sábado, maio 09, 2009

Não usarás a ironia (?)



" Não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados"


Machado de Assis - Teoria do Medalhão



Eu agora lhe pergunto: Por que não, Machado? Por que não? O emprego da ironia talvez seja o único antídoto face às intempéries da vida. Observe quão sábios foram os gregos os quais você chama decadentes. Imagine a procedência, Voltaire, Swift, acrescento a sua lista Schopenhauer, Mário Quintana, Vinícius de Moraes, Freud... seriam muitos nomes a engrossar a fileira dos irônicos, nomes com pompa, nomes de envergadura, agora eu não entendo a sua recusa. Por que não, Machado?


Que mal há em deixar escorrer o veneno dos lábios, que horror existe em levar a vida como quem leva qualquer coisa? - porque, afinal, esta é qualquer coisa, nós é que damos a ela um verniz tal que parece outra coisa. Que mal há em ser irônico, em sorrir um sorriso safado e exibir no carão sardônico ( o qual você conhece, lembra do seu conto "O último capítulo", exemplar único do uso bem empregado da ironia?)?


Ai, Machado, agora negas o ofício do irônico, a oitava maravilha inventada por aqueles que da linguagem fazem o pão, célebre exercício da língua que maldiz todas as coisas dando-lhes um tom de meio riso, de inteira verdade dita como se metade?


Machado, sinto-me triste com isto, espero que o que tenhas colocado na boca da personagem não represente o seu pensamento, penso mesmo, com meus dons de psicóloga, que sua repulsa à ironia não passa de pura chacota, chiste ou algo que o valha, pois não seria o velho Machado quem condenaria o que Wilde faz de melhor, o que Drummond e até Shakespeare fazem, com muito ou pouco empenho.


Daqui fica um recado: Jamais deixarei de recorrer ao movimento meio secreto, meio de riso contido presente numa boa e simples ironia. E deixe de uma vez por todas de caluniar a quem tanto te deu, a quem te deu um nome, busto de cobre e uma Academia.

Nego-me veementemente a deixar de empregar a ironia, fiel e boa companheira nestes vinte e seis anos de vida para seguir-te, de outra forma, prefiro seguir meu caminho tal qual ovelha desgarrada, perdida na imensidão do pasto sem um pastor a lhe guiar.


Portanto, Machado, não ouse novamente repetir que não se deve empregar, que não se deve usar e tampouco abusar da velha ironia, velha por velha, tua pena também o é e não poucas foram as vezes em que cedeste à triste ironia para respaldar teus escritos. Da minha parte não deixarei, não negarei e nem me voltarei contra a ironia.

Digo isto com um sorriso de meia boca na face e uma pena faceira que teima em escrever, mesmo em tempos de internet.

Tudo isto é a mais pura verdade e tenho o dito.

segunda-feira, maio 04, 2009

Carta a uma desconhecida




Passaram alguns anos, você, certamente não me conhece, mas eu tento saber da sua dor. Eu não tenho idéia dela, mas eu tento sentir o que talvez você sinta, toda vez que penso em amor.


Bem, para que você não ache que isto é alguma coisa à toa, escrita por quem decididamente não tem o que fazer, vou te dizer como cheguei a você. Você, para mim , é apenas um rosto numa fotografia, alguém que mora longe, mas muito longe de mim , mas que, de qualquer forma, eu cheguei a você, por causa de um amigo meu, que conhece você. Isto foi o suficiente para eu ficar a par do que se passou com você um dia desses, um dia que eu acho que você lembra todos os dias da sua vida, você sabe qual.


Voltando ao caso, direi, eu tenho sim o que fazer, e neste momento, o que eu tenho a fazer é escrever isto para você. Durante estes anos eu penso em você, mesmo que você não saiba que eu existo, sequer desconfie que eu sei de sua dor. Também não sei se deveria te mostrar isto porque você, certamente, não gostaria de ler palavras de uma desconhecida qualquer que se diga sensibilizada por tudo que lhe passou.


Eu penso em como você passa as noites, os dias, em como ele volta para você em sonhos. Eu penso nas teorias que você deve criar para desculpar Deus e , ao mesmo tempo, culpá-lo por ter-lhe dado este fardo. Eu imagino quantas lágrimas o seu travesseiro já engoliu, quantos lenços de papel você já usou, quantas vezes já pronunciou o nome dele num daqueles momentos em que a saudade parece nos sufocar de uma forma que o coração vai diminuindo, diminuindo, minguando.


Eu sei que você acha que tudo na vida tem um propósito. Nisto somos parecidas. Eu acredito que doa, sempre, e muito , e talvez com o tempo só doa mais, eu acredito que, de alguma forma, existem alguns paliativos sem os quais todos nós enloqueceríamos numa situação assim.

Eu penso nas músicas que você ouve para pensar nele, nas músicas que você ouve sem querer e não deixa de pensar nele. Eu imagino como foi a relação de vocês, se brigavam, se eram muito íntimos, se eram quase casados. Eu imagino a força dos abraços, eu imagino o carinho, eu imagino as últimas palavras, se é que houve. Eu imagino a véspera, eu imagino a manhã seguinte, eu imagino tudo e imagino, no centro, a sua dor.


Veja, eu não tenho interesse em me parecer uma espécie de psicopata que buscou sobre sua vida de alguma maneira. Acontece que algumas coisas chegaram a mim, através da dor de um amigo, e, coincidentemente, através desta, cheguei à dor de uma mulher que amava. Por hoje eu saber o que é amar eu resolvi escrever isto para você.


Imagino o quanto deve ter sido difícil para você acordar todos os dias, imagino o quanto foi difícil para você tirar o "luto", o quanto, sobre todos os aspectos isto ainda te dói e de alguma forma te tira esperanças de reencontrar o que para você, certamente, é único.


Eu me coloco em seu lugar, quase sempre. Estranho? Não sei, mas gostaria de te dizer isso tudo, talvez por te admirar, talvez por não entender o tamanho da dor que é perder alguém. Eu queria te dizer tudo isso, veja bem, não estou aqui tratando-a como heróina, bem diferente disto, estou me colocando em seu lugar, do alto do lugar de uma mulher comum, apaixonada que vê subitamente sua vida mudar, num piscar de olhos.


Eu gostaria que você soubesse o quanto eu penso em você, eu me pergunto se você pensa nele todas as noites, se você reza por ele, se ele é seu anjo da guarda. Eu gostaria de saber como você suporta a vida depois dele, como você entende o amor, agora, do seu novo ponto de vista. Eu gostaria de saber como foi beijar alguém depois, dar as mãos e, principalmente, receber um outro carinho, vindos de outras mãos.


Eu, enfim, queria te dizer que admiro-te pelo que dói em você, mesmo que dóa num cantinho separado, que é para não atrapalhar a vida rotineira que costumamos levar, esta, que é contada através de folhinhas num calendário. Eu imagino o quanto você já deve ter ouvido que guardar este amor é inútil, eu imagino o quanto te julgaram ou julgam, eu imagino os que de você têm pena, não é meu caso, meu caso é de amizade desinteressada, uma amizade nascida assim, apenas de um lado e firmada a partir da empatia.


Admiro você pelo que houve, pelo seu modo de suportar e de viver a vida. Admiro você por você ter forças e por ter conseguido acordar bem, um dia.


São palavras de uma desconhecida que , de algum modo, se coloca em seu lugar e já pensou muito em você, em vocês, nos seus planos, nas suas vidas. Da minha parte? Da minha parte você pode considerar falta do que fazer, da minha, um modo de lidar com meus próprios limites. Eu, no seu lugar, teria sofrido igualmente, na verdade, não sei se teria me recuperado.


A você desejo-lhe sorte, desejo-lhe um novo amor, desejo-lhe que a vida te recompense pelo que já fez a você. Ela roda, roda, mas, invariavelmente, ela volta e desfaz um mal, a vida, esta tem um dom de se renovar e de nos dar alegrias assim, quando menos se espera. Em mim, tem uma amiga que você não conhece, talvez nunca venha a conhecer mas que está aqui para te dizer tudo isto.

Veríssimo é bárbaro


" Toda as opiniões sobre o gênero humano são suspeitas porque são de gente. É impossível ser completamente objetivo sobre a própria espécie. Mesmo as opiniões mais negativas sobre o ser humano têm esta falha de origem: são de seres humanos".



Luís Fernando Veríssimo



Quem lê isto logo pode adivinhar a autoria: Veríssimo, talvez o mais sagaz dos Veríssimos. O mundo é Bárbaro ( Editora Objetiva, 2008) consiste em uma compêndio de crônicas escritas pelo já célebre escritor gaúcho que continua muito, muito bem das pernas.

Uma reunião de idéias, frases de efeito - mas não só isso - e muita, mas muita opinião é um bom começo para iniciar um comentário sobre este livro. Inicialmente confessarei: hesitei em comprá-lo, achei que dentre tantos outros nomes, uma outra leitura seria mais agradável, afinal, pensei que se trataria de críticas ferrenhas ao capitalismo, consumismo, afinal, coisas das quais não podemos - até que alguém prove o contrário - nos livrar. É isto, confessei.


Porém, qual não foi minha surpresa ao perceber que Veríssimo continua o mesmo de As comédias da vida privada, continua o mesmíssimo. Sim, a veia cômica, o humor e a ironia, além, claro, do amor pelo Internacional de Porto Alegre continuam aparecendo em seus textos de modo que nem devem ser enquadradas como "estilo" de escrita; acho que, na verdade, tudo que surge para adequar alguém à algo seria avesso a qualquer proposta de Veríssimo.


Digo isto porque suas obras me parecem mais uma mistura de humor, sagacidade de brilhantismo e uma reunião destes elementos só poderia dar em algo como Veríssimo, impossível de definir e encaixotar em um estilo, um estilo literário, alguns defenderiam.


Em O Mundo é Bárbaro, de maneira simples o autor parece situar-nos nesta galáxia, neste planeta avariado, nesta espécie homo sapiens imbecilis. Veríssimo não nos apoia em nada, não nos desresponsabiliza por nada, nem nós , nem os gaúchos, nem mesmo Obama sai incólume da severa crítica feita com jeito de gracejo.


Esta parece ser a receita do sucesso do autor que ganha a vida, parece, fazendo o que mais sabe e gosta de fazer, a não ser torcer pelo Internacional. O livro contém exatos 69 textos que versam sobre assuntos relacionados a nossa maneira um tanto quanto estúpida de habitar o planeta, os países, enfim, o livro trata das vicissitudes humanas sempre tão idiotas quando se tenta generalizá-las.


O engraçado de tudo isto? O engraçado é que Veríssimo, mesmo quando fala de assuntos sérios, tais como ataques terroristas, o auge econômico dos países asiáticos, mesmo quando fala das misérias do Brasil, consegue dar um tom de graça tão forte, mas tão forte, que não raramente o leitor se pegará rindo da própria des-graça.


Na verdade, acho que o que Veríssimo faz é justamente isso: dá-nos algo para rir, nem que seja nossa própria miséria, enxergá-la no espelho, repleta por uma fina ponta de humor e ironia, e cá estamos nós, com a boca cheia de dentes, gargalhando tantas vezes em cada folhear de página.
E eu, hein, que achava que tinha errado de livro, acabei acertando na hora de ir ao caixa. Sorte minha. Recomendo fortemente.

quarta-feira, abril 29, 2009

Das sinfonias


Em forma de melodia os teus olhos chegam a mim
E me contam em canção todas as coisas de Quintana e Vinícius
Todas bem rimadas, ritmadas
São as coisas que brotam dos teus olhos para eu ouvir
São sambas e bossas formados por notas bem melodiosas
São acordes inéditos aos ouvidos meus
Criados no silêncio da indiferença
E assustados com tanto som que brota dos olhos teus
Somente para os ouvidos que são meus
Orquestra sinfônica alguma seria capaz de reproduzir
A sinfonia de amor que transborda dos olhos teus
Que incrivelmente não precisa da boca tua
Para me dizer o tamanho do amor que sentes
E tudo isto me contagia, tal como uma platéia
Fascinada,
Para sempre
Pelas canções que brotam dos olhos teus
ultrapassando os limites da anatomia
pois não se contentam só com a audição
viajam lépidas, rumo ao coração

sexta-feira, abril 24, 2009

Entre as cartas e a verdadeira história de Antoine de Saint-Exupéry



"Não há pequeno príncipe hoje, nem haverá nunca mais. O Pequeno Príncipe morreu. Ou então tornou-se muito cético. Um Pequeno Príncipe cético não é mais um Pequeno Príncipe. Fiquei magoado com você por tê-lo destruído"



Antoine de Sant-Exupéry




Estas são as palavras amargas do pai do pequeno príncipe. Na verdade, este é um pequeno trecho de uma das cartas que Exupéry endereça a uma mulher jovem, casada e grávida. Como se pode notar, o pai do menino dos cabelos dourados como trigo parece desacreditado da vida, e, sobretudo do amor.



Em O amor do Pequeno Príncipe : Cartas a uma desconhecida ( Nova Fronteira, 2009) somos apresentados a um Exupéry diferente do que acostumamos a reconhecer através do Pequeno Príncipe.



Consta que, durante uma viagem de trem, Exupéry apaixonou-se por uma jovem enfermeira que imediatamente vira a menina de seus olhos, a musa para quem escreve cartas recheadas de um amor quase pueril, doce, mas, ao mesmo tempo, corrompido pela desesperança frente à vida.


Para os que não conhecem a história, o pequeno príncipe tornou-se célebre no mundo todo por sua doçura e simplicidade, especialmente pelo amor puro que devota a sua querida rosa, motivo pelo qual sai a perambular planetas a dentro, em busca de verdades, de amigos, tais como a raposa. O que se conhece do livro que, na verdade, é um conto é esse amor devotado, cativado e inocente o qual le petit prince reconhece na rosa, a única para ele.


No entanto, quem quer que se disponha a passar meia hora na companhia de O Amor do Pequeno Príncipe, notará que muito pouco existe de principesco nas cartas do homem Exupéry. Chocada com a desesperança e amargura do autor que conseguiu idealizar uma das personagens mais puras e belas de toda a história da literatura infantil, resolvi buscar algo mais.


Foi então que cheguei à Verdadeira História do Pequeno Príncipe ( Novo Século, 2008). Neste livro, Alain Vircondelet, competente biográfo de Antonie de Saint-Exupéry, nos revela a verdadeira face do homem por trás do mito. Eis um livro interessante. Deixo claro que o conteúdo do livro é excelente e até permite que o leitor seja um tanto indulgente no que se refere ao trabalho de edição: há erros de portugûes, há também, a meu ver, certos erros de tradução, não sei, a leitura não é tão fluida. No entanto, nada disto mata o desejo do leitor mais empolgado de ir além e dar prosseguimento a esta aventura que se chama o folhear de um livro.


Detalhes à parte, a partir deste último livro, percebo que o título da obra anteriormente citada, O amor do Pequeno Príncipe: cartas a uma desconhecida, não parece ter sido bem escolhido, há, obviamente muito em Exupéry que não é resquício da sua célebre personagem, sigamos Foucault e , por favor, deixemos esta mania de adivinhar o caráter do autor através de sua obra.


A conclusão que pude chegar é que Exupéry não é o pequeno príncipe, logo, ele não é obrigado a encarar a vida tal como seu personagem, também não é obrigado a devotar a toda mulher o amor que o principezinho devotou a sua rosa.


Exupéry era um homem em conflito, vivendo uma vida adulta insatisfatória, sempre em busca das quimeras de sua infância. Uma criaça exigente, ora doce, ora birrenta aprisionada no corpo de um homem adulto, homem este que, muitas vezes deixa-se contaminar pela depressão, melancolia e pela tristeza ante a infância perdida...Ah, agora me lembrei de Casemiro de Abreu, "Oh que saudade da infância querida".


É o que podemos entender da obra de Vircondelet: Exupéry trazia engendrado em si a marca da melancolia e da infância perdida, a tristeza ante a finitude da vida e a passagem do tempo. Compreendendo então este pano de fundo, há que se entender as cartas amargas de Exupéry à tal enfermeira.


Foi apenas depois da leitura de Vircondelet que comecei a entender que, realmente, autor não tem obrigação de pensar que nem personagem. Ele sofre, amarga, ressente-se das pessoas, do amor e da vida e tudo que não pareça com isto pode ser chamado de ficção. O Pequeno Príncipe nasceu da sublimação de um homem que, não sabendo lidar com a vida, encontrou na literatura uma forma de matar a saudade da ingenuidade ora perdida, ora desacordada. Nesse sentido, não dá para cobrar de Exupéry cartas mais doces, mais puras, cartas talvez que fossem mais da autoria do principezinho do que do homem angustiado.


É, alguns dizem que a vida imita a arte e ficção muitas vezes rima com verdade, eu cá comigo acho que Exupéry mostrou sua face de adulto na angústia e na melancolia que endereçava à enfermeira na forma de missiva.

Esqueçam o pequeno príncipe, apesar de sua celebridade. Vejam o homem que chora, que se corrói e que briga consigo mesmo. No fim, o que mais dói é termos perdido um homem tão singular de forma tão prematura: le petit prince não deixou herdeiros - consanguíneos.

segunda-feira, abril 20, 2009

Feminices e algo mais


" Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três destas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então, também é louca. E fascinante"


Martha Medeiros


Este é um trecho da crônica Doidas e Santas, do livro homônimo de Martha Medeiros. Engraçado. Eu sei que muitos nem conhecem Martha, nunca viram seus livros nas pratileiras de livrarias, a não ser agora que a globo filmes lançou Divã. Bem, irrelevâncias à parte, vou lhes dar bons motivos para conhecer melhor esta autora gaúcha que, se não é imortal, ao menos muito aprendeu com alguns deles, como Machado de Assis, por exemplo.

Os motivos para ler Martha são muitos e eu não serei presunçosa aqui de dizer que pretendo esgotá-los, tampouco pretendo convencer os mais céticos, os ditos "amantes da boa literatura".


Ora, o que faz uma literatura ser enquadrada na classse superior da " boa literatura"? Certamente alguns dirão que o conteúdo da obra - sem dúvida, isto é mais que essencial quando se pretende passar algumas horas virando páginas: é essencial que estas páginas valham o esforço muscular compreendido no virar das folhas. Outros, entretanto, dirão que uma boa literatura é feita de autores renomados. Não concordo. Há muitos desconhecidos que fazem boa literatura no quintal da casa deles, sem editora nem nada, e , mesmo assim, são ótima literatura.

Martha para mim é boa literatura. Mesmo que não entenda de psicanálise, isto ela até diz com todas as letras. Martha é boa naquilo em que todas nós, mulheres, achamos ser boas ou nos declaramos péssimas: ser mãe, ser esposa, namorada, mulher, profissional...e haja autocrítica!

É aquela coisa chamada "intuição". Alguns a reduzem e chamam de "intuição feminina". Eu , não querendo agradar nem a gregos nem a troianos, não digo "intuição" e também não particularizo com "intuição feminina".

Martha é boa em feminices. em Doidas e Santas (L & PM, 2009), o leitor vai se deparar com um compêndio de 100 crônicas que a autora publicou nos dois mais renomados jornais diários de Porto Alegre. Martha falará da necessidade imperativa de toda mulher em viver até a "última gota", de fazer todo o trajeto valer a pena, dedicando-se ao amor, às artes e em especial, a vida, em seu mistério.

Tudo bem, você pode pensar que muito já foi dito sobre o tema. Eu até concordo, afinal, feminices não é um tema nada original, no entanto, o que há em Martha de especial? Acredito que Martha tem uma sensibilidade aguçada capaz de fazer a leitora ( e agora me dirijo a elas) pensar: " - Mas é bem assim!". E isso é muita coisa.


Tal como Divã, estas crônicas de Martha, escritas no período compreendido entre 2005 e 2008, nos abrem os olhos sobre as pequenas artimanhas de ser mulher, sem , entretanto, incorrer em feminismos, em uma diferenciação que beira o radicalismo. Pelo contrário, homens também sentem suas masculinices, e como sentem! Porque todos temos nossas questões, e, o que Martha faz é falar direto a alma , ao coração, ao cérebro, enfim, ao órgão que você eleger, de quem busca um livro, assim, sem pretensão, esses que só são adquiridos para cumprir o dever com o hábito da leitura, assim, descompromissada.


Porém, que engano! São nas leituras que encontramos menos pretensão que podemos adquirir as maiores lições. Claro, existem exceções e digo mesmo que há muito livro de bolso por aí que não vale o bolso que lhe abriga. No caso de Doidas e Santas, o leitor e a leitora - aqui vamos dar vivas à igualdade entre os sexos - encontrarão uma grata surpresa de aprender, de se deixar tocar pela visão mezzo-irônica, mezzo-cética de Martha, que, afinal, deve existir em cada um que se presta a ler.


Doidas e Santas , apesar de tratar , em grande parte, de feminices, não se limita a elas, pois é, sobretudo, um livro sobre como lidar com o mistério da vida, esta que nós é dada de graça e que, nem por isso, deve ser vivida sem alguma responsabilidade.

Isso para mim já é motivo suficiente para fazer do livro de Martha uma boa literatura, ou não é a boa literatura aquela que , mesmo falando de outros, continua falando como se diretamente a nós?

domingo, abril 05, 2009

O artista é o bode expiatório?



" Se a perda da individualidade é de qualquer modo imposta ao homem moderno, o artista oferece uma vingança e a ocasião de se encontrar. Ao mesmo tempo em que ele se dissolve no mundo, em que ele se funde no coletivo, o artista perde sua singularidade, seu poder expressivo. ele se contenta em propor aos outros de serem eles mesmo e de atingirem o singular estado de arte sem arte"


Lygia Clark


É, é bem verdade, o mesmo que Lygia disse acima já foi dito por Foucault, já foi dito por Lacan, já foi dito até por Freud, se aqui pudermos dar um toque generalizador e não nos apegarmos à total sincronia das palavras. Tudo isto foi dito antes por outras pessoas que não Lygia, sendo que de outra forma, com outras palavras, mas o que nos interessa aqui é o sentido geral: O artista é o bode expiatório, isso, com essas palavras, quem diz sou eu.


Se não quisermos navegar por mares longínquos e nem desejamos ir muito além do Atlântico, podemos notar o caráter de susto que toda arte visa evocar. Isso também já disseram, mas digo também: Nos assustamos com um quadro, com a perfeição das formas ali esboçadas, nos assustamos com um filme, nos assustamos, indiscutivelmente, com um poema. E de onde vem este susto? Por quê me assusto?

De acordo com Sueli Rolnik e tantos outros teóricos da Esquizoanálise, todos nós possuimos um corpo vibrátil, feixe de possibilidades por si só, e possibilidades estas sempre indefinidas. Alguém também já disse isso, mesmo sem ser do metiê da esquizoanálise. Freud já o disse, em suas próprias linhas.


Nos assustamos porque possuimos um corpo que vibra, que pulsa a todo momento. No pulsar das nossas vísceras habita o corpo-bicho do qual Sueli tanto fala, e esse corpo-bicho, semi-desperto, semi-adormecido é que vai ser convocado a aparecer quando estamos maravilhados com uma obra de arte, seja esta qualquer arte, generalizo aqui.


Nos assustamos porque a arte, vez em quando nos relembra que possuimos um corpo que reage e age , que vive ali, aonde tantas vezes duvidamos que viva, um corpo que dá sinal , para muitos, somente quando adoece. Alguém também já disse isso, aposto que foi o pessoal da Psicossomática.


Uma coisa aqui que não sei se já disseram é essa coisa de artista e bode expiatório. Acredito que se se tratasse aqui de um texto científico, artigo, resenha ou coisa que o valha, eu estaria imensamente disposta a traçar uma espécie de paralelo entre a figura do bode expiatório e a do artista. Motivos tenho de sobra, eis alguns.


1) O primeiro deles é que todo artista se expõe, da forma que pode e sabe, na concepção de sua obra. Ou seja, é um corpo vibrátil falando, por vezes febril, por vezes em transe, que concebe, que golpeia uma tela, por exemplo, com suas pinceladas. Tudo isso lembra movimento, corpo, pulsar. Ali está, numa tela cheia, o corpo vibrátil do artista, que se entrega, numa mistura de narcisismo com sublimação aos olhos alheios, à crítica alheia.

Presumo mesmo que o momento em que uma tela é cheia e maculada pelas mais variadas tintas, esvazia-se o criador, agora é o vazio, a calmaria, depois do torpor.


2) Todo esse esvaziamento parece dar margem ao preenchimento de outro alguém, que certamente vai lucrar algo com o vazio do artista. O que seria esse lucro? De que moeda estamos falando? Estamos falando de angústia? Eu apostaria, mas se não quiser usar este termo eu poderia falar de desassossego. Desassossego, vá lá, este termo é-nos útil uma vez que nos faz lembrar de tudo que irrompe com força após a calmaria. Desassogo e desencontro, ou , se quisermos ir mais longe, encontro com o desespero, com o Real (lacanianamente falando) ou simplesmente, encontro com a efemeridade e com a incompletude. O artista , ao se esvaziar, propõe e dá início ao ciclo de esvaziamento e preenchimento, entre o fluxo de vibrações, podemos aqui tentar inovar , entre artista/espectador.


Ora, esses são apenas alguns dos motivos. Como disse anteriormente Lygia, como já o disse também Foucault, fico com a idéia de que alguém tem que perder, tem que lançar-se a esse coletivo, tem que se esvaziar para que o ciclo do desassossego dê início. Eu, artista, esvaziado de mim, ofereço a outrem o que me faz no momento, vibrar, ofereço isto em forma de tela, de filme, de escultura, de o que quer que seja, ofereço o que em mim já não se encontra, para se encontrar em outro, que , certamente se assustará com o que viu/sentiu/tocou/vibrou.

Ao chegar a estas conclusões, já não sei mais se me apiedo do artista ou se o louvo; sem ele talvez não conhecêssemos metade do que somos, talvez nem nos reconhecêssemos. O artista, alguém já disse, é um fingidor. Finge a dor? Ou sente-a até seus próprios limites, visando um pouco de compaixão daquele que a contempla?


Triste fim. Eis que já nem sei responder as questões as quais não param de brotar. Talvez não me contentasse com respostas prontas ou baseadas em qualquer teoria. Talvez, mas o que importa e aonde quero chegar é exatamente no ponto de partida, no ponto de interrogação. E porquê? Por que a interrogação que franze meu cenho e que me revira os olhos, me faz pensar e repensar, "matutar" é a mesma que produz o desassossego, é a mesma que vai me fazer buscar, incessamentemente, uma resposta que há - e queiramos nós que assim sempre seja - de ser sempre desconhecida.


Solução? Não há, se houver direi que é temporária, porque uma vez mais o corpo-bicho há de se reerguer, grunhir, pedir comida e nos deixar assim, sem eira nem beira, em busca de algo que nem sabemos o que é. Aí, então, nos resta é sublimar - na melhor das hipóteses, sabemos que existem tantas outras menos louváveis.


Aí, então, nos resta deixar o corpo pulsar, o bicho despertar ao perceber que eu não sou o único a mais indagar. E não é que aquela obra mexeu comigo?E não é que é bem assim que sinto ? É , por essas e outras, continuo defendendo o árduo papel do artista como bode expiatório, como primeiro corpo a dar voz e vez ao sentir o desassossego, esse que é tão coletivo, que habita em todos nós mas que quase nunca sabemos descrever.


E viva a arte, glória ao artista!