segunda-feira, outubro 22, 2007

Como viver o resto das nossas vidas




Quando se chega a uma certa idade na vida em que o sujeito não se encontra nem entre os que começaram a viver mas também não pertence ao grupo daqueles que já viu tudo que há de mais estranho nesse mundo, é que se começa a pensar com uma espécie de maturidade verde.

A maturidade verde é quando não se vê o mundo com os óculos coloridos da infância, nem se usa as lentes psicodélicas da adolescência, mas sim enxerga o mundo com a lupa adequada para a idade em que se começam a definir certas coisas em sua vida.

Quando se traz essa lupa nos bolsos, o sujeito já sabe o que são extratos bancarios, conhece o valor do dinheiro, de um abraço e da saudade. O sujeito, presume-se, não tem mais toda a vida pela frente mas consegue ter uma pontinha de esperança por justamente dispor de um certo tempo para acertar como quer passar o resto dos seus dias.

Acredita-se que nessa fase em que jánão reinam as flores da primavera e começam a surgir no chão as primeiras folhas de outono, o sujeito já saiba exatamente o que quer, ou parcialmente. Acredita-se que não faça confusão por um copo de leite frio, por uma discussão qualquer. Acredita-se, piamente, que saiba dar valor às pequenas coisas e veja que, na realidade, elas são as mais preciosas.

Durante essa fase é que ocorrem as primeiras perdas, ou geralmente deveriam ocorrer. No entanto, existem muitos ganhos no caminho. Espera-se que o sujeito tenha encontrado alguém que faça diferença em sua vida, com quem possa já pensar em passar o resto e suas vidas junto, posto que nessa época o sujeito, por ter vivido muito, começa a ter discernimento sobre o que é bom e o que é ruim, o que vale a pena manter e o que merece ser acalentado.

Nessa fase, presume-se que o sujeito não tenha mais o ânimo para viver em constantes buscas, deseja-se uma tranquilidade que antes era vista como tediosa. O sujeito maduro-verde quer alguém para construir a sua vida que, se não está começando, também reserva muito para ser vivida.

Se você se enquadra nessa classificação, não deixe que as coisas realmente importantes para você evanesçam, percam sentido. Aprecie cada momento como uma promessa de vida, saiba calar para não magoar as pessoas que lhe são importantes. Se você já não se acha adolescente, passou há muito pela infãncia e não chegou ainda na fila dos idosos, saiba valorizar a vida ou o que resta dela, abrigando em si os sonhos que agora podem se tornar realidade, não jogando fora o que é útil, mas fazendo a vida valer a pena.

Para a vida valer a pena não é necessário ganhar 20 mil por mês, não é necessário ser magérrimo ou lindo. Para a vida valer a pena é preciso viver em tranquilidade, com uma pessoa que, dentre muitas que você já conheceu, se mostrou especial, desejar compartilhar bons momentos com ela, provavelmente vai se pensar em filhos, em netos, em uma casinha simples para receber amigos e viver aqueles momentos que, de fato, serão importantes quando você olhar para trás e ver que a vida, agora, está passando mais rápido.

É só nesse momento então, que talvez se saiba o que foi importante na vida: Não é formação acadêmica, nem as cifras que conseguiu guardar na vida, nem o número de pessoas com quem se relacionou, nem quantos empregos já teve.

Nesse momento, quando a vida já caminhar a passos largos a sua frente, em sua direção, você apenas vai se lembrar é do primeiro choro do seu filho, do primeiro beijo com a pessoa especial em sua vida, com o primeiro abraço do seu pai, o primeiro passeio no parque de diversões, as histórias por trás das fotos de família, o aniversário da sua mãe, os sorrisos, as lágrimas, o amor, a felicidade, as tristezas e os obstáculos vencidos.

Porque a vida não é muito mais do que essas experiÊncias que, por menores que sejam, nos tornam humanos e sobretudo, nos tornam eternos na lembrança de alguém que vai nos ver partir. A vida é isso, um cheiro de creme que aparece na memória de vez em quando, fotos e lembranças.

Dê valor a sua vida, pense-a além da materialidade e do cotidiano que aprisiona. Se você acha que já chegou nessa etapa, não deixe o que é valioso escapar, nem acalente o que não merece estar em suas memórias. Pense nisso.

Porque se é preciso escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho para ser feliz. Que você não perca seu tempo mais, e, mesmo que não tenha tanta consciência ecológica, que seja adepto da boa leitura, mas, especialmente, conheça alguém especial, para que o filho seja realidade...se isso realmente importa para você.

Se não, desconsidere esse texto e prossiga com sua vidinha, fingindo ainda usar as lentes infantis, retartando os óculos da adolescência. Enganar-se também é viver, mas eu, particularmente, prefiro viver sendo maduramente verde.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Eu quero.






Quando se quer algo avalia-se: Será que é possível? Por que eu quero? O que posso ganhar? O que posso perder?


Quando se quer algo, acredito que não se desiste, nem mesmo face aos maiores problemas, apenas se permite, insiste, resiste. A tudo que não for o seu desejo. Se seu desejo for forte e você tiver forças suficientes para aguentá-lo, aí, você vai conseguir.

Quando se quer algo se luta, não se fica na cama esperando a chance chegar. Quando se quer algo, se luta e se deseja ainda mais. Investe-se, sonha-se, mas com os pés no chão. Sonha-se, claro que nem sempre se chega ao longe apenas sonhando, mas o sonhar alimenta o desejo e é necessário para que a luta seja diária, menos cansativa.

Quando se quer algo se agarra a chance com todas as chances, se quer e se quer mais e quando não se tem, só resta querer mais.

Claro que dá medo, de tudo que você investiu, e de repente, aquilo não for exatamente o que você desejou. O que se ganha? ExperiÊncia, no mínimo.

Eu venho aqui hoje dizer que quando se quer algo se demonstra com o coração, com todo o amor que você tem dentro dele e com toda a força que você supõe ter. Segue-se dia após dia, numa luta diária, interminável mas, nunca cansativa, porque você tem um objetivo.

Objetivo: Pode ser uma viagem, um amor, um chocolate importado, um regime, uma nota alta, um curso, uma roupa. O desejo pode ser desejo de qualquer coisa, contanto que nos mobilize, nos faça acordar para a vida e pensar: Eu quero, sem isso nao vivo feliz, e eu conseguirei.

Por que conseguirei? Ora, porque lutei. Conseguirei porque meu desejo é imenso, carregado de expectativa. Eu quero, e eu posso tudo diante das adversidades...até vencê-las.


Eu quero, eu tenho medo, às vezes recuo, mas uma coisa é simples: Sem isso não sou, sem isso eu posso até ser, mas o que importa é que não sou e isso pode me trazer a alegria perdida. Eu quero, agora eu sei mais ainda que eu quero, e eu, a partir de hoje, vou conseguir.


Não é auto-ajuda. É perserverança. Eu quero, eu posso e eu vou sim, conseguir. A mim que sobre paciência e determinação, a quem me espera paciência, e determinação, e ao destino, que se cumpra sem interrupções.

E um dia aqui vou dizer : Eu consegui!

sábado, outubro 06, 2007

O bem!



Fiz uma descoberta que me fez atentar para muitas coisas desta vida tão ligeira: Quando se está triste, com o coração apertado, abalado, o melhor é fazer o bem. Como assim, fazer o bem?! Sim!! Fazer o bem, sem olhar a quem. Já diz o velho ditado.
Por mais mágoas que existam em seu coração, aprenda a perdoar, a nutrir bons sentimentos e a enxotar o mal de você. Sim, parece auto-ajuda, e é. Parei de querer apenas sublimar, vou fazer algo para as pessoas que sinto precisarem. Somente a bondade é capaz de remover uma mágoa, uma dor.
Ao invés de perder tempo imaginando vinganças, castigos divinos, avalanches e tragédias na vida de alguém, dê a volta por cima, levante-se da cama, olhe a janela, veja o sol, respire a natureza, valorize um pássaro, valorize a vida, a saúde, coisa que nem todos tem, valorize seu coração tão grande, pro qual sempre há elixir. Por isso...encontre amigos, ria com eles, conheça pessoas, cante uma canção, ria com um filme, ria com uma piada, ria até mesmo com um desenho, ria de si mesmo, mas ria.
Ah, também é importante entregar seu coração a causas que mereçam toda a ternura que você sabe existir nele. Estou procurando a minha maneira de contribuir para um mundo melhor, e, que se eu não conseguir ajudar o mundo, ajudarei a quem precisa. E isso comecei a fazer, lentamente.

Somente fazendo o bem é que criaremos a corrente do bem. Dèja Vu? Filme? Sim. E vale a pena. Não pense em rcompensa divina, mas pense que fazer o bem fará o mal ser esquecido e a dor sarar. Faça o bem pra um vizinho, faça o bem para um empregado, pra alguém que achar necessitado. Faça o bem, puramente o bem, mesmo que um dia se aproveitem do que vc deu, faça o bem, abra os olhos sempre com um novo olhar a cada dia, distribua sorrisos mesmo quando o coração chorar, faça valer a pena os dias da sua vida perdidos em tristeza e dor, faça-se sol, faça-se Luz, e faça-se sobretudo a felicidade, que se não é um par de botas, pode ser uma meia colorida.

Eu estou aqui, fazendo o bem às pessoas que acredito merecerem, e que, por mais que um dia me esfaqueiem, viverei feliz por ter ajudado a quem acredito especiais. Por isso, não tenha medo de dizer "eu te amo" para um amigo, para um namorado, mesmo que não seja recíproco, diga, as palavras que são ditas com amor trazem amor para seu coração, não importa o que pensem, continue o mesmo ser especial que um dia disseram que você é. Dê bom dia na rua, deixe de buzinar por besteira, ofereça ajuda a um amigo triste, tenha sempre em si a meta de causar um sorriso com seu sorriso, ofereça uma mão, mesmo distante, a alguém que está doente e precisa de carinho.
Seja amigo, cordial e, sobretudo Leal. Você nada perderá em ser assim, e se você um dia for tachado de otário, tudo bem, o que importa é nutrir e cultivar bons sentimentos. Seja superior, seja alegre, não alienado, mas alegre por viver. Reze, agradeça a algum Deus a sua vida, a casa em que você mora, os livros que você le, as oportunidades que você tem, os amigos que você faz, as pessoas que te querem bem, a inteligência que você sabe cultivar, e o bom coração que é a melhor cura para qualquer tipo de dor.

E que a vida seja sempre alegria e que o pranto se apague a cada sorriso que eu der. E que a luz do sol desmanche a escuridão e a sombra que habita aqueles que tem em preto o coração. Eu sou sol, sou amarelo, sou sorriso. E nada que não seja isto irá me deter, e sigo em frente, colhendo os pedaços de mim pelo chão, guardando-os em uma cestinha, e oferencendo-o a cada pessoa que cruzar por minha vida.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Na era de Bono Vox



Em " Os tempos hipermodernos", Gilles Lipovetsky e Sébastien Charles discutem de maneira fluida e instigadora os tempos em que nós vivemos. Em toda a trajetória do pensamento de Lipovetsky está presente o dualismo do sujeito contemporâneo, preso entre o fomento à responsabilidade ( seja prático, seja humano, seja sobretudo ético, não somente política, mas ecologicamente correto) e às práticas consumistas (consuma não para rivalizar com outrem, mas consuma visando o prazer, a satisfação).

A obra de Lipovetsky, como se pode supor, não faz apologia dos tempos pasados, da era do Simbólico, como muitos psicanalistas, mas observa os fenômenos sob perspectivas mais reais, menos ideais, mais flexíveis - como caraterísticos da sociedade em que vivemos. A mídia tem sim seu poder em alienar os sujeitos, em ditar comportamentos, mas, ao mesmo tempo, promove acesso democrático à informação, permite que esse mesmo sujeito assuma sua vida, tenha a autonomia necessária para agir. Ou seja, para Lipovetsky, não existe apenas uma face boa, nem uma face ruim; ambas coexistem de forma a gerir o sujeito de hoje. Assim, pode-se pensar, o que fazer? Qual nosso papel numa sociedade e em que, aparentemente, somos guiados, tanto rumo à alienação, como à autonomia, mas, de todo jeito, guiados?

Não, Lipovetsky não pensa o sujeito contemporâneo como alguém passivo ao mundo ao seu redor; às mudanças téoricas, políticas e midiáticas. Ele pensa que há, sim, possibilidade de transformação, de mobilidade. Como? Através da tomada de responsabilidade.


É sendo responsáveis que poderemos existir numa sociedade em que já não existe certo e errado e em que impera a autonomia, a ampla gama de opções e o livre arbítrio. Ser responsável, nos tempos de hoje, é poder agir conforme uma ética, não mais uma ética vinda de fora, capturada pelos ouvidos, impostas como superego; a ética de hoje é extremamente pessoal, subjetiva e baseada nas paixões.


Dessa forma, torna-se uma escolha ser responsável ou irresponsável (apesar de que ambos existem no cerne do sujeito de hoje, impossível negar), porém e preciso que se escolha mais o viés responsável para que possamos viver em um mundo, digamos, que se não pode ser igualitário, que possa ser justo. No fundo, a existência hoje não está mais centrada no bem-estar social , mas sim, no bem-estar pessoal.


Assim, ser responsável é uma escolha diante do inevitável irresponsabilismo, ser ecologicamente correto é uma escolha e um diferencial entre os sujeitos. Assim, fulano não é mais representado pelo que tem, não , já foi o tempo do ser pelo ter, agora somos testemunhas do parecer pelo ser; fulano então não é descrito como, Maria da Silva, 32 anos, bióloga; é descrita como Maria da Silva, 32 anos, responsável, não joga lixo no chão, não escova os dentes de torneira ligada, contribui com três ações por dia para tornar o mundo em que vive mais saudável.


É interessante quando vemos isso acontecer frente aos nossos olhos. Atualmente vê-se o crescimento da preocupação com o aquecimento global, com a queimada nas florestas, com o desaparecimento da camada de ozônio. Tudo muito no nível da aparência, regido por uma ética pessoal, subjetiva: alguém me disse que é "in" ser contra Bush, saber falar sobre o protocolo de Kyoto, contra o desmatamento e fazer ações ecologicamente corretas, reciclagem, etc. Alguém me disse, alguém faz, e isso gera uma satisfação pessoal, assim, faço eu também.Se puder estampar isso, em uma camisa, ótimo. Todos saberão que sou contra Bush, reciclo papéis e sei quantos porcento de mata atlântica são devastados por ano.


Desse modo, vê-se Madonna, Elton John, tantas outras bandas famosas fazerem discursos ecologicamente corretos, vê-se os "Live aid" "Live Earth" e afins visando mobilizar um sujeito ao mesmo tempo alienado e autônomo, guiado pela mídia e que tem em Bono Vox o modelo de sujeito contemporâneo, abrigando o responsável (atitudes corretas, ações de solidariedade) e o irresponsável (representante do rock'n roll como arte subversiva, em outras épocas) em seu cerne.


Sim, vamos usar a mídia, a Madonna e suas dancinhas, hoje, politicamente corretas, como modo de retirar o sujeito contemporâneo dessa letargia da qual somente a mídia, a moda e o consumo podem retirá-los.


Assim, cabe perguntar: Há erro nisso, se, inegavelmente as pessoas estão cada vez mais cientes dos males que faz ao planeta, aos problemas advindos de tantos séculos de negligência para com o "planeta azul"? Não, é preciso ver o lado bom disso.


Por mais que sejamos sujeitos dotados por uma ética pessoal, subjetiva e que priorizemos o privado e o pessoal em detrimento do público e do social, por mais que não tenhamos grandes livros, grandes instituições e grandes líderes nos dizendo o que fazer, cada sociedade tem aquilo que merece. Temos Bono Vox, Live earth e Al Gore, este último revestido pelos poderes midíaticos, está mais para o show business do que para a política como nos acostumamos a entendê-la.


Portanto, que não joguemos pedras nos recursos que temos, hoje, para viver em sociedade, que possamos fazer limonadas com os limões que temos a mão, mas se pudermos sempre buscar modos para que as cascas sejam reaproveitadas em alguma cooperativa ecologicamente correta, tanto melhor.

domingo, setembro 02, 2007

Salve Freud, Salve Sarah Bernardht e sua histeria!




França, Paris, 1885


Antes mesmo da construção da Torre Eiffel, uma outra atração toma conta da cidade-luz, capital da erverfescência cultural mundial. Tudo que havia de mais moderno estava em Paris, os melhores cafés, artistas de renome costumavam confraternizar-se em ambientes em que predomina a cena intelectual.


Neste meio estava Freud. Médico, em seus 29 anos de vida, interessado em neurologia. Conseguiu uma bolsa de estudos e foi-se embora pra capital do mundo. Lá foi estagiar no Hospital Salpetrière, conhecida instituição depositária de mulheres denominadas "pacientes nervosas". Freud tinha um laboratório de neurologia a sua disposição, os melhores professores e bibliografia acerca do que desejava estudar. No entanto, seu interese começa a ser dirigido para as aulas do professor Jean-Martin Charcot .


As aulas mais interessantes na opinião do jovem médico eram as aulas de Charcot. Pacientes "nervosas" eram apresentadas à sala, composta por muitos outros jovens médicos, e ali acontecia o que veio a ser a mola propulsora do arcabouço teórico psicanalítico: A Histeria.

Freud se surpreendia com as pacientes que podiam rir, chorar, até mesmo andar , mesmo com seus membros paralisados, ao simples comando e sugestão de Charcot. Os fenômenos histéricos ali eram apresentados como se fossem encenados. Sim, a atração turística de Paris eram as histéricas do Salpetrière.


Em novembro de 1885, escreve Freud a Martha Bernays, sua futura esposa:

" Acho que estou mudando muito. Vou dizer-lhe detalhadamente o que está me afetando [...]não sinto mais nenhuma vontade de trabalhar em minhas próprias bobagens [...] meu cérebro está saciado como se eu tivesse passado uma noite no teatro [...]”


Ah! Como é bom estar aberto a novos interesses. Freud estava em Paris pra estudar neurologia e acaba interessando-se pelas mulheres que representavam a histeria como se fossem atrizes, talvez...influenciadas por Sarah Bernardh, a grande atriz dramática da época. Sim, minha opinião é que nós, psicanalistas, psicólogos ou não, nós, como humanidade, devemos agradecer à Arte se hoje conhecemos algo chamado Psicanálise.


Exatamente, eu acredito que se não fosse o gosto de Freud por tudo que fosse de cunho artístico/cultural, jamais poderíamos ter conhecido a teoria psicanálitica, e, com isto, a história do pensamento humano perderia muito.


Se não fosse assim? Se não fosse assim, talvez o nome de Sigmund Freud fosse visto apenas em compêndios de medicina, de neurologia, falando algo sobre o nervo óptico. Sonhos? Atos falhos? Chistes? A humanidade jamais ouviria falar nisso.


Em consequencia, não haveria MelanieKlein, nem Donald Woods Winnicott, nem Carl Gustav Jung, nem Jacques Lacan. Sim, não haveria psicanálise. E como pensar num mundo sem Psicanálise? Como conceber um mundo em que não existisse Freud, o psicanalista e sim, Freud, o neurologista?


Eu, particularmente, não consigo entender o mundo sem os olhos psicanalíticos, talvez estivesse eu estudando as algas, os fitoplânctons, úlceras gástricas, geografias, tremores sistímicos, escala Richter, marte, plutão, aurora boreal, sistema nervoso, sistema endócrino, àcaros...Mas não o psiquismo humano e seus meandros.


Por isso eu hoje rezo por Sara Bernardht, rezo pelo primeiro egípcio que inventou os hieroglífos, agradeço à sociedade mesopotâmica, à Leonardo da Vinci, a Dostoievksy e tantos outros nomes que influenciaram Freud e o impressionaram a ponto de fazê-lo dar cria ao que chamamos de Psicanálise. Eu agradeço ao deus das artes, se existe um, seja ele pertencente à mitologia grega ou romana, por ter me dado esse presente, que mesmo q pertença a toda a humanidade, me faz ter vontade de abrir os olhos todos os dias e desejar descobrir algo novo.


terça-feira, agosto 21, 2007

Escrevendo com Machado e Freud




Hoje estive pensando sobre o escrever. Não é segredo para os que vem aqui ( se é que vem) que advogo em causa própria quando falo da escrita como um ato de extrema utilidade para aqueles que , na impossibilidade de passar ao ato, enveredam pelos caminhos tortuosos da linguagem. Eis o ato sublimatório.

Não vou bater na mesma tecla. Todos nós sabemos o quão útil é escrever, colocar no papel ou, mais modernamente falando, na tela, caracteres que revelem um pouco do sofrimento e que, juntos, possam ser capazes de aplacar um pouco dos sentimentos inconfessáveis ou intoleráveis. Sim, balela, todos sabemos dessa utilidade cada vez que nos debruçamos sobre uma folha de papel em branco.

Hoje pensei em outro aspecto envolvido na leitura, não menos dispensável ao processo da escrita. Chega a ser óbvio. Se eu escrevo, há um alguém a que meu texto é direcionado. A essa alguém chamamos de leitor.

Ao ler diferentes autores podemos, além de nos deter nas linhas e nos pensamentos manifestados ali a nossa frente, compreender como se dá o processo de escrita e especialmente, como cada autor constrói sua relação com o leitor, o que está do lado de lá, mas que não deixa de imprimir sua marca no papel escrito no ato mesmo da leitura.
Confuso? Machado de Assis é mestre nisso. A cada leitura das obras do autor, podemos perceber como é construída essa relação tão ambivalente entre o escritor e aquele que lê.

Nas obras machadianas consideradas injustamente “menores” como “ A mão e a luva” e “Helena”, o autor faz poucas menções ao leitor que futuramente chamará de querido, dedicado, amável e outros tantos adjetivos que beiram o companheirismo e permitem revelar uma suposta intimidade entre autor e leitor. Isso mesmo, uma relação de intimidade e mesmo de cumplicidade.

Essa mesma cumplicidade é posta em cheque em Dom Casmurro, uma vez que o autor não revela para o leitor o mistério da narrativa – afinal, nada se sabe sobre Capitu que não tenha sido dito por Bentinho, narrador que julga os fatos da maneira que lhe convém – e por isso convoca o mesmo para que descubra o que há por trás do mistério da menina de olhos oblíquos e de idéias atrevidas.

Em Machado de Assis o leitor inclusive é convidado a saltar páginas, capítulos, “ir direto ao próximo evento”, caso ache a narrativa enfadonha. Liberdade maior, impossível. O leitor é considerado como peça viva e fundamental também no processo de realização de um livro. Às vezes guiado pela mão, outras abandonado com o cenho franzido em dúvida, é esse o jogo que Machado faz com o leitor, o que não deixa de dar um caráter de cumplicidade à relação construída entre os que lêem e o que escreve.

Há quem ache que um livro está pronto quando sai das esteiras de produção das editoras e são encaixotados e mandados para as livrarias? Se engana quem acha isto, o livro nunca é pronto, ou terminado.Tampouco esse texto pretende um fim apenas por ter cessado o ato fisiológico dos órgãos motores envolvidos na escrita.
Para aquele que lê, sempre é possível apreender novas nuances a cada leitura de um livro interessante. Há quem tenha lido inúmeras vezes Dom Casmurro à espera de encontrar um ato falho, uma pista, um vestígio qualquer, “esquecido” pelo autor, que revele finalmente a consumação do adultério ou a inocência da moça de Matacavalos. Acredite. Há inclusive aqueles – e não necessariamente pode-se dizer que são autores “leigos” – que bradam ter encontrado sim, vestígios que possam conduzir à solução do mistério em torno da personagem feminina mais dúbia da literatura brasileira.

No ponto de vista do autor, ao livro sempre cabe alterações, pequenas ou grandes mudanças que possam influenciar a construção da narrativa e também o processo de leitura. É por isso que existem tantas edições e re-edições.

A escrita, cumprindo seu papel sublimatório nunca libera libido suficiente para que a satisfação seja completa, como seria caso o ato que se desejava realizar, ao invés, fosse posto em prática. Por isso, na tentativa de fechar esse buraco nunca fechado, é que se margeia tanto, é que se faz tanta borda. E haja edição, re-edição, compilação...

É isso que nos ensina Freud. Falando no próprio, é interessante notar como se constrói o processo de escrita em Freud e como isso influencia os leitores, transmissores do arcabouço teórico psicanalítico.

Observamos o extremo cuidado que o precursor da psicanálise utiliza ao juntar as palavras em frases, em capítulos. Se nos esquecermos um pouco do percurso científico e o arcabouço teórico desenvolvido por Freud e atentarmos somente no processo de escrita, podemos perceber um autor que, também como Machado de Assis, parece conduzir o leitor pela mão, para que este encontre o significado do que tão ardentemente deseja provar, ao mesmo tempo que às vezes o abandona à própria sorte.

Inicialmente Freud utilizava-se de códigos científicos para apresentar sua criação ao mundo. Obviamente a escrita fica assim hermeticamente fechada, destinada a poucos e compreendida por menos ainda. Seus estudos sobre os processos psíquicos, o chamado “projeto de 1895”, revela ao mesmo tempo uma busca pelo rigor cientificista influenciado pelo Positivismo e uma necessidade de aprovação por parte de quem lê. Ou seja, podemos entender que há aí um paradoxo em Freud? Talvez.

A partir do momento que dizemos que o Projeto de 1895 é uma obra destinada a poucos e que cumpre função de prover a psicanálise de um cunho científico através da neurologia, estamos dizendo que a Psicanálise ainda não é reconhecida como arcabouço teórico independente e subversivo( no sentido de que promove novas concepções acerca do sujeito e do sofrimento psíquico).

Aonde está o paradoxo? Está exatamente no Cientificismo. Em nome dele, Freud, mesmo inconscientemente (já que estamos na área mesmo, o termo cabe!) rejeita o leitor, nesse momento Freud abandona o leitor desejoso de conhecimento e centra-se no outro leitor, o leitor-medico, o leitor positivista. Ah! Então não há paradoxo, há uma escolha consciente (também cabe o termo) de um leitor que respalde a “ciência” que Freud concebe.

Não há paradoxo, entretanto, se pensarmos que esse leitor, desejoso de psicanálise, ainda não nasceu e para que este parto se dê é necessário que Freud convide o leitor-médico fin-de-siècle para dar validade ao que , posteriormente, tornar-se-á a teoria Psicanalítica e definitivamente, abandonará a necessidade de ser fazer valer da alcunha de Ciência.

Nesse ponto, cabe vários questionamentos, como, por exemplo, quem era o leitor de Freud? Como esse leitor foi construindo seu papel na construção da teoria psicanalítica? Partindo dessa última questão, seria bizarro demais supor um processo de co-autoria, Freud e leitor?

Não. Arrisco. Porque como dito anteriormente, quando alguém se propõe a escrever – seja uma obra literária seja uma nova teoria psicológica – presume-se, para além da sublimação inerente a si mesmo, um outro lado, o lado de quem lê.

Portanto, o leitor sempre será co-autor na medida em que está presente no processo de escrita antes mesmo de uma provável re-edição, possibilitada por pesquisas de desempenho de vendas.

O leitor está presente no desejo da escrita de todo autor. E como estamos falando de Psicanálise, vamos a Lacan: Tal como o sujeito nasce mesmo antes do ato de seu nascimento, o leitor é co-autor na medida em que nasce no desejo do autor. É como o bebê, que muitas vezes nem foi concebido e já tem nome, roupas, quarto e um lugar no desejo da mãe.

A relação Escritor x Leitor se passa o mesmo: Seja então motivado por puro narcisismo de ser lido e reconhecido como um grande autor ou por desejos essencialmente capitalistas de tornar do livro um best-seller, o leitor está ali, no desejo do autor, de ser entendido ou mesmo de não ser compreendido nas linhas em que escreve (em quem você pensou como ilustração desse exemplo?).

Por isso, seja no campo da literatura, da psicanálise, da ciência, que jamais nos desprendamos do nosso papel de leitor e co-autor, que funcionemos sempre como esse regulador no desejo de quem escreve para que nós mesmos possamos encontrar sublimação e desejo no ato da leitura.

Nos tempos em que a imagem digital comanda o mundo e a mídia se torna um quarto poder, cada vez menos pessoas se reservam o direito de serem co-autoras de tantas obras à espera de um leitor que as termine, mas, há término? Estaremos sempre destinados à reticências, sejamos nós aqueles que escrevem ou aqueles que lêem; o processo nunca se dá por terminado.

Se soubessem, aqueles que não lêem, o poder intrínseco à leitura, certamente estariam já com um livro à mão. Assim, poderíamos escrever tantos outros textos como esses, que se explicariam e se confundiriam uns aos outros, gerando outros, e outros...

terça-feira, junho 19, 2007

Era uma casa




E hoje eu vou embora. Na verdade eu já fui, mas hoje eu vou oficialmente. Vou com uma mala vermelha, uma mochila e varias lembranças. Aqui eu fui a minha melhor , pior e única companhia.
Aqui aprendi sobre a sensação de ser estrangeira numa terra que a nada se assemelha com a minha, aprendi a chorar e a rir sozinha. aprendi sobre a vida, sobre dor, amor, amizade e família. Acho que o que menos aprendi aqui foi Psicologia – aquela dos livros.
Em pensar que nos primeiros dias consegui pés machucados. Hoje, cerca de um ano depois, saio com o coração avariado. Avariado porque não necessariamente triste, nem sangrando, mas posso dizer que mal das pernas. É isso, meu coração vai mal das pernas.
Quanta dor, pra nos neuróticos, existe num simples virar de página? Falo por mim, muita.
Hoje resolvi tentar umas muletas, para o coração. Fui andar. As velhas andanças por um lugar que já chamei de lar. Senti os mesmos cheiros, das plantas, dos amaciantes de roupa de uma casa que já foi tão familiar, e hoje, embora já distante, continua parecendo um lar.
Lar. O que seria aquele lar? Uma casinha de madeira, se eu fosse Vinícius poderia tentar uma rima, ou simplesmente dizer que não tinha teto, não tinha nada. O caso é que tinha teto e assoalho. Era uma casa muito engraçada, isso era. Era uma casa que era minha, mesmo sem ser.
A minha casinha era assim, pequena mas perfeita para mim. Ali sorri,chorei, amei, esperei e estudei. Naquele pequeno espaço, que, ironicamente, costumava ser a sala de costura de uma casa só, me costurei.
Tenho que dizer que nem sempre tinha linha, às vezes só tinha que dar uns alinhavos, às vezes dava um ponto, mas muitas vezes faltava agulha.
Metáforas poéticas à parte, naquela casinha eu fui, na maior parte do tempo, feliz, mesmo sem saber que o era. Na antiga salinha de costura eu aprendi a ser gente. E os caminhos parecem ainda tão familiares...na maioria do tempo parece que nunca sai daquela casinha alemã.
Não consigo descrever muito o que eu senti, porque não inventaram ainda no dicionário o que sirva pra descrever um sentimento de pertencer sem pertencer. Não sei se me faço entender, se não, vai ver que é porque até pra mim soa confuso. No caminho pra minha antiga casinha, vendo de novo as mesmas flores, as mesmas arvores, eu pensei que ali eu fui feliz, mais talvez do que triste, aquela casa, aquela rua , aquelas flores, serão ilustrações mentais... quando eu me lembrar dali. Vou lembrar ate o dia em que eu não mais respirar, eu vou lembrar da minha casinha.
Vou lembrar do lugar em que aprendi que eu existia independente de um espelho, vou lembrar que eu era alguém, diferente dos outros, mas também essencialmente carente e dependente, dos outros.
Sim. A minha casa tinha teto, tinha porta e era engraçada. Tinha vida, apesar de ser só a minha. É verdade que nem sempre o sol aparecia – as persianas sempre fechadas. Mas eu podia dizer que ali tinha vida.
A minha casinha não é mais minha, tem outro dono. Mesmo que as minhas contas não cheguem mais ali, mesmo que não tenha eu para não abrir as persianas, mesmo que não tenha a minha bagunça, a minha casinha, na minha memória, sempre será minha.
Certamente outras casinhas virão. Mas nesta, nesta eu deixei algo, e não foram toalhas.