Por que cargas d'água eu vou chamar um homem pra sair? Tudo bem, hoje em dia prega-se muito a noção de que as mulheres ultrapassaram muitas barreiras e que não necessariamente precisam ser mandadas, submetidas ao poder masculino.

No entanto, porque não convidar? Por que a mulher, agora, deve fazer tudo, inclusive chamar para sair? Veja, você, se consegue compreender: Nos contos de fadas , é "Bela Adormecida", "Rapunzel" , "Cinderela", entendem? Não são homens, você não usa sapatinho de cristal e também não vive numa torre a espera da Princesa. Captaram? Nos contos as mulheres esperam, e, por mais que os tempos tenham mudado, por mais que me chamem de machista, uma mulher também quer ver iniciativa. Acho que hoje em dia Cinderela e Rapunzel teriam elas mesmas que descer do "salto" e escalar a torre, e matar dragões e salvar vidas...se fosse depender dos homens, morreriam a espera.


2 ) Homem vaidoso:


Também citado como "homem cheio de guéri-guéri" , "homem que se acha" "homem metido a merda". Esse é o segundo no top 10. Realmente um tipinho odioso. Se tem orkut, certamente está nas comunidades: "Solteiro sim, sozinho nunca", " Mulher se trata com carinho" e "Eu tenho a pegada". Esses é o famoso " homem-arroz-de-festa": está em todos os lugares, tem milhões de amigas dispostas a massagearem seus egos quando assim quiserem , atiram para todos os lados e não se importam com o que as pessoas sentem/pensam. Sim, eles têm o mundo aos seus pés e você será mais uma a entrar na estatística, bonitinha.


3) Homem mentiroso


Algo pior? Somente os dois enquadrados nas categorias citadas acima. Sim. É aquele a quem você pergunta "E aí, e o final de semana?" e ele responde: "Nada, vou ficar em casa como sempre, sou muito tranquilo", quando, na verdade, já tem cinco ou seis histéricas disputando a vaga de primeiro lugar na fila. Geralmente o homem mentiroso é aquele que te diz coisas do tipo: "Olhar pra outra como, se só tenho olhos para você?" " Você realmente chama minha atenção" ou "Você é diferente". Não se engane, você é a diferente daquele dia, amanhã será a outra, e assim sucessivamente. "Homem mentiroso" também pode ser considerado sinônimo do "Homem que conta vantagem".


Quem não conhece aquele tipo que chega e diz: "Poxa, hoje sai para a balada e só não 'peguei' mais porque não quis"? Eu fico na dúvida entre o galinha convicto , que assume as peripércias e entre o que diz "sou tranquilo demais". Sinceramente? Estou pendendo mais para o tipinho da balada do que para o sujeito sempre muito tranquilo que, de repente, não mais que de repente, está por aí, destilando sua "tranquilidade" em outros ouvidos.




4) Homem sem cultura


Conhecido como "burro" ou "ignorante", essa classe de homem não tem conversa, geralmente se acha irresistível e, não satisfeito, acha-se tão inteligente que é incapaz de se interessar pelo assunto da mulher que "visa" conquistar. Em seu linguajar: pegar. É o tipo que é burro, não sabe que é e procura demonstrar que é um sucesso com as mulheres. Resta saber que tipo de mulher. Porque, obviamente, esse tipo pode fazer sucesso, deve se dedicar a malhar exaustivamente na esperança de que os músculos subam para o cérebro e assim torne-se alguém inteligente, com algo a acrescentar a alguém.

Cabe dizer que cultura está também em saber reconhecer que o outro tem algo a acrescentar. Homem burro é de lascar, provavelmente vá encontrar seu par por equivalência, a popular: gostosa e burra ( e talvez, também loira, para completar o pacote). No fim, se se reproduzirem, temo pelos filhos, e , em maiores proporções, temo pelo futuro da humanidade. Tudo isso por causa do homem burro.



5) Homem sem "pegada"


Essa foi também uma unanimidade. Pelo que escutei, essa seria o famoso "Homem-de-tevê". É aquele que é muito bonito de se ver, apenas. Exatamente, você vê a belezura ali passando, não olha fixamente porque não quer ser encarada assim, no meio da rua, seria uma situação um tanto vergonhosa. Mas, faz amizade, no outro dia encontra a mesma criatura vestida lindamente, com seus óculos um pouco velhos, com um ar desligado, cabelos esvoaçantes estilo propaganda de shampoo e pensa: "Esse realmente é muito para mim". Porém, como se fosse um golpe do destino, aquela criatura por você endeusada retribui seu olhar e mais...contrariando o primeiro tipo do ranking, chama-lhe para sair.

Infelizmente, qual sua surpresa? A criatura beija mal, toscamente pega em suas mãos e parece não entender aonde colocar as próprias. Nesse momento você percebe que era melhor não ter cruzado o seu caminho, era bonito, porém, apenas para se ver. Que nem o Gianechinni na propaganda de sabão em pó. Você sabe que está ali, que nunca será seu e isso, no entanto, é reconfortante. Imagine se você descobre que o Gianechinni tem bafo?não, não, melhor deixá-lo lá.


6) Homem fedorento


Bem, esse foi citado e eu acho que eu poderia perguntar a milhões de mulheres e todas diriam o mesmo: Não é questão de preferência, de odiar, é uma questão de higiene. Veja bem, se você é bonito, ótimo, não custa nada melhorar porque mulher adora cheiro bom, homem bem vestido e, sobretudo charmoso. Veja, se você também não for tão bonito, às vezes um cheiro bom é melhor do que um rostinho perfeito. O contrário? O contrário não existe. Você pode ser o Brad Pitt , o Jude Law, mas , fedendo, você não chegará aos pés da mulher mais horrenda da face da terra. Digo isso porque defendo toda a classe de mulheres e sei que, por mais feia que se seja , há que se ter orgulho e homem fedorento...homem fedorento não se deseja nem a sua pior inimiga.


7) Homem fofoqueiro



Realmente, coloque 5 mulheres fofoqueiras em frente a minha casa, mas não me apresente um homem fofoqueiro. Homem fofoqueiro é aquele que só se interessa por você quando você tem algo bombástico/chocante para dizer. Geralmente o interesse está em todas as partes, menos em você. É o tipo que boceja quando está conversando com você, mas, basta você dizer "Estou indo buscar uma amiga minha na casa da namorada dela" que a conversa engata, então, ele abre os olhos assustadoramente e fala: "Amiga? Namorada da amiga? Como assim?".

Não existe cafeína nem maracujina melhor do que você chegar e dizer "estou indo encontrar minha amiga lésbica". É dito e feito, a criatura vai se interessar por saber quem é esta sua amiga, se é muito amiga, como a conheceu. O homem fofoqueiro também se interessa pelo nível financeiro da sua família, gosta de saber o que você comeu e em que lugares vai. Também pode ser uma variação do "homem intereseiro", o que veremos a seguir.



8) Homem interesseiro


Se existisse um equivalente masculino, seria o "Zezinho gasolina". No entanto, o que descubro na pesquisa que fiz é que o interesse pode vir não apenas dos bens materiais que a mulher possua. Em outras palavras: Zezinho gasolina pode ser também o João-cdf, aquele que lhe procura, como quem não quer nada, para tirar uma dúvida sobre um assunto que o perturba, para fazer sua monografia de conclusão de curso, para aprender uma língua nova...Enfim os exemplos são vastos e vão além do interesse material. Outro dia ouvi um caso de um João-chef de cozinha. A criatura tratava a mulher como "amor" e "benzinho" somente quando lhe interessava inovar o cardápio.


9) Homem machista


Certamente é o pior dos tipos, apesar de não ter sido citado no ínício. É o sujeito que acha que mulher é propriedade privada - dele- e teme pelo seu bem-estar físico/moral, geralmente finge-se preocupado com a saúde da mulher/namorada/noiva/esquema e , com isto, reclama de suas roupas e de seu comportamento. Sou da opinião de que esses homens, no fundo, gostariam de usar decotes, saias curtas e, para disfarçar esse desejo começam a "tentar" proibir as mulheres de usá-los. No fundo o machismo é uma questão de orientação sexual mal resolvida.


10) Homem confuso


Sim. Porque não poderia faltar. Oh dúvida! Não sei se caso ou compro uma bicicleta.Geralmente o homem confuso não é o mesmo "homem sem iniciativa". Entenda. Ele até tem iniciativa, chama para passear, para o cinema, para a praia. O problema é quando isso tudo acontece, quando você está gostando do tipo confuso. Aí parece que acontece alguma névoa mental, a criatura perde os sentidos, subitamente perde a memória (existe casos assim, o tipinho perde seu telefone, esquece seu nome, é um problema realmente grave) e diz: Estou confuso. Geralmente o "estou confuso", vem seguido de "mas gosto muito de você" , " "você é a pessoa certa na hora errada". Enfim, se você é mulher e ainda não desistiu de ler este pequenino ranking, saiba que se um homem está confuso, em seguida ele te elogia.

Certo como 2 e 2 são 4: Confusao masculina = Outras mulheres no caminho. Saiba disso. Não existe confusão quando se quer, é tudo muito simples, ou é ou não é. Logicamente tem gente que ainda acredita na fábula da confusão mental masculina. A estas não dou mais conselhos.



Ao término dessa lista , sinto que muitos outros tipos por mim foram excluídos aqui, poderia fazer um top 50, top 60. No entanto, digo a todas as mulheres que me ajudaram a fazer esta listagem que, tenham paciência. Pode ser que apareça alguém interessante que não esteja interessado em seus dotes culinários, que tenha iniciativa para te chamar para sair, que use perfume, que não implique com suas blusas ou saias.Sim, ainda existe.

Podemos reclamar, mas é certo que todas ainda temos uma esperança - é a última que morre, e a minha já está dando os últimos suspiros - de encontrar alguém, que, de fato, valha a pena. Aí, quando a gente encontra, talvez até nem ligue de conviver com certos defeitos.

Conselho para os homens: Confiem em seus respectivos tacos, não importa quem seja a escolhida, tente, antes tentar do que desistir e ser chamado de frouxo. Quando gostar de alguém, valorize, não procure chifre na cabeça de cavalo, vocês não são o centro do universo.

Conselho para as mulheres: Sejam vocês mesmas e não tentem psicologizar tudo. Chega. As pessoas precisam de paz, vocês não são o centro do universo.


terça-feira, julho 29, 2008

Meu fake que tinha um fake



"O termo esquizofrenia refere-se a um conjunto de transtornos que abrange o que são, sem dúvida, os mais complexos e assustadores sintomas que jamais encontraremos. Os indivíduos com esquizofrenia podem ouvir vozes, pensar que são controladas por outras pessoas [...] acreditar que os outros estão conspirando contra eles ou expressar-se usando linguagem sem sentido"


David Holmes - Psicologia dos Transtornos Mentais



Pois é, e não se enganem. De acordo com Holmes, estima-se que 1 a 2% da população mundial sofra de esquizofrenia. No entanto, eu faço um alerta aqui: Esse número pode, de fato, aumentar muito no futuro se as pessoas continuarem a agir , realmente, como se tudo lhes fosse possível.

O que quero dizer é simples: Se você se chama Joaquim, tem 40 anos, é separado, não possui os dentes da frente e está desempregado, aceite que você, faça chuva ou faça sol, não deixará de ser conhecido como Joaquim, separado, desempregado, o que pode acontecer de diferente é que Joaquim pode arrumar um emprego novo, um casamento novo, consertar os dentes, porém, ainda assim, será o Joaquim, aquele de sempre.


Há sempre aquelas pessoas que, não satisfeitas com o que são, adentram, mesmo por querer, no fascinante mundo virtual e pré-esquizofrenizante do Orkut, o paraíso azul/roxo ( João me disse o que era mas ainda não sei, de fato, qual a maldita cor predominante). No orkut, como dito no texto que antecede este, você é sempre o que não pode ser ou não consegue ser. Assim, Joaquim pode omitir o fato de ser desempregado, de ser um fracasso entre as mulheres, e, até mesmo esconder os dentes verdadeiros ou disfarçar as obturações e cáries.


Deste modo, entra-se no universo "fake" do Orkut. Antigamente eu achava que faziam "perfis fake" aqueles que gostariam de bisbilhotar a vida dos narcisistas que se expõem alucinadamente, com o ingênuo intuito de, literalmente, se meter na vida alheia, ver suas 546 fotos, ler seus 500 depoimentos. Infelizmente e felizmente (sim, certo que terei uma boa e vasta clientela perturbada por uns bons anos) descubro que os "Fakes" viraram algo de muito real, uma existência própria nas quais as pessoas se tornam realmente o que desejariam ser, dessa forma, existem "comunidades de doação" de fotos para aqueles que desejam construir sua personalidade falsa.

As pessoas que levam mais a sério esse "jogo" pré-esquizofrênico , surtadas mesmo, levam às últimas consequencias a necessidade de viverem uma vida paralela a ponto de escolherem nomes, comunidades muito peculiares, roupas, passarem horas buscando fotos para construirem uma nova personalidade, quase nunca condizente com as próprias.

Pasmem: existem "fakes" que levam "amigas fakes" ao cinema, ao shopping. Nesse mundo paralelo as pessoas podem ter a idade que quiserem, trabalharem no que quiserem, se vestirem como quiserem. Ok, você poderia dizer, "ah, mas é apenas um jogo, bastante criativo, por sinal".


Eu não acho. Acredito piamente que se nasci me chamando Mírian, interesso-me por Psicanálise, bossa nova e Literatura, morrerei sendo essa pessoa, no máximo vou melhorando as edições de mim - espero - com o passar dos anos. Mas, e essas pessoas que levam tão a sério o universo fake? O que podemos esperar delas?

Bem, eu confesso que o prognóstico é sombrio, essas pessoas podem, como já foi muito pesquisado por psiquiatras e psicólogos, simplesmente entender que a vida real - esta que não é roxa nem azul - é enfadonha demais, preto-e-branco demais, sem graça demais. Risco? Vários: desinvestimento nas relações afetivas e sociais, falta de interesse nos assuntos "reais", transtornos de personalidade, de conduta, enfim, não preciso falar mais para sabermos que estamos diante de um problema de extrema gravidade.

No passado existia a classe dos "rebeldes sem causa", geralmente militantes do PT, candidatos a presidente dos diretórios acadêmicos das universidades, pessoas que se diziam diferentes da maioria, massa manipulável pelo sistema capitalista. Há um tempo atrás, não tão distante, existiam os Emo's, uma espécie de tribo adolescente em que as pessoas eram classificadas de acordo com seu interesse por temas emotivos e sentimentais em diversas áreas de conhecimentos/cultura. Os Emos, em resumo, eram os góticos dos anos 80, só que mais alegres ( Marina, obrigada pela definição).

Hoje, qual é minha surpresa ao saber que não existe mais a categoria dos Emo's! Vejam vocês, mal tinha me acostumado a distinguir as espécimes raras dessa fauna orkutiana/adolescente e fico sabendo, assim, sem nenhuma preparação anterior, que esses seres já estão em extinção, evanescendo do mundo, sumindo por aí, certamente em alguma nave espacial roxa decorada em sua superfície com lágrimas pretas.

Estamos na era dos "fakes", o que é bem mais preocupante do que se você simplesmente usasse roupas pretas e roxas, colocasse uma franjinha cobrindo seus olhos e usasse delineador todo o tempo. O problema está justamente na não-existência dos tais "fakes". Você pode fazê-los, um, dois, três, quantos quiser, conversar com pessoas "reais" ou também "fakes" quando lhe der vontade e, ainda assim, ser o mesmo, de carne e osso, o mesmo que é chamado durante as refeições pelos pais que, na maioria das vezes, mal sabem o que se passa no quarto dos seus filhos.

Com isto não quero eu fazer deste texto uma crônica para pais preocupados, tampouco desejo tomar partido destes nessa situação. O que está em jogo aqui não é uma questão moralizadora, mas um alerta, mesmo, em relação à sanidade mental dessas pessoas que simplesmente embarcam num jogo arriscado e perigoso demais, num mundo em que não existem mais limites entre o "isso eu posso" e o "isso eu não posso".

Eu sinceramente ficaria mais feliz se os adolescentes estivessem ainda pintando seus cabelos de azul ou roxo. Mas, e quando não existe uma existência? Quando você começa a se relacionar com pessoas fingindo ser, toda hora, o tal fake, para, em seguida, ter um outro fake, com outro grupo de amigos? É aí que cabe dizer que estamos numa sociedade "pré-esquizofrenizante".

Veja que universo gracioso: Eu sou fulaninho, tenho um fake que tem fakes e meu fake que conhece seu fake resolve ser amigo do seu fake. Fazemos entao uma reunião fake, com fotos fake de praias fakes, em que estamos comendo chocolates fakes e dançando músicas fakes. Quão maluco é isto?

Realmente, as pessoas não tem limites e o que tenho percebido é que, antes o que era um destino tem virado uma opção. Não sei mais qual é o maior risco: imitar os outros ou inventar uma vida que não existe e vivê-la.

Às vezes me parece que as pessoas estão enlouquecendo por opção, agora. Na falta de grandes problemas estruturais psíquicos, criam os seus próprios. Assim, meu fake pode sofrer de depressão, pode ser viciado em fluoxetina, pode ser maníaco depressivo ou hiperativo. Tudo é uma questão de escolha.

Pegue seu transtorno preferido - aquele que você conheceu semana passada no blog da globo.com - dê-lhe um rosto, um sobrenome e um endereço. Esta aí o passaporte para a esquizofrenia. Depois não vá reclamar quando seu fake começar a falar dentro da sua cabeça algumas coisas bastante esquisitas, quando ele começar a pedir comida.