segunda-feira, abril 28, 2014

O filósofo, esse inocente, não sabe de nada.


" Não mais que qualquer um, o filósofo não sabe muita coisa do mundo"

Essa frase foi proferida por Charles Melman e eu só a conheci hoje, quando busquei na biblioteca seu livro sobre as novas formas clínicas de patologia mental. Até aí tudo bem, nada de novo no front.

Como eu persigo a ideia de que nada que me chega aos olhos me chega por acaso, conheci esse texto horas antes de ter a oportunidade de assistir em aula um seminário preparado por colegas de sala sobre a Filosofia de Nietzsche e, mais precisamente, uma acalourada discussão sobre como juntar seu pensamento niilista às formas de se fazer e inventar a clínica na contemporaneidade. 

Um desafio em potencial, mas tanto Melman, como a aula de hoje me fizeram pensar muito sobre as possibilidades que estamos usando para re-significar nossa existência, sobre como vivemos nossa vida. Enfim, muitas questões efervescem em minha mente.

Eu vim caminhando para o albergue em que toda segunda-feira me instalo na companhia de várias interrogações as quais insistiam em apertar o passo, e eu digo, demorei para alcançá-las, até que fui surpreendida pelo advento, pela assertiva em forma de insght que assustou os meus ouvidos e que fez tudo se transformar.

Logo tudo fez sentido, e esse texto é uma tentativa de unir, o que fala Melman sobre o sujeito da ciência e a filosofia nietzscheana que foi discutida na aula de hoje ( e nisso não há pretensão, pois não me coloco aqui como profunda entendedora do autor alemão, mas apenas como alguém que o toma como interessante pensador que me auxilia a refletir sobre a clínica), isso tudo é devido ao encontro com a surpreendente lição que ouvi de um guardador de carros que cruzou meu caminho.

Vejamos então como as questões se articulam.

Já há algum tempo que discutimos em sala os principais pensadores da Filosofia do século XIX e seu papel para repensarmos a clínica. 

Já passamos por Wittgenstein e hoje foi a vez de Nietzsche, na verdade, em outras aulas pudemos compreender melhor a linha de pensamento do filósofo, mas é a atividade de seminário que torna possível e palpável a relação entre Filosofia e Clínica. 

Claro que Nietzsche é um mundo e eu não tenho a pretensão de aprofundar aqui uma crítica sobre seu pensamento, minha leitura é pouca,  isso eu deixo para os filósofos e para os entendedores especialistas, comentadores de sua obra. 

Mas há um ponto discutido hoje que me chama atenção entre tantos outros: a ideia de que Nietzsche não fora um filósofo do trágico, mas sim, um filósofo trágico, a ideia da tragédia perpassa sua obra e nos permite uma aproximação com a clínica e, claro, a meu ver, possibilita uma grata ressonância na clínica psicanalítica.

Em um texto interessante chamado "Nietzsche e o trágico: abertura para a valorização da diferença", eu li que ele tinha certa adoração por duas figuras: Wagner e Schopenhauer, apesar de romper com algumas ideias desses ídolos posteriormente, os dois nomes foram fundamentais para o pensamento nietzscheano e merecem menção. 


A tragédia, para Nietzsche, é a própria condição da existência humana, a dialética Apolínea e Dionisíaca nos torna, para sempre, seres em conflito entre o não preocupar-se e o entregar-se à vida, entre a ordem e o caos, e deste, há que nascer uma esperança. 


Somos sempre seres apolíneos e dionisíacos e a tragédia consiste, segundo o texto citado, em aceitar a vida, o destino, em dizer um "sonoro sim à vida" ( Magalhães e Di Matteo, 2010), o que implica recebê-la com o que ela tem de dor e beleza. Isso é ser trágico para Nietzsche.

Essa aceitação da existência trágica me faz retornar ao texto de Melman citado aqui no início, sobretudo quando o autor sustenta a ideia de que a terra do sujeito do inconsciente é o exílio, é disso que se trata em Psicanálise e é isto que me faz pensar na estreita relação entre tragédia, em aceitar a vida em sua dor e em sua delícia ( me lembrei de Caetano) e exílio, este como pátria do sujeito inconsciente que, se não ignora o cogito cartesiano, não lhe reconhece como salvador da pátria.

O que quero dizer é que, diante de todos os ensinamentos de Nietzsche dos quais não me julgo sabedora, essa noção de tragédia e da oposição entre apolíneos e dionisíacos, eu vejo o interesse maior da Psicanálise, qual seja, o entendimento de que há apenas um lugar para o alojamento do sujeito do inconsciente,e esse não é o cogito, não é a razão absoluta, não é Ciência, não é Deus, o sujeito do inconsciente é ateu e cético, eu suponho. 

O desamparo é a prova da tragédia existencial da qual Nietzsche fala, e contra isso, contra a condição de desamparo, pouco se pode fazer. 

O desamparo, agora podemos dizer, lança luz sobre essa intrincada tragédia que construímos em nossa existência ( ex-sistência, nos adverte Lacan). 

Sendo assim, somos trágicos, pequeninos seres desamparados que , desiludidos com a Ciência e com a Religião - e nisso há sempre a lembrança de Nietzsche - não temos outra alternativa a não ser habitar o desamparo, mas, então, como fazê-lo?

Como dizer um sim sonoro à vida, como abraçar esse exílio?

Nesse ponto chegamos ao conceito de amor fati de Nietzsche, ou o amor ao destino, a vivência plena entre os pontos que estão em constante tensão, entre Apolo e Dionísio, o amor fati é poesia pura, e acho que é disso que se trata em Psicanálise.

Aqui volto à Melman quando este diz que na Psicanálise não se trata de remédio, pois não há o que se admnistrar. Aí a Psicanálise se distancia da Psicoterapia e das técnicas denominadas auto-ajuda.

Não há o que se administrar, não há fármaco capaz de dissolver a tragédia, não há polo vencedor na querrela inconsciente. Mas isso não significa que não há o que se fazer, aí há o amor fati.

Desse jeito, penso que reinventar a clínica e ser psicanalista é se lançar nessa labuta diária que é viver a tragédia sem por isso ser aplacado pelo desamparo, pela própria guerra.

Fazer Psicanálise, arriscaria, é a arte do bem viver no exílio, é a arte de viver na corda bamba, e o que a torna arte é a noção de entregar-se à vida, ao amor fati, que implica também se responsabilizar por suas escolhas, é se implicar na própria tragédia.

O amor fati é assumir-se, é decorar o exílio com as cores mais bonitas e sabê-lo intransponível, é assumir-se e não depender de Deus, ou de Outro qualquer que retire o lugar de responsável pela própria tragédia.

Assim, entrar em análise é uma das coisas mais corajosas a que alguém pode se submeter, pois é lançar-se ao eterno e implacável Acheronte, e nossa arma sempre será o amor fati, o dizer sim, o que não é fácil e o que exige algo do que Nietzsche nos fala: dizer sim à vida exige liberdade, talvez a liberdade que o movimento niilista propõe.

Portanto, a liberdade seria o motor da tragédia, a liberdade seria o que estaria além do bem e do mal, o pleno trânsito do sujeito do inconsciente se dá por causa da liberdade, livre do cogito, longe dos grilhões morais, seria liberdade perante a religião, liberdade perante Deus.

Isso são apenas pensamentos que me acompanham desde quando comecei a compreender melhor Nietzsche. Aqui não tenho intenção de interpretá-lo com Freud, ou "usando" Freud. 

Cabe dizer que o ano em que Niezsche morre é o ano de lançamento da Traumdeutung, há algumas menções ao filósofo alemão na obra do pai da Psicanálise, o resto a gente associa por interesse e conta própria e nisso, repito, não assumo o lugar  do sujeito suposto saber, só me interesso em aproximar mentes tão pertinentes para sua época e para a contemporaneidade.

Eu fiquei um bom tempo tentando achar a linha certa para costurar esses argumentos, a linha correta para iniciar o trançado desse texto trágico, e, por sorte, o acaso me encontrou e eis que surge a personagem fundamental e a quem eu devo esse texto e os insights que o costuram: o guardador de carros que eu vi na rua. 

Eu vinha atravessando a rua da faculdade, eu e minhas interrogações, estas sempre a minha frente, driblando os carros faceiramente, eu ia com mais calma e medo, passadas leves até ouvir o inesperado do tal homem que guardava os carros na esquina. 

Ao atravessar a rua, eu ouvi fragmentos de uma conversa quase inaudível, eram trechos soltos, mas o que ficou foi isso que ressoa em meus ouvidos até agora, disse ele para alguém, e eu não sei bem o contexto, mas ele disse bem assim: 

"Solto ele já é, vamo deixar ele livre"

Era o que me faltava para entender Nietzsche, obrigada, moço que eu não conheço, isso me faz perceber tão claramente a ideia de amor fati, a ideia do próprio exílio. 

Soltos no mundo, desamparados todos somos, mas, sermos livres, eis o desafio, tanto para a filosofia trágica, como para a clínica psicanalítica.

Não seria essa a proposta essencial do niilismo? Seria o guardador de carro um niilista por vocação e devoção?

Agora me sinto em condições  para recorrer à Melman pela última vez, e ouso complementar a frase que abre esse texto:

"O filósofo não sabe nada do mundo, mas o guardador de carros da rua, este sabe".

Agora tudo se costura. Agora um alívio - temporário - para os percalços do exílio.



quinta-feira, abril 24, 2014

Gabo, o livro póstumo ou como recorrer a Merleau-Ponty para não cometer um crime




Em tempos de culto ao espetáculo, alguns eventos tornam-se mais ou menos interessantes a medida em que a sociedade os reorganiza, os re-significa e os faz parecer outra coisa nesta contemporaneidade da qual todos nós somos vítimas e algozes.



Desde  a última quinta-feira os jornais e programas televisivos começaram a explorar a figura de Gabriel Garcia Marquez, para os íntimos, Gabo. 



Gabo (me faço de íntima por economia mesmo) andava um tanto quanto recluso devido a seus problemas de saúde, os quais não eram segredo para seu ninguém, só que, quando morre um imortal, quando morre um Nobel, devem ser rendidas homenagens colossais, assim foi com Saramago, assim foi com tantos outros que certamente criaram um mundo melhor, mesmo que apenas na Literatura.


 Não sou contra as homenagens, mesmo que excessivas - o funeral durou muito tempo até ser realizada a cerimônia de cremação. Não questiono aqui a importância do defunto, nem a necessidade quase infantil - e culpada - de prestarmos todas as reverências a alguém da estirpe de Gabo.


Na verdade, por ser quem ele é, por todos os livros que escreveu e os quais poucos eu li, confesso, eu não acho enfadonho assistir as homenagens fúnebres e nem as edições jornalísticas que tentam resumir sua importância em alguns minutos preciosos que cabem num telejornal. 

Eu sempre penso nisso: nos editores, naqueles trabalhadores que têm por ofício realizar em suas ilha de edição, um breve resumo mais ou menos fiel à importância do defunto, deve caber toda a obra de quem morre naqueles meros dois minutos de exibição.

Nesses preciosos minutos sobre Gabo, há de se ouvir os nomes "Cem anos de solidão" e "Crônica de uma morte anunciada", acho que caberia também "Memórias de minhas putas tristes", este último nunca mencionado nos jornais e programas, o que me faz questionar o motivo do 'esquecimento" de uma obra tão importante, apesar de mais recente, do defunto célebre que ainda nem esfriou.



Divagações à parte, uma coisa me chamou atenção nesse momento de comoção pela morte do escritor: hoje assisti a um programa em que se falava da possível publicação de um livro que o autor não pensou em publicar. Consta que o seu editor pediu autorização à família de Gabo para publicar o que viria a ser sua "obra póstuma". 


Intitulado "Em agosto nos vemos", sabe-se pouco sobre ele, mas o que se sabe é que em 1999, Gabo submetera seu primeiro capítulo à audição pública. Somente o primeiro capítulo.Depois disso lhe coube o quase mais absoluto esquecimento.


De 1999 para cá, muita coisa foi publicada, inclusive “Memórias de minhas putas tristes” (2004) que foi um estrondoso sucesso de crítica e público, o que contribuiu para  o eterno adiamento da obra que se quer póstuma agora.


Qual seria o motivo, a razão pela qual “Em agosto nos vemos” fosse relegado ao esquecimento, ao fundo de uma gaveta qualquer? Segundo foi relatado pelo mesmo jornalista, talvez um dos motivos para o esquecimento do livro tenha sido o fato de que Gabo nunca ficou satisfeito com o ponto final que lhe cabia.


Apenas encerrar o livro, isto ele não conseguia. Consta que foram seis, seis finais diferentes que Gabriel Garcia Marquez tentou fazer funcionar em seu livro, mas que, ao que parece, não cumpriram o papel de agradar o afamado escritor. O que aconteceu? Por que Gabo enganchado nesse tal livro?


Talvez nunca saibamos estas respostas, mas o que sabemos, neste momento, é que há um interesse do editor publicá-lo, e agora que se deu a morte do criador, a criatura surgiria literalmente das cinzas e se tornaria a obra póstuma a ser celebrada e honrada com todas as honras e méritos que cabem a tudo que é póstumo.

Essa notícia evoluiu para uma interessante crítica em que se falou muito sobre ética e sobre o desejo do escritor. Por essas surpresas que o destino nos prega, acontece comigo acabar lendo algo relacionado com o que lera anteriormente (mesmo dia) ou mesmo relacionar uma leitura da noite à algo visto em jornal ou televisão mais cedo, por que acontece?

Eu sempre acho que é a mão do destino que me faz à noite ler algo que corrobora ou se relaciona perfeitamente com o que eu experimento ao longo do dia. Não sei dizer, mas sempre tendo para explicações ocultistas. Não sei nem mesmo se há relação possível nesse momento, mas faço-a, na cara dura.

Não sabendo se existe relação plausível entre o comentário que vi à tarde e o que direi a seguir, eu insistirei, mas o caso é que para mim parece haver uma relação, ou pelo menos, se não há eu a forcei.


O que relaciono - a pulso ou naturalmente - é essa questão do "livro póstumo" de Gabriel Garcia-Marquez a alguns pontos da filosofia Merleau-pontyana. Na verdade, o que me interessa em Merleau-Ponty é seu apreço pela arte e por esta ser um campo privilegiado em sua ontologia. 


A fenomenologia de Merleau-Ponty vem na esteira do pensamento de Husserl e trata do resgate do Ser, fala também do interesse pelo Espírito Selvagem e outros bichos, mas o que me fez relacionar "Em agosto nos vemos" a sua filosofia é na verdade sua forma de conceber  a arte como a própria experiência, como um meio através do qual é possível realizar uma torção na linguagem, fazer aparecer o inédito a partir do que está estabelecido. Todo meu argumento será centrado nisto. E há tanto de lacaniano nisto, embora o autor seja um fenomenólogo...


Marilena Chauí em recente artigo publicado na Revista Cult sobre o filósofo nos apresenta alguns conceitos da filosofia e da ontologia merleau-pontyanas, e diante do que expõe a autora, o que me chama atenção é a possibilidade de ver Psicanálise em um fenomenólogo - isso eu não acho forçado, também não sei se são os óculos que uso, quem sabe?

Especialmente quando se trata de entender que o artista, o escritor, o pensador realiza uma torção na linguagem ao promovê-la ao mais além, ao levá-la a um lugar nunca antes habitado, este lugar seria a própria experiência que não se encerra em um momento, a experiência - bem dizer - nunca se esgota, e, consequentemente, o que foi dito, nunca será terminado, porque, ao ser torcido e retorcido no exercício mesmo da feitura de uma obra, já se cria outra coisa, já se cria um excesso e ao mesmo tempo uma falta, excesso e falta estes que inevitavelmente levarão outros artistas, outros escritores, outros pensadores a novamente torcer, retorcer e criar algo, outra coisa, essa coisa é a experiência.


Nesse rumo em que já estamos, fica difícil não pensar que a questão polêmica entre publicar ou não o último livro inédito ultrapassa os limites da ética, pois nos apresenta outras interrogações, o que, para Merleau-Ponty, é um bom sinal, então, tendo o seu aval, sigamos.


Para o fenomenólogo em questão, só há obra se há algo a dizer, nesse sentido, o excesso e a falta são inerentes a toda obra e a esta cabe sempre o espanto, é esta, inclusive, a atitude que devemos ter em relação ao mundo.

Então aqui eu chego ao ponto que desejo: como seria escolhido um dos seis finais para o livro? Será que ficou algo escrito, será que restou um último desejo de Gabo no que concerne à preferência de um final em detrimento dos outros? Como o editor saberia? Como a família saberia?


Eu fiquei pensando em tudo isso e no momento em que fazia minhas as interrogações que devem ser de muitas pessoas que também assistiram ao programa hoje à tarde, eu pensava em Merleau-Ponty e na sua forma de conceber a linguagem como prenhe de sentidos, como tudo aquilo que escapa às significações. 

Pensei também que dar um final a um livro que nem o autor cogitou seriamente publicar soaria como um desrespeito a essa mesma linguagem, misteriosa por excelência, experiência por vocação.

Dar um final e mais, publicar "Em agosto nos vemos", me soa mais grave do que um problema ético, por mais implicações que existam em um problema de cunho ético. Para mim, e agora eu forço, seria o mesmo que cometer um crime.

Publicar e dar a este livro que já se sabe problemático um estatuto de obra póstuma me parece um problema muito grande, a começar pelo fato de que temos uma mania interessante de situar os autores, os pensadores e o que eles pensam em um dado momento cronológico, assim temos "o jovem Marx", "o velho Marx", e outro dia ouvi de alguém que já se fala em um "ultimíssimo Lacan".

Tenho medo que Gabo vire o "último Gabo” “ O Gabo de Em agosto nos vemos", pois me parece óbvio que este livro seria fruto do oportunismo editorial que adora esses momentos de comoção para lançar algo "inédito", o "nunca visto" do autor a quem são rendidas todas as homenagens. Acho até perigoso. Seria um livro de Gabriel Garcia-Marquez ou do seu editor?

Nesse exato momento penso em uma coisa: será mesmo que o melhor que se pode acontecer a um livro é ser publicado? Tenho medo do que esta reflexão pode fazer surgir. Mas vamos lá.

Tudo isto é perigoso porque, no sentido merleau-pontyano, toda obra tem algo a faltar, tem um excesso que quase incita as outras pessoas a retomarem o edifício construído e acrescentarem novas pedras, para uma nova obra surgir.

Sendo assim, escolher um final seria proibir qualquer outro dos cinco finais de existirem, de co-habitarem o mesmo espaço, na folha de papel que, se foi escrita, não saiu a rua, não se expôs aos olhos públicos.

Serei enfátic: Caso esse livro seja publicado, eu serei a eterna viúva dos outros finais, estarei, ao ler, sempre pensando nos outros cinco que por alguma razão não foram publicáveis, foram com Gabo para a última morada.

A publicação do livro que se quer póstumo se torna não apenas um desrespeito à vontade do autor, mas também um problema fenomenológico ao romper com a concepção de que toda obra é inacabada porque vem alguém e a significa.

Claro que se pode pensar que não será a publicação da obra que a tornará acabada, afinal, se assim fosse nunca deveriam ter publicado nenhum livro, uma vez que o ponto final seria sua morte. 

E não é isto, absolutamente, não penso que o ponto final retira do livro seu potencial criador, ao contrário, o ponto final muitas vezes é o motor para que pensemos em tantas coisas, para que criemos algo, o ponto final, é, merleau-pontyanamente falando, o ponto de chegada onde vazio e excesso se encontram, esborram e nos fazem criar.

O que me faz pensar além do problema do ponto final e na eleição de apenas um final, é justamente o fato que ler um livro assim seria um crime, e aqui novamente recorro à  Merleau-Ponty. Segundo o autor, quando leio um livro eu não penso como o autor, eu sou dentro do autor, eu sou o autor, eu vivo a experiência.

Esse problema é muito mais interessante aqui do que o ponto final e é ele que me causa a maior dor de cabeça. Meu medo é justamente este, este medo de estar cometendo um crime, de fazer algo que de certo Gabo não aprovaria. 

Ora, se a literatura e a arte em geral possuem esse estatuto privilegiado de chegar perto do Ser, e se o escritor e leitor se fundem num só a viver a experiência da leitura, eu penso que essa experiência eu viveria sozinha, sem Gabo.

 Eu só penso que a experiência de ler "Em agosto nos vemos" seria algo meio proibido, algo assim para ser feito escondido, eu penso que lê-lo e finalmente descobrir o tal ponto final não seria algo que Gabo permitisse.

Ao ler o que se quer por "obra póstuma" eu estaria rompendo essa relação quase cúmplice entre leitor e escritor, eu penso, na verdade, que Gabo acharia uma ousadia, e assim, eu não pensaria dentro dele, eu seria apenas aquele que sorrateiramente pegou umas páginas escritas por alguém que não desejaria que eu as lesse e sempre estaria fazendo algo errado, algo criminoso.

Assim, estaria rompendo com a própria experiência. Seria como um rato que meticuloso e sorrateiro invade a casa alheia, e isso não evitaria que em toda página que eu virasse eu pudesse ouvir o vozeirão do defunto a me interpelar: "O que você está fazendo?"

Merleau-Ponty certa vez descreveu um livro como "uma máquina infernal de produzir significações". Eu não vejo melhor definição para um objeto, apesar da filosofia em questão desprezar qualquer tipo de representação ou conceituação. Mas, vamos fazer um esforço.

Talvez eu esteja sendo dramática ou até mesmo pessimista, talvez a falta que certamente existiria no “livro póstumo” é o que o tornaria célebre, é o que o tornaria prenhe de significados, cheios de lacunas a preencher, talvez ele me lance a uma nova experiência, talvez ele, o último, não venha com o peso do livro póstumo, talvez venha como uma interessante descoberta, mas jamais virá com a cumplicidade terna que só observamos no verdadeiro encontro entre autor e leitor...

Não importa, eu não vejo o "livro póstumo" que ainda nem existe como uma máquina infernal de produzir significações, porque sempre me parecerá romper com a cumplicidade harmoniosa entre aquele que faz surgir do silêncio as palavras e aquele que as lê já colocando uma ou outra palavra sua em cada página. 

O livro não será nem o último, nem o primeiro Gabo, porque, como nos ensina a boa filosofia, o autor é tudo isso ao mesmo tempo: passado, presente e futuro e não será o nome “póstumo” que me fará vê-lo como uma consequência cronológica da obra de Gabriel Garcia Marquez.

Por esses motivos citados, eu recuso ao livro póstumo e reafirmo aue se há um Gabo ao qual recorro é o Gabo que é pura experiência, pura magia dos sentidos, puro viver, eu sinto e vejo o colorido e o sol de "Memórias de minhas putas tristes", com a cumplicidade carinhosa do autor que insistentemente toca meu ombro a cada página que eu viro. 

Este sim, me é permitido, este é uma máquina infernal, este me abre o mundo, lhe dá forma, cor e sabor, mas, esperem, isto é Fenomenologia!

quarta-feira, outubro 03, 2012

Melanie Klein e a jornada de Fabian: sobre a identificação


Ao ler o primeiro capítulo do livro "Temas de Psicanálise Aplicada" (Zahar, 1955, organizado por Melanie Klein, entre outros) me deparei com algo que muita gente ainda considera novo: a análise de uma obra literária como ilustração de conceitos da teoria psicanalítica, como um bom motivo para estudar.
 
Para aqueles que acham que isto é novidade, a tal da interface, sinto dizer , mas desde Gradiva (1906) Freud tenta ilustrar sua teorização com algumas obras da Literatura, fazendo com que percebamos que, na verdade, o que interessa à Psicanálise é o humano e suas vicissitudes e disto a Literatura está repleta. A literatura ocupa um lugar precioso na Psicanálise, interessando também a outros teóricos que não apenas Freud. É o caso de Melanie Klein.
 
Melanie Klein é uma autora que nem sempre é valorizada como deveria. As pessoas geralmente associam a sua teorização com a clínica infantil, mas é importante que saibamos que os conceitos pensados por Klein são de extrema importância para o desenvolvimento ulterior da Psicanálise como estudo da subjetividade humana, Klein não é so Psicanálise infantil, ela é Psicanálise.
 
Além disto, seus conceitos de identificação projetiva e projeção fazem parte do material de estudo de todo aquele investigador que estuda os delírios e os mecanismos psicóticos em geral. Sendo assim, o que me interessa hoje é falar do capítulo chamado "Sobre a Identificação".
 
Inicialmente, Melanie Klein preocupa-se em definir o que entende por projeção e introjeção e alerta para o papel essencial que estes conceitos relacionados exercem no desenvolvimento da subjetividade. Até aí, nos deparamos com uma teorização sistemática trazida ao leitor por meio de uma escrita fluida e objetiva. Klein consegue ser tão direta e assertiva como poucos teóricos puderam ser depois de Freud, aliás, tanto suas obras, como as de Winnicott me parecem bem agradáveis de serem lidas e compreendidas.
 
 No caso da autora inglesa, acredito que se fala muito sobre a dificuldade que cerca o entendimento de seus conceitos, quando, na verdade, a autora é aquilo que todo escritor deve ser: claro e preciso na defesa de suas hipóteses.
 
 A grande ideia de Klein é que o bebê vive num mundo que é, em última análise,  produto de suas constantes projeções e introjeções. Isto quer dizer que nossa vida deve ser , prioritariamente, produto dos objetos que internalizamos e projetamos no outro. Somos sujeitos que se constituem pela falta e pela fragmentação que permitem que encontremos no outro, algo de nós mesmos que considerávamos perdido.
 
Nisso vejo a beleza da teorização de Klein que neste ponto se associa à teoria de Freud, quando este diz que amamos no outro uma parte de nós mesmos que projetamos no objeto. (Psicologia das massas e análise do eu). Para amar um objeto é preciso - e isso deduzimos - projetar no outro partes do nosso ego que consideramos boas, é preciso ver no outro um quê de familiar para que possamos amá-lo, isto é a base de toda  a identificação para Klein.

Ao dizermos isto não estamos excluindo o fato de que também podemos projetar no outro partes do nosso ego que consideramos más - daí a formação dos objetos persecutórios que , nada mais são do que partes do nosso eu. Acredito que esta concepção lança luz sobre várias problemáticas contemporâneas acerca da violência e dos instintos agressivos.
 
Não podemos esquecer um dos temas preferidos dos estudantes de Psicologia: a subjetividade do psicopata, aquele, que hoje é melhor conhecido como alguém cujo transtorno de personalidade anti-social o levou a cometer crimes muitas vezes hediondos (para sermos cognitivo-comportamentalmente corretos).
 
Identificar-se com o outro é , por assim dizer, reconhecer em alguém as qualidades e os defeitos que separamos de nosso eu e mantivemos em uma galáxia muito, muito distante: isto serve tanto para eu amar o outro, como também para odiá-lo. Inevitável não pensar nos assassinos seriais e suas preferências sexuais, ou no caso de assassinos que preferem ou que apenas matam mulheres, uma vã tentativa de destruir o seio mau (de acordo com a teoria de Klein.
 
O pensamento de Melanie Klein parece certeiro como a matemática: se introjetamos objetos bons advindos do meio, poderemos construir uma vida psíquica mais integrada e livre de fragmentação. No entanto, não existe impulso mortífero que não sucumba à necessidade de integração que todo ego possui. Por isso, a fragmentação nunca se dá por completo enquanto existe vida, isto é dito pela teórica.
 
Estas afirmações parecem indicar uma postura essencialmente positiva sobre as possibilidades do ego se reconstruir e isto se dá porque, desde que nascemos até o dia em que morremos, estamos nos relacionando com o mundo por meio destes complexos elementos que provocam os sentimentos de amor e ódio: estamos vivendo porque introjetamos o outro e sobrevivendo porque projetamos; sentimos culpa porque projetamos, do mesmo modo, podemos reparar um dano, porque nos identificamos.
 
Sendo assim, feliz daquele que pode encontrar os nostálgicos objetos maternos e lançar mão destes para reparar os ataques à mãe amada que o levaram a se afundar num mar de culpas.
 
E a interface nisto tudo? Interessante notar que a leitura psicanalítica de um conto, de uma fábula ou qualquer trecho de uma obra literária nos permite vislumbrar o caráter poético do conceito que se pretende esclarecido através da ilustração. Talvez o interesse de Klein seja tão somente esclarecer os conceitos de projeção e introjeção através da obra de Julien Green, "If I were you" (não sei o nome em português), mas a obra abre espaço para tantas outras possibilidades...
 
Um resumo básico do texto de Green que inspira Klein é o seguinte: um homem considerado por si mesmo mal sucedido e incapaz de atrair as mulheres, em um belo dia conhece alguém, que lhe permite fazer uso de uma fórmula mágica: poderia se transformar em quer que desejasse, havendo apenas uma condição para que tudo se desse tranquilamente: deveria colocar no bolso daquele em quem desejasse se transformar o seu nome original e o seu endereço, para que pudesse voltar, a qualquer momento, ao seu eu original. Nisto há um quê faustiano, aparece o Diabo e diversas tentações às quais sempre sucumbem os homens fracos (na verdade, todo homem).
 
A estória é longamente contada por Klein para depois ser interpretada no melhor estilo "colocando a personagem no divã", o que, diga-se de passagem, não se costuma mais fazer em trabalhos recentes.
 
Apesar da patologização da personagem, sabemos que os conceitos que Melanie Klein parecem ganhar em poesia quando observarmos o troca-troca de "peles" que o sujeito da estória - Fabian - realiza para, afinal, constatar que nada melhor para o próprio eu do que reencontrar-se consigo mesmo depois de uma jornada conturbada para dentro da pele do outro, dos vários outros com os quais acaba sempre se identificando. Há sempre algo de familiar nos outros com os quais Fabian troca de pele.
 
Seguindo seu objetivo, Klein nos explica a estória da personagem-paciente, seus impulsos agressivos diante do pai, o sentimento de culpa gerado pela percepção dos objetos maus que foram capazes de lesar o outro, o sentimento edípico de Fabian por sua mãe que, ao mesmo tempo, permite que este perceba os objetos bons advindos desta e se reconciliar com a figura do pai, possibilitada pela aceitação da religião (o Pai).
 
Acredito que estas poucas informações tenham deixado qualquer um que chegou a ler este texto até aqui no mínimo curioso. O que quero com tudo isso é chamar atenção para a beleza que estes conceitos engendram: apesar de muitas vezes estejamos falando de fragmentação, seio mau, agressividade, impulsos de morte, etc. Perceber desta forma seria apenas reduzir a tarefa de Melanie Klein.
 
Sendo assim, entendemos que estar na pele do outro acaba sendo a melhor forma de recuperarmos a particularidade de nós mesmos. Isto deve ser o fundamento do que a Psicologia Social chama de empatia, pois empatizar é, em última análise, "colocar-se no lugar do outro, como se ele fosse, adquirindo características deste" (Houaiss). E aí eu complementaria Antonio Houaiss: adquirindo as características do outro que, são, na verdade, minhas.
 
Para quê serve estar na pele do outro? Serve para nos constituirmos como sujeitos. A jornada de Fabian não foi em vão, aprendemos com Klein.

quinta-feira, abril 26, 2012

O evento, o Real e Paul McCartney


O dia de 21 de abril de 2012 será lembrado como  o dia em que me encontrei com o Real. Segundo os desdobramentos lacanianos. O Real é tudo aquilo que não podemos abarcar por meio de símbolos, o Real mais se aparenta com um acontecimento, com um evento. Eu lembro agora de outro momento, que talvez não tenha muita relação com o que eu estou tentando dizer, mas acabei me lembrando.


Lembrei agora de uma palestra de um filósofo que me chamou bastante atenção: ele falava de amor, falava da necessidade atual das pessoas disciplinarem o amor, higienizarem as relações a ponto de pouco sobrar para nos deixarmos arrebatar. Você poderia agora pensar: Filosofia, Real, amor?Como estes fatos se entrelaçam com o tal 21 de abril?

Vejamos os argumentos: segundo o tal filósofo, o evento seria algo que não podemos programar, algo que irrompe, que nos toma de assalto e tem a característica imútavel de ser surpreendente. O evento é um acontecimento e isto deve nos arrebatar, justamente porque não o programamos, ele apenas acontece e nos toma.
Poderia falar da consequência disto para as relações amorosas. Vou insistir no Real, e percebemos que o evento é parte do Real,  é mesmo aquilo que não se inscreve. Vejamos: se estamos realmente envolvidos e tomados pelo evento, ele é o Real, aquilo que, por mais que tentemos, não conseguimos simbolizar.

Agora vem a parte mais interessante, voltemos ao dia 21 de abril de 2012. Deu-se o evento para mim, o evento verdadeiro. Inesperado, surpreendente. O que não posso simbolizar, mas tentarei porque sou um ser simbólico. A partir daqui, então, esqueçam os ensinamentos sobre Lacan e seu Real, esqueçam o filósofo e seu evento. Vamos ao que arrebata.
O evento do qual falo é tudo aquilo que não consigo abocanhar com os símbolos dos quais aprendi a dispor quando cresci: Sou fã dos Beatles, minha identidade , minha vida como sujeito se formou junto com os quatro de Liverpool. John Lennon, Ringo Starr, Paul McCartney e George Harrison sempre foram para mim os amigos de infância que não tive, as pessoas com as quais compartilhei meus momentos mais marcantes, e falo isso sem o temor da pieguice. Falo apenas o que se dá.

Depois de vários anos de Beatlemania solitária, eis que o improvável acontece: surgem boatos em fevereiro que sir Paul McCartney se apresentaria no Nordeste, em Recife, cidade vizinha à minha. Esta seria a terceira visita consecutiva do ex-beatles ao Brasil, tamanha frequencia causava uma espécie de descrença por parte de todos os beatlemaniacos brasileiros: seria estranho Paul estar no  Brasil, de novo, em tão pouco tempo, numa capital do nordeste que tem fama de ser megalomaníaca, enfim, em poucas palavras: não seria mais do que um boato.

Até que o impensável se dá: Paul realmente vem, e eu seria uma das pessoas que se cercaria de todas as informações possíveis sobre esta vinda tão estranha, e ao mesmo tempo tão esperada: eu estava arrodeando o evento, procurando me informar sobre as homenagens, sobre o set list , sobre tudo enfim que diria respeito a Paul. Eu estava tentando programar o evento, comprando ingresso, programando a viagem.
O dia do evento chega, e falo evento porque assim ele é referido: o evento começaria às 21:30 da noite, em um estádio de futebol, e os portões se abririam ao público desde às 17:30.
Depois de muito tempo na fila, já sentia uma espécie de comoção por conta da situação, das pessoas do país todo que se espremiam e se maltratavam naquela fila quilométrica. Eis que entro no tal estádio e busco um lugar na frente. É interessante porque não me servia qualquer lugar, à despeito de qualquer advertência, de qualquer ressalva financeira, decidi gastar os tostões que tinha numa experiência que valeria por uma vida.

Às 21:35, aproximadamente, sir Paul McCartney aparece, eu digo aparece porque foi num lampejo, de um simples palco à espera, cheio de parafernalhas eletrônicas, instrumentos e pessoas trabalhando exaustivamente, ele chegou e tudo parecia fazer sentido, ou não fazer nenhum sentido. Pergunto-me agora a sensação que tive ao vê-lo ali, na minha frente, o homem das capas dos discos, o homem que está no quadro no meu quarto, na minha caneca preferida, enfim, era Paul McCartney.  E falo isso
 sem o temor da pieguice, insisto.

Aí entra o conceito de evento, como inesperado. Por mais que se houvesse anunciado o tal evento, o evento em si, o show, a visão de Paul ali, reluzente, vivo, elétrico na minha frente, era a personificação do evento, do inesperado que, por mais que tivesse sido esperado, acalentado nos melhores sonhos, a sensação reinante em mim era: como é possível?

Nesse momento estou buscando associações, revivendo as experiências sensoriais vividas no dia, e não consigo , de maneira alguma, transformar isto em palavras: estamos na seara do Real. Por mais que eu tente, por mais que existam registros de que realmente o show aconteceu, eu não consigo compreender como aconteceu.

O Real é o que não se explica, naquele momento não filmei, não me preocupei em registrar o momento incessantemente por meio de fotografias; tirei algumas, mas ainda não acredito no que elas me mostram. O Real de Lacan se apresentou para mim ali, com Paul McCartney cantando todas as canções da minha infância e seminário nenhum iria me dar melhor definição do que vi, e precisamente do que senti, ao ouvi-lo cantar, ao alimentar meus olhos com a visão daquele que tão frequentemente habitou os meus melhores anos de vida - decididamente não temo a pieguice.

E quanto mais eu penso e tento articular teoria ao evento inesperado, sempre será o evento que me arrebata e que me deixa sem palavras, porque não existe símbolo nenhum no mundo que consiga traduzir a sensação do encontro com o Real, ali, a 15 metros de mim, por quase três horas. Infinitas horas de encontro com o Real.