sábado, outubro 06, 2007

O bem!



Fiz uma descoberta que me fez atentar para muitas coisas desta vida tão ligeira: Quando se está triste, com o coração apertado, abalado, o melhor é fazer o bem. Como assim, fazer o bem?! Sim!! Fazer o bem, sem olhar a quem. Já diz o velho ditado.
Por mais mágoas que existam em seu coração, aprenda a perdoar, a nutrir bons sentimentos e a enxotar o mal de você. Sim, parece auto-ajuda, e é. Parei de querer apenas sublimar, vou fazer algo para as pessoas que sinto precisarem. Somente a bondade é capaz de remover uma mágoa, uma dor.
Ao invés de perder tempo imaginando vinganças, castigos divinos, avalanches e tragédias na vida de alguém, dê a volta por cima, levante-se da cama, olhe a janela, veja o sol, respire a natureza, valorize um pássaro, valorize a vida, a saúde, coisa que nem todos tem, valorize seu coração tão grande, pro qual sempre há elixir. Por isso...encontre amigos, ria com eles, conheça pessoas, cante uma canção, ria com um filme, ria com uma piada, ria até mesmo com um desenho, ria de si mesmo, mas ria.
Ah, também é importante entregar seu coração a causas que mereçam toda a ternura que você sabe existir nele. Estou procurando a minha maneira de contribuir para um mundo melhor, e, que se eu não conseguir ajudar o mundo, ajudarei a quem precisa. E isso comecei a fazer, lentamente.

Somente fazendo o bem é que criaremos a corrente do bem. Dèja Vu? Filme? Sim. E vale a pena. Não pense em rcompensa divina, mas pense que fazer o bem fará o mal ser esquecido e a dor sarar. Faça o bem pra um vizinho, faça o bem para um empregado, pra alguém que achar necessitado. Faça o bem, puramente o bem, mesmo que um dia se aproveitem do que vc deu, faça o bem, abra os olhos sempre com um novo olhar a cada dia, distribua sorrisos mesmo quando o coração chorar, faça valer a pena os dias da sua vida perdidos em tristeza e dor, faça-se sol, faça-se Luz, e faça-se sobretudo a felicidade, que se não é um par de botas, pode ser uma meia colorida.

Eu estou aqui, fazendo o bem às pessoas que acredito merecerem, e que, por mais que um dia me esfaqueiem, viverei feliz por ter ajudado a quem acredito especiais. Por isso, não tenha medo de dizer "eu te amo" para um amigo, para um namorado, mesmo que não seja recíproco, diga, as palavras que são ditas com amor trazem amor para seu coração, não importa o que pensem, continue o mesmo ser especial que um dia disseram que você é. Dê bom dia na rua, deixe de buzinar por besteira, ofereça ajuda a um amigo triste, tenha sempre em si a meta de causar um sorriso com seu sorriso, ofereça uma mão, mesmo distante, a alguém que está doente e precisa de carinho.
Seja amigo, cordial e, sobretudo Leal. Você nada perderá em ser assim, e se você um dia for tachado de otário, tudo bem, o que importa é nutrir e cultivar bons sentimentos. Seja superior, seja alegre, não alienado, mas alegre por viver. Reze, agradeça a algum Deus a sua vida, a casa em que você mora, os livros que você le, as oportunidades que você tem, os amigos que você faz, as pessoas que te querem bem, a inteligência que você sabe cultivar, e o bom coração que é a melhor cura para qualquer tipo de dor.

E que a vida seja sempre alegria e que o pranto se apague a cada sorriso que eu der. E que a luz do sol desmanche a escuridão e a sombra que habita aqueles que tem em preto o coração. Eu sou sol, sou amarelo, sou sorriso. E nada que não seja isto irá me deter, e sigo em frente, colhendo os pedaços de mim pelo chão, guardando-os em uma cestinha, e oferencendo-o a cada pessoa que cruzar por minha vida.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Na era de Bono Vox



Em " Os tempos hipermodernos", Gilles Lipovetsky e Sébastien Charles discutem de maneira fluida e instigadora os tempos em que nós vivemos. Em toda a trajetória do pensamento de Lipovetsky está presente o dualismo do sujeito contemporâneo, preso entre o fomento à responsabilidade ( seja prático, seja humano, seja sobretudo ético, não somente política, mas ecologicamente correto) e às práticas consumistas (consuma não para rivalizar com outrem, mas consuma visando o prazer, a satisfação).

A obra de Lipovetsky, como se pode supor, não faz apologia dos tempos pasados, da era do Simbólico, como muitos psicanalistas, mas observa os fenômenos sob perspectivas mais reais, menos ideais, mais flexíveis - como caraterísticos da sociedade em que vivemos. A mídia tem sim seu poder em alienar os sujeitos, em ditar comportamentos, mas, ao mesmo tempo, promove acesso democrático à informação, permite que esse mesmo sujeito assuma sua vida, tenha a autonomia necessária para agir. Ou seja, para Lipovetsky, não existe apenas uma face boa, nem uma face ruim; ambas coexistem de forma a gerir o sujeito de hoje. Assim, pode-se pensar, o que fazer? Qual nosso papel numa sociedade e em que, aparentemente, somos guiados, tanto rumo à alienação, como à autonomia, mas, de todo jeito, guiados?

Não, Lipovetsky não pensa o sujeito contemporâneo como alguém passivo ao mundo ao seu redor; às mudanças téoricas, políticas e midiáticas. Ele pensa que há, sim, possibilidade de transformação, de mobilidade. Como? Através da tomada de responsabilidade.


É sendo responsáveis que poderemos existir numa sociedade em que já não existe certo e errado e em que impera a autonomia, a ampla gama de opções e o livre arbítrio. Ser responsável, nos tempos de hoje, é poder agir conforme uma ética, não mais uma ética vinda de fora, capturada pelos ouvidos, impostas como superego; a ética de hoje é extremamente pessoal, subjetiva e baseada nas paixões.


Dessa forma, torna-se uma escolha ser responsável ou irresponsável (apesar de que ambos existem no cerne do sujeito de hoje, impossível negar), porém e preciso que se escolha mais o viés responsável para que possamos viver em um mundo, digamos, que se não pode ser igualitário, que possa ser justo. No fundo, a existência hoje não está mais centrada no bem-estar social , mas sim, no bem-estar pessoal.


Assim, ser responsável é uma escolha diante do inevitável irresponsabilismo, ser ecologicamente correto é uma escolha e um diferencial entre os sujeitos. Assim, fulano não é mais representado pelo que tem, não , já foi o tempo do ser pelo ter, agora somos testemunhas do parecer pelo ser; fulano então não é descrito como, Maria da Silva, 32 anos, bióloga; é descrita como Maria da Silva, 32 anos, responsável, não joga lixo no chão, não escova os dentes de torneira ligada, contribui com três ações por dia para tornar o mundo em que vive mais saudável.


É interessante quando vemos isso acontecer frente aos nossos olhos. Atualmente vê-se o crescimento da preocupação com o aquecimento global, com a queimada nas florestas, com o desaparecimento da camada de ozônio. Tudo muito no nível da aparência, regido por uma ética pessoal, subjetiva: alguém me disse que é "in" ser contra Bush, saber falar sobre o protocolo de Kyoto, contra o desmatamento e fazer ações ecologicamente corretas, reciclagem, etc. Alguém me disse, alguém faz, e isso gera uma satisfação pessoal, assim, faço eu também.Se puder estampar isso, em uma camisa, ótimo. Todos saberão que sou contra Bush, reciclo papéis e sei quantos porcento de mata atlântica são devastados por ano.


Desse modo, vê-se Madonna, Elton John, tantas outras bandas famosas fazerem discursos ecologicamente corretos, vê-se os "Live aid" "Live Earth" e afins visando mobilizar um sujeito ao mesmo tempo alienado e autônomo, guiado pela mídia e que tem em Bono Vox o modelo de sujeito contemporâneo, abrigando o responsável (atitudes corretas, ações de solidariedade) e o irresponsável (representante do rock'n roll como arte subversiva, em outras épocas) em seu cerne.


Sim, vamos usar a mídia, a Madonna e suas dancinhas, hoje, politicamente corretas, como modo de retirar o sujeito contemporâneo dessa letargia da qual somente a mídia, a moda e o consumo podem retirá-los.


Assim, cabe perguntar: Há erro nisso, se, inegavelmente as pessoas estão cada vez mais cientes dos males que faz ao planeta, aos problemas advindos de tantos séculos de negligência para com o "planeta azul"? Não, é preciso ver o lado bom disso.


Por mais que sejamos sujeitos dotados por uma ética pessoal, subjetiva e que priorizemos o privado e o pessoal em detrimento do público e do social, por mais que não tenhamos grandes livros, grandes instituições e grandes líderes nos dizendo o que fazer, cada sociedade tem aquilo que merece. Temos Bono Vox, Live earth e Al Gore, este último revestido pelos poderes midíaticos, está mais para o show business do que para a política como nos acostumamos a entendê-la.


Portanto, que não joguemos pedras nos recursos que temos, hoje, para viver em sociedade, que possamos fazer limonadas com os limões que temos a mão, mas se pudermos sempre buscar modos para que as cascas sejam reaproveitadas em alguma cooperativa ecologicamente correta, tanto melhor.

domingo, setembro 02, 2007

Salve Freud, Salve Sarah Bernardht e sua histeria!




França, Paris, 1885


Antes mesmo da construção da Torre Eiffel, uma outra atração toma conta da cidade-luz, capital da erverfescência cultural mundial. Tudo que havia de mais moderno estava em Paris, os melhores cafés, artistas de renome costumavam confraternizar-se em ambientes em que predomina a cena intelectual.


Neste meio estava Freud. Médico, em seus 29 anos de vida, interessado em neurologia. Conseguiu uma bolsa de estudos e foi-se embora pra capital do mundo. Lá foi estagiar no Hospital Salpetrière, conhecida instituição depositária de mulheres denominadas "pacientes nervosas". Freud tinha um laboratório de neurologia a sua disposição, os melhores professores e bibliografia acerca do que desejava estudar. No entanto, seu interese começa a ser dirigido para as aulas do professor Jean-Martin Charcot .


As aulas mais interessantes na opinião do jovem médico eram as aulas de Charcot. Pacientes "nervosas" eram apresentadas à sala, composta por muitos outros jovens médicos, e ali acontecia o que veio a ser a mola propulsora do arcabouço teórico psicanalítico: A Histeria.

Freud se surpreendia com as pacientes que podiam rir, chorar, até mesmo andar , mesmo com seus membros paralisados, ao simples comando e sugestão de Charcot. Os fenômenos histéricos ali eram apresentados como se fossem encenados. Sim, a atração turística de Paris eram as histéricas do Salpetrière.


Em novembro de 1885, escreve Freud a Martha Bernays, sua futura esposa:

" Acho que estou mudando muito. Vou dizer-lhe detalhadamente o que está me afetando [...]não sinto mais nenhuma vontade de trabalhar em minhas próprias bobagens [...] meu cérebro está saciado como se eu tivesse passado uma noite no teatro [...]”


Ah! Como é bom estar aberto a novos interesses. Freud estava em Paris pra estudar neurologia e acaba interessando-se pelas mulheres que representavam a histeria como se fossem atrizes, talvez...influenciadas por Sarah Bernardh, a grande atriz dramática da época. Sim, minha opinião é que nós, psicanalistas, psicólogos ou não, nós, como humanidade, devemos agradecer à Arte se hoje conhecemos algo chamado Psicanálise.


Exatamente, eu acredito que se não fosse o gosto de Freud por tudo que fosse de cunho artístico/cultural, jamais poderíamos ter conhecido a teoria psicanálitica, e, com isto, a história do pensamento humano perderia muito.


Se não fosse assim? Se não fosse assim, talvez o nome de Sigmund Freud fosse visto apenas em compêndios de medicina, de neurologia, falando algo sobre o nervo óptico. Sonhos? Atos falhos? Chistes? A humanidade jamais ouviria falar nisso.


Em consequencia, não haveria MelanieKlein, nem Donald Woods Winnicott, nem Carl Gustav Jung, nem Jacques Lacan. Sim, não haveria psicanálise. E como pensar num mundo sem Psicanálise? Como conceber um mundo em que não existisse Freud, o psicanalista e sim, Freud, o neurologista?


Eu, particularmente, não consigo entender o mundo sem os olhos psicanalíticos, talvez estivesse eu estudando as algas, os fitoplânctons, úlceras gástricas, geografias, tremores sistímicos, escala Richter, marte, plutão, aurora boreal, sistema nervoso, sistema endócrino, àcaros...Mas não o psiquismo humano e seus meandros.


Por isso eu hoje rezo por Sara Bernardht, rezo pelo primeiro egípcio que inventou os hieroglífos, agradeço à sociedade mesopotâmica, à Leonardo da Vinci, a Dostoievksy e tantos outros nomes que influenciaram Freud e o impressionaram a ponto de fazê-lo dar cria ao que chamamos de Psicanálise. Eu agradeço ao deus das artes, se existe um, seja ele pertencente à mitologia grega ou romana, por ter me dado esse presente, que mesmo q pertença a toda a humanidade, me faz ter vontade de abrir os olhos todos os dias e desejar descobrir algo novo.


terça-feira, agosto 21, 2007

Escrevendo com Machado e Freud




Hoje estive pensando sobre o escrever. Não é segredo para os que vem aqui ( se é que vem) que advogo em causa própria quando falo da escrita como um ato de extrema utilidade para aqueles que , na impossibilidade de passar ao ato, enveredam pelos caminhos tortuosos da linguagem. Eis o ato sublimatório.

Não vou bater na mesma tecla. Todos nós sabemos o quão útil é escrever, colocar no papel ou, mais modernamente falando, na tela, caracteres que revelem um pouco do sofrimento e que, juntos, possam ser capazes de aplacar um pouco dos sentimentos inconfessáveis ou intoleráveis. Sim, balela, todos sabemos dessa utilidade cada vez que nos debruçamos sobre uma folha de papel em branco.

Hoje pensei em outro aspecto envolvido na leitura, não menos dispensável ao processo da escrita. Chega a ser óbvio. Se eu escrevo, há um alguém a que meu texto é direcionado. A essa alguém chamamos de leitor.

Ao ler diferentes autores podemos, além de nos deter nas linhas e nos pensamentos manifestados ali a nossa frente, compreender como se dá o processo de escrita e especialmente, como cada autor constrói sua relação com o leitor, o que está do lado de lá, mas que não deixa de imprimir sua marca no papel escrito no ato mesmo da leitura.
Confuso? Machado de Assis é mestre nisso. A cada leitura das obras do autor, podemos perceber como é construída essa relação tão ambivalente entre o escritor e aquele que lê.

Nas obras machadianas consideradas injustamente “menores” como “ A mão e a luva” e “Helena”, o autor faz poucas menções ao leitor que futuramente chamará de querido, dedicado, amável e outros tantos adjetivos que beiram o companheirismo e permitem revelar uma suposta intimidade entre autor e leitor. Isso mesmo, uma relação de intimidade e mesmo de cumplicidade.

Essa mesma cumplicidade é posta em cheque em Dom Casmurro, uma vez que o autor não revela para o leitor o mistério da narrativa – afinal, nada se sabe sobre Capitu que não tenha sido dito por Bentinho, narrador que julga os fatos da maneira que lhe convém – e por isso convoca o mesmo para que descubra o que há por trás do mistério da menina de olhos oblíquos e de idéias atrevidas.

Em Machado de Assis o leitor inclusive é convidado a saltar páginas, capítulos, “ir direto ao próximo evento”, caso ache a narrativa enfadonha. Liberdade maior, impossível. O leitor é considerado como peça viva e fundamental também no processo de realização de um livro. Às vezes guiado pela mão, outras abandonado com o cenho franzido em dúvida, é esse o jogo que Machado faz com o leitor, o que não deixa de dar um caráter de cumplicidade à relação construída entre os que lêem e o que escreve.

Há quem ache que um livro está pronto quando sai das esteiras de produção das editoras e são encaixotados e mandados para as livrarias? Se engana quem acha isto, o livro nunca é pronto, ou terminado.Tampouco esse texto pretende um fim apenas por ter cessado o ato fisiológico dos órgãos motores envolvidos na escrita.
Para aquele que lê, sempre é possível apreender novas nuances a cada leitura de um livro interessante. Há quem tenha lido inúmeras vezes Dom Casmurro à espera de encontrar um ato falho, uma pista, um vestígio qualquer, “esquecido” pelo autor, que revele finalmente a consumação do adultério ou a inocência da moça de Matacavalos. Acredite. Há inclusive aqueles – e não necessariamente pode-se dizer que são autores “leigos” – que bradam ter encontrado sim, vestígios que possam conduzir à solução do mistério em torno da personagem feminina mais dúbia da literatura brasileira.

No ponto de vista do autor, ao livro sempre cabe alterações, pequenas ou grandes mudanças que possam influenciar a construção da narrativa e também o processo de leitura. É por isso que existem tantas edições e re-edições.

A escrita, cumprindo seu papel sublimatório nunca libera libido suficiente para que a satisfação seja completa, como seria caso o ato que se desejava realizar, ao invés, fosse posto em prática. Por isso, na tentativa de fechar esse buraco nunca fechado, é que se margeia tanto, é que se faz tanta borda. E haja edição, re-edição, compilação...

É isso que nos ensina Freud. Falando no próprio, é interessante notar como se constrói o processo de escrita em Freud e como isso influencia os leitores, transmissores do arcabouço teórico psicanalítico.

Observamos o extremo cuidado que o precursor da psicanálise utiliza ao juntar as palavras em frases, em capítulos. Se nos esquecermos um pouco do percurso científico e o arcabouço teórico desenvolvido por Freud e atentarmos somente no processo de escrita, podemos perceber um autor que, também como Machado de Assis, parece conduzir o leitor pela mão, para que este encontre o significado do que tão ardentemente deseja provar, ao mesmo tempo que às vezes o abandona à própria sorte.

Inicialmente Freud utilizava-se de códigos científicos para apresentar sua criação ao mundo. Obviamente a escrita fica assim hermeticamente fechada, destinada a poucos e compreendida por menos ainda. Seus estudos sobre os processos psíquicos, o chamado “projeto de 1895”, revela ao mesmo tempo uma busca pelo rigor cientificista influenciado pelo Positivismo e uma necessidade de aprovação por parte de quem lê. Ou seja, podemos entender que há aí um paradoxo em Freud? Talvez.

A partir do momento que dizemos que o Projeto de 1895 é uma obra destinada a poucos e que cumpre função de prover a psicanálise de um cunho científico através da neurologia, estamos dizendo que a Psicanálise ainda não é reconhecida como arcabouço teórico independente e subversivo( no sentido de que promove novas concepções acerca do sujeito e do sofrimento psíquico).

Aonde está o paradoxo? Está exatamente no Cientificismo. Em nome dele, Freud, mesmo inconscientemente (já que estamos na área mesmo, o termo cabe!) rejeita o leitor, nesse momento Freud abandona o leitor desejoso de conhecimento e centra-se no outro leitor, o leitor-medico, o leitor positivista. Ah! Então não há paradoxo, há uma escolha consciente (também cabe o termo) de um leitor que respalde a “ciência” que Freud concebe.

Não há paradoxo, entretanto, se pensarmos que esse leitor, desejoso de psicanálise, ainda não nasceu e para que este parto se dê é necessário que Freud convide o leitor-médico fin-de-siècle para dar validade ao que , posteriormente, tornar-se-á a teoria Psicanalítica e definitivamente, abandonará a necessidade de ser fazer valer da alcunha de Ciência.

Nesse ponto, cabe vários questionamentos, como, por exemplo, quem era o leitor de Freud? Como esse leitor foi construindo seu papel na construção da teoria psicanalítica? Partindo dessa última questão, seria bizarro demais supor um processo de co-autoria, Freud e leitor?

Não. Arrisco. Porque como dito anteriormente, quando alguém se propõe a escrever – seja uma obra literária seja uma nova teoria psicológica – presume-se, para além da sublimação inerente a si mesmo, um outro lado, o lado de quem lê.

Portanto, o leitor sempre será co-autor na medida em que está presente no processo de escrita antes mesmo de uma provável re-edição, possibilitada por pesquisas de desempenho de vendas.

O leitor está presente no desejo da escrita de todo autor. E como estamos falando de Psicanálise, vamos a Lacan: Tal como o sujeito nasce mesmo antes do ato de seu nascimento, o leitor é co-autor na medida em que nasce no desejo do autor. É como o bebê, que muitas vezes nem foi concebido e já tem nome, roupas, quarto e um lugar no desejo da mãe.

A relação Escritor x Leitor se passa o mesmo: Seja então motivado por puro narcisismo de ser lido e reconhecido como um grande autor ou por desejos essencialmente capitalistas de tornar do livro um best-seller, o leitor está ali, no desejo do autor, de ser entendido ou mesmo de não ser compreendido nas linhas em que escreve (em quem você pensou como ilustração desse exemplo?).

Por isso, seja no campo da literatura, da psicanálise, da ciência, que jamais nos desprendamos do nosso papel de leitor e co-autor, que funcionemos sempre como esse regulador no desejo de quem escreve para que nós mesmos possamos encontrar sublimação e desejo no ato da leitura.

Nos tempos em que a imagem digital comanda o mundo e a mídia se torna um quarto poder, cada vez menos pessoas se reservam o direito de serem co-autoras de tantas obras à espera de um leitor que as termine, mas, há término? Estaremos sempre destinados à reticências, sejamos nós aqueles que escrevem ou aqueles que lêem; o processo nunca se dá por terminado.

Se soubessem, aqueles que não lêem, o poder intrínseco à leitura, certamente estariam já com um livro à mão. Assim, poderíamos escrever tantos outros textos como esses, que se explicariam e se confundiriam uns aos outros, gerando outros, e outros...

terça-feira, junho 19, 2007

Era uma casa




E hoje eu vou embora. Na verdade eu já fui, mas hoje eu vou oficialmente. Vou com uma mala vermelha, uma mochila e varias lembranças. Aqui eu fui a minha melhor , pior e única companhia.
Aqui aprendi sobre a sensação de ser estrangeira numa terra que a nada se assemelha com a minha, aprendi a chorar e a rir sozinha. aprendi sobre a vida, sobre dor, amor, amizade e família. Acho que o que menos aprendi aqui foi Psicologia – aquela dos livros.
Em pensar que nos primeiros dias consegui pés machucados. Hoje, cerca de um ano depois, saio com o coração avariado. Avariado porque não necessariamente triste, nem sangrando, mas posso dizer que mal das pernas. É isso, meu coração vai mal das pernas.
Quanta dor, pra nos neuróticos, existe num simples virar de página? Falo por mim, muita.
Hoje resolvi tentar umas muletas, para o coração. Fui andar. As velhas andanças por um lugar que já chamei de lar. Senti os mesmos cheiros, das plantas, dos amaciantes de roupa de uma casa que já foi tão familiar, e hoje, embora já distante, continua parecendo um lar.
Lar. O que seria aquele lar? Uma casinha de madeira, se eu fosse Vinícius poderia tentar uma rima, ou simplesmente dizer que não tinha teto, não tinha nada. O caso é que tinha teto e assoalho. Era uma casa muito engraçada, isso era. Era uma casa que era minha, mesmo sem ser.
A minha casinha era assim, pequena mas perfeita para mim. Ali sorri,chorei, amei, esperei e estudei. Naquele pequeno espaço, que, ironicamente, costumava ser a sala de costura de uma casa só, me costurei.
Tenho que dizer que nem sempre tinha linha, às vezes só tinha que dar uns alinhavos, às vezes dava um ponto, mas muitas vezes faltava agulha.
Metáforas poéticas à parte, naquela casinha eu fui, na maior parte do tempo, feliz, mesmo sem saber que o era. Na antiga salinha de costura eu aprendi a ser gente. E os caminhos parecem ainda tão familiares...na maioria do tempo parece que nunca sai daquela casinha alemã.
Não consigo descrever muito o que eu senti, porque não inventaram ainda no dicionário o que sirva pra descrever um sentimento de pertencer sem pertencer. Não sei se me faço entender, se não, vai ver que é porque até pra mim soa confuso. No caminho pra minha antiga casinha, vendo de novo as mesmas flores, as mesmas arvores, eu pensei que ali eu fui feliz, mais talvez do que triste, aquela casa, aquela rua , aquelas flores, serão ilustrações mentais... quando eu me lembrar dali. Vou lembrar ate o dia em que eu não mais respirar, eu vou lembrar da minha casinha.
Vou lembrar do lugar em que aprendi que eu existia independente de um espelho, vou lembrar que eu era alguém, diferente dos outros, mas também essencialmente carente e dependente, dos outros.
Sim. A minha casa tinha teto, tinha porta e era engraçada. Tinha vida, apesar de ser só a minha. É verdade que nem sempre o sol aparecia – as persianas sempre fechadas. Mas eu podia dizer que ali tinha vida.
A minha casinha não é mais minha, tem outro dono. Mesmo que as minhas contas não cheguem mais ali, mesmo que não tenha eu para não abrir as persianas, mesmo que não tenha a minha bagunça, a minha casinha, na minha memória, sempre será minha.
Certamente outras casinhas virão. Mas nesta, nesta eu deixei algo, e não foram toalhas.

sábado, junho 16, 2007

Vá ao cinema: Uma demonstração de como a culpa pode ser útil à humanidade

Hoje estive pensando porque diabos a culpa aparece em nossas vidas. Certamente quem estuda Psicanálise entende, desde os seus primeiros estudos, desde as primeiras cópias tiradas no primeiro semestre de faculdade que não existe humanidade sem culpa; sequer existe civilização sem culpa.
Na verdade desde que nascemos já nascemos banhados pela culpa e pelo líquido amniótico, claro. Somos culpados por desejar nossa mamãe, depois, nossos pais do sexo oposto. Somos culpados por tentar dar vida a um desejo que nos é , desde o sempre proibido. Em Totem e tabu (1914) Freud traz um mito psicológico das hordas primitivas e do banquete totêmico. Segundo tal história, os homens, cansados de viverem sob o julgo de um pai maior, decidem matá-lo, enfastelando-se com tudo que lhes era proibido outrora. No entanto, depois desse momento inicial de euforia por se verem livres do pai, aparece um momento depressivo; É como se fóssemos bipolares!
Advém então a inaplacável culpa. Matamos o pai, nos enfastelamos, e agora? Agora é nos desculpar. Botar esse pai no pedestal. Sim, afinal, fomos malvados, somos malvados e nada que façamos minorará essa culpa.
Então, por que falo disso? falo disso, obviamente, por causa do sintoma que me aflige. Mas, por favor, deixemos de máscaras, todos nós sentimos culpa em algum momento, fomos criados pela culpa. foi justamente a culpa que nos fez ter filhos, crir famílias, pois, uma vez que não podemos casar com mamãe, o que me restam são as outras mulheres; também não posso ter um filho de papai, então, quero ter uma família.
Não fujamos: somos filhos da culpa e a ela para todo o sempre pertenceremos. Claro que existem aqueles cuja culpa sente como completamente expiada, projetando-a para o mundo externo, assim, não sou eu que devo ao mundo, mas sim, o mundo deve a mim. Essa é bem a lógica perversa, tão conhecida pelos assassinos, delinquentes.
Eu, como boa histérica, ainda faço parte daquelas mulheres novecentistas, da sociedade burguesa vienense, certamente estaria me contorcendo se estivesse no hospital Salpetrière, local onde Freud primeiro encontrou-se com as histéricas. Certamente estaria dizendo que padecia de cegueira, ou manca da perna. Sim, não nasci pra ser perversa, sou neurótica e me sinto eternamente em dívida.
Eu devo à Deus e ao mundo. Sou culpada por desejar, por amar e por não amar, mea culpa, mae máxima culpa. E nessa tentativa de expiar tanta culpa, de tirar tanto peso dos meus ombros, eu continuo assim, dando cada passo a procura da expiação.
No entanto, algo me preocupa: E o que aconteceria se um dia essa culpa simplesmente deixasse os meus ombros. Não sejamos ingênuos, a culpa nunca vai nos deixar, e o bom é isso!Teremos sempre algo a dever. Quão anormal é isso?
Juro que se fosse pra eu escolher uma estrutura psíquica, eu escolheria sem titubear a perversão! Além de estar em moda atualmente, deve dar uma adrenalina a mais em nossas vidas...como seria bom sair enganando o próximo e poder rir depois, como seria bom viver a vida só do presente, em busca de alcançar um prazer sem igual. Sim, eu queria ser perversa e não dever nada a ninguem, "ninguém paga as minhas contas". Mas o negócio é que eu devo.
Outra coisa interessante: Quem disse que o neurótico nao sente prazer? Poxa, nós temos nossas vantagens também; ao contrário do ´psicótico, nós podemos sublimar, sublimar tudo aquilo que desejávamos fazer e não temos a coragem. Sublimando criamos arte, criamos filmes, poesias, peças, músicas, e inclusive, textos sobre culpa.
A sublimaçao e a culpa é que são a mola do mundo. Caso não o fosse, existiria Woody Allen? Seus filmes densos, complexos revelam todo o dilema do neurótico "quero mas não posso". Não, sem a culpa não existiria o cinema de Woody Allen, no entanto, sem a perversão não existiria Almodóvar.
O que nos resta? Seja você neurótico ou perverso, vá ao cinema. Caso for psicótico e não estiver internado vá, ou aproveite se o hospício possui um telão. Vá ao cinema, seja para ver outras pessoas fazendo o que você jamais faria, por culpa, seja para deliciar-se com toda a perversão que você reconhece em você, ou seja simplesmente para ter um delírio de grandeza que você é tão famoso quanto o ator na tela.
Vá ao cinema, mas, caso volte tarde, não se sinta culpado.

sexta-feira, março 30, 2007

Reflexões de uma psicóloga recém-formada



Quando você sai da faculdade, que alívio! Parece que todos os compêndios, todos os livros, todas as teorias e procedimentos foram, enfim, encasquetados em sua cabeça e agora você é alguém apto para assumir o posto de profissional.

Quando você sai da faculdade, você parece mais maduro, parece mesmo assumir um ar grave, mais pausado, como se houvesse adquirido uma certa rigidez, ou uma certa tranqüilidade, confundida, muitas vezes, com serenidade.

Enfim, após seis longos anos esquentando as cadeiras semi-quebradas da universidade federal de alagoas, você parece ter saído de uma guerra, vai andando , rastejando, esfarrapado e talvez até com marcas de tiro pelas calças. Você venceu, atravessou greves, chuvas e ruas enlameadas. Você finalmente se formou, tome o canudo!

O que se espera de um psicólogo recém-formado? Eu agora pergunto a você, porque eu também não sei responder. Eu só posso conjecturar.

Será que esperam que tenhamos mais maturidade, mais “serenidade” para tratar dos outros? Será que esperam equilíbrio emocional, visto que, quem passa por seis custosos anos na Universidade Federal de Alagoas, agüentando, muitas vezes, professores medíocres metidos a suposto-saber, deve ter, no mínimo, alguma coisa como sanidade mental, o que o difere, logicamente, da raça dos que vão pagar pelos serviços que vamos oferecer?

Será que esperam que nos sujeitemos a salários humilhantes porque carregamos conosco o triste prenome de "Recém formado"? O que esperam de um psicólogo recém formado?

Eu faço essa diferenciação, obviamente pelo motivo que sou psicóloga, e não teria sentido eu falar aqui de um biólogo recém formado, posto que não sei o que as algas têm de especial que possa fazer de um recém formado biólogo uma criatura diferente de um biólogo com 10, 20 anos de estrada.

Não entendo de Biologia, então fico com a Psicologia, não por entender dela, mas, por presumir que meu conhecimento acerca do comportamento humano é infinitamente maior do que qualquer coisa que eu possa saber sobre plânctons ou medusas, ou fungos, ou o que os valha.

Somente o psicólogo recém-formado se depara com uma questão cruel, uma questão que nos é lembrada pela sociedade a todo minuto: Você estudou, presume-se que os longos anos, a entrada no mercado dos estágios, a passagem pelo trabalho de conclusão de curso faça de você uma pessoa mais madura, isso mesmo, de novo, mais serena, e agora, apta a cuidar das mentes alheias.

E por que não antes? Porque antes você nada sabia. Essa transição de estagiário/estudante para profissional da psicologia é desestruturante, muitas vezes alucinante, como em outras profissões também é, mas, no caso da Psicologia, o negócio é pior: Como asssim, você é Psicólogo e não sabe da sua vida? Como não consegue ter maturidade suficiente para lidar com o fato de que, agora, você é um desempregado, mas, com um canudo na mão?

Como vencer essa situação parece um mistério. Alguns resolvem (tentam) isso em suas terapias, que muitas vezes começaram dizendo que era uma “exigência curricular” (anhan, ok) mas que também não é fonte de alívio completo, uma vez que, não se esqueça, você é desempregado, mal tem dinheiro pra pagar o CRP (Conselho Regional de Psicologia) e depende dos pais, então, como pagaria as sessões no terapeuta, no analista, pra falar do sofrimento psíquico que é ser desempregado, da dor existencial da depressão pós-TCC?

Não, certos luxos, por favor, têm que ser cortados. Porém, você é um profissional, levante-se. Ânimo! É o que digo a mim e a muitos que estão na mesmíssima situação. Há de existir alguma alma caridosa que confie em seu potencial (que na verdade você não tem) e que o ajude a ser alguém na vida, talvez daí, de um emprego, de um salário em dia advenha serenidade e tranqüilidade (vamos ser objetivos, essa é a vida real).

Apesar da descrição da vida difícil do psicólogo cheirando a leite, cabe aqui acrescer um fato bom, uma luz no fim do túnel, uma vantagem, enfim, de ser recém formado: o orgulho e a soberba que podem ser encenados diante dos que ainda não se formaram. Veja bem, você pode não ter emprego, nem dinheiro pra pagar a anuidade do CRP e nem pra continuar a terapia, você pode não ter dinheiro também pra participar dos eventos sempre tão estimulantes e dos coffee breaks tão pobres lá servidos, mas aquele olhar de quem já passou por tantos percalços, leituras, seminários, isso você pode ter, ou ensaiar.

Isso mesmo! Ainda há um motivo para sorrir: Passar diante dos que não são formados, dos que ainda esquentam as regiões traseiras nas cadeiras carcomidas da Universidade Federal de Alagoas, ou de qualquer instituição que se denomine de ensino.
Ora, todos nós sabemos que o ambiente acadêmico é um ninho de cobras, cada um querendo passar a perna (cobra tem perna? Ai como queria entender de Biologia!) no outro, é concurso pra lá, fraude pra cá, então, se o ambiente já é assim nefasto, por que não dar a sua contribuiçãozinha de maldade e desfilar um certo ar esnobe diante dos aprendizes, inferiores que são?

Aí você pode, esquecer as misérias da sua vida, e desfilar um sorrisinho no rosto de suposto-saber. Ahá, eu sei mais que você, eu já passei pelas fases turbulentas, eu já li Freud, Lacan, Winnicott e Klein e, obviamente, já apresentei meu TCC, inclusive abracei a teoria das minhas entranhas, que, claramente, é a melhor de todas, isso me faz melhor que você! Puro engodo, pobre de nós... é uma defesa tão triste, mas que dá um consolo, isso dá.

Não somos nós que entendemos de fantasia? Que tal esta? Se não há dinheiro, só nos resta é o imaginário, nele podemos vestir as roupas mais bonitas. E haja tarja preta!