segunda-feira, julho 13, 2009

Sobre " O Conto do Amor"



Decididamente, quando dei com os olhos neste livro, mais me impressionou a autoria do que mesmo a capa, o que geralmente ocorre. Acontece que o livro é assinado por Contardo Calligaris, conhecido psicanalista, li outras coisas dele, geralmente envolvendo o ofício do psicanalista, algumas crônicas sobre a contemporaneidade e também assuntos do feminino. De alguma forma, ao ler O conto do amor e, o que me espantou mais , a palavra miúda ao lado do nome do autor denunciando que aquilo era um livro de romance, foi como aguçar minha curiosidade. Diante do exposto, portanto, não tive saída melhor que escrever.


O conto do amor ( Companhia das Letras, 2008) é um livro cheio de movimento, de arte (claro, este é seu pretexto) e alusões à psicanálise ( claro, porque este é o ofício mais conhecido de seu autor). Ao longo de onze capitulos de fácil e instigante leitura, o leitor é levado pela mão a transitar pelos mais diferentes cenários, desde uma capela construída sob os moldes do Renascentismo italiano à boates do século XXI situadas no subterrâneo de uma megalópole. O livro também é uma passagem para viajarmos por entre os enigmas e labirintos da Itália dos séculos XV e XVI, conhecendo e adquirindo um pouco de cultura nos domínios das artes plásticas.


Tal como Carlo Antonini, a personagem central do romance, o leitor se encontra muitas vezes perdido entre tantas vozes do passado e, sobretudo, perdido diante da dúvida: desejo ou não saber mais sobre o que procuro? Esta pergunta com a qual, em um determinado momento da trama, a personagem central se depara, de alguma forma, parece ser uma pergunta pela qual baseamos toda a nossa existência, ou boa parte dela ( claro, se você costuma se questionar).


É aí, a meu ver, que entra ou, na verdade, se denuncia, a Psicánalise do autor. Sem isso ele poderia se passar por mais um romancista, escritor de renome, mais um imortal, quem sabe?


Mas não, aí é que se deixa revelar, aos poucos e cuidadosamente, a Psicanálise do autor, o seu ofício primeiro: Será que nós , mesmo diante das evidências que encontramos quando estamos ali, deitados num divã, desejamos, de fato, conhecer a fundo o que se nos apresenta?


O itinerário de viagens de Carlo Antonini inicialmente é justificado pela necessidade de encontrar mais sobre um segredo paterno revelado em leito de morte. Por isso e somente por isso, a personagem afasta-se de seu consultório ( Sim, há muito de autobiográfico no livro), de seus pacientes e segue como se buscasse refazer os caminhos de seu pai, numa Itália que não existe mais e que só se deixa conhecer a partir de afrescos de Sodoma e Signorelli.


Essa é a busca que o leitor aceita fazer ao começar a ler O conto do amor. No entanto, retorno aqui a questão feita anteriormente. Será que desejamos, de fato, conhecer mais? O dilema de Carlo Antonini é o dilema de cada sujeito que se leva aos consultórios psicanalíticos: Sim, ali há possibilidade de nos encontrarmos com a criança que fomos, com os pais que tivemos e com o que restou desta mistura, ou seja, com o que está ali deitado no divã e que conhecemos como nós mesmos.


O que se segue é uma busca, um itinerário nem sempre facilmente seguido, nem sempre vamos dar na Itália e conhecer as mais belas paisagens - de fato, mais fácil é nos encontrarmos em meio a obstáculos, muralhas e ruínas. De alguma forma, ao entrarmos num consultório psicanalítico estamos em busca de nosso itinérario e , para tanto, nada mal é percorrer um pouco o itinerário e os caminhos daqueles que nos fizeram, e assim vamos, de sessão em sessão, descobrindo novos atalhos, empacando em tantos outros, mas sempre em busca de algo além do que primeiro nos leva ao divã.


Aqui uma pergunta cabe: E se encontramos este algo além? Bem, no livro, posso dizer apenas - que é para não estragar a surpresa dos que vão ler - que o caminho é mais importante que o achado. Na vida real, na vida que por cinquenta minutos suspendemos e durante os quais nos deixamos abandonar na posição deitada, através de insights e atos falhos, não acontece tão diferente: Muitas vezes refazer o caminho é mais importante do que mesmo encontrar uma saída , esta que, por tantas vezes parece inexistente.


Sendo assim, compremos nossas passagens, através do divã ou da leitura, e busquemos algo além, mesmo que, em determinado momento da caminhada, não tenhamos mais a certeza de que desejamos prosseguir.

terça-feira, junho 23, 2009

Que tal a sorte?


Que tal a sorte de encontrar o bilhete premiado que há muito se pensava perdido?
Que tal a sorte de achar uma agulha num palheiro, um pote de ouro no fim do arco-íris, uma nota de cinco reais quando sua poupança não passa de dois? Que tal a sorte?

Que tal a sorte de ganhar um concurso, de não precisar arrancar um dente, de não precisar de remédio? Que tal a sorte?

De ganhar dinheiro fazendo o que se ama, de viver sem nem um pouco de drama, de não se fartar de uma felicidade tranqüila, pacata? Que tal a sorte?

De cair e não machucar, de chorar sem dor sentir, de amar sem mais pensar, de viver como se vive quando a sonhar, de comer sem engordar, de ter uma ou duas estórias boas pra contar?Que tal a sorte?

De correr sem cansar, de cantar sem desafinar, de andar na chuva e não se molhar? Que tal a sorte de rimar sem se repetir, de chegar sem ter que partir ou de partir para não mais voltar?


Que tal a sorte de viver uma vida plena, de uns lindos olhos não cansar de olhar, de dormir e
acordar ao lado de seu sonho, de sonhar e não se assustar com o acordar?

Que tal a sorte de amar e se doar, de rir somente ao lhe olhar, de viver feliz sem se cansar? Ai, que tal a sorte de ter um companheiro, mas um daqueles bem arteiros, que faz graça em seu coração, e que se adoece a gente reza sem perdão, que é pra ver se a moléstia que lhe queima o corpo se afasta do amado, que este não deve ser é maculado?

Que tal a sorte de ter um companheiro, muito mais que namorado ou marido, um companheiro amor e amigo, porto e abrigo, para que se possa enfim ancorar?

Que tal a sorte de andar e ao cansar, que tal a sorte de, enfim, achar? Que tal a sorte de agora poder abraçar?

terça-feira, junho 16, 2009

Para se aguentar a vida



Há mil maneiras de começar esta receita. Poderia falar de cinco ou seis maneiras , poderia até mesmo citar palavras vindas de nobres poetas, nobres escritores. Fato é que para se aguentar a vida, há que se ter alguns itens os quais se fazem não necessários, mas imprescindíveis. Para começar, eu digo que para se aguentar a vida é preciso , sobretudo, muitos dentes ou, pelo menos, os que a natureza nos empresta durante este caminhar que ninguém sabe onde nem quando vai parar.

É preciso dentes para rir quando nada vai bem, ou quando, o que ia bem, começa a ir mal. É preciso dentes para estampar na cara um sorriso tão indolente que é capaz de gritar sozinho: " Eu nem me importo".

É preciso, para aguentar a vida, um ou dois livros de poesia, um de Carlos Drummond, outro de Quintana, mas, aconselho, jamais vá pelos lados de Clarice ou Florbela, que é para não piorar o estado de quem vive para aguentar.

Um poema faz muito por quem já vem cansado de tanto caminhar, diria até que uma estrofe, um soneto tem muito mais o que dizer do que certas bocas que tanto falam e não dizem nada.


Também recomendo um amor, porque somente ele é capaz de nos fazer acordar todos os dias e recomeçar, tal como uma maratona sem fim, a vida que nos cabe. Um amor nos dá tudo isso que disse, dentes para sorrir, poemas para se ouvir. Um amor, este sim, pode até substituir uns livros de Drummond, uns versos quintanares, sobretudo se for bem amado, cheio de beijos e abraços, que é para se ter forças para dormir e acordar no outro dia.


Aconselho um gato ou um cachorro. passarinho ou o que for, para aquele que deseja aguentar a vida. Ver um animal repousar e suas pálpebras a cochilar desperta no olho humano uma inveja capaz de nos fazer pensar: Eis que o gato repousa, eis que o cachorro ronca. Pretende-se que o sossego do animal ao nosso lado encoraje nosso mais profundo ser a dar uns cochilos. É sempre invejável a calma do animal que não mais espreita, mas dorme, e sonha, com o quê não sabemos. Isso é encorajador, é pacificador, portanto, nos faz aguentar a vida. Se até o gato aguenta!


Recomendo, além do amor, se preciso for, um ou dois goles de qualquer substância etílica, que é para não cegarmos na sobriedade em que desejamos sempre conduzir nossas vidas. Há que se ter uma gota de inconsciente, posto que, se pensarmos que a grande maioria de nossos pesares são inconscientes, por que não encará-los de igual para igual. Sejamos nós, também, inconscientes, e brindemos, porque brindar é essencial quando se bebe.


Estava quase encerrando, mas por obrigação não posso deixar de comentar sobre os pôres do sol, os mares, algumas nuvens em forma de desenho, um quadro bonito ( não importa o autor), um bom chocolate, um filme divertido´e um seriado humorístico ultrapassado. Estes, sem dúvida, são itens indispensáveis para aquele que deseja aguentar a vida.


Como se pode notar, apesar da listagem acima, há que se ter também uma boa parcela de paciência, que é para entender que tudo há de passar, mesmo quando se acha que o mal que foi feito jamais findará. É, inclusive importante, se desfazer de relógio ou qualquer coisa que o valha, posto que , quase nunca, funcionaremos de acordo com o tempo estampado em nossos pulsos.


Ah, para aguentar a vida é preciso saber viver. Parece redundância, parece infantil. Mas, viva mais de duas décadas e comece então a entender o que é preciso para continuar, sem vacilar, essa maratona sem fim que , mesmo assim, teima em terminar.

Há que se aguentar a vida, porque, acima de tudo, ela nos aguenta, todos os dias. E o melhor, não desiste de nós.

terça-feira, maio 12, 2009

D' O Beijo



Eu sei, muito já foi dito sobre O Beijo (1907-1908) de Gustave Klimt. Mesmo assim, para endossar o que já disseram, resolvo dizer um pouco mais. Eu pergunto a mim: Por que o quadro fascina?

De acordo com alguns teóricos, a obra de Klimt segue as tendências do que ficou conhecido como Art Nouveau europeu, com seus toques dourados , seu estilo em mosaico inconfundível, Klimt transforma em beijo o apaixonamento dos amantes, tão cantado e verso e prosa, tão estudado pela Psicanálise.

O Beijo em mosaico nos apresenta um casal desligado do restante do mundo, suas figuras descoladas do fundo parecem invadir a tela em cores vibrantes fazendo com que o mais atento espectador se esqueça do fundo de tons dourados e marrom. Alguns teóricos afirmam que este óleo sobre tela reflete o cenário ideal de felicidade e harmonia. Outros dizem que o quaro foi baseado no amor real do próprio artista por Emile. Muitos dizem muito: auge do período dourado, expressão da sexualidade latente, feminino submisso, as interpretações são várias, distintas e eu só posso a estas acrescentar algo mais.

Falo do apaixonamento, deste momento em que nos esquecemos do mundo, das cousas outras para nos focalizarmos na coisa amada. E quantas vezes já não falei disso aqui? Pois é, O Beijo re-convoca os amantes, nos faz pensar no arrebatamento próprio da paixão na qual muitas vezes nos refugiamos contra o mundo que segue injusto, cruel.
Em "Sobre o Narcisismo: Uma introdução", Freud, tão austríaco como Klimt, sustenta que o apaixonamento é um estado que sugere uma compulsão neurótica cuja origem remonta à um empobrecimento do ego face à libido que é dirigida a este objeto , objeto pelo qual o apaixonado mata e morre, simbolicamente, esperamos.

Nas palavras do mais famoso conterrâneo de Klimt, " o estar apaixonado consiste num fluir da libido do ego em direção ao objeto. Tem o poder de remover as repressões e de reinstalar as perversões [...]. O estar apaixonado ocorre em virtude da realização das condições infantis para amar, podemos dizer que qualquer coisa que satisfaça essa condição é idealizada".
Isto é, trocando em miúdos, estar apaixonado é poder dirigir o amor de si mesmo para além dos nossos próprios umbigos, para além de nosso próprio nariz.

E é isto que Klimt nos mostra em óleo: o fusionamento e o livre fluir da libido de um para outro; do homem para a mulher e vice-versa; as figuras aparecem imbricadas, como que, de alguma forma, fusionadas, sendo apenas o tecido de suas roupas o que nos revela que o corpo de um acabou para começar o outro.

As cores vibram, como se pode notar, nos corpos dos apaixonados e não no restante da tela, no fundo. Os amantes parecem descolados, deslocados da realidade externa, como se vivessem um para o outro à despeito do mundo que continua girando, rodando.
A figura feminina aparece de joelhos, submissa às mãos do amante, que lhe beija a face, como se desejasse beijá-la por completo. “ Uma pessoa apaixonada é humilde”, já disse Freud. Ela fecha os olhos, tal como - isto apenas podemos imaginar – o seu amante também os cerra.


O apaixonamento nos convoca a pensar no outro, objeto que causa nosso desejo (se quisermos beber na fonte lacaniana), nos convoca a assumir tantos quantos são os papéis que aprendemos a encenar na nossa mais tenra infância. O mais incrível é que, por mais que saibamos tudo isto, continuamos a brincar da mesma brincadeira, continuamos a jogar o mesmo jogo, toda vez que nos apaixonamos.

Seja Klimt ou Freud, ou mesmo qualquer outro austríaco, brasileiro, alagoano, enfim, estaremos sempre à espera desse beijo que nos desloca do fundo e nos faz protagonizar a própria vida. Em tempos de crise , mal não faz ter um passe livre para transitar por outros mares e esquecer um pouco a crueza do mundo real. Quem não ama O Beijo?

sábado, maio 09, 2009

Não usarás a ironia (?)



" Não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados"


Machado de Assis - Teoria do Medalhão



Eu agora lhe pergunto: Por que não, Machado? Por que não? O emprego da ironia talvez seja o único antídoto face às intempéries da vida. Observe quão sábios foram os gregos os quais você chama decadentes. Imagine a procedência, Voltaire, Swift, acrescento a sua lista Schopenhauer, Mário Quintana, Vinícius de Moraes, Freud... seriam muitos nomes a engrossar a fileira dos irônicos, nomes com pompa, nomes de envergadura, agora eu não entendo a sua recusa. Por que não, Machado?


Que mal há em deixar escorrer o veneno dos lábios, que horror existe em levar a vida como quem leva qualquer coisa? - porque, afinal, esta é qualquer coisa, nós é que damos a ela um verniz tal que parece outra coisa. Que mal há em ser irônico, em sorrir um sorriso safado e exibir no carão sardônico ( o qual você conhece, lembra do seu conto "O último capítulo", exemplar único do uso bem empregado da ironia?)?


Ai, Machado, agora negas o ofício do irônico, a oitava maravilha inventada por aqueles que da linguagem fazem o pão, célebre exercício da língua que maldiz todas as coisas dando-lhes um tom de meio riso, de inteira verdade dita como se metade?


Machado, sinto-me triste com isto, espero que o que tenhas colocado na boca da personagem não represente o seu pensamento, penso mesmo, com meus dons de psicóloga, que sua repulsa à ironia não passa de pura chacota, chiste ou algo que o valha, pois não seria o velho Machado quem condenaria o que Wilde faz de melhor, o que Drummond e até Shakespeare fazem, com muito ou pouco empenho.


Daqui fica um recado: Jamais deixarei de recorrer ao movimento meio secreto, meio de riso contido presente numa boa e simples ironia. E deixe de uma vez por todas de caluniar a quem tanto te deu, a quem te deu um nome, busto de cobre e uma Academia.

Nego-me veementemente a deixar de empregar a ironia, fiel e boa companheira nestes vinte e seis anos de vida para seguir-te, de outra forma, prefiro seguir meu caminho tal qual ovelha desgarrada, perdida na imensidão do pasto sem um pastor a lhe guiar.


Portanto, Machado, não ouse novamente repetir que não se deve empregar, que não se deve usar e tampouco abusar da velha ironia, velha por velha, tua pena também o é e não poucas foram as vezes em que cedeste à triste ironia para respaldar teus escritos. Da minha parte não deixarei, não negarei e nem me voltarei contra a ironia.

Digo isto com um sorriso de meia boca na face e uma pena faceira que teima em escrever, mesmo em tempos de internet.

Tudo isto é a mais pura verdade e tenho o dito.

segunda-feira, maio 04, 2009

Carta a uma desconhecida




Passaram alguns anos, você, certamente não me conhece, mas eu tento saber da sua dor. Eu não tenho idéia dela, mas eu tento sentir o que talvez você sinta, toda vez que penso em amor.


Bem, para que você não ache que isto é alguma coisa à toa, escrita por quem decididamente não tem o que fazer, vou te dizer como cheguei a você. Você, para mim , é apenas um rosto numa fotografia, alguém que mora longe, mas muito longe de mim , mas que, de qualquer forma, eu cheguei a você, por causa de um amigo meu, que conhece você. Isto foi o suficiente para eu ficar a par do que se passou com você um dia desses, um dia que eu acho que você lembra todos os dias da sua vida, você sabe qual.


Voltando ao caso, direi, eu tenho sim o que fazer, e neste momento, o que eu tenho a fazer é escrever isto para você. Durante estes anos eu penso em você, mesmo que você não saiba que eu existo, sequer desconfie que eu sei de sua dor. Também não sei se deveria te mostrar isto porque você, certamente, não gostaria de ler palavras de uma desconhecida qualquer que se diga sensibilizada por tudo que lhe passou.


Eu penso em como você passa as noites, os dias, em como ele volta para você em sonhos. Eu penso nas teorias que você deve criar para desculpar Deus e , ao mesmo tempo, culpá-lo por ter-lhe dado este fardo. Eu imagino quantas lágrimas o seu travesseiro já engoliu, quantos lenços de papel você já usou, quantas vezes já pronunciou o nome dele num daqueles momentos em que a saudade parece nos sufocar de uma forma que o coração vai diminuindo, diminuindo, minguando.


Eu sei que você acha que tudo na vida tem um propósito. Nisto somos parecidas. Eu acredito que doa, sempre, e muito , e talvez com o tempo só doa mais, eu acredito que, de alguma forma, existem alguns paliativos sem os quais todos nós enloqueceríamos numa situação assim.

Eu penso nas músicas que você ouve para pensar nele, nas músicas que você ouve sem querer e não deixa de pensar nele. Eu imagino como foi a relação de vocês, se brigavam, se eram muito íntimos, se eram quase casados. Eu imagino a força dos abraços, eu imagino o carinho, eu imagino as últimas palavras, se é que houve. Eu imagino a véspera, eu imagino a manhã seguinte, eu imagino tudo e imagino, no centro, a sua dor.


Veja, eu não tenho interesse em me parecer uma espécie de psicopata que buscou sobre sua vida de alguma maneira. Acontece que algumas coisas chegaram a mim, através da dor de um amigo, e, coincidentemente, através desta, cheguei à dor de uma mulher que amava. Por hoje eu saber o que é amar eu resolvi escrever isto para você.


Imagino o quanto deve ter sido difícil para você acordar todos os dias, imagino o quanto foi difícil para você tirar o "luto", o quanto, sobre todos os aspectos isto ainda te dói e de alguma forma te tira esperanças de reencontrar o que para você, certamente, é único.


Eu me coloco em seu lugar, quase sempre. Estranho? Não sei, mas gostaria de te dizer isso tudo, talvez por te admirar, talvez por não entender o tamanho da dor que é perder alguém. Eu queria te dizer tudo isso, veja bem, não estou aqui tratando-a como heróina, bem diferente disto, estou me colocando em seu lugar, do alto do lugar de uma mulher comum, apaixonada que vê subitamente sua vida mudar, num piscar de olhos.


Eu gostaria que você soubesse o quanto eu penso em você, eu me pergunto se você pensa nele todas as noites, se você reza por ele, se ele é seu anjo da guarda. Eu gostaria de saber como você suporta a vida depois dele, como você entende o amor, agora, do seu novo ponto de vista. Eu gostaria de saber como foi beijar alguém depois, dar as mãos e, principalmente, receber um outro carinho, vindos de outras mãos.


Eu, enfim, queria te dizer que admiro-te pelo que dói em você, mesmo que dóa num cantinho separado, que é para não atrapalhar a vida rotineira que costumamos levar, esta, que é contada através de folhinhas num calendário. Eu imagino o quanto você já deve ter ouvido que guardar este amor é inútil, eu imagino o quanto te julgaram ou julgam, eu imagino os que de você têm pena, não é meu caso, meu caso é de amizade desinteressada, uma amizade nascida assim, apenas de um lado e firmada a partir da empatia.


Admiro você pelo que houve, pelo seu modo de suportar e de viver a vida. Admiro você por você ter forças e por ter conseguido acordar bem, um dia.


São palavras de uma desconhecida que , de algum modo, se coloca em seu lugar e já pensou muito em você, em vocês, nos seus planos, nas suas vidas. Da minha parte? Da minha parte você pode considerar falta do que fazer, da minha, um modo de lidar com meus próprios limites. Eu, no seu lugar, teria sofrido igualmente, na verdade, não sei se teria me recuperado.


A você desejo-lhe sorte, desejo-lhe um novo amor, desejo-lhe que a vida te recompense pelo que já fez a você. Ela roda, roda, mas, invariavelmente, ela volta e desfaz um mal, a vida, esta tem um dom de se renovar e de nos dar alegrias assim, quando menos se espera. Em mim, tem uma amiga que você não conhece, talvez nunca venha a conhecer mas que está aqui para te dizer tudo isto.

Veríssimo é bárbaro


" Toda as opiniões sobre o gênero humano são suspeitas porque são de gente. É impossível ser completamente objetivo sobre a própria espécie. Mesmo as opiniões mais negativas sobre o ser humano têm esta falha de origem: são de seres humanos".



Luís Fernando Veríssimo



Quem lê isto logo pode adivinhar a autoria: Veríssimo, talvez o mais sagaz dos Veríssimos. O mundo é Bárbaro ( Editora Objetiva, 2008) consiste em uma compêndio de crônicas escritas pelo já célebre escritor gaúcho que continua muito, muito bem das pernas.

Uma reunião de idéias, frases de efeito - mas não só isso - e muita, mas muita opinião é um bom começo para iniciar um comentário sobre este livro. Inicialmente confessarei: hesitei em comprá-lo, achei que dentre tantos outros nomes, uma outra leitura seria mais agradável, afinal, pensei que se trataria de críticas ferrenhas ao capitalismo, consumismo, afinal, coisas das quais não podemos - até que alguém prove o contrário - nos livrar. É isto, confessei.


Porém, qual não foi minha surpresa ao perceber que Veríssimo continua o mesmo de As comédias da vida privada, continua o mesmíssimo. Sim, a veia cômica, o humor e a ironia, além, claro, do amor pelo Internacional de Porto Alegre continuam aparecendo em seus textos de modo que nem devem ser enquadradas como "estilo" de escrita; acho que, na verdade, tudo que surge para adequar alguém à algo seria avesso a qualquer proposta de Veríssimo.


Digo isto porque suas obras me parecem mais uma mistura de humor, sagacidade de brilhantismo e uma reunião destes elementos só poderia dar em algo como Veríssimo, impossível de definir e encaixotar em um estilo, um estilo literário, alguns defenderiam.


Em O Mundo é Bárbaro, de maneira simples o autor parece situar-nos nesta galáxia, neste planeta avariado, nesta espécie homo sapiens imbecilis. Veríssimo não nos apoia em nada, não nos desresponsabiliza por nada, nem nós , nem os gaúchos, nem mesmo Obama sai incólume da severa crítica feita com jeito de gracejo.


Esta parece ser a receita do sucesso do autor que ganha a vida, parece, fazendo o que mais sabe e gosta de fazer, a não ser torcer pelo Internacional. O livro contém exatos 69 textos que versam sobre assuntos relacionados a nossa maneira um tanto quanto estúpida de habitar o planeta, os países, enfim, o livro trata das vicissitudes humanas sempre tão idiotas quando se tenta generalizá-las.


O engraçado de tudo isto? O engraçado é que Veríssimo, mesmo quando fala de assuntos sérios, tais como ataques terroristas, o auge econômico dos países asiáticos, mesmo quando fala das misérias do Brasil, consegue dar um tom de graça tão forte, mas tão forte, que não raramente o leitor se pegará rindo da própria des-graça.


Na verdade, acho que o que Veríssimo faz é justamente isso: dá-nos algo para rir, nem que seja nossa própria miséria, enxergá-la no espelho, repleta por uma fina ponta de humor e ironia, e cá estamos nós, com a boca cheia de dentes, gargalhando tantas vezes em cada folhear de página.
E eu, hein, que achava que tinha errado de livro, acabei acertando na hora de ir ao caixa. Sorte minha. Recomendo fortemente.