domingo, junho 22, 2008

Um texto doce feito mel


" And in the end, the love you take is equal to the love you made"
Beatles



Nada mais válido do que a filosofia de Liverpool para nos dizer que, na vida, tudo que recebemos nada mais é do que um pagamento fiel daquilo que pedimos por empréstimo, estejamos nós falando de amigos, de amores. Em todas as nossas relações prevalece a questão econômica.

Por favor compreendam que a economia da qual falo aqui não corresponde ao frio câmbio de afetos ou significa relações mercantis envolvendo sentimentos. O que quero dizer é simples: Você recebe aquilo que você dá, portanto, vale mais ser sincero e receber um pagamento justo no banco da vida do que dissimular sentimentos e assustar-se com o saldo devedor, no fim das contas.

Sinceridade atrai sinceridade, porém, também atrai incompreensão por parte dos que não são acostumados a usá-la ou tê-la dentro de si. Eu nunca vi nada mais sincero do que crianças. Crianças dizem o que sentem, mesmo que magoe, dizem o que sentem e vão falando da forma que sabem sobre seus medos, tristezas e alegrias. Nunca espere que uma criança agrade por agradar ou não transpareça indiferença quando senti-la.

Crianças são assim, e o que você dá a elas é exatamente o que você vai receber. No saldo final das contas, eu saio feliz e satisfeita: dei amor, da forma que pude, dei sinceridade - sorrisos sinceros aos que me fizeram sorrir sinceramente, broncas merecidas aos que mereceram as broncas em um dado momento.

Não posso dizer que a experiência não me deixou grandes ensinamentos: aprendi que, como diria Quintana, não há pessoas mais amargas do que as que são doces por interesse, aprendi também que um sorriso no momento apropriado geralmente destrói a possibilidade de mal entendidos acontecerem. Principalmente aprendi que, na vida, deve-se estar sempre disposto a aprender com aqueles que julgamos não poder nos ensinar nada. Aprendi, sobretudo, que o pior dos ambientes pode deixar saudades.

E eu tenho certeza que sentirei saudade de todos os momentos que por vezes me pareceram insuportáveis, do cansaço depois das seis, do esconde-esconde, do corre-corre e das vozes já conhecidas, das mãozinhas cobrindo meus olhos e perguntando "Quem é?".

Eu sentirei saudades dos que riram comigo, dos que me colocaram em situações tão embaraçosas, das amigas que fiz ao invés de colegas. Eu sentirei saudades de educar, independentemente de qualquer coisa. E no olhar mais doce espero reconhecer, um dia, que fui importante, que provoquei interesse e incitei dúvidas.

E cada um vai embora comigo, dentro do meu coração. Deixo alegrias e dúvidas e levo o rosto de cada um dentro de mim, como uma prova de que é possível educar com sinceridade. E daquele lugar situado entre o Céu e o Inferno, no fim das contas, eu levo a doçura das crianças, o aprendizado eterno de que tudo nesta vida é reflexo do que você planta.

Eu apago o quadro pela última vez com a sensação de que quem aprendeu mais fui eu.


sábado, junho 07, 2008

Conversa sobre amor - Alguns conselhos para corações recém-partidos


Responsabilidade. Palavrinha complicada que muitos desconhecem. Responsabilidade é requerida em diversos momentos de nossas vidas e , algumas vezes, repele outra palavra, essa muito conhecida, chamada Egoísmo.

Pois é, responsabilidade nem sempre é ensinada em casa, muito raramente é ensinada na escola. É irmã do bom senso e indica que se deve ser capaz de assumir o que se faz.

Quando se trata de um trabalho, responsabilidade é requerida constantemente; a competitividade está aí e se você não for, no mínimo responsável pelo que lhe compete, por sua função, você está fora e será mais um a ler os classificados de empregos nos jornais. Quando se trata de relacionamentos a responsabilidade é algo quase essencial, porém, não necessariamente usado.

Algumas pessoas não compreendem o significado da palavra "Responsabilidade". Quando se entra na vida de alguém, é-se responsável pelas mudanças que nela ocorre. Não digo que sejamos todos nós responsáveis pelos corações que partimos, afinal, quem quiser fazer reclamações quanto a isso vá fazê-las ao Cupido, que deixou tal flecha lhe acertar o peito de forma fatal.

Não falo disso, falo de responsabilidade pelas vidas que tocamos sem sequer saber que o fizemos. Ficar calado às vezes é preferível a falar verdades instântaneas. A partir do momento em que você escolhe entrar em uma vida, e nela permanecer, deve-se ter consciência do que se fala, de como se fala e o porquê.

Eu juro que não queria, mas lembro-me do Pequeno Príncipe e a raposa e é impossível não citar a velha e sempre sábia "você é eternamente responsável pelo que cativa". Poderia eu acrescentar: Você é responsável e sabe muito bem que o é. Segundo a sabedoria orkutiana (que mudança) "Não provoque aquilo que de fato não deseja. Seja certeiro em suas atitudes quando se trata de outras vidas envolvidas.

Se você deseja ardentemente ter uma família, construir algo, que o faça com alguém que você ame o suficiente para imaginar como uma boa influência para um filho que você terá - acredito que um filho é algo importante demais para ser pensado assim, de qualquer jeito ou feito de qualquer forma.

Se você se envolve com alguém deveria saber que está cativando uma alma, que nem todas as pessoas são feitas para serem "animadoras de auto-estima". A maioria delas tem sentimentos, às vezes os guarda um pouco, não por não tê-los, mas por medo. Há pessoas, sim, que merecem bem mais do que a função de animar a auto-estima e espantar as frustrações alheias, infelizmente, essas são as que mais procuram os consultórios psicológicos.

Responsabilidade, a meu ver, está ligada a nobreza de caráter e a uma coisa bem mais simples que isso: não faça aos outros o que não quer para si. Se não tem certeza do que quer, não envolva outras pessoas em seus dilemas, nem todas não valem nada.


É como relacionar-se com crianças: Deve-se ser bastante responsável pelo que se faz a uma criança, isso formará o seu caráter futuro e escolher a mãe ou o pai que, no mínimo, amemos, é um bom começo para qualquer criação.

Responsabilidade se deve ter ao tocar uma alma, ao conversar com um idoso, ao ouvir as queixas de pessoas, ao desenvolver um trabalho, ao estudar. Responsabilidade, especialmente, porque não se vive nesse mundo sem precisar do próximo e, algumas vezes é bom deixar uma lembrança boa.


Por isso, aí vão lições preciosas que tenho aprendido nesses últimos dias/meses


1) O que sai da sua boca chega ao ouvido de alguém, isso é científico e seu discurso ou mesmo qualquer coisa que seja emitido por seu aparelho vocal está destinado à chegar ao aparelho auditivo de um outro, que interpreta como bem quiser, mas, ainda assim, é o destinatário de qualquer coisa por você proferida, portanto, tenha bastante cuidado com o que emite por aí.


2) Jamais diga "eu te amo" no calor de situações românticas. É como ir ao supermercado quando se está com fome. Não fale, fique calado, preferível é ser tachado como uma criatura glacial a ser leviano. Não se ama em um dia, nem em dois, e, no máximo, você pode gostar muito de alguém, isso não lhe permite emitir um "eu te amo", alguns ouvidos românticos são muito susceptíveis a certas frases feitas.


3) Não fique com alguém por acomodação, por achar que o tempo está passando e que você está com sua alma gêmea. Essa coisa e alma gêmea é uma invenção dos românticos letrados, que sabendo da historinha grega, resolve tentar aplicá-las em sua vida, na maioria das vezes, quando se acha que se encontrou a alma gêmea se encontrou de tudo, menos uma alma, quem dera ser gêmea e, cá entre nós, é pretensão demais achar que a pessoa que idealizamos por diversos motivos é exatamente igual a nós. Resumo: românticos são criaturas muito egocêntricas.


4) Não sabote alguma coisa por medo do tombo que, talvez, leve. Nem tudo que reluz é ouro, eu sei, mas também, nem tudo que seduz é lodo. Ok. Quando se trata de relacionamento, geralmente o tombo é previsível. Porém, resta pedir-lhes paciência, porque o tombo pode até demorar a acontecer. Se você tiver sorte o edifício é alto demais e há de se ter muitos andares para subir antes de cair do 45º andar. Não seja covarde, se algo lhe atrai, tente, de repente pode até ser uma pessoa interessante, em algum momento da sua vida, pode construir algo com você.


5) Definitivamente, você pode dar seu coração a alguém. O que não pode é sair falando, ecoando aos quatro cantos do mundo que, finalmente, encontrou alguém decente. Isso não se faz por dois motivos: a) A não ser que você tenha o corpo fechado ou acredite muito em pensamento positivo, isso gera inveja, e não é nada bom sair espalhando e exalando felicidade; uma vez que há muito de amargo nesse mundo, algo doce é logo invejado. b) A pessoa decente pode espantar-se com tamanha efusividade e simplesmente afastar-se e você, coitado que é, voltará ao discurso da vítima: " E eu, que achava que esse (a) prestava!".


6) Se você for mulher, seja homem! Exatamente! Esse papinho de "sou para casar", "sonho com meu príncipe" é ultrapassado, nenhum príncipe vai bater a sua porta, descer de seu cavalo e trazer um sapatinho de cristal para você. Se você quer algo, certifique-se de que o outro alguém também quer. Seja homem, pergunte, não peque por omissão. Vai que a pessoa espera, também, uma Cinderela que bata a sua porta? Evite contos de fadas, esses, na maioria das vezes, não saem dos livros e servem apenas para divertir crianças.


7) Seja ignorante. Isso é um direito que lhe cabe. Se alguém foi irresponsável com você, seja também, devolva. Ou é ou não é. Seja claro, objetivo e , se necessário for, mande ao inferno assim que sentir vontade de fazê-lo, com esta atitude está-se evitando um sintoma cancerígeno assim como intalar-se com mais um sapo. Não os engula, a não ser que estes sejam parte essencial da sua dieta. Resumo: Mande ao inferno literalmente, posto que algumas pessoas, com certas atitudes, não estão te mandando para lugares nada angelicais, a diferença é que não falam "Vá para o inferno!"


Isso seria um ótimo manual se não houvesse tantas outras coisas entre o pensamento e o sentimento. E as histórias se repetem e , por mais que as pessoas evoluam, por mais que as sociedades progridam, um coração partido ainda é a maior clientela de um consultório psicológico. Mas, sejamos positivos: antes fazer terapia que jogar-se do 45º andar.

sábado, maio 17, 2008

O Almanaque Machado de Assis



Poderia ser mais um dos livros acerca da vida e da obra do bruxo do Cosme Velho. No entanto, não é. "Almanaque Machado de Assis" consiste numa compilação de vários escritos sobre a biografia, frases de efeito, trívia sobre as personagens, cronologia, acontecimentos marcantes e todo um acervo de informações sobre o mais aclamado escritor da lingua portuguesa no Brasil em todos os tempos.


Eu digo que não é um livro comum - mesmo não tendo chegado eu ao fim desta leitura uma vez que é uma advertência do próprio autor que o leitor disponha do livro da maneira que bem entender - porque se percebe o coração do autor apaixonado.
É isto: Parece que o autor do "Almanaque" também tem aquela mania de alguns escritores de meter o coração em todas as linhas que vai escrevendo e, neste livro, nada mais explícito que a paixão do escritor por Machado de Assis, percebe-se esta seja no estilo do autor ou no modo de se comunicar com aquele que se presta a ler.
Eu me atrai pelo almanaque mas, ao lê-lo, ao folhear as primeiras páginas, ao percorrer com os olhos curiosos aquele índice tão caprichado, com títulos, no mínimo, não usuais para um "estilo científico", percebi que ali ia muito da alma do próprio Machado. Claro, não é preciso ser nenhum imortal para perceber que um sujeito que se dedica a escrever um almanaque repleto de informações sobre a vida de um determinado autor deve conhecer muito da vida deste (ao que equivale dizer que passou inúmeras horas dedicando-se à leitura de outros autores que também se deixaram fascinar por Machado de Assis), deve possuir um pouco do autor querido em suas entranhas, há uma certa contaminação no estilo e seria uma maldade considerar isto plágio ou falta de originalidade.

Acredito que Luiz Antonio Aguiar conduz o leitor de seu almanaque com mãos firmes e gestos delicados, tais como os possuía o próprio Machado: Em um dado momento, na seção "Modo de usar", o autor sugere, " [...] as notas de fim de capítulo são ilustrativas, mas não essenciais. Se achar chato lê-las, pule-as; se quiser algo mais sobre a leitura do texto corrido, não deixe de passar os olhos nelas [...]" (p. 20).

Impossível não comparar com Machado, em uma de suas "conversas" com o leitor, em Esaú e Jacó: " Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método [...]. Se quer compor o livro, aqui tem a pena, aqui tem papel, aqui tem um admirador, mas, se quer ler somente, deixe-se estar quieta, vá de linha em linha, dou-lhe que boceje entre dois capítulos, mas espere o resto [...]" (p.344)


Ao ler as duas citações, nota-se que , mesmo que sejam quase opostas, uma vez que o autor do almanaque deixa a cargo do leitor a maneira como deve usar o seu livro, enquanto que Machado de Assis "briga" com a leitora (literatura , na época, era coisa de mulherzinha) ansiosa que tenta adivinhar o que se passará nos próximos capítulos, ambas revelam uma coisa muito interessante na literatura machadiana, a Metalinguagem.

Metalinguagem, como acho que já comentei aqui consiste em falar da própria linguagem, falar acerca do processo da escrita e do processo da leitura. Essa temática sempre me fascinou em Machado e acredito que esta paixão por falar do ato da escrita e da leitura venha da sua própria formação enquanto leitor-devorador de clássicos.


Interessante notar que conversar com o leitor é sempre uma necessidade de Machado de Assis, assim como se tornou uma necessidade do autor ou de quem quer que ouse falar de Machado, e, presumindo aqui que este seja um apaixonado pela literatura machadiana, em nada surpreende que em seu estilo possamos ver um trejeito aqui ou acolá do grande mestre.


Não considero plágio, nem falta de personalidade e nem muito menos sinal de imaturidade autoral o fato de o "Almanaque" me lembrar , tantas vezes, a forma como Machado conversou comigo quando fui ler Esaú e Jacó, ou Dom Casmurro, ou A mão e a luva. Não. Acredito em contaminação, em inspiração e, sobretudo, em paixão.
Acho impossível dedicar-se à escrita de um livro sem, no mínimo, paixão, esta que nos faz sempre retornar aos nossos grandes mestres, aos nossos primeiros "alfabetizadores literários" se é que isso existe, se não, invento agora.


Ler o Almanaque nos faz ter vontade de voltar a Machado pelo simples fato que dele começamos a ter saudade, seja da ironia, do tão aclamado "pessimismo". Eu sinto falta mesmo é quando ele vem com aqueles adjetivos antes do "leitora", "querida leitora", "apressada". Parece tão pessoal!


Em pensar que antigamente dava-se valor a livros...

segunda-feira, maio 12, 2008

Capitu era Capitu



" Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem".


(Dom Casmurro, p. 761)



Ah se todas tivessem ao menos os trejeitos de Capitu! Heroína da obra machadiana, Capitu não diz nada que não tenha saído da boca/mente de Bentinho. É assim surpreendente, aquilo o qual não se espera. Capitu surge, com sua curiosidade muito particular, com sua inteligência e ardilosidade e a ela é atribuido um adultério que jamais é comprovado.

Essa é a história de Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, na minha opinião, melhor escritor brasileiro.

Capitu parece ser o desenho final, o arremate das personagens "pecadoras" criadas por Machado. Ela traz em si todas as ardilosidades empreendidas por outras mulheres machadianas, como Guiomar (A mão e a Luva), Lívia (Ressusreição). No entanto, são por seus "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" que é lembrada, idolatrada como nenhuma outra personagem machadiana. Uns olhos assim dos quais nada se pode deduzir inicialmente, uns olhos que são de ressaca. Ressaca? não a ressaca de álcool, vejamos bem ( Millor Fernandes inclusive, de maneira debochada, quis que assim parecesse, que Capitu tinha os tais olhos de ressaca por viver embriagada, recomendo o texto do autor), mas uns olhos, diria eu, arrebatadores, tais como a onda do mar que chega e quebra na beira para depois, levar tudo que tem à frente, através da ressaca.

Assim podemos descrever Capitu: mais mulher que Bentinho é homem; de uma curiosidade mui particular, dissimulada (na opinião de Bentinho) e , sobretudo, portadora de uns olhos de cigana.

Olhos de cigana? O que os caracterizaria? Pensando cá com meus botões, ciganos são conhecidos por serem pessoas enigmáticas, bem como "portadores" da verdade. Ora, não são estes povos os portadores de conhecimentos astrológicos, possuidores, não raras vezes do dom da clarividência? Ninguém nunca ouviu falar em tarô cigano?

Pois bem, é Capitu também uma cigana, portadora dos segredos que existem entre céu e terra, enigmática e também, nômade. Não nos esqueçamos da principal característica dos ciganos: seu apreço à liberdade.

Poderiamos, então, dizer que Capitu tinha em si uma queda pela liberdade, pela flexibilidade; era nômade em seu espírito, fiel a si mesma bem como às suas convições. Se não possuia em sua alma o dom da clarividência, por Bentinho era considerada A mulher, aquela que teve o dom de incutir a dúvida em seu espírito tão racional. Sim, pode-se dizer que Capitu guardava o mais importante segredo dessa vida dentro de si: o segredo da feminilidade.

Dava-se ao mesmo tempo que se furtava ao olhar; já que dissimulara sua paixão por Bentinho diante das famílias, porque não dissimularia um adultério?Disto , nada se saberá, Machado deixa a questão em aberto: nunca se ouve a voz de Capitu, a narrativa é exclusivamente feita pelo ponto de vista de Bentinho, que ora acusa a mulher, ora a absolve.

Vítima ou culpada, Capitu continua reverberando por aí, seja na leitura machadiana, seja no discurso freudiano acerca da histeria, da feminilidade exercida por cada mulher que represente, ainda, o mistério, o enigma.

Acredito que muito, sim, foi mudado desde que Machado de Assis desenhou o caráter de Capitu. No entanto, porque será que os homens continuam com medo de umas mulheres que não tenham em si uns olhos tão plácidos, uns olhos assim, tão tranquilos? Capitu era Capitu e esta continua levando alguns Bentinhos à loucura ou,´no mínimo à questionamentos que não gostariam de fazer.


Resta dizer que ser Capitu não é fácil, implica coragem, sobretudo, para mostrar aos Dom Casmurros por aí espalhados, que não necessariamente ser mulher implica em tomar o lugar do homem, ou Capitu não queria Bentinho? Para quê? Isto é o que não se sabe.

quarta-feira, maio 07, 2008

O sujeito do inconsciente, a Ciência e a ignorância - Dá para juntá-los?


Em seu recente livro de artigos acerca da clínica psicanalítica contemporânea, Charles Melman aponta para uma questão que há muito foi trazida por Lacan. O que fazer com a dimensão do sujeito na Ciência?

Se toda ciência, como a conhecemos, pressupõe um sujeito cartesiano, há lugar para um sujeito do inconsciente? Acredito que "não" é uma resposta definitiva demais, acabada demais, logo, devemos desconfiar desta.

O sujeito na ciência cartesiana é aquele que metrifica, que quantifica, empírico por excelência: Vou fazer isso porque por A + B o resultado seria simetricamente quantificado como C. Não há lugar, portanto, para o inesperado, para o incalculável e nem para nada que exclua o palpável. No entanto, debates atuais acerca da "Fisica Quântica", questionamentos a partir de livros como "O segredo" e filmes como "Quem somos nós?" nos fazem compreender que há algo para além da metrificação e do cogito cartesiano: há um sujeito, por assim dizer, por trás de cada tabela, por trás de cada quantificação.

Este é o sujeito do qual fala a Psicanálise. Toda a "ciência" psicanalítica (coloco entre aspas porque não sei se a Psicanálise cabe na Ciência , assim como desconfio que a Ciência, como a conhecemos, não esteja adequada ao método freudiano) procura entender o discurso desse sujeito que sobra, que transborda no discurso científico, um sujeito, diria eu, que surpreende , estando em lugares os quais não imaginamos.

Tarefa árdua esta daquele que se dedica ao estudo da psicanálise: Buscar o discurso do sujeito nos locais mais inusitados. É isto. Parece uma boa definição: buscar o sujeito que pensa , exatamente aonde este não sabe pensar, não era isso que dizia Lacan? "Sou aonde não me penso"?

É o contraponto do sujeito cartesiano que buscamos, que incitamos, que promovemos. Acho que a palavra é essa, sem tirar nem por: Promovemos o inusitado do sujeito do inconsciente. A impressão que temos é que este está aí, perambulando, damos voz a este, na análise, damos ouvidos também (para os analistas). E a ciência? O que fazer com ela?

Aí está o calcanhar de Aquiles de Freud: A ciência e a pesquisa embasada em Psicanálise parecem algo difícil de lidar; como esmiuçar o sujeito , meté-lo uma metodologia, transformá-lo em artigo, em tese? Ele não pensa aonde não se espera? Então, parece, no mínimo, complicado meter uns ares cartesianos, de seriedade, num sujeito tão fluido e tão serelepe como este que vive nos porões aos quais damos o nome de inconsciente.


Ah , tão bela seria a vida se não viesse aquele neurologista austríaco falar de inconsciente, de coisas que jamais deveríamos supor existir dentro de nós! Seria tão mais fácil sermos as belas almas de Hegel! A ignorância é uma dádiva.


Porém, uma vez entrando nesses meandros, difícil se faz abandoná-los. Aí acaba a inocência: o sujeito do inconsciente reina, sem fazer alarde, calado, quase sem fazer barulho (ai de nós! Não sabemos o barulho imenso que este faz ali do canto dele, quase ignorado - quase) até mesmo quando desejamos que a Ciência e o sujeito do pensar (e apenas ele) reine.


Eu não sei se hoje, com a consciência (hehehe) que tenho se sou verdadeiramente orgulhosa de caminhar tanto por entre os "vales sombrios inconscientes". Acaba que todo aquele que o faz, inexplicavelmente, tem a tendência de achar pêlo em ovo e chifre em cabeça de cavalo. No entanto, não me cabe lamentar, apenas me enveredei, uma vez seguindo este rumo, difícil se faz alterá-lo, mudar de direção. E a Psicanálise será sempre o meu amor genuíno e o inconsciente a minha paixão duradoura.


A ignorância pode ser uma dádiva, mas prefiro o Acheronte.

domingo, maio 04, 2008

Algumas frases

Aqui , na falta do que fazer, trago algumas frases legais para compartilhar. Estavam arquivadas em um caderno, e, numa dessas leituras, me foram muito úteis. Eis que as trago, para quem assim desejar fazer uso. São frases de diversos autores diferentes e que, por algum motivo, vieram a fazer parte desse arquivo.

" A felicidade é um par de botas"

Machado de Assis , em seu conto " O último capítulo". De acordo com a estória, uma personagem percebe, ao observar um pedestre caminhar na rua, que a felicidade não é muita coisa a não ser um par de botas para aquele pacato cidadão, que olhava fixo para sua aquisição, com um ar tranquilo de quem acha que não precisa de muito para ser feliz.

" As emoções do homem são despertadas mais rapidamente do que sua inteligência"

Frase de Oscar Wilde. Dentre muitas deste irônico frasista, a frase acima nos fala tudo o que o nosso senso comum já sabe há muito. Antes sentir, depois pensar. É sempre assim. Porque lá no fundo da alma parece não haver óculos nem livros para serem lidos, nem tabelas para serem preenchidas. Lá no coração, também, não existe essa coisa de pensamento, no máximo um disse-me-disse que nos leva a entender, por instinto, que algumas coisas que aparecem em nossas vidas simplesmente não carecem de explicação, por isso, nos resta vivê-las e senti-las.


" O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada a ver com isso"

Frase de Mario Quintana. Diante de tantas interpretações que podemos ressaltar aqui, entende-se que, no fim do dia, é melhor mesmo saber que suas queixas são apenas suas, que ninguém , de fato, tem nada com isso, e que, muito melhor seria buscar uma resolução dentro de si, sem desprezar contudo a opinião alheia. No entanto, procure não precisar da opinião alheia de maneira que sua voz prevaleça no centro de suas decisões.

" O mistério do amor é muito maior do que o mistério da morte"

Também de Quintana. Confesso que essa frase não é tão fácil de se compreender, falo por mim. Acredito que , às portas da morte, é aí que cessam os mistérios. Quem nasceu para ser ruim arrepende-se amargamente de tudo de mais degradante que cometeu em vida, busca perdão numa tentativa de acertar urgentemente as contas com Deus (se não for ateu, diga-se de passagem) para não ir parar num lugar que não desejasse ir. Quem foi bom, não precisa ser muito inteligente para saber que, quem foi bom será lembrado como sempre foi em vida, até será santificado. Logo, qual o mistério que há na morte se a função desta é exatamente desfazer tudo de mal entendido que ocorreu em vida? Não nos esqueçamos que , são nos velórios, geralmente, que se descobrem amantes, familias, filhos bastardos, enfim, é na ocasião da morte que o sujeito, de fato, se desnuda. Há mistério que resista?
Agora, quando se trata das coisas que vão dentro do coração. Aí sim, Quintana está certo. Não há coisinha mais misteriosa do que o amor. Chega de repente, instala-se e talvez demore muito para ir embora, não exatamente a pessoa, mas o sentimento envolvido e a ilusão construída em torno desta. É assim desde os tempos de Cristo, não vai mudar muito, e , para os males do amor, não existe coisa melhor do que Bossa Nova, Tom Jobim, talvez bebida ou sublimação. Cada um escolhe a melhor forma de lidar com o misterioso sentimento que cresce sem que a gente se dê conta.

" Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes".

Machado de Assis, novamente. De fato, faz sentido o que são as decepções senão árduas lições que tentamos fazer ao longo da vida?A vida deveria ser assim, como um ditado, a cada palavra errada ,cada passo errado, atitude errada a criatura deveria "reescrever" cinco ou seis vezes o próprio erro, na tentativa óbvia de não mais cometê-lo.
A vida deveria ser isso, tais como estações, para que a gente possa dizer, futuramente, que um verão que se passou foi mais quente que outro, ou um inverno mais rigoroso do que o do ano passado. Mas, como não é bem assim, a gente vai vivendo e aprendendo
.

sábado, maio 03, 2008

Narcisismo, por várias lentes espelhos

O narcisista , segundo várias fontes:
" Os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem. De fato, eles negam quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar. Agindo sem sentimento do self derivdo de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do self, vivem a vida como algo vazio e destituído de significado. É um estado de desolação"
Alexander Lowen
" Interessa-lhe seduzir, ardilosamente, tendo em vista o poder e o controle de Bentinho e, por seu intermédio, de todos os demais à sua volta. Como todo narcisista".
Machado de Assis, sobre Capitu
" As pessoas com transtorno de personalidade narcísica tem um sentimento grandioso de própria importância e preocupam-se com fantasias sobre seu próprio sucesso, poder, brilhantismo ou beleza".
David Holmes
" Narcisista é alguém mais bonito que você"
Millor
Diante de tantas explicações sobre o narcisismo, e tão variadas, cabe dizer que todas elas encerram verdades. O narcisista realmente é uma criatura tal como Capitu, mais mulher do que Bentinho é homem, ardiloso, sedutor, mas, acima de tudo, uma criatura frágil, porque necessita do constante aplauso.
Narcisista que se preze gosta é de espelho, paralisa-se diante de um, sendo capaz, inclusive, de casar com um.
Caetano, Pedro Almodóvar ou Oscar Wilde, fato é que o narcisista é aquela pessoa que, na falta do reflexo, busca no outro a resposta para aquilo tudo que duvida, de fato , que exista em sua essência. O que então desejar? tudo aquilo que penso ser e não sou. E a verdade?
A verdade está escondida nos mais obscuros porões da nossa mente, aquele que chamamos de inconsciente desde que um austríaco se aventurou por esses mundos tão sórdidos e tão fascinantes...e aquilo que não queremos ver escondemos, até de nós mesmos!
E ainda dizem que a terapia cognitivo comportamental vai conquistar o planeta!