terça-feira, novembro 07, 2006

Feminino e Masculino: a Eterna pendenga

Ao se estudar a história da sociedade ocidental, pode-se notar os diversos lugares já ocupados pelo feminino no imaginário do homem. Assim, durante muito tempo foi-lhe atribuído lugar de mistério e até de horror. Segundo Freud, em “O tabu da virgindade” , texto escrito em 1918, o homem tende a ser enfraquecido pela mulher, uma vez que é contaminado por sua feminilidade.
Ora, parece que essa afirmativa deixa-nos vislumbrar por quais motivos, na maioria dos tempos, à mulher é dado um lugar de menos-valia perante a “superioridade” masculina.
Assim, somente há cinqüenta anos as mulheres conseguiram pleitear o direito ao voto, somente há pouco tempo conseguiram se desvencilhar dos domínios do privado, do lar, para adentrar no mercado de trabalho, mundo outrora pertencente exclusivamente aos homens.
Apesar de toda as conquistas alcançadas pelas mulheres ao longo dos séculos, há algo que permanece intrigando: Por que a desvalorização feminina persiste em certos aspectos? Temo que o problema tenha sido ocasionado mesmo pelo excesso de liberalismo proporcionado pela sociedade contemporânea. A sociedade da qual fazemos parte, somos influenciados por e influenciamos.
Portanto, quando se fala em liberalismo, revolta feminina, é difícil não pensar no movimento feminista que chegou ao seu auge em meados dos anos 70 do século passado: queima de sutiãs, mulheres reivindicando os mesmos direitos dos homens, o radicalismo era a tônica do movimento neste princípio.
Apesar de terem obtido muitas vantagens que se tornaram de suma importância nos dias atuais, o movimento feminista radical nada mais reivindicava do que uma oposição de papeis; se antes o “poder” estava centralizado no masculino, vamos revertê-lo, mudar as posições para que assim as mulheres, o feminino comande. Uma inversão de papéis. Nada mais. E onde fica o espaço para a diferença sexual? Será que ainda é necessária?
Atualmente fala-se muito dos erros dos movimentos feministas e ensaia-se um feminismo “paz e amor”, ou um feminismo “light” em que as diferenças entre homens e mulheres são respeitadas, não há mais espaço para aquele afã de mudar o comando, a hierarquia entre os sexos: há espaço para homens e para mulheres.
Fala-se em mulheres livres para assumir tantos papéis quantos lhe convier, dessa forma, a mulher tem direito sim a um espaço no mercado de trabalho, posto que conseguiu uma formação educacional privilegiada que permite-lhe alçar maiores vôos, comandar empresas, serem economicamente ativas e independentes.
Além desse lugar no “mundo dos homens”, a mulher, e falo a mulher por considerar uma grande maioria, ainda pensa em constituir família, em ter filhos e assumir um posto de cuidado no lar. É a assunção da mulher-faz-tudo. Tal como o homem de antigamente, o que consertava tudo em casa. A mulher atual tem sido um pouco assim, “faz tudo”.
Apesar das visíveis mudanças no papel da mulher na sociedade, é importante pensar aqui nas conseqüências dessas alterações. Não podemos esquecer que a sociedade em que falamos é uma sociedade de consumo, gerida pelo reinado das imagens e em que aparência torna-se mais importante que qualidades essenciais.
A mulher que tem, assim, poder econômico, torna-se um sujeito, mas, sobretudo, um sujeito que consume, um sujeito assujeitado aos imperativos da época. Assim, consomem freneticamente os cremes anti-rugas, cirurgias estéticas, cirurgias de redução de estômago, cremes anti-sinais. Um objetivo: fazer-se desejável, minorar as marcas do tempo.
Sim, a mulher além de desejar um lugar no campo público, continua desejando ser vista, admirada e desejada. Olhos do outros são de suma importância, ainda, com todo o feminismo xiita, deseja-se mesmo é a admiração alheia. Para tanto consome, consome como nunca antes.
Nesse contexto consumista é que entra a desvalorização: até que ponto pode-se ir no jogo da conquista? A sociedade fornece as opções, as tentações, o dinheiro os recursos. E o inconsciente , o desejo.
Não me parece por outro motivo que vemos a desvalorização do feminino comparado a um pedaço de carne de boi no frigorífico. Sim, a superexposição do corpo, o corpo todo dado a ver, a supressão de provocação. É a carne exposta, e nada ainda se sabe do feminino, do que é a feminilidade.
Talvez nós nos enganemos ao associar aquilo que se mostra na capa da revista masculina com o feminino. Ali está estampada a carne à venda, tal como os cremes anti-sinais nas propagandas de revista de moda. A carne e somente ela, não diz acerca do feminino, que continua assombrando os homens e servindo de debate entre intelectuais, servindo de argumento de obras de arte (como esquecer a Monalisa, como não citar a moça do brinco de pérolas de Veermer?) desde que o mundo é mundo.
Quanto mais a sociedade do espetáculo despedaça a carne, menos se sabe sobre o feminino, como ele nasce e como se relaciona com o masculino. E assim...vivemos na base do eterno progresso-retrocesso...e isso desde que o mundo é mundo...

quarta-feira, outubro 25, 2006

Esquecendo bússolas




Depois da queda restam duas possibilidades: ficar caído lá no chão à espera de uma mão amiga que te erga, ou erguer-se por si mesmo, lenta, dolorosa mas, verdadeiramente. Depois da queda é mesmo levantar, erguer-se em cima dos joelhos, olhar para cima, porém, não esquecer de dar uma olhada para baixo, para aonde se estava caído há pouco.
Pode ser que demore um pouco, o certo é que a gente sempre levanta, sacode a poeira das roupas, dos solados e parte pra vida. Parte pra vida porque somos desejosos de ar (pelo menos a maioria de nós). É por sermos tão sedentos de ar que vamos em frente, saímos do chão frio e vamos em busca de novas direções. Interessante é seguir um novo percurso, desprovido de bússola. Esqueça o GPS e seja feliz, mude as rotas, e procure aproveitar os dias de sol, aproveitar os momentos alegres e ter a maturidade suficiente para sabe-los apenas momentos. Momentos que são, evanescem para se tornarem memória, pó do que foi um dia.
Como diz a sabedoria popular, não há bem que dure pra sempre, tampouco mal que nunca se vá, não sei literalmente, mas, a bem da verdade, o que quero dizer é que, momentos, tanto os bons quanto os péssimos, passam, necessário é ter paciência, pra ver o curso das marés mudar, pra acompanhar a lua mudar, pra enxergar o sol de todo dia nascer, todo dia, impreterivelmente, por que disso temos certeza, ele vai nascer.
Eu tenho andado ao leo, sem bússola, sob o sol, esperando o curso da vida mudar, e me interessando pelas surpresas que a vida ainda me reserva. É tudo o começo de algo que não sabemos no que vai dar, e daí a única certeza: o sol nasce todos os dias, a escolha é apenas sua: se jogar no chão e deixa-lo ir, ou erguer-se, levantar a cabeça e comtemplá-lo.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Dói

Os poetas, os romances, as músicas, os escritores, os cancioneiros, os cantores, os jornais, a televisão, as novelas, as senhoras mais vividas, as meninas não vividas...bem que todos sempre parecem dizer...amigo, quando dói assim, é dor de amor. Parece que nem era pra doer, parece não ter localização fixa, irradia, machuca, fere, dói que ninguém parece perceber, senão a gente. Dói por não ter local,dói por ser angústia...dói invisível mas dói tudo.
Dói nos joelhos, nos pés e nas mãos. Dói até os cabelos!Dói a cabeça cansada de pensar e de lembrar, dói nos cotovelos.
Dói dormir e sonhar que tudo está como antes no lugar, mas dói acordar e ver que era apenas um sonho. Dói no sono, dói na falta de sono. Dói até na fome, que não passa com comida. Dói sem ninguém ver. Mas, que nada, há de haver alguém interessado em nossa dor? A dor tão íntima e tão nossa, aquela que não nos deixa?Não, amigo, a dor, é minha só e não é de mais ninguém, alguém já disse.
Dói o esqueleto, dói a alma e a vontade, dói também o coração, que parece se encolher tal como se encolhe um corpo frio no chão da sala. Dói e encolhe. E dizem que dor assim, só pode ser dor de amor.
Dói infinita e indiscretamente. Dói o juízo, dói. Dói a lembrança de não mais ter o que se teve, dói no peito não poder reverter, dói estar nas mãos de alguém, mas não mais estar no coração.
Dói insuportável e completamente. Dói amor, dói. Dói não te ter nas maõs, dói e deixa um vácuo repleto de lembranças.
Está doendo, está ferido algo cá dentro. Dói demais e sempre mais. Dói e não para de arder. Talvez demore a sarar, talvez o prognóstico não seja agradável diante do lamentável diagnóstico. Dói, está doendo e , enquanto nao passa, só pode é doer mais. Dói, amor.
e há quem diga que só se dói assim se for de amor.

segunda-feira, outubro 09, 2006

A selva humana - leitura básica para presas novas e predadores

Eu às vezes paro na frente da tevê e fico aqui passando um canal, outro, outro...acho graça e interessante uns animais sabe...aqueles do discovery channel, nossa...os animais realmente surpreendem, um leao em posição de caça, uma zebra alerta pra dar o bote...
Mas sabe o que acho mais interessante?o comportamento do ser humano...esse sim, verdadeiramente surpreendente.
Sempre cheio de nuanças, mudanças radicais que nos pegam de surpresa e podem ate - se é que estamos falando do discovery channel - entreter os mais ávidos espectadores.
Fico aqui pensando...ser humano é um barato, ama, odeia, volta a amar, gosta, mas ama, nao sabe o que sente, mas ama...é uma diversão só!Vi dia desses alguém falando sobre essa duvida cruel que assola a espécie dos humanos: o que quero?
Eu às vezes penso qu as pessoas não sao feixes de instintos e que, em um momento, existe "eu quero" eu nao quero"..como não se trata aqui de zebras e leões...o sentimento, por exemplo, o amoroso, presume-se que seja verdadeiro enquanto durar...o que não vale, na selva dos homens, é enganação, é o que muita gente fala.
Mas peraí, podem dizer, mas traições não são o caminho, o caminho é o bom e velho diálogo, Içami Tiba que o diga! Acontece que o bom e velho diálogo não vale muito mais do que atrações súbitas e juras de amor trocadas de véspera. Não, atrações são mais legais, mais emocionantes e nos faz sentir vivos, então, se quisermos ser vivos, melhor darmos o bote e deixarmos a presa antiga, lá morta...vai dizer que não é questão de instinto?
A verdade, caro amigo ou amiga, é que nenhuma certeza realmente existe e nos acalenta, nos nina e bota para dormir. Certezas são ilusões que ouvimos e dizemos a nos mesmos e aos outros. Depois das certezas, vem as desilusões e os consequentes baques. Sim, vivemos em selvas, o animal mais visível aos olhos certamente leva vantagens em cima do animal que não aparece. Nâo é a lógica?Como abocanhar o que não está no campo de visão? Até sabemos dos ferormônios, sabemos sim, poderosos na arte da conquista e do acasalamento animal.
Então o que nos faz pensar diferente? somos por acaso diferente dos bichinhos que vimos na tevê.
Não somos, por que a sinceridade dói, pq a conquista eh necessária e porque , porque simplesmente o ato de caçar é revigorante, muito mais que a presa dada. A presa dada sempre perde, pense nisso amigo. bom mesmo é ser a novidade, é jogar armas pra conquistar. Isso deixa o ser humano - animal em situações difíceis, mas não menos prazerosas.
Freud certa vez falou que se não houvesse a civilização estaríamos entregues aos insntintos humanos que são de fato corrosivos , desrespeitosos. Ora, Freud, acorde, realize, a selva existe denrto de nós, a selva precisa existir pra sustentar a vida, sobre a selva dos sentimentos humanos, civilização nenhuma pode jamais ser construída.
Isso é porque somos fúteis, por que somos levados e levianos, porque desejamos o que é do outro, porque o que temos não mais importa e porque, é preciso caçar. Comportamento humano não é muito mais que isso, i nstinto, imbecilidade, e muita semelhança com os gorilas.
Vou deixar mais claro pra vc, gorila-homem, ou ratazana-mulher: Você não é não, superior aos animais selvagens do Discovery Channel, você realmente não o é, e sabe o porque?Por que a leviandade impera, porque impulsos de caça valem mais do que qualquer tipo de sentido de civilização. Um bom exemplo, como citei é o amor. O que é o amor?Eu acho bonito os rituais de acasalamento dos animais, temo pelo ser humano, sempre procurando atiçar seu desejo, sempre atrás de outras paragens, enfim, renovar é preciso. Felizmente ou infelizmente, a felicidade que é sempre buscada nem por essa mudança cruel de objetos é alcançada. Mas o que estou falando? a verdade é que nunca pode ser suprida nossas necessidades. Seja você a presa nova ou a velha, não se iluda, querido ou querida, serás sempre a presa destinada a ser passado (a) pra trás, porque é assim o ser humano, racionaliza em cima da banalidade animalesca: 'não é você, sou eu" "você é legal,mas"...quando na verdade...instintos, impulsos, caça, necessidade preenchida imediatamente.
O que cabe às presas trocadas?chorar e "fazer o luto" , o que cabe às presas novas "viver o momento enquanto não se é presa trocada" . Não é discovery Channel, tampouco é bolsa de apostas..é o mundo humano-animal.
Sinta-se à vontade para usar, abusar, enjoar e trocar...porque essa coisa de que somos mais que animais é balela, e que amor nada maisé do que uma palavra, inventada por algum humano, em alguma época da história para descrever um sentimento , mas, existe sentimento?Existe algo que nos prenda e nos assevere carinho extremo ao próximo?Olha....é um ponto bom de se discutir..sentimento também é outra palavra inventada, pobre gorila!
Por isso, viva os instintos, viva o acasalamento em ritmo acelerado e descartável do ser humano, viva isso tudo!!A selva é aqui, pegue seu lugar entre as árvores de maiores copas, e vá a caça.
Amor, Sentimento, Carinho, palavras, palavras...enfiadas em dicionário.

domingo, julho 23, 2006

Do que vai e do que volta



Quando a gente vai tudo é urgência
É valentia, é questão de desbravar
A gente chega,
Pensa que é um só
Pensa que é coragem
Quando a gente vai nada dói
Como se houvesse um quê de pedra
Lá onde mora o coração
Quando a gente vai,
nem existe memória
Fotografia ou recordação
Quando a gente vai
Não existe lamento
Tampouco sentimento
Quando a gente vai
O que importa mesmo é ir
Pena é que quando se foi
Já não se é o mesmo
Lá ficou algo de si
E que, pra surpresa nossa, não volta
Aqui,
Uma versão apenas
Quando a gente volta
A vida é outra
Digo mesmo que o rio é outro
Quando a gente volta
Sabe o que perdeu
Tentando outra coisa encontrar
Quando a gente volta
Não é a casa que se torna
É a outro lugar
Que a gente não sabe situar
Nem sabe mesmo aonde ficou
Quando a gente volta
Tudo é diferente
E a sensação que se tem
É de que nunca se foi
E que dali
Nunca desejamos sair
Quando se volta
Já não se volta o mesmo
É outro
E o lugar soa apenas
Como um estranho familiar




*Ilustração: Quadro "Garotas na ponte", de Edvard Munch *

segunda-feira, julho 17, 2006

A hora da retirada

Fico pensando aqui que existem pessoas que realmente não sabem a hora de se retirar, de sair de fininho, de não deixar rastros, de simplesmente sumir. Acho eu que se retirar é a melhor solução quando não se tem solução. Muitos entendem retirar-se como sinônimo de fugir.
Não concordo plenamente. Acho que se retirar é uma saída honrosa, bastante íntegra. Antes de se retirar geralmente existem as fases de reflexão, tentativa e decepção. Algumas pessoas se retiram sem passar por essas fases, refletem apenas, tratam o que desejam como impossível, e se retiram.
Retirar-se dignamente, na minha concepção é passar por todas as fases, refletir sobre o que se deseja, tentar conseguir o que se deseja (é aí que se deve se empenhar ao máximo para conseguir o objetivo). O que vem depois da tentativa – mal fadada, vale dizer – é a decepção. Não se atingiu o objetivo...o que resta??Retirar-se. Pairar por aí, a procura de novos encontros, esperar desencontros, novas tentativas. Pra mim é questão mesmo de ensaio e erro.
Se a humanidade lidasse bem com a decepção e com o fracasso, certamente haveria menos tragédias. Não quero cair em lugar-comum e dizer que haveria menos fome, degradação, violência, guerras...quero falar das tragédias micro, das que nós vivemos, no nosso canto mesmo, sem invadir país algum.
O importante é que depois que se decepcionar nós saibamos a hora de pegar o bonde de volta e simplesmente admitir: perdi. Perdi porque não se ganha sempre, perdi porque era pra perder, o até: “Perdi, mas eu nem queria ganhar mesmo!”. Saber perder é isso, é saber que se é um perfeito idiota ao tentar, mais idiota ainda por desejar, e principalmente idiota por não conseguir. Ora, O importante não é competir, o importante é vencer, deixemos de tentativa vãs de acomodação. Perder é péssimo, e, quando perdemos, devemos é sair, abandonar o barco, pegar nossas malas e cair no mundo. Perder é péssimo mas reconhecer-se perdedor é revigorante.
Fico pensando no que há de tão horripilante quando nos vemos como perdedores. Não chego a outra resposta que não a queda do Narciso, o destronamento da majestade. Perdemos e perdemos feio. Agora, o que fazer?Aceitar é o primeiro passo para que se tente ganhar outra vez. Acho eu que uma perda dá um novo sabor a próximas tentativas de conquista....aparece um novo objeto de nossas entranhas, amamos fervorosamente, queremos ardentemente, e...quando vemos, aquela derrota, aquela lá, acabou-se, evanesceu, logo estamos, de novo, empenhados na nova tentativa, que parece mais instigante, mais colorida, mais merecedora do nosso empenho.
É importante perder, essencial saber perder, manter-se de pé e voltar a tentar. Penso no Mário Quintana, que dizia bem assim, que se as coisas são inatingíveis, isso não é motivo para não quere-las. Tudo bem, Quintana, é importante o empenho, mas, otimismos à parte, tem uma hora que chega não é? o inatingível é apenas inatingível e não será eu que vou atingir!Até otimismo tem limite.
Eu sei me retirar, por isso, refleti, tentei imensamente, mas, vã ilusão, evanesceu, decepção é caminho pra retirada.

terça-feira, julho 04, 2006

O dito e não dito

Já ao nascer o ser humano se depara com a inquestionável fragilidade de si perante o mundo que se descortina aos seus olhos. Tudo é diminuto e tão mole...A sensação é que podemos ser partidos ao meio, quebrar, assim, de uma hora pra outra. Somos, ainda na fase bebê, providos de sistemas fisiológicos complexos do qual nada sabemos, nem sequer podemos falar. Sim, somente sabemos nos expressar através de choro e grunhidos, os quais, felizmente, nossa mãe sabe traduzir.
Aos poucos, o ser humano vai fazendo parte do mundo simbólico, ele vai adquirindo espaço através da voz, da fala. A linguagem é um modo aperfeiçoado, através do qual podemos reivindicar, discutir, convencer, brigar, amar...Enfim, uma vez que nos foi dada – ou adquirida – a linguagem, nunca mais fomos os mesmos. Podemos falar e nos expressar e, presume-se, que, ao ouvir, todos os que nos cercam vão entender.
Apesar de ser uma aquisição bastante antiga, há um certo descompasso ao utilizar a linguagem – falo da fala. Há pessoas que crescem sem saber falar de si, sem saber falar do outro e, desse modo, não se fazem entender e tampouco estão preocupados em ouvir.
Há gente que paga para falar, indo a psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, Há quem estude para calar e deixar o outro falar. Há quem prefira ir a um bar, pagar pra poder conseguir falar aquilo que não consegue calar internamente.
Há gente até que fala de graça diante de um padre. Há gente realmente problemática que não sabe falar e que não sabe ouvir. Há quem diga mais no silêncio do que com mil palavras recheando suas bocas.
Há gente que diz sem dizer, há quem fale de amor brigando aquilo que não consegue falar de amor amando. Enfim, é realmente um problema a aquisição da linguagem para alguns seres humanos.
Mas, o que realmente se quer dizer? O que é tão temível que cala a voz? Para responder a esta pergunta teríamos que olhar para dentro de nós mesmos e, individualmente, buscar nossas respostas. Acredito que nem todos possam fazer isso. O que não é dito, certamente já está dito internamente, num lugar onde somos, aonde não pensamos. No nosso inconsciente, no Acheronte nosso de cada dia.
Engraçado também é que, depois que colocados em palavras, alguns sentimentos parecem perder o brilho que têm quando sentidos. É, mais uma vez, a tentativa do se humano de definir, de problematizar tudo que vê pela frente. Pobre é aquele que aprende a palavra “saudade” através do dicionário.
Posto que “Saudade” não se define, mais aconselhável é senti-la, cada um, e defini-la dentro de si mesmo. Violência mesmo é o que fizeram com “eu te amo”. A sonora frase foi transformada em melodia, metida em sonetos, exposta aos olhos de todos, posta na boca de todos....Eis o “eu te amo” na mídia. Os ortodoxos sentimentalistas defendem que jamais se deve banalizar tal frase, outros, pouco preocupados com a forma e com o conteúdo da frase, saem entoando-a a torto e a direito.
Eu sou a favor da fala, da escuta , da análise do que falamos e do que escutamos do outro. Eu, especialmente, sou a favor que se diga, no silêncio ou na gritaria. Apenas que se diga e que se sinta pra dizer, pois, o que vale dizer sem sentir?