terça-feira, dezembro 23, 2008

Como nasce uma teoria



No alto da colina se escondia o Tempo, maior de todos os vilões das estórias de amor , de poder e de vitórias. No entanto, aqui conto que é deveras frágil e solitário.


Vivia recluso, em suas chinelas velhas, como se esperasse por algo que viesse a dar vida aos seus dias e sabor a seus jantares. Ninguém sabia por quanto tempo o Tempo viveria na mais completa solidão, assim como não sabiam desde que época enfiou-se naquela taverna de madeira escura, envelhecida, tal como o próprio habitante.


Os poucos que ousam contar sobre o ilustre ermitão, consideram-no em alta conta; se pouco contribuía para a baderna, também não poderia ser responsabilizado por qualquer comemoração, seja uma boda de aniversário ou reunião de alguma espécie. Se alguém lhe visita, com freqüência, é a sua única e fiel amiga, vestida de preto, mas não tão feia como se lhe pintam.


A Morte era a única a quem o Tempo falava. Geralmente ela vinha dizer-lhe algo, visto que sabia ser o amigo muito solitário. Vejam quão irônicas são as coisas da vida: se para os olhos gerais a Morte é vizinha do mau presságio e de terríveis agouros, para o Tempo faz-se companheira, pacata, ouvinte de melhor estirpe.


A Morte, todas as quintas-feiras ia ter com o Tempo. Diziam que nestes dias se ouviam gargalhadas tímidas por trás da pesado portão que costumava separar o morador do restante dos vizinhos que viviam naquela colina. Riam muito, sorviam algum tipo de vinho e – há quem diga – bailavam ao som de alguma música alegre, não sei agora se samba ou chorinho, fato é que se divertiam muito, mais ainda quando um estava na companhia do outro, a pisar um no pé do outro, a rir um sorriso sem dentes, mas nem por isso menos verdadeiro do que o sorriso nascido de bocas harmoniosamente preenchidas.


– Temo que separados não somos nada. Disse a Morte ao Tempo, oferecendo-lhe os olhos fundos de quem muito já viveu e presenciou nesta existência.


– Ora, deixe de tolices. Sabes bem que podemos ser bastante independentes. Não somos como os girassóis, extremamente carentes a espera de um mísero raio ensolarado para se fazer vigoroso. Podemos muitíssimo bem um viver sem o outro, sem apego ou algo que o valha, não estou entendendo o sentimentalismo desta tarde.


– Não é questão de sentimentalismo, tampouco de dependência. Veja, estou aqui, como estou todas as quintas-feiras, a beber este vinho, a sentar nesta cadeira e a fazer-te companhia, uma companhia que julgo-te necessária. Outro dia li de algum filósofo uma coisa que dizia sermos parentes próximos.

Ao escutar esta última frase, arregalou os pequenos e enrugados olhos o Tempo, como se escutasse um disparate ou algo que o valha.

- Parentes próximos? Se antes não entendia o sentimentalismo agora me surpreendo com o parentesco súbito. Acaso agora reclamas a mim paternidade? Fraternidade? Veja, não tenho vintém nem ouro. O que tenho é esta humilde taverna que nos serve de abrigo no momento. Tire-me isto e nada mais restará ao velho Tempo.

– Há dias em que pareces menino, sequer lembras a sabedoria a qual sempre achei ser parte de tua personalidade. O que quero dizer é que não somos tão diferentes assim. Claro, tens tua casa, eu tenho a minha, nem grande, nem pequena, apenas um lugar para eu pousar e descansar após tantas milhas que sempre percorro. Não reivindico herança alguma, tampouco paternidade, pois prefiro continuar a fazer parte do reino dos bastardos, estes, não tendo pai nem mãe, parecem viver a vida de uma maneira mais tranqüila, menos tediosa.
Digo-te que concordo com o que li, não sabendo a escola filosófica de que tirei, faço minha a teoria de que nós somos frutos da mesma espécie, tal como frutas parecidas, algo como pitanga e acerola. É isto! Somos feitos da mesma matéria e a mesma matéria nos reduziremos. “ Tempo e Morte não hão de andar separados jamais” , seria uma belo princípio de uma nova teoria. O que achas?


– Considero o raciocínio brilhante, o princípio factível e o filósofo um charlatão. Deve ter sido tua mesmo a idéia, e se não é, apressa-te e faz dela tua doutrina, tua causa maior, tua ideologia. Todos nós necessitamos de uma, a minha são os meus chinelos, sem eles nada sou. A tua? A tua poderia ser essa tal premissa de que andamos um junto ao outro. Eu continuo achando que se trata de sentimentalismo ou questão de dependência. Estás muito sozinha?


– Sozinha? Nunca! Sempre alguém vem me fazer companhia, por cansaço, apatia, irresponsabilidade ou mesmo por mando teu. Definitivamente não estou só, muitos me visitam e não vá pensando que só tenho a ti. O que digo e que de bom grado fundo como teoria é a solidariedade, vamos dizer assim, presente em nossa amizade , isto é algo indiscutível. Nós andamos juntos: se eu tenho o penoso ofício de intimar velhos, jovens e crianças para comparecer ao tribunal do juízo final, tu és o ser que está por trás do último mandado.


– Agora me culpas? Não entendo mais nada e acho bom suspender o vinho. Agora me culpas de contribuir para o exercício de sua terrível profissão? Ora, eu aqui nada faço, acompanho as estações se sucederem, os anos passarem. No máximo coordeno a dança dos ponteiros dos relógios. Se tu matas, eu nada tenho a ver com isso, apenas cumpro minha função de refletir, de contemplar todas as coisas belas da natureza, sejam elas estrelas, plantas ou lua, o que faço é apenas dar prosseguimento a ordem natural da minha superior, a Vida.


– Mas veja se o meu companheiro não está tirando o pesado corpo fora! És meu cúmplice, como o serás ainda daqui a muitas primaveras. Se eu completo a obra, tu me emprestas os pincéis; se eu posso assinar como artista da obra acabada, tu é quem me dás tinta e papel para que tudo seja feito.


Ao ouvir estas palavras serem proferidas em tom de acusação , o Tempo não se deixou desequilibrar, ajeitou-se na poltrona marrom e continuou a argumentar com a mesma voz plácida que lhe caracteriza.


– As coisas, por mais belas que sejam, findam e findam por que tudo nesta existência insiste em passar, a mudar, esteja eu falando de estações, de luas ou marés. Não sou eu o culpado. É assim e porque é assim não sei dizer. Da mesma forma que não sei explicar a mudança das marés, o cantar dos pássaros e as fases da lua, também não sei dizer sobre a existência, o que sei é que ela tende a findar, porque não há flor que viva para sempre, porque não há ainda elixir da juventude.


A conversa parecia interminável, estando a Morte certa da infalibilidade de sua teoria, não aceitava os argumentos do Tempo especialmente por entender que este teimava por mania e gosto.


– Tu agora achas conveniente afastar-te de mim e deixar-me toda a cruz para eu carregar sozinha. Interessante se faz culpar-me das mazelas do mundo, culpar-me da miséria, da tristeza e da dor humana, mas assumir tua cota de comprometimento com a finitude da vida, disto tu te retiras. Não é nada sábio da tua parte não conseguir enxergar a parceria que fazemos, a tua parcela de empenho em me legitimar o ofício que, mesmo penoso, me dá o sustento e do qual muito me sinto honrada.


O Tempo, em sua tranqüilidade quase católica, fez que não ouviu as últimas palavras proferidas pela companheira, levantou-se, foi até a cozinha a fim de procurar um paninho de prato; o móvel de madeira de lei estava sujo de uma substância violácea, a mesma que era sorvida pela Morte em goles pequenos mas constantes.


– Teu mal se chama alcoolismo e minha virtude altruísmo. Deixo-te ficar esta noite porque nem bem caminhar tu podes mais, agora encerra essa conversa de cumplicidade e parceria já que eu não consigo ver outra causa para o surgimento desta teoria do que a causa etílica. Bebeste muito, estás a dizer asneiras e eu não sou obrigado a ouvir nada disso em minha casa. No entanto, sou conhecido – como bem sabes – pela nobreza do coração e pela tranqüilidade – já que o fígado não mais me permite esses excessos, cuido de ti por não outra coisa do que amizade. Qual lençol tu preferes?

A isto a Morte respondeu com indignação, uma indignação somente vista em gênios incompreendidos que vivem a espera do reconhecimento por parte do restante da população que julgam sempre como ignorante ou acéfala.

– Se és conhecido pela tranqüilidade e nobreza, digo agora que passas a ser conhecido pela ignorância. És tolo, ingênuo, no mínimo. Aqui surge uma nova teoria, um raio, um lampejo de sabedoria, algo certamente grande que será estudado através dos tempos, metrificado, quantificado. Prevejo teses, monografias, dissertações...toda uma sorte de documentos escritos com a pena do cientificismo e com a garantia do Positivismo. Serei grande, maior do que já sou, e os louros da vitória...ah! Estes serão colhidos apenas por mim!


– Retiro o que disse. Teu mal não é apenas o alcoolismo, é a impáfia, a soberba, embebidas no álcool, claro. Agora queres dominar o mundo, e, não estando satisfeita, queres a Ciência, os mestrados e os doutorados? Ego é o que não te falta, mas louvo-te a auto-estima, quisera eu ser tão seguro de mim...sinto-me gasto, velho, amarelado e mofado como uma carta de amor que viaja entre os séculos a procura de um coração disponível.


– Se deitares teus olhos nos compêndios científicos, se ao menos simpatizasse com a Filosofia, saberias do que se trata: Tempo e Morte sempre haverão de trabalhar em parceria. Se tu te esforças no esboço eu determino o acabamento do conjunto, jogo-lhe umas tintas, faço a assinatura final, porém, não esqueço que a obra é elaborada por quatro mãos.


– Morte, estás ébria e aos ébrios não se deve dar ouvidos, no máximo, uma xícara de café e um banho frio. Recobra-te os valores e também a consciência. Eu posso viver sem ti, não sou nenhuma espécie de coadjuvante nas tuas desventuras; vivo minha vida sem precisar de ti, em dias que tu não estás comigo ocupo-me das hortaliças e dos remendos na cerca que sempre parecem se multiplicar.
Tenho mãos fortes e talento para jardineiro. Também sei cozinhar e bordar. Para que te necessito? Somente para lembrar a boca e a língua o antigo ofício de falar, pois, não tendo companhia que se apresente, vai tu mesmo, que me és fiel mesmo sendo esnobe.


– Não precisas de mim? É isto que estás a dizer? Ah!Mas quão novo é este discurso!Não eras tu mesmo que, há alguns anos, dizia-te grato pela “constante companhia e fidelidade absoluta”? Agora preferes abobrinhas e tomates a mim? Sinceramente, se meu mal é a impáfia, padeces de moléstia grave chamada ingratidão.


Considerando a última palavra muito forte, o Tempo sentou-se como se a espera de recobrar a consciência e a tranqüilidade quase sempre inabalável. Ingrato é o que não era, era justo e bom , ao menos se considerava. Fez-se magoado com a companheira que tomava seu vinho, deitava em seu sofá e lhe tomava preciosos minutos.


– Decididamente coisa que não tens é coração. Eu te dou abrigo, vinho e boa comida. Dou-te conversa que, mesmo que não tão animada – porque é de meu caráter essa mania de ser metido em mim mesmo – ainda assim é uma conversa...Não tens coração. Ingrato é o que não sou, podes perguntar a essa gente toda se me viram não pagar com um sorriso qualquer benefício que já me tenham feito.


– Ingrato. Ingrato. Mil vezes ingrato. E covarde. Assuma a participação no destino humano. Assuma a co-autoria dos crimes que cometo dia após dia com perfeição invejável. Jamais me vistes falhar, posso tardar, mas chego, fecho os olhos cansados de quem irá apenas abri-lo em ambiente eterno. Nós chegamos sem pedir licença porém, com elegância habitual, roubamos a vida de um ao passo que também abreviamos a dor alheia.


– Co-autor? Nada tenho a ver com teu ofício horrendo! Tira-me esta culpa dos ombros que estes já vão cansados.


– Ora, veja, não há somente ossos em meu ofício, ou devo dizer nosso ofício? Há sempre os dias de alegria e estes são aqueles em que venho em socorro de corpos tão cansados de padecer. Venho dar a extrema-unção àqueles que nem mais forças teriam para dar um suspiro derradeiro. Meu querido, como em todo santo ofício, há os dias de regozijo, de glória.


– Se não me responsabilizo pela abreviatura que fazes a vidas serenas, tampouco me orgulho do prazer último que dás às existências cansadas de padecer. Não quero participação, também não desejo colher os louros do teu ofício. Deixa eu com minhas ervas e meus temperos que isto é coisa muito bonita da qual pouco entendes.


– Deixo-te. De uma vez por todas. Acredito que minha teoria é complexa demais para mentes ignóbeis como a tua. Fica tu com teus tomates e alfaces que de ciência nada entendes. Um dia serei grande, dominarei as gentes de todos os planetas – posto que uma galáxia é pouco para minha capacidade – e aí ouvirás falar de mim. Só não me peças participação nos lucros dos livros que irei lançar. Não sairás na capa, tampouco te chamarei para assinar um prólogo. Não és digno, és ingênuo, de uma ingenuidade burra e de burrice eu nada entendo.


Dizendo estas palavras em voz alta, mais alta do que a de costume, a Morte aceitou o caminho da rua que lhe era oferecido a dedo rijo pelo outro, ajeitou o traje negro e pôs-se a caminhar alegre com a possibilidade de fama e fortuna iminentes. Seria grande, teria o destino de um Napoleão sem ter que passar por Waterloo. Idéias grandes são idéias incompreendidas por pessoas de natureza rasa, pensou consigo mesma.


Quanto ao Tempo, deixou-se deitar no antigo sofá que decorava a sua velha morada, ficou a pensar na vida e na sua antagonista, chamou-lhe em silêncio de vários nomes além de ingrata, jurou não querê-la ver mais e acabar com os bailes das quintas-feiras. Pensou que não precisava de muito a não ser de memória, esta que trazia intacta, poderia se lembrar de qualquer evento que tenha acontecido antes ou depois de Cristo.
Dali em diante ficou só a meditar, a refletir sobre as ciências astrológicas, sobre o fenômeno das marés mas nada queria saber de doutrinas filosóficas. Quando a solidão o deprimia tratava de ouvir suas músicas alegres, não sentia falta da fortuna e da fama, porém, toda manhã tomava café lendo jornais, que era para ter notícias da antiga amiga.

sábado, dezembro 20, 2008

O Signo da cidade ou A poesia concreta das esquinas



" Você não é amado por que você é bom, você é bom porque é amado"

E essa frase, aparentemente clichê, lugar-comum e até mesmo romântica pode definir um pouco o sentimento que se experimenta ao assistir O signo da cidade( 2006). O filme é nacional, tem roteiro de Bruna Lombardi e direção do seu marido, o também ator Carlos Alberto Ricceli.


Questões como solidariedade, direitos humanos, egoísmo, perdão, amor, ódio, preconceitos, solidão pode ser elencadas aqui como peças-chave do enredo de O signo da cidade. Trata-se da estória da personagem de Bruna Lombardi, astróloga e espécie de "conselheira" espiritual de várias personagens menores da trama que estão envolvidas em questões existenciais complexas e que , em atos de desespero, recorrem aos conselhos de Tereza, mulher sensata sobre cujos ombros parecem recair as misérias e as dores de todos que a ela recorrem, de alguma maneira.


Como de costume, não pretendo tratar aqui do roteiro, tampouco julgar ou criticar a atuação dos atores, comentar sobre direção ou fotografia, isso eu deixo para os mais capacitados. Eu quero falar aqui é dessa sensação de solidão , do espírito de fraternidade e de tudo que me tocou ao assistir o filme que fala de uma cidade comum habitada por pessoas visíveis aos olhos do IBGE e invisíveis em sua imensidão interna. Densidade demográfica versus individualidade.


Tal como Caetano denuncia na letra de "Sampa", a dura poesia concreta das esquinas de uma cidade esconde as diversas estórias anônimas as quais seus céus abrigam e testemunham: Quantos de nós já paramos para entender que o próximo não é tão próximo a não ser no Natal, ano-novo? Quantos de nós realmente paramos e tentamos doar, no sentido integral da palavra, não apenas cestas básicas mas doar nossas pessoas para outras pessoas. Não se perde nada com isso, pelo contrário, você pode ganhar muito mais do que imagina.


A cidade esconde por trás de sua grandiosidade pequenos seres; é como se fôssemos pequenos grãos que se unem e se juntam de modo a formar uma paisagem. Uma cidade vazia é uma cidade sem vida, perdida em seu concreto, mas sem vida por que não tem a presença de uma alma.


O signo da cidade toca em pontos os quais poucos se atrevem a enxergar: a importância de nossos atos para a vida de outras pessoas , as quais talvez nem conheçamos. A importância de um sorriso, algo tão simples pode ser o ponto de partida de uma nova vida que, desprovida de dentes e boca, não consegue mais rir e se diz acabada. Uma palavra amiga pode salvar, um carinho no momento preciso pode significar mais do que um simples gesto mecânico.


A estória da astróloga que , quando perguntada sobre o que faz, diz " eu leio estrelas, às vezes", vai muito mais além do que a leitura de mapas astrais ou cartas de tarô. Teca conta com a sensibilidade e com o altruísmo para, de alguma forma, estar inserida e enredada na estória de vida de outras personagens que surgem tal como transeuntes comuns, pedestres anônimos, perdidos em viadutos, debaixo de pontes ou em ruas movimentadas de uma cidade como São Paulo.

Faça você mesmo uma experiência simples, porém, interessante: distribua sorrisos, mesmo quando estes parecerem escassamente em sua boca, pode ser útil a alguém e esse alguém pode lhe devolver o desejo genuíno de sorrir. Assim, você irá rir verdadeiramente, será bom, por que amado. Não o contrário.
Olhar mais para o próximo, enxergá-lo em sua bondade não quer dizer aceitar passivamente ser objeto ou depositário das frustrações alheias. Não, isso não é altruísmo, dar a outra face para que o outro bata, isso me parece masoquismo e , neste caso, mais vale uma hora com um analista do que três horas consultando astros.


Ser bom é o que Teca consegue transmitir: gritar quando é necessário, chocar quando se precisa chocar, mas , sobretudo , fazer o bem sem nada necessitar em troca. Por quê? Porque o caminho da existência plena - e isso aqui, garanto, não é um texto de auto-ajuda, por mais que se pareça - é exatamente o exercício dificílimo de não se vitimizar e de não esperar nada em troca do que se dá.


Uma cidade está aí, por trás de nós que muitas vezes só vemos os nossos problemas, as nossas queixas, as nossas dores, mas há outros que padecem, outros que choram e não necessariamente são invisíveis, inexistem. Todos precisamos uns dos outros, de alguma forma o homem que assalta pode ser o que venha a salvar sua vida, numa situação inusitada, porém possível. O médico que lhe atende, pode ser o que salva sua vida ou mesmo o que lhe furta esta.


É, O signo da cidade parece rasgar um véu de indiferença que teimamos em colocar frente a nossos olhos, para não enxergar, para não ver o que dói no outro para que assim nos esqueçamos que algo em nós é vivo, é frágil e vulnerável. Ajudar o outro também pode implicar isto: saber-se frágil , efêmero, falível.
A vida é, então nada mais do que alguns anos , para alguns muitos e para outros nem tantos que, não sabemos como, nem porquê e nem por quem nos foram dados, mas que, de alguma forma, é de nossa responsabilidade.
Por isso, façamos o melhor com essa dádiva que nos foi dada, porque, não sabendo quando esta nos vai ser tirada ( quando não se está falando de casos em que nós mesmos resolvemos abreviá-la) o que ficará é a árvore que se plantou, o livro que se escreveu, o filho que se teve, e o amor que se deu.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Tirem o amor do dicionário



Tirem o amor do dicionário
Eu sei , muitos hão de reclamar
Os imortais, certamente irão falar
Mas tirem o amor do dicionário
Por que ele é popular demais
Para numa folha ser enclausurado
Porque quem ama,
seja moça ou rapaz
Há de reivindicar o tal vocábulo
Por gramáticos sempre condenado
A estar num frio espaço de um livro
Tirem o amor do dicionário
Por que ele gosta é de rimar
Por que ele quer é se entregar
Por isso tirem o amor do dicionário
Que ele não devia nem ser palavra
Desordenem as quatro letras
Por que amor não é lá coisa de definir
Está mais é pra se sentir
Do lado esquerdo e com alma
Que até gramático traz em si
Por isso tirem logo
O amor do dicionário
Que ele também tem direito de ir e vir







quarta-feira, dezembro 10, 2008

Numa folha de papel*


"Um pouco de pão,
Um pouco de água fresca,
A sombra de uma árvore. E os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz que eu...
Nenhum mendigo é mais triste..."


Esses pequenos versos estavam escritos em papel amarelado, com jeito de mofado, em tinta tão azul que sequer aparentava ter sido vertida havia quarenta e tantos anos. Não se sabia autor, tampouco obra, apenas isso era o que sabia, eram versos muito lindos e muito simples, compreensíveis apenas para corações apaixonados e poéticos.

A menina leu-os em um antigo alfarrábio da cidade. O sol estava forte, nada melhor do que a sombra de uma árvore, mesmo que feita de versos, para acalmar o coração que trazia uns remendos, umas sequelas ali, outras acolá.

Ela não sabia dizer antigamente qual seria o impacto que seus olhos teriam ao cruzarem tal folha do livro empoeirado que achou sem querer nem intenção no alfarrábio. Talvez em outros tempos não se tivesse deixado ficar tão fascinada como agora, pois tinha dançado outras valsas, porém não raramente anestesiava as emoções e curava suas dores por entre metodologias e academicismos.

De fato, vivera umas primaveras, dera alguns sorrisos, e, se eu pudesse arriscar, diria que protagonizara antes alguns dois ou três momentos de felicidade. Não diria que tinham sido sublimes, posto que agora tem comparação a fazer.

Eu diria que a menina teria dado uns tantos sorrisos e recebido alguns poucos em troca. Beijos dera muitos, mas a alma parecia adormecida, na melhor das hipóteses, na pior a trazia não dormindo, mas morta, embebida em formol porque até então não tinha havido despertador em seu caminho capaz de anunciar-lhe vida nova.

Vida aquela alma não tinha longe dos seus diplomas e de suas ciências, porém, como algum quê de poesia parecia viver trancado nos porões de seu cérebro, lá em algum lugar entre o hipotálamo e o cerebelo, avizinhando-se do coração, deixou-se lentamente penetrar por algo grandioso que lhe apareceu por obra do acaso ou do trabalho árduo de algumas estrelas, se romântica fosse assim pensaria, pois coração de cientista não sente por medo de deixar de pensar.

Não sabia como, nem porquê, mas foi de repente que a noite e a madrugada da sua alma foi indo embora com o anúncio ensolarado de um novo dia: Sim, chegou-lhe um despertador para dar vida a alma amortalhada.

O despertador era um menino de olhos grandes, com ares e boina de poeta. Fez morada no coração antes apenas habitado por artigos e livros técnicos. Trouxe com ele uma chave antiga e um coração igualmente dispostos a se dar e a destrancar a pobre alma da menina que não sabia tê-la morta de vez ou apenas sonolenta, como já se disse aqui.

Era um negócio de poesia e de canções de amor que poucos entenderiam. Pareciam viver numa redoma de vidro que os separava do mundo frio ao mesmo tempo em que os unia cada vez mais. Quase todos os dias estavam a se ver e quando não o faziam fisicamente, viam-se em sonhos ou em pensamento.

E as flores tinham cheiro agora e a vida um sabor doce. As notas musicais tinham nome próprio e apelidos e, quando tocadas formavam melodias simples: por mais diferentes que fossem umas das outras, dó ré mi fá sol lá si sempre se entrelaçavam e se abrigavam no violão de modo a dizer "Eu amo você".

E a noite longa acabou e o sol deu o ar de sua graça por entre as nuvens fechadas que teimavam em escurecer aquele céu que tanto queria ser azul. Pronto, era azul, ele chegou e com seu despertador acordou-lhe a alma, o coração e lhe fez subitamente entender os versos de um pobre, mas feliz trovador.

A menina compreendeu os versos mesmo sem saber de que pena saiu; pôs um sorriso de meia-boca no rosto, como se cúmplice fosse do autor desconhecido.
Agora sim, ela era também aquele sultão e mendigo.

Agora que tinha despertador não cairia mais no sono dos que não amam, fechou o livro e agradeceu ao autor desconhecido já que, em uma fração de segundos, finalmente reconhecia o que emociona o poeta e o que cativa um leitor.

E seu coração não mais vivia de ciência, pois sua alma agora festejava o trim-trim-trim que lhe despertou.
* ilustração: Cristiano Leão

terça-feira, dezembro 09, 2008

Do complemento






E dizem que não há espaço mais para amor nesse mundo de meu Deus. Se alguém me falasse eu não acreditaria mas acontece é que eu vi.


Encontraram-se os dois numa livraria. Nem grande, nem pequena. Apenas conveniente, já se sabe. Maria de branco e com um sorriso de vergonha estampado na face que trazia pintada.


Ele estava a sua espera, com olhos grandes e doces, tão doces como o doce que trouxe para Maria.


Zé era assim, um homem com jeito de moço velho, mas também tinha lá um jeito de menino novo. Seus olhos grandes estavam à procura dos dela já havia alguns anos, umas vidas, se alguém aqui acredita em Espiritismo.


Zé completava Maria tal como Maria era o complemento para Zé: Muitas luas, muitas décadas e vidas já passaram antes de se reencontrarem, pareciam saber de que sonho um tirara o outro, pareciam conhecer já, mesmo sem se ver, os gostos um do outro, os olhos e os cheiros um do outro.


De tudo um pouco faziam, sem preguiça ou tempo ruim; sorriam o mesmo sorriso juntos e sabiam que iriam chorar o mesmo choro também.


Maria sabia Zé e Zé sabia Maria, assim , sem ter nem porquê nem cabimento, se conheciam e não sabiam de que sonho , de qual vida, apenas se adivinhavam, se completavam e, mais que isso, se queriam tanto que passavam a vida a recitar sonetos, a contar umas estrelas e a cantar umas canções tão belas.


Não havia cor que Maria imaginasse que Zé não a adivinhasse; gostavam de cores, de canções de amor , de poemas e de números pares. Há quem diga que não existe nesse mundo de meu Deus um casal tão feliz como aquele Zé e sua Maria.


Eu digo, com esses olhos curiosos que já viram de terremotos à enchentes, que ainda está para nascer um casal como aquela Maria e seu Zé. Depois daquilo passei a acreditar nos gregos que tanto falavam de gêmeas almas, passei a acreditar em Espiritismo , em Deus e até mesmo nas estrelas que numa dança louca fizeram surgir aquele Zé tão certinho pra Maria.

sábado, dezembro 06, 2008

Versinhos para a amada levar para a terra da garoa


É...


Por tantas a gente já passou

De conversa em conversa

tanto a gente já analisou

Já chorei já sorri

já vi chorar já vi sorrir

agora vou ver partir

é...

Por muitas a gente passou

de desventura em desventura

sempre uma mão estendida à outra

em meio a tanta solidão

o encontro da amizade verdadeira pelo computador

é....

por muitas mesmo a gente já passou

amiga o caminho eu sei não foi fácil não

foi muito sofrimento muita angústia

e enfim o pranto passou

vai lá viver o seu amor

que o que é seu jamais o tempo e a distância levou

vai lá viver a paz

que daqui eu fico na torcida e na espera de um alô

é...

tantas a gente passou

e quem desacreditou no amor

graças a Deus não vingou

para ver o dia em que a amada partiu

em busca de seus sonhos
com a benção de sua fé

Foram muitas que a gente passou

e aqui desse lado fica alguém

que ri com você

que chora com você

e desse lado fica alguém a sorrir

porque aprendeu que amizade não precisa ser constante

nem de ver a todo instante

para ficar feliz ao ver a amada ir

segunda-feira, dezembro 01, 2008

O caminho para a distância: Vinícius de Moraes, velho e moço ou moço e velho?


"Este livro é o meu primeiro livro. Desnecessário dizer aqui o que ele significa para mim como coisa minha - creio mesmo que um prefácio não o comportaria normalmente."


Vinícius de Moraes



E assim nos é apresentado o poetinha, nada que lembre o fanfarrão, bonachão inspirador de "Samba para Vinícius". Em O caminho para a distância (2008, Companhia das Letras), conhecemos o poeta jovem, aprendiz, com apenas dezenove anos parecendo suportar todas as dores do mundo.


Falando de exoterismo e misticismo, muito dos poemas reunidos neste livro sequer lembram os poemas da chamada "fase madura" deste boêmio encantador. Publicado originalmente pela editora Schmidt, em 1933, o livro composto de quarenta poemas reaparece agora com a iniciativa da editora Companhia das Letras em reunir a antologoia poética de Vinícius.

Qual foi meu espanto ao me deparar com os poemas claros, simples, beirando o sagrado, os poemas de um jovem que em nada me parecia Vinícius de Moraes não sei dizer. Confesso que da sua obra mais me interessavam os sonetos que somente ele pôde idealizar, porque somente ele tinha na alma um quê de romantismo que pode rimar com soneto.


Sim, para muitos e inclusive para mim, soneto só rima com amor e este, por sua vez, só rima com Vinícius. Porém, em O caminho para a distância, nos deparamos com o ambiente que circundava o poeta desde muito cedo; as paisagens cariocas, as mulheres, o sagrado, o místico e principalmente o amor, ainda idealizado, ainda não transbordando luxúria, tal como conhecidos versinhos que viraram inspiração para o movimento Bossa Nova dos anos 50 e 60 do século passado.


Parece então que neste livro encontramos um poeta aprendendo a viver, mas que nem por isso de versos menores; Se em algumas temáticas conhecemos um novo Vinícius, mais jovem, não podemos deixar de reconher traços muito marcantes do poeta.

Por exemplo, no prólogo de "O caminho para a distância" , o poetinha faz uma advertência: Comenta que talvez alguns versos não estejam muito apurados, porém, não pensava em lapidá-los, em transformá-los em algo melhor, passado pelo crivo da borracha e da consciência. Não, Vinícius o quis assim e assim os publicou.

Com a pena da juventude pôde falar dela como se já não a vivesse, assim em " Vinte anos":


" A minha juventude

E a noite passada em claro chorando Jean Valjean que Victor Hugo matara…

Como vai longe tudo!Pesa-me como uma sufocação meus próximos vinte anos

E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia.

Medo de ser jovem agora e ser ridículo

Medo da morte futura que a minha juventude desprezava

Medo de tudo, medo de mim próprio

Do tédio das vigílias e do tédio dos dias…

Virá para mim uma velhice como vem para os outros

Que me dissecará na experiência?"


Um jovem-velho que, se conhecesse seu destino, talvez não temesse tanto assim a velhice e a si mesmo. Era assim o poetinha aos dezenove anos. Tal como todos nós aos dezenove, temia o futuro com a mesma intensidade que o desejava vê-lo realizado, cumprido, feito e terminado. Aos dezenove o poetinha camarada parecia ser mais velho e, quando velho, parecia nunca ter abandonado a mocidade.

Sempre cercado de amigos e mulheres jovens, sua vida sempre foi uma festa, uma roda de samba. E nada disso lembra o poeta um tanto preocupado, mas sempre brilhante, de O caminho para a distância.


Em "Velhice", mais uma vez o tema da finitudade da vida, o poeta fala de como se imagina quando a idade chegar:


" Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente

Olhando as coisas através de uma filosofia sensata

E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite."


E quem o conhece sabe que essa época nunca chegou: morreu como viveu a vida toda: vivendo intensamente, compondo, escrevendo, e, mais do que tudo, amando: amando suas mulheres que tantas vezes colocou em sonetos, amando seus amigos os quais dizia não fazê-los, mas sim, reconhecê-los, amando sua fé e sua crença em algo eterno e divino.


Assim era Vinícius, e viveu a velhice como viveu a mocidade. Não um velho que se tornou sensato porque os fios grisalhos pousaram em seus cabelos e porque as rugas anunciando a idade avançada fizeram morada em sua face. Vinícius foi ele mesmo imensidão, devoramento, Bossa Nova, samba e muito amor, e nada que pareça sensato pode ser chamado de Vinícius. Porque o seu tempo era quando e a vida, não gosta de esperar!



"Samba para Vinícius"

(Chico Buarque/ Toquinho)


Poeta

Meu poeta camarada

Poeta da pesada

Do pagode e do perdão

Perdoa essa canção improvisada

Em tua inspiração

De todo o coração

Da moça e do violão

Do fundo

Poeta Poetinha vagabundo

Quem dera todo mundo

Fosse assim feito você

Que a vida não gosta de esperar

A vida é pra valer

A vida é pra levar

Vinícius, velho, saravá