sexta-feira, abril 24, 2009

Entre as cartas e a verdadeira história de Antoine de Saint-Exupéry



"Não há pequeno príncipe hoje, nem haverá nunca mais. O Pequeno Príncipe morreu. Ou então tornou-se muito cético. Um Pequeno Príncipe cético não é mais um Pequeno Príncipe. Fiquei magoado com você por tê-lo destruído"



Antoine de Sant-Exupéry




Estas são as palavras amargas do pai do pequeno príncipe. Na verdade, este é um pequeno trecho de uma das cartas que Exupéry endereça a uma mulher jovem, casada e grávida. Como se pode notar, o pai do menino dos cabelos dourados como trigo parece desacreditado da vida, e, sobretudo do amor.



Em O amor do Pequeno Príncipe : Cartas a uma desconhecida ( Nova Fronteira, 2009) somos apresentados a um Exupéry diferente do que acostumamos a reconhecer através do Pequeno Príncipe.



Consta que, durante uma viagem de trem, Exupéry apaixonou-se por uma jovem enfermeira que imediatamente vira a menina de seus olhos, a musa para quem escreve cartas recheadas de um amor quase pueril, doce, mas, ao mesmo tempo, corrompido pela desesperança frente à vida.


Para os que não conhecem a história, o pequeno príncipe tornou-se célebre no mundo todo por sua doçura e simplicidade, especialmente pelo amor puro que devota a sua querida rosa, motivo pelo qual sai a perambular planetas a dentro, em busca de verdades, de amigos, tais como a raposa. O que se conhece do livro que, na verdade, é um conto é esse amor devotado, cativado e inocente o qual le petit prince reconhece na rosa, a única para ele.


No entanto, quem quer que se disponha a passar meia hora na companhia de O Amor do Pequeno Príncipe, notará que muito pouco existe de principesco nas cartas do homem Exupéry. Chocada com a desesperança e amargura do autor que conseguiu idealizar uma das personagens mais puras e belas de toda a história da literatura infantil, resolvi buscar algo mais.


Foi então que cheguei à Verdadeira História do Pequeno Príncipe ( Novo Século, 2008). Neste livro, Alain Vircondelet, competente biográfo de Antonie de Saint-Exupéry, nos revela a verdadeira face do homem por trás do mito. Eis um livro interessante. Deixo claro que o conteúdo do livro é excelente e até permite que o leitor seja um tanto indulgente no que se refere ao trabalho de edição: há erros de portugûes, há também, a meu ver, certos erros de tradução, não sei, a leitura não é tão fluida. No entanto, nada disto mata o desejo do leitor mais empolgado de ir além e dar prosseguimento a esta aventura que se chama o folhear de um livro.


Detalhes à parte, a partir deste último livro, percebo que o título da obra anteriormente citada, O amor do Pequeno Príncipe: cartas a uma desconhecida, não parece ter sido bem escolhido, há, obviamente muito em Exupéry que não é resquício da sua célebre personagem, sigamos Foucault e , por favor, deixemos esta mania de adivinhar o caráter do autor através de sua obra.


A conclusão que pude chegar é que Exupéry não é o pequeno príncipe, logo, ele não é obrigado a encarar a vida tal como seu personagem, também não é obrigado a devotar a toda mulher o amor que o principezinho devotou a sua rosa.


Exupéry era um homem em conflito, vivendo uma vida adulta insatisfatória, sempre em busca das quimeras de sua infância. Uma criaça exigente, ora doce, ora birrenta aprisionada no corpo de um homem adulto, homem este que, muitas vezes deixa-se contaminar pela depressão, melancolia e pela tristeza ante a infância perdida...Ah, agora me lembrei de Casemiro de Abreu, "Oh que saudade da infância querida".


É o que podemos entender da obra de Vircondelet: Exupéry trazia engendrado em si a marca da melancolia e da infância perdida, a tristeza ante a finitude da vida e a passagem do tempo. Compreendendo então este pano de fundo, há que se entender as cartas amargas de Exupéry à tal enfermeira.


Foi apenas depois da leitura de Vircondelet que comecei a entender que, realmente, autor não tem obrigação de pensar que nem personagem. Ele sofre, amarga, ressente-se das pessoas, do amor e da vida e tudo que não pareça com isto pode ser chamado de ficção. O Pequeno Príncipe nasceu da sublimação de um homem que, não sabendo lidar com a vida, encontrou na literatura uma forma de matar a saudade da ingenuidade ora perdida, ora desacordada. Nesse sentido, não dá para cobrar de Exupéry cartas mais doces, mais puras, cartas talvez que fossem mais da autoria do principezinho do que do homem angustiado.


É, alguns dizem que a vida imita a arte e ficção muitas vezes rima com verdade, eu cá comigo acho que Exupéry mostrou sua face de adulto na angústia e na melancolia que endereçava à enfermeira na forma de missiva.

Esqueçam o pequeno príncipe, apesar de sua celebridade. Vejam o homem que chora, que se corrói e que briga consigo mesmo. No fim, o que mais dói é termos perdido um homem tão singular de forma tão prematura: le petit prince não deixou herdeiros - consanguíneos.

segunda-feira, abril 20, 2009

Feminices e algo mais


" Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então, também é louca. E fascinante"


Martha Medeiros


Este é um trecho da crônica Doidas e Santas, do livro homônimo de Martha Medeiros. Engraçado. Eu sei que muitos nem conhecem Martha, nunca viram seus livros nas pratileiras de livrarias, a não ser agora que a globo filmes lançou Divã. Bem, irrelevâncias à parte, vou lhes dar bons motivos para conhecer melhor esta autora gaúcha que, se não é imortal, ao menos muito aprendeu com alguns deles, como Machado de Assis, por exemplo.

Os motivos para ler Martha são muitos e eu não serei presunçosa aqui de dizer que pretendo esgotá-los, tampouco pretendo convencer os mais céticos, os ditos "amantes da boa literatura".


Ora, o que faz uma literatura ser enquadrada na classse superior da " boa literatura"? Certamente alguns dirão que o conteúdo da obra - sem dúvida, isto é mais que essencial quando se pretende passar algumas horas virando páginas: é essencial que estas páginas valham o esforço muscular compreendido no virar das folhas. Outros, entretanto, dirão que uma boa literatura é feita de autores renomados. Não concordo. Há muitos desconhecidos que fazem boa literatura no quintal da casa deles, sem editora nem nada, e , mesmo assim, são ótima literatura.

Martha para mim é boa literatura. Mesmo que não entenda de psicanálise, isto ela até diz com todas as letras. Martha é boa naquilo em que todas nós, mulheres, achamos ser boas ou nos declaramos péssimas: ser mãe, ser esposa, namorada, mulher, profissional...e haja autocrítica!

É aquela coisa chamada "intuição". Alguns a reduzem e chamam de "intuição feminina". Eu , não querendo agradar nem a gregos nem a troianos, não digo "intuição" e também não particularizo com "intuição feminina".

Martha é boa em feminices. em Doidas e Santas (L & PM, 2009), o leitor vai se deparar com um compêndio de 100 crônicas que a autora publicou nos dois mais renomados jornais diários de Porto Alegre. Martha falará da necessidade imperativa de toda mulher em viver até a "última gota", de fazer todo o trajeto valer a pena, dedicando-se ao amor, às artes e em especial, a vida, em seu mistério.

Tudo bem, você pode pensar que muito já foi dito sobre o tema. Eu até concordo, afinal, feminices não é um tema nada original, no entanto, o que há em Martha de especial? Acredito que Martha tem uma sensibilidade aguçada capaz de fazer a leitora ( e agora me dirijo a elas) pensar: " - Mas é bem assim!". E isso é muita coisa.


Tal como Divã, estas crônicas de Martha, escritas no período compreendido entre 2005 e 2008, nos abrem os olhos sobre as pequenas artimanhas de ser mulher, sem , entretanto, incorrer em feminismos, em uma diferenciação que beira o radicalismo. Pelo contrário, homens também sentem suas masculinices, e como sentem! Porque todos temos nossas questões, e, o que Martha faz é falar direto a alma , ao coração, ao cérebro, enfim, ao órgão que você eleger, de quem busca um livro, assim, sem pretensão, esses que só são adquiridos para cumprir o dever com o hábito da leitura, assim, descompromissada.


Porém, que engano! São nas leituras que encontramos menos pretensão que podemos adquirir as maiores lições. Claro, existem exceções e digo mesmo que há muito livro de bolso por aí que não vale o bolso que lhe abriga. No caso de Doidas e Santas, o leitor e a leitora - aqui vamos dar vivas à igualdade entre os sexos - encontrarão uma grata surpresa de aprender, de se deixar tocar pela visão mezzo-irônica, mezzo-cética de Martha, que, afinal, deve existir em cada um que se presta a ler.


Doidas e Santas , apesar de tratar , em grande parte, de feminices, não se limita a elas, pois é, sobretudo, um livro sobre como lidar com o mistério da vida, esta que nós é dada de graça e que, nem por isso, deve ser vivida sem alguma responsabilidade.

Isso para mim já é motivo suficiente para fazer do livro de Martha uma boa literatura, ou não é a boa literatura aquela que , mesmo falando de outros, continua falando como se diretamente a nós?

domingo, abril 05, 2009

O artista é o bode expiatório?



" Se a perda da individualidade é de qualquer modo imposta ao homem moderno, o artista oferece uma vingança e a ocasião de se encontrar. Ao mesmo tempo em que ele se dissolve no mundo, em que ele se funde no coletivo, o artista perde sua singularidade, seu poder expressivo. ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmo e de atingirem o singular estado de arte sem arte"


Lygia Clark


É, é bem verdade, o mesmo que Lygia disse acima já foi dito por Foucault, já foi dito por Lacan, já foi dito até por Freud, se aqui pudermos dar um toque generalizador e não nos apegarmos à total sincronia das palavras. Tudo isto foi dito antes por outras pessoas que não Lygia, sendo que de outra forma, com outras palavras, mas o que nos interessa aqui é o sentido geral: O artista é o bode expiatório, isso, com essas palavras, quem diz sou eu.


Se não quisermos navegar por mares longínquos e nem desejamos ir muito além do Atlântico, podemos notar o caráter de susto que toda arte visa evocar. Isso também já disseram, mas digo também: Nos assustamos com um quadro, com a perfeição das formas ali esboçadas, nos assustamos com um filme, nos assustamos, indiscutivelmente, com um poema. E de onde vem este susto? Por quê me assusto?

De acordo com Sueli Rolnik e tantos outros teóricos da Esquizoanálise, todos nós possuimos um corpo vibrátil, feixe de possibilidades por si só, e possibilidades estas sempre indefinidas. Alguém também já disse isso, mesmo sem ser do metiê da esquizoanálise. Freud já o disse, em suas próprias linhas.


Nos assustamos porque possuimos um corpo que vibra, que pulsa a todo momento. No pulsar das nossas vísceras habita o corpo-bicho do qual Sueli tanto fala, e esse corpo-bicho, semi-desperto, semi-adormecido é que vai ser convocado a aparecer quando estamos maravilhados com uma obra de arte, seja esta qualquer arte, generalizo aqui.


Nos assustamos porque a arte, vez em quando nos relembra que possuimos um corpo que reage e age , que vive ali, aonde tantas vezes duvidamos que viva, um corpo que dá sinal , para muitos, somente quando adoece. Alguém também já disse isso, aposto que foi o pessoal da Psicossomática.


Uma coisa aqui que não sei se já disseram é essa coisa de artista e bode expiatório. Acredito que se se tratasse aqui de um texto científico, artigo, resenha ou coisa que o valha, eu estaria imensamente disposta a traçar uma espécie de paralelo entre a figura do bode expiatório e a do artista. Motivos tenho de sobra, eis alguns.


1) O primeiro deles é que todo artista se expõe, da forma que pode e sabe, na concepção de sua obra. Ou seja, é um corpo vibrátil falando, por vezes febril, por vezes em transe, que concebe, que golpeia uma tela, por exemplo, com suas pinceladas. Tudo isso lembra movimento, corpo, pulsar. Ali está, numa tela cheia, o corpo vibrátil do artista, que se entrega, numa mistura de narcisismo com sublimação aos olhos alheios, à crítica alheia.

Presumo mesmo que o momento em que uma tela é cheia e maculada pelas mais variadas tintas, esvazia-se o criador, agora é o vazio, a calmaria, depois do torpor.


2) Todo esse esvaziamento parece dar margem ao preenchimento de outro alguém, que certamente vai lucrar algo com o vazio do artista. O que seria esse lucro? De que moeda estamos falando? Estamos falando de angústia? Eu apostaria, mas se não quiser usar este termo eu poderia falar de desassossego. Desassossego, vá lá, este termo é-nos útil uma vez que nos faz lembrar de tudo que irrompe com força após a calmaria. Desassogo e desencontro, ou , se quisermos ir mais longe, encontro com o desespero, com o Real (lacanianamente falando) ou simplesmente, encontro com a efemeridade e com a incompletude. O artista , ao se esvaziar, propõe e dá início ao ciclo de esvaziamento e preenchimento, entre o fluxo de vibrações, podemos aqui tentar inovar , entre artista/espectador.


Ora, esses são apenas alguns dos motivos. Como disse anteriormente Lygia, como já o disse também Foucault, fico com a idéia de que alguém tem que perder, tem que lançar-se a esse coletivo, tem que se esvaziar para que o ciclo do desassossego dê início. Eu, artista, esvaziado de mim, ofereço a outrem o que me faz no momento, vibrar, ofereço isto em forma de tela, de filme, de escultura, de o que quer que seja, ofereço o que em mim já não se encontra, para se encontrar em outro, que , certamente se assustará com o que viu/sentiu/tocou/vibrou.

Ao chegar a estas conclusões, já não sei mais se me apiedo do artista ou se o louvo; sem ele talvez não conhecêssemos metade do que somos, talvez nem nos reconhecêssemos. O artista, alguém já disse, é um fingidor. Finge a dor? Ou sente-a até seus próprios limites, visando um pouco de compaixão daquele que a contempla?


Triste fim. Eis que já nem sei responder as questões as quais não param de brotar. Talvez não me contentasse com respostas prontas ou baseadas em qualquer teoria. Talvez, mas o que importa e aonde quero chegar é exatamente no ponto de partida, no ponto de interrogação. E porquê? Por que a interrogação que franze meu cenho e que me revira os olhos, me faz pensar e repensar, "matutar" é a mesma que produz o desassossego, é a mesma que vai me fazer buscar, incessamentemente, uma resposta que há - e queiramos nós que assim sempre seja - de ser sempre desconhecida.


Solução? Não há, se houver direi que é temporária, porque uma vez mais o corpo-bicho há de se reerguer, grunhir, pedir comida e nos deixar assim, sem eira nem beira, em busca de algo que nem sabemos o que é. Aí, então, nos resta é sublimar - na melhor das hipóteses, sabemos que existem tantas outras menos louváveis.


Aí, então, nos resta deixar o corpo pulsar, o bicho despertar ao perceber que eu não sou o único a mais indagar. E não é que aquela obra mexeu comigo?E não é que é bem assim que sinto ? É , por essas e outras, continuo defendendo o árduo papel do artista como bode expiatório, como primeiro corpo a dar voz e vez ao sentir o desassossego, esse que é tão coletivo, que habita em todos nós mas que quase nunca sabemos descrever.


E viva a arte, glória ao artista!

segunda-feira, março 23, 2009

Sobre botas e calos


Para os leitores que apelidam-me negativista ou os mais polidos que simplesmente chamam-me realista, eis uma crônica pensada e produzida durante arroubos de positivismo, mas, acautela-vos, arroubos e só arroubos, pois não há alegria, felicidade ou qualquer palavra e sentimento risonho que viva eternamente, toda felicidade pressupõe um prazo de validade e isto é que precisamos aceitar.

Em seu conto “O último Capítulo”, Machado de Assis nos fala sobre a decisão de um homem em seus sessenta e poucos anos de se suicidar após concluir , lucidamente, que a sua vida fora uma sucessão de malogros e desventuras. O leitor sempre atento há de me perguntar agora: O que há de positivo numa história tão horrenda?

A caso agora a cronista deseja incitar a prática do suicídio?Respondo aqui do banco de ré que, o que inspira esta crônica é exatamente a percepção e o conceito de vida que a personagem do conto tem, conclui ele que, a felicidade é um par de botas, e, como último desejo, manda distribui-la, como herança, a todos habitantes da sua cidade.

A personagem nos ensina que são nas coisas miúdas da vida que o homem encontra alguma pontinha de felicidade.Pois bem, pensei então com meus botões sobre estas tais botas. Andarão nelas mesmo a felicidade de um homem? Como estamos já nos pés da questão, atrevo-me a conversar com o inconsciente de Machado e retrucar que, se são as botas a felicidade barata, a saudade as memórias que todos carregam consigo provavelmente serão os calos deixados por calçá-las.

Não se espante comedido leitor, se as metáforas de indumentária não lhe caem bem, serei mais direta. Mesmo sabendo nós que não há felicidade que perdure, há dentro de cada um uma compensação para esta situação, para os amantes da ciência; a memória, para os poetas e boêmios;a saudade.

Dois substantivos que mais parecem se completar e de tanto o fazerem, se confundem até.Não existe presente sem ter sido formado por pequenas moléculas do passado. Podemos ter evoluído em nosso percurso pela vida a fora, mas sempre detemos, dentro de nós - mais uma vez, o cientista defende que dentro do cérebro e o poeta insiste que dentro do peito. Bem, em algum lugar dentro de nós (visto que não quero tomar partido nem de um nem de outro) moram as lembranças do passado que reverberam no nosso presente e construirão nosso futuro.

Temo pelo avanço da ciência que hoje diz ter meios para suprimir memórias traumatizantes do cérebro humano. Mas que alívio! Já pensaste? Quero esquecer aquele amor que quase me levou a desgraça total, esquecer, apagar ou simplesmente apertar a tecla delete e Záz! Com uma só pílula e num só gole tudo evanesce, some sem deixar vestígios.

Certamente haveria quem lucrasse com isso, as pessoas, finalmente libertas do passado e do gosto amargo das memórias tristes, viveriam suas vidas e prosseguiriam, seriam produtivas afinal. Às vezes me preocupo com a banalidade que uma idéia com estes poderes acalçariam no futuro. Sim, o futuro a que todos nos aspiramos, numa simples cápsula; poderíamos esquecer nossos traumas, ignorar e perdoar os mal-feitores que cruzaram nosso caminho.

Para os que leram as memórias de um senhor chamado Brás Cubas, do mesmo autor previamente referido, seria uma moderna versão do Emplasto Brás Cubas – alívio para a dor da alma. Um frankstein futurista ou uma epopéia hollywoodiana? Escolha a versão que mais lhe agradar.

Eu, cá com meus botões e minhas botas temporárias ainda acho que os calos são-nos muito úteis, nos fazem crescer e encarar a vida no espelho, encarar nossas rugas é aceitar o passado incondicionalmente.

Passado pura e simplesmente, pois não dormimos de botas, um dia vamos descalça-las (e vai-se a felicidade!) e de lembrança delas teremos apenas os calos – feios e cruéis a nos encarar com seus olhos esbugalhados.Agora me veio o por quê de tantas cirurgias plásticas e corretoras.

O médico aperta o delete no texto da nossa auto-estima, mudamos um nariz que não sabemos por que Diabos Deus nos deu, aumentamos ou diminuímos os seios, os lábios...Enfim, é assim que lidamos com o passado. Enquanto estávamos mexendo apenas na aparência eu estava, confesso-te secretamente, mais tranqüila, mas agora querem mexer nas nossas memórias também. Sem passado não existiria razão para existir saudade a não ser nos dicionários.

Sim, a saudade seria lá trancafiada, reduzida ao status de mera palavra e exposta a ácaros e poeira. É triste ver a decadência de um sentimento que se reduz a sua existência morfológica e gramatical. Parece que os médicos, em um futuro não muito distante, vestidos em seus alvos jalecos , empunhando seus gélidos bisturis em uma mão e empurrando-nos pílulas com a outra, bradarão: "Vai-te passado!Vão-te lembranças! A partir de hoje este paciente viverá só do presente e dele nascerá seu futuro!"Exagero?

Talvez esta cena jamais aconteça, talvez eu e meu leitor – sim, incluo sua imaginação como minha cúmplice - estejamos devaneando, mas a simples idéia que um dia possam nos tirar as lembranças me faz pensar seriamente se estamos realmente evoluindo.

Ainda preciso de meus calos, deixem-me cá com minhas feridas porque não quero me transformar numa página em branco, preciso de meus capítulos todos, não excluo nenhum, nem lhes dou menor ou maior importância. E você?O que faria de sua autobiografia?

segunda-feira, março 16, 2009

Das voltas que o mundo dá






Ah, as voltas que o mundo dá

não são poucas, me admiro se alguém for contar

eu, de cabo a rabo, já tentei e não consegui somar

só posso lhes dizer que são várias as voltas que o mundo dá

não são voltas de ponteiro,

não são voltas a cirandar

são muitas mesmo as voltas que o mundo dá

se disserem milhões quem as contar

eu jamais vou desconfiar

é que são muitas de verdade, as voltas que o mundo dá

hoje posso até inventar,

dizer, trinta, dizer milhar

mas é que são grandes também, as voltas que o mundo dá

eu nem mesmo desafio quem se puser a investigar

quantas são enfim as voltas que o mundo dá

eu hoje posso até tentar calcular

as dezenas de voltas que o mundo dá

mas acontece que não me disponho

a mais informar quantas são

as voltas que o mundo dá

pois agora tenho a ti a meu braço guiar

por entre os hemisférios e oceanos

quero mais é contigo girar

por essas voltas que o mundo dá





*Somente quem esteve no inferno

pode entender a alegria de respirar ares etéreos

sábado, fevereiro 28, 2009

Do amor


Palavra de quatro letras formada por duas vogais, duas consoantes e geralmente duas pessoas imensamente apaixonadas.

Amor é palavra de quatro letras e quatro é número par. Um par designa dois elementos que, em conjunto, se conjugam e desconjugam sem precisar de um terceiro. Um par de números, um par de sapatos, um par de luvas, um par de amantes.

Um par de dois amantes, um par de brincos, um parceiro para conjugar, em todos os tempos, um verbo de outras quatro letras: Amar, amar é quatro, é seis, pode ser até sete ou dez, mas sempre lembrará dois e esses dois sempre serão um par.

Um par a conjugar o verbo em pretérito, futuro do presente e até imperativo. Um par para somar e dividir, um par para multiplicar em tantos outros pares quanto mais houver necessidade na natureza. Um par a formar conjuntos nunca unitários.

Amar é mais do que quatro palavras que muitos conjugam sozinhos, jurando que estão em par. Amar em par é saber contar quatro olhos ao invés de dois, amar em par é tudo menos ímpar, pois presume a presença de um segundo para que a felicidade possa assim ser dividida, gerando dividendos que na verdade só somam ao par.

Amar, verbo de quatro letras e que se conjuga melhor na falta de letra. Amar inclui duplicar a quantidade de luas e elevar à décima potência a soma total de estrelas do céu. Amar é percorrer todos os oceanos e os segundos de todos os relógios. Amar constitui-se tarefa simples para um coração puro e árdua para órgãos fisiológicos responsáveis apenas pelo bombeamento de sangue.

Amar é escutar e não apenas ouvir a coisa amada, é deparar-se e surpreender-se com cada palavra de quatro, cinco ou mais letras que sai da boca amada.

Amar é dupla, muito melhor do que ímpar. Amar é sorrir dois sorrisos, beijar uma boca, sentir quatro mãos ao invés de duas, posto que amor é coisa que só tem graça se for duplicada.

Amar é querer bem, amar é tranqüilo e não tem contra-indicações, Amar é sentir o cheiro das flores, é pensar no próximo, é viver vendo nuvens, sol, brisa e cores, somente por estar ao lado da coisa amada.

Amar é fazer parte de um espetáculo, nunca monólogo. Amar é produzir lágrimas de alegria, é abraçar sem saber porquê, é sentir-se vivo somente por estar ao lado de um outro que somado a mim faz par.

Amar é dar um sentido à existência que sempre veio morna e opaca. Amar é colorir, é desenhar e é rimar. Amar é tudo isso que sinto quando não consigo pensar, pois amar é não entender e continuar sem discernimento sobre coisa alguma que não se pareça com a coisa amada.

Amar é verbo de quatro letras que serve para falar de um substantivo de mais quatro letras que fica tão bem em duas bocas que se pertencem , que se chegam e se desejam. Amar é tudo que eu tento explicar e não sei dizer.

domingo, fevereiro 15, 2009

Da repentina fé


Acabou-se o ateísmo
Pois hoje dou graças a todos os santos
Rezo um ou dois rosários
Creio e tenho até escapulário
Ai hoje por ti faço novena
Decoro salmos
Estou que nem Madalena
Pois hoje dou graças a Deus
Jesus e a todas as Marias
pois deu-se a ventura
que para mim
apareceste um belo dia