segunda-feira, abril 07, 2008

Woody Allen - neurótico ou perverso?



Woody Allen, sem dúvidas, é um dos maiores escritores americanos da atualidade. Quando se fala em Allen, não raramente se pensa num dia de inverno, casacos marrons e personagens neuróticos vivendo em Manhattan.

Gosto de Allen porque ele conseguiu, além de sublimar ( transformar seu sintoma em arte ) fazer sucesso com suas próprias neuroses. Isso eu chamo de pagar a conta do analista, só que, ao contrário de Cazuza, Woody quis saber quem ele era e transpôs isto para a folha de papel, para as telas de cinema.

Certamente a soma despendida pulando de divã para divã assegurou a Allen um patrimônio bastante razoável, diria eu mais que milionário, e , veja você, apenas sublimando, trazendo à tona todos os seus recalques em relação à religião, à sexualidade, à cultura, enfim e transformando isso em algo palatável, digerível e até recomendável.

Em "Adultérios", uma coleção de três peças em que a infidelidade é o tema central, Allen mostra todo o humor sarcástico comum somente àqueles que , de alguma forma, sente-se ou são marginalizados por um grupo, por uma maioria, por assim dizer.

Se pararmos para analisar Allen, o que vemos? um sujeito franzino, provavelmente motivo de chacota na escola, raquítico, baixo, muito feio. Esta aí então a "causa secreta"! o velho Alfred Adler tinha razão: era preciso compensar, em algum momento, tanta inaptidão para a beleza, tanta incompetência para se tornar popular.

Allen não nasceu para ser maioria nem muito menos para unanimidade, resultado, cachotas, timidez, introversão e junto a estes todos os outros ingredientes capazes de transformar um sujeito num verdadeiro neurótico. Prato cheio para analistas, sorte dos cinéfilos.

Todas as três estórias de "Adultérios" trazem personagens perturbados psicologicamente mas que, ao mesmo tempo em que são descompensados, possuem consciência da maioria de seus problemas e são familiarizados com o discurso psicológico-psicanalítico que se ouve, ou melhor, se fala em todo divã nova-iorquino.

Muita neurose e perversões aqui e acolá. São termos apropriados para definir "Adultérios". De personagens bipolares à personagens psicóticos, Allen traz toda uma fauna psicanálitica repleta de mulheres fálicas, histéricos , dominadores e masoquistas, em meio a tudo isso, apimente-se com um quê de vulgaridade sofisticada, geralmente imaginada e consumada ao som de Jazz, entremeada por comentários elegantes e irônicos acerca da situação política atual. Isto é Allen, o Allen que trouxe o divã para o set de filmagens e transformou seus sintomas mais inconfessáveis em obras de arte.

Vá lá, nem todos consideram o cinema de Allen uma grande coisa, mas eu falo pela importância de um "Noivo neurótico, noiva nervosa" , "Annie Hall", entre outros na história do cinema. Há quem ache os diálogos monótonos e sem graça, há os que acham que é doentio demais. No entanto, há que se concordar que Allen talvez seja o paciente mais bem sucedido da Psicanálise , pois, provavelmente não alcançou a cura (palavra que não deve ser pronunciada JAMAIS na frente de qualquer analista, por favor) mas logrou êxito em levar para a tela todos os seus recalques e , especialmente, fazer-nos ver que todos, sem exceção, somos neuróticos, assim dizia Freud.


Allen, queira você ou não, é um sucesso, sublima seus traumas e faz dinheiro na indústria cinematográgica, porém, como todo estudante de Psicologia sabe, a sublimação não traz satisfação total, visto ser apenas uma substituição mais "palatável" de um desejo que , em sua essência, não pôde ser realizado.

Assim, mesmo publicando, escrevendo e rodando filmes, Allen, como todo neurótico, sempre deixa para si aquela cotinha de neurose que não pôde ser sublimada...e ainda bem que nem tudo está nos filmes.

O problema não está aí, na verdade, o problema começa quando se percebe que a perversão - sintomatologia mais contemporânea - vem tomando o lugar do velho neurótico às voltas com a religião, a própria sexualidade e a pátria. Vide "Matchpoint", um filme de um Allen não mais novaiorquino, mas londrino, não tão neurótico, mas perverso. Crimes e passagem ao ato ao invés do discurso do cão atrás do próprio rabo.

Resta saber se o novo Allen perverso e criminoso compete com o velho Allen, fã de jazz e neurótico. Para tirar a dúvida basta ir ao cinema: Se as pessoas estiverem acordadas, isso quer dizer que não há mais espaço para nenhum neurótico se lamuriar nas telas dos cinemas desse vasto mundo que até ontém era só traumático, castrador.

Hoje negamos a castração, vamos ao cinema para rir, evitamos a dor, e é claro, basta de problemas, ninguém está interessado em saber porque diabos fulano não consegue se relacionar com nenhuma mulher que não sua mãe, tampouco estamos interessados em fixações orais, em complexos edípicos (não tão diretamente, friza-se).

Que Édipo que nada, eu quero ver é o circo pegar fogo e a perversão dar sinal!

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Non hai revolución: guardando a camisa do Che Guevara no armário



Pois aconteceu. Eis que aconteceu o que estava sendo ensaiado. Fidel caiu. Sim, na verdade não é que ele caiu assim como se cai alguém derrubado por um golpe, como foram tantos outros chefes de estado os quais aprendemos a reconhecer em fotos geralmente sisudas que fazem parte de qualquer livro de História Geral do ensino médio.

Fidel caiu e você pode se perguntar o que isso vai trazer de novidade em minha vida. Eu posso arriscar uma resposta? Muito. Fidel caiu de maduro, renunciou e junto com ele muita coisa vai sendo mudada ou, ao menos, muita coisa se anuncia; é um marco contemporâneo e justamente por isso não devemos desprezar os fatos que acontecem em Cuba.

Segundo Lula (jamais imaginei que fosse citá-lo, mas enfim, cabe) assistimos ao fim da era Fidel Castro e com ela a dissolução do último mito moderno vivo . Segundo pesquisadores da vida do ex- ditador cubano, Fidel logrou êxito em perseguir durante toda a sua vida uma sociedade consumista a qual pintou com cores piores do que realmente tem: a americana e, mais recentemente, seu presidente, o símbolo da ignorância yankie, nosso querido Bush.

Amado e odiado, Fidel era um cara que viveu sua vida para a Revolução, lutando por esta e, mais atualmente, esperançoso desta, às voltas com o discurso self-made man apregoado pelos Eua.

Porém, os tempos são outros. De acordo com Lipovetsky (2007) em seu mais recente livro " A felicidade paradoxal", não há mais lugar para revoluções políticas; há lugar para reequilíbrio da cultura e do consumo.

Rasteiramente falando, a sociedade contemporânea a qual Lipovetsky hoje denomina "sociedade hiperconsumista" assiste à bancarrota dos ideais revolucionários, demonstra maior abertura ao hedonismo, ao consumo desenfreado e à busca incessante da felicidade, esteja ela aonde estiver, num celular novo, num Ipod, num Blackberry, num Iphone, tanto faz, tudo está ao alcance das mãos, portanto, não há a mínima necessidade de revolução.

Dito isto, do mesmo modo que não há mais espaço para Fidel, não há mais espaço para o discurso revoucionário aparentemente chiita pregado e entoado nos DCE's da vida; não há lugar para discurso verborrágico contra o consumo nem mesmo contra a futilidade, esta que a nossa sociedade nos apresenta cada vez mais diante dos olhos e que também pode garantir satisfações reais, por que não?

Está mais do que na hora de retirar Che Guevara - criatura semelhante a um guia espiritual, uma espécie de conselheiro-fantasma onipresente, Chico Xavier do proletariado estudantil - que tanto orgulha os líderes pós-adolescentes, metade emo-metade James Dean em "Rebelde sem causa" das salas dos DCE'S das universidades federais. Filho, tire a camisa do Che Guevara, enterre Fidel Castro, os primeiros sinais de que esse discurso pseudo engajado já foi pras cucuias há muito vieram quando o Lula do ABC paulista virou "Lulinha Paz e amor", aparou a barba e tomou para si o discurso das elites.
O que era o PT nos anos 70 e 80 hoje apenas é uma sombra, sem "personalidade" (odeio a significação do termo no senso comum, mas também cabe) e deve envergonhar muito dos antigos militantes, os que já usavam as sambadas camisas do Che Guevara e passavam metade do tempo gasto na universidade dentro dos centros acadêmicos da vida.

Hoje foi dado o tiro de misericórdia nesse discurso pseudo engajado, aparentemente panfletário: mesmo que não tenha sido por motivo de saúde ou falta dela (declaradamente, diga-se de passagem) que Fidel saiu do poder, ainda assim, podemos considerar que ele caiu e com ele cai também o discurso dos que insistem em tentar trazer para o presente ideais que já não pertencem ou já não se adaptam ao mundo em que vivemos.
Ora que melancolia é essa, companheiro? Temos que aceitar sim a futilidade, o hedonismo, o consumo e tudo mais que a nossa sociedade "hipermodena" nos oferece, é o conselho que nos dá Lipovetsky. Por que? Porque não temos outra sociedade em que viver, porque não pertencemos à sociedade que viu emergir o movimento das "Diretas Já" e muitos de nós nem mesmo viveram o que se padronizou denominar "Movimento Caras Pintadas" de 1992.
Portanto, vamos tirar a foto do Che Guevara do altar, vamos, no máximo, nos contentar (aos simpatizantes) em dizer que votamos no PSTU ou no PSOL e saber que revolução hoje em dia é algo tão impossível como um elefante entrar em uma loja de cristais e não fazer estrago.

Acreditem: Não há nada que se possa revolucionar, as coisas são dadas na hora, à vista ou a crédito, mas são dadas. Compradas, é verdade, mas "na minha mão é mais barato" e, portanto, compramos com o pagamento a perder de vista e isso nos faz até esquecer que estamos pagando. Não, não há lugar para revolução, para ex-petistas revoltados. Não há lugar sequer para continuar culpando o Bush.

Convenhamos: o Bush não está perto de ser a oitava maravilha do mundo, mas não pode continuar sendo culpado por todas as mazelas que acontecem no planeta. Acho, na realidade, que há tanto espaço para Bush hoje como há para Fidel, ou seja, nada, quase nada (Obama está aí para corroborar isso).

O que quero dizer é que não há espaço para radicalismos, sejam eles da ordem do consumo irrefreado ( do qual a sociedade americana transformou-se em protótipo, os desequilíbrios ecológicos e Al Gore estão aí para corroborar isso, também), sejam eles da ordem do discurso inflamado dos antigos revolucionários.

Cá com meus botões eu sempre achei que deveríamos procurar o meio-termo, uma coisa entre a futilidade que assegura uma certa satisfação e um enriquecimento psíquico-cultural-emocional-intelectual (cansei!) para podermos nos dizer seres "felizes". Sempre desconfiei desse discursinho de gente que sai por aí bancando reencarnações de estudantes mortos e/ou perseguidos pela Ditadura, que adora entoar umas coisas que aprendeu nas cadeiras de sociologia, tais como "proletariados do mundo todo, uni-vos!" (acho que não é bem isso, mas cabe!!), mistura um pouco com Foucault, dá uma lidinha - por cima - de Nietzsche e pronto: Eis o revolucionário contemporâneo, nada ou pouco mais do que um patético melancólico que tem saudade do que não viveu e que, se uma bandeira de luta empunhasse não saberia o que fazer com ela.

Abaixo o intelectualismo e a mania de revolução gratuitas, não há espaço, hermano. Fidel caiu, você também cairá. Se quer ver revolução, idealismos e engajamento ligue a tevê na rede Globo e assista a minissérie "Queridos Amigos", lá estará Fernanda Montenegro, a nossa melhor atriz, a mesma que perdeu o Oscar por causa de uns italianos aí. Ah, mas esqueça o Oscar, pois todos nós sabemos que é uma festa consumista americana utilizada como meio de manobra das massas.

sábado, fevereiro 09, 2008

Ode a uma amizade disfarçada de crítica literária (pessoal)


“Amigas morrem de rir, mesmo em velório. Amigas debocham, liberam, recordam, comentam, confessam, perdoam, comungam e exorcizam fantasmas com litros de vinho branco. Duas amigas e uma tarde livre é o paraíso.”

Martha Medeiros – Divã

Em pensar que eu li esse livro numa tarde. Já faz um tempo. Lembro-me bem de como foi aquela tarde, chuvosa, cansativa, tinha andado pelas ruas de uma cidade que de tão pacata era entediante, mas que estranhamente, parecia perigosa aos meus olhos.
Era uma tarde chuvosa e eu só queria me deitar e ler umas 20 páginas, tava bom. Só que, aí que está, o livro me puxou pela mão, foi me guiando por mares nunca antes navegados, sequer imaginados, me fez compreender muita coisa.
Ler Divã pra mim foi como exorcizar vários fantasmas, foi abrir o extintor de incêndio e dar a cara a bater, mas não tanto quanto Martha o fez, posto que ao leitor cabe aquele lugar discreto de quem concorda com as palavras que lê, porém o faz de um lugar ali na última fileira do cinema da covardia, pertencente àquele que queria dizer tudo aquilo, mas, na falta de coragem ou de talento, prefere ler o que os outros escrevem de semelhante ao que se passa em sua alma do que se atrever a rabiscar um papel – mesmo nessas definições, ainda é covardia.
Pois então, covardia foi a minha de ler Divã e me reconhecer em cada linha, em cada frase, reconhecer a mim e a muitas mulheres que ouvi, seja por profissão, seja por amizade, porém o fiz calada, assentindo com cada frase de Martha, mas em silêncio, o silêncio familiar aos mais ávidos leitores. Se alguém pudesse descobrir o tanto que o livro me guiou fá-lo-ia ao saber que devorei aquelas paginas em umas duas horas.
Ainda assim, devorado, o livro não cansa de ser digerido. Transformei em fichamento, em material de leitura obrigatória. No entanto, é balela, faça-me o favor, vai virar referência bibliográfica, mas, mais que isso, vai virar referência interna.
Hoje volto ao fichamento. Mesmo sendo uma preciosa ferramenta para aqueles que se envolveram na árdua tarefa de pesquisa, o fichamento de Divã não foi algo puramente racional não, quis reter, de alguma forma, tudo aquilo que o livro precipitava em minhas moléculas, na falta de fazê-lo de outro modo, taquei-lhe um fichamento, que é o que sei fazer mesmo.
O negócio é que o famigerado fichamento veio até mim por causa de uma grande amizade. Sim. Aparentemente desconexa, a relação que fiz entre a amizade em questão e Divã pra mim significa muito. O fato é que perderei o convívio de uma das melhores amigas que consegui manter nesses meus 25 anos de existência.
Triste conexão, mas, não me arrependo de ter aberto o fichamento e me relembrado do cheiro das páginas daquele livro rosa. Quantas horas passamos falando exatamente o que Martha fala como quem fala poesia? Quantas horas passamos rindo, tristes, felizes com a cumplicidade que soubemos construir de uma maneira quase criminosa?
Eu reconheço essa amizade em Divã. Mesmo que não estejamos nós duas juntas, na maioria das vezes, a cumplicidade é digna de um livro, e eu, na falta do talento da Martha, tenho apenas esse lugar pra dizer dessa relação tão natural e tão doce, tão certeira e ao mesmo tempo surpreendente, que, se não reserva encontros tão freqüentes agora, ao menos continua prometendo ocasiões felizes, cheias de alegria e cumplicidade, mesmo que agora sejam mais espaçadas.
Amigas são isso, divertem-se em velórios, riem na hora proibida, são capazes de ficar felizes na ausência uma da outra, sentir empatia nos momentos necessários e também nos desnecessários. Amizades como essa não morrem jamais – e digo isso com uma certeza tranqüila, daquelas que só se tem quando o sentimento é puro e nobre.
Amizade como a nossa me faz um ser melhor, e me faz querer ser melhor sempre, me faz empática, me faz sorrir em um ônibus numa cidade estranha, há quilômetros de distância de você só por te ver feliz. Amizade como a sua me faz tomar as suas dores como minhas, querer a sua felicidade e me empolgar com tudo que lhe ocorre.
Eu te desejo sorte. Farei o meu caminho também e espero estar junto a você para novas estórias escrevermos. Amizade é isso, um carinho infinito, uma lembrança precisa no folhear de um livro que diga sobre mulheres. E eu sou muito feliz por ter você em minha vida, mais mulher e mais cúmplice a cada dia da sua feminilidade, da sua garra e da sua persistência.
Lara: o mundo é seu e parte do meu coração também. De sócias à cúmplices.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Van Gogh vai ao divã (com pincel ou sem pincel?)



"Quando se tem saúde, tem de se poder viver dum pedaço de pão e com isso trabalhar o dia todo e ainda ter força de fumar e beber um copinho; disso precisa uma pessoa nestas circunstâncias. E ao mesmo tempo sentir as estrelas e o infinito lá em cima. Então a vida é apesar de tudo quase fabulosa. Ah, quem aqui não crê no sol é um ímpio".


Van gogh



Poderíamos deduzir a partir da frase acima que Vincent seria, se vivo fosse, um daqueles workaholics, viciados em trabalho, que não tiram férias e que, mesmo assim, consegue reservar um espacinho para tomar um chopp com os amigos, jogar conversa fora, rir... o famigerado "Happy Hour".

Poderíamos inclusive dizer que Van Gogh era um cara feliz, e, quase parafraseando Ivan Lins, achava que a vida poderia ser maravilhosa, ou, quase toda fabulosa, como bem disse com suas palavras.

A verdade, entretanto, é que Van Gogh não era um cara tão bem resolvido assim: sua vida amorosa quase inexistente se resumia a alguns poucos amores platônicos, casos de um dia com prostitutas, amores mal resolvidos. Arrisco dizer que o grande amor de sua vida era seu irmão Théo, com quem trocava constantes correspondências durante muito tempo de sua conturbada vida, entre uma internação psiquiátrica e outra. Théo lhe dava a mão, um pouco de dinheiro e também pão.

Van Gogh era um cara impulsivo, bastante impaciente e notadamente romântico em tudo que fazia; seus quadros exalavam paixão através das cores, dizia amar o amarelo, quem não conhece os girassóis? Apesar de descarregar na sua arte todo a agonia interna, apesar de com o pincel buscar impulsivamente falar de si, Van Gogh era infeliz.

Vejam vocês, enquanto hoje em dia meio mundo de pessoas fazem rabiscos contemporâneos a giz, emolduram algum objeto sem sentido e fazem disso arte, vendem-na como banana em feira, Van Gogh, em seu tempo, pintava seu " semeador", ou seu "o comedor de batatas" , não recebia quase nada por isso e ainda, como bonificação, era infeliz.

Mesmo sendo um cara tão talentoso, tão avesso às regras da tradicional escola impressionista que tanto o influenciou, Van Gogh era, no fundo, um romântico, pintava pra falar da agonia que em si habitava, pintava para dizer algo, seja isto alegria, euforia, impulso, paixão ou tristeza, mas pintava:muitos quadros ao mesmo tempo, dizia perder a consciência enquanto pintava, parecia viver em um universo paralelo e que dele retornava, sempre, com alguma tela recheada.

Interessante é que, por mais que muita gente tente provar o contrário, nada, mas absolutamente nada escapa ao inconsciente, e esse, faceiro que só ele, acaba aparecendo, numa tela ou noutra, num livro ou noutro, numa poesia ou noutra, numa identificação, ou noutra. O inconsciente sempre está procurando escapar, por alguma via, dos domínios da tradicional e anêmica consciencia.

Com isso quero dizer é que, mesmo que Van Gogh se esmerasse para superar os seus precursores, seus professores, sua obra era marcadamente romântica, cheia de paixão, e, por isso, cheia de inconsciente. Abundantemente inconsciente e qualquer um que tenha prestado atenção alguma vez em Psicanálise poderá perceber que as constantes mudanças de hospital, as mudanças de cidade, as desilusões amorosas, as perdas, tudo, enfim, estava ali nas telas as quais os críticos de arte separam, analisam e didaticamente as distingue em "períodos".

Então, existe a fase de Arles, em que Van Gogh parece estar mais feliz, o amarelo é ressaltado, o mesmo pode-se dizer de Gaughin, de Picasso, fase rosa, fase azul.

Eu sou contra essas classificações. De verdade. Eu acho que, como já diria alguém no orkut (hahahaha) definir é limitar. É é. Ao separar Van Gogh em Van Gogh de Arles, Van Gogh dos girassóis, Van Gogh de Saint-Rémy estamos dividindo o próprio Van Gogh, esquizofrenicamente, diga-se de passagem.

Tudo bem, didaticamente é interessante para que as pessoas aprendam que existem "fases" na obra do pintor, marcadamente influenciadas pelo que passa em sua vida, é assim que fomos acostumados a entender, sem falar nada sobre inconsciente.

Basta pegar qualquer livro da Taschen que você verá a separação dos tópicos relacionados às "fases" as quais marcam "vida e obra de fulaninho".

Eu prefiro considerar Van Gogh um gênio de seu tempo, e , como todo gênio, atormentado, dividido em várias partes (vide a psicose que sustentou durante sua vida e que o levou ao suicídio), não em partes que possam ser didaticamente determinadas utilizando as cores como critério, ou o lugar, enfim, mas em partes de pessoas, como eu e você, que tantas vezes nos quebramos, nos colamos , quebramos de novo para nos colarmos em seguida e muitas vezes não fazemos nem um rabisco no papel, quanto mais pintar um quadro

Diante de tanto remendo, é impossível ser o mesmo e não precisamos ser Van Gogh para nos considerarmos seres , em algum determinado momento de nossas vidas, atordoados, cansados, desiludidos e fragmentados.

Obviamente há momentos de esperança, veja você, o próprio Van Gogh dizia, em um dia em que certamente acordou de bom humor, que a vida é quase fabulosa. Nós também podemos dizer isso, pois não nada melhor, ou ainda não inventaram, a sensação de renorvar-se constantemente, de aprender a cada segundo e de respirar novas correntes de ar no momento em que estas nos chegam aos brônquios e aos pulmões.

Assim, viver vale a pena, expressar nossas paixões vale muito a pena, seja isto feito através da pintura, da literatura, da música, da escultura, do teatro, da dança...enfim, podemos expressar nossas "artes" internas até mesmo nos identificando com um vídeo que vemos no youtube. E isso é pura e simplesmente Psicanálise, é inconsciente e , por isso, tão palpável, mesmo que aparentemente transparente.


terça-feira, janeiro 22, 2008

Piriguete: um conceito, acima de tudo, psicanalítico



A cada dia me surpreendo mais com minha própria capacidade de ver teoria nas coisas que talvez nem necessitem de teoria. No entanto, seja por vício ou habilidade, resolvo trazer hoje uma figura contemporânea para dentro da teoria, o que faço sem pudores, almejo mesmo me divertir e - não vou mentir - aprender um pouco, por que não? Quem disse que não se aprende na futilidade?

Pois bem, quero tratar aqui da famigerada "Piriguete". O que seriam os atributos que caracterizam a Piriguete? Como ela se constitui num modelo de mulher contemporâneo, capaz de inspirar algum Mc desocupado a ponto de virar "hit de verão"? Bem, essa coisa de virar "hit" de verão não é lá nenhum mérito da Piriguete, mas já que virou, isso implica dizer que em todos os botecos se escuta algo referente a Piriguete, o que, se faz alguns descerem até chão, faz outros especularem, na falta do remelexo, sobre o que diabos é a Piriguete.

Para uma análise, digamos assim, mais apurada e embasada teoricamente, trarei alguns trechos da letra do "Mc Papo" para tentar desvendar esse enigma que circunda a imagem da mulher-Piriguete. Vamos à análise então:


1. Quando ela me vêela mexe piri pipiri pipiri piriguete


Nota-se, pelo fragmento citado, que a Piriguete é alguém que busca através sedução um meio de conquistar a fascinação e o olhar do outro, nesse caso, o olhar do Mc o que generalizado pode ser considerado o olhar de todos os outros homens que curtem uma Piriguete ou se deixam seduzir por tal mulher.


2. Mini-saia rodada, blusa rosinha, decote enfeitado com monte de purpurina. Ela não paga, ganha cortesia


O trecho acima corrobora o que foi explicitado no tópico 1: A Piriguete é uma mulher definida pela sensualidade e que busca na aparência, bem como nas vestimentas provocantes o olhar masculino sexualizante que vai colocá-la na posição de desejável, ao menos em se tratando de seu corpo. A última frase do trecho aqui trazido demonstra que a Piriguete, por ser essencialmente sedutora, também utiliza essa característica como recurso visando conseguir barganhas como entradas gratuitas em locais em que possa exercer sua essência piriguete.


3. Foto de espelho na exibição.


Confesso que esse trecho não me parece muito claro para ser passível de uma análise mais detalhada, no entanto, arrisco dizer que o que Mc Papo, o compositor da pérola em questão quis dizer é que a Piriguete é alguém que vê no olhar do outro e na exposição de si mesma um modo de construir sua identidade, o que é feito diante do espelho. Nesse ponto podemos notar que Mc Papo utiliza conhecimentos psicanalíticos, sobretudo no que diz respeito a teoria lacaniana da constituição do sujeito a partir do espelho. No entanto, McPapo não utiliza o termo metaforicamente, uma vez que parece falar que a Piriguete se exibe na frente do espelho, objeto concreto mesmo, aqueles que estão em todos os banheiros das baladas e outros lugares frequentados por tal mulher.



4. Ela curte funk quando chega o verão. No inverno essa mina nunca sente frio, desfila pela night de short curtinho.


Percebe-se que a Piriguete prioriza a atividade sedutora em detrimento da saúde física. Mesmo durante o inverno, faz uso de roupas provocantes e incoerentes com as condições meteorológicas visando unicamente a sedução, sua atividade preferida.


5. Um cinco sete de marido, ela gosta é de cara comprometido.


Aqui vemos uma outra faceta da Piriguete: a preferência por relacionar-se com figuras masculinas interditadas, demonstrando uma não ultrapassagem do Complexo de Édipo. Notamos novamente os conhecimentos de McPapo acerca dos conceitos fundamentais da psicanálise freudiana. Neste pequeno trecho o compositor aborda sutilmente, o que deixa margem para interpretações, o que Freud aponta como uma caracteristica intrinsecamente feminina, a saber, a não resolução do Édipo que torna-se sintoma e aparece nas clínicas de psicoterapia como sendo a maior queixa feminina.


6. Ela não é amante, não é prostituta, ela é fiel, ela é substituta


Vemos novamente que a Piriguete, além de uma mulher sedutora, assume essa posição, como se pode notar em toda a letra da música, de forma submissa. A Piriguete anda de short curto mesmo no inverno, de gloss e piercing no umbigo, necessita desesperadamente desse olhar masculino, não se importando com o fato de não ser tomada como figura digna de casamento.

A Piriguete, portanto, assemelha-se a uma imagem da Amélia do samba de Mário Lago (perdoem-me a comparação). No entanto, é uma Amélia contemporânea, bem arrumada, provocante, mas, ainda assim, Amélia, contenta-se em ser a substituta. Mais uma vez uma alusão a Psicanálise, sempre, claro, de forma bastante sutil. McPapo refere-se a teoria freudiana quando sustenta que a Piriguete está situada entre a prostituta e a esposa, comportando-se como aquela que está disposta ao que lhe aparecer, em nome do falo que acha estar situado na figura masculina, representada pelo Mc.


7. Mexe o seu corpo como se fosse uma mola, dedinho na boquinha, ela olha e rebola


Vemos novamente que a Piriguete utiliza-se da sua imagem corporal demandando o olhar fetichizador masculino. Sabe ser sedutora e o faz convocando o outro masculino para a atividade da cópula: a Piriguete está sempre disposta à atividade sexual e para tanto utiliza os recursos que tem à mão (literamente, o dedinho) para seduzir e copular.


8. chama atenção, vem na sedução, essa noite vai ser quente, eu vou dar pressão


O referido trecho é complementar ao item 7 e demonstra que a Piriguete alcançou êxito em sua atividade sedutora que tem por objetivo incitar o outro ao ato sexual, o que pode ser compreendido pela frase "eu vou dar pressão", uma sutil referência a atividade masculina durante a cópula.



Nota-se que a letra instiga diversas interpretações. Mc Papo demonstra sutilmente, uma vez que seu público-alvo é constituido, em sua maioria, por pessoas leigas, seus conhecimentos acerca da psicanalise, sobretudo quando traz referências das teorias de Lacan e de Freud para construir a imagem da mulher contemporânea e sedutora a qual denomina Piriguete.

Poderíamos inclusive especular que o termo "Piriguete" deve originar do substantivo "Perigo", algo que pode ser compreendido tanto como representando o perigo para o masculino como referente à expressão contemporânea "estar a perigo", o que justifica sua submissão diante do masculino, já que a Piriguete é 157 de marido.


O que podemos concluir disso tudo? Bem, podemos concluir o que quisermos, mas certamente que é possível ver teoria em tudo, que o McPapo deve ser alguém muito modesto e que demonstra conhecimentos psicanalíticos de forma quase vulgar para fazer-se compreender pela massa rebolativa constituida por Piriguetes e seus equivalentes masculinos.´

Se Freud dizia que às vezes um charuto é só um charuto, digo que nem sempre um funk é só um funk.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Por que não arruma um emprego de verdade?

Quero fazer desse lugar uma apologia à pesquisa, seja ela qual for, seja você um estudioso em algas marinhas ou em glândulas cebáceas, o que é importante que você, pensador solitário, errante no caminho das metodologias da vida, consegue abstrair seu pensamento para ir além.
Falo com esse entusiasmo porque admiro aqueles que se dedicam pacientemente a estudar uma verminose ou a conhecer todos os efeitos produzidos pela mordida de uma jararaca, sabendo seus mais curiosos hábitos e o porque de tal mordida ter tal sintoma ou outro.
Quando se fala em pesquisa no Brasil muita gente torce o nariz, outras aplaudem, mas, na verdade, o que se sabe é que aquele que pensa é porcamente recompensado pelos préstimos que oferece à nação. Não quero dizer com isso que seja o trabalho mais importante do mundo, imprescindível, mas o único que permite a circulação e a produão do conhecimento.
Caso não o fosse, não se teria chegado ao coquetel de drogas oferecido aos portadores do HIV, não se ouviria falar do projeto Genoma, tampouco se saberia aonde se localiza o hipotálamo e o que acontece quando este sofre uma lesão.
Tudo bem, vá lá, vendo a situação por esse ângulo nota-se que há uma certa valorização pelo conhecimento adquirido através da atividade da pesquisa, mas, e os outros tipos de pesquisa, as não tão palpáveis, aquelas mesmas que são consideradas por muitos como “perda de tempo” ou “falta do que fazer”?
Sim, me sinto uma dessas. Apesar de saber que o que estudo é de suma importância para a compreensão dos relacionamentos entre homens e mulheres, para se entender a lógica feminina e o porquê de tantos embates e tantas polêmicas, sobretudo para se concluir que o mundo, de fato, hoje, é feminino.
Importância. Palavrinha escorregadia. Importância para quem? Como qualquer pesquisadora, eu poderia dizer que é de suma importância para mim, uma vez que já dedico 4 dos meus últimos anos debruçada sobre a temática e que, portanto, é impossível que não seja o mínimo instigadora para mim.
Claro, para mim é, pra você pode não ser, mas o que quero dizer é, esquecendo do meu caso particular, que a pesquisa faz o conhecimento saltar das páginas, tal como o bom livro, lembra? A pesquisa faz o pesquisador, autoriza o aluno e empolga o professor, em suma, a pesquisa mobiliza os pensadores e cria pensadores.
É uma pena que nós, aqueles devotados ao estudo de artigos científicos, freqüentadores assíduos das bases de periódicos Scielo e cia, pessoas que fazem de tudo por um ponto no famigerado Curriculum Lattes não possam contar com uma remuneração mais justa por simplesmente pensar e fazer (futuramente) pensar os nossos alunos.
Passamos boa parte de nossas vidas dedicados à obtenção de títulos, a publicações em revistas científicas, para chegarmos um dia a sermos considerados “professores”, professores mestres, professores doutores.
Para quê? Seria ridículo eu dizer que apenas seria em nome do compromisso que firmei com a nação uma vez que resolvi fazer circular o conhecimento, não, é utópico e presunçoso demais, o conhecimento não vai começar a circular ou mesmo circular melhor porque eu decidi ser pesquisadora. Acho mesmo que vai muito ego nisso tudo.
Muito simples essa questão de ego, enquanto uns o enaltece malhando o corpo, outros enaltecem colecionando namorados, e outros, bem, outros o enaltecem estudando para um dia chegarem a uma sala de aula e serem tratados como carrascos ou desagradarem meio mundo.
O pior de tudo: a recompensa. No Brasil, um professor doutor pode ganhar, no máximo, se tiver muita sorte, uns sete mil reais. Já um promotor, desembargador ou juiz pode ganhar o dobro, triplo, não entendo nada da esfera judicial.
Não quero com isso desmerecer o serviço dos juristas, dos advogados que tanto ego possuem e, além de tudo, são pagos para enaltecê-lo e mais, de brinde: porte de armas pra ameaçar geral e bradar alto mesmo quem manda aqui.
Ok, ressalvas à parte. O fato é que professores doutores não são reconhecidos nem um pouco e isso me deixa um tanto triste, porém, não desmotivada, visto que, alguém deve fazer o trabalho sujo.
Feito aqui o desabafo, reitero, nosso trabalho é útil sim, e mesmo que o conhecimento não ultrapasse todas as barreiras, malmente figura no Lattes de alguém, que nossas palestras estejam sempre vazias e levemos sempre para casa a voz perseguidora dos orientadores em nossa cabeça, o trabalho sujo vale a pena, enaltece e enriquece intelectualmente.
Fale você de serpentes, de coqueiros ou de mulheres, o trabalho intelectual é importante, sobretudo quando se tem amor pelo que se pesquisa e se consegue transmiti-lo da melhor forma possível para outras pessoas. O conhecimento então circula, e abunda, fertiliza.
Dedico esse texto a todos os mestrandos da Unisinos, que, por hora, encontram-se como eu, atordoados entre os prazos e a ansiedade da defesa da dissertação que, se não for a melhor produção de sua vida, é , neste momento, o ápice da sua vida.
Para todos desejo sorte, a mesma que desejo a mim mesma e que nossos caminhos não sejam jamais cruzados por alguns seres acéfalos, animais ruminantes ou qualquer ignorante que nos faça a terrível pergunta: “Vem cá, por que tu estuda isso? Por que não vai arrumar um emprego de verdade?”

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Jabor contra Coelho






Eu que não li Paulo Coelho me espanto com o número de pessoas que habita a comunidade no orkut chamada "Paulo Coelho não é Literatura". São mais de 10 mil pessoas exigentes, talvez não todos críticos de literatura, muitos devem ser agitadores, revoltados, rebeldes sem causa que nem eu, a bradarem seu medo de que um dia o célebre autor vire leitura obrigatória em colégios e faculdades.


Não posso negar, faço parte desse mundo de gente que assertivamente diz que Paulo Coelho não é literatura. Vocês podem dizer, qual é a sua base para dizer que Coelho não é literatura?Não mentirei, não li seus clássicos. Tampouco li Dostoiévsky, não, sequer folhei o Código Da Vinci. Tem muita coisa que não li e mesmo assim critico, mas com Paulo Coelho é diferente, é um prazer maior, não sei por qual motivo, simplesmente gosto de criticá-lo. Assim mesmo.


Eu digo que Paulo Coelho não é literatura, simplesmente por convicção de que, não sendo ignorante quando se trata de letras e já tendo lido Machado de Assis, Luiz Fernando Veríssimo e Goethe, eu posso, por exclusão, dizer que Paulo Coelho , e o pouco que sei dele, não é literatura. Digo mesmo influenciada pelo grupo de rebeldes críticos, não, não é literatura mesmo sem eu ter lido uma linha.


Acho que a boa literatura é aquela que nos leva para outros mundos, para além das quatro paredes nas quais nos encerramos com o livro na mão. A boa literatura, no entanto, entendo não ser apenas isso, posto que o que Coelho faz, segundo quem o lê, é levar tanta gente a tantos lugares exóticos, exotéricos.


A boa literatura exige mais do que um passaporte imaginário, ela exige capacidade crítica de quem lê, para que, tomando as letras que absorve como metáfora, possa fazer da palavra lida, palavra escrita por ele mesmo. O que quero dizer é que, na minha opinião, para ser um bom livro, o livro precisa nos ler e nos pegar pela mão.


Atualmente estou lendo Jabor, "Amor é prosa, sexo é poesia", e acredito que, nada melhor do que um livro de crônicas bem escritas para nos fazer desabrochar a capacidade de pensar. Jabor nesse livro fala sobre tudo um pouco: relacionamento homens e mulheres, contemporaneidade, crônicas sobre o futuro do Brasil...enfim, são temas variados que fazem o bom leitor indagar, questionar, e sobretudo, além de pensar, colocar algo em movimento sob o impacto da palavra lida.


Desde as relações frouxas da era pós-moderna até a bunda de Juliana Paes, o Jabor fala de coisas com que todo mundo se depara até mesmo na banca de jornal da esquina, com isso, não necessariamente a leitura de Jabor nos leva ao caminho de Santiago de Compostela ou a tantos outros lugares.


Não, Jabor não nos leva além da banca de jornais, muitas vezes, e isso é o crédito que pode ser dado a ele: mesmo aqui no nosso país de miseráveis a boa literatura se apresenta como antídoto contra a alienação, mesmo que não nos leve a outros continentes nem seja best-seller.


Tudo bem, então sejamos imparciais agora, logicamente estamos falando de estilos diferentes, Coelho escreve seus estórias em prosa, não sei se todas, acredito que já deve ter se aventurado por outros estilos, mas não posso afirmar, posto que, como já disse, sou uma ignorante quando se trata de Paulo Coelho.


O que quero apontar aqui é que, muitas vezes, um livro de crônicas como o de Jabor é capaz de fazer as palavras saltarem do papel escrito pro papel em branco, e isto, acredito, é a maior vantagem da leitura: tornar o leitor um autor.


Dito isto, agora me vem uma preocupação: Se esta é a maior vantagem da literatura, quem será que fez Paulo Coelho ser Paulo Coelho?