quinta-feira, setembro 25, 2008

Videogame X Novela



" O amor, como se sabe, é como marcação sob pressão no futebol. Por mais bem preparados fisicamente que estejam os jogadores, eles não podem marcar sob pressão os 90 minutos"


Luis Fernando Veríssimo


" Enquanto o sexo feminino exige e espera tudo do masculino, ou seja, tudo o que deseja e de que precisa, o masculino exige do feminino, em primeiro lugare diretamente, apenas uma coisa"


Arthur Schopenhauer



De fato , estejamos nós nos meandros da literatura contemporânea ou entre filósofos da estirpe de Schopenhauer, a questão é que deve ser mais fácil ver um eclipse lunar durante o dia, toda semana, a fazer com que homens e mulheres se entendam. Homem e Mulher não nasceram para se entender, não , nasceram para se espezinharem durante toda a existência, para se infernizarem, para que assim possam dar mais valor a uma tal vida que seria mais feliz, mais celestial: a vida eterna.

Desde que mundo é mundo, desde muito antes de Cristo e de Adão, o Homem é caracterizado por ser egoísta, egocêntrico, volúvel e muito, muito inclinado à novidades, sejam elas ligadas a automóveis, a brinquedos automáticos e/ou a nova vizinha bonitona.

Eu não saberia dizer aqui o que é ser homem, posto que, por motivos óbvios, falaria melhor sobre ser mulher, porém, acredito que ser homem é viver num mundo muito colorido, às vezes lúdico até,ter que lutar constantemente contra inimigos malévolos e, algumas vezes, dar a sorte de encontrar uma vilã de corpo escultural para que possam atravessar portais mágicos juntos. Tudo isso se passa numa dimensão intrigante a qual não corresponde nem a realidade material, palpável e nem equivale ao domínio dos sonhos. Sim, a vida para um homem deve ser um jogo de videogame. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Observem bem: a vida para um homem é um videogame pois:


1) O jogo de videogame pode ser jogado sozinho, e muitas vezes é até preferível que se jogue sozinho. Um quarto aconchegante, ar-condicionado e muita paz e tranquilidade. Sozinho. SO-ZI-NHO. A presença de outrem seria apenas justificada se este viesse trazer líquidos e comidas para que o bravo guerreiro recupere suas forças, derrote o gênio malévolo e divirta-se, no plano virtual, com a gostosa lutadora.


2) Em jogos de videogame não se vê personagens discutindo relação, dialogando sobre a feira do mês e nem sobre as obrigações do lar. O videogame é , por si só, acolhedor posto que não faz perguntas, está ali quando for solicitado e , mais importante de tudo: é possivel jogar sem som. Qualquer televisor possui a tecla "Mute", preciosa invenção da qual as mulheres são privadas.



3) No jogo de videogame a personalidade masculina parece dotada de uma característica que parece somente possível na tela da tevê: Coragem. Alguém já viu um herói, um personagem desses jogos de videogame dotado de uma personalidade sensível, de gosto musical apurado e bastante dado à atividades intelectuais/artísticas? Não. No videogame é possível ser macho, macho mesmo, daqueles que cospem no chão e enfrentam qualquer desafio, que tomam decisões rapidamente, que têm atitude diante de quem quer que seja. Isso é impossível. É falácia, é utópico. É o modo de sublimar masculino.



Como se poderia supor, não é porque sou mulher que vou sair aqui defendendo a classe. Isso aqui não é um post panfletário e eu também não sou paga para isso. Quem tiver o ímpeto de reclamar que funde um sindicato, já existem as "delegacias da mulher", estamos chegando lá.

Mulher é um ser complicado que, geralmente, faz uso de todos os percalços biológicos por quais passa durante a existência para justificar seus arroubos raivosos e sua cólera que é, no fundo, infundada. Mulher também gosta de falar, portanto, se você é homem , está lendo isso ainda e visa conquistar uma mulher, deixe-a falar, finja-se de compreensivo, atento e altruísta, disfarçando até quando puder o seu egoísmo nato. Deixe-a falar, sempre, falar pelos cotovelos, mas, deixe a pobre se expressar, você não perde nada, e , no fim de noite, poderá ser agraciado com algo que vá saciar seus hormônios.

Se podemos comparar a existência masculina com o videogame, por que não comparar a vida das mulheres a um folhetim romântico? Isso, desses que passam em qualquer canal de tevê aberta. Em geral esses romances adocicados dizem muito sobre a vida de uma mulher. Vejamos em que me baseio:


1) Está-se sempre em busca do mocinho, rejeitando o vilão e, ao mesmo tempo, querendo-o. Sim, há que se perceber que o vilão guarda em si um tempero especial, algo do qual o mocinho (estamos falando de ficção, reitero) não é provido e que atiça a curiosidade da mocinha que, burra que só ela, insiste em não saber quem quer.


2) Uma vez que o dito cujo não a escuta, não manda flores e nem mensagens no dia seguinte, para que conservá-lo no lugar de mocinho? Não. É vilão, acabará no ostracismo e, provavelmente terminará na cama com alguma vilã inescrupulosa que o sedou a fim de consumar o ato sexual e procriar.


3) O mocinho é constantemente substituído por outros candidatos a mocinhos os quais devem obedecer ao modelo de perfeição exigido pela mente doentia feminina para que alcancem os céus. Porém, será que as mulheres realmente estariam satisfeitas com algo? Acredito que nada é capaz de satisfazer uma mulher: Constantes "sim, meu bem" enfadam e abrem a porta - ou a janela - para o vilão roubar a cena, assim como freqüentes "não mesmo!" também preparam o terreno para o adultério conveniente.


4) Nas novelas que se prezam há que se ter casamento e um final feliz. Homens e mulheres felizes, caminhando pelas areias da praia, desenhando corações. Isso é impossível. É falácia, é utópico. É o modo de sublimar feminino.

terça-feira, setembro 23, 2008

Entre rodelas de pepino e pó de arroz



Eis que me chega às mãos uma espécie de almanaque de feminilidade. Nele existe tudo de mais caricato que pôde ser enquadrado como pertencente ao denominado "universo feminino".

"Só para mulheres: conselhos, receitas e segredos" (Editora Rocco, 2008) é o que podemos chamar de "Manual para ser uma boa mulher". O interessante livro reúne textos de Helen Palmer, Ilka Soares e Tereza Quadros veiculados em jornais entre as décadas de 50 e 60 do século passado.

Certamente para vocês os nomes acima citados não dizem muito, talvez não sejam nem mesmo atraentes para aqueles que julgam o conteúdo dos livros pela pompa dos escritores. Eis aonde o gato pula: Ilka, Helen e Tereza nada mais são do que pseudônimos usados por Clarice Lispector para escrever em jornais como o "Correio da Manhã" e "Diário da Noite".

Através de receitas para uma pele cansada e conselhos sobre como se portar num jantar a dois, Clarice revela um universo feminino no qual muito do encanto das mulheres se resumia em possuir um bom liquidificador, "instrumento da feiticeira moderna" (Lispector, 2008, p.69), ter algumas rodelas de limão à mão, umas gotas de óleo de fígado de bacalhau, e , claro, uma certa camaradagem com o farmacêutico da vizinhança.

A mãe da Macabéia (heroína de "A hora da estrela") com seus textos cor-de-rosa, escritos exclusivamente para as boas esposas, mães e donas de casa, mostra uma faceta pouco conhecida sua, a de mulher vaidosa, amante da boa maquiagem e dada aos truques da boa e velha "coqueteria"
Supondo que de bruxa e fada toda mulher tem um pouco, "Só para mulheres" é um divertido manual no qual mulheres como eu, filhas desta contemporaneidade, podem se deparar com textos de uma época remota, na qual a criatividade era um dos ingredientes essenciais no caldeirão dessa "feiticeira moderna" da qual fala a autora, ou as autoras, como prefirirem.

Em "A Máscara da face" , coluna datada de 1960 e veiculada pelo "Correio da Manhã", por exemplo, revela-se a noção de mulher construída no imaginário social da época: " A mulher deve se conservar numa atitude de discrição, embora se pinte e procure ser bela, pois não há nada mais encantador que uma bela mulher vestida com roupas elegantes e modernas, mostrando o mais amável dos sorrisos! É mesmo um céu em vida!"

Mas, vejam vocês, a feminilidade é quase um dom angelical, concedido a essas criaturas tão dadas aos truques da maquiagem, do vestuário e da elegância, com um único intuito: a produção perfeita destinada aos olhares masculinos, pois, que homem resistiria a uma mulher tão encantadora, representante terreno dos anjos de maiores cargos nas assembléias celestiais?

Nenhum, afirmo tachativamente. Não esqueçam que se deve sempre ostentar um sorriso e aparentar ser este tal de "céu em vida". Eu me pergunto e o que fazer com aqueles dias em que só se chove, em que não se tem isso de ver estrelas nem luar, apenas breu?

Sabe-se que a sedução feminina é algo muito estudado e também cantado em verso e prosa, não seria de um compêndio de receitas para as mulheres que a atividade sedutora seria suprimida. Portanto, o livro mostra que nada há de errado com as que não são belas naturalmente, a não ser que recusem embelezar-se. Toda feiura é passível de ser dissimulada assim como toda beleza é capaz de ser acentuada.

O objetivo é fácil de ser adivinhado, mais fácil do que tirar mancha de vinto tinto de roupa branca: É necessário fazer-se bela, desejável e, sobretudo, agradável para alcançar o mais alto posto ao qual uma mulher, na época, poderia almejar: Ser mulher de alguém e, por conseguinte, mãe dos filhos deste alguém.

A família burguesa necessita dessa mulher, por isso, é necessário que esta se enfeite, mas sem tanto glamour, sem tanta ostentação - posto que não se deve almejar jamais ser uma réplica de Brigitte Bardot, isto incorreria em grave erro e afetação, segundo afirma Lispector - para que assim consiga seu homem, e , finalmente, possa descansar de tanto esforço que fez para fisgá-lo, relaxar dessa beleza e dessa busca incessante pela perfeição para ser, finalmente, a mãe bondosa.

É , parece que ser o céu em terra não é tarefa das mais fáceis: É preciso inventar uma tal beleza, cuidar para que a pele esteja sempre limpa, asseada, cuidar das mãos, das unhas, dos pés e dos cabelos, inventar um jeito próprio de ser feminina para depois deixar tudo isso em nome da função mais bonita que a família burguesa já inventou que é a procriação.

Ora, qual homem encantar-se-ia por uma mulher que passasse longe dessa existência etérea, e que se assemelhasse mais a certas alegorias infernais? Nenhum, e ele tem lá suas razões: há de se buscar a perfeição na mãe dos filhos, esta deve ser a criatura mais celeste, digna do nome do marido.
Clarice estava certa em falar tanto para as mulheres, a dar tantos conselhos, alguns deles, acreditem, são bem interessantes e ainda válidos, mesmo nos dias atuais, nos quais qualquer creme hidratante resolve muita coisa.
Em nome da instituição familiar, há que se ter sempre as mais belas flores no jardim, as mais graciosas estrelas a brilhar para o deleite dos olhos masculinos.

Haja rodela de pepino, tudo em nome da família, claro.

quarta-feira, setembro 17, 2008

De onde vem a Arte?


“ Aqueles quem me repugna trabalhar são os que substituem a intuição, a sensualidade, a imaginação, por uma linguagem intelectual”


Ingmar Bergman



" Afinal, o essencial é isso: sobreviver e manter a paixão"


Pedro Almodóvar



Começo esse post com frases marcantes de dois grandes diretores de cinema os quais tenho me dado o prazer de conhecer durante estes últimos tempos. Vejamos nós o que estas frases têm em comum, o fio que as une e que nos pode ser útil.

A saber, a forma de conceber a arte dos diretores citados. Vemos que tanto para o sueco como para o espanhol, a arte deve ser algo que não se norteia a partir do intelecto.
Dito isto, penso o que seria a arte, senão composição mesma das emoções, da paixão de um diretor, de um autor, de um escritor, escultor. A arte seria delimitada , será mesmo que ainda poderia se chamar arte se fosse norteada pelo intelecto?

Segundo os dois exemplos que uso neste texto, creio que a arte é algo que prescinde da razão, posto que é arte, por si só, e por sê-la carece de explicação. Os filmes de Almodóvar são quase sempre permeados por lembranças de sua infância, repleto de personagens que fizeram ou fazem parte da história de vida pessoal do diretor.

O que quero dizer com isso não é nada inédito: A arte é sublimar, é fazer algo com aquilo que não podemos engolir. A arte deveria ser assim, imune a críticas, posto que até mesmo o criador , em algum dado momento, não dá conta de falar sobre a sua criatura, aprendeu a fazer algo com ela, o que, não necessariamente, implica saber explicar o que criou.

É tudo muito visceral, no fim das contas. Pode-se até ser dado um verniz intelectual, mas, no fundo, ao criarmos uma escultura, ao compormos uma música, ao pensarmos no argumento de um filme, tudo está vinculado a algum tipo de emaranhado interno sobre o qual não sabemos precisar começo, meio e fim, mas, uma vez estando ali, urge fazer algo com esses pequenos monstros que teimam em aparecer quando se apagam as luzes.

É isso o que Bergman faz, é este também o ofício de Almodóvar: Claro que um filme não é realizado sem o crivo intelectual; existem questões para as quais uma equipe é designada de forma que o filme possa ser enquadrado como uma produção artística, é um produto, sejamos brutos e diretos agora. E para um filme acontecer há muito o que se trabalhar.

Eu falo aqui é da idéia principal, do primeiro lampejo do gênio criador: Como surgem as idéias, como alguém vai criando uma narrativa, pensa num cenário, idealiza personagens? Isso tudo é bastante intrigante e instigador.

Tudo me parece ser uma questão de entranhas. Há os que matam, há os que comem, há os que fumam. Sobre estes pairam os gênios, grandes doutores na arte da sublimação. Sorte nossa é que também sublimamos ali da platéia, regozijamo-nos de ver todos os nossos fantasmas encenados, a alcance do olho, aquilo tudo que juramos esconder muito bem.


A arte deveria se prestar a isso, por isso, em minha opinião, o trabalho de crítica deveria muito mais pender para o lado da discussão do que do veredicto. Classificar algo que vem das entranhas dos outros em "Bom", "Excelente" , "Fraco" ou "Sofrível" é o mesmo que julgar qual seria a melhor das cores do arco-íris. Trabalho impossível, arrisco-me a dizer.


Tal como as cores,não existe uma melhor nem outra pior, tudo é uma questão de gosto ou de (des)gosto. Quando se fala em arte não necessariamente deve-se ter em mente algo esteticamente belo e agradável aos olhos curiosos e ávidos dos espectadores - sobre isso muita tinta já foi gasta, muitos livros foram escritos, não tenho a pretensão de seguir este caminho.

O que quero dizer, na minha modesta opinião, é que Arte é terrivelmente limitada quando se busca defini-la.

Não há como julgar os filmes de Almodóvar, metê-lo em categorias, acredito mesmo que o próprio não gosta de ver nada seu classificado, rotulado, tal como diz em "Conversas com Almodóvar" (2008), gosta de ser um bocado de coisas juntas, não necessariamente uma unidade, pretensamente buscada pelo cinema hollywoodiano.


Portanto, o cinema de Almodóvar é simplesmente a arte de um homem, de Pedro Almodóvar, que pôde, através desta, lidar com sua própria unicidade. Não existirá isso de seguidores de Almodóvar, posto que, até na imitação há algo que escapa à cópia fiel e caminha em direção ao sintoma , ao fantasma sempre presente naquele que visa realizar algo. De acordo com essa visão, assim, nada é um verdadeiro plágio; há sempre um fiozinho que não se sabe da onde veio, feito para distoar da réplica pura.


Do mesmo modo, não há um outro Bergman, também não haverá outro Woody Allen. Haverá outras pessoas que surgirão e que, para viver no caminho da arte, deverão aprender a tal arte de manter acesa a paixão e fazer algo único.


O segredo deve advir justamente dessa questão a qual foi tocada por Almodóvar: O negócio é sobreviver a própria vida, às injunções sociais, ao cotidiano bruto, maquinal, e deixar a arte aflorar daonde ela mais jorra: as emoções.


Apesar de o cotidiano ameaçar a Arte, não nos preocupemos: há sempre uma dor ou outra se revelando, fazendo rugas em nossas faces e tornando a existência invariavelmente insuportável, é daí que surge o desejo maior de fazer algo com ela e que será compreendido, porque, segundo Almodóvar (2008), " todo mundo sabe o que é a dor".

Através dela, na maioria das vezes, é que se faz arte. Não vamos nós nos limitar a classificar a dor que passamos ou mesmo abafá-la. Vamos fazer cinema. Que isto seja um convite.

Aos que não tem talento para tanto, que restem as palavras, os violões...



quarta-feira, setembro 10, 2008

Sobre Seinfeld e o Nada


Eis que o tema, de saída, não tem nada a ver com Psicanálise. Fato é que, para nós, ávidos deglutidores das palavras freudianas, há que se ver a tal da Metapsicologia em tudo: desenhos infantis, nuvens, quadros, músicas, e , porque não, seriados americanos.

Sim. Sei que os entusiastas da Psicanálise, indubitavelmente, prefeririam analisar Godard, Bergman, Sjorman, entre outros expoentes artísticos lá das bandas da Europa.

No entanto, cá estou eu para analisar a aclamada "série sobre o nada", porque ninguém vive só de intelecto, há que se dar lugar ao cômico, à piada para tornar a existência um pouco mais digerível, por assim dizer.

Criada pelo comediante Jerry Seinfeld e Larry David, Seinfeld tinha como argumento o despretensioso dia-a-dia de quatro amigos, todos eles na faixa etária dos 30 anos, solteiros. O discurso era vazio, feito de palavras vazias, permeado ora por ironia fina, ora pela zombeteria característica do humor dos idealizadores.

Seinfeld é uma comédia daquelas que os americanos convencionaram chamar de sitcom ou "comédia de situação". Seus episódios mostram a neurose nossa de cada dia, os pequenos chistes, as pequenas manias e rotinas das quais pouca gente gosta de falar, mas que, invariavelmente, nos cercam como se fossem oceanos e nós, pobres ilhas perdidas.

Interessante é que durante o fim da década de 60 e início da década de 70 os europeus, mais precisamente os suecos, inauguram o que denominaram de "novo cinema" cujo argumento principal de suas obras era o decadente relacionamento afetivo/amoroso de pessoas adultas, mais ou menos na faixa dos 30 anos de idade. Alguma semelhança ou mera coincidência?

Claro, como minha instrução é pouca, não vou aqui falar de cinema sueco, porém, interessante é que pelas bandas da América, vemos que o mesmo tema está presente em Seinfeld, digo até que é o motor da série: estamos sempre a par dos revéses de Jerry, Elaine , George e Kramer, sobretudo quando se fala de relacionamentos amorosos.

Desse modo, assistimos Jerry terminar um relacionamento porque a namorada insistia em comer uma ervilha de cada vez; podemos também nos lembrar de episódios em que George acaba um namoro porque não admite que sua mulher o vença em um jogo de xadrez. O mais engraçado de tudo isso: nós rimos.

Mas, por que diabos rimos? Acredito que rimos porque estamos sempre encontrando nas personagens e em suas neuroses e manias uma espécie de cumplicidade. Ao rir com Seinfeld estamos como que aquiescendo com a cabeça. Sim, somos assim, temos tantas neuroses quantas nosso vão psiquismo as admitir, porém, não as confessamos, a não ser por intermédio da risada.

Assim, vamos assistir filmes de artes, vamos comentar sobre política, religião e Ciência. Mas, e o que fazer com aquele pedacinho de alface que teima em se revelar em nossos dentes incisivos? O que fazer com a pedrinha no sapato?

Tudo o que não sabemos fazer com o que nos incomoda aparece em Seinfeld de uma maneira tão caricata, mas, ao mesmo tempo, tão verdadeira, que nos faz sorrir, sorrimos por nos familiarizar.

Não me admira que mesmo que a série tenha acabado ainda seja considerada um clássico das sitcoms.

É bem verdade que não estou aqui para defender o jeito yankee de pensar, sua cultura e afins, mas acredito que devamos tirar o chapéu para algumas das produções televisivas americanas: têm-se de tudo, em uma só noite podemos assistir a reality shows sobre moda, beleza e música, porém, sobre o nada, bem, sobre o nada, até onde eu sei, só existe Seinfeld.

É hora de pensar sobre o que seria esse "nada" o qual a série exalta: O nada seria o que nos constitui, a nossa natureza essencial, nossa estruturação. Sim, somos constituídos do nada e com o nada abraçamos a nossa vã existência. Filosofia? Não.

Durante a vida podemos adquirir bens materiais, famílias, amigos, diplomas. No entanto, o nada, o vazio estará sempre dentro de nós; até buscamos nos tratar - os mais saudáveis, os que admitem que a cota de nadinhas tem os prejudicado deveras ao longo da vida.

Quão contraditória é esta conclusão: "Por mais coisas que acumulemos durante a vida, o nada e o vazio é o que sempre vai nos acompanhar até o dia do último e merecido suspiro"? O nada, as neuroses, os tiques e as manias é o que nos dá sustância, nos dá uma existência única e me faz diferenciar João de Maria.

O nada é , de fato, o que nos faz humanos, demasiado humanos, humanos e risonhos: Assistimos a desgraça dos quatro amigos de Nova York como se estivéssemos dizendo: Faço igual, sou igual.

É, a vida é isso: uma sucessão de sitcoms que vamos assistindo - como platéia e nas quais atuamos como protagonistas, ora de forma trágica, ora pendendo pro cômico, mas, ainda assim, comédia. Ainda bem.

Àqueles que não gostam de rir recomendo Godard, ou cinema sueco.

domingo, agosto 31, 2008

No encalço de si mesmo - "Into the Wild"



Um jovem em busca de si mesmo. Essa poderia ser uma boa definição para o filme "Into the Wild", roteiro e direção de Sean Penn. Bem. Em um determinado momento de sua vida, um jovem insatisfeito com sua existência tediosa resolve pôr um basta em tudo que vivia, inclusive sua vida abastada de pequeno burguês para sair vagando pelo mundo, como um "super vagabundo" (Supertramp, que adota como sobrenome).

Seu objetivo de vida: desvencilhar-se do materialismo, da vida de faz-de-contas, para ir rumo ao Alasca.

A jornada, como se poderia pensar inicialmente, não pode ser considerada uma "viagem", um simples "passeio": trata-se da história de um jovem que busca bravamente conhecer-se, viver a vida no que nela existe de mais bruto, institivo, talvez tudo de que a redoma familiar lhe protegeu.

Não vou falar aqui como termina o filme, tampouco falarei da fotografia, muito menos falarei do brilhantismo e da técnica de interpretação dos atores. Falarei do que presumo saber falar, de Psicologia e de tudo que o filme fez ebulir em mim para que eu pudesse estar aqui falando, neste momento.

Durante o filme, o espectador começa a rever certos valores, tais como "felicidade" "união" "família", "moralidade", "bem", conceitos estes que, se formos analisar aqui, precisaremos de muito tempo e certamente descamparíamos para uma discussão filosófica.

O que é felicidade? Segundo Chris, ou "Supertramp" (personagem principal do filme), a felicidade só pode ser real se compartilhada.

Eu fico cá comigo pensando: Certo, a felicidade pode ser, tanto um par de botas (isto está em um conto de Machado de Assis chamado "O Último capítulo" , vale a pena) , como pode ser um pote repleto de brigadeiro, como pode ser um filho, um casamento.

Fato é que felicidade para mim é um conjunto de muitas coisas que só dizem respeito a mim, o mesmo acontece com o "amor", conceito que nem me atrevo explicar, visto a complexidade da temática. Não quero falar disso.

A felicidade, para mim, pode ser simplesmente estar em paz comigo mesma e ainda assim, não ter com quem compartilhar esse sentimento. Se formos pelos lados da Psicanálise saberemos que não existe nada em nosso aparelho psíquico capaz de abarcar o que a humanidade costumou designar com este nome.

Eu acredito que existem momentos em que é necessário largar os livros, largar a aparência, seja ela qual for, e viver. Em certas ocasiões o que o ser humano quer é carinho e este não está disponível em nenhum volume de nenhum livro, não está nas enciclopédias, não se aprende na escola e também não se ensina na universidade.

Dito isto, cabe sim, fazer uma jornada para dentro de si mesmo, se perguntar o que realmente importa, para você, você, um ser humano único constituído de uma vivência única, com sua cultura, que nasceu na família que é apenas sua, que tem os irmãos que ninguém mais tem e os pais que ninguém mais tem (visto que até nossos irmãos têm pais diferentes dos nossos, simbolicamente falando).

Fato é que poucas pessoas procuram o seu Alasca. Estamos tão imersos na pequenez do dia-dia, tão arraigados a nossa cultura, ao que os nossos pais convencionaram como sendo o principal ponto pelo qual devemos nos nortear que me pergunto: Aonde está o espaço para viver sem bússulas? Será que procuramos? Viver sem bússulas, uma vida e uma existência constituída por cada gene nosso, por cada fio de cabelo de nosso corpo, por todos os livros que lemos, pelas músicas que ouvimos, pelas pessoas que amamos. Isso deve ser o real sentido da vida: buscar-se, permitir-se, perder-se para buscar-se novamente.

O problema é que quando rumamos para o Alasca interno estamos saindo da posição confortável que ocupamos debaixo da asa do Estado, da Moral, da Lei e da família. Para crescer é necessário romper limites, ultrapassar o teto que muitas vezes é baixo demais para nossas cabeças que teimam em apontar para um ponto mais alto.

Inevitável se torna, nesse processo de crescimento, nos depararmos com constantes quedas, desprendimentos, arranhões e rasteiras. A vida, alguém já o disse, é uma questão de sobrevivência, é estar sempre preparado para o próximo golpe. Negativista? Realista.

Com isso, entendam, não quero dizer que viveremos sempre com uma atitude defensiva diante de tudo e todos. Não. Acredito ser necessário dar sorrisos, recebê-los também, dar amor e não esperar muito em troca, hoje algúem me disse que quando se é mais velho nota-se que o mais importante é amar do que ser amado ( ilusão narcisista pela qual vivemos boa parte da vida a procurar).

Não existe uma espécie de "manual de como se viver bem", um tipo de cartilha que podemos ler e que se adequará a nossas existências - é nisso, a meu ver, que derruba a maioria dos argumentos dos chamados 'livros de auto-ajuda' - Ninguém pode ensinar ninguém a viver, no máximo você pode absorver ensinamentos de pessoas mais experientes para formar a sua própria concepção de existência.

Para viver - o que até hoje entendi como vida, você pode entender uma coisa completamente diferente do que eu entendo - é preciso equilíbrio para conseguir manter-se de pé mesmo quando zonzo de um soco que levou, é necessário escapar de rasteiras que, eventualmente, você pode evitar, se for esperto. Para viver é preciso paciência e desprendimento, para entendermos que a morte há de vir e a vida, por si só, é finitude.

Buscar o norte que é apenas o meu norte, constituído dos pedacinhos de cultura, de amor e de esperança que só eu usei no mosaico de mim mesmo que construo e reconstruo a cada passo que dou, a cada dia que vivo. Compartilhar e saber apreender o que de melhor o outro tem, e entender que o mal que fulano me faz pode, muitas vezes, atingi-lo muito mais do que a mim mesmo, seu alvo em potencial.

Viver, no fim das contas, não é nada fácil, é complicado, e cada dia torna-se uma luta constante diante da tentadora opção de simplesmente desistir.

Virar vagabundo, na acepção real do termo, foi para Chris o ponto de chegada e o ponto de partida de sua vida. Outros casam, outros escrevem, outros matam, outros se matam.

Viver não é nada fácil, implica muito equilíbrio e mãos extremamente ágeis, para que o choro - que invariavelmente vem- seja enxuto de maneira rápida, tão rápida a ponto de não nos marcar a face e a alma eternamente.

Anatomicamente diria, viver implica mãos ágeis, pernas fortes para suportar as rasteiras, jogo de cintura para conviver com os outros - posto que homem nenhum é ilha - e olhos, mas olhos muito atentos para poder, um dia, enxergar o Alasca, aquele de dentro de nós.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Os planetas não falam


"Os planetas não falam"


Jacques Lacan (Seminário livro 2)


À primeira vista eu achei a frase acima poética, apenas. À segunda, intrigante, à terceira, desafiadora, à quarta, decididamente parei de ver e me pus a escrever. Por quê? Porque todas essas olhadelas me fizeram entender que há muito mais que se possa dizer nessa frase que é poética, intrigante e desafiadora, por isso, mãos à obra.

Claro que retirada do contexto em que o autor a menciona fica um tanto complicado para nós - meros mortais que não temos nem a classe de Lacan e nem a didática de Freud - entendermos que a frase não tem nada de engraçadinha , ou reducionista, vá lá. Para dar uma situada, a frase é desdobrada ao longo do texto "Introdução ao Grande Outro" e anunciada anteriomente, como de costume, em outro lugar.

Parece que Lacan tinha essa mania de sair com uma frase dessas e encerrar uma palestra. Acredito que deveria ser decepcionante para os ouvintes ver que, ao término de uma conferência, mais dúvida se produz e agora, deparar-se-iam com a falta e com a espera até o próximo encontro.

Eu digo que a frase me intrigou bastante. Ele fala que os planetas não falam e, por isso nos dintingue - nós, em nosso lugar de sujeitos assujeitados pelo desejo do Outro - destes. Em meio a vários entremeamentos, cortes e reviravoltas, Lacan nos diz que o objetivo de uma análise deveria ser tornar um sujeito o mais circular possível, e este circular, segundo o autor, está relacionado com a existência desses seres planetários, às vezes no texto situado como "estrelas". É isso. Os planetas e as estrelas não falam e tem existência circular, estão ali, sao redondos e feitos para brilhar, para estarem acima de nós e sabemos que de lá do alto nao sairão. Parece uma existência plena, pacífica e possível, posto que planetas não falam, seja para reivindicar uma boca, seja para regozijar-se do lugar que ocupam acima das cabeças humanas.

O certo é que não falam, e portanto, não reclamam. Já os sujeitos , quanta diferença! Esses sempre guiados por um desejo que existe aonde eles nem mesmo sabem existir desejo, estão sempre aos pedaços, remendados e eternamente buscando "num-sei-qual-cola", seja no consolo-desconsolo da análise, seja no colo das sublimações ou no destempero da passagem ao ato (melhor dizendo, em palavras mais certeiras, no chilique).

É. Parece que até aqui podemos pensar que talvez fosse melhor que fóssemos não Maria, nem João, mas Urano ou Saturno e nos satisfizesse o fato de sermos circulares, de brilharem e assumirem sei lá qual função que eles têm e que tanto deve intrigar os homens da magnânima Ciência. Eu não sei, tenho cá comigo minhas dúvidas se preferia ser um ser circular ou se prefiro estar nesse eterno desconsolo de poder falar, de ser barrado pelo muro da linguagem e, por isso, mesmo, existir. Existo?

É mais uma questão lacaniana. Aonde existimos? Certamente moramos no lugar que não pensamos em morar, Falamos a partir de um lugar, a saber o desejo do Outro - e respondemos a partir deste. A que conclusão podemos chegar? A muitas, podemos, de saída, responder.

A mim, uma delas veio à mente: Se falamos de um lugar que nos é dado pelo Outro, respondemos deste e, isso deve ser a existência, porém, falamos.

Aí é que está o ponto em que sacaneamos a física de Newton e nos aproximamos da loucura: Nós falamos e aí está a dupla-face da linguagem: morte e vida: A linguagem nos dá o aparato necessário para criarmos laço social, no entanto, ela nos empurra abismo adentro, abismo de quê? De nós mesmos, da nossa falta, do nosso vazio e do nosso inevitável assujeitamento ao desejo do Outro , disto não fugimos.

Estamos como que presos a um discurso de não-suficiência - porque somos mesmo insuficientes - e por isso estamos barrados pela linguagem e denunciamos essa barreira pela nossa boca. Blablablá, falamos, falamos, e o que dizemos, mesmo quando a boca cala, é que precisamos e amamos esse Outro imensamente, com toda a nossa força. Se planeta fôssemos , arrisco a dizer, uma vez que seríamos desprovidos da boca, daríamos um jeito de apenas brilhar em nome do Outro,brilhar para o Outro, este nunca condizente com o outro minúsculo, tão fracos como nós.


No fim, chegamos ao nada: continuamos na mesma galáxia, a procura de outros Outros, à procura do desejo que ninguém sabe aonde de certo se esconde. Chego a conclusão que a natureza é bastante sábia, posto que, se não nos igualou aos planetas fazendo de nós seres falantes, dando-nos a herança maldita e ao mesmo tempo bendita da boca, foi prudente dando-nos apenas uma.

Nossa sorte é que analista tem dois ouvidos.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Uma tarde na biblioteca






Já que já falei de bares, e de sala de aula, parece interessante agora mudar de ambiente e falar de um lugar bastante particular e que sempre me inspirou bastante, seja pelo lado da intelectualidade, seja pela curiosidade , esta que sempre foi amiga de todas as horas. Existe algo mais inspirador do que uma biblioteca?


É o que vamos descobrir, porém, de saída, digo que a mim, não sei a vocês, não os conheço para dizer que este ambiente é-lhes inspirador, mas, o que posso dizer é que a mim inspira e suscita questões e questões as quais não posso responder ao buscar em uma estante qualquer algum livro empoeirado, as questões que me ocorrem não são tão elaboradas, mas acredito fazerem parte da curiosa natureza humana. Vejamos:


Deixo claro que minhas incursões às bibliotecas se restringem ao ambiente acadêmico. Uma curiosidade que, de cara, me chamou atenção: O número de pessoas ditas "alternativas" amontoadas em suas proximidades. Mais particularmente falando, me pergunto: Por que diabos se aglomeram tipos esquisitos, aparentemente avessos à assepsia e/ou a qualquer noção de higiene pessoal e notadamente pertencentes a uma ordem social diversa da qual podemos qualificar como tradicionalista?

Esse me parece ser o maior mistério que circunda o ambiente da biblioteca das universidades federais: Por acaso , para pensar, as pessoas, invariavelmente, devem abandonar hábitos higiênicos e cuidados com a apresentação pessoal? Será que, para pensar, para ler Kant, Nietzsche ou Rogers alguém deve abdicar dos banhos?

Parece que, de acordo com algumas mentalidades estudantis das universidades federais, quanto mais sujo se for, mais leitura a criatura possuirá.

Com isso, cabe questionar: Serei mais inteligente, culto e engajado socialmente se deixar, de uma vez por todas, de cultivar hábitos saudáveis como, por exemplo, tomar banho, barbear-se, cortar e lavar os cabelos?

Sobre isso, não sei o que dizer, posso dizer, pela minha experiência, que não li Schopenhauer, não li Nietzsche, porém, continuo tomando banho e penteando o cabelo. Caso exista no prólogo de alguma obra dos autores citados alguma menção quanto à necessidade de nutrir um visual desleixado, favor me informem os engajados - se houver, não me darei ao trabalho sequer de ler as orelhas dos livros em favor da assepsia das minhas.

Esse fato sempre me intrigou. Sejam os líderes dos movimentos estudantis, sejam alguns frequentadores da biblioteca, sejam nos encontros de poesia ou de cinema alternativo: O que essas pessoas tem contra o fato de se vestir bem, de causar uma boa impressão, de estar asseado?

Não raramente, quando me deparo com neo-hippies, seguidores melancólicos de Raul Seixas e órfãos de Bob Marley nas portas da biblioteca da Univerdade Federal de Alagoas, vêm-me à mente a imagem de Karl Marx com uma escopeta na mão, dizendo: "- Malamanhados do mundo, uni-vos!"É impossível não pensar nisso ao se deparar com a legião de pseudo-revolucionários que teimam em velar um defunto que já virou pó, insistem num socialismo que, senão é digno de ser mencionado como útopico, enquadra-se mais num socialismo alucinatório: Não existe mais justamente por não ter dado certo, e não será agora, no auge do capitalismo e no ápice da globalização que meia dúzia de gatos pingados irão ressuscitá-lo. Entenderam? Desistam, acabou por um motivo e ainda bem, não fosse isso, viveríamos em uma ilha - Cuba?

Engraçado é perceber que todo o ambiente que se forma em torno da biblioteca faz dela um lugar propício para o alastramento dessas figuras de origem e hábitos higiênicos duvidosos: Mesas de Xadrez, por que, em algum lugar, também deve ter sido convencionado que, aquele que joga xadrez é, definitivamente, mais inteligente do que aquele que se dedica ao pingue-pongue e/ou à sinuca ( para estes, existe o famoso "Under the bridge", bar sombrio próximo à Ufal que abriga certos estudantes que não lêem, obviamente, na visão, dos que na biblioteca estão).

Existem mesas de xadrez, e certamente, sentados a ela ver-se-ão estudantes com cara de compenetrados, bastante sisudos e avessos à qualquer tipo de comunicação com seres humanos os quais possam julgar como inferiores. Silêncio deve ser preservado. Também se faz essa relação: quanto mais silencioso se for, mais inteligente se é, portanto, mais credenciado você está a fazer parte do seleto grupo que se encontra na biblioteca.

O que são, também, aqueles estudantes da área de Humanas? Será que eu perdi alguma coisa na minha formação, não sei, me pergunto se faltei muitas aulas, justamente aquelas em que deve ter sido distribuido algum estatuto sobre como comportam-se os estudantes da área de Humanas, algum manual, livreto qualquer que me falasse sobre a importância de ter lido "O Banquete", de saber quem é Nietzsche e Aristóteles?

Não sei, gostaria de saber aonde encontrar tal documento de importância inegável na vida de sociólogos, psicólogos, jornalistas e afins.

Gostaria de saber, também, se o fato de eu utilizar um jaleco faz de mim superior à grande maioria das pessoas dispostas neste ambiente tão amigável que é a biblioteca da universidade federal. Não raramente vejo criaturas da chamada "área da saúde" adentrar ao recinto utilizando, além da impáfia usual, um jaleco impecavelmente branco, porém , não se assustem com a quantidade de bactérias e fungos ali escondidos, como que espreitando e acompanhando o estudante que, avidamente, se locomove por entre os corredores buscando livros sobre Citologia/Patologia/Hemorragias e/ou afins.

Quando me deparo com essas criaturas, fico pensando na competição que deve haver entre as bactérias do jaleco do estudante orgulhoso de seu curso e as traças e outras tantas bactérias presentes em cada livro que por ele é manuseado para ver quem contamina mais.

Por que será que as pessoas não entendem que o jaleco é feito, justamente, para evitar contaminações e não atrai-las. Ah, eu acho mesmo que a questão do ego inflado supera tudo isso, se eu posso aparecer e fazer cena, posto que , tomo banho e não li Nietzsche, vou vestir o meu jaleco e dizer que sou doutor - mesmo que seja apenas aprendiz de nutricionista, enfermeiro e/ou afins!


Enfim, poderia passar horas e horas falando sobre as tantas inspirações que uma tarde na biblioteca da Ufal me trariam. Daria pano pra manga, páginas e páginas, capítulos , de quem sabe, um livro, a ser disposto nas estantes de Psicologia? Assepsia? Sociologia? Não sei, não li o suficiente para ser uma autora de nome, além disso, sou muito limpinha para ser do grupo dos alternativos.

A pergunta que não quer calar: Faço ou não faço dread no cabelo?