quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Rilke, o aprendiz de poeta e a solidão




" O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança"




Rainer Maria Rilke




As palavras do poeta mais atual e permanente do nosso tempo, de acordo com Otto Maria Carpeaux permanecem vivas dentro daquele que não tem medo de se aventurar nas cirandas do mundo que insiste em sem mover. Isso é uma das lições que podemos aprender em Cartas a um jovem poeta ( L & PM, 2009).




Trata-se da publicação das cartas trocadas entre Rilke, já bastante aclamado e reconhecido, e um aprendiz de poeta, Franz Kappus, jovem, impaciente e sedente de conhecimento entre os anos de 1903 e 1908. Não foi à toa que a correspondência entre essas duas almas durou cerca de cinco anos, entre idas e vindas, viagens e imprevistos.




Tantos são os conselhos que Rilke dá ao imaturo Kappus que deles podemos extrair as maiores lições que alguém pode levar por toda a vida. Muitos são os assuntos que, apesar de girarem em torno da atividade artística, acabam enfim, por revelar a magnanimidade da alma do velho poeta : nobre, humilde e, sobretudo, simples, belo por sua simplicidade.




Ensina-nos o velho poeta a nos sentirmos em paz, tranquilos, mesmo em períodos em que as adversidades imperam: é preciso viver e saber que a vida, esta está sempre girando, cirandando, tornando-nos outros, transformados que somos pela tristeza, que, se tem algum mérito, este seria dar-nos outra vida, outra essência. Aprende-se na tristeza , e especialmente, aprende-se mais na tristeza solitária.




Não há conselho que Rilke tenha dado nestas Cartas a um jovem poeta que não esbarre na necessidade do ser humano de extrair de dentro de si a pura essência que o faz inevitavelmente humano. Para que isto se dê é mais que recomendado, é mesmo necessário que se seja só, e porque só, podemos viver intensamente.




Mergulhar dentro de si mesmo, experimentar a dádiva que é ver a vida girar, experimentar o gosto amargo da tristeza que não pode ser compartilhada (porque invariavelmente exclusiva) acaba sendo, para Rilke, a fonte de todo amadurecimento diante da vida, da existência, um campo seguro para que se semeie o verdadeiro amor, coisa difícil, demandante ao extremo e que somente por ser difícil já merece ser vivenciada.




Diante das tristezas, um só remédio: Paciência. Diante do amor: disponibilidade para compartilhar. Diante dos pais, tolerância, diante da vida, insistência. Rilke aconselha que sejamos pacientes e tolerantes com nossa tristeza e saibamos viver a solidão como quem espera o nascer do sol dia após dia. Viver só é preciso, e não há coisa mais solitária que uma obra de arte, que nasce não sei da onde e invade isto que chamamos de vida, tal como se fosse um sonho que insiste em nos tomar , mesmo quando já estamos de olhos abertos, e nada, nada poderia ser capaz de explicar uma obra de arte, essa obra da tristeza, filha da solidão.




Por isso criamos, porque dispomos da medida certa de solidão que é requerida pela obra que pede, exige, clama para sair de dentro de nós. Rilke fala também sobre a vida, a morte, mulher, homem e sexo, porém, é sobre a poesia que o experiente poeta parece não saber o que dizer ao nosso Kappus.




Ora, o poeta apenas é; Não se aprende a fazer poesia, nasce-se poeta por possuir o livre acesso à reserva de criatividade, a esse não-sei-onde, esse compartimento secreto que tanto nos assombra e que faz parte da nossa alma. Sobre a poesia, Rilke nada aconselha a não ser que entremos em nós mesmos, e , nesse mergulho profundo recuperemos os tesouros da infância perdida, de uma vida esquecida, que, surpreendentemente descobrimos ainda fazer parte de nós.




Será mesmo necessário voltar à superfície? Certo estava Kappus que, ao introduzir estas Cartas, acerta em cheio ao dizer que quando fala alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar.




Calo-me.


segunda-feira, fevereiro 07, 2011

A dor é minha só (?)


Recentemente estive me informando sobre um caso que trouxe a questão à tona: O que fazer com a dor?


Obviamente, se isto se faz questão é porque não estamos falando de dores facilmente localizáveis; estamos falando de dores as quais estão longe de terem explicações que passam por medicamentos e/ou tratamentos com pomadas.


Estamos aqui falando da dor proveniente da angústia de viver. Um dia Oscar Wilde já disse que poucos de fato vivem, sendo hábito da grande maioria apenas existir. Na minha trajetória no campo psi - como professora e como profissional, percebo que a dor de existir sem viver é o que mais tem levado as pessoas a consultórios psicológicos, os felizardos.


Se a maioria de nós apenas existe, os dados comprovam que não estamos sabendo lidar com nossa própria existência: a dor e a angústia de existir: quando já não há chama de desejo que nos faça vislumbrar uma vida para além da reles existência, ou mesmo quando há tantas chamas de desejo que já não há outra alternativa que não o incêndio. Aí está a dor.


Em eras de twiter e facebook, a dor , além de ser anunciada , vende revista e dá Ibope. Recentemente prestei atenção a um depoimento de uma dessas celebridades instantâneas sobre o suicídio de alguém próximo: Poucas horas separaram o evento trágico do suicídio e a divulgação deste na rede social Twiter.


O que se seguiu ao anúncio foram demonstrações de todos os tipos que tinham mais ou menos o mesmo objetivo: acalentar a alma da tal celebridade que anunciava em seu microblog o suicídio do noivo. Uma legião de fãs apareceu para prestar condolências e desejar força a tal beldade.


Pergunto-me sobre esta dor, esta dor divulgada, anunciada, até mesmo alardeada - cerca de 5 depois do evento, a celebridade se diz "melhorando a cada dia", superando o luto de alguém que decidira pôr fim a sua existência justamente por causa de tanto desejo, ou falta dele, ou simplesmente, por não conseguir mais suportar o passar dos dias.


Em seu "Livro da dor e do amor" , o psicanalista Juan-David Nasio poderia fazer uma bela análise da dor. Indico fortemente a leitura do mesmo. Porém, é preciso que tantas outras questões surjam desta que se tornou a principal neste post: O que fazer com a dor?


Há quem a divulgue e anuncie, posteriormente a venda - vide o caso da citada celebridade. Há quem procure um amparo, alguém para escutar essa dor. Há quem não faça nada e simplesmente vá desistindo, lenta e gradualmente da própria existência por não suportar viver sem viver.


Há quem escreva, há quem trabalhe, há quem chore. Gostaria que as pessoas realmente soubessem o que fazer com a própria dor. No fim isso sempre ajuda.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O vento e a mesma vidraça


A multidão costuma dizer que de amargo, já basta a vida e que melhor adoçante não há além de uma boa poesia, aquela capaz de consolar a todos e revelar pela milésima vez o mistério que teimamos em esquecer: a vida e sua beleza.

É disso que vivem os poetas. Aqui vai uma dessas que costumar tornar tudo tão mais doce:



Ar noturno (1919)



Tenho muito medo
destas folhas mortas
e medo dos prados
cheios de rocio

Vou adormecer;
se não me despertas
ao teu lado
deixo meu coração frio.


Que é isso que soa
tão longe?
Amor. O vento nas vidraças,
meu amor!

Eu te pus colares
com gemas de aurora.
Porque me abandonas

por este caminho?

Se vais muito longe,

meu pássaro chora
e o vento vinhedo

não dará seu vinho.

Que é isso que soa tão longe?
Amor. O vento nas vidraças, meu amor!

Não acabarás nunca,
esfinge de neve,
o muito que eu te houvera querido
essas madrugadas quando chove tanto
e no ramo seco se desfaz o ninho.

Que é isso que soa
tão longe?
Amor. O vento nas vidraças,
meu amor!


Federico García Lorca

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Por amor às ilusões: Você vai conhecer o homem dos seus sonhos



" when you wish upon a star, makes no difference who you are

anything your heart desires will come to you"


Tema da abertura: When you wish upon a star



É com esta música tão singela que se inicia You will meet a tall dark stranger (EUA, 2010). No Brasil, o título foi traduzido para "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", tudo bem, a tradução está ok, tão diferente do que fizeram com o ótimo "Whatever works", do ano passado. Woody Allen se mantém ativo com seus filmes anuais, filmes que, justamente pela frequëncia, correm o risco de se tornarem repetitivos, que percebamos cada vez mais claramente as obsessões atuais do diretor/roteirista.


Quando se trata do novo de Woody Allen, parece que não é bem o caso. No entanto, percebe-se uma tendência atual , desde "Tudo pode dar certo", de falar com simplicidade sobre os dramas psicológicos humanos, uma espécie de "lição para se levar a vida", nada tão diferente do que Allen vem fazendo há mais de 40 anos, sendo mais simples, um tom que Allen atinge somente por causa da maturidade.


Neste filme o espectador é presenteado com atuações maravilhosas de Gemma Jones, Antony Hopkins e Lucy Punch ( brilhante no papel da ex-prostituta Charmaine que casa-se com Hopkins) além, claro, de contar com o brilho de Allen que escreveu e dirigiu o filme.


Se eu pudesse dizer de que se trata o filme, poderia dizer que era mais um filme sobre as neuroses nossas de cada dia, tão bem retratadas e flagradas pelas lentes de Allen, poderia também falar que o filme fala sobre família, valores e pudores. Falaria também que o filme trata das ilusões humanas. Ilusões. Este parece ser o tema central, mais do que qualquer um dos citados, o tema que move a narrativa e leva-a ao clímax em que o espectador pode realmente se perguntar: quem será o pior cego: o que não vê ou o que prefere não ver?


Ilusões se espalham pela narrativa do início ao fim. Do início, quando encontramos a ótima Gemma Jones, no papel de uma senhora idosa, abandonada pelo marido que vai a uma cartomante charlatã na tentativa de buscar um sentido para sua vida ou o que o futuro reserva para ela. A cena abre o filme que segue com a voz onipresente de um narrador que explica os caracteres de cada uma das personagens que se entrecruzam durante a narrativa. Este recurso também é utilizado recentemente por Allen em "Vicky, Cristina, Barcelona", dando uma prévia sobre o que se esperar das personagens, especialmente deixando claro ao espectador o modus operandi de cada uma delas e como isto interferirá no desenlace da trama.


Assim, o narrador onipresente nos apresenta Alfie (Antony Hopkins), um senhor de idade, casado com Helena e que, de súbito, assim como quem espirra, resolve levar uma vida saudável, e, nesta nova vida, não há lugar para Helena, com quem foi casado por quarenta anos. De acordo com Alfie, Helena se entregou ao envelhecimento, coisa que ele não faz.


No outro núcleo encontramos Sally (Naomi Watts), filha de Alfie e casada com Roy, um escritor de um livro só, mas médico de formação, vivendo um casamento falido que ninguém tem coragem de dar por encerrado jogando a primeira pá de cal. Outras personagens aparecem na trama, como a jovem musicista Dia, o dono de uma livraria especializada em literatura ocultista Jonathan, o dono da galeria de arte Greg, interpretado por Antonio Banderas, todos, enfim, em busca de suas próprias ilusões, de segui-las até o fim, posto que estas lhes permitem que continuem vivendo.


No velho estilo Allen de ser, há muita ironia e hipocrisia que numa mistura que só Allen sabe fazer, transforma-se em comédia inteligente, como é típico de seus filmes. Se eu pudesse apontar um problema, ou mesmo que não seja um problema, algo que me incomodou foi a velocidade da narrativa, que em alguns momentos pareceu arrastar-se, não percebi o mesmo ritmo em "Vicky, Cristina, Barcelona", nem em "Whatever works/tudo pode dar certo". De qualquer forma, isso é secundário, o tema da ilusão e do quanto elas nos podem ser úteis nos faz reconhecer, novamente, que Allen mantém a velha forma, sarcástico, talvez mais lento, mas, como sempre, indo direto ao ponto: a hipocrisia humana, o ceticismo aparente, e, mais que isso, a fragilidade humana.


Apesar de nos apontar as vicissitudes humanas, isto de ver o que se quer e ouvir apenas o conveniente, tão típico da humanidade. Parece que em You will meet a tall dark stranger, Allen nos aponta um caminho otimista: as ilusões, são elas que nos fazem suportar a vida, fosse de outro jeito, ainda estaríamos deitados, esperando a morte chegar. Em outras palavras : uma ode inesperada à pulsão de vida, a tudo isto que nos faz insistir.

terça-feira, janeiro 04, 2011

São demais os perigos desta vida...


São demais os perigos desta vida... foi a lição que Vinícius de Moraes nos ensinou. A vida, esta efêmera, é uma das armadilhas que mais buscamos entender...Para uns ela vem suave, tal como uma brisa e do mesmo modo que vem, vai. Para outros, apegados que são à própria materialidade, acabam por consumi-la, nos últimos goles que ingerem, insensata e paradoxalmente , esperando a morte chegar.


A imprevisível não escolhe hora, nem lugar, não escolhe nem mesmo a quem pegar. Pega o que estiver à mão. Portanto, esqueçamos a teoria de que Deus precisa de nós lá no céu - uma vez que não sabemos muito bem porque Deus precisaria de nós, logo de nós, que importante trabalho seria este para o qual estaríamos invariavelmente convocados...e porque nós?


A maldosa chega, invade os lares e destrói os planos. E assim, quando ela nos toca, seja por qual maneira for, sempre nos relembramos da nossa própria finitude. Rabbit Hole, novo filme em que atuam Nicole Kidman e Aaron Eckhart, nos deixa claro que nunca sabemos lidar com a indesejada das gentes, com a morte, com o que quer que seja isso que nos leva alguém e nos enfia, goela à baixo, uma coisa chamada saudade. O filme é sobre luto, sobre como uma família lida com a morte de alguém, como cada pessoa se levanta depois da queda. Pela relevância da temática, pela atuação dos protagonistas, o filme vale a pena e nos relembra, sempre, que ela virá.


Certamente este não seria o post que eu imaginava inaugurando o ano, mas aconteceu. Aconteceu porque a indesejada já havia chegado , na verdade, desde novembro. E assim tive contato com ela, através de sua magnitude, dela não pude me livrar. Ela me deixou sem dormir, me deixou sem saber o que sentir, e em troca, deu-me várias horas intermináveis de insônia, repletas de "porques", de "comos".


Inadvertidamente ela continua seu trabalho. Levando as gentes, lavando as almas e contribuindo para o controle demográfico da população. A vantagem que temos, e única diante dela é que nunca a esperamos...ela vem de repente, sorrateira, nos leva algo de dentro de nós, mas, para nossa sorte, sempre podemos encontrar novos tesouros para preencher as nossas almas esburacadas.


Por que é assim? Porque sempre o foi e sempre será, mas tão inevitavel como a morte é a vida, ela nunca cessa de aparecer e é nisto que podemos pensar. A vida, esta inevitável, é o único antídoto de que dispomos diante da morte, esta insensível. Portanto, vivamos, porque, graças a Deus ou a qualquer outra coisa que o valha, não somos avisados sobre a visita da outra. Vivamos.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Woody Allen e a humanidade sem plumas



"A beleza está em quem vê. Se quem vê for míope ou estrábico deve perguntar à pessoa ao lado qual é a garota mais bonita"


Woody Allen


Ao se deparar com esta frase, o atento leitor poderia já adivinhar a autoria: Woody Allen. Ele é desses autores que já fazem parte do imaginário popular. Não conto as vezes em que Woody apareceu aqui neste modesto blog, seja devido às sensações de estranhamento, seja devido às perolas como estas, presente em seu pequeno livro, editado no Brasil pela L&PM, em 2008 , Sem Plumas.


Seria pouco dizer que o livro é de fácil e agradável digestão: lê-se em menos de duas horas, nas quais o leitor poderá , além de ler, que é seu ofício nato, rir, que é algo que somente os autores talentosos podem causar. São 17 historietas com títulos bastante sugestivos, tais como: Examinando excertos psíquicos, Os Pergaminhos, O gênio irlandês e para mim , a mais genial de todas: Se os impressionistas tivessem sido dentistas.


Sem Plumas seria um modo de desdizer Emily Dickinson que uma vez afirmou: "a esperança é uma coisa com plumas". No mais puro estilo Allen de ser, o autor americano fascinado por jazz e por teoria psicanalítica - não necessariamente nesta ordem - parece nos dizer que seus escritos são relatos desesperançosos diante dos lugares comuns mais desejados pela humanidade: felicidade, amor, sorte, saúde.


Claro que o leitor atento perceberá que é na desesperança que Allen encontra seu gênio: Auto de frases como " Morrer é uma das poucas coisas que se pode fazer deitado", sendo da opinião de que o Além existe, o problema seria saber a quantos quilômetros fica do centro da cidade e até que horas fica aberto, Allen nos revela a mesma veia cômica que faz sucesso em seus filmes, exemplo disto são "Melinda & Melinda", "Maridos e Esposas", "Vicky, Cristina , Barcelona" , e o mais recente "Tudo pode dar certo" que, apesar do péssimo título em português vem ressaltar exatamente a noção de que, na impossibilidade da felicidade eterna, deveríamos nos contentar com qualquer coisa que dê certo.


Esta ideia aparece e reaparece na obra de Allen, se fosse eu Zizëk, comentado no post passaado, diria que a desesperança, o fato do homem ser ontologicamente sem plumas seria o sinthoma de Woody Allen, esse jeito irreverente e irônico de rir de si mesmo ao trazer suas neuroses para a tela e para qualquer outro meio em que se expresse transforma o diretor de O que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha vergonha de perguntar num dos maiores nomes da desesperança de que se tem notícia atualmente.


O primeiro deles? Acho que não erraria se falasse que foi Freud: Se houve alguém que começou com essa história de denunciar nossa ausência de penas, este alguém foi o psicanalista de Viena, Allen foi apenas o carona. Vejamos alguns dos tipos e das situações sem plumas exploradas por Allen :

1- A jovem pseudo-intelectual:


" Família grã-fina de Nova Iorque. Passava as férias com o pessoal da esquerda festiva. Podia ser vista em todas as sessões dos cinemas de arte. Viciada em escrever ' É isso aí!' nas margens dos livros de Kant" (ALLEN, 2008, p.45)


2- A prostituta intelectual:


" O quente custava 300 dólares: uma recém-formada em psicologia fingiria apanhar [ o cliente ] no Museu de Arte Moderna, envolver-se-ia com [ele] numa discussão sobre o conceito freudiano da mulher, deixá-lo-ia ler a sua tese de mestrado e até encenaria um suicídio" (ALLEN, op cit. p.47)


3 - O problema filosófico original:


" Se uma árvore tomba na floresta e não há ninguém por perto para ouvi-la cair - como sabemos que fez barulho?" (ALLEN, op. cit. p. 121)


4 - Sobre a diferença entre amor e admiração:


" É evidente que ser amado é diferente de ser admirado, já que sempre se pode ser admirado a distância - enquanto, para se amar de verdade uma pessoa, é preciso estar no mesmo quarto com ela e, de preferência, enrolado atrás das cortinas" (ALLEN, op. cit. p. 94)


5 - Sobre o dinheiro:


" O dinheiro não é tudo, mas é melhor do que ter saúde. Afinal, não se pode entrar num açougue, pedir um quilo de alcatra e dizer ao açougueiro: 'Olhe como estou bronzeado. Vendendo saúde!Nunca fico gripado!' e esperar que ele lhe entregue a carne" ( ALLEN, op cit. p. 93)


Como estes existem tantos outros espalhados, como que impregnando a obra deste homem que, senão nos conta nada inédito, ao menos nos ensina a rir das nossas próprias mazelas. Sim, somos humanos, passíveis de erros, interesseiros, frugais , fúteis e essencialmente desamparados, sem plumas que somos. Recomendo fortemente.




"

sábado, dezembro 11, 2010

Zizëk, Hitchcock e corpos que caem



Quem não conhece os filmes de Hitchcock não sabe o que está perdendo. Acredito, no entanto, que não estejamos falando da maioria das pessoas que aprecia a sétima arte. Em seu livro Lacrimae Rerum (Boitempo, 2009), o filósofo pop esloveno Slavoj Zizëk nos apresenta seus ensaios sobre cinema moderno, que, inclusive é o subtítulo deste seu livro lançado há dois anos.


É neste livro que Zizëk faz suas reflexões e nos oferece seus originais insights sobre aquela que seria a arte da qual Freud menos se aproximou, mas que , nem por isso escapa de ser analisada por um viés psicanalítico. Zizëk, especificamente em seu ensaio denominado "Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", inicia suas pontuações sustentando que não seria de seu interesse empreender nenhum tipo de idolatria a qual o levaria pela mão e guiaria seus pensamentos a respeito de Alfred Hitchcock, por muitos considerado o pai do cinema de suspense.


Nas palavras de Zizëk: " é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular". (ZIZEK, 2009, p.79)


Ou seja, não há necessidade de rasgação de seda, o importante é falar o motivo pelo qual Hitchcock é considerado brilhante e seu cinema, único. É por esta via que Zizëk nos guia. Sendo assim, o escritor esloveno fala que qualquer tentativa, por mais pretensiosa que for, de "explicar Hitchcock" tenderá a assemelhar-se a uma coisa do tipo "Hitchcock made easy", ou , um Hitchcock envernizado, quase "de A a Z", feito para quem não precisa entender tanto de cinema e que tem uma necessidade extrema de padronizar o que vê.


Em seu ensaio sobre a obra de Hitchcock, Zizëk fala sobre o traço perverso presente na Marion, a primeira hóspede do lendário Motel Bates, que a liga a seu assassino Norman. Há inclusive uma semelhança entre os nomes, o que não se pode deixar de observar ( mas esta é por minha conta, não por Zizëk, me atrevi).


Sobre os traços gerais presentes na obra de Hitchcock, Zizëk nos fala do que chama "motivos visuais impostos por uma estranha compulsão" (ZIZEK, 2009, p.82). Seriam eles, pessoas se agarrando à mão de outra, na iminência de cair, sendo necessário que haja alguém para levá-la ao plano da superfície/realidade ( não se esqueçam da emblemática cena de Um corpo que cai, em que James Stewart, Scottie, aparece necessitando de apoio de alguém para sobreviver a uma possível queda).


Outro motivo visual compulsivo em Hitchcock seria a imagem do carro à beira do precipício, prenunciando, mais uma vez, a possibilidade de queda iminente, o que podemos, mais uma vez sem auxílio do esloveno, associar ao temor ao abandono do corpo deixado à mercê das leis da gravidade. Assim, um carro à beira do abismo cumpre a mesma função da mão que pode tanto agarrar a mão do mocinho, como soltá-la, deixando, mais uma vez, seu corpo em abandono, um corpo em queda.


Zizëk também faz alusão à imagem da mulher inteligente, porém sem muitos atrativos físicos que faria o papel da companheira de aventuras do herói - quem não lembra da amiga de James Stewart, Midge, vivida pela atriz Barbara Bel Geddes em Um corpo que cai? Há, entre estes motivos visuais a imagem quase obssessiva do crânio mumificado, tal como vemos em Psicose, representando a morte assustadora, como na cena em que vemos a terrível imagem de Norma Bates, mãe de Norman, no porão da casa lúgubre em que a personagem do assassino vive parte de sua vida.


Zizëk, inclusive, faz uma análise freudiana dos espaços geométricos pelos quais a personagem de Norman Bates transita, relacionando-os às esferas psíquicas idealizadas por Freud e que hoje já caíram no gosto popular: o id, o ego e o superego, sendo o porão, portanto, o lugar dos impulsos, dos conteúdos obscuros que não devem sair à luz do dia. Ora, não seria também o id o lugar conhecido como porão da mente, aonde guardamos todas as quinquilharias das quais não queremos mais saber?


Para quem se interessar por esta análise de Psicose, poderá também assistir o filme O guia pervertido de Cinema, em que também Zizëk aparece como astro principal, aparecendo em cenários usados em filmes, como a baía em que se passa Pássaros, também de Hitchcock, entre outros que marcaram os filmes considerados obras-primas, não somente da autoria do cineasta americano.


Sem dúvida há tantas outras peculiaridades em Hitchcock que não caberia aqui, tampouco caberia no ensaio de Zizëk, pois percebemos que o autor, a partir de seus insights, nos fornece a possibilidade de tantos outros. Porém, a ideia principal que fica deste ensaio é que os motivos visuais usados na obra do cineasta americano podem ser considerados sinthoma, diferente do sintoma, algo que resiste à significação, são signos materiais que indicariam as vias pelas quais o cineasta constrói suas histórias, deixando amostra seu fantasma, ou seja, tudo aquilo com o que não pode lidar, e que insiste em aparecer, seja na imagem do crânio fossilizado, seja no carro à beira do abismo, na mulher inteligente, nas sombras que se transformam em silhuetas humanas, tudo conferindo o mais alto grau de suspense à película.


Depois de tudo isso, talvez possamos rasgar seda, idealizar tanto Hitchcock como o próprio Zizëk, no entanto, cabe um conselho de prudência: acalma-te!Assiste um Hitchcock, mas já com outros olhos, e tira tuas próprias conclusões.