sexta-feira, setembro 04, 2009

Perguntas que jogo para o Universo


Gostaria de fazer aqui algumas perguntas que sempre franziram meu cenho, martelaram meu juízo, criaram em minha mente pequeninas interrogações, queimaram meus neurônios, enfim...perguntas que eu não sei se serão respondidas, porém, uma vez feitas, estarão jogadas para o Universo, espero que este me dê alguma solução, resposta, luz ou o que seja.

Algumas podem parecer descabidas, outras, mais cabidas. No entanto, não deixam de ser pertinentes, ao menos para mim.


Dizem respeito, em sua maioria, à temas variados. Não tenho eu a pretensão aqui de esgotar uma questão, de fazer disso um problema de pesquisa e utilizar metodologias variadas de modo que obtenha uma resposta. Não, não , não, longe de mim. São perguntas variadas, descabidas ( a quem primeiro assim as entender) mas muito, muito intrigantes. Que seja o Universo, então, o que me dará as respostas que há tempos busco, sem sucesso.


1- Por que todo stand-up comediant é mau humorado?


Essa, sem dúvida, é a pergunta que mais assola meu cérebro questionador. Eu não consigo entender porquê diabos são esse tipo de comediantes tão mal humorados, de mal com a vida, mal amados e mal comidos. Como uma amante do gênero, comecei a perceber certas semelhanças no humor de cada comediante que se intitula como stand up comediant.

Vejam bem, se seguirmos as pistas e voltarmos no tempo, encontraremos Jerry Seinfeld, que, para mim, foi o precursor dessa onda do momento que vemos inundar nosso país.

É em todo canto: programas de talk-show, youtube, orkut, twitter... Esteja você aonde estiver, fatalmente irá encontrar um desses comediantes paulistas ( tou generalizando, calma, esse tipo já se espalhou Brasil à fora e à dentro), braquelos, que fazem questão de se intitular nerds, praticantes inveterados de esportes sedentários ( se é que existem) e que, sempre, mas sempre mesmo, estão reclamando da vida.

Se formos entender o que seria a comédia "em pé", podemos perceber que não raramente as temáticas são casos banais do cotidiano, questões irrelevantes que certamente não teriam a mínima graça para aquele comediante mais bonachão, mais risonho, alegre, leve. É isso: ao contrário dos tipos mais tradicionais, nós vemos praticamente todos os dias em todos os tipos de mídia brasileira esses tipinhos com sotaque paulista falarem mal de filas de banco, de assalto, de rua cheia, rua lotada, fila dupla, fila única, caixa eletrônico, pastel de padaria, leis anti-fumo, fumantes, lei seca, alcoolismo, programas de tevê, programas de rádio, programas de internet...

Enfim, a lista se alongaria deveras se eu tivesse a pretensão de citar todos os temas por estes comediantes abordados.

O que quero dizer é: será que para fazer stand up comedy você tem que ser um sujeito extremamente irritado, impaciente, de mal com a vida, de mal com o governo, prefeitura, vizinhança, esposa, gato, cachorro e papagaio? Será isso o objetivo do stand up comediant, perder toda a noção do significado da palavra "comediante"?

Por que diabos têm que reclamar de tudo: Será que só existe graça na reclamação? Sei lá, eu prefiro a época que comediante era um sujeito engraçado.



2- Por que ser nerd tá na moda?


Eu decididamente não entendo isso. Primeiro a mídia toda nos enche o saco para que sejamos mais jovens, mais magros, mais fortes, mais atléticos, mais bonitos, lipoaspirados, e, consequentemente mais desejáveis. Depois começa um certo movimento mundial de culto ao nerd, ou seja, ao exato oposto do cara que é mais forte, mais atlético, mais bonito, mais lipoaspirado? Por que agora está na moda ser loser se nossa sociedade sempre nos impôs os ideais de sucesso geralmente relacionados àquele mesmo tipinho que anda em academias?



3- Será paz e tranquilidade sinônimo de vagabundagem?


Não entendo. Sinceramente não entendo. Você tá lá, na sua vidinha 100%paz e amor, cultiva vegetais geneticamente inalterados em sua hortinha, surfa todos os dias , dá bom dia à arvores, girassóis e pardais mas, ainda assim, é tachado como sem noção, hippie, malandro ou vagabundo. Nossa sociedade e nós ( nós somos a sociedade) nos diz que um homem de sucesso é um homem realizado afetiva, financeira e profissionalmente (mais ou menos nessa ordem). Mas , se de repente alguém resolve fazer um caminho não tão tradicionalmente vinculado à esse "ideal de sucesso"...bem, aí é o caso daquele fulano mesmo, que nunca quis estudar e não deu valor a nada nessa vida...Nesse momento esquece-se se o fulano é feliz por não ter querido estudar para adequa-lo à classe dos vagabundos.

No fim, você tem que estudar, trabalhar muito, casar e procriar, porque assim, assim terá dinheiro, que te dará bens, que te dará felicidade, ou, pelo menos, te livrará de ser vagabundo, natureba, hippie, sem noção.


4- Se todo mundo diz que não quer se expor, porque tem orkut, twitter, msn, irc e o diabo à quatro?


Esse é certamente um enigma que assola a humanidade. Fulaninho vai e faz coisas que deveria fazer entre quatro paredes na areia das praias movimentadas e vai parar no orkut. Fulaninho e Fulaninha resolvem tomar todas e filmar suas peripércias e vai parar no youtube, Fulaninha é professora mas resolve mostrar que sabe dançar da maneira não tão infantil e vai parar no youtube. O que estas situações tem em comum? protagonistas que não, definitivamente não gostariam de se expor.

Eu não entendo porque você vai e sobe num palco com 450 celulares apontando diretamente para você (ou mais precisamente para a parte mais inferior localizada ao sul do osso do mucumbú) e se sente exposta, denegrida, enjuriada porque, no outro dia isso foi parar na rede. Não seria mais honesto dizer: é isso aí, eu faço loucuras na frente de todo mundo, eu danço obscenamente na frente de todo mundo, eu faço de tudo e aind por cima gravo, filmo e fotografo porque o que eu quero é aparecer.

Seria mais honesto.



5 - Por que as pessoas fazem perguntas que não querem ouvir ser respondidas?Ou, se querem ,já sabem a resposta que vão escutar?


Essa é a clássica situação entre namorados: "Amor, vocÊ me ama?" "Você vai me trair um dia?", "Você acha a vizinha bonita?". Geralmente essas questões saem de bocas femininas, mas também não estou dizendo que nenhum homem jamais tenha inquirido sua amada com tais questões...Será que você espera ouvir um "Ah, amor,vou sim, lógico te trair um dia, mas não será hoje né, benhê?" ou "Não amor, não amo, mas se você é capaz de amar por nós dois, que mal faz?".

Ninguém jamais chegará a esse nível de sinceridade o que invalida terminantemente a importância de tais perguntas. Ninguém nunca vai te dizer que vai te trair, que não te ama, que não pensa na vizinha. Isso é fato, você sabe que vai acontecer - e reze para não ter acontecido ainda- e não cabe a você fazer perguntas tão difíceis a seu par. Já diria uma letra de pagode "deixa acontecer naturalmente", não faz pergunta que piora.


6- Quem são essas pessoas que viram fãs súbitos de celebridades súbitas?


Eu gostaria muito de saber o que fazem, o que comem, quem são os tais fãs do Max e da Francine do BBB, os fãs da Mirela da Fazenda, o pessoal que torce para o novo ganhador de No Limite, que escreve faixas para a nova banda de pagode do momento. Sério mesmo, eu acho que essas pessoas são encontradas num depositário de gente carente, daquelas que vive a vida por um ídolo, que faria de tudo para ver aquele lugarzinho sombrio e inabitado de seu coração povoado pelo primeiro que aparecer na televisão, que rebolar um pouquinho, que for capaz de ganhar 1 milhão.

Sim , eu me dirijo à você agora, fã da Siri, do Diego Alemão, o mesmo que vai comprar o livro novo da Fani e se interessar pela sua biografia. Eu me pergunto que nível de carência é este que os fazem disponibilizar parte de seu tempo (e é muito tempo) na adoração de pessoas que vocês sabem que não vão durar, essas pessoas logo serão substituídas por outras. Mas, porque, por que você insiste em adorá-los, o que falta em sua vida?



Bem, com certeza essas questões agora foram liberadas da minha mente e eu espero que o Universo faça bom proveito delas. Se alguém quiser me responder, sinto-me, antecipadamente, grata pela atenção.

terça-feira, agosto 25, 2009

O Flamengo , a aposta e o bilhete





Aristides não era o que poderíamos chamar de um homem bem apessoado; quem o conhecia sabe que ele não tinha lá qualquer coisa que indicasse elegância ou a mais tênue camada do tal “verniz social”. Aristides era rude até na aparência, no alto da cabeça que vinha direita mas no cume se estreitava, habitavam cabelos crespos e já embranquecidos por ofício do tempo e dos problemas.




Tinha um nariz chato, próprio da sua cor. Era mulato o Aristides, e, como todos os mulatos, parecia-se com um. Não cheirava mal, também não cheirava bem. Possuía um cheiro característico de loções pós-barba compradas no mercado mais conveniente da vizinhança, não fazia questão de roupa bem passada e há quem diga que possuía limitado número de camisas devido à freqüência com a qual as repetia. Aristides não era , definitivamente, um modelo de beleza e charme, mas tinha seus encantos justamente em sua aspereza, em sua rudeza.




Se era simples na aparência, nada diverso poderia ser dito de seus hábitos. Costumava – quando estava de folga – ir a um bar localizado em seu bairro, tomar algumas doses de aguardente, assistir ao jogo de futebol que estivesse passando e voltar para sua casa, onde morava sozinho, o que bastante o incomodava, tinha medo da solidão.




Aristides trabalhava como pedreiro, sua função em uma obra era seguir à risca o que diziam os homens que estudaram mais que ele; ouvia atentamente, derrubava parede, construía parede, rebocava a parede, tudo de acordo com o gosto e a vontade de quem o ordenasse. Não costumava falar muito, algo que, em sua profissão, poderia ser até de grande serventia, dizia que um bom pedreiro era aquele que tinha bons ouvidos e mãos fortes para agüentar a labuta diária.




O nosso homem, como já dá para perceber, era o típico brasileiro mediano, possuía pouca instrução e trazia na alma uma espécie de apatia que transbordava pelos seus olhos e por toda sua face, que acompanhava a postura sempre submissa, derrengada. Aristides tinha os ombros largos e curvados para baixo. Tinha também orelhas de abano, fato que lhe rendera muitos traumas na infância durante os poucos anos em que freqüentou a escola.




Se tinha uma diversão, essa era às quartas-feiras, quando ia ao tal bar da esquina, beber e ver futebol, sozinho: Aristides não tinha muitos amigos e fazia questão de sentar numa mesa afastada das outras e da qual via os jogos de bola, munido sempre de uma cadernetinha vagabunda na qual anotava os resultados dos jogos de todos os times brasileiros que jogavam às quartas-feiras desde o ano de 1995.


Aristides era organizado, a mesma caderneta, quatorze anos depois: rascunhava, desenhava linhas pretas nas folhas brancas para criar tabelas nas quais constavam dia, mês, ano e gols marcados por todos os times brasileiros os quais via jogar pela televisão. A caderneta era a única alegria na vida de Aristides, pode-se dizer. Era como se naquele espaço, dentro das linhas daquelas tabelas ele pudesse controlar o mundo a seu redor, buscar explicações para o sucesso ou a derrota. Aristides com sua caderneta se sentia importante, pois sonhava um dia debater com os narradores dos jogos a queda e ascensão dos times ao longo dos quatorze anos.


Se não tinha muita imaginação, utilizou o pouco que tinha ao criar, em sua mente, um dia em que seria comentarista de futebol e falaria, sem papas na língua, sobre os técnicos e os jogadores de cada time brasileiro, sempre embasado nos dados estatísticos anotados detalhadamente em sua caderneta. Mais além seria pedir demais à escassa imaginação do pedreiro, achava feio sonhar e, mais feio ainda, acreditar no próprio sonho: não raramente caía com a barriga no chão toda vez que se prestava a devanear e a sonhar com o ofício de comentarista; logo que sua cabeça subia às alturas e a imaginação parecia pegar no tranco, Aristides atrapalhava fazendo-a estancar, prontamente pensava: - Ora homem, isto nunca acontecerá, volta pro teu mundo que teu sonho acaba é nesta mesa de bar.


– Moço, me dá mais uma dessa branquinha.

E lá se iam os primeiros quarenta e cinco minutos e com ele a página em que Aristides copiava as impressões gerais dos times adversários. Sempre que se pegava escrever, pensava em si mesmo engravatado, em um paletó de brim escuro, comentando os jogos com preparo e astúcia.
Foi numa dessas quartas-feiras que Aristides ouviu um bafafá nas mesas ao lado, logo se sentou, tirou do bolso a carteira surrada e o chaveiro enferrujado em que pendurava a única chave de sua casa. Mal se sentou e foi logo colocar as suas orelhas de abano à serviço da informação:



- Vai ser empate, rapaz!E digo mais, vai ser 2 a 2 porque o time é novo e não pegou confiança no técnico ainda, sem pensar que em casa, a coisa muda...


A discussão começava na mesa ao lado da de Aristides e era protagonizada por quatro homens que não conseguiam se entender toda vez que o assunto era futebol. Aristides escutava com cuidado tudo que diziam e comparava as opiniões alheias com as suas, quando então ouviu a aposta:


- Certo, então eu aposto o meu bilhete da mega-sena, esse aqui ó, do meu bolso. E olha que eu tenho sorte, já ganhei dois liquidificadores e uma moto numa festa de formatura. Minha mulher sempre que sonha com água me diz os números que ficaram na sua cabeça e eu faço a minha fezinha. Aposto esse bilhete, esse mesmo que esse jogo vai ser 2 a 2, quem arrisca o resultado? Quem acertar o que der ganha o meu bilhete.


O que se seguiu foi um bate-boca desordenado, um murmurinho incontrolável que agitava e animava a noite. Os amigos do tal apostador não sabiam se decidir, e também não achavam que o tal bilhete valesse alguma coisa. Foi tanto que um deles disse:


– Ah, mas veja, eu prefiro apostar coisas reais, mesmo, de carne e osso, ou melhor, de álcool e cana. Pra mim tava de bom tamanho você me pagar 4 doses da branquinha e fim de papo. Pra quê eu quero este bilhete, vou saber lá se tua mulher sonhou direito, se te deu os números certos? Eu gosto de aposta mais simples e que a gente veja logo o prêmio!Se der 2 a 2 eu te dou este boné, mas se for 1 a 0 você me paga uma caninha e pode ficar com teu bilhete que não quero isso.


Aristides continuava atento à discussão dos dois amigos que rapidamente tomava o bar inteiro, posto que até o garçon viera palpitar, aconselhar que o outro não aceitasse o bilhete nem nada disso. Subitamente espalhou-se o clima de polêmica o qual foi alimentado pela valentia do apostador:


– Quero ver quem é o homem nesse bar para apostar comigo este bilhete, o bilhete que foi cantado pela minha santa mulher , o bilhete premiado da mega-sena. Eu quero ver é mesmo se tem homem nessa espelunca,que queira apostar comigo, porque eu tenho coragem de apostar isso aqui , mesmo sabendo que está premiado.”


Ao ouvir que o apostador não avistara nenhum homem no bar, Aristides logo pensou em se apresentar, iria lá, chegaria à mesa do valente com sua cadernetinha em mãos e explicaria para ele, de acordo com o retrospecto do time do Flamengo quando jogava em casa, que o jogo não poderia ser empate, ele, Aristides, que não era flamenguista, acreditava que o jogo seria 3 a 0 para o Flamengo.

Pensou em peitar o corajoso e dizer: “Ei, espere aí, eu sou homem e lhe digo que o Flamengo não empata em casa faz tempo, os jogadores demonstram empolgação e entusiasmo, tudo isso renovado pela confiança que já depositam no novo técnico, isso só pode dar em uma vitória daquelas!”


Pensou, mas não disse. E lá ficou calado. O intervalo passou, o jogo continuou e , para a felicidade dos amigos incrédulos, o Flamengo fizera o primeiro gol. Seria o prenúncio da convincente vitória.


O tempo passava, e com ele o time do Flamengo parecia triturar o adversário, vários gols perdidos por falta de uma pontaria precisa ou por astúcia maior do goleiro. Foi contando com um momento de vacilo do zagueiro que o Flamengo marcou mais uma vez.


– Viu só? Agora é a hora da virada, o Fluminense jamais vai aceitar isso, eles vão é correr atrás do prejuízo, vai ser agora!


Se as palavras do dono do bilhete servissem de algo, certamente serviriam de estímulo para os jogadores do Fluminense cujas pernas ou não agüentavam percorrer o campo inteiro ou sofriam com as câimbras causadas por exaustão. Porém, de nada serviria o estímulo, a confiança do dono do bilhete: O time do Fluminense se entregava lentamente, reconhecendo a superioridade do adversário ou contribuindo diretamente para a ampliação do placar.
O terceiro gol veio justo num momento de descuido do zagueiro que, achando que o escanteio cobrado tinha como endereço certo a meta do goleiro, não se fez de rogado e adiantou a cabeçada, contribuindo tragicamente para o terceiro gol do time do Flamengo.


O murmurinho foi geral. Naquele bar não havia homem, não havia quem quisesse entrar na aposta e, por isso, ficou o dono do bilhete a sorrir e a desmerecer os seus amigos.


"- Seus burros, esse bilhete poderia ser de alguém aqui, e agora ele volta pro meu bolso! Haha, quando eu ficar rico, não piso mais aqui , ou melhor, se pisar, eu vou é descer do meu carrão e gritar: Nesse bar não tem homem não!”.



A brabeza logo se desfez e os amigos passaram a brincar juntos e num espaço de cinco minutos já se esqueceram do Flamengo, da aposta e do bilhete. Esqueceram até que não eram homens, de acordo com a lógica do dono do bilhete. Beberam até não se agüentarem nas próprias pernas.


Aristides se levantou, alcançou a carteira de couro preto e tirou os quatro reais para pagar as quatro caninhas que tomara. Foi ao balcão, deu um último gole no copinho que não tinha secado e seguiu caminhando, cambaleando , pensando no que poderia ter feito.


Devia ter chegado lá, mostrado sua caderneta e levado o bilhete do valentão. Ainda diria a ele que era muito homem, mais do que um homem, um comentarista nato, um cara responsável pelas estatíticas, desses que tem na tevê.


Pensou, mas não disse, não apostou e não levou o bilhete. Abriu a porta de casa, deixou o corpo cair no sofá estragado e por falta de força nas pernas já cansadas e embriagadas, dormiu por lá mesmo esquecendo, ele também, do Flamengo, da aposta e do bilhete.


Passaram-se umas muitas quartas-feiras até Aristides voltar ao bar. Tinha se resfriado e pensara ser o sereno da noite o responsável por sua moléstia, decidira então, numa tacada só, evitar o bar e com isto evitar as caninhas; seria melhor para ele, arrumaria uma mulher agora, porque mulher nenhuma gostava de boca com bafo de cana, pensava.
Ao tempo que pensava, imaginava que gostava do bar, que se não bebesse tanto poderia ir tranquilamente. Era sua única diversão, não iria abandoná-la por mulher alguma. “ Ah, as mulheres que apareçam nos outros dias da semana, a quarta-feira é minha”, pensou revoltado consigo mesmo o Aristides.


Foi logo ao entrar no bar que percebeu mais um murmurinho. Olhou para o relógio, olhou para a tevê e o jogo ainda não tinha começado, não entendera o barulho. Foi quando sua curiosidade, mesmo tímida, resolveu abrir a boca:



- O que tá acontecendo? Nem começou ainda. – Perguntou ao garçon.


- O que aconteceu? Meu amigo, o que aconteceu é que o Alves ganhou na mega-sena, com aquele mesmo bilhete que ele tava outro dia aqui, não sei se você viu, mas o Alves apostou o bilhete premiado, como ele mesmo dizia. Acontece , meu amigo, que o homem agora é milionário e com certeza vai chegar aqui com o carrão e cuspir na nossa cara, e ainda mais, dizer que a gente não é homem nem nada. Mas tem uma sorte aquele Alves!
Aristides ficou uns segundos sem acreditar, balançava a cabeça para ver se as idéias se sacudiam um pouco e formavam de volta o seu juízo. Imaginou como tudo poderia ter sido diferente, imaginou ele mesmo descendo do carrão, dando ordens aos arquitetos na construção e cuspindo na cara do Alves e de todo o mundo as palavras “ Eu sou homem, tá vendo? E ainda sou um homem rico!”.


O pedreiro sorriu levemente com o que imaginara, viu-se rico, de carrão e esnobando a turma do
Alves. O sorriso que brotou em seus lábios por entre seus dentes cariados foi verdadeiro, mas o que tinha de verdadeiro tinha também de efêmero: A imaginação era mesmo frágil e ele não era homem, nem muito menos rico. Ficou ali, a anotar os resultados de mais um jogo, na mesa de sempre, bebendo as quatro caninhas.
No caminho para casa pensou no Alves, no carro do Alves e tomou algumas resoluções em sua vida, as quais listou em casa, na mesma caderneta:


Número 1: Começar a apostar.
Número 2: Arranjar uma mulher que sonhe com água.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Soneto do amor total




Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim,

de um calmo amor prestante,

E te amo além, presente na saudade.

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,

É que um dia em teu corpo de repente

Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinícius de Moraes

segunda-feira, agosto 10, 2009

Ora bolas!


" A maior dor do mundo é pente com dor de dentes"


Mario Quintana



Era poesia sobre tudo...os famosos Quintanares, aclamados por gente como Manuel Bandeira e Érico Veríssimo, sem dúvida, estão para a história da poesia brasileira como Neruda está para história do Chile. Em Ora bolas: o humor de Mario Quintana ( L&PM Pocket, 2009), o jornalista Juarez Fonseca reúne 130 historinhas ou "causos" que, mais do que revelar o poeta Mario Quintana, nos apresenta a uma personalidade vivaz e irônica, por vezes cuel, facetas deste gênio das palavras em forma de versos.


O livro pode ser lido assim, em algumas horas de uma tarde chuvosa, em uma noite tediosa ou mesmo no meio de uma manhã meio preguiçosa. Nao importa: Quintana sempre será Quintana e o leitor será convidado a passear pelas agradáveis ruas da capital gaúcha, sentar em um banquinho da Praça da Alfândega ou saborear um café preto em qualquer bar na rua da Praia. Na verdade, o cenário pouco importa; se você não está em Porto Alegre, talvez comece a sentir, por correspondência, o clima aprazivel que gerou o poeta; se não conhece a capital gaúcha, certamente terá vontade de visitar todos os lugares que se tornaram cenário para as mais variadas historinhas que revelam o lado fanfarrão e zombeteiro de um poeta que não raramente é lembrado como uma personalidade doce, deveras doce.


No entanto, o que o leitor de Ora Bolas acabará inevitavelmente descobrindo é que por trás do poeta, do escritor de "Sapato Florido" , existia também uma veia cômica, um humor espontâneo, capaz de nascer das mais adversas situações, como exemplifica uma pequenina história contada por Juarez Fonseca:


" Na época em que trabalhava na Editora Globo, [ Mario Quintana] andava sempre duro. Como o salário terminava antes do fim do mês, vivia pedindo vales de adiantamento. Até que um dia o caixa chiou:


- Mas seu Mario, o senhor já tem um monte de vales!"

Quis saber, com aquele sorriso maroto:


- Afinal, são vales ou são montes?"



Era assim o tal Mario Quintana, poeta que não apreciava estar em meios intelectuais, que desdenhava da adoração de muitos que o procuravam para mostrar-lhe uns poemas, que nunca fora aceito pela Academia Brasileira de Letras. Vivia, tal como nos revela a historinha acima, na maior parte de seu tempo sem dinheiro, das suas finanças cuidava a sobrinha, Elena. No entanto, o que o leitor irá descobrir a cada virar de página é que o poeta não tinha nada de triste com essa situação, ao contrário: era capaz de fazer piada fosse qual fosse a situação.


O que todo leitor descobrirá, por si só, ao ler Ora Bolas é que Quintana, mais do que um ótimo poeta, era uma personalidade interessantíssima. Acho que muitos, inclusive, dariam um quinhão de seu salário -os que o recebem - para levar um fora - sempre elegante e inteligente - do célebre poeta que, apesar do talento, pouco ou nada fazia para exaltá-lo, como bem expressa a opinião de MonteiroLobato sobre o amigo gaúcho:


" Que coisa bonita o verdadeiro talento! Como vence, como se impõe - como se alastra por mais escondido que comece..."



Mais razões para passar umas horas agarrado à Ora Bolas? Não sei, as que tenho são essas, descubram outras por si mesmos, ora bolas - diria o poeta.

domingo, agosto 09, 2009

Não espere muito.


" Não devemos esperar muito dos outros ou do mundo exterior em geral. Aquilo que um homem pode ser para outro não é grande coisa"


Arthru Schopenhauer



Esse é um dos conhecidos aforismos de Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX que hoje é citado na maioria dos livros de Filosofia, seu reconhecido talento para analisar e observar o comportamento do ser humano em sociedade é modelo de vida para alguns, mas, nem por isso, Schopenhauer é unanimidade, é , por assim dizer, um filósofo politicamente correto.


Em A cura de Schopenhauer ( Ediouro, 2006), Irvin Yalom nos apresenta a vida e a obra de Schopenhauer, como se estivesse dando um curso para leigos sobre o pensamento, as idéias e a vida polêmica do filósofo alemão. Claro que o livro nos conta também a estória de um grupo de pacientes em terapia, como estes vão se reconstruindo, construindo identidades e buscando novas verdades, tudo isso entremeado pelos breves capítulos em que o autor apresenta ao leitor a estória de vida de Schopenhauer.


Ao folhear de páginas, o autor encontrará, possivelmente, muitas características deste grande homem que, por sua crítica mordaz à sociedade de seu tempo, aos homens de "bem , foi, por muito, desconsiderado. Apesar de tudo, Schopenhauer nos mostra a vida por outras lentes, sem cores vivas, mas , nem por isso irreais, foi por isso que Yalom me conduziu a conhecer mais a obra de Schopenhauer . O que descobri? que ele não estava tão errado assim.


Em "Parerga e Paraliponema" ou " Aforismos para a sabedoria da vida", o leitor é apresentado a um Schopenhauer mais maduro - este foi seu último livro - mas ,nem por isso, dócil. Devotado a temas inéditos para muitos filósofos, Schopenhauer nos dá dicas sobre como conviver em sociedade - ja que seria impossível evitá-la, como se relacionar com os outros e, ainda além, como deveria ser a vida de um homem feliz.


Minha pretensão aqui não é esgotar essa obra, tampouco o pensamento do grande Schopenhauer, conhecido por seu mau humor e por comprar ingressos para duas pessoas aonde quer que fosse, somente para não ter o desprazer de ver alguém sentar-se a seu lado em alguma apresentação. Schopenhauer, no entanto, é mais que mau humor, é mais que pessimismo.


Como se pode perceber pela frase que escolhi para iniciar esse artigo, Schopenhauer não tinha muita fé no ser humano; considera-se , ele mesmo, como um ser genial, diferente dos outros a quem pouca ou nenhuma consideração deveria devotar. Também é de Schopenhauer a inspiração de uma frase que nós conhecemos bem, do senso comum: "Quanto mais conheço os homens, mais admiro meu cachorro".


Eu pergunto agora: Será que ele não está certo? Vejamos, claro que existe bondade e há quem diga - poetas e etc - a felicidade até existe, o amor, então...artigo por demais popular. Mas, e a sinceridade? E a gratidão?


Certamente aí temos um caso a se pensar: quanto mais nos damos, menos recebemos, quisera eu dizer o contrário ou quisera eu estar enganada. A Quem discorda e acha essa declaração completamente pessimista, dou um conselho: Tente ser bom, bom, assim, na acepção própria do termo, sem maldades, sem interesses levianos, sem pensar em vantagens de antemão. Faça o bem.


Exercício número dois: Perceba o que você receberá de volta. Algumas almas, certamente perceberão: "mas que pessoa boa". Porém, a maioria das reações a seus gestos nobres podem se resumir a uma palavra: Exploração.


As pessoas, em sua grande maioria, pensarão: De onde sai isto, poderá sair mais. O que se ver a seguir é uma criatura ser explorada até o seu âmago, até sua alma, por terceiros que visam algum tipo de vantagem.






É, Schopenhauer não estava errado, o homem é mesquinho, egoísta, vaidoso, repleto de vícios e que, ainda assim, colecionam de bom grado. Porém, como fugir dessa luta louca em que nos envolvemos no intervalo de nossa não-existência para nossa morte? Não há fuga possível, o que nos resta, portanto, é aprender, aprender com a experiência - isso é de Schopenhauer - porque só esta poderá salvar de interesses escusos, de explorações, de ingratidões. O grande filósofo não estava errado em nos dizer não esperar grande coisa dos nossos semelhantes.





Aí eu lembro de Millor, o nosso Millor..." Amar o meu semelhante? Sim, mas, aonde ele está?"





Por isso, aprendamos todos a lidar com esse mundo, com a mesquinharia, com a exploração e com tudo o mais que nos faz humanos , demasiadamente humanos. Conselho? Ouça Schopenhauer: Não vá esperando grande coisa, assim, a fortuna que receber será considerada uma grata surpresa.

terça-feira, agosto 04, 2009

Dos vinte e sete




Salve a poesia instantânea

filha dos meu vinte e sete anos

e rasteira como a primeira dos meus

quinze.


Salve a poesia instantânea

escrita com a pena do entusiasmo

do maior amor do mundo

que teima em aparecer e desaparecer

todas as vezes em que meus olhos teimam em fechar



Salve a poesia que é filha do amor

dos meus vinte e sete anos

que invade e anuncia

o velho amor dos meus pobres quinze anos.

segunda-feira, agosto 03, 2009

O menino do pijama listrado: Um ensaio sobre o mercado livre das relações humanas






Sem dúvida haveria diversas maneiras de abordar o filme The boy in the striped pyjamas ( baseado na obra homônima de John Boyne). Uma delas certamente seria discorrer sobre as mazelas causadas pelos nazistas ao povo judeu no século XIX, durante a Segunda Guerra. Outra, com certeza, poderia ser falar da infância e da inocência perdidas, tal como nos sugere a frase que inicia a narrativa, " A infância é medida por sons, aromas e visões, antes que o tempo obscuro da razão se expanda." , de Jonh Betjaman.


Eu quero ir por outro caminho, um caminho que nos fale sobre as diversas provações que passamos diante da trajetória que fazemos acima destes sete palmos que um dia nos servirão de teto. Quero dizer bem claramente que, para mim, o filme pode ser abordado a partir da noção de que se trata, mais do que de uma estória sobre o Holocausto - sabemos que a temática já foi explorada à exaustão por tantos filmes como A lista de Schindler, O julgamento de Nuremberg, e , mais recentemente, por outros como O homem bom, A vida dos Outros e O leitor, além de tantos que trazem o horror nazista como pano de fundo para contar estórias ordinárias, de pessoas simples, que, de alguma forma, foram afetadas pelo que se passava no mundo à època.

O menino do pijama listrado, título em português da obra inspirada no livro de John Boyne, para mim, fala de provas de amor.


Para deixar mais claro, mas sem por isso revelar o desfecho do filme, trata-se de uma estória contada por Bruno, um menino alemão de oito anos, filho de um soldado que faz parte do alto comando nazista. A narrativa é contada pelo ponto de vista dessa criança que é obrigada a deixar seu antigo lar para acompanhar sua família que se mudará para Auschwitz. A casa de Bruno ficava nas imediações do campo de concentração mais famoso por ter sido cenário de uma das maiores barbáries nazistas: o massacre do povo judeu.


Esse filme certamente, ao que tudo indica, poderia trazer cenas chocantes e de efeito - o efeito de nunca esquecermos o que foi feito em nome da primazia de uma raça sobre outras, realmente existem várias cenas difíceis, porém, a partir do relato de Bruno, uma criança que não entende o que se passa aos arredores de sua casa fria e sem vida, entendemos que por trás deste cenário existe a ruína de uma família, assim, simples, como a minha e a sua, "mamãe, papai, avô, titio", já diriam os Titãs.


Em suma, existe uma mãe, um pai, e duas crianças, Bruno e sua irmã Gretel que vêem suas vidas mudarem a partir de sua chegada ao campo de concentração. A mãe de Bruno, alheia em suas atividades de dona-de-casa e mãe em tempo integral, pouco percebe o tamanho da atrocidade que é cometida ali, praticamente no quintal de sua bela casa. A irmã de Bruno, Gretel, aos poucos vai assimilando a filosofia de Hitler e, aos poucos, começa a desenvolver uma postura mais adequada ao que se esperava de uma "juventude militante", sem dúvida, uma tentativa de fazer-se importante para seu pai, para quem as palavras de Hitler deveriam ser seguidas com obediência irrestrita.


Nesse pano de fundo, percebemos que a estória é mais uma estória de pessoas e as provas de amor que, constantemente, em diversas fases de nossa vida, vamos dando e recebendo. Se seguirmos o trilhamento do filme, vemos uma mulher que, ao perceber a tragédia que lhe cerca, implora ao marido para que lhê dê uma prova de amor saindo daquele lugar, e , assim, extirpando de suas almas qualquer resquício de culpa que poderia lhes acometer.
Esta prova, diga-se de passagem, não lhe foi dada pelo marido, o qual, por amor ao nazismo e ao que acreditava, continuava a contribuir com o regime totalitario responsável pelo maior genocídio do qual se tem notícia em todas as épocas da estória.


Qual seria a prova de amor de Gretel, a jovem irmã de Bruno, se não incutir em sua personalidade o rigor, a disciplina e o pensamento nazista segundo o qual os judeus deveriam ser punidos por serem pessoas inferiores? Devia isso ao pai, queria ser vista com orgulho, tanto é ue o filme deixa em suspenso uma certa admiração que a jovem nutria pelo belo tenente que servia em sua casa. Gretel, tal como toda criança, visava a atenção, o interesse do pai e um meio de fazê-lo seria engendrar em sua personalidade, ainda infantil, o discurso que agradaria a mentalidade paterna, isso não é novidade, é coisa da Psicanálise. (!!)


Para mim, uma das maiores provas de amor que vemos no filme vem da parte de Bruno, quem conta a estória. Bruno, em uma de suas explorações, faz amizade com o menino judeu Schmuel e logo toda a diferença existente entre eles e metaforizada pela cerca de Aschwitz que os separa passa a encantá-los e atraí-los. Vê-se bem que não seria uma cerca capaz de impedir que uma rápida amizade acontecesse entre os dois meninos da mesma idade mas de mundos tão diferentes.

O momento da prova de amor acontece quando Bruno, visando se desculpar com Schmuel decide empreender uma busca pelo pai do seu novo amigo. Aí é que começa o clímax da estória e eu não estragarei aqui. Poupo-lhes dos detalhes.


Trocando em miúdos, eu poderia ter visto o filme e ter falado aqui sobre o massacre dos judeus, sobre a servidão do povo alemão ao regime totalitário, sobre a ámizade de Bruno e Schmuel, enfim. No entanto, prefiro eu falar das provas de amor, que, para mim, movimentam a narrativa e se constituem em causa do clímax final.
Há muitas outras questões que podem ser aqui analisadas, como a difícil relação que o pai de Bruno nutre com sua própria mãe, personagem secundária sobre qual pouco se sabe, a não ser que não concordava com o trabalho do filho: em um dado momento, a mulher de Ralf, o pai do menino Bruno, comenta que nem sua mãe o amava, o que também nos faz pensar em provas de amor que Ralf não recebera, sobre sua personalidade, sobre o que lhe teria motivado a seguir os passos de Hitler, e enfim, constituir sua estória relacionando-a ao regime nazista.


Há várias e várias temáticas secundárias, relações a se estudar e , ainda assim, fico com a questão das provas de amor. Esquecendo um pouco o filme, podemos generalizar a questão: Por quantas provas de amor poderíamos medir nossas vidas? Será que não se trata sempre de dar e receber provas de amor? Uma outra maneira de dizer: Como nos doamos para as relações e para os objetos para os quais dirigimos nossa libido ( já utilizando o linguajar freudiano)?


Não é raro ouvirmos falar em aprendizado, conhecimento e sofrimento ao falarmos da vida, do caminho que percorremos. Dostoiévski uma vez já disse que feliz era aquele que conhecia o motivo de sua infelicidade e, diante disto, não serei eu aqui a primeira a falar de vida e relacioná-la com termos como "felicidade" e "infeliciade".


Portanto, prefiro falar das diversas provas de amor que a vida nos incumbe de dar e receber. Por elas é que vivemos nossa vida. Desde pequenos acostumamos a receber e é isto que nos faz transformar de um bebê para um sujeito, daí crescemos e aprendemos que também é possível dar provas de amor e que, justamente por dá-las é que podemos receber tantas outras.

Durante nosso caminho, no entanto, não é fácil ter consciência de que a vida é repleta e digo mesmo que somente feita de provas de amor: Por muito tempo podemos achar que não recebemos provas suficientes e que, por isso, o mundo terá culpa e será responsável pela transformação de um sujeito em um sujeito plenamente insatisfeito com o que recebeu e que, por isso, incapacita-se de dar estas provas a outrem.


Aí crescemos, mais e mais, e percebemos que mais importante do que choramingar as provas que não recebemos é quitar as dívidas dos outros e recomeçar do zero, dando tantas provas quantas nos couber. É isto, em suma, que corresponde ao sentido da vida: um mercado livre de troca de provas de amor, provas estas que permearam a estória de ruína de uma família em O menino do pijama listrado.


O interessante é notar que a família pode saltar da tela e se transformar na minha, na sua, na nossa. É muita prova de amor e por isso não raramente nos perguntamos...será que damos o suficiente? Será que recebemos o suficiente? Acredito que nunca chegaremos a estas respostas qe tantas vezes os mais sábios procuram na análise. No entanto, creio que somente em nos perguntar já estaremos lucrando e mais aptos para dar mais.


No fim do filme? No fim do filme você se compadece e percebe que dar acaba sendo sempre mais importante do que receber. É assim também na vida real.