segunda-feira, junho 02, 2014

Luc Ferry e o amor aonde não se pensa

Ultimamente não são raras as abordagens sobre como a contemporaneidade tem destruído e solapado os ideais e tradições pelos quais o homem tanto lutou e dos quais a História vem a ser o discurso testemunhal mais verossímil.

Podemos dizer que os tempos de hoje são tempos sombrios, tempos em que a humanidade deu as costas, ou minimamente deu de ombros para o sofrimento do outro homem. 

Sim, sem dúvidas, não existe menos egoísmo e maldade hoje do que existiu em outros tempo. Devemos ser justos, e também cuidadosos para não cair na armadilha frequente em que muitos  caem: a de entender a contemporaneidade como tempos terríveis, tempos apocalípticos nos quais não é possível vislumbrar nenhuma fagulha de empatia, de interesse pelo próximo, de esperança. 


O amor aonde não se supõe

É a isto que se presta Luc Ferry em seu "Do amor: uma filosofia para o século XXI", o autor, que já foi  ministro da Educação na França, é filósofo e extremamente cuidadoso em apontar o que considera um segundo humanismo, uma época em que há, mais do que em qualquer momento histórico, um interesse genuíno, um amor verdadeiro pelo outro  que chega a transcender ao alcançar as esferas políticas em que os homens estão engajados e nas quais se entrosam publicamente.

Seria a tese de Ferry absurda? Incoerente? ingênua? Precaução e cuidado é o que o leitor mais atento e curioso encontrará nesse livro, pois o humanismo de que fala Ferry não é ingênuo, inclusive bate de frente com a hipocrisia que caracterizou a Idade Média, por exemplo.

A questão a que se detém Ferry é que o amor é a verdadeira revolução - Inclusive, "A revolução do amor", é o título de outro livro do mesmo autor - que permite as pessoas se colocarem no lugar do outro, a lutarem pelos ideais do outro, esse outro assume o lugar de amado, em todos os níveis, amado como amante, amigo, como aquele com quem eu evidentemente simpatizo.

Ou seja, o outro, esse meu íntimo me inspira a um amor que é tudo isso junto: amor-carnal, amizade, caridade - philia, ágape e eros - e este modelo irá nortear as relações que teremos e que vivenciaremos em sociedade.

Para alguns essa tese parece absurda, dirão os mais catastróficos que essa visão de Ferry é completamente incompatível com o que vemos, com o que acompanhamos nas notícias de jornal. Afinal, somos diariamente levados a crer justamente no oposto do que Ferry defende: os novos tempos são tempos difįceis, sombrios em que a violência e a maldade estão institucionalizadas. 

Outro dia ouvi  justamente isso de uma pessoa na rua:) "hoje em dia é assim, a violência comendo solta, antigamente ninguém via filho matar pai e mãe!"

Luc Ferry antecipa as críticas que certamente foram e serão endereçadas a ele ao inclusive não negar que vivemos tempos violentos. No entanto, se o autor corrobora a ideia de que estamos vendo cair diante de nossos olhos os ideais tradicionais, também nos relembra a maldade e a violência que marcaram os tempos antigos, imemoriáveis? Alguém esqueceu dos massacres ocorridos na Idade Média?

Por isso, cabe a lembrança:

" É fácil denunciar as mazelas do tempo atual, as desigualdades, a crise econômica, mas é infinitamentr mais difícil arriscar-se a evocar alguma época de ouro. [...] digam o que quiserem, nossas democracias oferecem espaços de liberdade até então inauditos, além de um permanente cuidado com o outro [...]" 

O trecho é claro e as ideias que evoca são mais ainda. O que devemos fazer é desconfiar de todo um discurso pré-fabricado que muitos assumem meio com pressa, tomando-o como verdade e como justificativa para repetir o que se expressa com o mais ingênuo senso-comum: "É, hoje em dia tá demais!".

O que esse "tá demais" imediatamente provoca é justamente isso: será que as outras eras experimentaram menos violência, menos crueldade? Ao contrário, e na verdade, na contramão do que muitos dizem, Ferry sugere que o humanismo concretamente situado em ações humanitárias nunca foi tão grande.

Mas, o que leva a essas ações humanitárias, senão o amor, arduamente construido entre duas pessoas? É esse o próximo tema que interessa ao autor.

Como nos ensina Ferry, foi na família que o amor passou a ser central, acabando com o casamento escolhido para manter as linhagens da nobreza. 

O casamento na modernidade vai ser profanado, vai esquecer do sagrado no sentido cristão ao assumir sua face erótica e vai, surpreendentemente, marcar as relações políticas ao escapar da esfera privada. O amor reinventado não é cristão e subverte a noção de sagrado como puro, medroso do corpo. O amor erótico assume esse corpo e se legitima a partir dele.


O amor erotizado

O amor, assim repaginado, não prescinde do eros e legitima o corpo como lugar em que será sacralizado. O sagrado recupera a significação de ser " aquilo pelo qual se pode morrer". Ora, se não se morre mais pelos ideais antigos - Pátria, Revolução e Deus - morre-se por amor, por amor aos que nos são caros, por amor aos que nos são íntimos.

Morre-se e se sacrifica pelos filhos, inclusive, esse amor filial é um amor que é recente, pois não é novidade que na Idade Média, não havia muita diferença entre a morte de uma criança e a morte de um cavalo. Falaremos mais disso adiante.

Sendo assim, esse amor, sai dos limites do privado e adquire uma substância pública a qual podemos ver representada nas ações comunitárias ou no sentimento mesmo que faz nosso coração apertar diante do sofrimento alheio, diante da dor do outro.

Essa é mais ou menos o cerne das ideias que nos são apresentadas em "Do Amor" , explícita alusão à Stendhal. Esse amor que nos faz perceber aquela característica específica do objeto amado, aquilo que nos faz percebê-lo como único: " Isso é tão seu!"  se torna o elogio mais sincero que alguém pode receber.

É isso que faz o ser amado ser amado: ser ele. Ferry lembra Montaigne " porque era ela, porque era eu". Obviamente, eu lembro de Chico Buarque: 

Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léu
Ríamos, choravamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu


O amor pelo qual se mata e morre

O que me parece interessante na visão de Ferry é justamente como as pessoas fazem essa transposição ou mesmo tradução, não sei se os termos são válidos, como as pessoas trazem esse amor antes destinado ao privado ( e somente depois de muito tempo isso ocorreu como amor erótico)  para as ruas e se tornar argumento pelo qual se sacraliza o humano. Dito de outra forma, o amor é o único motivo pelo qual se vale a pena morrer.  Talvez nisso é que precisamos nos concentrar.

Penso agora nas grandes tragédias, nos linchamentos em via pública tão irremediavelmente relacionados aos tempos das fogueiras da Inquisição. Eu mesma pensei e associei prontamente um episódio  recente de linchamento em via pública no Brasil com a condenação das bruxas medievais.

 Hoje não penso mais assim, há vários indícios de que essas eras mais se afastam do que se relacionam entre si, medievalismo e contemporaneidade estão afastadas por quilômetros de distância. É outra coisa que está em jogo.

Quando se espancou uma mulher, mãe de dois filhos, em praça pública, viu-se claramente o argumento de muitos envolvidos na cena triste, abominável , que se desenrolou se repetir: " eu espanquei porque estavam dizendo que ela sacrificava crianças em rituais de magia negra". 

Não seria a identificação com o pai que teve o filho morto, um dos motores para que houvesse o engajamento nessa cena  bárbara que foi exaustivamente reproduzida pelos noticiários há um mês atrás?

Com isso não quero me esquecer do lado dionisíaco que vive no sujeito desde que o mundo é mundo, não é essa proposta, não estou esquecendo aqui da catarse perversa que ocorre quando alguém se lança a espancar uma pessoa no chão, a chutar cachorro morto.

A questão é: o amor, levado ao extremo, pode, sim, servir de argumento para ações que paradoxalmente nada tem que ver com o amor? Estranho? Não acho, pois não é de hoje que se mata por Deus, mas, será que Deus aprovaria a matança feita em seu nome?

Será que Deus separaria os seres entre os que amam pessoas de sexo oposto ao seu  e faria uma  fila diferenciada destinada àqueles que amam pessoas do seu mesmo sexo? Não. Mas esse é um argumento bastante propagado por aí.

Morre-se e mata-se por amor, lincha-se por amor, por simplesmente pensar que alguém possa ter feito algo tão cruel com uma criança. Eu , linchador, sou , portanto, idêntico àquele que lincho, só que, neste caso, a mulher espancada até a morte era inocente e também tinha filhos, que hoje choram por não terem sua mãe.

A leitura do amor a que nos apresenta Ferry é chamada por ele de segundo humanismo, um humanismo que estaria , por assim dizer, livre das ilusões metafísicas, pois a única transcedência pela qual se interessa é a transcendência sem Deus, uma transcendência levada à baila por conta da imanência humana. É pelo que grita de mais humano em nós que podemos amar o outro - e também odiá-lo.

O amor, afinal

O amor é isso, mais do que o tal do fogo que arde sem se ver. O amor é alçado a argumento e legitimado nas regras do bem viver, no ethos contemporâneo e isto pode nos levar ao mesmo tempo a uma existência mais amorosa, como também a uma guerra sem precedentes. 

Ferry prefere a esperança ao pensamento catastrófico. Eu também, e se nunca chegaremos a uma sociedade que viva plenamente o amor ao próximo, ao menos podemos viver numa sociedade menos hipócrita que convive , tanto com o aumento dos números de casamento, como com o igual aumento de número de divórcios.

Um exemplo de como a contemporaneidade nos promete várias possibilidades simples e notório: Hoje nos permitimos nos divorciar quando o amor acaba, nos outros tempos, dos casamentos arranjados, as pessoas se aturavam eternamente.

 Vamos pensar mais nisso, vamos ao menos considerar as vantagens da contemporaneidade ao invés de tacar-lhe pedras nostálgicas vindas de um "tempo bom" que nunca existiu.

segunda-feira, maio 26, 2014

Merleau-Ponty e ressonâncias na clínica psicanalítica: um barco, a arte e um mundo velho sem porteira

O mundo é mais velho do que a nossa consciência que dele temos. Assim deve ser apresentado a nós um dos mais importantes filósofos do século XX.

O que começou pra mim como uma disciplina do programa de pós-graduação que faço, acaba como uma surpresa que em muito me auxilia a pensar o meu fazer como curiosa sobre as questões que atravessam o humano.

Merleau-Ponty (1908-1961), como se percebe, morreu cedo, morreu ainda com muita coisa a dizer, e por isso mesmo, pelo que não disse, é que vem sendo redescoberto hoje em dia. Seu discurso reverbera na Psicologia, na Psicanálise, na Antropologia, ultrapassando os limites do filosófico por sua capacidade de se relacionar ao que é próprio da contemporaneidade e ao que é inerente ao humano.

Faço um recorte aqui de coisas que muito me interessam na filosofia merleau-pontyniana, a saber, a repercussão de sua concepção de linguagem e a incapacidade da palavra de conter o significado, o fazer da análise e o papel do artista como quem promove o novo.

Sobre a Palavra, para o filósofo, ela é um compartimento limitado que aponta para sua vulnerabilidade. A fala, nesse sentido, seria um tecido imenso dobrado pela linguagem, e o que seriam essa linguagem senão o próprio jogo relaciona pelo qual apreendemos o significado das coisas?

 Para entender melhor o que diz Merleau-Ponty: contrário às ideias típicas do idealismo, ele vai além,  e entende que o mundo não necessita da representação, que dele fazemos, as ideias e os conceitos não seriam a maneira correta de viver o mundo. É aí que pensamos a linguagem, como possibilidades infinitas de dizer e , ainda assim, não dizer tudo, porque nunca existirá uma linguagem completa, uma r
representação nunca valerá mais que a própria coisa, por isso esse jogo é eterno, o jogo dos significantes.

O sentido de uma palavra seria sempre ultrapassado pelo próximo sentido  para aquele que dela faz uso. Sendo assim, não nos cabe saber o mundo e cobri-lo de palavras, o que nos interessa - aí notamos a influência de Husserl - é como vivê-lo e experienciá-lo. Mas ainda assim, estamos presos à linguagem, dela é preciso fazer brotar algo.

A linguagem é ambígua, notívaga, a linguagem é misteriosa e provocadora, ela nos incita a vivermos o mundo e vivermos na originalidade, dispensando o constituído, nos entregando a experiência única do constituinte.

Toda essa noção acerca da linguagem descortina o que é a visão de mundo de Merleau-Ponty, uma visão fenomenológica, husserliana, disposta ao encontro, à busca 
da originalidade, parceira do advento como encontro com a alteridade. 

Merleau-Ponty, em suma, é o desvelamento da verdade como surpresa. E isso é o que a linguagem nos providencia: uma surpresa, por ser polissemia. A clínica parece deixar tudo mais claro.

Sinceramente essas ideias me parecem claras quando nos voltamos novamente para a clínica, não como uma tentativa de fazer uma coisa como "clínica filosófica", visto que o filósofo não pensou um modelo de clínica. O que podemos pensar é a visão de mundo,  uma proposta de filosofia que ressoe no que fazemos na clínica, na escuta mesmo do que diz um analisante, estamos inundados de palavras e linguagem.
Educação para adultos (Jonathas de Andrade)

Para pensar a clínica e sua relação com essa linguagem parcial, não-toda, eu penso em uma metáfora.

A figura do analista e do analisante como os dois ocupantes de um barco, a remo, cercado de um mar de linguagem em busca de uma espécie de ilha paradisíaca (Verdade?). É essa a imagem mental que tenho quando conecto Merleau-Ponty à Clínica Psicanalítica, ou a noção lacaniana de clínica.

Estamos os dois perdidos nesse imenso mar de linguagem, molhando-nos constantemente e sem qualquer garantia que alcançaremos um pedaço de chão, um território seco. O que temos pela frente é só imensidão e ondas, e dobras, e palavras, e corpos que remam.

Se essa imagem é por vezes aterradora, ela não deixa de ser, de alguma forma, potencialidade, possibilidade. Nos lembramos facilmente de Lacan quando se pensa seu clichê mais famoso: o inconsciente é estruturado como linguagem. Há aí Merleau-Ponty, evidentemente.

Ainda fazendo uso da metáfora que propus: o tesouro de significantes, do qual Lacan nos fala, é o trabalho, é o mar que navegamos, é o que temos para chegar - ou não - em algum lugar, e como nosso barco é frágil!

A linguagem, esse mar de palavras que necessita ser navegado -Navegar é preciso! Nos coloca frente a frente ao mistério do qual nos lembra Merleau-Ponty: o significante é metonímico, ele desliza, derrapa, muda e nos muda. A palavra deixa evidente que ela é menos do que parece, a palavra é o que habita essa mar que incessantemente navegamos privados de bússola, nós, analista e analisantes.

Portanto, dizemos muito e ainda deixamos claro que dizemos muito pouco, mas ainda assim, é o que o analista tem como meio de se chegar a algum lugar. Pois, como se chegaria a uma ilha desconhecida sem nos aventurar ao mar do "tudo é possível"?

Como o mar, a linguagem é imprevisível. Muita coisa ocorre em seu universo subaquático: peixes, perigos, movimentos tectônicos. E lá estamos nós, na superfície, imbuídos num trabalho hercúleo de navegar, sempre, mas nunca precisamente!

Deixando um pouco o mar de lado, e voltando à terra...

Descolar palavra de sentido e oferecer ao signo a possibilidade de tudo ser parece ser a riqueza de relacionar a filosofia merleau-pontyniana à clínica psicanalítica, que tanto ouve, que tanto se interessa pela plasticidade do significante.

Ora, não seria esse o papel da análise? Possibilitar outras saídas, um mundo sem porteiras, para que a cristalização e a patologia não encontre espaço? Promover uma abertura ao mundo para que nele possamos criar? Para que dele possamos nos apropriar, povoando-o com linguagem, sempre abertos à experiência?

Uma última consideração gostaria de fazer aqui. O interesse de Merleau-Ponty pela arte também é algo que o une à Psicanálise, parece que a arte sempre tem um estatuto de a priori no tocante à concepção de mundo. E isso é 
revigorante, seja na Filosofia, seja na Psicanálise.

Para Merleau-Ponty, o artista é aquele que promove o novo, que sai do instituído e promove uma torção, uma promiscuidade da linguagem, da palavra, da coisa em si mesma. O artista, esse privilegiado, seja na visão do filósofo, seja na concepção freudiana, promove essa prostituição das "coisas como elas são" ao romper com o que está aí. Ele é a promiscuidade.

Aqui um ponto que quero acrescentar, na esteira do que venho desenvolvendo. Ao ler Merleau-Ponty e sua concepção de linguagem como o ambíguo, me foi possível lembrar de uma obra de arte intitulada "Educação para adultos", em que percebemos claramente o papel do artista como o aquele que age sobre as "máquinas infernais de significação" (termo de Merleau-Ponty para descrever o que seria um livro). 

Nessa obra, o artista propõe trinta cartazes utilizados na alfabetização de adultos ( impressos entre as décadas de 70 e 80 do século passado) e sugere que haja a confeção de novos cartazes em busca da produção de sentidos, de novos sentidos que não os que foram instituídos pela relação, pronta e acabada, impressa nos cartazes, entre imagem e signo, que alguém disse que seria importante para alguém que quer aprender a ler.

Não pretendo aqui discorrer sobre alienação e opressão social, apesar da obra fazer essa discussão e de se utilizar Paulo Freire como referencial. Aqui, por questão de tempo e afinidade, prefiro centrar minha reflexão na questão do artista como o que promove o novo e seu compromisso com a torção da linguagem.

A obra consiste na apresentação de um painel de sessenta imagens, uma tentativa de tabela de correspondência "Imagem-Signo", dispostas não aleatoriamente, o que nos revela a polissemia de sentidos ( por vezes irônico) produzidos pelos novos analfabetos que produziram os trinta cartazes restantes na construção do painel. 

Constituído e Constituinte se entrelaçam e nos mostram duas coisas: a promiscuidade da palavra, como ela pode servir a diversos usos, e a possibilidade de descontruir o mundo, o mundo como representação pela visada de um novo mundo, em eterno processo de redescoberta.

Ao fim de tudo isso, paro pra pensar que somos tudo isso, navegantes e artistas, psicanalistas, dispostos a navegar, a promover o que reverbere no Outro. 

Se chegaremos a algum lugar, isso é o que menos importa. O que importa é abrir esse mundo e deixá-lo escancarado. Obrigada, Merleau-Ponty, por abrir as porteiras desse mundo velho!



segunda-feira, abril 28, 2014

O filósofo, esse inocente, não sabe de nada.


" Não mais que qualquer um, o filósofo não sabe muita coisa do mundo"

Essa frase foi proferida por Charles Melman e eu só a conheci hoje, quando busquei na biblioteca seu livro sobre as novas formas clínicas de patologia mental. Até aí tudo bem, nada de novo no front.

Como eu persigo a ideia de que nada que me chega aos olhos me chega por acaso, conheci esse texto horas antes de ter a oportunidade de assistir em aula um seminário preparado por colegas de sala sobre a Filosofia de Nietzsche e, mais precisamente, uma acalourada discussão sobre como juntar seu pensamento niilista às formas de se fazer e inventar a clínica na contemporaneidade. 

Um desafio em potencial, mas tanto Melman, como a aula de hoje me fizeram pensar muito sobre as possibilidades que estamos usando para re-significar nossa existência, sobre como vivemos nossa vida. Enfim, muitas questões efervescem em minha mente.

Eu vim caminhando para o albergue em que toda segunda-feira me instalo na companhia de várias interrogações as quais insistiam em apertar o passo, e eu digo, demorei para alcançá-las, até que fui surpreendida pelo advento, pela assertiva em forma de insght que assustou os meus ouvidos e que fez tudo se transformar.

Logo tudo fez sentido, e esse texto é uma tentativa de unir, o que fala Melman sobre o sujeito da ciência e a filosofia nietzscheana que foi discutida na aula de hoje ( e nisso não há pretensão, pois não me coloco aqui como profunda entendedora do autor alemão, mas apenas como alguém que o toma como interessante pensador que me auxilia a refletir sobre a clínica), isso tudo é devido ao encontro com a surpreendente lição que ouvi de um guardador de carros que cruzou meu caminho.

Vejamos então como as questões se articulam.

Já há algum tempo que discutimos em sala os principais pensadores da Filosofia do século XIX e seu papel para repensarmos a clínica. 

Já passamos por Wittgenstein e hoje foi a vez de Nietzsche, na verdade, em outras aulas pudemos compreender melhor a linha de pensamento do filósofo, mas é a atividade de seminário que torna possível e palpável a relação entre Filosofia e Clínica. 

Claro que Nietzsche é um mundo e eu não tenho a pretensão de aprofundar aqui uma crítica sobre seu pensamento, minha leitura é pouca,  isso eu deixo para os filósofos e para os entendedores especialistas, comentadores de sua obra. 

Mas há um ponto discutido hoje que me chama atenção entre tantos outros: a ideia de que Nietzsche não fora um filósofo do trágico, mas sim, um filósofo trágico, a ideia da tragédia perpassa sua obra e nos permite uma aproximação com a clínica e, claro, a meu ver, possibilita uma grata ressonância na clínica psicanalítica.

Em um texto interessante chamado "Nietzsche e o trágico: abertura para a valorização da diferença", eu li que ele tinha certa adoração por duas figuras: Wagner e Schopenhauer, apesar de romper com algumas ideias desses ídolos posteriormente, os dois nomes foram fundamentais para o pensamento nietzscheano e merecem menção. 


A tragédia, para Nietzsche, é a própria condição da existência humana, a dialética Apolínea e Dionisíaca nos torna, para sempre, seres em conflito entre o não preocupar-se e o entregar-se à vida, entre a ordem e o caos, e deste, há que nascer uma esperança. 


Somos sempre seres apolíneos e dionisíacos e a tragédia consiste, segundo o texto citado, em aceitar a vida, o destino, em dizer um "sonoro sim à vida" ( Magalhães e Di Matteo, 2010), o que implica recebê-la com o que ela tem de dor e beleza. Isso é ser trágico para Nietzsche.

Essa aceitação da existência trágica me faz retornar ao texto de Melman citado aqui no início, sobretudo quando o autor sustenta a ideia de que a terra do sujeito do inconsciente é o exílio, é disso que se trata em Psicanálise e é isto que me faz pensar na estreita relação entre tragédia, em aceitar a vida em sua dor e em sua delícia ( me lembrei de Caetano) e exílio, este como pátria do sujeito inconsciente que, se não ignora o cogito cartesiano, não lhe reconhece como salvador da pátria.

O que quero dizer é que, diante de todos os ensinamentos de Nietzsche dos quais não me julgo sabedora, essa noção de tragédia e da oposição entre apolíneos e dionisíacos, eu vejo o interesse maior da Psicanálise, qual seja, o entendimento de que há apenas um lugar para o alojamento do sujeito do inconsciente,e esse não é o cogito, não é a razão absoluta, não é Ciência, não é Deus, o sujeito do inconsciente é ateu e cético, eu suponho. 

O desamparo é a prova da tragédia existencial da qual Nietzsche fala, e contra isso, contra a condição de desamparo, pouco se pode fazer. 

O desamparo, agora podemos dizer, lança luz sobre essa intrincada tragédia que construímos em nossa existência ( ex-sistência, nos adverte Lacan). 

Sendo assim, somos trágicos, pequeninos seres desamparados que , desiludidos com a Ciência e com a Religião - e nisso há sempre a lembrança de Nietzsche - não temos outra alternativa a não ser habitar o desamparo, mas, então, como fazê-lo?

Como dizer um sim sonoro à vida, como abraçar esse exílio?

Nesse ponto chegamos ao conceito de amor fati de Nietzsche, ou o amor ao destino, a vivência plena entre os pontos que estão em constante tensão, entre Apolo e Dionísio, o amor fati é poesia pura, e acho que é disso que se trata em Psicanálise.

Aqui volto à Melman quando este diz que na Psicanálise não se trata de remédio, pois não há o que se admnistrar. Aí a Psicanálise se distancia da Psicoterapia e das técnicas denominadas auto-ajuda.

Não há o que se administrar, não há fármaco capaz de dissolver a tragédia, não há polo vencedor na querrela inconsciente. Mas isso não significa que não há o que se fazer, aí há o amor fati.

Desse jeito, penso que reinventar a clínica e ser psicanalista é se lançar nessa labuta diária que é viver a tragédia sem por isso ser aplacado pelo desamparo, pela própria guerra.

Fazer Psicanálise, arriscaria, é a arte do bem viver no exílio, é a arte de viver na corda bamba, e o que a torna arte é a noção de entregar-se à vida, ao amor fati, que implica também se responsabilizar por suas escolhas, é se implicar na própria tragédia.

O amor fati é assumir-se, é decorar o exílio com as cores mais bonitas e sabê-lo intransponível, é assumir-se e não depender de Deus, ou de Outro qualquer que retire o lugar de responsável pela própria tragédia.

Assim, entrar em análise é uma das coisas mais corajosas a que alguém pode se submeter, pois é lançar-se ao eterno e implacável Acheronte, e nossa arma sempre será o amor fati, o dizer sim, o que não é fácil e o que exige algo do que Nietzsche nos fala: dizer sim à vida exige liberdade, talvez a liberdade que o movimento niilista propõe.

Portanto, a liberdade seria o motor da tragédia, a liberdade seria o que estaria além do bem e do mal, o pleno trânsito do sujeito do inconsciente se dá por causa da liberdade, livre do cogito, longe dos grilhões morais, seria liberdade perante a religião, liberdade perante Deus.

Isso são apenas pensamentos que me acompanham desde quando comecei a compreender melhor Nietzsche. Aqui não tenho intenção de interpretá-lo com Freud, ou "usando" Freud. 

Cabe dizer que o ano em que Niezsche morre é o ano de lançamento da Traumdeutung, há algumas menções ao filósofo alemão na obra do pai da Psicanálise, o resto a gente associa por interesse e conta própria e nisso, repito, não assumo o lugar  do sujeito suposto saber, só me interesso em aproximar mentes tão pertinentes para sua época e para a contemporaneidade.

Eu fiquei um bom tempo tentando achar a linha certa para costurar esses argumentos, a linha correta para iniciar o trançado desse texto trágico, e, por sorte, o acaso me encontrou e eis que surge a personagem fundamental e a quem eu devo esse texto e os insights que o costuram: o guardador de carros que eu vi na rua. 

Eu vinha atravessando a rua da faculdade, eu e minhas interrogações, estas sempre a minha frente, driblando os carros faceiramente, eu ia com mais calma e medo, passadas leves até ouvir o inesperado do tal homem que guardava os carros na esquina. 

Ao atravessar a rua, eu ouvi fragmentos de uma conversa quase inaudível, eram trechos soltos, mas o que ficou foi isso que ressoa em meus ouvidos até agora, disse ele para alguém, e eu não sei bem o contexto, mas ele disse bem assim: 

"Solto ele já é, vamo deixar ele livre"

Era o que me faltava para entender Nietzsche, obrigada, moço que eu não conheço, isso me faz perceber tão claramente a ideia de amor fati, a ideia do próprio exílio. 

Soltos no mundo, desamparados todos somos, mas, sermos livres, eis o desafio, tanto para a filosofia trágica, como para a clínica psicanalítica.

Não seria essa a proposta essencial do niilismo? Seria o guardador de carro um niilista por vocação e devoção?

Agora me sinto em condições  para recorrer à Melman pela última vez, e ouso complementar a frase que abre esse texto:

"O filósofo não sabe nada do mundo, mas o guardador de carros da rua, este sabe".

Agora tudo se costura. Agora um alívio - temporário - para os percalços do exílio.



quinta-feira, abril 24, 2014

Gabo, o livro póstumo ou como recorrer a Merleau-Ponty para não cometer um crime




Em tempos de culto ao espetáculo, alguns eventos tornam-se mais ou menos interessantes a medida em que a sociedade os reorganiza, os re-significa e os faz parecer outra coisa nesta contemporaneidade da qual todos nós somos vítimas e algozes.



Desde  a última quinta-feira os jornais e programas televisivos começaram a explorar a figura de Gabriel Garcia Marquez, para os íntimos, Gabo. 



Gabo (me faço de íntima por economia mesmo) andava um tanto quanto recluso devido a seus problemas de saúde, os quais não eram segredo para seu ninguém, só que, quando morre um imortal, quando morre um Nobel, devem ser rendidas homenagens colossais, assim foi com Saramago, assim foi com tantos outros que certamente criaram um mundo melhor, mesmo que apenas na Literatura.


 Não sou contra as homenagens, mesmo que excessivas - o funeral durou muito tempo até ser realizada a cerimônia de cremação. Não questiono aqui a importância do defunto, nem a necessidade quase infantil - e culpada - de prestarmos todas as reverências a alguém da estirpe de Gabo.


Na verdade, por ser quem ele é, por todos os livros que escreveu e os quais poucos eu li, confesso, eu não acho enfadonho assistir as homenagens fúnebres e nem as edições jornalísticas que tentam resumir sua importância em alguns minutos preciosos que cabem num telejornal. 

Eu sempre penso nisso: nos editores, naqueles trabalhadores que têm por ofício realizar em suas ilha de edição, um breve resumo mais ou menos fiel à importância do defunto, deve caber toda a obra de quem morre naqueles meros dois minutos de exibição.

Nesses preciosos minutos sobre Gabo, há de se ouvir os nomes "Cem anos de solidão" e "Crônica de uma morte anunciada", acho que caberia também "Memórias de minhas putas tristes", este último nunca mencionado nos jornais e programas, o que me faz questionar o motivo do 'esquecimento" de uma obra tão importante, apesar de mais recente, do defunto célebre que ainda nem esfriou.



Divagações à parte, uma coisa me chamou atenção nesse momento de comoção pela morte do escritor: hoje assisti a um programa em que se falava da possível publicação de um livro que o autor não pensou em publicar. Consta que o seu editor pediu autorização à família de Gabo para publicar o que viria a ser sua "obra póstuma". 


Intitulado "Em agosto nos vemos", sabe-se pouco sobre ele, mas o que se sabe é que em 1999, Gabo submetera seu primeiro capítulo à audição pública. Somente o primeiro capítulo.Depois disso lhe coube o quase mais absoluto esquecimento.


De 1999 para cá, muita coisa foi publicada, inclusive “Memórias de minhas putas tristes” (2004) que foi um estrondoso sucesso de crítica e público, o que contribuiu para  o eterno adiamento da obra que se quer póstuma agora.


Qual seria o motivo, a razão pela qual “Em agosto nos vemos” fosse relegado ao esquecimento, ao fundo de uma gaveta qualquer? Segundo foi relatado pelo mesmo jornalista, talvez um dos motivos para o esquecimento do livro tenha sido o fato de que Gabo nunca ficou satisfeito com o ponto final que lhe cabia.


Apenas encerrar o livro, isto ele não conseguia. Consta que foram seis, seis finais diferentes que Gabriel Garcia Marquez tentou fazer funcionar em seu livro, mas que, ao que parece, não cumpriram o papel de agradar o afamado escritor. O que aconteceu? Por que Gabo enganchado nesse tal livro?


Talvez nunca saibamos estas respostas, mas o que sabemos, neste momento, é que há um interesse do editor publicá-lo, e agora que se deu a morte do criador, a criatura surgiria literalmente das cinzas e se tornaria a obra póstuma a ser celebrada e honrada com todas as honras e méritos que cabem a tudo que é póstumo.

Essa notícia evoluiu para uma interessante crítica em que se falou muito sobre ética e sobre o desejo do escritor. Por essas surpresas que o destino nos prega, acontece comigo acabar lendo algo relacionado com o que lera anteriormente (mesmo dia) ou mesmo relacionar uma leitura da noite à algo visto em jornal ou televisão mais cedo, por que acontece?

Eu sempre acho que é a mão do destino que me faz à noite ler algo que corrobora ou se relaciona perfeitamente com o que eu experimento ao longo do dia. Não sei dizer, mas sempre tendo para explicações ocultistas. Não sei nem mesmo se há relação possível nesse momento, mas faço-a, na cara dura.

Não sabendo se existe relação plausível entre o comentário que vi à tarde e o que direi a seguir, eu insistirei, mas o caso é que para mim parece haver uma relação, ou pelo menos, se não há eu a forcei.


O que relaciono - a pulso ou naturalmente - é essa questão do "livro póstumo" de Gabriel Garcia-Marquez a alguns pontos da filosofia Merleau-pontyana. Na verdade, o que me interessa em Merleau-Ponty é seu apreço pela arte e por esta ser um campo privilegiado em sua ontologia. 


A fenomenologia de Merleau-Ponty vem na esteira do pensamento de Husserl e trata do resgate do Ser, fala também do interesse pelo Espírito Selvagem e outros bichos, mas o que me fez relacionar "Em agosto nos vemos" a sua filosofia é na verdade sua forma de conceber  a arte como a própria experiência, como um meio através do qual é possível realizar uma torção na linguagem, fazer aparecer o inédito a partir do que está estabelecido. Todo meu argumento será centrado nisto. E há tanto de lacaniano nisto, embora o autor seja um fenomenólogo...


Marilena Chauí em recente artigo publicado na Revista Cult sobre o filósofo nos apresenta alguns conceitos da filosofia e da ontologia merleau-pontyanas, e diante do que expõe a autora, o que me chama atenção é a possibilidade de ver Psicanálise em um fenomenólogo - isso eu não acho forçado, também não sei se são os óculos que uso, quem sabe?

Especialmente quando se trata de entender que o artista, o escritor, o pensador realiza uma torção na linguagem ao promovê-la ao mais além, ao levá-la a um lugar nunca antes habitado, este lugar seria a própria experiência que não se encerra em um momento, a experiência - bem dizer - nunca se esgota, e, consequentemente, o que foi dito, nunca será terminado, porque, ao ser torcido e retorcido no exercício mesmo da feitura de uma obra, já se cria outra coisa, já se cria um excesso e ao mesmo tempo uma falta, excesso e falta estes que inevitavelmente levarão outros artistas, outros escritores, outros pensadores a novamente torcer, retorcer e criar algo, outra coisa, essa coisa é a experiência.


Nesse rumo em que já estamos, fica difícil não pensar que a questão polêmica entre publicar ou não o último livro inédito ultrapassa os limites da ética, pois nos apresenta outras interrogações, o que, para Merleau-Ponty, é um bom sinal, então, tendo o seu aval, sigamos.


Para o fenomenólogo em questão, só há obra se há algo a dizer, nesse sentido, o excesso e a falta são inerentes a toda obra e a esta cabe sempre o espanto, é esta, inclusive, a atitude que devemos ter em relação ao mundo.

Então aqui eu chego ao ponto que desejo: como seria escolhido um dos seis finais para o livro? Será que ficou algo escrito, será que restou um último desejo de Gabo no que concerne à preferência de um final em detrimento dos outros? Como o editor saberia? Como a família saberia?


Eu fiquei pensando em tudo isso e no momento em que fazia minhas as interrogações que devem ser de muitas pessoas que também assistiram ao programa hoje à tarde, eu pensava em Merleau-Ponty e na sua forma de conceber a linguagem como prenhe de sentidos, como tudo aquilo que escapa às significações. 

Pensei também que dar um final a um livro que nem o autor cogitou seriamente publicar soaria como um desrespeito a essa mesma linguagem, misteriosa por excelência, experiência por vocação.

Dar um final e mais, publicar "Em agosto nos vemos", me soa mais grave do que um problema ético, por mais implicações que existam em um problema de cunho ético. Para mim, e agora eu forço, seria o mesmo que cometer um crime.

Publicar e dar a este livro que já se sabe problemático um estatuto de obra póstuma me parece um problema muito grande, a começar pelo fato de que temos uma mania interessante de situar os autores, os pensadores e o que eles pensam em um dado momento cronológico, assim temos "o jovem Marx", "o velho Marx", e outro dia ouvi de alguém que já se fala em um "ultimíssimo Lacan".

Tenho medo que Gabo vire o "último Gabo” “ O Gabo de Em agosto nos vemos", pois me parece óbvio que este livro seria fruto do oportunismo editorial que adora esses momentos de comoção para lançar algo "inédito", o "nunca visto" do autor a quem são rendidas todas as homenagens. Acho até perigoso. Seria um livro de Gabriel Garcia-Marquez ou do seu editor?

Nesse exato momento penso em uma coisa: será mesmo que o melhor que se pode acontecer a um livro é ser publicado? Tenho medo do que esta reflexão pode fazer surgir. Mas vamos lá.

Tudo isto é perigoso porque, no sentido merleau-pontyano, toda obra tem algo a faltar, tem um excesso que quase incita as outras pessoas a retomarem o edifício construído e acrescentarem novas pedras, para uma nova obra surgir.

Sendo assim, escolher um final seria proibir qualquer outro dos cinco finais de existirem, de co-habitarem o mesmo espaço, na folha de papel que, se foi escrita, não saiu a rua, não se expôs aos olhos públicos.

Serei enfátic: Caso esse livro seja publicado, eu serei a eterna viúva dos outros finais, estarei, ao ler, sempre pensando nos outros cinco que por alguma razão não foram publicáveis, foram com Gabo para a última morada.

A publicação do livro que se quer póstumo se torna não apenas um desrespeito à vontade do autor, mas também um problema fenomenológico ao romper com a concepção de que toda obra é inacabada porque vem alguém e a significa.

Claro que se pode pensar que não será a publicação da obra que a tornará acabada, afinal, se assim fosse nunca deveriam ter publicado nenhum livro, uma vez que o ponto final seria sua morte. 

E não é isto, absolutamente, não penso que o ponto final retira do livro seu potencial criador, ao contrário, o ponto final muitas vezes é o motor para que pensemos em tantas coisas, para que criemos algo, o ponto final, é, merleau-pontyanamente falando, o ponto de chegada onde vazio e excesso se encontram, esborram e nos fazem criar.

O que me faz pensar além do problema do ponto final e na eleição de apenas um final, é justamente o fato que ler um livro assim seria um crime, e aqui novamente recorro à  Merleau-Ponty. Segundo o autor, quando leio um livro eu não penso como o autor, eu sou dentro do autor, eu sou o autor, eu vivo a experiência.

Esse problema é muito mais interessante aqui do que o ponto final e é ele que me causa a maior dor de cabeça. Meu medo é justamente este, este medo de estar cometendo um crime, de fazer algo que de certo Gabo não aprovaria. 

Ora, se a literatura e a arte em geral possuem esse estatuto privilegiado de chegar perto do Ser, e se o escritor e leitor se fundem num só a viver a experiência da leitura, eu penso que essa experiência eu viveria sozinha, sem Gabo.

 Eu só penso que a experiência de ler "Em agosto nos vemos" seria algo meio proibido, algo assim para ser feito escondido, eu penso que lê-lo e finalmente descobrir o tal ponto final não seria algo que Gabo permitisse.

Ao ler o que se quer por "obra póstuma" eu estaria rompendo essa relação quase cúmplice entre leitor e escritor, eu penso, na verdade, que Gabo acharia uma ousadia, e assim, eu não pensaria dentro dele, eu seria apenas aquele que sorrateiramente pegou umas páginas escritas por alguém que não desejaria que eu as lesse e sempre estaria fazendo algo errado, algo criminoso.

Assim, estaria rompendo com a própria experiência. Seria como um rato que meticuloso e sorrateiro invade a casa alheia, e isso não evitaria que em toda página que eu virasse eu pudesse ouvir o vozeirão do defunto a me interpelar: "O que você está fazendo?"

Merleau-Ponty certa vez descreveu um livro como "uma máquina infernal de produzir significações". Eu não vejo melhor definição para um objeto, apesar da filosofia em questão desprezar qualquer tipo de representação ou conceituação. Mas, vamos fazer um esforço.

Talvez eu esteja sendo dramática ou até mesmo pessimista, talvez a falta que certamente existiria no “livro póstumo” é o que o tornaria célebre, é o que o tornaria prenhe de significados, cheios de lacunas a preencher, talvez ele me lance a uma nova experiência, talvez ele, o último, não venha com o peso do livro póstumo, talvez venha como uma interessante descoberta, mas jamais virá com a cumplicidade terna que só observamos no verdadeiro encontro entre autor e leitor...

Não importa, eu não vejo o "livro póstumo" que ainda nem existe como uma máquina infernal de produzir significações, porque sempre me parecerá romper com a cumplicidade harmoniosa entre aquele que faz surgir do silêncio as palavras e aquele que as lê já colocando uma ou outra palavra sua em cada página. 

O livro não será nem o último, nem o primeiro Gabo, porque, como nos ensina a boa filosofia, o autor é tudo isso ao mesmo tempo: passado, presente e futuro e não será o nome “póstumo” que me fará vê-lo como uma consequência cronológica da obra de Gabriel Garcia Marquez.

Por esses motivos citados, eu recuso ao livro póstumo e reafirmo aue se há um Gabo ao qual recorro é o Gabo que é pura experiência, pura magia dos sentidos, puro viver, eu sinto e vejo o colorido e o sol de "Memórias de minhas putas tristes", com a cumplicidade carinhosa do autor que insistentemente toca meu ombro a cada página que eu viro. 

Este sim, me é permitido, este é uma máquina infernal, este me abre o mundo, lhe dá forma, cor e sabor, mas, esperem, isto é Fenomenologia!