sábado, março 19, 2011

Sob a nuvem da fumaça com Clarices Lispector



A princípio achei que o documentário De corpo inteiro (2009, direção de Nicole Algranti) seria apenas uma tentativa de fazer a ficção tomar conta da realidade ao adentrar no universo íntimo de uma das mulheres mais representativas do nosso país. Ledo engano: enganei-me redondamente com De corpo inteiro, pois achei que o que se seguiria era a interpretação de atrizes que, por sua semelhança física e por seu talento artístico, emprestariam à personagem célebre o mistério de Clarice, envolta sempre, nas nuvens de fumaça e - penso eu - de elocubrações.


Em vez disto, deparei-me com o que a própria Clarice entendia por ela mesma: em seu universo não habitava apenas uma, mulher, do mundo e de todos, com seu sotaque único constituído tal e qual uma colcha de retalhos, mezzo ucraniano, mezzo recifense. Clarices me foram apresentadas nas figuras de Louise Cardoso, Letícia Spiller, Aracy Balabanian ( a Clarice que estrela o documentário-ficção e chama atenção pela impressionante semelhança física com a escritora), Beth Goulart, entre outras que interpretaram a escritora em diversas fases da sua vida, mas sempre, no difícil papel de entrevistar e de se colocar tão verdadeiramente em cada pergunta que dirigia a seus interlocutores.


Vimos passear diante de nossos olhos uma Clarice voluptuosa tal como a interpretada por Letícia Spiller, em cenário baiano que, de saída, já convida a qualquer coisa de sensualidade, ao entrevistar Carybé. Antes, porém, conhecemos uma Clarice quase brejeira, fanfarrona pela interpretação de Louise Cardoso, que, se não reproduzia Clarice guiada pela imitação dos gestos e expressão, emprestava-lhe outra faceta, alegre em demasia, quase afetada, a faceta quase caipira , na tentativa de fazer-lhe um sotaque que a evocasse. Assim, conhecemos Clarices tantas, Clarices-homem, Clarice em todas e em todos aqueles que bem poderiam ser homens também. Arnaldo Block, ao entrevistar Ferreira Goulart, por exemplo, dá-nos uma amostra do que é Clarice e sua postura diante do entrevistado, uma postura que se esconde na aparente calmaria, quando, na verdade, tudo que arde dentro é revolução.


O documentário realizado por Nicole, que era sobrinha-neta de Clarice, nos oferece a oportunidade de entender o que Clarice pensava, sobretudo, do ato de entrevistar. Não era fácil, já destacamos - vide, e , para quem não viu ainda, a entrevista feita por Clarice com Carlinhos Oliveira, ela, gripada, ele, contestando tudo ou quase tudo: o mundo, a vida e a Academia Brasileira de Letras.
De corpo inteiro foi baseado no livro homônimo da escritora ucraniana e agora virou filme nos dando a chance de conhecer para além da Clarice que escreve, mas a Clarice que entrevista, que respeita a diferença de opinião (tal como nos faz lembrar a entrevista de Carlinhos Oliveira), que reverencia a quem admira ( trecho em que Letícia Spiller, vivendo a escritora, entrevista Jorge Amado), que enche suas perguntas das suas próprias inquietações ( vide o trecho em que é entrevistada a artista Djanira).


Clarice é dúvida. Nada mais natural, quase automático, para aquele que é feito de dúvida do que questionar, questionar sobre os mistérios da vida, sobre os mistérios da morte, sobre o que é, enfim, o amor. Sobre o amor, a escritora em todas as suas mais variadas faces, sempre o lembra, sempre o interroga, e, uma vez não chegando a conclusão alguma, pergunta, em quase todas as suas entrevistas as quais foram documentadas no filme, ao modo de uma criança curiosa: O que é o amor.


Quanto mais se perguntava , mais ainda indagaria, mais ainda questionaria a quem se deixou entrevistar: Na entrevista com Clarice, Nelson Rodrigues dá sua opinião: Amor é eterno, senão é eterno , é porque não era amor. Já Hélio Pelegrini, psicanalista e amigo do controvertido autor pernambucano, diz que o amor é o afeto pura e simplesmente. Djanira, a artista que alça o trabalho acima de qualquer outra atividade humana, confessa a Clarice que, sim, amor é tudo aquilo que se pode dar.


As Clarices mudavam, rostos se alteravam, vozes, umas com sotaque, outras sem, umas semelhantes outras distoantes , Clarice continuava a mesma. Ao passo que o documentário vai gastando seus 66 minutos de duração, não percebemos outra atmosfera que não a de Clarice, esta sempre a mesma, inalterada , mesmo que colorida por outros olhos nem sempre esverdeados, por outras bocas. O cigarro indefectível , a aura de mistério e esse não sei o quê de angústia prevalece em quase todas as Clarices do filme, seja ela brejeira, voluptuosa, gripada, quase irritada...

As Clarices eram únicas e várias e isto era a opinião da própria sobre si mesmo.


Entendido isto, pude me desapegar da minha necessidade quase metodológica-científica de verossimilhança e de fidedignidade e me acostumar à idéia que a intenção da diretora fugia ao que eu entendi primeiramente: a intenção era mostrar nas várias a única.


Além disto, cabe ressaltar as entrevistas com outras personalidades das mais variadas áreas: Vimos de Ferreira Gullar à Elke Maravilha, passando pela escritora Nélida Piñon, pelo arquiteto Oscar Niemayer uma maneira de deixar mais uma vez uma porta aberta para se conhecer Clarice, agora na voz e no corpo de jornalistas. As perguntas, muitas vezes, pareciam sair da boca de Clarice : O que é o amor, Por que você escreve? Por que você pinta?


Os grandes mistérios da vida e da escritora mais uma vez transformados em enigmas e oferecidos a figuras como as citadas. Chamo atenção para a entrevista com Elke Maravilha que, citando de Sófocles a Nietzsche, nos faz lembrar o que é a vida, o que é o ser humano e até nos faz lembrar Brigitte Bardot em sua defesa dos animais.

De corpo inteiro ensina. Mostra-nos o que é a vida, o que é a morte, a poesia, a escrita e a arte, ao menos na visão dos que estavam presentes nos momentos em que se podia refletir sobre todas essas coisas, momentos estes sempre envoltos pelo cigarro e pelo mistério de Clarice e das Clarices.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

A melancolia, o tempo e o cão


(...)

Eu sou feito de estrelas derretidas,

e sangue do infinito.

Com meu toque descubro as várias cores

dos âmagos dormidos.

Vou ferido de místicas miradas,

e carrego os suspiros

efervescendo em sangues invisíveis

até o sereno triunfo

do imorredouro amor pleno de Noite.

Conhecem-me as crianças.

e me coalho em tristezas.

Em contos de castelos e rainhas

sou corola de luz. Sou incensário

de cantos desprendidos

que caíram envoltos em azuis

transparências de ritmo.

Em minh'alma perderam-se solenes

carne a alma de Cristo,

e finjo entardeceres de tristeza,

melancólico e frio.

O bosque inumerável.




Ritmo de Outono - Federico García Lorca




Melancolia. Algo que muitos confundem com os contemporâneos estados depressivos. Pela pena do poeta fica mais fácil entendermos esse estado diverso da depressão que nos põe diante da angústia ante o objeto que já se perdeu. Perdeu-se e cabe a nós, tal como ao poeta, evocá-lo. Conhecendo o ótimo "O tempo e o cão" (Boitempo, 2009), dei-me conta de que o poeta muito tem a ensinar a respeito desse estado tão interessante que se encontra a meio caminho da solidão. A melancolia, sustenta Maria Rita Kehl, é pensada de maneiras distintas ao longo dos tempos.


Aos estudiosos da escolástica o estado melancólico advinha do fato de que era necessário ceder às pulsões da carne para que o acesso ao gozo do Outro nos fosse permitido, sendo este Outro, Deus. É pois, dessa forma, entre a exigência da disciplina perante o ser supremo e a fuga das tentações demoníacas que se estabelece a melancolia na tradição cristã.


Do melancólico disciplinado passamos a investigar o melancólico romântico, ilustrado pela figura de Baudelaire: o estado melancólico se estabelece como o estado flaneur do sujeito que nada encontra senão ilusões nas supostas benesses que deveriam vir de carona com as outras promessas feitas por um capitalismo que se insinua através das primeiras cartadas da sociedade industrial. Baudelaire voava com suas asas melancólicas acima da cidade industrial que tanto lhe prometera; voava sobre as revoluções que nenhuma certeza lhe deu que não a incerteza e o preço a pagar por toda a autonomia do sujeito, um preço diante da certeza do não-saber, de nunca ter de volta o objeto para sempre perdido.


O melancólico freudiano, fruto da sociedade a qual se insinuava aos olhos de Baudelaire continua sendo aquele ameaçado por tantas possibilidades de escolha e por, ao mesmo tempo, nenhuma possibilidade de escolha. A melancolia, assim, para Freud, torna-se a testemunha de que algo na sociedade moderna vitoriana não estava dando certo; o sofrimento e o desejo de partilhar de um tempo em que ja não há certeza acerca do quem é o Outro se faz presente e nos faz, ainda, poetas.


É por esse motivo que trago Garcia Lorca no início deste post. Poderia ser Rilke, o poeta que se entristecia por perceber a transitoriedade das coisas da natureza ( de acordo com o texto Sobre a Transitoriedade, de Freud) e o qual nos advertia sobre a utilidade da solidão para a criação e compreensão do mundo.


Poderia ser Fernando Pessoa, poderia ser Byron, Álvares de Azevedo, nosso representante mal-du-siècle. Todos , em algum ponto de sua obra, nos revelaram a angústia de estarmos perdidos e separados desse Outro de quem tanto demandamos um olhar. Poderia ser Byron, poderia ser eu ou você.


Todos nós somos pequenos seres desamparados à espera de algo que se perdeu, fosse Deus ou outro Outro, algo de nós se desprendeu e aqui estamos, sempre a vagar, tal como o flaneur, à espera do suave retorno daquele que um dia nos constituiu.

Estaremos sempre à espera da certeza, à espera do Outro, à espera de Deus. Mesmo que não saibamos rimar. A melancolia é democrática.


Enquanto isso, ficamos a vagar.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Rilke, o aprendiz de poeta e a solidão




" O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança"




Rainer Maria Rilke




As palavras do poeta mais atual e permanente do nosso tempo, de acordo com Otto Maria Carpeaux permanecem vivas dentro daquele que não tem medo de se aventurar nas cirandas do mundo que insiste em sem mover. Isso é uma das lições que podemos aprender em Cartas a um jovem poeta ( L & PM, 2009).




Trata-se da publicação das cartas trocadas entre Rilke, já bastante aclamado e reconhecido, e um aprendiz de poeta, Franz Kappus, jovem, impaciente e sedente de conhecimento entre os anos de 1903 e 1908. Não foi à toa que a correspondência entre essas duas almas durou cerca de cinco anos, entre idas e vindas, viagens e imprevistos.




Tantos são os conselhos que Rilke dá ao imaturo Kappus que deles podemos extrair as maiores lições que alguém pode levar por toda a vida. Muitos são os assuntos que, apesar de girarem em torno da atividade artística, acabam enfim, por revelar a magnanimidade da alma do velho poeta : nobre, humilde e, sobretudo, simples, belo por sua simplicidade.




Ensina-nos o velho poeta a nos sentirmos em paz, tranquilos, mesmo em períodos em que as adversidades imperam: é preciso viver e saber que a vida, esta está sempre girando, cirandando, tornando-nos outros, transformados que somos pela tristeza, que, se tem algum mérito, este seria dar-nos outra vida, outra essência. Aprende-se na tristeza , e especialmente, aprende-se mais na tristeza solitária.




Não há conselho que Rilke tenha dado nestas Cartas a um jovem poeta que não esbarre na necessidade do ser humano de extrair de dentro de si a pura essência que o faz inevitavelmente humano. Para que isto se dê é mais que recomendado, é mesmo necessário que se seja só, e porque só, podemos viver intensamente.




Mergulhar dentro de si mesmo, experimentar a dádiva que é ver a vida girar, experimentar o gosto amargo da tristeza que não pode ser compartilhada (porque invariavelmente exclusiva) acaba sendo, para Rilke, a fonte de todo amadurecimento diante da vida, da existência, um campo seguro para que se semeie o verdadeiro amor, coisa difícil, demandante ao extremo e que somente por ser difícil já merece ser vivenciada.




Diante das tristezas, um só remédio: Paciência. Diante do amor: disponibilidade para compartilhar. Diante dos pais, tolerância, diante da vida, insistência. Rilke aconselha que sejamos pacientes e tolerantes com nossa tristeza e saibamos viver a solidão como quem espera o nascer do sol dia após dia. Viver só é preciso, e não há coisa mais solitária que uma obra de arte, que nasce não sei da onde e invade isto que chamamos de vida, tal como se fosse um sonho que insiste em nos tomar , mesmo quando já estamos de olhos abertos, e nada, nada poderia ser capaz de explicar uma obra de arte, essa obra da tristeza, filha da solidão.




Por isso criamos, porque dispomos da medida certa de solidão que é requerida pela obra que pede, exige, clama para sair de dentro de nós. Rilke fala também sobre a vida, a morte, mulher, homem e sexo, porém, é sobre a poesia que o experiente poeta parece não saber o que dizer ao nosso Kappus.




Ora, o poeta apenas é; Não se aprende a fazer poesia, nasce-se poeta por possuir o livre acesso à reserva de criatividade, a esse não-sei-onde, esse compartimento secreto que tanto nos assombra e que faz parte da nossa alma. Sobre a poesia, Rilke nada aconselha a não ser que entremos em nós mesmos, e , nesse mergulho profundo recuperemos os tesouros da infância perdida, de uma vida esquecida, que, surpreendentemente descobrimos ainda fazer parte de nós.




Será mesmo necessário voltar à superfície? Certo estava Kappus que, ao introduzir estas Cartas, acerta em cheio ao dizer que quando fala alguém grandioso e único, os pequenos têm de se calar.




Calo-me.


segunda-feira, fevereiro 07, 2011

A dor é minha só (?)


Recentemente estive me informando sobre um caso que trouxe a questão à tona: O que fazer com a dor?


Obviamente, se isto se faz questão é porque não estamos falando de dores facilmente localizáveis; estamos falando de dores as quais estão longe de terem explicações que passam por medicamentos e/ou tratamentos com pomadas.


Estamos aqui falando da dor proveniente da angústia de viver. Um dia Oscar Wilde já disse que poucos de fato vivem, sendo hábito da grande maioria apenas existir. Na minha trajetória no campo psi - como professora e como profissional, percebo que a dor de existir sem viver é o que mais tem levado as pessoas a consultórios psicológicos, os felizardos.


Se a maioria de nós apenas existe, os dados comprovam que não estamos sabendo lidar com nossa própria existência: a dor e a angústia de existir: quando já não há chama de desejo que nos faça vislumbrar uma vida para além da reles existência, ou mesmo quando há tantas chamas de desejo que já não há outra alternativa que não o incêndio. Aí está a dor.


Em eras de twiter e facebook, a dor , além de ser anunciada , vende revista e dá Ibope. Recentemente prestei atenção a um depoimento de uma dessas celebridades instantâneas sobre o suicídio de alguém próximo: Poucas horas separaram o evento trágico do suicídio e a divulgação deste na rede social Twiter.


O que se seguiu ao anúncio foram demonstrações de todos os tipos que tinham mais ou menos o mesmo objetivo: acalentar a alma da tal celebridade que anunciava em seu microblog o suicídio do noivo. Uma legião de fãs apareceu para prestar condolências e desejar força a tal beldade.


Pergunto-me sobre esta dor, esta dor divulgada, anunciada, até mesmo alardeada - cerca de 5 depois do evento, a celebridade se diz "melhorando a cada dia", superando o luto de alguém que decidira pôr fim a sua existência justamente por causa de tanto desejo, ou falta dele, ou simplesmente, por não conseguir mais suportar o passar dos dias.


Em seu "Livro da dor e do amor" , o psicanalista Juan-David Nasio poderia fazer uma bela análise da dor. Indico fortemente a leitura do mesmo. Porém, é preciso que tantas outras questões surjam desta que se tornou a principal neste post: O que fazer com a dor?


Há quem a divulgue e anuncie, posteriormente a venda - vide o caso da citada celebridade. Há quem procure um amparo, alguém para escutar essa dor. Há quem não faça nada e simplesmente vá desistindo, lenta e gradualmente da própria existência por não suportar viver sem viver.


Há quem escreva, há quem trabalhe, há quem chore. Gostaria que as pessoas realmente soubessem o que fazer com a própria dor. No fim isso sempre ajuda.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

O vento e a mesma vidraça


A multidão costuma dizer que de amargo, já basta a vida e que melhor adoçante não há além de uma boa poesia, aquela capaz de consolar a todos e revelar pela milésima vez o mistério que teimamos em esquecer: a vida e sua beleza.

É disso que vivem os poetas. Aqui vai uma dessas que costumar tornar tudo tão mais doce:



Ar noturno (1919)



Tenho muito medo
destas folhas mortas
e medo dos prados
cheios de rocio

Vou adormecer;
se não me despertas
ao teu lado
deixo meu coração frio.


Que é isso que soa
tão longe?
Amor. O vento nas vidraças,
meu amor!

Eu te pus colares
com gemas de aurora.
Porque me abandonas

por este caminho?

Se vais muito longe,

meu pássaro chora
e o vento vinhedo

não dará seu vinho.

Que é isso que soa tão longe?
Amor. O vento nas vidraças, meu amor!

Não acabarás nunca,
esfinge de neve,
o muito que eu te houvera querido
essas madrugadas quando chove tanto
e no ramo seco se desfaz o ninho.

Que é isso que soa
tão longe?
Amor. O vento nas vidraças,
meu amor!


Federico García Lorca

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Por amor às ilusões: Você vai conhecer o homem dos seus sonhos



" when you wish upon a star, makes no difference who you are

anything your heart desires will come to you"


Tema da abertura: When you wish upon a star



É com esta música tão singela que se inicia You will meet a tall dark stranger (EUA, 2010). No Brasil, o título foi traduzido para "Você vai conhecer o homem dos seus sonhos", tudo bem, a tradução está ok, tão diferente do que fizeram com o ótimo "Whatever works", do ano passado. Woody Allen se mantém ativo com seus filmes anuais, filmes que, justamente pela frequëncia, correm o risco de se tornarem repetitivos, que percebamos cada vez mais claramente as obsessões atuais do diretor/roteirista.


Quando se trata do novo de Woody Allen, parece que não é bem o caso. No entanto, percebe-se uma tendência atual , desde "Tudo pode dar certo", de falar com simplicidade sobre os dramas psicológicos humanos, uma espécie de "lição para se levar a vida", nada tão diferente do que Allen vem fazendo há mais de 40 anos, sendo mais simples, um tom que Allen atinge somente por causa da maturidade.


Neste filme o espectador é presenteado com atuações maravilhosas de Gemma Jones, Antony Hopkins e Lucy Punch ( brilhante no papel da ex-prostituta Charmaine que casa-se com Hopkins) além, claro, de contar com o brilho de Allen que escreveu e dirigiu o filme.


Se eu pudesse dizer de que se trata o filme, poderia dizer que era mais um filme sobre as neuroses nossas de cada dia, tão bem retratadas e flagradas pelas lentes de Allen, poderia também falar que o filme fala sobre família, valores e pudores. Falaria também que o filme trata das ilusões humanas. Ilusões. Este parece ser o tema central, mais do que qualquer um dos citados, o tema que move a narrativa e leva-a ao clímax em que o espectador pode realmente se perguntar: quem será o pior cego: o que não vê ou o que prefere não ver?


Ilusões se espalham pela narrativa do início ao fim. Do início, quando encontramos a ótima Gemma Jones, no papel de uma senhora idosa, abandonada pelo marido que vai a uma cartomante charlatã na tentativa de buscar um sentido para sua vida ou o que o futuro reserva para ela. A cena abre o filme que segue com a voz onipresente de um narrador que explica os caracteres de cada uma das personagens que se entrecruzam durante a narrativa. Este recurso também é utilizado recentemente por Allen em "Vicky, Cristina, Barcelona", dando uma prévia sobre o que se esperar das personagens, especialmente deixando claro ao espectador o modus operandi de cada uma delas e como isto interferirá no desenlace da trama.


Assim, o narrador onipresente nos apresenta Alfie (Antony Hopkins), um senhor de idade, casado com Helena e que, de súbito, assim como quem espirra, resolve levar uma vida saudável, e, nesta nova vida, não há lugar para Helena, com quem foi casado por quarenta anos. De acordo com Alfie, Helena se entregou ao envelhecimento, coisa que ele não faz.


No outro núcleo encontramos Sally (Naomi Watts), filha de Alfie e casada com Roy, um escritor de um livro só, mas médico de formação, vivendo um casamento falido que ninguém tem coragem de dar por encerrado jogando a primeira pá de cal. Outras personagens aparecem na trama, como a jovem musicista Dia, o dono de uma livraria especializada em literatura ocultista Jonathan, o dono da galeria de arte Greg, interpretado por Antonio Banderas, todos, enfim, em busca de suas próprias ilusões, de segui-las até o fim, posto que estas lhes permitem que continuem vivendo.


No velho estilo Allen de ser, há muita ironia e hipocrisia que numa mistura que só Allen sabe fazer, transforma-se em comédia inteligente, como é típico de seus filmes. Se eu pudesse apontar um problema, ou mesmo que não seja um problema, algo que me incomodou foi a velocidade da narrativa, que em alguns momentos pareceu arrastar-se, não percebi o mesmo ritmo em "Vicky, Cristina, Barcelona", nem em "Whatever works/tudo pode dar certo". De qualquer forma, isso é secundário, o tema da ilusão e do quanto elas nos podem ser úteis nos faz reconhecer, novamente, que Allen mantém a velha forma, sarcástico, talvez mais lento, mas, como sempre, indo direto ao ponto: a hipocrisia humana, o ceticismo aparente, e, mais que isso, a fragilidade humana.


Apesar de nos apontar as vicissitudes humanas, isto de ver o que se quer e ouvir apenas o conveniente, tão típico da humanidade. Parece que em You will meet a tall dark stranger, Allen nos aponta um caminho otimista: as ilusões, são elas que nos fazem suportar a vida, fosse de outro jeito, ainda estaríamos deitados, esperando a morte chegar. Em outras palavras : uma ode inesperada à pulsão de vida, a tudo isto que nos faz insistir.

terça-feira, janeiro 04, 2011

São demais os perigos desta vida...


São demais os perigos desta vida... foi a lição que Vinícius de Moraes nos ensinou. A vida, esta efêmera, é uma das armadilhas que mais buscamos entender...Para uns ela vem suave, tal como uma brisa e do mesmo modo que vem, vai. Para outros, apegados que são à própria materialidade, acabam por consumi-la, nos últimos goles que ingerem, insensata e paradoxalmente , esperando a morte chegar.


A imprevisível não escolhe hora, nem lugar, não escolhe nem mesmo a quem pegar. Pega o que estiver à mão. Portanto, esqueçamos a teoria de que Deus precisa de nós lá no céu - uma vez que não sabemos muito bem porque Deus precisaria de nós, logo de nós, que importante trabalho seria este para o qual estaríamos invariavelmente convocados...e porque nós?


A maldosa chega, invade os lares e destrói os planos. E assim, quando ela nos toca, seja por qual maneira for, sempre nos relembramos da nossa própria finitude. Rabbit Hole, novo filme em que atuam Nicole Kidman e Aaron Eckhart, nos deixa claro que nunca sabemos lidar com a indesejada das gentes, com a morte, com o que quer que seja isso que nos leva alguém e nos enfia, goela à baixo, uma coisa chamada saudade. O filme é sobre luto, sobre como uma família lida com a morte de alguém, como cada pessoa se levanta depois da queda. Pela relevância da temática, pela atuação dos protagonistas, o filme vale a pena e nos relembra, sempre, que ela virá.


Certamente este não seria o post que eu imaginava inaugurando o ano, mas aconteceu. Aconteceu porque a indesejada já havia chegado , na verdade, desde novembro. E assim tive contato com ela, através de sua magnitude, dela não pude me livrar. Ela me deixou sem dormir, me deixou sem saber o que sentir, e em troca, deu-me várias horas intermináveis de insônia, repletas de "porques", de "comos".


Inadvertidamente ela continua seu trabalho. Levando as gentes, lavando as almas e contribuindo para o controle demográfico da população. A vantagem que temos, e única diante dela é que nunca a esperamos...ela vem de repente, sorrateira, nos leva algo de dentro de nós, mas, para nossa sorte, sempre podemos encontrar novos tesouros para preencher as nossas almas esburacadas.


Por que é assim? Porque sempre o foi e sempre será, mas tão inevitavel como a morte é a vida, ela nunca cessa de aparecer e é nisto que podemos pensar. A vida, esta inevitável, é o único antídoto de que dispomos diante da morte, esta insensível. Portanto, vivamos, porque, graças a Deus ou a qualquer outra coisa que o valha, não somos avisados sobre a visita da outra. Vivamos.