quarta-feira, dezembro 10, 2008

Numa folha de papel*


"Um pouco de pão,
Um pouco de água fresca,
A sombra de uma árvore. E os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz que eu...
Nenhum mendigo é mais triste..."


Esses pequenos versos estavam escritos em papel amarelado, com jeito de mofado, em tinta tão azul que sequer aparentava ter sido vertida havia quarenta e tantos anos. Não se sabia autor, tampouco obra, apenas isso era o que sabia, eram versos muito lindos e muito simples, compreensíveis apenas para corações apaixonados e poéticos.

A menina leu-os em um antigo alfarrábio da cidade. O sol estava forte, nada melhor do que a sombra de uma árvore, mesmo que feita de versos, para acalmar o coração que trazia uns remendos, umas sequelas ali, outras acolá.

Ela não sabia dizer antigamente qual seria o impacto que seus olhos teriam ao cruzarem tal folha do livro empoeirado que achou sem querer nem intenção no alfarrábio. Talvez em outros tempos não se tivesse deixado ficar tão fascinada como agora, pois tinha dançado outras valsas, porém não raramente anestesiava as emoções e curava suas dores por entre metodologias e academicismos.

De fato, vivera umas primaveras, dera alguns sorrisos, e, se eu pudesse arriscar, diria que protagonizara antes alguns dois ou três momentos de felicidade. Não diria que tinham sido sublimes, posto que agora tem comparação a fazer.

Eu diria que a menina teria dado uns tantos sorrisos e recebido alguns poucos em troca. Beijos dera muitos, mas a alma parecia adormecida, na melhor das hipóteses, na pior a trazia não dormindo, mas morta, embebida em formol porque até então não tinha havido despertador em seu caminho capaz de anunciar-lhe vida nova.

Vida aquela alma não tinha longe dos seus diplomas e de suas ciências, porém, como algum quê de poesia parecia viver trancado nos porões de seu cérebro, lá em algum lugar entre o hipotálamo e o cerebelo, avizinhando-se do coração, deixou-se lentamente penetrar por algo grandioso que lhe apareceu por obra do acaso ou do trabalho árduo de algumas estrelas, se romântica fosse assim pensaria, pois coração de cientista não sente por medo de deixar de pensar.

Não sabia como, nem porquê, mas foi de repente que a noite e a madrugada da sua alma foi indo embora com o anúncio ensolarado de um novo dia: Sim, chegou-lhe um despertador para dar vida a alma amortalhada.

O despertador era um menino de olhos grandes, com ares e boina de poeta. Fez morada no coração antes apenas habitado por artigos e livros técnicos. Trouxe com ele uma chave antiga e um coração igualmente dispostos a se dar e a destrancar a pobre alma da menina que não sabia tê-la morta de vez ou apenas sonolenta, como já se disse aqui.

Era um negócio de poesia e de canções de amor que poucos entenderiam. Pareciam viver numa redoma de vidro que os separava do mundo frio ao mesmo tempo em que os unia cada vez mais. Quase todos os dias estavam a se ver e quando não o faziam fisicamente, viam-se em sonhos ou em pensamento.

E as flores tinham cheiro agora e a vida um sabor doce. As notas musicais tinham nome próprio e apelidos e, quando tocadas formavam melodias simples: por mais diferentes que fossem umas das outras, dó ré mi fá sol lá si sempre se entrelaçavam e se abrigavam no violão de modo a dizer "Eu amo você".

E a noite longa acabou e o sol deu o ar de sua graça por entre as nuvens fechadas que teimavam em escurecer aquele céu que tanto queria ser azul. Pronto, era azul, ele chegou e com seu despertador acordou-lhe a alma, o coração e lhe fez subitamente entender os versos de um pobre, mas feliz trovador.

A menina compreendeu os versos mesmo sem saber de que pena saiu; pôs um sorriso de meia-boca no rosto, como se cúmplice fosse do autor desconhecido.
Agora sim, ela era também aquele sultão e mendigo.

Agora que tinha despertador não cairia mais no sono dos que não amam, fechou o livro e agradeceu ao autor desconhecido já que, em uma fração de segundos, finalmente reconhecia o que emociona o poeta e o que cativa um leitor.

E seu coração não mais vivia de ciência, pois sua alma agora festejava o trim-trim-trim que lhe despertou.
* ilustração: Cristiano Leão

terça-feira, dezembro 09, 2008

Do complemento






E dizem que não há espaço mais para amor nesse mundo de meu Deus. Se alguém me falasse eu não acreditaria mas acontece é que eu vi.


Encontraram-se os dois numa livraria. Nem grande, nem pequena. Apenas conveniente, já se sabe. Maria de branco e com um sorriso de vergonha estampado na face que trazia pintada.


Ele estava a sua espera, com olhos grandes e doces, tão doces como o doce que trouxe para Maria.


Zé era assim, um homem com jeito de moço velho, mas também tinha lá um jeito de menino novo. Seus olhos grandes estavam à procura dos dela já havia alguns anos, umas vidas, se alguém aqui acredita em Espiritismo.


Zé completava Maria tal como Maria era o complemento para Zé: Muitas luas, muitas décadas e vidas já passaram antes de se reencontrarem, pareciam saber de que sonho um tirara o outro, pareciam conhecer já, mesmo sem se ver, os gostos um do outro, os olhos e os cheiros um do outro.


De tudo um pouco faziam, sem preguiça ou tempo ruim; sorriam o mesmo sorriso juntos e sabiam que iriam chorar o mesmo choro também.


Maria sabia Zé e Zé sabia Maria, assim , sem ter nem porquê nem cabimento, se conheciam e não sabiam de que sonho , de qual vida, apenas se adivinhavam, se completavam e, mais que isso, se queriam tanto que passavam a vida a recitar sonetos, a contar umas estrelas e a cantar umas canções tão belas.


Não havia cor que Maria imaginasse que Zé não a adivinhasse; gostavam de cores, de canções de amor , de poemas e de números pares. Há quem diga que não existe nesse mundo de meu Deus um casal tão feliz como aquele Zé e sua Maria.


Eu digo, com esses olhos curiosos que já viram de terremotos à enchentes, que ainda está para nascer um casal como aquela Maria e seu Zé. Depois daquilo passei a acreditar nos gregos que tanto falavam de gêmeas almas, passei a acreditar em Espiritismo , em Deus e até mesmo nas estrelas que numa dança louca fizeram surgir aquele Zé tão certinho pra Maria.

sábado, dezembro 06, 2008

Versinhos para a amada levar para a terra da garoa


É...


Por tantas a gente já passou

De conversa em conversa

tanto a gente já analisou

Já chorei já sorri

já vi chorar já vi sorrir

agora vou ver partir

é...

Por muitas a gente passou

de desventura em desventura

sempre uma mão estendida à outra

em meio a tanta solidão

o encontro da amizade verdadeira pelo computador

é....

por muitas mesmo a gente já passou

amiga o caminho eu sei não foi fácil não

foi muito sofrimento muita angústia

e enfim o pranto passou

vai lá viver o seu amor

que o que é seu jamais o tempo e a distância levou

vai lá viver a paz

que daqui eu fico na torcida e na espera de um alô

é...

tantas a gente passou

e quem desacreditou no amor

graças a Deus não vingou

para ver o dia em que a amada partiu

em busca de seus sonhos
com a benção de sua fé

Foram muitas que a gente passou

e aqui desse lado fica alguém

que ri com você

que chora com você

e desse lado fica alguém a sorrir

porque aprendeu que amizade não precisa ser constante

nem de ver a todo instante

para ficar feliz ao ver a amada ir

segunda-feira, dezembro 01, 2008

O caminho para a distância: Vinícius de Moraes, velho e moço ou moço e velho?


"Este livro é o meu primeiro livro. Desnecessário dizer aqui o que ele significa para mim como coisa minha - creio mesmo que um prefácio não o comportaria normalmente."


Vinícius de Moraes



E assim nos é apresentado o poetinha, nada que lembre o fanfarrão, bonachão inspirador de "Samba para Vinícius". Em O caminho para a distância (2008, Companhia das Letras), conhecemos o poeta jovem, aprendiz, com apenas dezenove anos parecendo suportar todas as dores do mundo.


Falando de exoterismo e misticismo, muito dos poemas reunidos neste livro sequer lembram os poemas da chamada "fase madura" deste boêmio encantador. Publicado originalmente pela editora Schmidt, em 1933, o livro composto de quarenta poemas reaparece agora com a iniciativa da editora Companhia das Letras em reunir a antologoia poética de Vinícius.

Qual foi meu espanto ao me deparar com os poemas claros, simples, beirando o sagrado, os poemas de um jovem que em nada me parecia Vinícius de Moraes não sei dizer. Confesso que da sua obra mais me interessavam os sonetos que somente ele pôde idealizar, porque somente ele tinha na alma um quê de romantismo que pode rimar com soneto.


Sim, para muitos e inclusive para mim, soneto só rima com amor e este, por sua vez, só rima com Vinícius. Porém, em O caminho para a distância, nos deparamos com o ambiente que circundava o poeta desde muito cedo; as paisagens cariocas, as mulheres, o sagrado, o místico e principalmente o amor, ainda idealizado, ainda não transbordando luxúria, tal como conhecidos versinhos que viraram inspiração para o movimento Bossa Nova dos anos 50 e 60 do século passado.


Parece então que neste livro encontramos um poeta aprendendo a viver, mas que nem por isso de versos menores; Se em algumas temáticas conhecemos um novo Vinícius, mais jovem, não podemos deixar de reconher traços muito marcantes do poeta.

Por exemplo, no prólogo de "O caminho para a distância" , o poetinha faz uma advertência: Comenta que talvez alguns versos não estejam muito apurados, porém, não pensava em lapidá-los, em transformá-los em algo melhor, passado pelo crivo da borracha e da consciência. Não, Vinícius o quis assim e assim os publicou.

Com a pena da juventude pôde falar dela como se já não a vivesse, assim em " Vinte anos":


" A minha juventude

E a noite passada em claro chorando Jean Valjean que Victor Hugo matara…

Como vai longe tudo!Pesa-me como uma sufocação meus próximos vinte anos

E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia.

Medo de ser jovem agora e ser ridículo

Medo da morte futura que a minha juventude desprezava

Medo de tudo, medo de mim próprio

Do tédio das vigílias e do tédio dos dias…

Virá para mim uma velhice como vem para os outros

Que me dissecará na experiência?"


Um jovem-velho que, se conhecesse seu destino, talvez não temesse tanto assim a velhice e a si mesmo. Era assim o poetinha aos dezenove anos. Tal como todos nós aos dezenove, temia o futuro com a mesma intensidade que o desejava vê-lo realizado, cumprido, feito e terminado. Aos dezenove o poetinha camarada parecia ser mais velho e, quando velho, parecia nunca ter abandonado a mocidade.

Sempre cercado de amigos e mulheres jovens, sua vida sempre foi uma festa, uma roda de samba. E nada disso lembra o poeta um tanto preocupado, mas sempre brilhante, de O caminho para a distância.


Em "Velhice", mais uma vez o tema da finitudade da vida, o poeta fala de como se imagina quando a idade chegar:


" Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente

Olhando as coisas através de uma filosofia sensata

E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite."


E quem o conhece sabe que essa época nunca chegou: morreu como viveu a vida toda: vivendo intensamente, compondo, escrevendo, e, mais do que tudo, amando: amando suas mulheres que tantas vezes colocou em sonetos, amando seus amigos os quais dizia não fazê-los, mas sim, reconhecê-los, amando sua fé e sua crença em algo eterno e divino.


Assim era Vinícius, e viveu a velhice como viveu a mocidade. Não um velho que se tornou sensato porque os fios grisalhos pousaram em seus cabelos e porque as rugas anunciando a idade avançada fizeram morada em sua face. Vinícius foi ele mesmo imensidão, devoramento, Bossa Nova, samba e muito amor, e nada que pareça sensato pode ser chamado de Vinícius. Porque o seu tempo era quando e a vida, não gosta de esperar!



"Samba para Vinícius"

(Chico Buarque/ Toquinho)


Poeta

Meu poeta camarada

Poeta da pesada

Do pagode e do perdão

Perdoa essa canção improvisada

Em tua inspiração

De todo o coração

Da moça e do violão

Do fundo

Poeta Poetinha vagabundo

Quem dera todo mundo

Fosse assim feito você

Que a vida não gosta de esperar

A vida é pra valer

A vida é pra levar

Vinícius, velho, saravá



quinta-feira, novembro 27, 2008

Sete dicas para levar à livraria



Um dia eu ouvi dizer que a cidade de Buenos Aires possui mais livrarias que todo o Brasil. Também já escutei alguém comentar que os europeus, mais precisamente os franceses lêem cerca de 11 livros por ano. A média brasileira fica em 1 ou 2, se não me engano.

Pensando em todo esse disse-me-disse, resolvi trazer aqui algumas dicas para a escolha de um bom livro. Boa parte delas foi tirada da minha própria observação, das longas caminhadas por entre alfarrábios e livrarias. Há muito que se aprender nestes lugares, portanto, deixo aqui algumas lições as quais me são valiosas quando me proponho a escolher um livro:


1) Nunca escolher um livro cujo nome do autor venha estampado na capa com letras garrafais: Quase sempre isso é sinônimo de jogada de marketing, o que, por si só, já revela que o livro, na grande maioria das vezes, é mediocre. Um bom livro, na minha opinião, fala por si só e na opinião de Foucault assim que um livro é escrito ele passa para domínio público, o escritor é como se apagado e o leitor é seu legítimo proprietário.

Portanto, como podemos presumir, um bom livro não necessariamente é bom porque o nome do seu autor aparece na capa tal como uma alegoria circense de mau gosto. Além de esteticamente feio, autor que é bom autor não precisa usar desses recursos para se fazer vender. Pra falar a verdade, eu acho que autor que é bom autor não necessariamente preocupa-se com a tiragem de seus livros ou com os milhões que faturará. Isso mata todo o prazer da escrita, já diria o Schopenhauer.

Isso tudo é tão verdade que você não vê um "Machado de Assis", um "Graciliano Ramos" tão gigantescos como pode avistar um DAN BROWN da vida. Isso é fato, quem duvida vá à livraria mais próxima e procure por "Anjos e Demônios" ou "O Código da Vinci".


2) Um livro não necessariamente terá que ter seu conteúdo comparado a um filme nele baseado: Isso é muito verdade, pensem comigo: Literatura é uma linguagem diversa da linguagem cinematográfica. Por detrás de ambas existem conceitos diferentes, existem meios de expressar e esses meios não se equivalem. Eu não estudei cinema, também não sou expert em Literatura, mas o que posso dizer é que a linguagem fílmica é diferente da linguagem literária e disso nem o diretor do filme - seja ele Almodóvar, Medem ou Woody Allen - nem o autor do livro - seja ele Saramago ou Garcia Márquez ou mesmo Dráuzio Varella - têm culpa. São apenas linguagens diferentes, compará-los seria como escolher a cor mais bonita do arco-íris e , para ressaltar isto, vale a máxima popular " o que seria do vermelho se todos gostassem do azul ?" ( alusões ao comunismo à parte!).

Dispenso esses comentários os quais começam por " Mas o livro é bem melhor" , " No filme não aparece aquela parte" ...São linguagens diferentes, uma câmera , duas câmeras, closes, atores, diretores vivências diferentes, formas de enxergar diferentes. Se você é fã de um livro, leia-o, veja o filme nele inspirado se sua obsessão assim o obriga, mas não saia por aí comentando que o filme ou o livro é melhor. São coisas completamente diferentes e o diretor do filme não é obrigado a dar o mesmo colorido à paisagem idealizada pelo autor.

Apesar disso, posso entender o sentimento de raiva que muitas vezes invade certos autores quando vêem suas obras diminúidas, por assim dizer, nas telas de cinema. Também acho interessante o fenômeno capitalista que consegue fazer milhões lerem livros somente porque sua versão saiu nas telas.

Quem duvida disso , pergunte quantas pessoas passaram a se interessar pelo aclamado "Ensaio sobre a cegueira", datado de 1995, mas que somente hoje é "hit do momento". Saramago, se precisasse , agradeceria à Meirelles. Ainda bem que não precisa, o homem tem o Nobel, o outro ainda está em busca do Oscar.


3) Desconfie de títulos muito sugestivos: De acordo com a experiência , nem sempre o livro é tão interessante quanto seu título. Acho mesmo que deve existir autores especialistas em títulos. Sua obra deveria ser respeitada apenas pelo talento em escolhê-los; "fulano é especialista em títulos, seus títulos são perfeitos". No entanto, se você não quer ser pego nessa "armadilha editorial", folheie, passe os olhos nas orelhas, no prólogo (se lá estiver) e também dê uma rápida olhada nos capítulos: se estes não forem interessantes o bastante para você entender que poderá gastar seu precioso tempo desfrutando-o, sequer chegue ao fim da página, feche imediatamente o exemplar e procure o próximo.


4) Nunca menospreze os chamados pocket books: Se você é daqueles que passa correndo por aquela espécie de "estante" na qual os livros de bolso são dispostos, sugiro que dispense um pouco de seu tempo girando aquela geringonça a qual não sei denominar de nada.

À primeira vista pode-se pensar que os livros ali dispostos são fracos, pobres, prostituídos, digamos assim. Encontrados em todos os lugares, de farmácias a postos de gasolina, os famigerados pocket books geralmente são clássicos que a grande maioria das pessoas não leu ou não teve paciência para terminar de ler. Muito frequentemente entre os pockets encontram-se "Hamlet", "Édipo", "Fábulas de Sófocles", até mesmo livros de 500 fáceis receitas para micro-ondas. Tudo é uma questão de olho. Se você tiver um bom, assim como muitos músicos têm "bom ouvido", é capaz de adquirir um livro legal pela bagatela de cinco, dez reais.


5) Desconfie de alfarrábios: Não vá pensando que alfarrábio é sinônimo de livro barato. Não, não é. Você pode encontrar livros de fotografia, de cinema por preços tão exorbitantes quanto os de um livraria comum. Não é por que é usado que o livro é mais barato, mas também não quer dizer que não valha a pena fazer uma espécie de tour por entre os alfarrábios da cidade em busca de coisas interessantes, de edições muito antigas, até mesmo de cartas perdidas num romance esquecido numa prateleira empoeirada ( nunca se sabe!).


6) Cuidado com autores "da moda": Esse é um grande truque editorial promovido pelo capitalismo desenfreado. O autor vai, escreve um livro, e boom! vira sucesso instantâneo, best-seller. Todos desejam conhecer a mente brilhante por trás das sábias linhas; há que se conhecer mais e mais, há que haver outras linhas por trás destas , pois, quem um fez , faz tantos mais, isso em escala industrial.

Há contratos - vamos agora falar o lado real por trás da livraria - : Há quem viva de literatura, no Brasil é um tanto quanto difícil, mas há quem ganhe o pão de cada dia graças à literatura. Esses "sortudos", na maioria das vezes possuem contrato com uma editora que deseja vender e, portanto, há que se escrever, mais e mais.

Essa coisa de best-seller nunca me agradou muito. Parece que depois de um best seller o autor nunca é o mesmo: sempre haverá uma faca imaginária em seu pescoço e uma voz ameaçando: "Será que você pode fazer melhor?"

Sim, acredito piamente que exista isso, e tenho pena do pobre escritor. Poucos são os que conseguem manter o auge, geralmente o mercado o consome demasiadamente, extraindo de uma mente criativa tudo que de melhor pode haver nela. De edição em edição vai se perdendo um pouco do brilhantismo.

Claro que muitos autores renomados vivem de seus nomes e também há muita gente que consegue manter o alto padrão a despeito das exigências editoriais. Acontece. Vide Veríssimo.


7) Capas de livro esteticamente feias: Ao contrário de um título sugestivo que pode enganar, uma capa feia NUNCA engana. Veja bem, atente para o caps lock: NUNCA engana. Eu parto do pressuposto de que uma edição bem cuidada , elaborada passa também por uma capa bem feita, uma boa diagramação, esteticamente agradável aos olhos.

Nunca compre um livro em que existam duas pessoas se beijando na capa - a menos que a imagem seja um pouco distorcida, em tom sépia ou preto e branco e não seja tão óbvia . Também desconfie de pessoas de mãos dadas e animais, a menos que estas tenham um cunho irônico, tenham a ver com o conteúdo do livro.

Desconfiem muito, mas muito mesmo, se houver um profissional de sucesso na capa do livro, alguém cujo sorrisinho seja de vencedor ou que esteja a indicar o caminho para Pasárgada, o caminho de Canaã ou mesmo como vencer na vida em 76 passos. Não gaste seu tempo nem abrindo tal exemplar. Sequer chegue ao primeiro passo.

Também desconfie de flores bonitas, arco-íris e pôr-do-sol, geralmente isso é sinônimo de livro de auto-ajuda.


Tenho impressão que poderia listar outras tantas dicas interessantes para quando se está numa livraria, por ora minha experiência e minhas observações só me levaram a essas mesmo. Acho até que alguém deveria escrever um livro sobre como escolher livros, seria até interessante, um tema pouco explorado. Seria um best-seller! Ah...mas o vencedor está só!Cuidado!

quarta-feira, novembro 26, 2008

Liv Ullmann e suas Mutações


" Eu desejava acomodar-me dentro do bolso de alguém e poder pular para dentro e para fora, quando me conviesse. Agora ando por aí ouvindo as queixas de mulheres que, segundo imagino, estão presas nos bolsos de outros"

Liv Ullmann


Esse é um dos vários trechos do sincero e
não menos comovente livro de Liv Ullmann , Mutações (2008, Cosacnaify). Em 218 páginas, Liv relata com sensibilidade e poesia fatos marcantes do seu cotidiano, segurando a mão do leitor rumo aos bastidores do mundo glamourizado do cinema do qual fez e ainda faz parte durante boa parte das últimas décadas do século passado.

Liv Ullmann é famosa por ter sido esposa e musa do renomado diretor Ingmar Bergman. No entanto, cabe ressaltar, seu talento ultrapassa a mera alcunha de "musa norueguesa", também nada tem a ver com "diva", "sex symbol".

Não, Liv nada tem de musa; não lembra o encanto natural e quase infantil de Audrey Hepburn, tampouco possui o sex appeal de Greta Garbo. Liv é uma mulher a qual podemos classificar como "normal": insegura, solitária, sensível, carente. Poderíamos aqui estar falando, de acordo com essa descrição, de qualquer mulher contemporânea, poderíamos inclusive estar falando de quem aqui estar a ler essas linhas e também de quem está do outro lado, escrevendo-as.

Em Mutações, a autora nos mostra e nos prova o quanto é difícil posicionar-se no lugar de sujeito desejante, sobretudo assumir uma identidade feminina. E veja! Isso não é diferente porque ela é famosa, atriz, diretora, bem sucedida. De acordo com Freud, o feminino seria um lugar muito obscuro sobre o qual o homem (falo aqui de humanidade!) deve lançar luz; desafiante e negro: este é o continente feminino do qual fala Freud e no qual Liv está tão imersa e nos mostra em seu recente livro.

Ao contrário do que possa parecer para muitos, não é intenção da autora fazer de Mutações uma mera auto-biografia, também não me parece que o livro penda para o que poderíamos chamar de "expiação de culpa" ou mesmo que possa ser classificado como um best-seller. Sem dúvidas haverá os interessados, fãs do cinema sueco de Bergman, fãs da atriz e diretora, mas , não creio que estes leitores sejam tantos a ponto de fazer o livro tornar-se o que o Brasil convencionou chamar de best seller, nos moldes de um Paulo Coelho.

O livro é simples e belo em sua simplicidade. Não existe nele nada do que não possamos saber com o passar dos anos dessa vida que vamos vivendo, assim, um dia após o outro. Também não se fala de viagens interplanetárias, nem lições de vida de pessoas bem sucedidas profissionalmente. Não, nada disso, o livro também não conta a história romanceada de ninguém, conta apenas a estória de vida de Liv, a mulher, por trás da máscara da atriz, à qual a mesma tanto se refere.

Dividido em quatro partes, Mutações, o qual foi dedicado a filha de Liv, Linn, parece ter sido escrito com a pena da sensibilidade, da poesia, apesar de estarmos falando de uma prosa. Não existem capítulos, mas as partes as quais dividem o texto parecem ser elas mesmas partes significativas da vida da atriz, seus melhores momentos, digamos assim.

Por isso, o leitor é convidado a invadir os bastidores de Hollywood e entender que o luxo e o glamour escondem coisas das quais duvidam nossa vã filosofia, vai também conhecer o universo dos romances de Liv, especialmente o romance com Bergman, do qual Linn é fruto, compreender o jogo de egos e a relação conturbada que viviam ela, a atriz submetida ao diretor, mas, primeiro de tudo, ela, mulher, ele, homem. E isso já dá muito pano pra manga ou página de livro, digo a vocês, nem precisava estarmos aqui falando de Liv Ullmann e Ingmar Bergman.

Liv também nos deixa conhecer suas maiores fragilidades, sua sensibilidade extrema a qual tantas vezes emprestou a personagens as quais representou com maestria. Ao ler Mutações, o leitor se depara com o universo da construção das personagens, com o mundo que se apresenta a
Liv e que se faz presente no seu modo de interpretar, dizer verdades mentindo.

Tudo que eu pudesse falar aqui sobre o livro não faria jus à experiência única que é fazer parte, nem que seja ali, da cadeira de leitor, do universo de pura sensibilidade e simplicidade que Liv constroí em torno de si e que empresta às suas personagens.

Não, definitivamente não há nada de novo em Mutações, não poderia chegar aqui e dizer que comprem o livro para que se deleitem com uma leitura agradável, feliz. O livro não me parece feliz, pois como sustenta a própria autora, não existe um constante estado de felicidade. No máximo, quem desejar aventurar-se por esses meandros "obscuros" da feminilidade (leitura cara aos freudianos) encontrará em Mutações os relatos de uma mulher esmagada entre tantas culpas, entre a culpa de ser bem sucedida e assustar muitos homens, causar inveja, a culpa de não ter tempo suficiente para ser mãe em tempo integral, a culpa por não se adequar ao que a sociedade entende por "mulher" ou "deveres e obrigações femininas" .

Em Mutações o leitor encontrará tudo isso, talvez possa se identificar em diversos momentos, talvez venha até a chorar e a sentir uma espécie de empatia por Liv que conseguiu escrever um livro com a alma. Ah, e por acaso ela também era atriz. E que atriz.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Reflexões atléticas*


Flor no portão :

Florzinha amarela , será que se soubesses que toda vez que passo por ti
Tenho vontade de te arrancar pra mim, ainda serias tão bela?

Gato-malandro:

A cada passada o gato malandro me observa,
Chego perto e nada dele , pois age com reserva,
Será que o que o faz arisco é medo de amor
Por que outras já lhe amaram e só lhe deixaram no peito dor?

Construções:

Ao longe casas em construção
Umas mais acabadas, outras não
Será que o engenheiro já pensou
O quanto que seus montes de concreto
Já serviram de esconderijo pra dois corpos
Se amarem debaixo de seus tetos?

Sapo – cururu:

Sapo cururu que tanto olha
Parece que quanto mais te pulo e te fujo
Mais perto de mim tu chegas junto
Queres somente me assustar ou
O numero do meu telefone pegar?
* Ilustração: Cristiano Leão