domingo, abril 05, 2009

O artista é o bode expiatório?



" Se a perda da individualidade é de qualquer modo imposta ao homem moderno, o artista oferece uma vingança e a ocasião de se encontrar. Ao mesmo tempo em que ele se dissolve no mundo, em que ele se funde no coletivo, o artista perde sua singularidade, seu poder expressivo. ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmo e de atingirem o singular estado de arte sem arte"


Lygia Clark


É, é bem verdade, o mesmo que Lygia disse acima já foi dito por Foucault, já foi dito por Lacan, já foi dito até por Freud, se aqui pudermos dar um toque generalizador e não nos apegarmos à total sincronia das palavras. Tudo isto foi dito antes por outras pessoas que não Lygia, sendo que de outra forma, com outras palavras, mas o que nos interessa aqui é o sentido geral: O artista é o bode expiatório, isso, com essas palavras, quem diz sou eu.


Se não quisermos navegar por mares longínquos e nem desejamos ir muito além do Atlântico, podemos notar o caráter de susto que toda arte visa evocar. Isso também já disseram, mas digo também: Nos assustamos com um quadro, com a perfeição das formas ali esboçadas, nos assustamos com um filme, nos assustamos, indiscutivelmente, com um poema. E de onde vem este susto? Por quê me assusto?

De acordo com Sueli Rolnik e tantos outros teóricos da Esquizoanálise, todos nós possuimos um corpo vibrátil, feixe de possibilidades por si só, e possibilidades estas sempre indefinidas. Alguém também já disse isso, mesmo sem ser do metiê da esquizoanálise. Freud já o disse, em suas próprias linhas.


Nos assustamos porque possuimos um corpo que vibra, que pulsa a todo momento. No pulsar das nossas vísceras habita o corpo-bicho do qual Sueli tanto fala, e esse corpo-bicho, semi-desperto, semi-adormecido é que vai ser convocado a aparecer quando estamos maravilhados com uma obra de arte, seja esta qualquer arte, generalizo aqui.


Nos assustamos porque a arte, vez em quando nos relembra que possuimos um corpo que reage e age , que vive ali, aonde tantas vezes duvidamos que viva, um corpo que dá sinal , para muitos, somente quando adoece. Alguém também já disse isso, aposto que foi o pessoal da Psicossomática.


Uma coisa aqui que não sei se já disseram é essa coisa de artista e bode expiatório. Acredito que se se tratasse aqui de um texto científico, artigo, resenha ou coisa que o valha, eu estaria imensamente disposta a traçar uma espécie de paralelo entre a figura do bode expiatório e a do artista. Motivos tenho de sobra, eis alguns.


1) O primeiro deles é que todo artista se expõe, da forma que pode e sabe, na concepção de sua obra. Ou seja, é um corpo vibrátil falando, por vezes febril, por vezes em transe, que concebe, que golpeia uma tela, por exemplo, com suas pinceladas. Tudo isso lembra movimento, corpo, pulsar. Ali está, numa tela cheia, o corpo vibrátil do artista, que se entrega, numa mistura de narcisismo com sublimação aos olhos alheios, à crítica alheia.

Presumo mesmo que o momento em que uma tela é cheia e maculada pelas mais variadas tintas, esvazia-se o criador, agora é o vazio, a calmaria, depois do torpor.


2) Todo esse esvaziamento parece dar margem ao preenchimento de outro alguém, que certamente vai lucrar algo com o vazio do artista. O que seria esse lucro? De que moeda estamos falando? Estamos falando de angústia? Eu apostaria, mas se não quiser usar este termo eu poderia falar de desassossego. Desassossego, vá lá, este termo é-nos útil uma vez que nos faz lembrar de tudo que irrompe com força após a calmaria. Desassogo e desencontro, ou , se quisermos ir mais longe, encontro com o desespero, com o Real (lacanianamente falando) ou simplesmente, encontro com a efemeridade e com a incompletude. O artista , ao se esvaziar, propõe e dá início ao ciclo de esvaziamento e preenchimento, entre o fluxo de vibrações, podemos aqui tentar inovar , entre artista/espectador.


Ora, esses são apenas alguns dos motivos. Como disse anteriormente Lygia, como já o disse também Foucault, fico com a idéia de que alguém tem que perder, tem que lançar-se a esse coletivo, tem que se esvaziar para que o ciclo do desassossego dê início. Eu, artista, esvaziado de mim, ofereço a outrem o que me faz no momento, vibrar, ofereço isto em forma de tela, de filme, de escultura, de o que quer que seja, ofereço o que em mim já não se encontra, para se encontrar em outro, que , certamente se assustará com o que viu/sentiu/tocou/vibrou.

Ao chegar a estas conclusões, já não sei mais se me apiedo do artista ou se o louvo; sem ele talvez não conhecêssemos metade do que somos, talvez nem nos reconhecêssemos. O artista, alguém já disse, é um fingidor. Finge a dor? Ou sente-a até seus próprios limites, visando um pouco de compaixão daquele que a contempla?


Triste fim. Eis que já nem sei responder as questões as quais não param de brotar. Talvez não me contentasse com respostas prontas ou baseadas em qualquer teoria. Talvez, mas o que importa e aonde quero chegar é exatamente no ponto de partida, no ponto de interrogação. E porquê? Por que a interrogação que franze meu cenho e que me revira os olhos, me faz pensar e repensar, "matutar" é a mesma que produz o desassossego, é a mesma que vai me fazer buscar, incessamentemente, uma resposta que há - e queiramos nós que assim sempre seja - de ser sempre desconhecida.


Solução? Não há, se houver direi que é temporária, porque uma vez mais o corpo-bicho há de se reerguer, grunhir, pedir comida e nos deixar assim, sem eira nem beira, em busca de algo que nem sabemos o que é. Aí, então, nos resta é sublimar - na melhor das hipóteses, sabemos que existem tantas outras menos louváveis.


Aí, então, nos resta deixar o corpo pulsar, o bicho despertar ao perceber que eu não sou o único a mais indagar. E não é que aquela obra mexeu comigo?E não é que é bem assim que sinto ? É , por essas e outras, continuo defendendo o árduo papel do artista como bode expiatório, como primeiro corpo a dar voz e vez ao sentir o desassossego, esse que é tão coletivo, que habita em todos nós mas que quase nunca sabemos descrever.


E viva a arte, glória ao artista!

segunda-feira, março 23, 2009

Sobre botas e calos


Para os leitores que apelidam-me negativista ou os mais polidos que simplesmente chamam-me realista, eis uma crônica pensada e produzida durante arroubos de positivismo, mas, acautela-vos, arroubos e só arroubos, pois não há alegria, felicidade ou qualquer palavra e sentimento risonho que viva eternamente, toda felicidade pressupõe um prazo de validade e isto é que precisamos aceitar.

Em seu conto “O último Capítulo”, Machado de Assis nos fala sobre a decisão de um homem em seus sessenta e poucos anos de se suicidar após concluir , lucidamente, que a sua vida fora uma sucessão de malogros e desventuras. O leitor sempre atento há de me perguntar agora: O que há de positivo numa história tão horrenda?

A caso agora a cronista deseja incitar a prática do suicídio?Respondo aqui do banco de ré que, o que inspira esta crônica é exatamente a percepção e o conceito de vida que a personagem do conto tem, conclui ele que, a felicidade é um par de botas, e, como último desejo, manda distribui-la, como herança, a todos habitantes da sua cidade.

A personagem nos ensina que são nas coisas miúdas da vida que o homem encontra alguma pontinha de felicidade.Pois bem, pensei então com meus botões sobre estas tais botas. Andarão nelas mesmo a felicidade de um homem? Como estamos já nos pés da questão, atrevo-me a conversar com o inconsciente de Machado e retrucar que, se são as botas a felicidade barata, a saudade as memórias que todos carregam consigo provavelmente serão os calos deixados por calçá-las.

Não se espante comedido leitor, se as metáforas de indumentária não lhe caem bem, serei mais direta. Mesmo sabendo nós que não há felicidade que perdure, há dentro de cada um uma compensação para esta situação, para os amantes da ciência; a memória, para os poetas e boêmios;a saudade.

Dois substantivos que mais parecem se completar e de tanto o fazerem, se confundem até.Não existe presente sem ter sido formado por pequenas moléculas do passado. Podemos ter evoluído em nosso percurso pela vida a fora, mas sempre detemos, dentro de nós - mais uma vez, o cientista defende que dentro do cérebro e o poeta insiste que dentro do peito. Bem, em algum lugar dentro de nós (visto que não quero tomar partido nem de um nem de outro) moram as lembranças do passado que reverberam no nosso presente e construirão nosso futuro.

Temo pelo avanço da ciência que hoje diz ter meios para suprimir memórias traumatizantes do cérebro humano. Mas que alívio! Já pensaste? Quero esquecer aquele amor que quase me levou a desgraça total, esquecer, apagar ou simplesmente apertar a tecla delete e Záz! Com uma só pílula e num só gole tudo evanesce, some sem deixar vestígios.

Certamente haveria quem lucrasse com isso, as pessoas, finalmente libertas do passado e do gosto amargo das memórias tristes, viveriam suas vidas e prosseguiriam, seriam produtivas afinal. Às vezes me preocupo com a banalidade que uma idéia com estes poderes acalçariam no futuro. Sim, o futuro a que todos nos aspiramos, numa simples cápsula; poderíamos esquecer nossos traumas, ignorar e perdoar os mal-feitores que cruzaram nosso caminho.

Para os que leram as memórias de um senhor chamado Brás Cubas, do mesmo autor previamente referido, seria uma moderna versão do Emplasto Brás Cubas – alívio para a dor da alma. Um frankstein futurista ou uma epopéia hollywoodiana? Escolha a versão que mais lhe agradar.

Eu, cá com meus botões e minhas botas temporárias ainda acho que os calos são-nos muito úteis, nos fazem crescer e encarar a vida no espelho, encarar nossas rugas é aceitar o passado incondicionalmente.

Passado pura e simplesmente, pois não dormimos de botas, um dia vamos descalça-las (e vai-se a felicidade!) e de lembrança delas teremos apenas os calos – feios e cruéis a nos encarar com seus olhos esbugalhados.Agora me veio o por quê de tantas cirurgias plásticas e corretoras.

O médico aperta o delete no texto da nossa auto-estima, mudamos um nariz que não sabemos por que Diabos Deus nos deu, aumentamos ou diminuímos os seios, os lábios...Enfim, é assim que lidamos com o passado. Enquanto estávamos mexendo apenas na aparência eu estava, confesso-te secretamente, mais tranqüila, mas agora querem mexer nas nossas memórias também. Sem passado não existiria razão para existir saudade a não ser nos dicionários.

Sim, a saudade seria lá trancafiada, reduzida ao status de mera palavra e exposta a ácaros e poeira. É triste ver a decadência de um sentimento que se reduz a sua existência morfológica e gramatical. Parece que os médicos, em um futuro não muito distante, vestidos em seus alvos jalecos , empunhando seus gélidos bisturis em uma mão e empurrando-nos pílulas com a outra, bradarão: "Vai-te passado!Vão-te lembranças! A partir de hoje este paciente viverá só do presente e dele nascerá seu futuro!"Exagero?

Talvez esta cena jamais aconteça, talvez eu e meu leitor – sim, incluo sua imaginação como minha cúmplice - estejamos devaneando, mas a simples idéia que um dia possam nos tirar as lembranças me faz pensar seriamente se estamos realmente evoluindo.

Ainda preciso de meus calos, deixem-me cá com minhas feridas porque não quero me transformar numa página em branco, preciso de meus capítulos todos, não excluo nenhum, nem lhes dou menor ou maior importância. E você?O que faria de sua autobiografia?

segunda-feira, março 16, 2009

Das voltas que o mundo dá






Ah, as voltas que o mundo dá

não são poucas, me admiro se alguém for contar

eu, de cabo a rabo, já tentei e não consegui somar

só posso lhes dizer que são várias as voltas que o mundo dá

não são voltas de ponteiro,

não são voltas a cirandar

são muitas mesmo as voltas que o mundo dá

se disserem milhões quem as contar

eu jamais vou desconfiar

é que são muitas de verdade, as voltas que o mundo dá

hoje posso até inventar,

dizer, trinta, dizer milhar

mas é que são grandes também, as voltas que o mundo dá

eu nem mesmo desafio quem se puser a investigar

quantas são enfim as voltas que o mundo dá

eu hoje posso até tentar calcular

as dezenas de voltas que o mundo dá

mas acontece que não me disponho

a mais informar quantas são

as voltas que o mundo dá

pois agora tenho a ti a meu braço guiar

por entre os hemisférios e oceanos

quero mais é contigo girar

por essas voltas que o mundo dá





*Somente quem esteve no inferno

pode entender a alegria de respirar ares etéreos

sábado, fevereiro 28, 2009

Do amor


Palavra de quatro letras formada por duas vogais, duas consoantes e geralmente duas pessoas imensamente apaixonadas.

Amor é palavra de quatro letras e quatro é número par. Um par designa dois elementos que, em conjunto, se conjugam e desconjugam sem precisar de um terceiro. Um par de números, um par de sapatos, um par de luvas, um par de amantes.

Um par de dois amantes, um par de brincos, um parceiro para conjugar, em todos os tempos, um verbo de outras quatro letras: Amar, amar é quatro, é seis, pode ser até sete ou dez, mas sempre lembrará dois e esses dois sempre serão um par.

Um par a conjugar o verbo em pretérito, futuro do presente e até imperativo. Um par para somar e dividir, um par para multiplicar em tantos outros pares quanto mais houver necessidade na natureza. Um par a formar conjuntos nunca unitários.

Amar é mais do que quatro palavras que muitos conjugam sozinhos, jurando que estão em par. Amar em par é saber contar quatro olhos ao invés de dois, amar em par é tudo menos ímpar, pois presume a presença de um segundo para que a felicidade possa assim ser dividida, gerando dividendos que na verdade só somam ao par.

Amar, verbo de quatro letras e que se conjuga melhor na falta de letra. Amar inclui duplicar a quantidade de luas e elevar à décima potência a soma total de estrelas do céu. Amar é percorrer todos os oceanos e os segundos de todos os relógios. Amar constitui-se tarefa simples para um coração puro e árdua para órgãos fisiológicos responsáveis apenas pelo bombeamento de sangue.

Amar é escutar e não apenas ouvir a coisa amada, é deparar-se e surpreender-se com cada palavra de quatro, cinco ou mais letras que sai da boca amada.

Amar é dupla, muito melhor do que ímpar. Amar é sorrir dois sorrisos, beijar uma boca, sentir quatro mãos ao invés de duas, posto que amor é coisa que só tem graça se for duplicada.

Amar é querer bem, amar é tranqüilo e não tem contra-indicações, Amar é sentir o cheiro das flores, é pensar no próximo, é viver vendo nuvens, sol, brisa e cores, somente por estar ao lado da coisa amada.

Amar é fazer parte de um espetáculo, nunca monólogo. Amar é produzir lágrimas de alegria, é abraçar sem saber porquê, é sentir-se vivo somente por estar ao lado de um outro que somado a mim faz par.

Amar é dar um sentido à existência que sempre veio morna e opaca. Amar é colorir, é desenhar e é rimar. Amar é tudo isso que sinto quando não consigo pensar, pois amar é não entender e continuar sem discernimento sobre coisa alguma que não se pareça com a coisa amada.

Amar é verbo de quatro letras que serve para falar de um substantivo de mais quatro letras que fica tão bem em duas bocas que se pertencem , que se chegam e se desejam. Amar é tudo que eu tento explicar e não sei dizer.

domingo, fevereiro 15, 2009

Da repentina fé


Acabou-se o ateísmo
Pois hoje dou graças a todos os santos
Rezo um ou dois rosários
Creio e tenho até escapulário
Ai hoje por ti faço novena
Decoro salmos
Estou que nem Madalena
Pois hoje dou graças a Deus
Jesus e a todas as Marias
pois deu-se a ventura
que para mim
apareceste um belo dia

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Das letras e dos números



Tem gente que gosta de número
Logaritmo , fatorial, expoente
Eu gosto de letra, palavra e fonema
Por que nem tenho em mente
Por que sempre foram mais belos
Os versos de um poema
Do que mesmo um pequenino problema
Por que sempre fui das letras
Porém
Será que gosto delas
Por que junto todas no papel
Para não enchê-las de saliva
E da boca não vê-las surgirem assim
tão menos belas?

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Um intrigante caso do mundo animal


Boa noite meus senhores e senhoras:
Hoje a estória que venho lhes contar não é nada muito rebuscado, também carece de uma aventura ou outra pra tornar o presente enredo mais atraente. Na verdade eu nem ia lhes contar, mas, por força do hábito e por gostar deveras de ver uma platéia como vocês, vou lhes falar de uma pata.


Uma pata. Isso mesmo, eu poderia fazer uso deste palco para lhes falar de Shakespeare, para lhes falar de um grande amor, mas eu, que poeta não sou, falarei da pata, porque os temas de natureza sempre me encantaram. Eu, no entanto, sou menos pretensioso que sonhador, por isso nem creio que esta conversa toda vá trazer algum sorriso no rosto de tão ilustres companheiros; já ensinamentos, acredito que sim, vão vendo.


Bem, vou contar, que é para não me alongar nesses entretantos e chegar vivo aos finalmentes. Vá, pintem aí em suas mentes um cenário azul marinho, cercado de cinza por todos os lados. Grandes prédios, grandes salas, coloque também umas quatro ou cinco paredes e dentro disso tudo pinte uma pata.


Uma pata, sabe, aquela que é esposa do pato por vocação ou por imperativo da natureza mesmo, só que esta pata, como bem vocês irão saber, sempre esteve muito mais pra leão do que para si mesma. Por quê? Ora, agora vejo um certo pingo de curiosidade nos olhos de alguns de vocês desta tão ilustre platéia.


A pata aprendeu a ser leão, não se sabe por que, e também ninguém sabe como começou. A verdade é que se via no espelho em todas as suas penas e bicos, achava-se sem graça e perdida, no entanto, forte e ágil. Era dada a escrever umas linhas tortas, posto que desde muito jovem aprendeu a equilibrar entre os pequeninos dedos das patinhas amareladas um lápis e pelejou muitíssimas vezes com uma borracha até conseguir usá-la. A pata aprendeu a escrever, passou a viver entre folhas de papel muito mais do que vivia em vida, essa que cada um de nós possui o direito de tê-la e dar-lhe bom encaminhamento.


Gostava de poesias e de escritos técnicos que falassem de todas as patologias existentes no mundo animal; se houvesse um resfriado ao seu lado, punha os óculos da razão na cara branca, revestia-se toda de intelecto e falava a origem da praga, fosse esta qual fosse. Quase sempre o diagnóstico era de confiança, o que enchia de respeito o nome da tal pata.


O problema, meus senhores, não é quando a pata usa seus óculos e brinca de doutora, diagnostica com precisão qualquer espirro ou soluço. O problema era mesmo de ordem da natureza. Ora, uma pata que se achava leão? Sim, vão vendo o problema todo se desenrolar, e depois, somente depois de finda a estória, me digam vocês o que acham e o que entendem, agora se faz essencial o acompanhamento minucioso do relato, por isso encherei de detalhes e de exageros, que é pra salpicar pimenta no enredo todo que eu mesmo acho insosso.


Era assim: aonde tinha penas via juba, aonde tinha delicadeza teimava em expor uma força quase bruta, uma coisa de altivez. Sempre admirou os leões por achá-los fortes e imbatíveis; reis da natureza, era assim que toda a classe leonina era classificada. Essa majestade, como vocês podem perceber, exercia peculiar fascínio em todo ser daquela patinha esperta. Por isso então não raramente penteava-se como se tivesse uma juba imaginária, como se já trouxesse em si uma altivez meticulosamente pensada, tudo para ser leão.


Ah! Mas quão sábia é a natureza animal, caros amigos, não há isso de nascermos uma coisa e virarmos outra, já disse algum homem famoso, disto eu tenho certeza, mesmo sem lembrar da autoria neste instante. Se uma criatura nasce pato, muito provavelmente morrerá pato e viverá a vida a ser pato, em sua essência. Portanto, a possibilidade da nossa patinha transformar-se, por força de hábito ou de vontade, em espécie qualquer de leão é alguma coisa muito remota, eu diria mesmo que impossível, mesmo sem ser homem de ciência.


Pena, uma pena, mas a nossa pata não sabia desse empecilho; acreditava tudo poder desde que se empenhasse na causa; pensava que por ter dominado o mundo das patologias e das homeopatias seria alguém mais inteligente e, deste modo, poderia viver a vida que quisesse, fosse ela de tigre ou leão. Escolheu a de leão.


Com este intuito de falsificar a essência e também de se proteger, andava cercada de animais carnívoros muito maiores que ela; gostava dos leões brancos, queria ser um deles e geralmente era vista em companhia dos mesmos. Quem quer que a visse em reunião com a classe leonina diria que fazia parte do grupo; sabia disfarçar as penas como ninguém e o bico, o bico justificava sendo um defeito de nascença. Não sei bem se os leões de fato acreditavam, mas era o que ela costumava contar.


Os mais atentos membros desta incrível platéia perceberão que uma mentira nem sempre tem pernas muito alongadas e no caso da nossa pata eram patas muito curtas. A lei da natureza não é coisa muito justa e o menor sempre há de sair chamuscado de uma briga qualquer. Sempre. Explicarei: a pata sempre se envolvia com os corações errados; teimava em ser leão e, com este pensamento, com leões andava. Convivia com alguns, apaixonou-se duas ou três vezes, mas , como se poderia supor, penas e patas não são nada perto de garras e unhas afiadas. Ai de ti, patinha frágil!


Davam-se tragédias, mas vocês podem indagar: o que pode alguém querer com leões tão ferozes? Certamente a nossa querida pata, tão astuta para algumas coisas, não anteviu as tragédias que marcariam para sempre seu coração de ave. Foi fechando-se cada vez mais, crescendo a imaginária juba cada vez mais, esquecendo a poesia, esquecendo os sonetos de que tanto gostava antes de teimar em ser mamífero.


Muitas vezes se perdeu achando-se apenas nos compêndios médicos ou nas bulas de remédios; era seu território, nada, de fato, a fazia tão feliz como as folhas de cadernos e suas apostilas sobre infecções. Não havia ganso ou macaco que não tivesse precisado dos acertados conselhos da pata médica, mas o que conto a vocês nada tem a ver com medicina ou com a esperteza desta ave.


Deixou-se mesmo definhar entre aqueles livros e óculos, sempre a esconder as penas e o bico, sempre a fingir ser leão. Ensaiava morder, ensaiava ter garras nas patas. Não as tinha de natureza, o que não necessariamente tornava impossível o disfarce: Diversas vezes penteava as peninhas da cabeça como se juba fossem, achava-se mais atraente se altiva, pensava que se sua personalidade transparecesse fortaleza, suas fragilidades seriam para sempre ocultadas, escondidas até de si mesma.


Vejam vocês o que é uma crise de identidade: uma pata querendo ser leão. Fosse isso acontecer a um humano estaríamos aqui falando de internação, de camisa de forças, até. Mas... uma pata querendo ser leão. Certamente boa coisa não daria, pois digo a vocês que muitas unhadas levou, feriu-se umas dezenas de vezes e ferida continuou até aos poucos se desfazer da juba que teimava circundar sua face. A vida, que é a mesma para humanos ou animais, deu as suas voltas, vão ouvindo.


Tal como uma roda gigante, a vida teima em mudar de paisagem de acordo com a posição que estivermos. Uma hora é mar, noutra montanha; tudo depende mesmo é do ângulo de visão e da própria visão.


Sem querer e nem saber, a pata, entre uma unhada e outra, entre um escrito e outro foi saindo deste mundo de concreto armado em que habitava; a selva cinza que tanto a fascinava foi, aos poucos, dando lugar à natureza selvagem, com seus cheiros, árvores e fauna muito vária.


A curiosidade , se não for mãe da inteligência, certamente é parente mui próxima desta. Atentem: a pata foi andando por entre toda aquela beleza e toda aquela magnitude natural parecia atraí-la de forma única, mais até do que a selva cinza. O lago, penas outras a dançar na água, raios de sol, tudo parecia lembrar-lhe muito da própria essência e não foi outra coisa que não curiosidade que fez a nossa pata ir adentrando muito mais na própria natureza.


No campo tudo era mais belo, cheirava a poesia e lembrava muito os sonetos de autoria da mesma patinha que um dia se perdeu entre leões e patologias. Pois então, munida de uma curiosidade que sempre fez parte de sua personalidade, pôs-se a andar, em suas patinhas curtas, a explorar todo aquele ambiente que logo cedo abandonou.


Por entre flores roxas e árvores centenárias passeou, comeu frutos de cor vermelha e amarela e por fim parou às margens do belo lago. Tal como o grego Narciso, viu surgir nas águas sua cara branca, seu bico amarelado e suas penas um tanto quanto malcuidadas. Pela primeira vez enxergou-se pata, via-se limpidamente e a própria imagem parecia fazê-la entender mais sobre si, sobre seu mundo , muito mais do que qualquer livro ou receita médica.


Foi quando lhe apareceu um pato. Igualzinho. Era mesmo igualzinho a ela aquele pato, em seu bico fino, em suas penas malcuidadas, até nas patas curtas. Não mentirei a vocês se não disser que também fazia uma espécie de som como “quên-quên” ao mover o corpo para lá e para cá. Se algo tinham de diferente aquelas duas aves eram os olhos. Ele tinha um olho grande, como se fosse gavião, um olho que transbordava alma por todos os cantos.


Entre quên-quêns e bicadas deixaram- se conhecer, cantar poesias e comer outros tantos frutos, não só amarelos, não só vermelhos. A pata que vivia na redoma acinzentada e entre leões , pela primeira vez sentiu-se querida pelas penas que trazia, pelo bico que ostentava e pelos olhos que lhe enfeitavam a cara.


Lentamente a juba se desfez e sua natureza de ave fez-se aparecer. Eu acho que foi por causa do pato de olho de gavião que se deu toda a transformação. Outros a quem contei esta estória dizem que foi por questão de inteligência, posto que ninguém nasce pato e vira leão ; dizem que uma hora a pata cairia em si, por entre penas e alvéolos, e saber-se-ia que não há chance alguma de virar leão por gosto ou desejo.


Eu tenho para mim que nem sempre a natureza nos dota de todos os tipos de inteligência. Vejam vocês o caso da pata: tão brilhante em diagnosticar um espirro, mas tão cega por não enxergar-se como era verdadeiramente. Uma hora entenderia que não teria garras nem natureza leonina e correria para os seus, abdicando da selva cinza.


Eu acho mesmo que à nossa pata faltava um espelho, não só um espelho de água, mas um espelho outro, o espelho dos olhos do pato com jeito de gavião para fazê-la entender que pode mostrar-se em sua essência, que pode mostrar-se em sua delicadeza, posto que não é pecado e nem crime ser tão frágil. Eu tenho mesmo cá comigo a impressão que a pata ainda teima , de vez em quando em ser leão, porque, como sabem vocês, mais fácil é encontrar agulha em palheiro, chifre em cabeça de cavalo do que livrar uma criatura de uma idéia fixa. De vez em quando, eu acho, que ela tem uns arroubos de leão, quer rugir no lugar de fazer quên-quên.


No entanto, sábia é a natureza e o destino que trouxeram o pato de olho de gavião para junto da pata médica; penso que quando ela teima em rugir ele é quem, em sua poesia e seu amor, lembra-lhe de sua essência de ave e coloca um quên-quên em sua boca.


É, sagaz é mesmo a natureza que fez os leões para os leões, os tigres para os tigres e os patos para as patas. E vocês, o que acham?