sexta-feira, janeiro 18, 2008

Por que não arruma um emprego de verdade?

Quero fazer desse lugar uma apologia à pesquisa, seja ela qual for, seja você um estudioso em algas marinhas ou em glândulas cebáceas, o que é importante que você, pensador solitário, errante no caminho das metodologias da vida, consegue abstrair seu pensamento para ir além.
Falo com esse entusiasmo porque admiro aqueles que se dedicam pacientemente a estudar uma verminose ou a conhecer todos os efeitos produzidos pela mordida de uma jararaca, sabendo seus mais curiosos hábitos e o porque de tal mordida ter tal sintoma ou outro.
Quando se fala em pesquisa no Brasil muita gente torce o nariz, outras aplaudem, mas, na verdade, o que se sabe é que aquele que pensa é porcamente recompensado pelos préstimos que oferece à nação. Não quero dizer com isso que seja o trabalho mais importante do mundo, imprescindível, mas o único que permite a circulação e a produão do conhecimento.
Caso não o fosse, não se teria chegado ao coquetel de drogas oferecido aos portadores do HIV, não se ouviria falar do projeto Genoma, tampouco se saberia aonde se localiza o hipotálamo e o que acontece quando este sofre uma lesão.
Tudo bem, vá lá, vendo a situação por esse ângulo nota-se que há uma certa valorização pelo conhecimento adquirido através da atividade da pesquisa, mas, e os outros tipos de pesquisa, as não tão palpáveis, aquelas mesmas que são consideradas por muitos como “perda de tempo” ou “falta do que fazer”?
Sim, me sinto uma dessas. Apesar de saber que o que estudo é de suma importância para a compreensão dos relacionamentos entre homens e mulheres, para se entender a lógica feminina e o porquê de tantos embates e tantas polêmicas, sobretudo para se concluir que o mundo, de fato, hoje, é feminino.
Importância. Palavrinha escorregadia. Importância para quem? Como qualquer pesquisadora, eu poderia dizer que é de suma importância para mim, uma vez que já dedico 4 dos meus últimos anos debruçada sobre a temática e que, portanto, é impossível que não seja o mínimo instigadora para mim.
Claro, para mim é, pra você pode não ser, mas o que quero dizer é, esquecendo do meu caso particular, que a pesquisa faz o conhecimento saltar das páginas, tal como o bom livro, lembra? A pesquisa faz o pesquisador, autoriza o aluno e empolga o professor, em suma, a pesquisa mobiliza os pensadores e cria pensadores.
É uma pena que nós, aqueles devotados ao estudo de artigos científicos, freqüentadores assíduos das bases de periódicos Scielo e cia, pessoas que fazem de tudo por um ponto no famigerado Curriculum Lattes não possam contar com uma remuneração mais justa por simplesmente pensar e fazer (futuramente) pensar os nossos alunos.
Passamos boa parte de nossas vidas dedicados à obtenção de títulos, a publicações em revistas científicas, para chegarmos um dia a sermos considerados “professores”, professores mestres, professores doutores.
Para quê? Seria ridículo eu dizer que apenas seria em nome do compromisso que firmei com a nação uma vez que resolvi fazer circular o conhecimento, não, é utópico e presunçoso demais, o conhecimento não vai começar a circular ou mesmo circular melhor porque eu decidi ser pesquisadora. Acho mesmo que vai muito ego nisso tudo.
Muito simples essa questão de ego, enquanto uns o enaltece malhando o corpo, outros enaltecem colecionando namorados, e outros, bem, outros o enaltecem estudando para um dia chegarem a uma sala de aula e serem tratados como carrascos ou desagradarem meio mundo.
O pior de tudo: a recompensa. No Brasil, um professor doutor pode ganhar, no máximo, se tiver muita sorte, uns sete mil reais. Já um promotor, desembargador ou juiz pode ganhar o dobro, triplo, não entendo nada da esfera judicial.
Não quero com isso desmerecer o serviço dos juristas, dos advogados que tanto ego possuem e, além de tudo, são pagos para enaltecê-lo e mais, de brinde: porte de armas pra ameaçar geral e bradar alto mesmo quem manda aqui.
Ok, ressalvas à parte. O fato é que professores doutores não são reconhecidos nem um pouco e isso me deixa um tanto triste, porém, não desmotivada, visto que, alguém deve fazer o trabalho sujo.
Feito aqui o desabafo, reitero, nosso trabalho é útil sim, e mesmo que o conhecimento não ultrapasse todas as barreiras, malmente figura no Lattes de alguém, que nossas palestras estejam sempre vazias e levemos sempre para casa a voz perseguidora dos orientadores em nossa cabeça, o trabalho sujo vale a pena, enaltece e enriquece intelectualmente.
Fale você de serpentes, de coqueiros ou de mulheres, o trabalho intelectual é importante, sobretudo quando se tem amor pelo que se pesquisa e se consegue transmiti-lo da melhor forma possível para outras pessoas. O conhecimento então circula, e abunda, fertiliza.
Dedico esse texto a todos os mestrandos da Unisinos, que, por hora, encontram-se como eu, atordoados entre os prazos e a ansiedade da defesa da dissertação que, se não for a melhor produção de sua vida, é , neste momento, o ápice da sua vida.
Para todos desejo sorte, a mesma que desejo a mim mesma e que nossos caminhos não sejam jamais cruzados por alguns seres acéfalos, animais ruminantes ou qualquer ignorante que nos faça a terrível pergunta: “Vem cá, por que tu estuda isso? Por que não vai arrumar um emprego de verdade?”

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Jabor contra Coelho






Eu que não li Paulo Coelho me espanto com o número de pessoas que habita a comunidade no orkut chamada "Paulo Coelho não é Literatura". São mais de 10 mil pessoas exigentes, talvez não todos críticos de literatura, muitos devem ser agitadores, revoltados, rebeldes sem causa que nem eu, a bradarem seu medo de que um dia o célebre autor vire leitura obrigatória em colégios e faculdades.


Não posso negar, faço parte desse mundo de gente que assertivamente diz que Paulo Coelho não é literatura. Vocês podem dizer, qual é a sua base para dizer que Coelho não é literatura?Não mentirei, não li seus clássicos. Tampouco li Dostoiévsky, não, sequer folhei o Código Da Vinci. Tem muita coisa que não li e mesmo assim critico, mas com Paulo Coelho é diferente, é um prazer maior, não sei por qual motivo, simplesmente gosto de criticá-lo. Assim mesmo.


Eu digo que Paulo Coelho não é literatura, simplesmente por convicção de que, não sendo ignorante quando se trata de letras e já tendo lido Machado de Assis, Luiz Fernando Veríssimo e Goethe, eu posso, por exclusão, dizer que Paulo Coelho , e o pouco que sei dele, não é literatura. Digo mesmo influenciada pelo grupo de rebeldes críticos, não, não é literatura mesmo sem eu ter lido uma linha.


Acho que a boa literatura é aquela que nos leva para outros mundos, para além das quatro paredes nas quais nos encerramos com o livro na mão. A boa literatura, no entanto, entendo não ser apenas isso, posto que o que Coelho faz, segundo quem o lê, é levar tanta gente a tantos lugares exóticos, exotéricos.


A boa literatura exige mais do que um passaporte imaginário, ela exige capacidade crítica de quem lê, para que, tomando as letras que absorve como metáfora, possa fazer da palavra lida, palavra escrita por ele mesmo. O que quero dizer é que, na minha opinião, para ser um bom livro, o livro precisa nos ler e nos pegar pela mão.


Atualmente estou lendo Jabor, "Amor é prosa, sexo é poesia", e acredito que, nada melhor do que um livro de crônicas bem escritas para nos fazer desabrochar a capacidade de pensar. Jabor nesse livro fala sobre tudo um pouco: relacionamento homens e mulheres, contemporaneidade, crônicas sobre o futuro do Brasil...enfim, são temas variados que fazem o bom leitor indagar, questionar, e sobretudo, além de pensar, colocar algo em movimento sob o impacto da palavra lida.


Desde as relações frouxas da era pós-moderna até a bunda de Juliana Paes, o Jabor fala de coisas com que todo mundo se depara até mesmo na banca de jornal da esquina, com isso, não necessariamente a leitura de Jabor nos leva ao caminho de Santiago de Compostela ou a tantos outros lugares.


Não, Jabor não nos leva além da banca de jornais, muitas vezes, e isso é o crédito que pode ser dado a ele: mesmo aqui no nosso país de miseráveis a boa literatura se apresenta como antídoto contra a alienação, mesmo que não nos leve a outros continentes nem seja best-seller.


Tudo bem, então sejamos imparciais agora, logicamente estamos falando de estilos diferentes, Coelho escreve seus estórias em prosa, não sei se todas, acredito que já deve ter se aventurado por outros estilos, mas não posso afirmar, posto que, como já disse, sou uma ignorante quando se trata de Paulo Coelho.


O que quero apontar aqui é que, muitas vezes, um livro de crônicas como o de Jabor é capaz de fazer as palavras saltarem do papel escrito pro papel em branco, e isto, acredito, é a maior vantagem da leitura: tornar o leitor um autor.


Dito isto, agora me vem uma preocupação: Se esta é a maior vantagem da literatura, quem será que fez Paulo Coelho ser Paulo Coelho?

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Contraponto à boa Amélia

" [...] pelo casamento, é que o sexo feminino poderá alcançar o sustento que lhe é necessário"
Schopenhauer - A arte de se fazer respeitar.
" As mulheres representam o triunfo da matéria sobre a mente".
Oscar Wilde - O Retrato de Dorian Gray
" A mulher nao teria arte para se enfeitar se não pressentisse o papel secundário que desempenha".
Nietzsche - Para além do bem e do mal
Quando juntei esses três pensadores nesse texto não pretendi nada além do óbvio: demonstrar como, ao longo dos séculos, a história do pensamento humano tem relegado à mulher o mesmo papel secundário do qual Nietzsche fala. O incrível é que, mesmo que tenhamos, nós mulheres, ultrapassado os limites impostos pela autoridade paterna, ainda há aquelas que existem apenas com o intuito de corroborar o pensamento dos autores citados.
Desse modo, vestem-se e vivem suas vidas baseadas no pretenso brilho que tem o falo. Como bem se sabe, o falo não é propriedade de ninguém; ele atua como moeda de troca entre os sexos. Claro que muito se passou desde Lacan e seu falo, porém, há de se convir que em toda relação se supõe que o outro detenha algo que poderá completar o sujeito.
Desde os primórdios do pensamento humano, a mulher está associada à beleza, juventude, e desejo. O que foge disso ou é associado ao masculino, ou é associado à figura materna. Logo, gordura, velhice, feiura, é, literalmente, a mãe (obviamente estamos excluindo aqui os casos edípicos, em que, como bem diz o termo, a mãe possui as mesmas qualidades que a mulher passível de ser desejada sexualmente, excluamos então o pobre Édipo).
O que falamos aqui é que, ainda assim, tem sido mais confortável conceber as mulheres como belas e preocupadas com características de meiguice e sedução do que entendê-las como seres pensantes.
Exemplo? Posso dar. Na Grécia Antiga, na ilha de Safo, uma poetisa e pensadora que doutrinou muitas mulheres para a atividade do pensamento, do entendimento das coisas e dos objetos. Certamente poucos sabem disso, mas de Sócrates todos ouviram falar em qualquer apostila de cursinho pré-vestibular.
Poderia citar outras mulheres "injustiçadas" mas não quero parecer feminista. Elas tiveram seu valor, hoje em dia qualquer ranço de inflexibilidade é mal visto e/ou mal interpretado. Não quero dar esse tom ao texto.
O que quero dizer, sem meias palavras e sem mais rodeios, é que uma mulher que pense continua incomodando, seja o homem Nietzsche, Schopenhauer ou mesmo o Zé da esquina, ou seu João da padaria. Uma mulher que pensa é vista como exceção à espécie destinada à luxúria e ao desejo (masculino) apenas. Logo, a mulher que pensa é sobretudo, imaginada como feia, desprovida de qualidade sedutoras, desprovida de atrativos visuais, aqueles que saltam aos olhos masculinos.
Uma mulher que pensa e é bonita é mais aberrante ainda, e o que fazer com ela? cerrá-la em uma laboratório e investigar as vicissitudes do seu cérebro ou subjulgá-la ao fictício poder fálico?Eis a dúvida quase shakesperiana. Acredito que poucos sao os corajosos a aguentarem uma mulher que pensa.
Com isto quero dizer que, exceção e aberração, a mulher que pensa assusta e atrai o olhar masculino, mas, a grande maioria dos homens prefere subjulgá-la, inferiorizá-la para que assim se sinta melhor em sua própria pele.
Não raramente a mulher que pensa passa os natais sozinha, comemora sozinha seus aniversários e não tem para quem ligar num sábado a tarde que não os bons amigos de longa data. Em relacionamentos amorosos ela assusta por não se contentar com o pouco que alguns lhe oferecem em troca do pretenso falo que pensam possuir. Ela sabe que é um engodo essa coisa de falo estar no masculino. O falo dela está em sua inteligência, em seu saber, e esse é que atrai o masculino, ao mesmo tempo que lhe esfrega na cara a incompetência viril.
Apesar do tom aqui utilizado, não acho que todos os homens estejam com medo da mulher que pensa, há os pensantes que reconhecem o seu valor e fazem de tudo para não deixá-la escapar, há também aqueles que não se assustam e conseguem manter uma relação equilibrada com alguém que pode ser intelectualmente superior a ele. Enfim, há diversas possibilidades visto que esse mundo que habitamos não é uma ilha fechada, tampouco carece de mudanças, estamos sempre mudando e generalizações não cabem quando estamos falando de seres humanos, feixe de possibilidades por si sós.
Feita aqui a defesa e tendo dito de antemão que não pertenço a classe daquelas que acha que homem e dejeto são sinônimos, pretendo aqui dizer que a mulher que pensa também deseja e deseja muito. Cabe a quem se aventurar, e tiver coragem de, embarcar.
Aos que não conseguem modificar seu discurso e nem seu comportamento assustado diante de uma mulher assim, cabe meu conselho de que leiam Schopenhauer, Nietzsche, Platão...qualquer um desses, e tente buscar em suas entrelinhas uma corroboração inteligentemente embasada para subjulgar, inferiorizar o feminino. Ah, mas nem tudo está perdido, para cada mulher que pensa existem 100 Amélias.
Exatamente. Aquela que era mulher de verdade.

domingo, dezembro 02, 2007

A agonia do macho ou a queda da virilidade


"Os homens estão recusando o poder, não tanto porque as mulheres o ganharam, mas porque eles o perderam. Os homens estão cansados de ter que exercer a paródia da virilidade, de ter que sustentar o delírio da supremacia".

Alfredo Jerusalinsky


Quando me peguei lendo este fragmento do texto intitulado " O declínio do império patriarcal", percebo o quão verdadeiras são as palavras de Jerusalinsky, sobretudo posso mensurar, apenas mensurar a sua dor ao dizer dessa angústia masculina de ter que se afirmar, de ter que dizer-se macho ou viril. Para agradar a quem? As histéricas, não se engane.
Jerusalinsky não fala nada inédito, muitos autores que se debruçaram sobre os fenômenos do mundo contemporâneo já há muito falam de fluidez de laços sociais, era da livre gestão, e, claro, declínio da função paterna. O que se vê atualmente é o que Melman, o que Lipovetsky, Calligaris, Dör, Nasio, entre tantos outros já disseram, mesmo sendo homens: provavelmente a contemporaneidade veio atestar o óbito da macheza e lançar luz sobre o que está por trás da máscara da virilidade, a saber, seu aspecto de cômico, quase bufão, inadequado.
Sim, na contemporaneidade vê-se o declínio das instituições que elevam o pai, não existem mais livros sagrados que possam ser, de fato, levados em consideração. Melman fala que há uma falência geral de referências, é a queda do simbólico.
O tom pode ser nostálgico, afinal, como boas histéricas, queremos mesmo é que apareça esse homem dos tempos modernos, nao contemporaneos, cavalgando seu cavalo potente, usando sua capa, que tenha força suficiente para nos pegar pelos braços e levar-nos para a terra do nunca. Balela. Eu diria pra princesa aterrissar, porque a virilidade do príncipe encantado não passa de ficção.
Príncipes nao existem porque simplesmente nao existe nada na contemporaneidade que sustente o delirio de grandeza em que o macho perfeito, o macho alfa, possa deter em si a força de Sansão e o poder de Aquiles para conquistar o mundo, a cidade, a mulher.
A virilidade não mais existe, e quem as tenta impor, senão pode ser chamado de ator, ´pode ser chamado de charlatão. Tal como o médico de araque. Assim é o homem que prega a virilidade: Inicialmente até se acredita no teatro, mas logo a farsa é revelada quando falo é exposto a luz do dia. Assim se descobre que o diploma é falso, que a identidade masculina calcada na virilidade é falsa, balela, e quem tenta exercê-la só pode adquirir fracassos.
Fico aqui pensando nos pobres homens perdidos em meio aos tempos de incerteza em que já não mais reina: precisam de um carro, de um computador de ultima geração, de um emprego, de uma mulher-trofeu...tudo isso na incessante busca de ostentar aquilo que não tem e que, mesmo que tivesse, seria castrado, sem sombra de dúvidas.
Áqui pode-se perguntar. Castrado por quem? Pela mulher? Não sei ao certo, parece a resposta óbvia, certeira, mas é que não é. Não é a mulher que expõe a farsa da virilidade decaída, é um conjunto de fatores os quais aparecem na contemporaneidade e fazem marca nos sujeitos. A mulher, tal como diz Jerusalinsky não tem o mérito de desapossar alguém de qualquer coisa, simplesmente o falo - desde Lacan se sabe - não é posse de ninguém, e, mesmo que se tente encenar, ninguém tem, jamais terá e hoje em dia, quem tenta incessantemente tê-lo o faz em represália a tantos bombardeios que só veem desestruturar ainda mais o decadente edifício da macheza.
E então? O que fazer com tantos morteiros?com tantos ataques? refugiar-se na feminilidade? Essa é a saída de vários homens, mas ainda há aqueles que não desistem da encenação e, obtusos que são, precisam do carro mais novo, da mulher mais luxuriosa, do sexo sem limites, do corpo malhado. E o desejo? Bem, o desejo, podemos dizer que já são outros 500.
Tenho pena daquele que insiste na virilidade decaída, e tenho certeza que quem leu essa frase deve achar que li Karen Horney e o que existe, na verdade, é uma inveja do pênis. Deixe estar. Não é uma mulher que vai destituir o império patriarcal, ele se desfacelará sozinho, será sombra numa contemporaneidade cada vez mais ligada à relações frouxas, imaginárias, sem apoio.
Dito isto, o que resta aos homens? Quase nada. Talvez a desconstrução da identidade masculina calcada na virilidade em desuso. Os que insistem, podemos dizer que são os homens modernos, das cavernas, vá lá.
A verdade é que não existe mais autoridade paterna, nem de qualquer instituição e nem há mais espaço para o macho-comedor, apesar de haver sempre uma histérica ou outra que, visando um mestre, acabam servindo de macacas de auditório para a pretensa exibição do falo: "Isso meu amor, assim mesmo, você é o melhor, sem você não existo, como você é forte, como joga bem!".
Eu acredito que a contemporaneidade tenha papel primordial para que o castelo ilusório da virilidade decaia, mas sendo eu mulher, não custa denunciar, com o vazio do meu feminino que não se cansa de não se calar, a morte de Deus, do pai, das instituições, do macho, do homem das cavernas.
E o feminino ameaça tanto!Em que conclusão posso chegar? Que o futuro de todo homem é ceder à feminilidade, é abandonar a pretensa posse do falo? Jamais farão isso pelo simples fato de que sempre haverá uma macaca de auditório, uma histérica que, se já não se paralisa diante da própria sexualidade, necessita ardentemente de um médico, de um homem, para dizer-lhe quem é.
Eu, por ora, recuso o papel da macaca de auditório, da histérica emocionada com o poder fálico e com a virilidade. Prefiro um homem re-inventado, que sabe que masculinidade não necessariamente depende da assunção da posição de dominador diante da "fêmea". Esses sim, os homens contemporâneos.
Quanto aos que ainda insistem no delírio da virilidade, nada tenho a dizer justamente porque estão mais preocupados com a própria macheza e definitivamente não perderiam seu tempo lendo isto, a bem da verdade, muitos nem ler sabem.

sábado, novembro 10, 2007

Objeto causa de desejo e poesia




“ O objeto pequeno a é um oco, uma falta, é o outro enquanto falta que convoca eu desejo. Chame-se Cármides ou Albertina, o amado é para o amante o objeto a ser sempre conquistado”.

Juan David Nasio


A frase acima faz uma explicação deveras simplificada sobre um conceito psicanalítico que considero mais bonito, mais poético. Perto dele não há Édipo, não há significante, não há objeto transicional. O objeto a, ou objeto causa do desejo é poético porque sua essência é passível de ser compreendida pelos mais leigos dos leitores, geralmente os que mais sabem de psicanálise.

Digo isto porque muito antes de Lacan falar em objeto causa do desejo, artistas já o fizeram, poetas, escritores, escultores e pintores já fizeram arte com o que se desprende do ser amado, causando esse ofuscamento que produz um desejo, uma luz.

Drummond, sem precisar de Lacan, conhecia o objeto a: “ Quando estou, quando estou apaixonado, tão fora de mim eu vivo que nem sei se vivo ou morto quando estou apaixonado”.
Florbela era outra: “ Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes Borboletas de sol, de asas magoadas, poisam nos meus, suaves e cansadas, como em dois lírios roxos e dolentes”.

O que podemos apreender disso tudo é que Drummond sabia tanto quanto Lacan que estar apaixonado é estar fora de si uma vez que se dá o encontro com o objeto causa de desejo, é ser desalojado, por querer, da própria alma. Florbela parece ter ido além quando torna visível , palpável o objeto a que se deprende do ser amado, os olhos.

Olhos, boca, voz...tudo isso pode ser recortado, retirado do ser amado para que possamos tomar posse. É-nos revelado um “não sei o quê”, como já disse em outros lugares que nos faz seguir em frente, que nos faz desejar. O desejo independe de beleza física, não conhece raça social e nem tabus. O desejo apenas irrompe e vai, segue rumo a um não sei onde guiado por uma mão invisível.
O desejo, justamente por saber-se desatino não nos leva a lugares sempre calmos, é mais provável que nos leve à ruína. E aquela voz supre todas as necessidades e aquele cheiro do cabelo dela deixa o coração do amado despedaçado.
Despedaçado, si, essa é uma das características do objeto causa do desejo; ele não representa o sujeito ali, visto em sua integridade, ele é apenas uma parte deste que o outro sujeito escolhe para amar.
Por isso ama-se de tudo, ama-se sapatos, para os mais fetichistas, ama-se uma verruga (acredite, existe), ama-se olhos zuis gigantescos, ama-se uma voz, ama-se a pele. Ama-se isso tudo justamente porque isso não é a totalidade.
O objeto causa do desejo aponta para a incompletude, e aí é que se perde o rumo: entrega-se sem freio, buscando que aquela voz, aquele olhar, aquele beijo, aquele modo de andar, aquilo tudo que é o ser amado faça morada em mim. E quem vê nem diz que acontece isso tudo.
Não sei porque tento aqui explicar o inexplicável, o objeto causa do desejo não tem explicação, é sedutor por excelência mas não se sabe exatamente o porquê que os escolhemos, ele é retirado do ser amado, recortado e colado em nossa imaginação. É triste mas, nós estamos sempre despedaçando o ser amado em busca do objeto causa do desejo.
Acho mesmo que o objeto causa do desejo não é Albertina, como diz Nasio, mas aquele sotaque tão faceiro da Albertina, aquele modo único com o qual ela mexe os cabelos, o jeitinho de andar de Albertina.
E nós seguimos, sem saber explicar, porque diabos aqueles olhos azuis gigantes nos mobiliza a escrever. E nós seguimos sem saber porquê aquele cabelo tão sedoso nos faz chorar de soluçar.
Não sabemos, nunca saberemos o real motivo daquele quê se desprender e vir a se tornar a razão do desejo, mas, se passarmos a entender um pouco que não se pode entender e sim, sentir, já é meio caminho andado.
Assim, sentindo e não entendendo eu posso criar uns versos sobre aquele cabelo da Albertina. Não me espanto agora ao descobrir que os maiores sonetos foram compostos não para o ser amado, mas para o objeto causa de desejo, objeto causa de poesia.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Andança



Andar faz bem

Andar e não dirigir, ver as pessoas que você não conhece comendo, andando, conversando. Andar faz bem pra arejar a alma e os pulmões. É andando que se percebe que não dá para antecipar o relógio, é quando vc entende que há coisas que não dependem da sua vontade e o que você tem apenas de seu são suas demonstrações de afeto e de carinho que são dadas e que, devidamente reconhecidas, fazem de vc uma pessoa querida.

Andar faz bem para sair do coma emocional, não esquecendo das suas dores, mas procurando conviver bem com elas, entendendo que erros existem para serem errados e que quem acerta sempre nunca pode evoluir se tudo tiver perfeito.

Eu, você e todos nós erramos, na maioria das vezes erramos quando mais queremos acertar, quando achamos que estamos acertando. Quando a gente percebe que não há nada de mais humano que errar e reconhece em si a possibilidade de estar enganado se vive mais e melhor.

Andar faz bem para expiar o sofrimento. Hoje ainda dói, ainda quero e tempo nenhum me faz deixar de querer, portanto, faça você também as suas andanças, mas saiba rever o passado não com tom saudosista, mas com esperança que, conhecendo o caminho por qual andou, consiga prever com mais esperança o caminho que há pela frente, percebendo que por mais curvas que existam, sempre será a mesma estradinha a qual você escolheu pra seguir.

E eu quero andar com você, mas quero passar o percurso sorrindo, não mais chorando. Cabe a você segurar minha mão ou me deixar seguir meu caminho, porque a estrada sempre existirá, a companhia é você quem sabe, se quer ser, ou não.

Eu ainda estou caminhando na mesma estrada, e se não posso viver me culpando por ter caído no primeiro obstáculo, que possa pensr num futuro promissor. E agora em diante eu sou só esperança de um caminho andado em paz. Venha comigo.

segunda-feira, outubro 22, 2007

Como viver o resto das nossas vidas




Quando se chega a uma certa idade na vida em que o sujeito não se encontra nem entre os que começaram a viver mas também não pertence ao grupo daqueles que já viu tudo que há de mais estranho nesse mundo, é que se começa a pensar com uma espécie de maturidade verde.

A maturidade verde é quando não se vê o mundo com os óculos coloridos da infância, nem se usa as lentes psicodélicas da adolescência, mas sim enxerga o mundo com a lupa adequada para a idade em que se começam a definir certas coisas em sua vida.

Quando se traz essa lupa nos bolsos, o sujeito já sabe o que são extratos bancarios, conhece o valor do dinheiro, de um abraço e da saudade. O sujeito, presume-se, não tem mais toda a vida pela frente mas consegue ter uma pontinha de esperança por justamente dispor de um certo tempo para acertar como quer passar o resto dos seus dias.

Acredita-se que nessa fase em que jánão reinam as flores da primavera e começam a surgir no chão as primeiras folhas de outono, o sujeito já saiba exatamente o que quer, ou parcialmente. Acredita-se que não faça confusão por um copo de leite frio, por uma discussão qualquer. Acredita-se, piamente, que saiba dar valor às pequenas coisas e veja que, na realidade, elas são as mais preciosas.

Durante essa fase é que ocorrem as primeiras perdas, ou geralmente deveriam ocorrer. No entanto, existem muitos ganhos no caminho. Espera-se que o sujeito tenha encontrado alguém que faça diferença em sua vida, com quem possa já pensar em passar o resto e suas vidas junto, posto que nessa época o sujeito, por ter vivido muito, começa a ter discernimento sobre o que é bom e o que é ruim, o que vale a pena manter e o que merece ser acalentado.

Nessa fase, presume-se que o sujeito não tenha mais o ânimo para viver em constantes buscas, deseja-se uma tranquilidade que antes era vista como tediosa. O sujeito maduro-verde quer alguém para construir a sua vida que, se não está começando, também reserva muito para ser vivida.

Se você se enquadra nessa classificação, não deixe que as coisas realmente importantes para você evanesçam, percam sentido. Aprecie cada momento como uma promessa de vida, saiba calar para não magoar as pessoas que lhe são importantes. Se você já não se acha adolescente, passou há muito pela infãncia e não chegou ainda na fila dos idosos, saiba valorizar a vida ou o que resta dela, abrigando em si os sonhos que agora podem se tornar realidade, não jogando fora o que é útil, mas fazendo a vida valer a pena.

Para a vida valer a pena não é necessário ganhar 20 mil por mês, não é necessário ser magérrimo ou lindo. Para a vida valer a pena é preciso viver em tranquilidade, com uma pessoa que, dentre muitas que você já conheceu, se mostrou especial, desejar compartilhar bons momentos com ela, provavelmente vai se pensar em filhos, em netos, em uma casinha simples para receber amigos e viver aqueles momentos que, de fato, serão importantes quando você olhar para trás e ver que a vida, agora, está passando mais rápido.

É só nesse momento então, que talvez se saiba o que foi importante na vida: Não é formação acadêmica, nem as cifras que conseguiu guardar na vida, nem o número de pessoas com quem se relacionou, nem quantos empregos já teve.

Nesse momento, quando a vida já caminhar a passos largos a sua frente, em sua direção, você apenas vai se lembrar é do primeiro choro do seu filho, do primeiro beijo com a pessoa especial em sua vida, com o primeiro abraço do seu pai, o primeiro passeio no parque de diversões, as histórias por trás das fotos de família, o aniversário da sua mãe, os sorrisos, as lágrimas, o amor, a felicidade, as tristezas e os obstáculos vencidos.

Porque a vida não é muito mais do que essas experiÊncias que, por menores que sejam, nos tornam humanos e sobretudo, nos tornam eternos na lembrança de alguém que vai nos ver partir. A vida é isso, um cheiro de creme que aparece na memória de vez em quando, fotos e lembranças.

Dê valor a sua vida, pense-a além da materialidade e do cotidiano que aprisiona. Se você acha que já chegou nessa etapa, não deixe o que é valioso escapar, nem acalente o que não merece estar em suas memórias. Pense nisso.

Porque se é preciso escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho para ser feliz. Que você não perca seu tempo mais, e, mesmo que não tenha tanta consciência ecológica, que seja adepto da boa leitura, mas, especialmente, conheça alguém especial, para que o filho seja realidade...se isso realmente importa para você.

Se não, desconsidere esse texto e prossiga com sua vidinha, fingindo ainda usar as lentes infantis, retartando os óculos da adolescência. Enganar-se também é viver, mas eu, particularmente, prefiro viver sendo maduramente verde.