terça-feira, agosto 25, 2009

O Flamengo , a aposta e o bilhete





Aristides não era o que poderíamos chamar de um homem bem apessoado; quem o conhecia sabe que ele não tinha lá qualquer coisa que indicasse elegância ou a mais tênue camada do tal “verniz social”. Aristides era rude até na aparência, no alto da cabeça que vinha direita mas no cume se estreitava, habitavam cabelos crespos e já embranquecidos por ofício do tempo e dos problemas.




Tinha um nariz chato, próprio da sua cor. Era mulato o Aristides, e, como todos os mulatos, parecia-se com um. Não cheirava mal, também não cheirava bem. Possuía um cheiro característico de loções pós-barba compradas no mercado mais conveniente da vizinhança, não fazia questão de roupa bem passada e há quem diga que possuía limitado número de camisas devido à freqüência com a qual as repetia. Aristides não era , definitivamente, um modelo de beleza e charme, mas tinha seus encantos justamente em sua aspereza, em sua rudeza.




Se era simples na aparência, nada diverso poderia ser dito de seus hábitos. Costumava – quando estava de folga – ir a um bar localizado em seu bairro, tomar algumas doses de aguardente, assistir ao jogo de futebol que estivesse passando e voltar para sua casa, onde morava sozinho, o que bastante o incomodava, tinha medo da solidão.




Aristides trabalhava como pedreiro, sua função em uma obra era seguir à risca o que diziam os homens que estudaram mais que ele; ouvia atentamente, derrubava parede, construía parede, rebocava a parede, tudo de acordo com o gosto e a vontade de quem o ordenasse. Não costumava falar muito, algo que, em sua profissão, poderia ser até de grande serventia, dizia que um bom pedreiro era aquele que tinha bons ouvidos e mãos fortes para agüentar a labuta diária.




O nosso homem, como já dá para perceber, era o típico brasileiro mediano, possuía pouca instrução e trazia na alma uma espécie de apatia que transbordava pelos seus olhos e por toda sua face, que acompanhava a postura sempre submissa, derrengada. Aristides tinha os ombros largos e curvados para baixo. Tinha também orelhas de abano, fato que lhe rendera muitos traumas na infância durante os poucos anos em que freqüentou a escola.




Se tinha uma diversão, essa era às quartas-feiras, quando ia ao tal bar da esquina, beber e ver futebol, sozinho: Aristides não tinha muitos amigos e fazia questão de sentar numa mesa afastada das outras e da qual via os jogos de bola, munido sempre de uma cadernetinha vagabunda na qual anotava os resultados dos jogos de todos os times brasileiros que jogavam às quartas-feiras desde o ano de 1995.


Aristides era organizado, a mesma caderneta, quatorze anos depois: rascunhava, desenhava linhas pretas nas folhas brancas para criar tabelas nas quais constavam dia, mês, ano e gols marcados por todos os times brasileiros os quais via jogar pela televisão. A caderneta era a única alegria na vida de Aristides, pode-se dizer. Era como se naquele espaço, dentro das linhas daquelas tabelas ele pudesse controlar o mundo a seu redor, buscar explicações para o sucesso ou a derrota. Aristides com sua caderneta se sentia importante, pois sonhava um dia debater com os narradores dos jogos a queda e ascensão dos times ao longo dos quatorze anos.


Se não tinha muita imaginação, utilizou o pouco que tinha ao criar, em sua mente, um dia em que seria comentarista de futebol e falaria, sem papas na língua, sobre os técnicos e os jogadores de cada time brasileiro, sempre embasado nos dados estatísticos anotados detalhadamente em sua caderneta. Mais além seria pedir demais à escassa imaginação do pedreiro, achava feio sonhar e, mais feio ainda, acreditar no próprio sonho: não raramente caía com a barriga no chão toda vez que se prestava a devanear e a sonhar com o ofício de comentarista; logo que sua cabeça subia às alturas e a imaginação parecia pegar no tranco, Aristides atrapalhava fazendo-a estancar, prontamente pensava: - Ora homem, isto nunca acontecerá, volta pro teu mundo que teu sonho acaba é nesta mesa de bar.


– Moço, me dá mais uma dessa branquinha.

E lá se iam os primeiros quarenta e cinco minutos e com ele a página em que Aristides copiava as impressões gerais dos times adversários. Sempre que se pegava escrever, pensava em si mesmo engravatado, em um paletó de brim escuro, comentando os jogos com preparo e astúcia.
Foi numa dessas quartas-feiras que Aristides ouviu um bafafá nas mesas ao lado, logo se sentou, tirou do bolso a carteira surrada e o chaveiro enferrujado em que pendurava a única chave de sua casa. Mal se sentou e foi logo colocar as suas orelhas de abano à serviço da informação:



- Vai ser empate, rapaz!E digo mais, vai ser 2 a 2 porque o time é novo e não pegou confiança no técnico ainda, sem pensar que em casa, a coisa muda...


A discussão começava na mesa ao lado da de Aristides e era protagonizada por quatro homens que não conseguiam se entender toda vez que o assunto era futebol. Aristides escutava com cuidado tudo que diziam e comparava as opiniões alheias com as suas, quando então ouviu a aposta:


- Certo, então eu aposto o meu bilhete da mega-sena, esse aqui ó, do meu bolso. E olha que eu tenho sorte, já ganhei dois liquidificadores e uma moto numa festa de formatura. Minha mulher sempre que sonha com água me diz os números que ficaram na sua cabeça e eu faço a minha fezinha. Aposto esse bilhete, esse mesmo que esse jogo vai ser 2 a 2, quem arrisca o resultado? Quem acertar o que der ganha o meu bilhete.


O que se seguiu foi um bate-boca desordenado, um murmurinho incontrolável que agitava e animava a noite. Os amigos do tal apostador não sabiam se decidir, e também não achavam que o tal bilhete valesse alguma coisa. Foi tanto que um deles disse:


– Ah, mas veja, eu prefiro apostar coisas reais, mesmo, de carne e osso, ou melhor, de álcool e cana. Pra mim tava de bom tamanho você me pagar 4 doses da branquinha e fim de papo. Pra quê eu quero este bilhete, vou saber lá se tua mulher sonhou direito, se te deu os números certos? Eu gosto de aposta mais simples e que a gente veja logo o prêmio!Se der 2 a 2 eu te dou este boné, mas se for 1 a 0 você me paga uma caninha e pode ficar com teu bilhete que não quero isso.


Aristides continuava atento à discussão dos dois amigos que rapidamente tomava o bar inteiro, posto que até o garçon viera palpitar, aconselhar que o outro não aceitasse o bilhete nem nada disso. Subitamente espalhou-se o clima de polêmica o qual foi alimentado pela valentia do apostador:


– Quero ver quem é o homem nesse bar para apostar comigo este bilhete, o bilhete que foi cantado pela minha santa mulher , o bilhete premiado da mega-sena. Eu quero ver é mesmo se tem homem nessa espelunca,que queira apostar comigo, porque eu tenho coragem de apostar isso aqui , mesmo sabendo que está premiado.”


Ao ouvir que o apostador não avistara nenhum homem no bar, Aristides logo pensou em se apresentar, iria lá, chegaria à mesa do valente com sua cadernetinha em mãos e explicaria para ele, de acordo com o retrospecto do time do Flamengo quando jogava em casa, que o jogo não poderia ser empate, ele, Aristides, que não era flamenguista, acreditava que o jogo seria 3 a 0 para o Flamengo.

Pensou em peitar o corajoso e dizer: “Ei, espere aí, eu sou homem e lhe digo que o Flamengo não empata em casa faz tempo, os jogadores demonstram empolgação e entusiasmo, tudo isso renovado pela confiança que já depositam no novo técnico, isso só pode dar em uma vitória daquelas!”


Pensou, mas não disse. E lá ficou calado. O intervalo passou, o jogo continuou e , para a felicidade dos amigos incrédulos, o Flamengo fizera o primeiro gol. Seria o prenúncio da convincente vitória.


O tempo passava, e com ele o time do Flamengo parecia triturar o adversário, vários gols perdidos por falta de uma pontaria precisa ou por astúcia maior do goleiro. Foi contando com um momento de vacilo do zagueiro que o Flamengo marcou mais uma vez.


– Viu só? Agora é a hora da virada, o Fluminense jamais vai aceitar isso, eles vão é correr atrás do prejuízo, vai ser agora!


Se as palavras do dono do bilhete servissem de algo, certamente serviriam de estímulo para os jogadores do Fluminense cujas pernas ou não agüentavam percorrer o campo inteiro ou sofriam com as câimbras causadas por exaustão. Porém, de nada serviria o estímulo, a confiança do dono do bilhete: O time do Fluminense se entregava lentamente, reconhecendo a superioridade do adversário ou contribuindo diretamente para a ampliação do placar.
O terceiro gol veio justo num momento de descuido do zagueiro que, achando que o escanteio cobrado tinha como endereço certo a meta do goleiro, não se fez de rogado e adiantou a cabeçada, contribuindo tragicamente para o terceiro gol do time do Flamengo.


O murmurinho foi geral. Naquele bar não havia homem, não havia quem quisesse entrar na aposta e, por isso, ficou o dono do bilhete a sorrir e a desmerecer os seus amigos.


"- Seus burros, esse bilhete poderia ser de alguém aqui, e agora ele volta pro meu bolso! Haha, quando eu ficar rico, não piso mais aqui , ou melhor, se pisar, eu vou é descer do meu carrão e gritar: Nesse bar não tem homem não!”.



A brabeza logo se desfez e os amigos passaram a brincar juntos e num espaço de cinco minutos já se esqueceram do Flamengo, da aposta e do bilhete. Esqueceram até que não eram homens, de acordo com a lógica do dono do bilhete. Beberam até não se agüentarem nas próprias pernas.


Aristides se levantou, alcançou a carteira de couro preto e tirou os quatro reais para pagar as quatro caninhas que tomara. Foi ao balcão, deu um último gole no copinho que não tinha secado e seguiu caminhando, cambaleando , pensando no que poderia ter feito.


Devia ter chegado lá, mostrado sua caderneta e levado o bilhete do valentão. Ainda diria a ele que era muito homem, mais do que um homem, um comentarista nato, um cara responsável pelas estatíticas, desses que tem na tevê.


Pensou, mas não disse, não apostou e não levou o bilhete. Abriu a porta de casa, deixou o corpo cair no sofá estragado e por falta de força nas pernas já cansadas e embriagadas, dormiu por lá mesmo esquecendo, ele também, do Flamengo, da aposta e do bilhete.


Passaram-se umas muitas quartas-feiras até Aristides voltar ao bar. Tinha se resfriado e pensara ser o sereno da noite o responsável por sua moléstia, decidira então, numa tacada só, evitar o bar e com isto evitar as caninhas; seria melhor para ele, arrumaria uma mulher agora, porque mulher nenhuma gostava de boca com bafo de cana, pensava.
Ao tempo que pensava, imaginava que gostava do bar, que se não bebesse tanto poderia ir tranquilamente. Era sua única diversão, não iria abandoná-la por mulher alguma. “ Ah, as mulheres que apareçam nos outros dias da semana, a quarta-feira é minha”, pensou revoltado consigo mesmo o Aristides.


Foi logo ao entrar no bar que percebeu mais um murmurinho. Olhou para o relógio, olhou para a tevê e o jogo ainda não tinha começado, não entendera o barulho. Foi quando sua curiosidade, mesmo tímida, resolveu abrir a boca:



- O que tá acontecendo? Nem começou ainda. – Perguntou ao garçon.


- O que aconteceu? Meu amigo, o que aconteceu é que o Alves ganhou na mega-sena, com aquele mesmo bilhete que ele tava outro dia aqui, não sei se você viu, mas o Alves apostou o bilhete premiado, como ele mesmo dizia. Acontece , meu amigo, que o homem agora é milionário e com certeza vai chegar aqui com o carrão e cuspir na nossa cara, e ainda mais, dizer que a gente não é homem nem nada. Mas tem uma sorte aquele Alves!
Aristides ficou uns segundos sem acreditar, balançava a cabeça para ver se as idéias se sacudiam um pouco e formavam de volta o seu juízo. Imaginou como tudo poderia ter sido diferente, imaginou ele mesmo descendo do carrão, dando ordens aos arquitetos na construção e cuspindo na cara do Alves e de todo o mundo as palavras “ Eu sou homem, tá vendo? E ainda sou um homem rico!”.


O pedreiro sorriu levemente com o que imaginara, viu-se rico, de carrão e esnobando a turma do
Alves. O sorriso que brotou em seus lábios por entre seus dentes cariados foi verdadeiro, mas o que tinha de verdadeiro tinha também de efêmero: A imaginação era mesmo frágil e ele não era homem, nem muito menos rico. Ficou ali, a anotar os resultados de mais um jogo, na mesa de sempre, bebendo as quatro caninhas.
No caminho para casa pensou no Alves, no carro do Alves e tomou algumas resoluções em sua vida, as quais listou em casa, na mesma caderneta:


Número 1: Começar a apostar.
Número 2: Arranjar uma mulher que sonhe com água.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Soneto do amor total




Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim,

de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinícius de Moraes

segunda-feira, agosto 10, 2009

Ora bolas!


" A maior dor do mundo é pente com dor de dentes"


Mario Quintana



Era poesia sobre tudo...os famosos Quintanares, aclamados por gente como Manuel Bandeira e Érico Veríssimo, sem dúvida, estão para a história da poesia brasileira como Neruda está para história do Chile. Em Ora bolas: o humor de Mario Quintana ( L&PM Pocket, 2009), o jornalista Juarez Fonseca reúne 130 historinhas ou "causos" que, mais do que revelar o poeta Mario Quintana, nos apresenta a uma personalidade vivaz e irônica, por vezes cuel, facetas deste gênio das palavras em forma de versos.


O livro pode ser lido assim, em algumas horas de uma tarde chuvosa, em uma noite tediosa ou mesmo no meio de uma manhã meio preguiçosa. Nao importa: Quintana sempre será Quintana e o leitor será convidado a passear pelas agradáveis ruas da capital gaúcha, sentar em um banquinho da Praça da Alfândega ou saborear um café preto em qualquer bar na rua da Praia. Na verdade, o cenário pouco importa; se você não está em Porto Alegre, talvez comece a sentir, por correspondência, o clima aprazivel que gerou o poeta; se não conhece a capital gaúcha, certamente terá vontade de visitar todos os lugares que se tornaram cenário para as mais variadas historinhas que revelam o lado fanfarrão e zombeteiro de um poeta que não raramente é lembrado como uma personalidade doce, deveras doce.


No entanto, o que o leitor de Ora Bolas acabará inevitavelmente descobrindo é que por trás do poeta, do escritor de "Sapato Florido" , existia também uma veia cômica, um humor espontâneo, capaz de nascer das mais adversas situações, como exemplifica uma pequenina história contada por Juarez Fonseca:


" Na época em que trabalhava na Editora Globo, [ Mario Quintana] andava sempre duro. Como o salário terminava antes do fim do mês, vivia pedindo vales de adiantamento. Até que um dia o caixa chiou:


- Mas seu Mario, o senhor já tem um monte de vales!"

Quis saber, com aquele sorriso maroto:


- Afinal, são vales ou são montes?"



Era assim o tal Mario Quintana, poeta que não apreciava estar em meios intelectuais, que desdenhava da adoração de muitos que o procuravam para mostrar-lhe uns poemas, que nunca fora aceito pela Academia Brasileira de Letras. Vivia, tal como nos revela a historinha acima, na maior parte de seu tempo sem dinheiro, das suas finanças cuidava a sobrinha, Elena. No entanto, o que o leitor irá descobrir a cada virar de página é que o poeta não tinha nada de triste com essa situação, ao contrário: era capaz de fazer piada fosse qual fosse a situação.


O que todo leitor descobrirá, por si só, ao ler Ora Bolas é que Quintana, mais do que um ótimo poeta, era uma personalidade interessantíssima. Acho que muitos, inclusive, dariam um quinhão de seu salário -os que o recebem - para levar um fora - sempre elegante e inteligente - do célebre poeta que, apesar do talento, pouco ou nada fazia para exaltá-lo, como bem expressa a opinião de MonteiroLobato sobre o amigo gaúcho:


" Que coisa bonita o verdadeiro talento! Como vence, como se impõe - como se alastra por mais escondido que comece..."



Mais razões para passar umas horas agarrado à Ora Bolas? Não sei, as que tenho são essas, descubram outras por si mesmos, ora bolas - diria o poeta.

domingo, agosto 09, 2009

Não espere muito.


" Não devemos esperar muito dos outros ou do mundo exterior em geral. Aquilo que um homem pode ser para outro não é grande coisa"


Arthru Schopenhauer



Esse é um dos conhecidos aforismos de Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX que hoje é citado na maioria dos livros de Filosofia, seu reconhecido talento para analisar e observar o comportamento do ser humano em sociedade é modelo de vida para alguns, mas, nem por isso, Schopenhauer é unanimidade, é , por assim dizer, um filósofo politicamente correto.


Em A cura de Schopenhauer ( Ediouro, 2006), Irvin Yalom nos apresenta a vida e a obra de Schopenhauer, como se estivesse dando um curso para leigos sobre o pensamento, as idéias e a vida polêmica do filósofo alemão. Claro que o livro nos conta também a estória de um grupo de pacientes em terapia, como estes vão se reconstruindo, construindo identidades e buscando novas verdades, tudo isso entremeado pelos breves capítulos em que o autor apresenta ao leitor a estória de vida de Schopenhauer.


Ao folhear de páginas, o autor encontrará, possivelmente, muitas características deste grande homem que, por sua crítica mordaz à sociedade de seu tempo, aos homens de "bem , foi, por muito, desconsiderado. Apesar de tudo, Schopenhauer nos mostra a vida por outras lentes, sem cores vivas, mas , nem por isso irreais, foi por isso que Yalom me conduziu a conhecer mais a obra de Schopenhauer . O que descobri? que ele não estava tão errado assim.


Em "Parerga e Paraliponema" ou " Aforismos para a sabedoria da vida", o leitor é apresentado a um Schopenhauer mais maduro - este foi seu último livro - mas ,nem por isso, dócil. Devotado a temas inéditos para muitos filósofos, Schopenhauer nos dá dicas sobre como conviver em sociedade - ja que seria impossível evitá-la, como se relacionar com os outros e, ainda além, como deveria ser a vida de um homem feliz.


Minha pretensão aqui não é esgotar essa obra, tampouco o pensamento do grande Schopenhauer, conhecido por seu mau humor e por comprar ingressos para duas pessoas aonde quer que fosse, somente para não ter o desprazer de ver alguém sentar-se a seu lado em alguma apresentação. Schopenhauer, no entanto, é mais que mau humor, é mais que pessimismo.


Como se pode perceber pela frase que escolhi para iniciar esse artigo, Schopenhauer não tinha muita fé no ser humano; considera-se , ele mesmo, como um ser genial, diferente dos outros a quem pouca ou nenhuma consideração deveria devotar. Também é de Schopenhauer a inspiração de uma frase que nós conhecemos bem, do senso comum: "Quanto mais conheço os homens, mais admiro meu cachorro".


Eu pergunto agora: Será que ele não está certo? Vejamos, claro que existe bondade e há quem diga - poetas e etc - a felicidade até existe, o amor, então...artigo por demais popular. Mas, e a sinceridade? E a gratidão?


Certamente aí temos um caso a se pensar: quanto mais nos damos, menos recebemos, quisera eu dizer o contrário ou quisera eu estar enganada. A Quem discorda e acha essa declaração completamente pessimista, dou um conselho: Tente ser bom, bom, assim, na acepção própria do termo, sem maldades, sem interesses levianos, sem pensar em vantagens de antemão. Faça o bem.


Exercício número dois: Perceba o que você receberá de volta. Algumas almas, certamente perceberão: "mas que pessoa boa". Porém, a maioria das reações a seus gestos nobres podem se resumir a uma palavra: Exploração.


As pessoas, em sua grande maioria, pensarão: De onde sai isto, poderá sair mais. O que se ver a seguir é uma criatura ser explorada até o seu âmago, até sua alma, por terceiros que visam algum tipo de vantagem.






É, Schopenhauer não estava errado, o homem é mesquinho, egoísta, vaidoso, repleto de vícios e que, ainda assim, colecionam de bom grado. Porém, como fugir dessa luta louca em que nos envolvemos no intervalo de nossa não-existência para nossa morte? Não há fuga possível, o que nos resta, portanto, é aprender, aprender com a experiência - isso é de Schopenhauer - porque só esta poderá salvar de interesses escusos, de explorações, de ingratidões. O grande filósofo não estava errado em nos dizer não esperar grande coisa dos nossos semelhantes.





Aí eu lembro de Millor, o nosso Millor..." Amar o meu semelhante? Sim, mas, aonde ele está?"





Por isso, aprendamos todos a lidar com esse mundo, com a mesquinharia, com a exploração e com tudo o mais que nos faz humanos , demasiadamente humanos. Conselho? Ouça Schopenhauer: Não vá esperando grande coisa, assim, a fortuna que receber será considerada uma grata surpresa.

terça-feira, agosto 04, 2009

Dos vinte e sete




Salve a poesia instantânea

filha dos meu vinte e sete anos

e rasteira como a primeira dos meus

quinze.


Salve a poesia instantânea

escrita com a pena do entusiasmo

do maior amor do mundo

que teima em aparecer e desaparecer

todas as vezes em que meus olhos teimam em fechar



Salve a poesia que é filha do amor

dos meus vinte e sete anos

que invade e anuncia

o velho amor dos meus pobres quinze anos.

segunda-feira, agosto 03, 2009

O menino do pijama listrado: Um ensaio sobre o mercado livre das relações humanas






Sem dúvida haveria diversas maneiras de abordar o filme The boy in the striped pyjamas ( baseado na obra homônima de John Boyne). Uma delas certamente seria discorrer sobre as mazelas causadas pelos nazistas ao povo judeu no século XIX, durante a Segunda Guerra. Outra, com certeza, poderia ser falar da infância e da inocência perdidas, tal como nos sugere a frase que inicia a narrativa, " A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo obscuro da razão se expanda." , de Jonh Betjaman.


Eu quero ir por outro caminho, um caminho que nos fale sobre as diversas provações que passamos diante da trajetória que fazemos acima destes sete palmos que um dia nos servirão de teto. Quero dizer bem claramente que, para mim, o filme pode ser abordado a partir da noção de que se trata, mais do que de uma estória sobre o Holocausto - sabemos que a temática já foi explorada à exaustão por tantos filmes como A lista de Schindler, O julgamento de Nuremberg, e , mais recentemente, por outros como O homem bom, A vida dos Outros e O leitor, além de tantos que trazem o horror nazista como pano de fundo para contar estórias ordinárias, de pessoas simples, que, de alguma forma, foram afetadas pelo que se passava no mundo à època.

O menino do pijama listrado, título em português da obra inspirada no livro de John Boyne, para mim, fala de provas de amor.


Para deixar mais claro, mas sem por isso revelar o desfecho do filme, trata-se de uma estória contada por Bruno, um menino alemão de oito anos, filho de um soldado que faz parte do alto comando nazista. A narrativa é contada pelo ponto de vista dessa criança que é obrigada a deixar seu antigo lar para acompanhar sua família que se mudará para Auschwitz. A casa de Bruno ficava nas imediações do campo de concentração mais famoso por ter sido cenário de uma das maiores barbáries nazistas: o massacre do povo judeu.


Esse filme certamente, ao que tudo indica, poderia trazer cenas chocantes e de efeito - o efeito de nunca esquecermos o que foi feito em nome da primazia de uma raça sobre outras, realmente existem várias cenas difíceis, porém, a partir do relato de Bruno, uma criança que não entende o que se passa aos arredores de sua casa fria e sem vida, entendemos que por trás deste cenário existe a ruína de uma família, assim, simples, como a minha e a sua, "mamãe, papai, avô, titio", já diriam os Titãs.


Em suma, existe uma mãe, um pai, e duas crianças, Bruno e sua irmã Gretel que vêem suas vidas mudarem a partir de sua chegada ao campo de concentração. A mãe de Bruno, alheia em suas atividades de dona-de-casa e mãe em tempo integral, pouco percebe o tamanho da atrocidade que é cometida ali, praticamente no quintal de sua bela casa. A irmã de Bruno, Gretel, aos poucos vai assimilando a filosofia de Hitler e, aos poucos, começa a desenvolver uma postura mais adequada ao que se esperava de uma "juventude militante", sem dúvida, uma tentativa de fazer-se importante para seu pai, para quem as palavras de Hitler deveriam ser seguidas com obediência irrestrita.


Nesse pano de fundo, percebemos que a estória é mais uma estória de pessoas e as provas de amor que, constantemente, em diversas fases de nossa vida, vamos dando e recebendo. Se seguirmos o trilhamento do filme, vemos uma mulher que, ao perceber a tragédia que lhe cerca, implora ao marido para que lhê dê uma prova de amor saindo daquele lugar, e , assim, extirpando de suas almas qualquer resquício de culpa que poderia lhes acometer.
Esta prova, diga-se de passagem, não lhe foi dada pelo marido, o qual, por amor ao nazismo e ao que acreditava, continuava a contribuir com o regime totalitario responsável pelo maior genocídio do qual se tem notícia em todas as épocas da estória.


Qual seria a prova de amor de Gretel, a jovem irmã de Bruno, se não incutir em sua personalidade o rigor, a disciplina e o pensamento nazista segundo o qual os judeus deveriam ser punidos por serem pessoas inferiores? Devia isso ao pai, queria ser vista com orgulho, tanto é ue o filme deixa em suspenso uma certa admiração que a jovem nutria pelo belo tenente que servia em sua casa. Gretel, tal como toda criança, visava a atenção, o interesse do pai e um meio de fazê-lo seria engendrar em sua personalidade, ainda infantil, o discurso que agradaria a mentalidade paterna, isso não é novidade, é coisa da Psicanálise. (!!)


Para mim, uma das maiores provas de amor que vemos no filme vem da parte de Bruno, quem conta a estória. Bruno, em uma de suas explorações, faz amizade com o menino judeu Schmuel e logo toda a diferença existente entre eles e metaforizada pela cerca de Aschwitz que os separa passa a encantá-los e atraí-los. Vê-se bem que não seria uma cerca capaz de impedir que uma rápida amizade acontecesse entre os dois meninos da mesma idade mas de mundos tão diferentes.

O momento da prova de amor acontece quando Bruno, visando se desculpar com Schmuel decide empreender uma busca pelo pai do seu novo amigo. Aí é que começa o clímax da estória e eu não estragarei aqui. Poupo-lhes dos detalhes.


Trocando em miúdos, eu poderia ter visto o filme e ter falado aqui sobre o massacre dos judeus, sobre a servidão do povo alemão ao regime totalitário, sobre a ámizade de Bruno e Schmuel, enfim. No entanto, prefiro eu falar das provas de amor, que, para mim, movimentam a narrativa e se constituem em causa do clímax final.
Há muitas outras questões que podem ser aqui analisadas, como a difícil relação que o pai de Bruno nutre com sua própria mãe, personagem secundária sobre qual pouco se sabe, a não ser que não concordava com o trabalho do filho: em um dado momento, a mulher de Ralf, o pai do menino Bruno, comenta que nem sua mãe o amava, o que também nos faz pensar em provas de amor que Ralf não recebera, sobre sua personalidade, sobre o que lhe teria motivado a seguir os passos de Hitler, e enfim, constituir sua estória relacionando-a ao regime nazista.


Há várias e várias temáticas secundárias, relações a se estudar e , ainda assim, fico com a questão das provas de amor. Esquecendo um pouco o filme, podemos generalizar a questão: Por quantas provas de amor poderíamos medir nossas vidas? Será que não se trata sempre de dar e receber provas de amor? Uma outra maneira de dizer: Como nos doamos para as relações e para os objetos para os quais dirigimos nossa libido ( já utilizando o linguajar freudiano)?


Não é raro ouvirmos falar em aprendizado, conhecimento e sofrimento ao falarmos da vida, do caminho que percorremos. Dostoiévski uma vez já disse que feliz era aquele que conhecia o motivo de sua infelicidade e, diante disto, não serei eu aqui a primeira a falar de vida e relacioná-la com termos como "felicidade" e "infeliciade".


Portanto, prefiro falar das diversas provas de amor que a vida nos incumbe de dar e receber. Por elas é que vivemos nossa vida. Desde pequenos acostumamos a receber e é isto que nos faz transformar de um bebê para um sujeito, daí crescemos e aprendemos que também é possível dar provas de amor e que, justamente por dá-las é que podemos receber tantas outras.

Durante nosso caminho, no entanto, não é fácil ter consciência de que a vida é repleta e digo mesmo que somente feita de provas de amor: Por muito tempo podemos achar que não recebemos provas suficientes e que, por isso, o mundo terá culpa e será responsável pela transformação de um sujeito em um sujeito plenamente insatisfeito com o que recebeu e que, por isso, incapacita-se de dar estas provas a outrem.


Aí crescemos, mais e mais, e percebemos que mais importante do que choramingar as provas que não recebemos é quitar as dívidas dos outros e recomeçar do zero, dando tantas provas quantas nos couber. É isto, em suma, que corresponde ao sentido da vida: um mercado livre de troca de provas de amor, provas estas que permearam a estória de ruína de uma família em O menino do pijama listrado.


O interessante é notar que a família pode saltar da tela e se transformar na minha, na sua, na nossa. É muita prova de amor e por isso não raramente nos perguntamos...será que damos o suficiente? Será que recebemos o suficiente? Acredito que nunca chegaremos a estas respostas qe tantas vezes os mais sábios procuram na análise. No entanto, creio que somente em nos perguntar já estaremos lucrando e mais aptos para dar mais.


No fim do filme? No fim do filme você se compadece e percebe que dar acaba sendo sempre mais importante do que receber. É assim também na vida real.

sábado, julho 25, 2009

Por que Freud não gostava de cinema?



Freud não gostava de cinema. “Perseguições loucas desenroladas na tela” não era o tipo de divertimento mais apreciado por um jovem e austero senhor de 53 anos, acostumado a visitar museus e estudar antiguidades gregas, jantar em bons restaurantes e assistir a óperas de qualidade incontestável. Freud, decididamente, não gostava da sétima arte, mas deu-se uma chance.


Foi assim que seguiu para um cinema em Nova York, em 1909, acompanhado de seu fiel escudeiro, o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi. Não gostou do que viu. Consta que Ferenczi sentiu muito mais entusiasmo pelas perseguições insensatas em tela grande do que o pai da Psicanálise.


De acordo com o que se sabe sobre a primeira experiência freudiana com a sétima arte, a noite fatídica fora atribulada e influenciada por diversos problemas tanto relacionados ao humor dos dois viajantes , como a problemas fisiológicos de Freud – dizem que, à época, certos desarranjos molestavam a flora intestinal freudiana de maneira tal que toda sorte de mal estar alterava seu humor. Nesta mesma viagem, segundo nos conta seu biógrafo, Ernest Jones, o pai da psicanálise blasfemara: “ A América é um erro”. Sim, vejam bem, Freud não foi a N.Y à toa, somente para fazer compras, visitar umas antiguidades, comprar uns souvenirs ou uma camisa da big Apple.

Já que é pra investigar, que investiguemos direito: Freud fora convidado para palestrar na Clark University e este convite, vale lembrar ou informar aos que não sabiam, tinha grande importância para o velho médico europeu. Portanto, Freud, pelo que podemos entender, poderia bem ter poupado a nação do tio Obama desse tipo de declaração...Um erro? Seria tudo isso, um exemplo de seu humor alterado pelos constantes problemas intestinais combinados com seu conhecido temor de meios de transporte? Seria toda essa revolta causada pela fatídica e primeira experiência no cinema?

Não sabemos. O que buscamos, entretanto, é uma investigação detalhada para que possamos entender, não a aversão pela América, mas a aversão à sétima arte, isto é o que nos importa agora. Com este intuito, portanto, buscaremos apoio nas próprias palavras freudianas , uma maneira de tentar vislumbrar quais seriam os motivos pelos quais Freud simplesmente não desejou voltar ao cinema e veremos, além do mais, que esta aversão tornou-se maior do que simplesmente um pequeno preterimento no tocante a temática “ diversões preferidas”.
Se retrocedermos no tempo, chegaremos ao ano de 1885, quando Freud, ainda entusiasta da neurologia, resolve concorrer a uma bolsa de estudos para passar alguns meses estudando como intérne no Hospital Salpetrière, em Paris, uma espécie de estagiário. Inicialmente, como nos conta a história dos primórdios da Psicanálise, Freud buscava investigar o nervo óptico. No entanto, o que ocorreu? Apaixonou-se pelas histéricas de Charcot; tudo para ele era instigante, menos o nervo óptico, muito mais os gritos, as paralisias, os achaques comandados por Charcot e representado por mulheres tão comuns, mas tão brilhantes.
As primeiras impressões de Freud sobre Paris foram as melhores: tudo parecia uma miscelânea de sensações, interesses, curiosidades (tão diferente das impressões americanas...). Em carta à noiva, Martha Bernays, confessa:
Acho que estou mudando muito. Vou dizer-lhe detalhadamente o que me está afetando [...]. Por vezes, saio das aulas como se estivesse saindo da Notre Dame, com uma nova idéia de perfeição. Mas ela me exaure; quando me afasto, não sinto mais nenhuma vontade de trabalhar em minhas próprias bobagens; há três dias inteiros não faço qualquer trabalho, e não tenho nenhum sentimento de culpa. Meu cérebro está saciado, como se eu estivesse passado uma noite no teatro.” ( Freud, 24 de novembro de 1885)

Vejamos, então , o brilhante e jovem médico , interessado que era na patologia do nervo óptico e que recebia, mensalmente por seis meses uma quantia hoje estimada em 250 dólares, confessava à noiva que há uns dias não produzia nada, não colocava a mão na massa, não escrevia, não sentava a traseira numa cadeira para começar a escrever o famoso relatório que teria que apresentar à sua universidade em Viena. Não, ele não queria saber de nada, somente das aulas de Charcot e, qual não era a comparação que fazia das mulheres histéricas às atrizes?
Por acaso estamos nos deparando aqui com uma das primeiras alusões freudianas às artes? Seria então, correto – não digo afirmar, mas elocubrar, que a psicanálise (que nasce justamente da mudança de interesse de Freud da patologia do nervo óptico para a psicopatologia) já nasce relacionada à arte, neste caso à arte teatral? Quem sabe? Acredito que não seria tão equivocado fazer esta reflexão, através desta também chegaremos ao cinema, mais tarde.
Ultrapassando um pouco este tempo de entusiasmo com Paris e com as aulas que mais lembravam teatro ministradas por Charcot, encontramos um Freud maduro, consciente de sua criação e em constante trabalho para ampliar seu arcabouço teórico, suas próprias descobertas.
Eis que estamos agora vinte anos além desta primeira viagem científica à Paris.
Em um texto não tão citado pelos que se devotam à Psicanálise, “Personagens psicopáticos no palco” (artigo não datado, mas , segundo consta na Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, deve datar de 1905, ou início de 1906), Freud volta ao teatro ( sabemos que em outros momentos faz novas alusões à esta arte, mas agora, atentem a esta), nesta obra, ele declara que o papel do espectador se assemelha ao de uma criança ao brincar; ela brinca de ser herói , goza por aventurar-se e ainda assim não comprometer sua integridade física como o moço lá do palco.
Então, de acordo com Freud, o que é o espectador? O espectador é aquele sujeito que se reconhece e se identifica com o que se desenrola diante dos seus olhos; sofre com cada inflexão, com cada impostura, com cada ato de bravura e com os conseqüentes conflitos e lutas travadas pelo herói e os deuses a quem deseja destronar, com os humanos representantes de instituições castradoras. Sim, segundo a opinião freudiana, nós somos aqueles que sofrem sem sofrer, que gozam por identificação e que , por isso mesmo, também resistem ao que se vê.
Neste estudo, Freud não fala apenas do papel do espectador. Não, ele não se limita a dizer que o espectador é aquele que desejar sentir, agir e tomar o palco. Ele vai além e fala da habilidade do dramaturgo ou do autor da peça em nos conduzir pelos entremeamentos das nossas próprias confusões, assim, como se não percebêssemos que ali quem encena somos nós mesmos. Ali, somos captados, mesmo que nossa atenção esteja, tal como diz o autor, “distraída”, vemos alguns conflitos surgirem e aterrorizarem o herói, o ator com o qual nos identificamos. Nesse sentido,
Freud vai mais além, e fala dos conflitos também internos, entre consciente e inconsciente que parecem mover todo drama de cunho psicopatológico.
O herói está perdido e confuso, suas moções inconscientes a um passo do transbordamento e nós , ainda assim, assistimos a tudo passivamente. Quão confortável é nossa cadeira no teatro? Camarote? Não importa aonde estejamos, fato é que estaremos sempre nos identificando com o herói confuso, com o Hamlet aterrorizado pelo recalcado que retorna, bate à porta e parece nos dizer: “Abre, abre ou vou invadir!”.
Com isto tudo, parece que este texto de Freud revela que o trabalho do bom autor deve ser justamente esse, fazer-nos deslizar pelos labirintos do nosso próprio psiquismo sem saber que o fazemos, ali, da cadeira de espectador, talvez até comendo pipoca. Freud nos faz perceber que, ao tempo que nos identificamos quando vemos o personagem, o herói adoecer, gozamos e resistimos: “ora, não sou assim!”. Diz ainda, que somente os não-neuróticos não passam por estes “ciclos” de pré-prazer e resistência, sucumbindo a uma espécie de total repugnância ao assistir a um tal espetáculo.
Agora depois dessa breve investigação, parece que temos os argumentos para começar a tatear a questão principal aqui levantada: Por que a aversão de Freud ao cinema? Se quisermos concluir rapidamente, poderemos dizer que, para uma pessoa que utilizou o teatro, e na verdade, as artes em geral, que se dizia amante da pintura, das artes plásticas, da literatura (quem duvida leia Moisés de Michelângelo) poderia apresentar uma resistência tamanha à então inovadora sétima arte.
Parece que aqui tocamos no ponto essencial: Resistência. Lembram? Freud dizia que não apenas regozijamo-nos com as desventuras do herói, também sofremos, nos identificamos e resistimos ao ver nosso próprio drama ali encenado, nossas próprias dúvidas: Isso não sou eu.
Aqui me pego ousando: Queria muito descobrir que filme foi esse que causou tamanha resistência no espectador Freud, não no médico, vá, esqueçamos que era ele quem foi, o pai da Psicanálise, o autor de uma teoria que nos impressiona até os dias de hoje, o homem do século, o ganhador do prêmio Goethe de Literatura...esqueçamos. Pensemos em Freud no cinema, Freud na cadeira alcochoada de um cinema em N.Y. ao lado de Ferenczi, Freud colocando seus óculos, Freud na fila da Pipoca.
Não gostou. E eu imagino aqui, com meus botões, quais seriam as cenas, quem era o herói da tela. Pela época, sabemos que era um filme mudo, mas não sabemos nada mais sobre o filme a não ser que havia “perseguições loucas”. Seria um faroeste tipicamente americano? Um drama à La Shakespeare? Não sabemos, e é uma pena.
Vamos mais longe, para quem não gosta de conjecturar tanto, apenas podemos dizer que a aversão foi tamanha que Freud chegou ao ponto de se negar a ajudar na realização do que ficou chamado de “primeiro filme de psicanálise”, em 1926 “Segredos de uma alma”.
Sim, aconteceu. Aconteceu quando Karl Abraham, fiel e submisso seguidor, informa a Freud a intenção de um estúdio de cinema de gravar um filme sobre a psicanálise. Uma boa forma de publicidade? Sem dúvida. Werner Krauss, ator alemão que simbolizava o aclamado cinema expressionista à época protagonizaria uma personagem em conflito psicopatológico, dividido entre a consciência e impulsos aterradores vindos do inconsciente. Lembram algo? Seria o retorno do herói aterrorizado entre o que aparece à superfície e os “monstros subaquáticos” que insistem em entrar?
Sim. Sem dúvida o filme traria a Psicanálise e o tratamento psicanalítico como solucionador dos conflitos do ator principal; existiria um psicanalista capaz de reabilitá-lo e fazer com que o sofrimento desaparecesse.
Resumo da ópera: O filme foi feito, mesmo com a resistência declarada de Freud, mesmo que ele tenha dito que não queria, de maneira alguma, que seu nome estivesse vinculado à tal realização.
Motivo consciente para tamanha revolta? A impossibilidade de representar, pelo discurso cinematográfico, os conceitos abstratos da nova ciência.
Parece que Freud queria dizer: Mas o que pensam esses cineastas? Pensam que vão poder colocar na tela a minha invenção? Repúdio, somente isto que Freud sentiu. Aqui cabe: será que não seria já aí uma resistência, uma resistência à novidade? Poderíamos dizer isto? Será que é correto? Poderíamos dizer que Freud, ao dizer que a Psicanálise era impossível de ser encenada, representada por imagens, contradiz a si mesmo, posto que uma vez dissera que o hábil seria o autor capaz de envolver o espectador, de fazê-lo agir, pensar, e colocar-se no lugar do herói, do ator, talvez entendendo a si mesmo através do outro que encena?
Será que cabe dizer tudo isso? Vejamos, se Freud repudiava a iniciativa, poderíamos pensar que ele não acreditava na capacidade de G.W Pabst ( diretor do filme sobre psicanálise) em realizar isso de levar o espectador pela mão rumo as loucuras do seu próprio psiquismo. Por outro lado, poderíamos pensar também que Freud apenas visava proteger a sua nova ciência, já tão duramente atacada, do popularismo cego e deturpador.
A conclusão a que chegamos? Nenhuma. Eu na verdade começo a achar que tudo foi culpa do filme que Freud viu em 1909, afinal, a primeira impressão é a que fica e podemos dizer mesmo que o autor /diretor deste filme, um faroeste - eu quase posso apostar que era um faroeste - conseguiu com maestria mergulhar Freud nos seus próprios conflitos, ali, da cadeira de espectador.
Resultado disto? “Nunca mais quero ir ao cinema! Não gosto de cinema. Não quero que meu nome jamais seja vinculado a qualquer tentativa de trazer à tela a minha invenção!”.
São apenas possibilidades... pode ter sido também uma grande dor de barriga...
* foto: Cena do filme Segredos de uma alma