terça-feira, outubro 14, 2008

Soneto com serpentina






E era o primeiro dia daquele carnaval
Confetes eram vistos nas vielas da cidade
Tinha gente alegre de todo tipo e idade
Já que pular e sorrir faz tudo, menos mal

Era carnaval e já era o segundo dia
O Pierrot pulava e sorria e nada dela olhar
Colombina fingia não se importar
Sem confete, não dava e nem queria alegria

Serpentinas no chão e já era o terceiro dia
Rumores de tristeza, tinta saindo dos rostos
A tarde ia vazia para o Pierrot na multidão

No quarto dia ele andava por entre os loucos
E das cinzas fez surgir um amarelo radioso que não foi em vão
E assim o Pierrot teve no girassol a sua melhor companhia


Ilustração de Cristiano Leão

sábado, outubro 04, 2008

Do encontro*



Tudo se deu na livraria da esquina. Não é que a livraria era grande, nem famosa. Também não era um simples mercadinho de livros. Era a livraria da esquina, sem muitos retoques ou letreiro suntuoso. Nem grande, nem vistosa, nem pequena. Era apenas conveniente.

Encontraram-se lá, aquelas duas almas a vagar entre as sessões de Literatura e a de Jardinagem.

Ela, que costumava se encantar com qualquer coisa que acordasse sua alma da letargia cotidiana, buscava algo diferente. Pensou em Clarice, logo desistiu. Muito auto-destrutivo. Pensou em Florbela e largou no mesmo instante, percebeu que a leitura não era tão diferente de Clarice.
Foi por mandar seus olhos passearem por outras sessões que ela viu o moço das orquídeas.

Queria saber por que diabos aqueles olhos não podiam deixar o orquidário e dar uma passeada lá pelos contos da Lygia Fagundes Telles. Bem que poderiam.
Ela olhava e quanto mais olhava menos entendia porque ele só se interessava por plantas, regadores ou coisas do tipo. Será que não era suficientemente encantadora, tanto ou mais que uma orquídea? A indiferença daqueles olhos jardineiros era demais para ela suportar.
Foi ter com as plantas também. “Há que se plantar, para se colher”, pensou, aproveitando o ensejo.

“ Seu nome científico é Helianthus anuus - o que explica sua imponência e porte majestoso: a palavra Helianthus significa ‘Flor do sol’”.

Era o que dizia a primeira frase da orelha do livro que ela buscou. Ali, naquele território, parecia estar mais próxima das orquídeas do moço desconhecido. De fato, pensou que se pudesse ela mesma vestir-se de dourado e segurar umas poucas folhas esverdeadas, certo que o faria, o moço era muito merecedor, ao menos seus olhos eram, aos olhos dela.
Ele parece finalmente notar que o interesse dela foi subitamente desviado dos contos para a jardinagem, visto a distância entre a sala de leitura e o jardim, poderia dizer que ela foi bem rápida ao se locomover. Não entendia, entretanto, porque ela, uma moça que parecia culta e interessante, estava ali a ter com girassóis e papoulas.
Não, não achou que era por sua culpa. Ela era culta, poderia ser, mas era também um tanto curiosa, e seus olhos pareciam sempre à espreita. Não gostava daquilo, mas, parecia gostar da curiosidade que trouxe a moça aos assuntos de jardim.
Se pudesse - pensou romanticamente como nunca ousara pensar - Se pudesse removeria com as mãos o teto já mofado da antiga livraria para que os raios de sol pudessem, eles mesmos, encontrar aquele girassol de olhos ávidos que se deixou plantar ali, quase sem querer ou intenção.
E ficaram ali, sem saber muito o que dizer. Ele a mover-se cada vez mais rapidamente por entre orquídeas, papoulas, lírios , rumo aos tais girassóis. Ela, sem saber por onde mais caminhar, não sabia se deveria ir ter com as orquídeas ou se se deixava ali , plantada com a tal "flor do sol" nas mãos.

Ela torcia para ele se aproximar.

Ele desejava que ela não mais saísse do jardim.

Há quem diga que nem Clarice nem Florbela entenderiam o que se passou na livraria.
*Ilustração de Cristiano Leão

sexta-feira, outubro 03, 2008

Do comodismo



Todos diziam que pouco ou nada tinham a ver aquelas duas criaturas que foram juntas pela ocasião e pela força de vontade.

Fato é que começou já com data de findar. Viram-se umas poucas vezes, ela ansiosa, ele pacato.

Não se pode dizer se se gostaram. Passaram um tempo juntos, viram o sol se pôr algumas vezes assim como viram umas três luas cheias.

É provável que tenham visto uma ou duas estrelas cadentes juntos, não mais que duas. Beijos, vá lá, talvez umas dezenas, umas dezenas bem exageradas, porque suas bocas, estas sim, se gostavam e se encontravam com mais facilidade do que aquelas duas almas incompatíveis.

Viram uma última maré subir e dispersaram, cada um para seu habitat natural.

Ela às vezes se recorda daqueles olhos caridosos e daquela boca ávida

Ele às vezes lembra daqueles cabelos.


Ela gostaria de lhe falar algo, procurar saber sobre a sua vida

Ele queria saber se ela ainda está sozinha


Ela não quis abrir mão do orgulho

Ele não desejava deixar a sua torre de marfim


E tudo foi se apagando assim
Foram indo embora um da vida do outro
como os raios de sol que deixam lentamente de riscar o horizonte para dar lugar a lua
Foram indo embora assim
sem dar por falta um do outro

Uns dizem que era por que não tinha que ser

Outros dizem que foi apenas obra do comodismo

quarta-feira, outubro 01, 2008

Da mutualidade


Ela era uma deusa. Certamente, aqueles olhos, aquela boca e um sorriso que não se sabe bem se foi obra de Deus ou do diabo.

Ele era um homem maravilhoso, não sabia sê-lo e por isso mesmo advinha um encanto especial daquela face angelical , posto que, não sabendo ser máscula, estava mais inclinada a fazer parte de algum relicário ou coisa do tipo.

Finalmente sairam do plano das idéias e marcaram de se conhecer. Conversaram, riram.

Ele pôde ver que aquele sorriso já não era tão brilhante e certamente não era obra divina, tampouco era um trabalho demoníaco - no bom sentido. Era obra do capeta, mesmo, e do mais vil. Se não havia nada de tentador naquilo, havia um certo gosto de enxofre naquela boca, antes idealizada e posta em altar próprio.

Ela pôde notar que aquele rosto outrora mezzo pré-rafaelita, mezzo boyband americano era puro engodo, pendia mais para uma alegoria dantesca. Faltava-lhe o "mojo", faltava-lhe muito para poder adentrar na categoria dos "homens". E como falava. Falava pelos cotovelos. " - Que fale só", pensou ela.


Diante de tais conjecturas e conclusões, resolveram que o melhor a se fazer seria não se verem mais nesta vida. E tudo foi feito assim, de comum acordo, sem que nenhum dos dois pudesse dizer isto, verbalmente.

Há que se valorizar a expressão corporal, nessas horas ela diz tudo.


quinta-feira, setembro 25, 2008

Videogame X Novela



" O amor, como se sabe, é como marcação sob pressão no futebol. Por mais bem preparados fisicamente que estejam os jogadores, eles não podem marcar sob pressão os 90 minutos"


Luis Fernando Veríssimo


" Enquanto o sexo feminino exige e espera tudo do masculino, ou seja, tudo o que deseja e de que precisa, o masculino exige do feminino, em primeiro lugare diretamente, apenas uma coisa"


Arthur Schopenhauer



De fato , estejamos nós nos meandros da literatura contemporânea ou entre filósofos da estirpe de Schopenhauer, a questão é que deve ser mais fácil ver um eclipse lunar durante o dia, toda semana, a fazer com que homens e mulheres se entendam. Homem e Mulher não nasceram para se entender, não , nasceram para se espezinharem durante toda a existência, para se infernizarem, para que assim possam dar mais valor a uma tal vida que seria mais feliz, mais celestial: a vida eterna.

Desde que mundo é mundo, desde muito antes de Cristo e de Adão, o Homem é caracterizado por ser egoísta, egocêntrico, volúvel e muito, muito inclinado à novidades, sejam elas ligadas a automóveis, a brinquedos automáticos e/ou a nova vizinha bonitona.

Eu não saberia dizer aqui o que é ser homem, posto que, por motivos óbvios, falaria melhor sobre ser mulher, porém, acredito que ser homem é viver num mundo muito colorido, às vezes lúdico até,ter que lutar constantemente contra inimigos malévolos e, algumas vezes, dar a sorte de encontrar uma vilã de corpo escultural para que possam atravessar portais mágicos juntos. Tudo isso se passa numa dimensão intrigante a qual não corresponde nem a realidade material, palpável e nem equivale ao domínio dos sonhos. Sim, a vida para um homem deve ser um jogo de videogame. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Observem bem: a vida para um homem é um videogame pois:


1) O jogo de videogame pode ser jogado sozinho, e muitas vezes é até preferível que se jogue sozinho. Um quarto aconchegante, ar-condicionado e muita paz e tranquilidade. Sozinho. SO-ZI-NHO. A presença de outrem seria apenas justificada se este viesse trazer líquidos e comidas para que o bravo guerreiro recupere suas forças, derrote o gênio malévolo e divirta-se, no plano virtual, com a gostosa lutadora.


2) Em jogos de videogame não se vê personagens discutindo relação, dialogando sobre a feira do mês e nem sobre as obrigações do lar. O videogame é , por si só, acolhedor posto que não faz perguntas, está ali quando for solicitado e , mais importante de tudo: é possivel jogar sem som. Qualquer televisor possui a tecla "Mute", preciosa invenção da qual as mulheres são privadas.



3) No jogo de videogame a personalidade masculina parece dotada de uma característica que parece somente possível na tela da tevê: Coragem. Alguém já viu um herói, um personagem desses jogos de videogame dotado de uma personalidade sensível, de gosto musical apurado e bastante dado à atividades intelectuais/artísticas? Não. No videogame é possível ser macho, macho mesmo, daqueles que cospem no chão e enfrentam qualquer desafio, que tomam decisões rapidamente, que têm atitude diante de quem quer que seja. Isso é impossível. É falácia, é utópico. É o modo de sublimar masculino.



Como se poderia supor, não é porque sou mulher que vou sair aqui defendendo a classe. Isso aqui não é um post panfletário e eu também não sou paga para isso. Quem tiver o ímpeto de reclamar que funde um sindicato, já existem as "delegacias da mulher", estamos chegando lá.

Mulher é um ser complicado que, geralmente, faz uso de todos os percalços biológicos por quais passa durante a existência para justificar seus arroubos raivosos e sua cólera que é, no fundo, infundada. Mulher também gosta de falar, portanto, se você é homem , está lendo isso ainda e visa conquistar uma mulher, deixe-a falar, finja-se de compreensivo, atento e altruísta, disfarçando até quando puder o seu egoísmo nato. Deixe-a falar, sempre, falar pelos cotovelos, mas, deixe a pobre se expressar, você não perde nada, e , no fim de noite, poderá ser agraciado com algo que vá saciar seus hormônios.

Se podemos comparar a existência masculina com o videogame, por que não comparar a vida das mulheres a um folhetim romântico? Isso, desses que passam em qualquer canal de tevê aberta. Em geral esses romances adocicados dizem muito sobre a vida de uma mulher. Vejamos em que me baseio:


1) Está-se sempre em busca do mocinho, rejeitando o vilão e, ao mesmo tempo, querendo-o. Sim, há que se perceber que o vilão guarda em si um tempero especial, algo do qual o mocinho (estamos falando de ficção, reitero) não é provido e que atiça a curiosidade da mocinha que, burra que só ela, insiste em não saber quem quer.


2) Uma vez que o dito cujo não a escuta, não manda flores e nem mensagens no dia seguinte, para que conservá-lo no lugar de mocinho? Não. É vilão, acabará no ostracismo e, provavelmente terminará na cama com alguma vilã inescrupulosa que o sedou a fim de consumar o ato sexual e procriar.


3) O mocinho é constantemente substituído por outros candidatos a mocinhos os quais devem obedecer ao modelo de perfeição exigido pela mente doentia feminina para que alcancem os céus. Porém, será que as mulheres realmente estariam satisfeitas com algo? Acredito que nada é capaz de satisfazer uma mulher: Constantes "sim, meu bem" enfadam e abrem a porta - ou a janela - para o vilão roubar a cena, assim como freqüentes "não mesmo!" também preparam o terreno para o adultério conveniente.


4) Nas novelas que se prezam há que se ter casamento e um final feliz. Homens e mulheres felizes, caminhando pelas areias da praia, desenhando corações. Isso é impossível. É falácia, é utópico. É o modo de sublimar feminino.

terça-feira, setembro 23, 2008

Entre rodelas de pepino e pó de arroz



Eis que me chega às mãos uma espécie de almanaque de feminilidade. Nele existe tudo de mais caricato que pôde ser enquadrado como pertencente ao denominado "universo feminino".

"Só para mulheres: conselhos, receitas e segredos" (Editora Rocco, 2008) é o que podemos chamar de "Manual para ser uma boa mulher". O interessante livro reúne textos de Helen Palmer, Ilka Soares e Tereza Quadros veiculados em jornais entre as décadas de 50 e 60 do século passado.

Certamente para vocês os nomes acima citados não dizem muito, talvez não sejam nem mesmo atraentes para aqueles que julgam o conteúdo dos livros pela pompa dos escritores. Eis aonde o gato pula: Ilka, Helen e Tereza nada mais são do que pseudônimos usados por Clarice Lispector para escrever em jornais como o "Correio da Manhã" e "Diário da Noite".

Através de receitas para uma pele cansada e conselhos sobre como se portar num jantar a dois, Clarice revela um universo feminino no qual muito do encanto das mulheres se resumia em possuir um bom liquidificador, "instrumento da feiticeira moderna" (Lispector, 2008, p.69), ter algumas rodelas de limão à mão, umas gotas de óleo de fígado de bacalhau, e , claro, uma certa camaradagem com o farmacêutico da vizinhança.

A mãe da Macabéia (heroína de "A hora da estrela") com seus textos cor-de-rosa, escritos exclusivamente para as boas esposas, mães e donas de casa, mostra uma faceta pouco conhecida sua, a de mulher vaidosa, amante da boa maquiagem e dada aos truques da boa e velha "coqueteria"
Supondo que de bruxa e fada toda mulher tem um pouco, "Só para mulheres" é um divertido manual no qual mulheres como eu, filhas desta contemporaneidade, podem se deparar com textos de uma época remota, na qual a criatividade era um dos ingredientes essenciais no caldeirão dessa "feiticeira moderna" da qual fala a autora, ou as autoras, como prefirirem.

Em "A Máscara da face" , coluna datada de 1960 e veiculada pelo "Correio da Manhã", por exemplo, revela-se a noção de mulher construída no imaginário social da época: " A mulher deve se conservar numa atitude de discrição, embora se pinte e procure ser bela, pois não há nada mais encantador que uma bela mulher vestida com roupas elegantes e modernas, mostrando o mais amável dos sorrisos! É mesmo um céu em vida!"

Mas, vejam vocês, a feminilidade é quase um dom angelical, concedido a essas criaturas tão dadas aos truques da maquiagem, do vestuário e da elegância, com um único intuito: a produção perfeita destinada aos olhares masculinos, pois, que homem resistiria a uma mulher tão encantadora, representante terreno dos anjos de maiores cargos nas assembléias celestiais?

Nenhum, afirmo tachativamente. Não esqueçam que se deve sempre ostentar um sorriso e aparentar ser este tal de "céu em vida". Eu me pergunto e o que fazer com aqueles dias em que só se chove, em que não se tem isso de ver estrelas nem luar, apenas breu?

Sabe-se que a sedução feminina é algo muito estudado e também cantado em verso e prosa, não seria de um compêndio de receitas para as mulheres que a atividade sedutora seria suprimida. Portanto, o livro mostra que nada há de errado com as que não são belas naturalmente, a não ser que recusem embelezar-se. Toda feiura é passível de ser dissimulada assim como toda beleza é capaz de ser acentuada.

O objetivo é fácil de ser adivinhado, mais fácil do que tirar mancha de vinto tinto de roupa branca: É necessário fazer-se bela, desejável e, sobretudo, agradável para alcançar o mais alto posto ao qual uma mulher, na época, poderia almejar: Ser mulher de alguém e, por conseguinte, mãe dos filhos deste alguém.

A família burguesa necessita dessa mulher, por isso, é necessário que esta se enfeite, mas sem tanto glamour, sem tanta ostentação - posto que não se deve almejar jamais ser uma réplica de Brigitte Bardot, isto incorreria em grave erro e afetação, segundo afirma Lispector - para que assim consiga seu homem, e , finalmente, possa descansar de tanto esforço que fez para fisgá-lo, relaxar dessa beleza e dessa busca incessante pela perfeição para ser, finalmente, a mãe bondosa.

É , parece que ser o céu em terra não é tarefa das mais fáceis: É preciso inventar uma tal beleza, cuidar para que a pele esteja sempre limpa, asseada, cuidar das mãos, das unhas, dos pés e dos cabelos, inventar um jeito próprio de ser feminina para depois deixar tudo isso em nome da função mais bonita que a família burguesa já inventou que é a procriação.

Ora, qual homem encantar-se-ia por uma mulher que passasse longe dessa existência etérea, e que se assemelhasse mais a certas alegorias infernais? Nenhum, e ele tem lá suas razões: há de se buscar a perfeição na mãe dos filhos, esta deve ser a criatura mais celeste, digna do nome do marido.
Clarice estava certa em falar tanto para as mulheres, a dar tantos conselhos, alguns deles, acreditem, são bem interessantes e ainda válidos, mesmo nos dias atuais, nos quais qualquer creme hidratante resolve muita coisa.
Em nome da instituição familiar, há que se ter sempre as mais belas flores no jardim, as mais graciosas estrelas a brilhar para o deleite dos olhos masculinos.

Haja rodela de pepino, tudo em nome da família, claro.

quarta-feira, setembro 17, 2008

De onde vem a Arte?


“ Aqueles quem me repugna trabalhar são os que substituem a intuição, a sensualidade, a imaginação, por uma linguagem intelectual”


Ingmar Bergman



" Afinal, o essencial é isso: sobreviver e manter a paixão"


Pedro Almodóvar



Começo esse post com frases marcantes de dois grandes diretores de cinema os quais tenho me dado o prazer de conhecer durante estes últimos tempos. Vejamos nós o que estas frases têm em comum, o fio que as une e que nos pode ser útil.

A saber, a forma de conceber a arte dos diretores citados. Vemos que tanto para o sueco como para o espanhol, a arte deve ser algo que não se norteia a partir do intelecto.
Dito isto, penso o que seria a arte, senão composição mesma das emoções, da paixão de um diretor, de um autor, de um escritor, escultor. A arte seria delimitada , será mesmo que ainda poderia se chamar arte se fosse norteada pelo intelecto?

Segundo os dois exemplos que uso neste texto, creio que a arte é algo que prescinde da razão, posto que é arte, por si só, e por sê-la carece de explicação. Os filmes de Almodóvar são quase sempre permeados por lembranças de sua infância, repleto de personagens que fizeram ou fazem parte da história de vida pessoal do diretor.

O que quero dizer com isso não é nada inédito: A arte é sublimar, é fazer algo com aquilo que não podemos engolir. A arte deveria ser assim, imune a críticas, posto que até mesmo o criador , em algum dado momento, não dá conta de falar sobre a sua criatura, aprendeu a fazer algo com ela, o que, não necessariamente, implica saber explicar o que criou.

É tudo muito visceral, no fim das contas. Pode-se até ser dado um verniz intelectual, mas, no fundo, ao criarmos uma escultura, ao compormos uma música, ao pensarmos no argumento de um filme, tudo está vinculado a algum tipo de emaranhado interno sobre o qual não sabemos precisar começo, meio e fim, mas, uma vez estando ali, urge fazer algo com esses pequenos monstros que teimam em aparecer quando se apagam as luzes.

É isso o que Bergman faz, é este também o ofício de Almodóvar: Claro que um filme não é realizado sem o crivo intelectual; existem questões para as quais uma equipe é designada de forma que o filme possa ser enquadrado como uma produção artística, é um produto, sejamos brutos e diretos agora. E para um filme acontecer há muito o que se trabalhar.

Eu falo aqui é da idéia principal, do primeiro lampejo do gênio criador: Como surgem as idéias, como alguém vai criando uma narrativa, pensa num cenário, idealiza personagens? Isso tudo é bastante intrigante e instigador.

Tudo me parece ser uma questão de entranhas. Há os que matam, há os que comem, há os que fumam. Sobre estes pairam os gênios, grandes doutores na arte da sublimação. Sorte nossa é que também sublimamos ali da platéia, regozijamo-nos de ver todos os nossos fantasmas encenados, a alcance do olho, aquilo tudo que juramos esconder muito bem.


A arte deveria se prestar a isso, por isso, em minha opinião, o trabalho de crítica deveria muito mais pender para o lado da discussão do que do veredicto. Classificar algo que vem das entranhas dos outros em "Bom", "Excelente" , "Fraco" ou "Sofrível" é o mesmo que julgar qual seria a melhor das cores do arco-íris. Trabalho impossível, arrisco-me a dizer.


Tal como as cores,não existe uma melhor nem outra pior, tudo é uma questão de gosto ou de (des)gosto. Quando se fala em arte não necessariamente deve-se ter em mente algo esteticamente belo e agradável aos olhos curiosos e ávidos dos espectadores - sobre isso muita tinta já foi gasta, muitos livros foram escritos, não tenho a pretensão de seguir este caminho.

O que quero dizer, na minha modesta opinião, é que Arte é terrivelmente limitada quando se busca defini-la.

Não há como julgar os filmes de Almodóvar, metê-lo em categorias, acredito mesmo que o próprio não gosta de ver nada seu classificado, rotulado, tal como diz em "Conversas com Almodóvar" (2008), gosta de ser um bocado de coisas juntas, não necessariamente uma unidade, pretensamente buscada pelo cinema hollywoodiano.


Portanto, o cinema de Almodóvar é simplesmente a arte de um homem, de Pedro Almodóvar, que pôde, através desta, lidar com sua própria unicidade. Não existirá isso de seguidores de Almodóvar, posto que, até na imitação há algo que escapa à cópia fiel e caminha em direção ao sintoma , ao fantasma sempre presente naquele que visa realizar algo. De acordo com essa visão, assim, nada é um verdadeiro plágio; há sempre um fiozinho que não se sabe da onde veio, feito para distoar da réplica pura.


Do mesmo modo, não há um outro Bergman, também não haverá outro Woody Allen. Haverá outras pessoas que surgirão e que, para viver no caminho da arte, deverão aprender a tal arte de manter acesa a paixão e fazer algo único.


O segredo deve advir justamente dessa questão a qual foi tocada por Almodóvar: O negócio é sobreviver a própria vida, às injunções sociais, ao cotidiano bruto, maquinal, e deixar a arte aflorar daonde ela mais jorra: as emoções.


Apesar de o cotidiano ameaçar a Arte, não nos preocupemos: há sempre uma dor ou outra se revelando, fazendo rugas em nossas faces e tornando a existência invariavelmente insuportável, é daí que surge o desejo maior de fazer algo com ela e que será compreendido, porque, segundo Almodóvar (2008), " todo mundo sabe o que é a dor".

Através dela, na maioria das vezes, é que se faz arte. Não vamos nós nos limitar a classificar a dor que passamos ou mesmo abafá-la. Vamos fazer cinema. Que isto seja um convite.

Aos que não tem talento para tanto, que restem as palavras, os violões...