terça-feira, dezembro 01, 2009

Nem Pasárgada nem Canaã: "As cidades de Freud"





" A psicanálise é projetada como uma cidade sem muros e sem fortificações, como uma ‘fábrica do pensamento’ , livre para a pesquisa e governada por uma única política, a da ética. É totalmente diversa da cidade utópica ou da cidade celeste que se fundamentam no princípio de uma harmonia necessária”.


Giancarlo Ricci



Em um livro que mais se parece um diário de viagem, Ricci guia o leitor pelas cidades maravilhosas que fizeram parte do itinerário de um viajante ilustre: Sigmund Freud. Suas constantes idas e vindas, seus trajetos por vezes labirínticos , tal como Ricci os avalia, outrora montanhosos contribuiram para a elaboração e desenvolvimento do arcabouço teórico da chamada "bruxa metapsicologia freudiana", a Psicanálise.


Em As cidades de Freud ( Zahar, 2005), Ricci nos apresenta a geografia, os sotaques diferentes, os hábitos e costumes de cidades pelas quais Freud perambulou e sem as quais seria mesmo difícil imaginar o desenvolver da história do movimento psicanalitico.


Assim o autor nos guia por Viena, Berlim, Frankfurt e mais outras 37 cidades as quais tiveram extrema importância para o pensamento freudiano. O mais interessante parece ser o artifício que Ricci utilizou: as próprias palavras do pai da psicanálise. Servidos de trechos retirados das correspondências de Freud para sua noiva, Martha Bernays, do amigo Fliess e do futuro desafeto Jung, Ricci nos leva a conhecer ainda mais o homem Freud por trás do criador da teoria psicanalítica.


Assim, somos levados em seis capítulos a mergulhar no relevo montanhoso de Karlsbad e quase enxergar suas águas termais as quais tão bem faziam à saúde de Freud, também conhecemos um pouco da impaciência de Freud diante da agitada Paris, pois, segundo confidencia à noiva o médico austríaco:


" A cidade e as pessoas eu as sinto estranhas, parecem de um tipo absolutamente diferente do nosso; acho que são todos possuídos por mil demônios... Tenho a impressão de que não são capazes nem de vergonha nem de horror, todos - homens e mulheres - aglomeram-se igualmente em torno da nudez da vida como dos cadávares da Morgue e dos cartazes horripilantes afixados pelas ruas..."

(Ricci, 2005, p. 64)


Ora, era o espanto de um homem que sempre se julgara, possuir , em essência " um coração alemão-provinciano" diante das aglomerações, dos cafés e da agitação da grande Paris que nada lembrava a natal Morávia. Freud também, como Ricci sustenta, não gostava de Viena; não seria exagero também dizer que Viena era odiada por Freud com a mesma força com que odiava o jovem médico das histéricas. De acordo com o autor de As cidades de Freud, Viena pode ser considerado o ponto mais baixo do itinerário da viagem de Freud rumo à cidade da Psicanálise.


Nesse momento, cabe perguntar: se Viena é o ponto mais baixo, qual seria, então, o clímax desta viagem pela qual o homem Freud percorre e transgride os próprios limites rumo à cidadania única, a cidadania da cidade psicanalítica?


Não seria puro acaso a nacionalidade italiana de Ricci: a cidade considerada o marco, o cume desta "viagem de uma vida", era Roma, a qual, segundo nos informa o autor, sempre fora protelada, como que deixada para depois no itinerário freudiano. Depois de ter percorrido Palermo, Veneza e Milão, Freud finalmente visita a cidade de seus sonhos e de seu herói Aníbal.


Um lugar simbólico, sem dúvida, que representa também um divisor de águas para a história da psicanálise: Em 1901 Freud chega à Roma e pela primeira vez pode-se dizer que já há um esboço de psicanálise, um mapa bem delimitado ( A Interpretação dos Sonhos tinha sido lançada um ano antes, marcando um novo início para a teoria).


O itinerário, depois de ultrapassar esta primeira fronteira, não se esgota: ainda há muito a percorrer, pessoas a conhecer e , sem dúvida, Freud foi um aventureiro viajante rumo a um lugar que nem mesmo ele sabia precisar ou localizar: a riqueza de sua própria invenção.


Assim, acompanhamos esta viagem e com o passaporte na mão chegamos ao Novo Mundo: A América do jovem Brill, a América que hoje denigre e pinta com cores outras o esboço que o precursor deixou-nos de herança.


De acordo com o que se sabe, através da biografia de Ernst Jones, Freud murmurou nos ouvidos de um amigo, logo ao avistar a Estátua da Liberdade: "Mal sabem eles que estamos a lhes trazer a peste". Honrado pela Universidade de Worcester, em Massachussets, querido por muitos acadêmicos como William James, Freud conhece Nova York, Worcester e nada do que vira ali, no Novo Mundo, lhe enche os olhos: continua achando tudo muito cansativo, comemorando a volta ao seu velho continente , como escreve para a filha Mathilde:


" Estou muito feliz por estar de volta e ainda mais feliz por não ter que viver na América". ( Ricci, 2005, p.144).


Parece que Freud já previa, podemos arriscar, os riscos que sua psicanálise sofria em nome da adequação ao american way of life. Sem dúvida o pragmatismo e o puritanismo americanos contribuiram para uma coisa outra que foi criada no lugar da teoria do inconsciente freudiano; a chamada Ego Psychology emerge no continente americano fazendo o inconsciente desaparecer e transformando o psicanalista em meros "espremedores de cérebro" ( Ricci, 2005, p. 142).


À despeito desta mediocrização que sofre a psicanálise em solo americano, Freud continua suas viagens, dá prosseguimento a seus novos empreendimentos, às vezes retornando à velhas questões que nunca pareciam saciadas, resolvidas ( vide o caso de Moisés e as várias vezes em que Freud retorna à mesma questão), noutras anunciando novos conceitos, novas inspirações, como se estivesse sempre vindo de Karlsbad , a cidade termal de que eu já falei.


As cidades de Freud nos mostra um viajante, um homem de seu tempo, preocupado com a ética da nova disciplina que criara, um judeu que não utilizava a origem para vitimizar a si e nem a seu povo, um homem cuja laicidade auxiliou o desenvolvimento de sua própria metapsicologia, que, se não pode hoje ser entendida como um percurso acabado, um projeto concluído, tampouco este fato torna , nós, psicanalistas, psicológos ou somente curiosos da área psi, menos aptos para fazermos nós mesmos os nossos próprios mapas, seguindo as nossas próprias rotas rumo à cidade psicanalítica a qual Freud alcançou, no fim de sua vida, ele mesmo um homem originalmente de fronteira, nos ensina a romper os limites e ir mais longe.


É a isto que Ricci nos convida neste instigante e belo livro.

terça-feira, novembro 24, 2009

O conto do derradeiro dia


Acordou. Eram sete horas de uma manhã que levantava cinzenta, sendo o cinza o prenúncio do que viria a ser o último dia de sua vida, vã em quase todos os momentos, mas com relances de interessantismo.


Estava decretado, por alguma ordem divina, que aquele seria o derradeiro dia de sua existência: preparou-se para levantar, posto que tudo que até agora turvava seus pensamentos apareciam em sua mente ainda sem a companhia dos olhos, estes estavam preguiçosamente fechados, à espera de algum comando, de um som qualquer, do bater de asas de uma andorinha. Eram olhos fechados que inauguravam aquele dia, dia em que tudo findaria.



Acordou-se, ou, dizendo de maneira mais correta, abriu a fina cortina que trazia diante dos olhos, oferecendo-os àquele cinza e aos raios de sol que não vinham. Tão logo registrava o mundo, as nuvens e o céu, sentiu a necessidade premente de alimentar-se: o estômago companheiro reclamava o de comer e era preciso atendê-lo para acabar com todo aquele protesto em forma de sons estranhos.


Preparou para si mesmo um copo de leite o qual, cuidadosamente, colocou numa bandeja, ao lado de uma manga: assim, pensou, seria mais fácil suportar a morte que inadiavelmente aconteceria.


Era preciso adiantar o processo, uma vez que do destino último nada ou pouco se sabe, e, por
questão de evitar fila, era necessário apressar de vez o último suspiro, era mesmo imprescindível abrir a porta à ceifadora antes que ouvisse as primeiras e temidas batidas na velha madeira.


Com desdém olhou para o copo de leite: era muito , certamente seria o suficiente para fazer a passagem deste para outro mundo de barriga cheia, sem reclamações ou protestos estomacais de qualquer espécie. A manga seria apenas para facilitar o acesso rumo ao desconhecido, pensou sem titubear: se é para ir, que seja de uma vez e sem delongas.

Depois de sorver o leite e chupar a manga que em nada lembrava as frutas maravilhosas que colhia no pomar de sua mãe, memórias de sua doce infância, repleta de igualmente doces jaboticabas e melancias, deu prosseguimento ao penoso processo de adiantar a vindura da morte.


Foi quando atentou para o fato de que somente se preocupou em tomar o leite e chupar a manga, mas esquecera do mais urgente: era preciso virar as chinelas, isto era de lei e não poderia faltar nos preparativos derradeiros.

Tirou as velhas chinelas e virou-as de sola para cima, imaginando ser este um gesto de mau agouro, e, se o mau agouro honrasse seu nome, certamente adiantaria em uma ou duas horas a morte inescapável. Era preciso, sim, virar as chinelas, como não pensara nisso antes?


Certamente deveria tê-lo feito ao levantar, antes mesmo de calçá-las, esse retardo, sem dúvida, retardaria também o início do seu fim.


De qualquer forma, fê-lo: virou as chinelas e já achava que tê-lo feito era melhor do que andar por aí, calçado, somente esperando morrer por ter tomado leite e chupado uma manga. Tudo parecia muito bem, todos os rituais estavam sendo seguidos e isto com certeza lhe daria algum respaldo quando qualquer um outro falasse destas conversas de deixar a vida, de ir para outro plano ou outra existência.

Porém, nada poderia ser tão perfeito se não fosse um esquecimento: Não ouvira um pio de coruja , nenhum, durante a madrugada. Isto o deixou perplexo: "Como pretendo antecipar a minha morte se não há sinal qualquer de coruja, nenhuma lembrança, mesmo que vaga, de ter ouvido nada, nem um piozinho sequer anunciando a chegada da indesejada das gentes?", constatou.


Não, isso não estava certo, urgia substituir o pio da coruja por algo que assegurasse a eficiência dos últimos momentos rumo à eternidade. Pensou no mais óbvio sinal de azar: o gato preto. Sim!


E porque não, se este não aparecia apenas à noite, se este era mesmo um animal doméstico e melhor, se era tão acessível?


Eis que surge a idéia: foi ao encalço de Benedito, um gato preto e tísico o qual sempre passou por maus bocados mas que, insistentemente, costumava posar diante da morte com um ar de escárnio, de superioridade, como se não a temesse. Benedito, sim! apesar de desafiar a ceifadora, seria ele o melhor substituto do pio da coruja. Acreditava que se o gato gastava seu tempo a se esquivar habilmente da própria morte, sem dúvida a desviaria de si mesmo ao colocá-la face a um outro inimigo, maior, humano, que era para se dar uma morte melhor.

Desejou ser ele mesmo o substituto do gato quando a morte viesse buscar alguém. Benedito, que já vinha fazendo uso da oitava vida, se não demonstrou repúdio à idéia, tampouco se fez de rogado em aparecer e dar umas voltinhas diante de seu dono. Continuou, então, todo faceiro, passando para lá e para cá, esperando ser ele uma espécie de coruja piando e trazendo todos os mau agouros possíveis em seus tímidos, porém expressivos miados.


Depois de achar o gato, virar as chinelas, tomar o leite e chupar a manga, pensou: " Agora é que ela vem mesmo, sem dó nem piedade, ceifar-me a vida como sempre tem feito por ofício, agora sim, é o momento e não haverá nada além disso, uma morte rápida e rasteira, uma espécie de suspiro e pronto...outro espaço, outra vida, nuvens? Fogo? Harpas? Não se sabe, a única certeza que se tem é que ela vem e que será lépida, ágil", empolgou-se.

Nada de alvoroço, nada de meses em unidades de tratamento intensivo. Ela virá como vem o vento minuano nas querências gaúchas, ela virá como uma estrela cadente que poucos conseguem acompanhar. Virá como um cometa, como um espirro, será eficiente e cumprirá seu papel com maestria. Nada de extrema-unção; não haverá tempo. Nada de último desejo, tampouco restará consciência para sequer imaginar um último pedido. Ela virá como um furacão e levará aquilo que sempre foi uma existência pacata, por vezes morna, mas nunca arrebatadora.


Diante de todos os preparativos percebeu-se plácido, calmo, como sempre fora em vida: sentou-se, leu as primeiras notícias de seu último dia e pensou: “ É, a bruxa está solta...”. Foi quando atentou para um dos mais simples rituais e que, porém, esquecera de seguir: Procurou a primeira escada que desse com as vistas para passar por debaixo dela, porém, seria preciso sair de casa, pois lá não havia sequer qualquer escadinha de três, quatro degraus, tudo isto parecia já cansativo, mas, pensou, o que seria mais um último cansaço diante daquela vida quase sempre entediante?
Por que não dar um derradeiro passeio, contemplar as últimas flores que insistirão em florescer mesmo quando seus olhos virarem comida de minhocas? Vá lá, a morte requer certos sacrifícios, e era preciso fazê-los, nem que fosse para morrer em paz.

O fato de andar pela rua já poderia adiantar em muito o processo, concluiu. Por isso, preparando-se para sair de casa, resolveu dar várias chances ao azar e com isto talvez chegasse a sua morada final com muitas horas de antecedência na frente de muitos outros que certamente estariam cansados, em fila, tendo passado por uma morte mais difícil.


Deixou todas as portas destrancadas, que era para pegar o ladrão desprevenido, procurou sair também com todo o dinheiro de que dispunha em mãos: não era uma soma alta, mas era alguma coisa para qualquer um que fosse menos privilegiado pela vida ou pelo destino. Saiu com notas de cinqüenta reais na mão esquerda, levando Benedito à coleira, sem chaves ou carteira. Seguiu seu caminho com passos calmos, como se não houvesse pressa alguma no mundo.

Não pôde deixar de notar os olhares curiosos: não era todo dia que se via um homem de ceroulas azuis, descalço, com um gato preto numa coleira e notas visivelmente esmagadas na mão. Todos olhavam-no e ele parecia trazer no peito um desejo tão bravio, uma coisa de herói destemido, não temia ladrão, queria mesmo que estes chegassem e lhe atacassem, levassem seu dinheiro e sua vida, isso estaria nos planos da ceifadora.
Também queria ser visto, mesmo que tivesse passado toda a vida se escondendo dos olhos de quem quer que fosse. Um exibicionismo último não lhe cairia mal, pensara enquanto formulava alguma frase engraçada para ser colocada em sua lápide.


Seguiu seu rumo e só parou quando avistou a escada e não hesitou: preparou-se, deu o último suspiro e seguiu, pronto para passar por baixo daquela estrutura de metal enferrujado. No entanto, como esta vida pode ser tudo, menos justa, nada acontecera e a escada não funcionou como um portal para outra vida, longe disso. Era apenas uma escada enferrujada, mas, se não morreria pelo simples trabalho do mau agouro, morreria de tétano se seus dedos dessem com alguma espécie de prego enferrujado, animou-se.

Passou algumas horas a passar por baixo da velha escada até que cansou e seguiu para sua casa. Lá voltando, encontrou tudo como antes: nenhum sinal de arrombamento, nenhum sinal de intruso, era ele, sozinho, se deparando com o espelho. Aquela figura já patética, praticamente nu, aparentava cansaço, mas, pelo que pôde observar nos próprios olhos, não aparentava tédio; aquele último dia fora bastante movimentado, diria certamente a quem quer que lhe interrogasse, nos lados de lá.


Deprimiu-se pela última vez com sua aparência, Foi até a cama e pensou que esperar pela morte deitado seria muito mais conveniente, uma vez que nunca viu ninguém ser enterrado em pé. Deitou-se para vê-la chegar e , quando ela chegasse, não poderia ter nenhum reflexo, nenhum ímpeto de lutar contra a voraz inimiga: até aí a preguiça já teria consumido todos os seus ímpetos ou impulsos, tudo isto que nunca usara em vida.

Deitou-se e lá ficou, a esperar a eternidade, que, face o adiantado da hora, certamente não viria mais. Resolvera dormir porque durante a noite a tal coruja piaria e estaria, enfim, completo o ciclo de uma vida lastimável. Se não fosse hoje, pensou, de amanhã não escaparia.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Entre o noir, o desejo, a comédia e o masculino: Uma possibilidade de falar de Abraços Partidos




“Há que se terminar os filmes, mesmo que seja às cegas”


Com esta frase, encerra-se o mais recente filme de Almodóvar, Abraços partidos, ou, Los Abrazos rotos (Espanha, 2009). Com Penélope Cruz e Lluiz Homar nos papéis protagonistas da película, observamos um retorno do cineasta espanhol ao universo noir dos estúdios hollywoodianos tão bem explorado em Má Educação (2004), pois, apesar de haver, no meio crítico, freqüentes discussões a respeito do que seria um filme noir - ou seja, o filme que ficou conhecido por privilegiar locações luxuosas, narrativas densas a respeito, não raramente, dos psicologismos e desvios de caráter das personagens ( em sua maioria femininas) – não se pode negar a inspiração e a alusão a este estilo de filme em Almodóvar.


Abraços partidos trata da história de um escritor sobrevivente de um desastre que lhe provocara um tipo de cegueira irreversível. Mateo Blanco ou Harry Caine (impossível não pensar na sonoridade deste nome e a sua similaridade com a palavra inglesa Hurrycane, em português Furacão). Revelado ao espectador como uma narrativa não linear, o filme apresenta um flashback do passado de Mateo Blanco por ele mesmo editado, na forma de uma conversa com Diego, como diz a personagem de Mateo, antes de fazer cinema gostava muito de contar histórias, isto, de antemão, adverte o espectador que, nem tudo no relato pode ser verossímil, por via das dúvidas, estamos diante de uma história contada pelo narrador de quem a verossimilhança do relato depende e sobre a qual o espectador, tal como Diego, jamais terá garantias.


Tal como Diego, o espectador é levado à gaveta na qual Mateo ou Harry Caine, guarda as lembranças mais importantes de seu passado. Em meio a fotos rasgadas, cadernos e álbuns de fotografia, conhecemos um pouco da vida de Mateo, ou suas mais importantes passagens que levariam a compreensão da sua trajetória de vida, mais especialmente no período entre 1992 e 2008 – época atual em que se passa a conversa de Mateo/Harry e Diego.

Não se pode esquecer que a gaveta aberta por Diego e que dá mote à narrativa também guarda os segredos que serão revelados no decorrer do filme, dando-lhe todos os elementos e matizes de um bom filme noir.


Tal como Diego, bisbilhotamos a relação entre Mateo e Judit, agente de Mateo, através das fotos guardadas, bem como somos apresentados a personagens importantes que farão parte do enredo que conheceremos a seguir: o retrato de Madelena, interpretada por Penélope Cruz, a figura de Ernesto Martel filho, atualmente conhecido como Raio-X.

Assim como a gaveta, a folha de jornal impresso também apresenta ao espectador a figura de Ernesto Martel, uma espécie de vilão do filme, cuja morte noticiada torna vívidas as lembranças de quatorze anos as quais assombram as vidas tanto de Ernesto como de Judit e que motivam a narrativa.

Tendo, pois, cumprido a missão de revelar um pouco a trama do universo de Abraços partidos, cabe agora fazer menção ao homem que idealizou tudo isto, e, sobretudo, porquê este filme já tem sido considerado mais uma obra-prima deste cineasta.


Em “Conversas com Almodóvar” (Jorge Zahar, 2008), Fréderick Strauss, importante jornalista a quem o cineasta deu inúmeras entrevistas desde o início de sua carreira, no começo da década de 80 até a atualidade, sustenta que Almodóvar filmou “a linha reta do desejo com o que ele tem de espetacular quando é definido como alvo. Mas também, e ao mesmo tempo, a curva sinuosa que todas as histórias de desejo percorrem” (Strauss, 2008, p.10).

Um retorno ao masculino?


Com isto, é correto afirmarmos que, esquecendo o universo Kitsch, o melodrama, a comédia escrachada que atravessa tantas vezes a obra do cineasta – temos bons exemplos disso tanto em Kika (1993) como em Maus Hábitos (1983) – Almodóvar interessa-se pelas vicissitudes do desejo, nunca abandonando esta temática em seu discurso fílmico. Assim, se temos em Kika, o disparate, a relação sexual que teria tudo para ser traumática transformada surpreendentemente em comédia, temos em filmes como A lei do Desejo (1987), De salto alto (1991) , e mais recentemente Má Educação (2004) e Volver (2006) , a temática da ditadura do desejo, seus caminhos e descaminhos os quais, por vezes, levam às personagens a viverem vidas que apagam ou, possivelmente, atenuam os limites existentes entre comédia e tragédia.


Abraços Partidos não é diferente: percebemos como o desejo é subjacente a toda narrativa, seja na figura de Raio –X, Ernesto Matel filho, desejoso de tornar Mateo o escritor de um filme idealizado para denegrir a figura paterna autoritária e castradora, seja no desejo recôndito da personagem Judit, para quem o próprio desejar tornou-se motivo de amargura e angústia, ou mesmo no desejo de Madalena, representado não somente pela vontade de representar, de ser atriz, mas de viver com um homem cujo poder e obsessão não se tornasse moeda de troca no relacionamento.


Em recente crítica veiculada pela revista Bravo! deste mês, o jornalista Paulo Nogueira contempla o lançamento de Abraços partidos e o considera como o filme que reconcilia Almodóvar com as personagens masculinas densas e com maior carga dramática. Segundo o que sustenta o jornalista, em Abraços Partidos encontra-se um Almodóvar sempre magistral, mas, desta vez, mais brilhante, posto que retorna ao masculino depois de uma longa carreira focalizando o universo psicológico feminino, fazendo deste um ponto central de sua obra.

Pelo que percebe o leitor de Bravo!, Nogueira regozija-se deste retorno de Almodóvar ao masculino, porém, há algo que o crítico não menciona ou mesmo fez questão de não relacionar ao filme: a importância do feminino como o que promove a movimentação do desejo das personagens masculinas, mais especificamente: Diego, Mateo/Harry e Ernesto Matel.

Dizendo de outra forma, concordo com Nogueira quando este sustenta que nunca houve na filmografia de Almodóvar outra personagem masculina tão rica e densa como Mateo/Harry. No entanto, não falar da importância, muitas vezes velada, mas constante, do desejo feminino movendo a narrativa de maneira quase invisível , incorre, no mínimo, em desatenção: É a personagem de Judit que toma a cena e esclarece muitas questões que Mateo/Harry desconhecia sobre seu acidente, sobre o destino da verdadeira película Chicas y Maletas que escreveu e cujo protagonismo era de Madalena (Pina), culminando, também, com a revelação da paternidade de Diego, filho de Judit.

Assim como o aparente secundarismo da personagem de Judit, não se pode esquecer que o destino de Madalena foi selado pela obsessão e pelo amor psicopata de seu amante, Ernesto Matel, poderoso empresário cuja residência impressiona pelo simbolismo fálico – não se pode esquecer dos quadros de revólveres que aparecem a todo tempo nas cenas feitas neste cenário – parece não conhecer os desejos de sua amante, a cena dos dois em Ibiza após o coito demonstra a ignorância do homem poderoso face ao desejo de Madalena: será que ela ficara feliz por imaginar seu amante morto? Relacionado a essa ignorância sobre o desejo feminino, tem-se aparecimento da personagem que não tem nome, mas é paga por Martel para ler os lábios de Madalena nas cenas de um documentário das filmagens de Chicas y maletas, feitas por Raio-X.

A comédia em Abraços Partidos

Apesar das alusões ao estilo noir, do drama psicológico que aproxima Abraços Partidos do gênero do suspense, não se pode esquecer da comédia, também presente nos filmes de Almodóvar, Abraços Partidos não seria exceção.


Assim, Mateo/Harry, em 1994 produz Chicas y Maletas, uma comédia, inaugurando um novo estilo em sua filmografia: desejava tentar algo diferente. Seja nas cenas cômicas do universo do filme produzido por Matel e dirigido por Mateo/Harry que quebram um pouco o clima pesado e intrigante da película real, seja nos momentos finais de Abraços partidos em que o espectador adentra nas cenas verdadeiras de Chicas y Maletas – não se pode esquecer as claras referências das cenas do filme com Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), também de Almodóvar – está-se diante do inusitado, do cômico.


O desfecho do filme parece uma tentativa de um novo compromisso com o espectador que, se antes se sentia imerso numa atmosfera tensa e intrigante, agora era convidado para entrar noutro universo, o universo do cômico de Chicas y maletas: somos ejetados dessa realidade cômica a partir do retorno à ilha de edição , às personagens de Judit, Diego e Harry/Mateo, para, enfim, sabermos que estamos chegando ao término da película, pois, como prenuncia a personagem de Lluis Homar: “há que se terminar um filme, mesmo que seja às cegas”.

Tantas outras questões do universo almodovariano...

Sem dúvida poderíamos aqui falar de muitas outras questões, e com isso, acredito, estaria tornando este texto mais longo, mais cansativo, o que não se faz objetivo.


Poderia falar da presença do vermelho em todas as tomadas do filme (Segundo Almodóvar, o vermelho tanto representava a vida, a luz de sua terra natal, como também sangue, desejo), também da questão do metafilme, ou seja, o filme dentro do filme, a importância do registro cinematográfico para todas as personagens – a onipresença da câmera: ora cumprindo o propósito de filmar Chicas y Maletas, ora contribuindo para a feitura de um outro filme, do qual pouco se fala , porém, mas nem por isso menos importante: o documentário feito por Ernesto Martel filho sobre as filmagens do filme de Mateo/Harry: A câmera de Raio-X tanto denuncia o romance entre Madalena e Mateo/Harry, como testemunha o acidente envolvendo os dois amantes).


Sinto-me satisfeita por ter dito isso que disse e não mais, seja por falta de oportunidade, ou mesmo de foco. De acordo com o que dizia o próprio Almodóvar: “Todas as diferentes formas de ver o filme têm origem no próprio filme, e por essa razão são todas autênticas e válidas, incluindo as que menos me agradam” (Strauss, 2008, p. 56). Desse jeito, eu percebo que ainda há tanto mais para descobrir em Abraços Partidos, por hora é isto que vejo, e o bom é justamente isso, ou não seria cinema.

quarta-feira, outubro 28, 2009

A descoberta do mundo ou a descoberta de Clarice



"Sou tão misteriosa que não me entendo"


Clarice Lispector




Uma vez me falaram algo de que nunca me esqueci: Ler Clarice não é fácil, ler Clarice é angustiante. Eu, acreditando piamente das palavras de quem não parecia mentir, assumi então que era medrosa o suficiente para jamais, sob hipótese alguma, dar com os olhos em linhas assinadas por Clarice Lispector.


Acontece que, por esses mistérios que a vida prega, e , obviamente, seguindo o meu caminho, não pude evitar, um dia, ler Clarice. Mas, vejam bem: não comecei como todos, ainda não li um livro seu, romances, conheço Macabéa apenas do cinema e por ela nutro, em segredo, uma certa amizade, também não sei de onde isto veio, mas veio, e pareço me compadecer de Macabéa, mesmo sabendo dela apenas o que um livro didático de literatura me permitiu saber.


O caminho foi sendo feito até eu chegar nas Crônicas de Clarice; primeiro, "Clarice só para mulheres", dizia respeito às crônicas escritas para jornais brasileiros sob pseudônimos, feitas para divertir e informar as donas-de-casa, ciosas do dever do lar, ocupadas pelos cuidados maternos e envolvidas pelas obrigações conjugais. O livro é interessante e pude ver uma Clarice outra; lê-la, neste momento, não foi nada angustiante, sequer senti uma mísera fagulha de desespero, dor ou desolação; ler esta Clarice me fez entender um pouco mais de ser mulher, me fez saber segredos culinários, estéticos, enfim, nada que lembrasse dor me veio através da pluma de Clarice, talvez, porque com ela compartilhei algo que seria restrito à condição feminina: era isto, eu era mulher, Clarice era mulher, o livro era só para mulheres.


Acontece que nem tudo são rosas silvestres nesta descoberta. Descubro eu mesma outras crônicas, várias, escritas no período que vai de 1968 a 1973, em que vejo uma outra Clarice, uma Clarice, digamos assim, nem sempre leve, nem sempre didática, nem sempre só para mulheres, mas , prioritariamente, essencialmente mulher.


Acredito eu, agora, que Clarice é mais mulher neste, quando assina com seu nome e não mais sob pseudônimos, as crônicas nem sempre saborosas, nem sempre apetitosas, nem sempre feitas para a boa mulher do século XX.


A descoberta do mundo ( 1999, editora Rocco), me apresentou a Clarice de que alguns já falavam; a Clarice angustiada, triste e de uma tristeza ininteligível. Clarice, em suas crônicas, revela mais de si do que poderia supor o inocente leitor de "Clarice só para mulheres". Em crônicas como "Pertencer", " Ideal Burguês" e "Ritual", percebe-se o tom nem sempre fácil com que Clarice nos leva pela mão, ela, que a mim parece ter vivido como um ser acuado, com medo da própria existência e dos segredos que ela mesma gostava de ostentar.


Não, estavam certos os outros, Clarice não é fácil, tampouco agradável em todos os momentos; confesso que o prazer que retiro da leitura é originada justamente desta esperteza, dessa compreensão aguda que a autora possui da natureza humana, e não estou eu aqui falando mais uma vez de feminices. Clarice mesmo disse que não éramos seres segregados, tão diferentes dos outros. No entanto, o que percebo é que Clarice se mostrou muito mais mulher do que no outro livro que li, o outro, também interessantíssimo , me revelava a máscara social que eu, você e todas nós usamos; aqui e ali podemos notar uma pista de que há algo por trás de máscaras sociais feitas de pepino; algo além de bacias de sal grosso para pés cansados.


Este algo mais eu vi em A descoberta do Mundo. Ora, não seria diferente, e eu agora posso pensar, não seria nada cômodo, tampouco apaziguante, descobrir o mundo, posto que feito de lamentações, de perdas e de solidão. Solidão tão bem expressada na escrita sofrida e desejosa de companhia de Clarice Lispector.


Eu aceitei ser sua companhia, acredito que era isso que ela buscava, uma alma capaz de entendê-la, uns olhos para lê-la e que, com isso, dessem sentido a sua vida, tão arduamente vivida, aguentada. Eu emprestei meus olhos à leitura, mesmo contrariando meus primeiros ímpetos de não adentrar em um universo angustiante, aceitei o desafio: Ler Clarice não é fácil e seu constante apelo à companhia, à cumplicidade, me faz uma espécie de leitor-testemunha, o que nem sempre, ou quase nunca, é reconfortante.


Descobrir o mundo não é fácil. A leitura, esta ainda não acabou, posto que o mundo é vasto e o de Clarice me parece sem fim. No entanto, sigo, agora não mais ouvindo da boca dos outros o quão difícil é Clarice, mas sabendo de mim mesma que não, não é tarefa fácil esta que aceitei ao adquirir o livro, mas, justamente por isso, não canso de empreendê-la.


No fim de tudo ainda não acabei de descobrir o mundo e, caso um dia o faça, será uma decepção para mim.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Budapeste: Metalinguagem e identidade


"A palavra metalinguagem, formada com o prefixo grego meta, que expressa as idéias de comunidade ou participação, mistura ou intermediação e sucessão, designa a linguagem que se debruça sobre si mesma. Por extensão, diz-se também: metadiscurso , metaliteratura, metapoema e metanarrativa . "


Em "E-dicionário de termos literários"


Se eu pudesse resumir o filme Budapeste em uma palavra, esta seria "Metalinguagem". Ao conhecermos a estória do escritor José Costa , iremos nos aventurar, em língua estrangeira , pelos caminhos que unem e separam duas cidades tão distintas: Rio de Janeiro e Budapeste.


A narrativa diz respeito a um escritor brasileiro que, vivendo uma vida apática e sem sentido, desloca-se por entre duas cidades numa tentativa de encontrar a sua identidade. No Rio, é José Costa, autor de best-sellers, porém, na condição de Ghost Writer, ou seja, escreve, mas não recebe os louros da obra; escreve para outrem , por outrem.


Em Budapeste, José Costa torna-se Kósta Zsozé, escritor, marido de Kriska (quem lhe ensina a língua húngara, a qual, segundo ela, é impossível de se aprender por livros) e também autor, não de prosa, mas de poesia, o que significa muito: Costa nunca escrevera em português nenhum verso, já em húngaro, viu-se diante do fascínio de uma outra língua, aquela, a única a qual o diabo respeitava, segundo Kriska, e, por isso, tinha que fazer algo, este algo foi: deixar as palavras surgirem assim, no papel pálido, tais como os "Fecse", as andorinhas, em húngaro, cujo bater de asas dava origem à obra.


Budapeste, baseado no romance homônimo de Chico Buarque, nos fala essencialmente de metalinguagem: o fim do filme deixa esta intenção muito clara em diversos momentos: seja no aparecimento na tela do autor da verdadeira obra, o próprio Chico, seja no olhar que, surpreendentemente José Costa ou Kósta Zsozé nos endereça, depois de nós, espectadores, nos depararmos com a capa do livro fictício escrito pelo Costa, igual à capa do livro de Chico, tudo culminando com a imagem da câmera que filma tudo e parece nos entregar a informação de que tudo é ficção, corroborado pelo apropriado "corta" do diretor que encerra a película.


Budapeste fala de entre-lugares, língua, metalinguagem. Melhor dizendo, podemos questionar: O que muda quando deixa-se de ser José Costa para ser Kósta Zsozé? Budapeste e Rio? Prosa ou Poesia? Autor ou Ghost Writer?


Trata-se da linguagem que fala sobre a própria linguagem, a poesia de quem só se aventurava em prosa é um caminho novo para Costa, tal como a prosa não deixa de ser um caminho novo para aquele que ficou famoso na Música. Mas, em que podemos mais pensar, ao nos surpreendermos com o Amarelo de Budapeste e o azul do Rio de Janeiro?


Pensamos, sobretudo, e não por acaso, no que somos, do mesmo modo que Costa era outro quando se travestia de Kósta e falava o idioma, e buscava entranhar-se naquela língua tão diferente do português. Por que a necessidade de outro país, outra língua, outra mulher? - Costa era casado com Vanda no Rio de Janeiro, jornalista de sucesso cujo principal papel era inferiorizá-lo, ele, que não tinha escrito um livro sequer ( Vanda ignorava a condição de Ghost Writer).


Temos a necessidade premente de nos reinventar, de buscar quem somos , e, mesmo assim, esta busca não incorre em certeza de descoberta, tampouco em sucesso. Nunca acharemos quem somos, sequer teremos a vaga noção do que somos, o que não é pouco angustiante. Costa ao se transformar em Kósta, busca a todo momento o seu reconhecimento, e nada mais simbólico do que a profissão que escolheu: escrever sem aparecer, porém, em alguns momentos esta necessidade irrompe e ele brada: "Sou eu, sou eu o autor do livro!".


A metalinguagem permeia toda a obra, assim como palavras, estruturadas assim, em sílabas e transformadas nos "tercetos secretos" escritos por Kósta, cuja poesia nunca será húngara porque irremediavelmente estrangeira, brasileira. Era o que Kósta não sabia: Não se podia abandonar a essência, traduzida em nacionalidade, o que não o impediu de tentar: A palavra para explicar a palavra, Fecse para Andorinha, assim como Costa para Kósta e Budapeste para Budapeste ( o do Chico).


No fim percebemos que em Budapeste ou no Rio , algumas coisas certamente não mudam. Costa será sempre Costa, mesmo que em outro cenário, e nós, nós nos depararemos com a nossa não menos angustiante condição de espectador a qual o filme bruscamente nos remete, esta é a função da câmera e do olhar inesperado do ator para nós, nós que estamos no cinema, uns estupefatos, outros não tanto.


sábado, setembro 19, 2009

Guidon, Celim ou Cabeça de touro?: O Mistério de Picasso




Pablo Picasso costumava dizer que , se por acaso, estivesse a caminhar por uma rua e se deparasse com um velho guidon de bicicleta e um celim, estaria diante da cabeça de um touro. Segundo ele, para o "homem comum", o guidon e o celim seriam e morriam sendo, apenas, o guidon e o celim.


Diante disto, a gente pode se perguntar, o que faz de Picasso um homem incomum? Em "O Mistério de Picasso" (França, 1955). Clouzot, o diretor, convence o amigo e artista espanhol a realizar um filme mostrando o que seria o seu "mistério". A saber, podemos pensar aqui: O mistério de sua arte. Convencido de que este seria um bom trabalho e um meio de se tornar cada vez mais popular - ele adorava mostrar-se grande, tal como realmente o foi - Picasso resolve então criar 20 trabalhos inéditos ali, em frente à câmera de Clouzot.


O resultado disto são pinturas e desenhos impressionantes que carregam a marca da genialidade de Picasso. O espectador, guiado pela mão e pelo pincel de Picasso, que mal aparece em toda a película, pensa estar a todo tempo invadindo um pedaço de papel, uma tela branca. Ele vai construindo e ao mesmo tempo cumprindo o papel de cúmplice na criação da arte de Picasso. Somos - e agora me coloco eu também como espectadora - raptados da nossa comum realidade pelas pinceladas rápidas e cheias de sentimento e levados para atmosferas diferentes daquela na qual estamos, de fato, inseridos.


Conhecemos cafés, entramos em arena de touradas, visitamos corpos perfeitos , tudo isto guiado pela mão do artista genial. Durante todo o filme temos a sensação de que estamos dentro da folha de papel, dentro da tela e somos , também com elas, pintados, oferecidos a uma outra realidade, uma realidade cheia de cor, de brilho, espânica por natureza e por direito.


O que chama atenção no filme de Clouzot, além da arte de Picasso, é a pretensão do diretor: O argumento para realização do filme é, logo de início, revelado ao espectador: era intenção de Clouzot demonstrar como a genialidade assalta o artista que, compelido pelas suas maiores e mais vigorosas paixões, empresta à obra de arte todo seu ser em busca de algo mais, alívio das tensões, talvez.


Clouzot abre o filme com uma voz narrando este objetivo maior que seria, demonstrar, através do movimento das mãos de Picasso , como a obra de arte é sentida e, posteriormente, concebida até se transformar na tela, no desenho acabados. Esta demonstração, contudo, de acordo com a opinião de Clouzot, só é possível nas artes plásticas, posto que não é possível acompanhar o desenrolar da genialidade na execução das obras primas da Músicas, como, por exemplo , nas sinfonias de Mozart, e tampouco na Literatura.


Por nos entregarmos à mão de Picasso, temos a impressão de que somos também pintados. No entanto, o argumento de Clouzot é discutível: Será que nos 75 minutos de filme estamos todos nós, espectadores, testemunhando o nascimento da genialidade? Não sei, acredito que estamos diante do nascimento das obras, estas que, após a realização do filme foram destruídas.


Não se pode dizer, porque vemos uma obra de arte nascer, que estamos perto de desvendar o mistério de Picasso, tampouco, o mistério de toda genialidade. Não seriam as artes plásticas, portanto, privilegiadas em relação à Literatura ou à Música, dito de outro modo: Será que acompanhar os movimentos passionais do pincel de Picasso nos faz realmente estar testemunhando e mais, desvendando o mistério da genialidade?


De acordo com Freud, todo artista tem em si o privilégio de ter livre acesso ao que chama de "reserva natural original", na qual todo homem guarda suas paixões e impulsos da vida infantil. Seria, pois , o artista aquele que tem um espécie de "passe livre" para adentrar nesta reserva. Reserva que, no homem comum, permanece inóspita, inabitada, quase perdida, porém existente - alhures, na vida inconsciente.


Disto podemos pensar que,não é por acompanharmos a mão de Picasso que teremos todos acesso à reserva natural original que faz nascer a arte, enquanto expressão da genialidade. O mistério, à despeito do que pensava Clouzot, está menos revelado do que se esperava. Aqui, mais uma vez cito Freud. O autor considera o exemplo de um escritor que, mesmo interrogado sobre sua arte e disposto à revelá-la, não consegue fazê-lo. Em suas palavras:


" Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem a mais clara compreensão interna dos determinantes de sua escolha de material e da natureza da arte da criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos"


( Freud, 1908, em Escritores criativos e devaneios)


É fato: Não é porque testemunhamos o nascimento de vinte obras de arte que seremos capazes de entender as vinte razões diferentes que as originaram. Não, não é acompanhar o nascimento da obra que nos permite entendê-la, conhecê-la, tampouco nos oferece a capacidade também de realizá-la. Não tenhamos a pretensão de desvendar o mistério da genialidade, ela não nos deixa nenhuma pista, apesar de Clouzot.


A reserva natural, esta permanece perdida. Até a encontrarmos. Até aí, para a maioria de nós, o guidon e o celim serão sempre as partes de uma bicicleta. Contentemo-nos.

quarta-feira, setembro 16, 2009

Ciência e Poesia em tempos de guerra



O que será que toca um poeta e um cientista de tal maneira que os discursos de ambos acabem por se parecer, por realçar fatos que guardam certa semelhança entre si? Acertou quem apostou em “tragédia”. Não é preciso – há que se dizer – ser nem oficial de versos ou bastião do cientificismo para chegar à conclusão de que tragédias tornam os corações mais amolecidos, menos rígidos.
As primeira e segunda Guerras mundiais foram exemplos dessas tragédias que acabaram por unir corações e mentes em torno de uma só situação: a tragédia de vidas abreviadas por conta do egoísmo humano e do ufanismo quase imoral que dizia saber das coisas da vida e conhecer o bem de uma nação.
O poeta , da sua maneira, deixa suas angústias falarem e tomarem conta do papel; em forma de versos vão aparecendo palavras tristonhas que se ligam umas as outras para formar uma estrofe que acaba sempre muito mais bonita do que indicaria seu conteúdo:
Depois da guerra vão nascer lírios nas pedras, grandes lírios cor de sangue, belas rosas desmaiadas. Depois da guerra vai haver fertilidade, vai haver natalidade, vai haver felicidade [...] Depois da guerra não haverá mais tristeza: todo o mundo se abraçando num geral desarmamento”.
Vinícius de Moraes em “Para uma menina com uma flor (maio de 1944)
Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. [...]. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito que tínhamos das riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura que antes”.
Sigmund Freud, em “Sobre a Transitoriedade” (novembro de 1915)

É, há quem diga que Ciência e arte não se bicam; eu sou da opinião de que se complementam, se irmanam, se entendem. Caso não o fosse, Freud não falaria tão bem de flores efêmeras e Vinícius não entenderia de armistícios. O melhor que aprendemos nisso tudo é que o homem, seja seu ofício versar ou pesquisar, não perde a esperança, nem em tempos de guerra.



Ilustração: Guernica, Pablo Picasso