segunda-feira, novembro 22, 2010

O estranho caso das toupeiras: identificação ou ignorância?



Machado de Assis já a definiu como um certo movimento de canto da boca, utilizado por algum cínico. Em geral, nós utilizamos a ironia como uma forma quase bem humorada para demonstrarmos nossas reais opiniões diante de um determinado objeto/pessoa/evento. A ironia, por si só, revela um sujeito que lança mão de linguagem oposta ao que realmente gostaria de dizer. Exemplo: "Mas está tão boa esta peça de teatro!". Ao analisar esta simples frase, podemos observar que a frase, por seu tom, exageradamente positivo quando pronunciada, revela, na verdade, a oposição com a experiência de fato vivenciada, a qual seria : "Não estou suportanto esta peça de teatro".


Muitas vezes não estamos atentos a ela, mas ironia está nas esquinas, nas margens, à espera de alguém que tenha coragem o suficiente para utilizá-la. A ironia, se uma pessoa fosse, seria elegante, porém de uma elegância nada óbvia, seria bela, mas não daquelas belezas plastificadas à moda Hollywoodiana, mas uma beleza reservada, bela, quase feia, mas, que ao de perto, poderíamos constatar todo seu esplendor.


Muitas vezes, neste mesmo blog, procuro me utilizar deste recurso estilístico para enfatizar opiniões que tenho a respeito de um determinado evento/objeto/pessoa. Como a Psicanálise bem nos explica, há desejos que não nos convém realizar, o mesmo podemos dizer de ações. Há ações que, se realizadas, provocariam consequencias desagradáveis.


Foi para criticar, sublimar uma situação difícil que escrevi "A perversão e o reino das toupeiras". Um texto inocente, banhado pela saliva da ironia, esta que, marginal que é, logo viu em mim um palco para se exibir. Poderia eu dizer que a ironia me escolheu e foi assim que pensei em sujeitos rasteiros que têm entre seus passatempos se utilizar do mérito alheio visando objetivos individuais. Em suma, as toupeiras , mesmo não enxergando muito bem, não deixam de se aproveitar das qualidades alheias.


O interessante é que, estava falando de pessoas em especial nas quais noto estas características tão "touperísticas"e que, ao fazer uso da ironia, não me é necessário aqui citar nomes, idades, profissões e ameaças, agressões verbais. O que me interessou foi usar , de fato, a ironia, para falar de algo em que acredito. Em poucas palavras: não preciso agredir ninguém, magoar ninguém, somente usar ironia e ter criatividade para imaginar um animal, por suas características particulares, semelhante a este tipo de pessoa a qual, de fato, eu gostaria de me referir. Simples assim, todos nós podemos fazer isso, e fazemos, vez por outra.

Engraçado foi que , neste mês de novembro, recebi dois comentários inesperados a respeito desse texto. Um deles , vindo provavelmente de uma toupeira, disse identificar-se. Em suas próprias palavras:"interessante , de repente me identifiquei": Toupeiras do mundo todo, uni-vos, foi isso que imaginei. Certamente meu texto atingiu esta pessoa em cheio e fê-la ver que, de fato, age e se comporta como uma toupeira, tal como a descrevi. A esta desejo que o texto sirva como aprendizado, que deixe de ser toupeira, uma vez reconhecendo-se nesta, mas, acho difícil, neste caso.


O outro comentário sobre o texto das toupeiras, recebi hoje. Alguém certamente também tocado pelo nobre caráter da toupeira aqui relacionado, resolveu romper com o silêncio, escrevendo-me palavras de baixo calão, advertendo-me, inclusive sobre o absurdo de minhas palavras diante de um mundo tão devastado, diante de tantos apelos que recebemos diariramente sobre atitudes ecologicamente corretas.


Esta pessoa considero, sem meias palavras ou uso da ironia, um imbecil ecologicamente correto. É isto. A pessoa, além de não entender o uso da ironia presente no texto, ainda me criticou, ferrenhamente, sobre o absurdo em dizer que as toupeiras deveriam estar apenas em livros de fotos, como animais extintos.


Certamente, o(a) imbecil ecologicamente correto acolhe animaizinhos em situação de risco, adota papagaios mancos e toupeiras manetas. Deve ser daqueles que usa ecobags mas não sabem a diferenciação entre ficção e realidade, e melhor, entre ironia e seriedade. Não percebe que tão ecologicamente correto como acolher animaizinhos e cuidar do planeta, é tratar o próximo com hombridade e respeito.
A esta toupeira ecologicamente correta, meus pêsames, não posso receitar e se pudesse, não haveria remédio algum, senão educação, para lhe indicar diante de tanta demonstração de ignorância. Aconselho, se conselho algum couber, que releia o texto e tente, ao menos tente, observar a ironia nas entrelinhas, e nas linhas mesmo, porque nunca a disfarcei.


Mas, caso nada disso seja o suficiente. Digo: Não, não desejo a morte, a extinção, o extermínio, o sacrifício destes animaizinhos tão meigos e doces como as toupeiras, não, o que desejo é a extinção da outra toupeira, da toupeira-sacana, que se alimenta do sangue e do suor dos outros. Identifica-se também?


Chego à conclusão que o blog não é tão inabitado assim, e se, alguém se doeu com o extermínio das toupeiras-sacanas, ou é ignorante ou faz parte deste grupo de seres humanos que insiste em utilizar atitudes-toupeiras diante das pessoas. Ignorância ou identificação? Descubra você, a mim , diante disto, só tive mais oportunidade de zombar e de usar a boa e velha ironia para falar dos comentários recebidos, não farei isso sempre, porque seria perder tempo, tempo o qual nem sempre tenho para isso, mas valeu por ter rendido mais uma oportunidade para ser irônica.


A estes, meus sinceros e devotados agradecimentos.

sábado, novembro 13, 2010

Encontros com a Poesia de Osvaldo Chaves



Era para ser apenas mais um poema, algo do qual poderia falar, me debruçando sobre o tema que tanto me interessa , o tema da interface Psicanálise-Literatura. Quando me foi feito o convite, no início deste ano, para participar da coletânea Encontros com a poesia de Osvaldo Chaves (Edições Bagaço, 2010), me senti inicialmente impactada: Como seria escrever sobre um poeta que não conheço? Como seria escrever um capítulo de livro?


De fato, isso assustava, mas confesso que, a despeito do primeiro amedrontamento, veio a curiosidade de conhecer a obra de Osvaldo Chaves, padre e poeta cearense que, infelizmente, não tem sua obra reconhecida no restante do país.


Organizado pelas professoras Jerzuí Mendes Tôrres e Maria Heloísa Melo de Morais, Encontros com a Poesia de Osvaldo Chaves, é uma coletânea que contou com a colaboração de oito críticos literários que disseram sim ao delicioso convite de se debruçarem sobre a obra Exíguas (2008), coletânea em que Chaves reune poemas com as mais variadas temáticas, escritos em diversos períodos da vida do poeta.
É interessante ressaltar que o lançamento de Encontros com a poesia de Osvaldo Chaves cumpre com a função de disseminar o conhecimento sobre a obra de um poeta tão consistente como padre Osvaldo Chaves, mas que, devido à dificuldade de publicação tão típica do nosso país, não pôde ser conhecido por outras pessoas fora do Ceará

Como participante desta iniciativa de Jerzuí e Heloísa, agradeço o convite e agradeço, especialmente, a oportunidade de ter conhecido um sítio tão singelo, tão vivo e tocante, como o Angelim. O poema Angelim Intacto, obra que me escolheu, hoje faz parte dos seletos poemas que guardo com carinho, porque algo me acrescentaram. Sobre esse algo, não sei dizer o quê, mas sei que o sítio me tocou, me escolheu e por isso, agora, também é meu.


O poema, como todo poema, não requer explicação. Mas, se alguma cabe, digo que o poeta, em Angelim Intacto, convida o leitor a conhecer o sítio de sua infância. Em sua essência de poeta, Osvaldo Chaves nos guia pela mão , por entre os cômodos, as escadas, os alpendres e os pés de jabuticaba lá do Angelim que resistiu às secas e a todas as intempéries da natureza, para permanecer vivo, intacto, na memória de poeta que, em cada estrofe, nos convida a sentir a atmosfera, os aromas, tudo que rodeia a sua infância, jamais perdida, porque transformada em arte.

Segue abaixo um trecho deste poema tão comovente, que tanto me mobilizou. O angelim, surpreendentemente, tornou-se meu, porque o senti, porque o escutei, porque o testemunhei, em minha memória, através do dom da poesia:



Nem tudo morre, muita coisa fica

Intacta:

o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contato

são a alma imortal das coisas transitórias.


Depois de morto o olfato,

É vida, na memória, o aroma das coisas

Apagada a visão,

É vida a imagem, o relevo e a cor

Morta a audição, ficam vivos os sons


Gravados

Nos microssulcos do íntimo do espírito

terça-feira, novembro 09, 2010

Meus quatro segundos com Jean-Pierre Lebrun



Se você tivesse a sua disposição 4 segundos de frente com seu ídolo, como usaria estes momentos de maneira proveitosa de modo que jamais se arrependesse destes momentos infinitos, duradouros, eternos?

Pois bem, a história seria quase essa, senão fossem os detalhes que a diferem de qualquer outra mostrada em algum programa de televisão. Tudo aconteceu no XXXIX Encontro Anual do Centro de Estudos Freudianos do Recife - CEF/Recife. O palestrante-estrela-da-vez era Jean-Pierre Lebrun, psicanalista belga, autor de O mundo sem limites, A perversão comum, O futuro do ódio, entre outros.

Lebrun é sumidade no que tange à Psicanálise contemporânea, tendo escrito em dupla com Melman O homem sem gravidade, o psicanalista belga é firme em suas considerações, simpático em sua postura e articulado no que pretende expor. Em seu curso sobre "Os estados-limite" defende que o psicanalista de hoje deve começar a considerar estes estados não como uma quarta estrutura, após as conhecidas: Neurose/Psicose/Perversão. Lebrun vai além em sua exposição, relembrando aos desavisados e aos resistentes que o inconsciente é social, que não se concebe um trabalho de humanização, de psicanálise que prescinda do entendimento das realidades sociais e, como se não bastasse, ainda faz menção a certas instituições psicanalíticas que funcionam nos moldes de instituições religiosas.

Lebrun é resoluto ao dizer que a cada novo paciente o analista se depara com a urgente necessidade de reinventar sua clínica, de atualizar o que chama de recursos de "navegação psicanalítica" para que sejamos - e aqui me coloco no lugar do psicanalista, por pura pretensão - ainda úteis nesta sociedade contemporânea.

Tudo caminhava para a perfeição. Lebrun falava diante de um público sedento de conhecimento sem pestanejar, sem beber um gole d´água, simpática e pacientemente aguardando que sua fala fosse traduzida para o bom e velho português , língua-mãe daqueles que povoavam a plateia do evento e que, por uma infelicidade, não poderiam ter acesso á Lebrun em francês.

Eu lá estava, agora chegou a hora de me situar nesta historieta: estava na primeira fila, do primeiro dia de curso, busquei com unhas e dentes agarrar-me àquela fila inaugural como se dali pudesse captar melhor o conhecimento que Lebrun fazia transbordar em meus ouvidos. Não raramente podia me dar conta do feito que era, para mim, uma psicóloga que sempre quis mesmo ser psicanalista, estar ali, diante daquele homem que parecia tudo saber: haja suposto-saber nisso tudo.

Somente em estar ali e poder dividir com Lebrun, a poucos metros de mim, a mesma cota de oxigênio já era honra o suficiente para me encher de orgulho e preencher um ano inteiro de aulas na Universidade. Acontece que , tal como nos ensina a Psicanálise, dá-se o unheimlich, o desconhecido, o estranho motivador deste pequeno relato sem pretensão: Estou eu, em minhas idas e vindas de elevador, buscando ou trazendo alguma coisa, num determinado momento em que o curso estava em seu intervalo: Tudo se dá.

Quando estou eu mais preocupada em apertar o botão certo do elevador, me deparo com o unheimlich em pessoa: aquele sujeito branco, com cara de gringo e um jeito um tanto quanto bonachão, jeito de pai ou de vô, diriam outros. Era ele: Jean-Pierre Lebrun, em carne e osso, na mesma viagem, no mesmo elevador, naqueles infinitos 4 segundos que eternizaram o dia 05 de novembro de 2010.
O que dizer em quatro segundos que traduza admiração e respeito? O que poderia eu, que não sei francês, falar àquele homem que é considerado um dos pensadores contemporâneos mais influentes da disciplina da qual venho buscando me inteirar há quase uma década?

É preciso dizer que também houvera antes deste, um outro encontro com Lebrun, também quase particular e que durou cerca de 4 segundos, agora são 8 segundos em que Lebrun se dedicara a mim ou só tivera a mim como pessoa para olhar. Os quatro primeiros aconteceram quando eu , seguindo uma fila imaginária criada por alguém igualmente sedenta, decidi pedir-lhe um autógrafo em meu exemplar de O Mal-estar na subjetivação. Mais uma vez me vi diante do obstáculo da língua: dara um dedo para poder falar , em francês: "Por favor, o senhor poderia me dar a honra de autografar este exemplar?". Somente isto, não precisava de um francês para traduzir um Seminário de Lacan, bastavam essas palavras.

Não o fiz , o máximo que pude fazer foi esboçar um gesto que universalmente pode ser compreendido como: " Escreve aqui?", passando-lhe a caneta a qual Lebrun gentilmente aceitou e, cuidadosamente tratou de entender meu nome. Pronunciou um breve: "Miriam", com todo sotaque que Deus lhe deu e rabiscou com sua letra um tanto quanto ilegível até mesmo para quem sabe francês: " A Miriam , com toda minha simpatia. Jean-Pierre Lebrun, Recife Novembro 2010" ( Claro que contei com a ajuda de uma pessoa que traduziu tanta simpatia que eu julgava ser apenas um estranho "spaghetti, tal a dificuldade no francês e no deciframento da letra).

Ok, como era Lebrun, deixei passar o que raramente perdôo: a falta do famigerado acento no primeiro "i" do meu nome, era a assinatura de Lebrun e isto equivale a um autógrafo de Freud na minha Interpretação dos Sonhos ou mesmo de John Lennon em meu Imagine. Tudo quase igual em importância para mim.

Esta foi a primeira vez que obtive um autógrafo de alguém , em outro evento fiz o que sempre odiei nos outros: pedi para que David Zimmerman tirasse uma foto comigo. Odiei, a foto ficou boa, mas me senti tão tiete que nunca mais repeti o feito e no meu álbum com celebridades psicanalíticas só consta uma foto, e será a única.

Mas voltando ao elevador, senti uma verdadeira necessidade de dizer-lhe tantas coisas, tantas que, naquele exato momento consegui fazer rapidamente uma lista mental do que poderia dizer, perguntar, questionar.

Começaria assim: "Lebrun, Lebrun!Sou sua fã, Adorei o Mundo sem limites, não conheço de fato tanto sua obra, mas me identifiquei tanto com você, com sua luta em dizer que Psicanálise também é social , com sua maneira sutil e firme de demonstrar sua relação de amor e ódio com Melman, sobretudo me identifico com sua posição de 'marginal' no que tange ao que concebe como psicanalítico, longe do centro parisiense, tal como eu me sinto longe do centro acadêmico ...". " Ah, Jean, posso chamá-lo assim?, antes que você fale alguma coisa, quero agradecer, porque eu só tenho a agradecer a oportunidade de ver assim tão de perto um intelectual, assim, como você e simples, simples que nem gente normal!"

Sim , isso seria uma demonstração pura de afeto e admiração, muito confundida com o que poderiam dizer "idolatria", "tietagem". Não pretendia apenas isso.

Claro que eu poderia contar com a possibilidade de o elevador emperrar e que ficássemos alguns minutos, quem sabe horas, quem sabe mesmo um dia inteiro, a espera do socorro, conversando sobre a função paterna, a função patriarcal, o declínio da função paterna, as cores do incesto, as cores do Édipo...seria um verdadeiro arco-íris.

Talvez não durasse tanto, talvez durasse mesmo apenas quatro segundos os quais eu deveria aproveitar inteiramente desabafando o que me assombra há tanto tempo: "Lebrun, Lebrun, por favor, me diga e ensine a este povo que Psicanálise é social, eu estou cansada de dizer, de divulgar, aonde posso vou e falo sobre isso, deixo claro, mas preciso de você ao meu lado para continuar com essa cantiga enfadonha ' o inconsciente é social' , 'somos sociais', 'a linguagem é social', por favor, me ajude, faça essa gente ver!" .

Muitas coisas poderiam ser ditas, mas naquele momento, porque não falo francês, porque não tenho coragem suficiente e porque não havia tempo, substituí todas as minhas dúvidas, minha tietagem, minha admiração por um singelo sorriso, ao qual Lebrun, em sua simpatia quase paterna, me retribuiu. O resto que eu poderia dizer seria invenção, não disse nada, retornei ao meu quarto no qual pude espalhar: "vim com ele no elevador!". O resto seria lenda.

quinta-feira, novembro 04, 2010

terça-feira, novembro 02, 2010

Ana pelos olhos de Otto, Otto pelos olhos de Ana


Uma história de amor e de coincidências. Este é o cerne de Os amantes do Círculo Polar (Julio Medem, Espanha, 1998). Tudo se passa quando o expectador conhece Otto e Ana, duas crianças que têm o rumo de suas vidas afetado por uma série de coincidências intrigantes que ora os afasta, ora os une como se tivesse controle sobre suas vidas.


As coincidências acontecem desde o momento em que Otto, ainda menino, vai buscar uma bola que, por uma dessas coincidências do destino, não foi chutada direito por um amigo, levando-o a conhecer a menina Ana, atormentada pela notícia da morte do pai, e que, oportunamente, imagina que Otto seja seu pai, encarnado no corpo do menino.


Some-se a isso uma boa dose de interferência no destino , o que provocará mais uma sequencia de infinitas coincidências que ligará as vidas de Otto e Ana para sempre. Ao longo do filme testemunhamos o crescimento das duas crianças, a descoberta do amor e do que mais os movia: a busca pela maior coincidência de todas, a coincidência de suas vidas. Era isto que ambas as personagens esperavam.


A narrativa não-linear em que muitas vezes se confudem o Otto menino com o Otto adulto, jovem, a Ana adulta e a Ana menina, parece querer nos mostrar que, durante a vida, somos tudo isso: crianças, adolescentes, jovens, diante de inúmeras coincidências que a vida vai nos pregando ao longo de nossa existência, ela nos convoca inteiros, em todos os nossos devires, criança, jovem, adulto, somos todos um mesmo, de trás para frente, de frente para trás, como bem anunciam os palíndromos que formam os nomes : ANA e OTTO.
Assistimos ao filme tanto através dos olhos de Ana, como pelo ponto de vista de Otto. Os olhos têm um papel importante neste filme, podemos até dizer que estes é que são os verdadeiros protagonistas da película de Medem: "Otto pelos olhos de Ana, Ana pelos olhos de Otto" constrói a perspectiva do próprio espectador diante da história das vidas cruzadas das personagens interpretadas por Fele Martínez ( Má educação) e Najwa Nimri.
Durante o filme entendemos o truque das coincidências que une Ana e Otto, dois palíndromos, nomes que podem ser lidos da esquerda para direita que não mudam seu significado. O que quer dizer estes palíndromos? Ana e Otto são os mesmos, criança, adolescentes e adultos, de trás para frente, os mesmos e da mesma maneira ligados, unidos e sempre, à espera.

Assim é a história dos Amantes do Círculo Polar. O círculo Polar e seu sol da meia noite são a metáfora perfeita para a atemporalidade da vida, um lugar onde o sol não se põe permite que a vida continue, as coincidências continuem a espreitar.


Julio Medem parece ter acertado em traduzir para o cinema toda o mistério da vida e de seus descaminhos, especialmente parece ter encontrado o modo mais belo de dizer-nos que somos esse joguete diante da vida, mas que, nem por isso, deixamos de utilizar o livre arbítrio. Belo, sensível e profundo, assim é os Amantes do Círculo Polar.

sábado, outubro 30, 2010

A vida como ela é...sem tirar nem pôr



Não é com surpresa que vejo o sucesso que A vida como ela é, ( Agir, 2009) perdurar até hoje, mesmo depois do estardalhaço causado em 1997, quando da produção da série exibida no programa Fantástico, com direção de Daniel Filho e roteiro de Euclides Marinho, buscando um retrato fiel daquele Rio de Janeiro dos anos 50, da já citada Rua alegre, das vizinhas invejosas e das mulheres pecadoras que tão bem foram retratados pelo gênio óbvio Nelson Rodrigues.


Esse pretendia ser um post em que se exaltasse o livro da Agir, mas, ao mesmo tempo, me fui apresentada, agora já adulta, a obra que tanto instigava minha curiosidade, naquelas noites de domingo. A vida como ela é saiu em DVD e assim, para quem não conhece o compêndio de crônicas homônimo, fica mais fácil compreender o universo rodrigueano.


A vida como ela é...estejamos nós falando das crônicas ou da série de televisão continua instigante e , principalmente, fiel ao que se propôs: um retrato honesto da vida carioca, suburbana, tão cotidiana, e tão trágica, ao mesmo tempo. Ao tempo em que quase testemunhamos inocentes casais tomando um sorvete na leiteria do bairro de Laranjeiras, também assistimos à pactos de morte, traições, incestos , mortes risíveis como a morte do homem, que, cansado de jantar duas vezes, dividindo-se entre amante e esposa, resolver pôr fim a sua existência com um tiro no peito, porém não o faz sem deixar claro seus motivos: "morro porque cansei de jantar duas vezes", desabafa.


Assim como "Mártir em casa e na rua", nome da crônica em questão, podemos nos surpreender com outras tantas, como a tão famosa Dama do lotação, Terezinha, Delicado. Entre tantas não saberia aqui dizer qual é a mais fiel à vida cotidiana, não saberia também afirmar qual seria a mais exata em retratar a constituição psíquica do sujeito para sempre alienado em seu desejo, que, muitas vezes, não sabendo lidar com os descaminhos deste, acaba passando ao ato - termo psicanalítico que faz referência ao momento em que não é possível outro escoadouro socialmente aceito para deixar as pulsões fluirem: é necessário passar ao ato, porque não se pode fazer outra coisa.


É por isso que A vida como ela é parece tão trágica, tão shakesperiana: é porque o que observarmos é a impossibilidade do sujeito compactuar com seu desejo, este sempre arredio, rebelde, obsceno. Por isso , o sujeito que não aguenta mais a farsa cotidiana de agradar esposa e amante resolve a questão se matando, por isso a noiva saudosa do ex-amante malandro decide por fim à sua vida ateando fogo em suas vestes, é por isso que Euzebiozinho se enforca vestido de noiva.


Exemplos são muitos e eu não farei aqui o papel de estraga-prazeres dizendo o fim de todas as crônica que, inicialmente, faziam parte de um jornal diário o qual todas as pessoas, nos bondes, nas ruas, nos botecos compravam e se deleitavam ao ansiosamente procurar, por entre as páginas de política e policial, a pequena estorieta do dia, aquela a qual sempre seria surpreendente, porque demasiadamente humana.


A vida como ela é pode ser analisada e entendida como um excelente modo de investigação do psiquismo e de todas as mazelas que nos marcam, desde que entramos de sola neste mundo. Recomendo fortemente tanto a série televisiva como a reunião de crônicas publicada pela editora Agir.

segunda-feira, outubro 18, 2010

As memórias de um gênio óbvio



“ Não há ninguém, vivo ou morto, que não tenha concebido a sua fantasia homicida. O melhor de nós já pensou em matar e já se imaginou matando, etc, etc (Aliás, envergonha-me estar aqui proclamando o óbvio)”.

Nelson Rodrigues

A um desavisado, certamente esta frase soaria como de mau gosto, típica de um escritor medíocre que não cansava de falar sobre anomalias, aberrações, coisas que acometem os anormais. No entanto, para os avisados e amantes da obra de Nelson Rodrigues, nada mais óbvio, de fato, do que a afirmação do autor: as pessoas trazem, dentro de si, todas as mazelas psicológicas que poderiam contribuir para a venda de qualquer noticiário policial, por mais sensacionalista que fosse.

Assim foi a vida de Nelson Rodrigues, e ele não poderia falar do que não conheceu. Em Memórias e A menina sem estrela (Agir, 2009), viramos testemunhas das inúmeras situações que chamaram atenção desse mestre da literatura e do teatro nacional. Somos catapultados para o contexto sócio-cultural que viu nascer o jornalista Nelson, filho de uma família de jornalistas e que adquiriu, por força do hábito e da vida, um certo gosto pelo que lia e escrevia nos noticiários policiais: pactos de morte entre amantes, suicídios, assassinatos e traições, sobretudo a traição feminina eram os grandes interesses do então jornalista policial que gostava de acrescentar, aqui e ali, um tom dramático, poético até, nas mortes diárias que noticia.

Ao ler Memórias, certamente compramos um bilhete de viagem de volta para o século XX, conhecemos o famoso carnaval de 1919 do qual Nelson fala com riqueza ímpar de detalhes, o que faz qualquer leitor subitamente descobrir uma serpentina nos próprios cabelos. Também viajamos rumo às origens do teatro nacional, conhecemos as polêmicas em torno do Teatro Municipal, do disse-me-disse que marcava a recepção da obra de Nelson em todos os setores da vida social carioca que costumava atrair-se por todo o sangue e adultérios mostrados pela obra do autor pernambucano que adotou o Rio de Janeiro como cidade natal.

Marcado desde o nascimento pela estrela de tarado ( vale a pena conhecer o fato que já anunciava a má reputação de Nelson quando adulto: aos quatro anos, Nelsinho teria sido proibido de visitar a casa de uma vizinha, mãe de uma menininha que deveria ter a mesma idade dele. De acordo com as palavras da atônita vizinha à mãe de Nelson: "Todos os seus filhos podem vir a minha casa, exceto Nelsinho").

O que se seguiu foi mesmo a confirmação da advertência da vizinha: Nelsinho cresceu e continuou sendo considerado persona non grata no teatro brasileiro, na própria literatura para a qual tanto contribuiu, pois foi, em vida, um dos maiores desafetos de muitos grandes nomes da mesma, enfim, alguém a ser banido, extirpado do convívio social, pois sua obra exalava um cheiro de lama e miséria, estas tão expulsas, desde sempre, das sociedades civilizadas - Nelsinho, em toda sua vida, só pôde colecionar advertências, tais como a da vizinha da longínqua Rua Alegre.

Certa vez, questionado por Carlos Drummond de Andrade sobre o motivo de Nelson não falar em sua obra de pessoas normais, o dramaturgo pernambucano engoliu a resposta que nunca dera ao poeta mineiro: "falo de pessoas tão normais quanto você e eu". Talvez o pernambucano fosse mesmo a pedra no caminho de Drummond, que, mesmo com tanta poesia, não conseguia entender a imensa normalidade presente na obra de Nelson Rodrigues: chegaria a ser obscena de tão óbvia a semelhança da obra mais "bizarra" com a vida mais normal, mais apática retratadas em obras como A dama da lotação, Engraçadinha, Toda nudez será castigada, etc.

Para os que não conhecem, vale a pena conhecer a obra do mestre dos acontecimentos corriqueiros, intérprete original de toda a mesmice sem graça com a qual o ser humano mediano dirige sua vida. Há de se falar de pessoas normais, ora, e não seria o adúltero uma das figuras mais famosas e conhecidas de que se têm notícia a nossa vã humanidade? Por acaso somente os anormais traem? Não creio nisso, nem Nelson.

Aos ainda desavisados, recomendo Memórias a fim de tomar ciência do contexto sócio-cultural que fez de Nelson o "grande tarado", fama repercutida pelas mesmas pessoas, de conduta moral imaculada, que, mais tarde se curvariam aos pés de Nelson na sua velhice e ainda mais depois de sua morte, em 1980.

Se tivessem de começar por algum lugar, conheçam a história, conheçam as Memórias, aí então qualquer pessoa, normal ou não, estaria preparada para entender um pouco mais da genialidade daquele que ousou detestar a unanimidade.