quinta-feira, abril 22, 2010

A Ilha de Bergman: A ilha interna



Rodado na famosa Ilha de Farö, A ilha de Bergman (Suécia, 2006) é um documentário que deveria mostrar a vida íntima de um dos maiores cineastas que o mundo conheceu, mas vai além.


A documentarista explora as questões de vida de Bergman que talvez só sejam esmiuçadas justamente porque aquele seria o último ano de vida do cineasta sueco. Fato é que, ao nos abandonarmos nos arredores da ilha de Farö, estamos com Bergman e fazemos também parte daquele cenário. Bergman responde com uma franqueza que só a idade avançada permite, tudo ou quase tudo que foi tabu, que foi triste ou doloroso em sua vida, que já acena para ele do outro lado do retrovisor.


A impressão que se tem é que se penetra na alma do velho Bergman, genial diretor de "Cenas de um Casamento", "Persona", "Morangos Silvestres", etc, para percebemos a docilidade, a fragilidade de um homem que a todo momento de sua obra parecia sublimar o sofrimento - algo não muito original, mas que Bergman transforma em arte como poucos ousaram e puderam.


Sublimar: Verbo interessante, amado pelos psicanalistas e desconhecido da população em geral. Sublimar, segundo a pena freudiana, significa dar uma nova roupagem à conteúdos que não necessariamente nasceram bem vestidos, isso tudo para passar do lado de lá do inconsciente e chegar às fronteiras cobiçadas da consciência. Geralmente essa nova roupa é costurada com o fio da arte e rematada pelo acabamento de um alfaiate bem competente e ocupado chamado Ego.


Conhecimentos psicanalíticos à parte, A ilha de Bergman nos mostra um retrato fiel da intimidade e das questões que mais marcaram a vida do cineasta e que, de alguma forma, estiveram presentes em sua obra. A impetuosidade do inconsciente, as aterradoras exigências egóicas, o desejo sempre insatisfeito, a neurose, e , sobretudo , mais do que a falibilidade das relações sexuais, a inexistência delas, fazem parte de assuntos muito comuns na obra de Bergman, tornando sua trajetória artística algo único.


Dói ver Bergman, dói por uma coisa: a sublimação existe, mas dói no espectador dormir com todo aquele barulho provocado pelas belíssimas atuações de Liv Ullmann, de Erland Josephson, Ingrid Bergman, entre outros que atuam os papéis de nós mesmos.


É necessariamente esta dor que está presente não mais na obra, mas no discurso sem disfarce de Bergman, já no fim de sua vida, ao analisar a própria falibilidade na missão que recebeu, de ser humano. Bergman nos conta seus medos em relação à morte, a aceitação de que ela viria, seus desastrosos relacionamentos com as mulheres e um bando de questões que assustam toda uma humanidade, acrescidos de declarações que somam-se à culpa neurótica de cada dia que carrega em seus ombros, tal como nós todos.


A Ilha de Bergman é algo que ultrapassa as fronteiras da linda e paradisíaca Farö, deixa a Suécia e ancora na ilha de dentro do homem capaz de transpor suas dificuldades, ou, para ficar mais bonito, suas problemáticas, para a tela do cinema e, assim, faz de todos nós um pouco cúmplices de tudo que se desenrola no lado de dentro da tela.


De acordo com Freud, faz parte do êxito de um bom autor (e aqui podemos incluir o cineasta) conduzir sua plateia de modo que as tragédias internas das personagens sejam vivenciadas como algo familiar a nós, que achamos que estamos tão distante daquele mundo que se desenrola na tela branca.


Freud foi o primeiro a denunciar nossa semelhança com a neurose das personagens. Em "Personagens Psicopáticos no palco", um curto e delicioso texto do pai da Psicanálise, sabemos porque certos autores têm tanto sucesso ao idealizar uma personagem que, subitamente, tem tantas características parecidas com as nossas...


Sem dúvidas Bergman foi mestre também naquilo que Freud considerou uma das maiores provas do sucesso de um autor: ele conseguiu que nós nos identificássemos com toda a tragédia das suas personagens, justamente porque, quando se trata de mundo interno, personagem e pessoa real não são coisas diferentes, uma vez que a personagem sai de algum lugar real, a semelhança não é mera coincidência.


O documentário não nos mostra personagens, no máximo um homem, consciente de sua própria finitude, disposto a revelar para muitos e talvez para si mesmo, suas próprias tragédias, sucesso e fracasso, tudo enfim que faz parte da ópera bufa que se chama vida a qual todos nós encenamos, como maior ou menor brilho. Agora fiquei confusa: será que não nos mostra mesmo nenhum personagem?


A ilha de Bergman vale para os fãs do cineasta e também para os que são fãs apenas da natureza humana, esta que anda tão em baixa. Vale a pena, recomendo fortemente, um bom exercício de auto-consciência.

sábado, abril 10, 2010

Vinícius, a garota de Ipanema, e Freud: Um triângulo amoroso?



Não é novidade que um dos temas recorrentes nas canções do chamado movimento da Bossa Nova na música brasileira, sem dúvida, é a mulher. Este corpo moreno, cheiroso e gostoso que você tem sempre é cantado em verso e prosa também. Muita prosa , diga-se de passagem, se deve a Vinícius de Moraes, amante incorrigível, para quem o amor era sempre possível, mesmo que fugidio, mesmo que se tenha que buscá-lo repetidamente.


Poderíamos aqui tentar entender de que maneira a Bossa Nova cantou as mulheres, mas para isso é necessário que viajemos um pouco no tempo e no espaço. Rio de Janeiro, 1958, é lançado "Chega de Saudade", álbum de João Gilberto um tanto quanto inicial, como se fosse um esboço do que viria a ser este movimento que ultrapassou os limites da música, tornando-se estilo de vida, de comportamento.


Viajemos mais no tempo e na história de um dos grandes nomes da Bossa, o velho poetinha , já citado. Em 1933, O Caminho para a distância é lançado, sendo este o primeiro livro de Vinícius, então com 20 anos, composto de cerca de 40 poemas em que Religião e o conceito de Sagrado aparecem exaustivamente como temas corriqueiros, em relação á mulher, havia uma névoa cobrindo a imagem da mulher idealizada, posteriormente cantada em todos os seus atributos que não necessariamente incluem o sagrado, pois está mais para o profano.

Por ora vejamos esses poeminhas tão ingênuos, em que Vinícius retrata a figura feminina:


Aquela que dormirá comigo todas as luas

É a desejada de minha alma

Ela me dará o amor de seu coração

E me dará o amor da sua carne.


[...]


Ela é a minha poesia e a minha mocidade

É a mulher que se guardou para o amado de sua alma

Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.



Trecho de " A que há de vir"


Ainda podemos relembrar outro trecho interessante, agora do poema "A esposa":


Às vezes, nessas noites frias e enevoadas

Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos

Essa estranha visão de mulher calma

Surgindo do vazio dos meus olhos parados

Vem espiar minha imobilidade


[...]


E ela fica horas longas, horas silenciosas

Somente movendo os olhos serenos no meu rosto

Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.

Nada diz, nada pensa, apenas olha - e o seu olhar é como a luz.



Caminho para a distância já foi discutido aqui, em outro post, no qual trato especificamente deste livro, então, vamos atalhar. Em Para uma menina com uma flor, uma coletânea de vários trabalhos de Vinícius que abrange um quarto de século de atividade do poetinha, percebemos uma mulher mais libidinosa, luxuriosa, que em pouco ou nada lembra a devotada esposa, dos olhos caridosos com aspecto de cuidadora, de mãe-mulher.


Vejamos porque, em "Conto Rápido"


Todas as manhãs de sol ia para a praia , apertada num maiô azul.

Por onde passasse, deixava atrás de si olhares de homens colados a suas pernas douradas,

a seus braços frescos.

Os fornecedores vinham para a porta, os velhos para a janela,

as ruas transversais movimentam-se extraordinariamente à sua passagem cotidiana


[...]


O corpo era de vinte anos,

no entanto, os cabelos pareciam velhos,

mortificados de permanentes

e, faltava-lhe aos olhos verdes a luz da mocidade.


Em outro, Vinícius alude À mulher que veio das sombras, o trecho é de " A mulher a sombra":


A aurora é uma mulher que surge da noite,

de qualquer noite - essa treva que adormece os homens e os faz tristes.

Só a sua claridade é amiga e reveladora.

Ao poeta mais nobre não seria dado desvendá-la em sua humildade extrema.


[...]


A aurora dos que sofrem, a única aurora.

Aquela mesma que eu vira um dia, mas cujo segredo não soubera revelar.

Uma mulher que surge da sombra...



É , para o poetinha, o mesmo que conseguia ser doce e dedicar uma flor à uma menina que gosta de brigadeiro e que tem um andar de pajem medieval, a mulher é encantadora em seus dotes, em suas curvas, alucinante aos olhos do mais nobre homem, o poeta, confuso entre o entendê-la e o amá-la. Vinícius é o poeta do amor, mas, sobretudo, é o poeta das mulheres.


Se aos vinte anos, o poetinha carioca sonhava com a amada de sua vida, ela, única mulher que iria dormir todos os sonos de sua vida ao seu lado, cerca de 25 anos depois, torna-se mestre em odes ao feminino que não necessariamente rima com a "amada eterna e única". Ele mesmo, não contente com uma, teve nove esposas, para ele o amor era sempre mais, sempre poderia dar mais e, caso não estivesse dando, é porque não era mais amor, era preciso resgatá-lo, seja em que braços for.



Claro que em Caminho para a distância também constam alusões ao corpo feminino como fonte de prazer, os seios, os braços, as pernas, mas, ainda assim, isso é feito de maneira tímida, quase ingênua, ingenuidade essa que desaparece aos poucos na prosa madura de Vinícius.


O que vemos na Bossa Nova é uma reprodução de muitos textos e da prosa, agora cantada, de Vinícius , a mulher cheia de curvas é aquela garota que desfila em uma famosa praia carioca, a arrebatar os olhares de todas as gentes, seria ela a mesma moça do "Conto Rápido", aquela cujo corpo atraía para si os olhares de todos nos arredores?


Não podemos esquecer também do fato de que muitas canções de Vinícius tiveram co-autoria de Tom Jobim, outro grande apreciador da espécie feminina. Até hoje a tal Garota de Ipanema é alvo de curiosidade, e não há quem não a tenha feito o protótipo perfeito da mulher carioca, presente no imaginário social, continuamente referenciada em tantas outras canções, mesmo que não sejam mais Bossa Nova, o mito foi criado, a mulher carioca, a garota de ipanema, a mulher enfim, duas ou uma pessoa?


Acredito que a resposta não seja tão simples, mas podemos questionar uma coisa: nem uma, nem duas pessoas, mas um mito, algo que está para além do conceito de objeto de consumo, acredito que a mulher na Bossa Nova, estereotipou , em geral, a mulher brasileira, dotada de curvas e de um "nãoseioquê", também conhecido como "balacobaco" ou "ziriguidum" de que nenhuma outra no mundo parece ser provida. Devemos isso a Bossa Nova.


Ao fim de tudo isto e de tantas reflexões a gente pode dizer que a mulher, seja a mulher cantada aos vinte anos, ou anos 45, 50, é uma mistura, uma profusão de mistério , suavidade e candura, que, do mesmo modo que confundia a cabeça do velho Freud (não esqueçamos jamais do célebre continente negro!), mexia com a cabeça e com o coração ( porque poesia não é ciência!) de nomes como Vinícius.
Em Psicanálise, precisou Freud revelar que não entendia, não havia solução de se compreender a sexualidade feminina para que tantos outros também repetissem a mesma ladainha, o que gerou um certo estigma sobre o feminino dentro da teoria psicanalítica: E há de surgir aquele que a entenderá, aquele que desbancará Freud e finalmente retirará o véu que esconde a garota de Ipanema, ironicamente, tão descoberta em seu biquini ou em seu maiô azul?
Seriam duas pessoas diferentes, a garota da Bossa e a da Psicanálise? Se pensarmos em Freud, lembraremos do feminino quase sempre relacionando-o com as histéricas, Paris, Charcot e o hospital Salpetrière, mulheres neuróticas e recalcadas, mudas diante do poder fálico, a elas só cabia encenar.
Já a mulher da Bossa, a mesma garotinha encantadora de Ipanema, não parece nada recalcada, nada muda, ao contrário, "sua beleza é um avião, demais para o meu coração", poderia algum poeta comentar. Voltando ao poema da "Mulher e a sombra", verificamos que, engraçado, a mulher também não era tão entendida pelos poetas.
Será que Freud errou? Não era ele que alegava a superioridade dos poetas sobre os cientistas em relação a todo assunto que fosse ligado aos estratagemas inconscientes? Engodo.
Estes senhores tão devotados à figura feminina não saberiam tantas coisas mais do que os homens da ciência, a questão é que, o que velho Freud e seus seguidores tentaram fazer e teorizar acerca da mulher, não deu muito certo, o que nos deixa a alternativa descoberta por Vinícius : "Se não entendemos, que ao menos se cante sobre seus mistérios, mas não esqueçamos de seu andar, de seu requebrado".


Resultado: Bossa Nova 1 X Psicanálise 0

Retorno!

Como é bom estar de volta ao meu aconchego.
Permaneço aqui, porque assim me permitiram...
A partir de hoje, estamos voltando para casa!
Quem apareceu no moveracheronta finja que nunca esteve lá e retorne a este lugar, se é que alguém lê isso!

domingo, fevereiro 07, 2010

A Esquisita Esquisitologia de Wiseman



O que faz uma pessoa reconhecer um sorriso verdadeiro? Pessoas que sorriem mais vivem mais? Qual é a piada mais engraçada do mundo? Nascer em janeiro faz de alguém mais sortudo do que quem nasce em Julho? De que maneira poderemos distinguir quem fala a verdade de quem mente?



Estas são algumas das perguntas esquisitas as quais assombram e fazem parte da vida do cientista inglês Richard Wiseman, autor do best seller O fator Sorte (2003) e , mais recentemente, do interessantíssimo Esquisitologia: A Estranha psicologia da vida cotidiana (Editora Best Seller, 2008). Em Esquisitologia, Wiseman nos mostra tudo aquilo que achamos que não é ciência de maneira científica. Cercando-se de questões que assombram grande parte de pessoas que podem ser chamadas de "curiosas" , o autor inglês nos ensina que a Psicologia também pode tratar de pequeninas temáticas cotidianas.


Sim, a Psicologia não é apenas complexidade. Ao contrário, Wiseman revela ao curioso e atento leitor que a Psicologia nasce mesmo são das questões miúdas, das aparentemente inocentes questões que nos perseguem desde a infância e , com o passar do tempo, acabamos negligenciado, achando que nada disso terá importância em nossas vidas adultas, atribuladas...e complexas.


O livro de Wiseman conta com seis capítulos em que o autor nos fala sobre mentira e verdade, piadas, nomes e horóscopo, fator sorte , mensagens subliminares, altura de candidatos à presidência, longevidade, música e consumo, etc. Diante destas temáticas, um leitor menos atento poderia pensar que o livro pende mais para o humor do que mesmo para o cientificismo, aquele, de Comte, companheiro velho de guerra. Nada de Wiseman combinaria com Positivismo.


Pelo contrário: Richard Wiseman nos prova por A + B, munido da mais pura Psicologia Experimental ( os termos "Wundt", "Cão de Pavlov" e "caixa de Skinner" te fazem lembrar de algo?) que, sim, dá para saber qual cantada atrairá mais mulheres do que homens, que anúncios de jornal atrairão mais pretendentes e que tipo de abordagem fará um garçom de restaurante receber gorjeta maior. Richard cita em seu livro Freud, Sócrates, Aristóteles, Galton , uma série de renomados homens que tiveram seus nomes vinculados à Ciência, e, para além de citá-los , põe em prova os conhecimentos sobre tantas das temáticas estudadas com afinco por estes nobres pensadores.


Como se pode notar, Esquisitologia ( derivada do termo inglês "quirkology") não se apresenta como uma "nova corrente" psicológica, tampouco Wiseman pleiteia sobre a hegemonia dos "esquisitologistas" em matéria de Ciência. O livro, a despeito do que muitos podem pensar , está repleto de referências a outros pesquisadores que costumavam e costumam levar a sério certos temas que a maioria de nós consideraria "menores" ou "sem relevância para o desenvolvimento do conhecimento científico" - academicamente falando.

Um exemplo disto é o experimento de Jastrow, famoso psicólogo americano que nutria grande interesse pelo ilusionismo e por experiências oscuras e assustadoras. Para se ter uma idéia sobre Jastrow, no fim do século XIX, o famoso médico dedicou muitas experiências ao entendimento do que acontecia por trás do tabuleiro Ouija ( nos Estados Unidos , o tabuleiro Ouija é uma espécie de "jogo" utilizado por pessoas que desejam manter contato com entes queridos que se foram; é algo muito utilizado em sessões espíritas até hoje neste país).


Jastrow demonstrou em suas experiências com mágicos que muito do Iluminismo não tem a ver com a velocidade empreendida pelo mágico em manipular os objetos, mas sim de persuasão e percepção da platéia.


Wiseman considera-se um fã de Jastrow, definindo-se, também, como um grande entusiasta do ilusionismo, espectador constante das comédias do grupo inglês Monte Python, e, além de tudo, um cientista muito bem humorado. De acordo com Michel Shermer, da Scientific American, Wiseman pode ser considerado como o mais interessante e inovador psicólogo do mundo atual.


Você agora pode se perguntar: Por que deste alvoroço? Tudo é muito simples. Wiseman não precisa rechaçar e denegrir Freud ( Lembram do Livro negro da Psicanálise? se não , aconselho outro título: "Em defesa da Psicanálise, de Roudinesco, lá quem quiser pode saber mais sobre isto), tampouco negligenciar a influência do pensamento dos mais aclamados nomes da Ciência Moderna, ao contrário: mantem viva o experimentalismo inaugurado por Wudnt, alia-se aos estudiosos das chamadas Neurociências e , além disto, não nega a importância das descobertas freudianas, desconsiderando os ditos "fatores inconscientes".


Em Esquisitologia parece que estamos, de novo, voltando para os temas que sempre nos interessaram e que, aos poucos, fomos deixando de lado, não por declínio do interesse, mas por subestimação mesmo, onde já se viu estudar piada ser Ciência?


Olhemos lá...não esqueçamos de Freud e de sua clássica " um charuto é apenas um charuto". Pensando direitinho, Wiseman não é pioneiro, mas não podemos dizer que ele é menos interessante e inovador por isto.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

As obscuras semelhanças entre as duas academias


Muitos desejam estare lá, pegam pesado lá dentro e, uma vez acostumados, dizem não largá-la mais. Esforçam-se, pagam com o suor do rosto e de todos os músculos do corpo juntos o preço por uma vida mais saudável, mais equilibrada.


É possível conviver com todo o tipo de gente por lá: pessoas que desejam roubar seu lugar - descaradamente - pessoas narcisistas para quem o espelho é mais do que um amigo, é um amigo confidente , pessoas deprimidas em cujas vidas nada ou quase nada há para se comemorar, por isso, é necessário que você saiba muito bem aonde está entrando, que conheça o solo sobre o qual seus pés estão firmados. Estou falando do que tenho aprendido na academia.


Talvez alguém tenha pensado que falava de outro assunto, talvez algo mais filosófico, algo até que prometesse reflexões, elocubrações das mais variadas espécies. No entanto, cabe lembrar que "academia" é o mesmo nome que se dá a duas experiências não tão distintas na vida de um ser humano como eu.


Academia = Corresponde a tudo relacionado ao ambiente acadêmico. Compreende-se que a Academia seja o celeiro de novos pesquisadores, formado por discentes e docentes os quais, envolvidos em verdadeiras e cruéis relações de amor e ódio, desenvolverão o que se convencionou chamar "experiência de aprendizagem"


Academia = Lugar essencialmente voltado para o culto ao corpo. Também pode ser denominado de "academia de ginástica", " ginástica" ou mesmo "lugar de treino". Geralmente sua imagem está associada à pessoas cujas vidas pendem para atitudes de cuidado extremo com saúde e beleza física.



Apesar destas diferenças óbvias que encontraremos nos dicionários mas que eu fiz questão de definir sem ajuda de Aurélio algum, elenquei algumas das características que, ao contrário do que possa parecer inicialmente, nos faz perceber as semelhanças entre estes dois espaços tão distintos - aparentemente.


Desde o primeiro dia do ano de 2010 tenho, com afinco, me agarrado à ideais um tanto quanto novos para mim: vida saudável e equilibrada. Com este intuito, aderi ao grupo daqueles simpáticos e não tão simpáticos frequentadores de academias de ginástica, buscando, lógico, fazer parte do grupo, uma vez que na outra academia já tenho carteirinha há mais de um ano. Vejamos:


1- Na academia de ginástica você chega como um zé ninguém; acima do peso, flácido e achando que tudo que você sabe não é nada perto daquelas pessoas tão poderosas.


2- No ambiente acadêmico - Universidade/Faculdade/Demais Instituições de ensino você chega como um zé ninguém; acima do peso ( vale lembrar que ganhou muitas calorias na base dos fichamentos e das eternas resenhas críticas feitas para obter um grau de mestre e doutor), flácido e achando que tudo que você sabe não é nada perto daquelas pessoas tão poderosas e mais "escoladas" que você.


3- Na academia de ginástica as pessoas parecem felizes e como que animadas por pilhas alcalinas de alta potência. Parecem indestrutíveis com todos aqueles músculos definidos que você, reles novato, nem sabia que existiam no corpo humano.


4- No ambiente aonde "rolam as experiências de aprendizagem e o conhecimento impera" as pessoas parecem felizes - porém nem sempre o são. Parecem indestrutíveis até a primeira fofoca, a primeira reunião de departamento e a primeira eleição docente. Nestas ocasiões de tomada de decisão e de mudança de coordenação de curso vale tudo, tal como numa luta: todos os músculos podem ser utilizados para se mandar alguém tomar em lugares que você nem sabia que existia no corpo humano.



5- Na academia de ginástica é comum se observar pessoas admiradas com o próprio reflexo no espelho. Narcisos acham feio o que não é espelho. Malham a si, aos outros e , no entanto, podem , ao fim do dia, olharem-se no espelho enquanto contraem todos os músculos que você nem sabia que existia: "Não há ninguém mais belo do que eu"



6 - Na academia/Universidade é comum se observar pessoas admiradas com o próprio reflexo no espelho. Malham a si, aos outros, e no, entanto, podem, ao fim do dia, olharem-se no espelho e diante de sua própria imagem dizer: "Não há ninguém mais inteligente do que eu".


Interessante que, apesar de tantas semelhanças em ambientes culturamente tão dissociados, pode-se perceber uma relação quase que de exclusão: O tipo "marombeiro" geralmente é considerado aquele que, na falta de exercício em outras áreas do corpo , como o cérebro, contentam-se em trabalhar os músculos que você nem sabia que existia no corpo humano.


Já o "nerd", é notadamente alguém reconhecido pela inteligência e afinco aos estudos. É aquele sujeito que faz de tudo para prolongar sua estada na Academia: Gradua-se, pós-gradua-se, torna-se mestre, doutor, pós doutor e , com isso, deixa , muitas vezes de conhecer muitos músculos que o sujeito da primeira academia cansa de contrair e descontrair.



A vida é assim, nem tudo que parece oposto o é de fato, assim como nem todo marombeiro é burro, nem todo nerd é inteligente. Assim é o caminho da vida, tantas horas de estudo e de atividades extra-curriculares não valem muito no currículo lattes da vida real, assim como nem todos que estão querendo uma vida mais saudável virarão marombeiros da noite para o dia e passarão a conhecer músculos nunca dantes trabalhados.


A vida é assim, num dia você acorda e pensa: é preciso entrar na academia.

sábado, janeiro 30, 2010

As Comédias brasileiras de Verão


" O futuro é uma folha pautada esperando a primeira anotação do ano, que tanto pode ser 'Dentista' na sexta quanto 'Deus, levar questionário' no sábado"


Luis Fernando Veríssimo



Essa é uma das frases do ótimo livro que reune alguns novos contos de Veríssimo. Comédias Brasileiras de Verão ( Objetiva, 2009) é um daqueles livros que podemos ler numa sentada, em um par de horas, durante a espera no dentista, no médico, ou mesmo durante uma aula monótona ( não podemos esquecer dos contos que Veríssimo escreveu para serem lidos especialmente na escola).

Pois bem, Comédias não traz nada muito aprofundado a não ser que você goste de adentrar pelos meandros dos tão explorados conflitos entre homens e mulheres. Em sua maioria, os contos de Veríssimo exploram estas relações tão difíceis entre as pessoas com os costumeiros humor e ironia que só mesmo o autor gaucho é capaz de imaginar.


Desde um pé inoportuno roçando outro debaixo da mesa, ao ciúme patético de um homem apaixonado, Veríssimo nos faz entrar nos lares das famílias de classe média, compostos, não raramente por homens e mulheres entediados com a relação e que deixam transparecer seu descontentamento nos mínimos detalhes e pelos mais variados e inusitados motivos:


" Higino era o que se chamava de um rapaz 'bem-apessoado', em contraste com a sua namorada Naralei, que tinha um nariz que só podia ser chamado de hediondo, como certos crimes. Ninguém entendia por que o simpático e talentoso Higino, que podia ser o que quisesse na vida, namorava Naralei, que era tudo que ele não era"


O tirano - Comédias Brasileiras de Verão



Veríssimo sempre pareceu muito apto a falar sobre as pequenas coisas do dia-a-dia que chegariam ao nível do trágico se não fossem cômicas, as personagens masculinas idealizadas pelo autor vão do ciumento possessivo que chega a imitar um cachorro tudo para não ser flagrado vigiando a amada até os inseguros machões que precisam entrevistar cada parceira para ter certeza de sua potência sexual. Das femininas então, muito se pode falar.


Temos uma grande galeria nestas deliciosas Comédias, desde Mariazinha, a mulher média, comum, trabalhadora que não sabe se vestir para encontrar um homem e sentir-se mais feminina até Ana Luiza, a tal moça que, sorrateiramente roça seu pé na perna do amigo de seu marido. Não podemos, como se pode notar, falar de uma ética nestas personagens tão únicas pensadas por Veríssimo: muitas vezes, é mais divertido não ter ética nenhuma.


Por este motivo, espia-se por trás de um poste a mulher amada, pensa-se com alegria numa possibilidade fortuita de traição conjugal, finge-se que um orgasmo é verdadeiro toda vez que assim o fazem crer.


As personagens destas Comédias transitam entre o cômico e o trágico, sem nem por isso fazê-lo de maneira pesada, mesmo quando se trata de uma tentativa de suicídio ( a vizinha leonina do homem capricorniano): É que pelas mãos, pela pena de Veríssimo tudo é risível, até mesmo a impostura,o desprezo e o desespero.


Vale a pena tirar umas horinhas para se deleitar com este imperdível livro. Sua vida não mais será a mesma quando descobrir que as neuroses suas de cada dia não lhe são tão exclusivas assim...

domingo, dezembro 27, 2009

Sobrevivendo a um papo-cabeça



Mal pude conter minha euforia quando encontrei um pequeno, porém curioso título numa prateleira despretensiosa de um supermercado, lá estava o Pequeno Manual de filosofia para sobreviver a um papo-cabeça (Editora Agir, 2008), olhando para mim, não pude evitar: levei-o.


O livro, escrito por Sven Ortoli e Michel Eltchaninoff, um físico, outro filósofo é um interessante manual, tal como está expresso no título, para que possamos sobreviver àquelas conversas intermináveis nas quais , muitas vezes, somos jogados, assim, de pára-quedas, e nos vemos perdidos, encrencados, no popular: metidos numa enrascada.


Dividido em capítulos que nos lembram todos os rituais típicos em que se constituem um jantar qualquer, tais como "O aperitivo" , " As entradas", " O prato principal", os autores discorrem sobre as trivialidades que fazem parte de um nem sempre agradável encontro entre pessoas que mais desejam aparentar uma cultura inexistente do que serem claros e objetivos. De Slavoj Zizek, a quem chamam de astro pop da Filosofia, à Simone de Beauvoir e seu segundo sexo, os autores nos dão divertidas dicas para entrarmos na onda e não nos sentirmos massas acéfalas diante de um caldeirão de intelectualidade. Não, com o nosso manual nas mãos jamais seremos chamados de frívolos, ignóbeis, tampouco obtusos.


Em "O aperitivo", no tópico chamado "Do bom uso da citação", os autores dão um show de humor e ironia, tudo escrito com a pena do sarcarmo, desmascarando aquelas pessoas que tão bem conhecemos por trás dos discursos pomposos e elegantes. Não podemos esquecer uma das preciosas lições que o manual nos ensina:


" Assim como os aperitivos, o emprego das citações exige equilíbrio e atenção incansáveis. Todos têm um pequeno arsenal cuidadosamente equipado, testado e, supõe-se, pronto a ser acionado. É mister, porém, saber utilizá-lo no momento certo". (p.27)


De acordo com Sven e Michel, desafiar as citações de alguém pode revelar-se perigoso: "você pode passar por pedante ou agressivo". No entanto, cabe questionarmos: será que o objetivo dessas reuniões da "massa pensante" , da "nata intelectualóide" não são, a rigor, justamente claras demonstrações de pedantismo regadas por uma agressividade velada? Sim. O são, e por isso mesmo, lançar mão de um manual como este soa apropriado e até mesmo necessário, isto constitui-se na mais genuína tática de guerrilha, autodefesa pura, acredite.


"Massa crítica", "Desconstrução", "Situacionistas", " Gênero" e "Hipermodernidade" são outros conceitos explorados pelos autores e que fazem o público leigo, a mesma massa acéfala da sociedade, aquele 1% da população mundial que não leu Dostoiévski e tão pouco já ouviu falar em Hegel, entender um pouco os maiores pensadores da Filosofia até hoje, e isto significa dizer que o livro vai de Sócrates, como dissemos, até Zizek.


Além de mergulhar o leitor numa verdadeira aula de filosofia bem descontraída, também podemos sempre nos deliciar com a ficção construída pelos autores, sobretudo no que diz respeito aos perfis psicológicos de alguns tipos com os quais podemos nos deparar quando estivermos inseridos numa reuniãozinha de egos desse tipo. Não raramente encontraremos certos tipos dos quais devemos nos proteger de alguma forma, como, por exemplo:



1 - Jornalósofo: [...] o sujeito não é, ou não é exclusivamente, filósofo; ad minima, fez estudos de filosofia, recusando energicamente o rótulo de 'jornalista', embora tenha pelo menos um programa de rádio, uma crônica num noticiário e artigos regulares publicados na impresa diária regional [...] É facilmente reconhecido pelo visual. Num jantar superchique, ele aparece de gola rolê, conciliador e sem afetação, exibindo extrema smplicidade, realçada por sandálias e dar inveja aos franciscanos". (p.24)



2- O antenado: "Ele não é desses intelectuais para quem a filosofia termina onde a vida começa, a verdadeira. Para ele, 'D & G' não evoca apenas o binômio Deleuze-Guatarri, mas também uma célebre grife de moda. [...]. Baixinho, olhar faiscante por trás dos óculos de aros de metal, lembra vagamente um John Lennon diretor de cinemateca". (p.31)


3- O musicólogo pirado: " Casaco de couro, blue suede shoes e mecha grisalha. (p.35)


4- O neo-hippie: " adepto de valores autênticos, apóstolo do trabalho em cooperativa e do estilo ethnic chic [...] expelindo superficialidades com uma voz meiga e um sorriso digno do buda alcançado o último degrau da verdade, ele vê filosofia em tudo.


5-O vilão: " Você fala das próximas férias? Ele anuncia com fleuma que está de partida para a Coréia do Norte [...]. O assunto é política? Opõe-se categoricamente à independência do Kosovo e improvisa uma homenagem póstuma a Milosevic. [...]" (p.74)



Sem dúvida, seja qual for a "cena" do momento, não poderemos nos desvencilhar deste tipo de reunião; acredite: cedo ou tarde você se verá enrascado, metido numa destas circunstâncias em que o que mais importa é arrotar eloquência e destilar um veneno pseudo-cultural. Filosofia pode não ser o prato principal sempre; é possível que você tenha que trazer na manga um manual específico sobre cinema novele vague, expressionismo alemão, vanguarda literária, estar a par do que se passa na cena cult berlinense, e , claro, saber quem está na capa da Bravo! do mês.


Devemos também saber nos portar, vestirmo-nos com acessórios vintage, utilizar maquiagem demais ou de menos (nunca o razoável), também devemos ter em mente, tal como dito no livro, uma ou duas citações, de cabeça, mesmo, isto é imprescindível.


As preferidas do momento são as que fazem referência ao Pequeno Príncipe, se você for mulher, digo, uma mulher no início da fase adulta, beirando os 25 anos, certamente terá que trazer no bolso uma citação de Clarice Lispector, algo que fale de "dor", "vazio" e "medo", não necessariamente nesta ordem.


Falar de Freud também pode ser interessante, mas acredito que os autores pós-modernos estejam mais em voga. Citar Debórd, Susan Sontag e Zizek fazem toda a diferença, isso demonstra que você é alguém extremamente sábio e antenado no que acontece atualmente. Não podemos esquecer também de citar em algum lugar, qualquer que seja, uma referência à Chico Buarque, Clara Nunes ou Cartola ( que ficou mais conhecido pela multidão quando do lançamento do filme Cazuza, verdade tem que ser dita).


Uma gafe? Citar poesia talvez não seja nada bom. É considerada uma arte menor, pois, qualquer obtuso é capaz de decorar um "Soneto da Fidelidade", quero ver mesmo é entender " Deus está morto", de Nietzsche. Outra coisa também que poderá prejudicar-lhe é não saber francês, sequer um "L'amour"? Vire-se com o que souber, nem que seja um Eau de parfum. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena , acredite, tudo depende do sotaque, muitas vezes.



Bem, a despeito da minha vontade, a lista termina aqui; porém a cada dia que passa descubro novas artimanhas , novos interesses e trejeitos da população pseudo-cult com a qual convivo , mesmo contra vontade. Por ora, contento-me com meus próprios conselhos e com as pérolas graciosas do manual, que, com certeza, se não me fará mais culta, ao menos me oferece a oportunidade de rir muito dessas circunstâncias tão entediantes. Mais que recomendo.