domingo, maio 04, 2008

Algumas frases

Aqui , na falta do que fazer, trago algumas frases legais para compartilhar. Estavam arquivadas em um caderno, e, numa dessas leituras, me foram muito úteis. Eis que as trago, para quem assim desejar fazer uso. São frases de diversos autores diferentes e que, por algum motivo, vieram a fazer parte desse arquivo.

" A felicidade é um par de botas"

Machado de Assis , em seu conto " O último capítulo". De acordo com a estória, uma personagem percebe, ao observar um pedestre caminhar na rua, que a felicidade não é muita coisa a não ser um par de botas para aquele pacato cidadão, que olhava fixo para sua aquisição, com um ar tranquilo de quem acha que não precisa de muito para ser feliz.

" As emoções do homem são despertadas mais rapidamente do que sua inteligência"

Frase de Oscar Wilde. Dentre muitas deste irônico frasista, a frase acima nos fala tudo o que o nosso senso comum já sabe há muito. Antes sentir, depois pensar. É sempre assim. Porque lá no fundo da alma parece não haver óculos nem livros para serem lidos, nem tabelas para serem preenchidas. Lá no coração, também, não existe essa coisa de pensamento, no máximo um disse-me-disse que nos leva a entender, por instinto, que algumas coisas que aparecem em nossas vidas simplesmente não carecem de explicação, por isso, nos resta vivê-las e senti-las.


" O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada a ver com isso"

Frase de Mario Quintana. Diante de tantas interpretações que podemos ressaltar aqui, entende-se que, no fim do dia, é melhor mesmo saber que suas queixas são apenas suas, que ninguém , de fato, tem nada com isso, e que, muito melhor seria buscar uma resolução dentro de si, sem desprezar contudo a opinião alheia. No entanto, procure não precisar da opinião alheia de maneira que sua voz prevaleça no centro de suas decisões.

" O mistério do amor é muito maior do que o mistério da morte"

Também de Quintana. Confesso que essa frase não é tão fácil de se compreender, falo por mim. Acredito que , às portas da morte, é aí que cessam os mistérios. Quem nasceu para ser ruim arrepende-se amargamente de tudo de mais degradante que cometeu em vida, busca perdão numa tentativa de acertar urgentemente as contas com Deus (se não for ateu, diga-se de passagem) para não ir parar num lugar que não desejasse ir. Quem foi bom, não precisa ser muito inteligente para saber que, quem foi bom será lembrado como sempre foi em vida, até será santificado. Logo, qual o mistério que há na morte se a função desta é exatamente desfazer tudo de mal entendido que ocorreu em vida? Não nos esqueçamos que , são nos velórios, geralmente, que se descobrem amantes, familias, filhos bastardos, enfim, é na ocasião da morte que o sujeito, de fato, se desnuda. Há mistério que resista?
Agora, quando se trata das coisas que vão dentro do coração. Aí sim, Quintana está certo. Não há coisinha mais misteriosa do que o amor. Chega de repente, instala-se e talvez demore muito para ir embora, não exatamente a pessoa, mas o sentimento envolvido e a ilusão construída em torno desta. É assim desde os tempos de Cristo, não vai mudar muito, e , para os males do amor, não existe coisa melhor do que Bossa Nova, Tom Jobim, talvez bebida ou sublimação. Cada um escolhe a melhor forma de lidar com o misterioso sentimento que cresce sem que a gente se dê conta.

" Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes".

Machado de Assis, novamente. De fato, faz sentido o que são as decepções senão árduas lições que tentamos fazer ao longo da vida?A vida deveria ser assim, como um ditado, a cada palavra errada ,cada passo errado, atitude errada a criatura deveria "reescrever" cinco ou seis vezes o próprio erro, na tentativa óbvia de não mais cometê-lo.
A vida deveria ser isso, tais como estações, para que a gente possa dizer, futuramente, que um verão que se passou foi mais quente que outro, ou um inverno mais rigoroso do que o do ano passado. Mas, como não é bem assim, a gente vai vivendo e aprendendo
.

sábado, maio 03, 2008

Narcisismo, por várias lentes espelhos

O narcisista , segundo várias fontes:
" Os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem. De fato, eles negam quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar. Agindo sem sentimento do self derivdo de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do self, vivem a vida como algo vazio e destituído de significado. É um estado de desolação"
Alexander Lowen
" Interessa-lhe seduzir, ardilosamente, tendo em vista o poder e o controle de Bentinho e, por seu intermédio, de todos os demais à sua volta. Como todo narcisista".
Machado de Assis, sobre Capitu
" As pessoas com transtorno de personalidade narcísica tem um sentimento grandioso de própria importância e preocupam-se com fantasias sobre seu próprio sucesso, poder, brilhantismo ou beleza".
David Holmes
" Narcisista é alguém mais bonito que você"
Millor
Diante de tantas explicações sobre o narcisismo, e tão variadas, cabe dizer que todas elas encerram verdades. O narcisista realmente é uma criatura tal como Capitu, mais mulher do que Bentinho é homem, ardiloso, sedutor, mas, acima de tudo, uma criatura frágil, porque necessita do constante aplauso.
Narcisista que se preze gosta é de espelho, paralisa-se diante de um, sendo capaz, inclusive, de casar com um.
Caetano, Pedro Almodóvar ou Oscar Wilde, fato é que o narcisista é aquela pessoa que, na falta do reflexo, busca no outro a resposta para aquilo tudo que duvida, de fato , que exista em sua essência. O que então desejar? tudo aquilo que penso ser e não sou. E a verdade?
A verdade está escondida nos mais obscuros porões da nossa mente, aquele que chamamos de inconsciente desde que um austríaco se aventurou por esses mundos tão sórdidos e tão fascinantes...e aquilo que não queremos ver escondemos, até de nós mesmos!
E ainda dizem que a terapia cognitivo comportamental vai conquistar o planeta!

quarta-feira, abril 23, 2008

Prefiro um livro


Eu queria falar sobre muitas coisas, mas, não conseguia focar meu pensamento em um determinado assunto. Na falta deste, comecei a divagar...vejamos o que temos em minha mesa: computador (não, não sou tão prática a ponto de escrever um texto sobre as benesses trazidas por tal complexa máquina), bolsa (definitivamente não sou do tipo de pessoa consumista que deseje passar horas a fio escrevendo a respeito dos mais novos modelos e acessórios da moda Outono-Inverno), também não escreverei sobre dinheiro (não sou capitalista o suficiente , tampouco sou economista para analisar os altos e baixos do mercado financeiro atual).

Restou-me Livros. Sim, os únicos fieis amigos, companheiros e parceiros que alguém pode ter em sua vida. Sim, por exemplo, eu sei que meu exemplar de " Dom Casmurro" estará ali me esperando , sobre a mesma estante, com suas mesmas páginas amareladas e rabiscos em suas margens.

O exemplar do Dom Casmurro é meu, o que quer dizer que contém muito de mim em suas páginas que servirão de alimento de traças (já que estamos em Dom Casmurro, porque não lembrar de Cubas?) . Também posso dizer que os insights que já tive lendo e relendo tal livro me fizeram ser quem sou hoje e me preparam para os próximos que, certamente, virão se um belo dia eu resolver relê-lo. Um livro é assim, nunca reprisado, sempre muito a ser descoberto nas mesmas linhas pelas quais nossos olhos passam, muitas vezes aflita e ansiosamente, desejando chegar ao fim.

Arriscaria dizer que meu exemplar de Dom Casmurro me fez compreender a Psicanálise antes mesmo desta entrar, declaradamente, em minha vida. Dom Casmurro entrou antes com seus mistérios, me apresentou Machado de Assis e me colocou uma interrogação na cabeça: Quem era Capitu? O que diabos o autor quis dizer com "olhos de cigana oblíqua e dissimulada?".

Pois é, Dom Casmurro me apresentou Machado de Assis, que me apresentou Freud que, por sua vez, me introduziu Lacan. Minha sorte é que o círculo de amizades é seleto e não ocorreria jamais de um Machado de Assis vir a me apresentar um Paulo Coelho ou mesmo um Dan Brown da vida. Machado tem bom gosto e o mínimo que poderia esperar dele era que me apresentasse uma Martha Medeiros.

Esses devaneios todos servem para que eu possa dizer, sem meias palavras, que as palavras aglomeradas em um livro jamais podem ser tidas como inertes, elas dançam em nossas mentes, juntam-se a outras tantas que aprendemos diariamente, que ouvimos que apreendemos durante a vida, fazem cócegas em nossos cérebros encharcados de informações...enfim, possibilitam novas sinapses, novos aprendizados e novos sentimentos.

Um livro não decepciona - considerando aqui que você disponha de dois elementos básicos para um bom leitor: sorte na escolha de um título e bom gosto/inteligência . No máximo você discorda do enredo, dá palpite sobre uma ou outra personagem, reflete sobre o tamanho dos capítulos, mas raramente se arrepende de ter lido um livro que um dia te fascinou.

Eu dou a meu Dom Casmurro um valor imenso, sem ele não seria o que sou hoje, não conheceria tantos amigos, tampouco saberia o que é Psicanálise. Meu Dom Casmurro não é temperamental, tampouco tem dificuldades em se relacionar comigo, me ouve tranquilamente, como se um bom amigo fosse, daqueles fiéis por virtude e pacatos de caráter.

Com todas essas qualidades, eu só poderia concluir que mais vale um Dom Casmurro nas mãos e grudado aos olhos do que muitas pessoas que somente tirariam o pouco tempo que tenho para me dedicar a tantas outras leituras.

segunda-feira, abril 07, 2008

Woody Allen - neurótico ou perverso?



Woody Allen, sem dúvidas, é um dos maiores escritores americanos da atualidade. Quando se fala em Allen, não raramente se pensa num dia de inverno, casacos marrons e personagens neuróticos vivendo em Manhattan.

Gosto de Allen porque ele conseguiu, além de sublimar ( transformar seu sintoma em arte ) fazer sucesso com suas próprias neuroses. Isso eu chamo de pagar a conta do analista, só que, ao contrário de Cazuza, Woody quis saber quem ele era e transpôs isto para a folha de papel, para as telas de cinema.

Certamente a soma despendida pulando de divã para divã assegurou a Allen um patrimônio bastante razoável, diria eu mais que milionário, e , veja você, apenas sublimando, trazendo à tona todos os seus recalques em relação à religião, à sexualidade, à cultura, enfim e transformando isso em algo palatável, digerível e até recomendável.

Em "Adultérios", uma coleção de três peças em que a infidelidade é o tema central, Allen mostra todo o humor sarcástico comum somente àqueles que , de alguma forma, sente-se ou são marginalizados por um grupo, por uma maioria, por assim dizer.

Se pararmos para analisar Allen, o que vemos? um sujeito franzino, provavelmente motivo de chacota na escola, raquítico, baixo, muito feio. Esta aí então a "causa secreta"! o velho Alfred Adler tinha razão: era preciso compensar, em algum momento, tanta inaptidão para a beleza, tanta incompetência para se tornar popular.

Allen não nasceu para ser maioria nem muito menos para unanimidade, resultado, cachotas, timidez, introversão e junto a estes todos os outros ingredientes capazes de transformar um sujeito num verdadeiro neurótico. Prato cheio para analistas, sorte dos cinéfilos.

Todas as três estórias de "Adultérios" trazem personagens perturbados psicologicamente mas que, ao mesmo tempo em que são descompensados, possuem consciência da maioria de seus problemas e são familiarizados com o discurso psicológico-psicanalítico que se ouve, ou melhor, se fala em todo divã nova-iorquino.

Muita neurose e perversões aqui e acolá. São termos apropriados para definir "Adultérios". De personagens bipolares à personagens psicóticos, Allen traz toda uma fauna psicanálitica repleta de mulheres fálicas, histéricos , dominadores e masoquistas, em meio a tudo isso, apimente-se com um quê de vulgaridade sofisticada, geralmente imaginada e consumada ao som de Jazz, entremeada por comentários elegantes e irônicos acerca da situação política atual. Isto é Allen, o Allen que trouxe o divã para o set de filmagens e transformou seus sintomas mais inconfessáveis em obras de arte.

Vá lá, nem todos consideram o cinema de Allen uma grande coisa, mas eu falo pela importância de um "Noivo neurótico, noiva nervosa" , "Annie Hall", entre outros na história do cinema. Há quem ache os diálogos monótonos e sem graça, há os que acham que é doentio demais. No entanto, há que se concordar que Allen talvez seja o paciente mais bem sucedido da Psicanálise , pois, provavelmente não alcançou a cura (palavra que não deve ser pronunciada JAMAIS na frente de qualquer analista, por favor) mas logrou êxito em levar para a tela todos os seus recalques e , especialmente, fazer-nos ver que todos, sem exceção, somos neuróticos, assim dizia Freud.


Allen, queira você ou não, é um sucesso, sublima seus traumas e faz dinheiro na indústria cinematográgica, porém, como todo estudante de Psicologia sabe, a sublimação não traz satisfação total, visto ser apenas uma substituição mais "palatável" de um desejo que , em sua essência, não pôde ser realizado.

Assim, mesmo publicando, escrevendo e rodando filmes, Allen, como todo neurótico, sempre deixa para si aquela cotinha de neurose que não pôde ser sublimada...e ainda bem que nem tudo está nos filmes.

O problema não está aí, na verdade, o problema começa quando se percebe que a perversão - sintomatologia mais contemporânea - vem tomando o lugar do velho neurótico às voltas com a religião, a própria sexualidade e a pátria. Vide "Matchpoint", um filme de um Allen não mais novaiorquino, mas londrino, não tão neurótico, mas perverso. Crimes e passagem ao ato ao invés do discurso do cão atrás do próprio rabo.

Resta saber se o novo Allen perverso e criminoso compete com o velho Allen, fã de jazz e neurótico. Para tirar a dúvida basta ir ao cinema: Se as pessoas estiverem acordadas, isso quer dizer que não há mais espaço para nenhum neurótico se lamuriar nas telas dos cinemas desse vasto mundo que até ontém era só traumático, castrador.

Hoje negamos a castração, vamos ao cinema para rir, evitamos a dor, e é claro, basta de problemas, ninguém está interessado em saber porque diabos fulano não consegue se relacionar com nenhuma mulher que não sua mãe, tampouco estamos interessados em fixações orais, em complexos edípicos (não tão diretamente, friza-se).

Que Édipo que nada, eu quero ver é o circo pegar fogo e a perversão dar sinal!

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Non hai revolución: guardando a camisa do Che Guevara no armário



Pois aconteceu. Eis que aconteceu o que estava sendo ensaiado. Fidel caiu. Sim, na verdade não é que ele caiu assim como se cai alguém derrubado por um golpe, como foram tantos outros chefes de estado os quais aprendemos a reconhecer em fotos geralmente sisudas que fazem parte de qualquer livro de História Geral do ensino médio.

Fidel caiu e você pode se perguntar o que isso vai trazer de novidade em minha vida. Eu posso arriscar uma resposta? Muito. Fidel caiu de maduro, renunciou e junto com ele muita coisa vai sendo mudada ou, ao menos, muita coisa se anuncia; é um marco contemporâneo e justamente por isso não devemos desprezar os fatos que acontecem em Cuba.

Segundo Lula (jamais imaginei que fosse citá-lo, mas enfim, cabe) assistimos ao fim da era Fidel Castro e com ela a dissolução do último mito moderno vivo . Segundo pesquisadores da vida do ex- ditador cubano, Fidel logrou êxito em perseguir durante toda a sua vida uma sociedade consumista a qual pintou com cores piores do que realmente tem: a americana e, mais recentemente, seu presidente, o símbolo da ignorância yankie, nosso querido Bush.

Amado e odiado, Fidel era um cara que viveu sua vida para a Revolução, lutando por esta e, mais atualmente, esperançoso desta, às voltas com o discurso self-made man apregoado pelos Eua.

Porém, os tempos são outros. De acordo com Lipovetsky (2007) em seu mais recente livro " A felicidade paradoxal", não há mais lugar para revoluções políticas; há lugar para reequilíbrio da cultura e do consumo.

Rasteiramente falando, a sociedade contemporânea a qual Lipovetsky hoje denomina "sociedade hiperconsumista" assiste à bancarrota dos ideais revolucionários, demonstra maior abertura ao hedonismo, ao consumo desenfreado e à busca incessante da felicidade, esteja ela aonde estiver, num celular novo, num Ipod, num Blackberry, num Iphone, tanto faz, tudo está ao alcance das mãos, portanto, não há a mínima necessidade de revolução.

Dito isto, do mesmo modo que não há mais espaço para Fidel, não há mais espaço para o discurso revoucionário aparentemente chiita pregado e entoado nos DCE's da vida; não há lugar para discurso verborrágico contra o consumo nem mesmo contra a futilidade, esta que a nossa sociedade nos apresenta cada vez mais diante dos olhos e que também pode garantir satisfações reais, por que não?

Está mais do que na hora de retirar Che Guevara - criatura semelhante a um guia espiritual, uma espécie de conselheiro-fantasma onipresente, Chico Xavier do proletariado estudantil - que tanto orgulha os líderes pós-adolescentes, metade emo-metade James Dean em "Rebelde sem causa" das salas dos DCE'S das universidades federais. Filho, tire a camisa do Che Guevara, enterre Fidel Castro, os primeiros sinais de que esse discurso pseudo engajado já foi pras cucuias há muito vieram quando o Lula do ABC paulista virou "Lulinha Paz e amor", aparou a barba e tomou para si o discurso das elites.
O que era o PT nos anos 70 e 80 hoje apenas é uma sombra, sem "personalidade" (odeio a significação do termo no senso comum, mas também cabe) e deve envergonhar muito dos antigos militantes, os que já usavam as sambadas camisas do Che Guevara e passavam metade do tempo gasto na universidade dentro dos centros acadêmicos da vida.

Hoje foi dado o tiro de misericórdia nesse discurso pseudo engajado, aparentemente panfletário: mesmo que não tenha sido por motivo de saúde ou falta dela (declaradamente, diga-se de passagem) que Fidel saiu do poder, ainda assim, podemos considerar que ele caiu e com ele cai também o discurso dos que insistem em tentar trazer para o presente ideais que já não pertencem ou já não se adaptam ao mundo em que vivemos.
Ora que melancolia é essa, companheiro? Temos que aceitar sim a futilidade, o hedonismo, o consumo e tudo mais que a nossa sociedade "hipermodena" nos oferece, é o conselho que nos dá Lipovetsky. Por que? Porque não temos outra sociedade em que viver, porque não pertencemos à sociedade que viu emergir o movimento das "Diretas Já" e muitos de nós nem mesmo viveram o que se padronizou denominar "Movimento Caras Pintadas" de 1992.
Portanto, vamos tirar a foto do Che Guevara do altar, vamos, no máximo, nos contentar (aos simpatizantes) em dizer que votamos no PSTU ou no PSOL e saber que revolução hoje em dia é algo tão impossível como um elefante entrar em uma loja de cristais e não fazer estrago.

Acreditem: Não há nada que se possa revolucionar, as coisas são dadas na hora, à vista ou a crédito, mas são dadas. Compradas, é verdade, mas "na minha mão é mais barato" e, portanto, compramos com o pagamento a perder de vista e isso nos faz até esquecer que estamos pagando. Não, não há lugar para revolução, para ex-petistas revoltados. Não há lugar sequer para continuar culpando o Bush.

Convenhamos: o Bush não está perto de ser a oitava maravilha do mundo, mas não pode continuar sendo culpado por todas as mazelas que acontecem no planeta. Acho, na realidade, que há tanto espaço para Bush hoje como há para Fidel, ou seja, nada, quase nada (Obama está aí para corroborar isso).

O que quero dizer é que não há espaço para radicalismos, sejam eles da ordem do consumo irrefreado ( do qual a sociedade americana transformou-se em protótipo, os desequilíbrios ecológicos e Al Gore estão aí para corroborar isso, também), sejam eles da ordem do discurso inflamado dos antigos revolucionários.

Cá com meus botões eu sempre achei que deveríamos procurar o meio-termo, uma coisa entre a futilidade que assegura uma certa satisfação e um enriquecimento psíquico-cultural-emocional-intelectual (cansei!) para podermos nos dizer seres "felizes". Sempre desconfiei desse discursinho de gente que sai por aí bancando reencarnações de estudantes mortos e/ou perseguidos pela Ditadura, que adora entoar umas coisas que aprendeu nas cadeiras de sociologia, tais como "proletariados do mundo todo, uni-vos!" (acho que não é bem isso, mas cabe!!), mistura um pouco com Foucault, dá uma lidinha - por cima - de Nietzsche e pronto: Eis o revolucionário contemporâneo, nada ou pouco mais do que um patético melancólico que tem saudade do que não viveu e que, se uma bandeira de luta empunhasse não saberia o que fazer com ela.

Abaixo o intelectualismo e a mania de revolução gratuitas, não há espaço, hermano. Fidel caiu, você também cairá. Se quer ver revolução, idealismos e engajamento ligue a tevê na rede Globo e assista a minissérie "Queridos Amigos", lá estará Fernanda Montenegro, a nossa melhor atriz, a mesma que perdeu o Oscar por causa de uns italianos aí. Ah, mas esqueça o Oscar, pois todos nós sabemos que é uma festa consumista americana utilizada como meio de manobra das massas.

sábado, fevereiro 09, 2008

Ode a uma amizade disfarçada de crítica literária (pessoal)


“Amigas morrem de rir, mesmo em velório. Amigas debocham, liberam, recordam, comentam, confessam, perdoam, comungam e exorcizam fantasmas com litros de vinho branco. Duas amigas e uma tarde livre é o paraíso.”

Martha Medeiros – Divã

Em pensar que eu li esse livro numa tarde. Já faz um tempo. Lembro-me bem de como foi aquela tarde, chuvosa, cansativa, tinha andado pelas ruas de uma cidade que de tão pacata era entediante, mas que estranhamente, parecia perigosa aos meus olhos.
Era uma tarde chuvosa e eu só queria me deitar e ler umas 20 páginas, tava bom. Só que, aí que está, o livro me puxou pela mão, foi me guiando por mares nunca antes navegados, sequer imaginados, me fez compreender muita coisa.
Ler Divã pra mim foi como exorcizar vários fantasmas, foi abrir o extintor de incêndio e dar a cara a bater, mas não tanto quanto Martha o fez, posto que ao leitor cabe aquele lugar discreto de quem concorda com as palavras que lê, porém o faz de um lugar ali na última fileira do cinema da covardia, pertencente àquele que queria dizer tudo aquilo, mas, na falta de coragem ou de talento, prefere ler o que os outros escrevem de semelhante ao que se passa em sua alma do que se atrever a rabiscar um papel – mesmo nessas definições, ainda é covardia.
Pois então, covardia foi a minha de ler Divã e me reconhecer em cada linha, em cada frase, reconhecer a mim e a muitas mulheres que ouvi, seja por profissão, seja por amizade, porém o fiz calada, assentindo com cada frase de Martha, mas em silêncio, o silêncio familiar aos mais ávidos leitores. Se alguém pudesse descobrir o tanto que o livro me guiou fá-lo-ia ao saber que devorei aquelas paginas em umas duas horas.
Ainda assim, devorado, o livro não cansa de ser digerido. Transformei em fichamento, em material de leitura obrigatória. No entanto, é balela, faça-me o favor, vai virar referência bibliográfica, mas, mais que isso, vai virar referência interna.
Hoje volto ao fichamento. Mesmo sendo uma preciosa ferramenta para aqueles que se envolveram na árdua tarefa de pesquisa, o fichamento de Divã não foi algo puramente racional não, quis reter, de alguma forma, tudo aquilo que o livro precipitava em minhas moléculas, na falta de fazê-lo de outro modo, taquei-lhe um fichamento, que é o que sei fazer mesmo.
O negócio é que o famigerado fichamento veio até mim por causa de uma grande amizade. Sim. Aparentemente desconexa, a relação que fiz entre a amizade em questão e Divã pra mim significa muito. O fato é que perderei o convívio de uma das melhores amigas que consegui manter nesses meus 25 anos de existência.
Triste conexão, mas, não me arrependo de ter aberto o fichamento e me relembrado do cheiro das páginas daquele livro rosa. Quantas horas passamos falando exatamente o que Martha fala como quem fala poesia? Quantas horas passamos rindo, tristes, felizes com a cumplicidade que soubemos construir de uma maneira quase criminosa?
Eu reconheço essa amizade em Divã. Mesmo que não estejamos nós duas juntas, na maioria das vezes, a cumplicidade é digna de um livro, e eu, na falta do talento da Martha, tenho apenas esse lugar pra dizer dessa relação tão natural e tão doce, tão certeira e ao mesmo tempo surpreendente, que, se não reserva encontros tão freqüentes agora, ao menos continua prometendo ocasiões felizes, cheias de alegria e cumplicidade, mesmo que agora sejam mais espaçadas.
Amigas são isso, divertem-se em velórios, riem na hora proibida, são capazes de ficar felizes na ausência uma da outra, sentir empatia nos momentos necessários e também nos desnecessários. Amizades como essa não morrem jamais – e digo isso com uma certeza tranqüila, daquelas que só se tem quando o sentimento é puro e nobre.
Amizade como a nossa me faz um ser melhor, e me faz querer ser melhor sempre, me faz empática, me faz sorrir em um ônibus numa cidade estranha, há quilômetros de distância de você só por te ver feliz. Amizade como a sua me faz tomar as suas dores como minhas, querer a sua felicidade e me empolgar com tudo que lhe ocorre.
Eu te desejo sorte. Farei o meu caminho também e espero estar junto a você para novas estórias escrevermos. Amizade é isso, um carinho infinito, uma lembrança precisa no folhear de um livro que diga sobre mulheres. E eu sou muito feliz por ter você em minha vida, mais mulher e mais cúmplice a cada dia da sua feminilidade, da sua garra e da sua persistência.
Lara: o mundo é seu e parte do meu coração também. De sócias à cúmplices.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Van Gogh vai ao divã (com pincel ou sem pincel?)



"Quando se tem saúde, tem de se poder viver dum pedaço de pão e com isso trabalhar o dia todo e ainda ter força de fumar e beber um copinho; disso precisa uma pessoa nestas circunstâncias. E ao mesmo tempo sentir as estrelas e o infinito lá em cima. Então a vida é apesar de tudo quase fabulosa. Ah, quem aqui não crê no sol é um ímpio".


Van gogh



Poderíamos deduzir a partir da frase acima que Vincent seria, se vivo fosse, um daqueles workaholics, viciados em trabalho, que não tiram férias e que, mesmo assim, consegue reservar um espacinho para tomar um chopp com os amigos, jogar conversa fora, rir... o famigerado "Happy Hour".

Poderíamos inclusive dizer que Van Gogh era um cara feliz, e, quase parafraseando Ivan Lins, achava que a vida poderia ser maravilhosa, ou, quase toda fabulosa, como bem disse com suas palavras.

A verdade, entretanto, é que Van Gogh não era um cara tão bem resolvido assim: sua vida amorosa quase inexistente se resumia a alguns poucos amores platônicos, casos de um dia com prostitutas, amores mal resolvidos. Arrisco dizer que o grande amor de sua vida era seu irmão Théo, com quem trocava constantes correspondências durante muito tempo de sua conturbada vida, entre uma internação psiquiátrica e outra. Théo lhe dava a mão, um pouco de dinheiro e também pão.

Van Gogh era um cara impulsivo, bastante impaciente e notadamente romântico em tudo que fazia; seus quadros exalavam paixão através das cores, dizia amar o amarelo, quem não conhece os girassóis? Apesar de descarregar na sua arte todo a agonia interna, apesar de com o pincel buscar impulsivamente falar de si, Van Gogh era infeliz.

Vejam vocês, enquanto hoje em dia meio mundo de pessoas fazem rabiscos contemporâneos a giz, emolduram algum objeto sem sentido e fazem disso arte, vendem-na como banana em feira, Van Gogh, em seu tempo, pintava seu " semeador", ou seu "o comedor de batatas" , não recebia quase nada por isso e ainda, como bonificação, era infeliz.

Mesmo sendo um cara tão talentoso, tão avesso às regras da tradicional escola impressionista que tanto o influenciou, Van Gogh era, no fundo, um romântico, pintava pra falar da agonia que em si habitava, pintava para dizer algo, seja isto alegria, euforia, impulso, paixão ou tristeza, mas pintava:muitos quadros ao mesmo tempo, dizia perder a consciência enquanto pintava, parecia viver em um universo paralelo e que dele retornava, sempre, com alguma tela recheada.

Interessante é que, por mais que muita gente tente provar o contrário, nada, mas absolutamente nada escapa ao inconsciente, e esse, faceiro que só ele, acaba aparecendo, numa tela ou noutra, num livro ou noutro, numa poesia ou noutra, numa identificação, ou noutra. O inconsciente sempre está procurando escapar, por alguma via, dos domínios da tradicional e anêmica consciencia.

Com isso quero dizer é que, mesmo que Van Gogh se esmerasse para superar os seus precursores, seus professores, sua obra era marcadamente romântica, cheia de paixão, e, por isso, cheia de inconsciente. Abundantemente inconsciente e qualquer um que tenha prestado atenção alguma vez em Psicanálise poderá perceber que as constantes mudanças de hospital, as mudanças de cidade, as desilusões amorosas, as perdas, tudo, enfim, estava ali nas telas as quais os críticos de arte separam, analisam e didaticamente as distingue em "períodos".

Então, existe a fase de Arles, em que Van Gogh parece estar mais feliz, o amarelo é ressaltado, o mesmo pode-se dizer de Gaughin, de Picasso, fase rosa, fase azul.

Eu sou contra essas classificações. De verdade. Eu acho que, como já diria alguém no orkut (hahahaha) definir é limitar. É é. Ao separar Van Gogh em Van Gogh de Arles, Van Gogh dos girassóis, Van Gogh de Saint-Rémy estamos dividindo o próprio Van Gogh, esquizofrenicamente, diga-se de passagem.

Tudo bem, didaticamente é interessante para que as pessoas aprendam que existem "fases" na obra do pintor, marcadamente influenciadas pelo que passa em sua vida, é assim que fomos acostumados a entender, sem falar nada sobre inconsciente.

Basta pegar qualquer livro da Taschen que você verá a separação dos tópicos relacionados às "fases" as quais marcam "vida e obra de fulaninho".

Eu prefiro considerar Van Gogh um gênio de seu tempo, e , como todo gênio, atormentado, dividido em várias partes (vide a psicose que sustentou durante sua vida e que o levou ao suicídio), não em partes que possam ser didaticamente determinadas utilizando as cores como critério, ou o lugar, enfim, mas em partes de pessoas, como eu e você, que tantas vezes nos quebramos, nos colamos , quebramos de novo para nos colarmos em seguida e muitas vezes não fazemos nem um rabisco no papel, quanto mais pintar um quadro

Diante de tanto remendo, é impossível ser o mesmo e não precisamos ser Van Gogh para nos considerarmos seres , em algum determinado momento de nossas vidas, atordoados, cansados, desiludidos e fragmentados.

Obviamente há momentos de esperança, veja você, o próprio Van Gogh dizia, em um dia em que certamente acordou de bom humor, que a vida é quase fabulosa. Nós também podemos dizer isso, pois não nada melhor, ou ainda não inventaram, a sensação de renorvar-se constantemente, de aprender a cada segundo e de respirar novas correntes de ar no momento em que estas nos chegam aos brônquios e aos pulmões.

Assim, viver vale a pena, expressar nossas paixões vale muito a pena, seja isto feito através da pintura, da literatura, da música, da escultura, do teatro, da dança...enfim, podemos expressar nossas "artes" internas até mesmo nos identificando com um vídeo que vemos no youtube. E isso é pura e simplesmente Psicanálise, é inconsciente e , por isso, tão palpável, mesmo que aparentemente transparente.